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sábado, 10 de dezembro de 2022

Exército prendeu Bolsonaro por 15 dias em 1986

Luiz Falcão, Comitê Central do PCR


EDITORIAL – Luis Maklouf Carvalho foi um dos jornalistas mais experientes e premiados do Brasil. Foi editor dos jornais Movimento, Jornal do Brasil, O Estado de São Paulo, Folha de São Paulo e das revistas Piauí e Época¹. Em 2019, após anos de rigorosa investigação jornalística, publicou o livro-reportagem O Cadete e o Capitão. No livro, Carvalho faz um relato da carreira militar do capitão Jair Bolsonaro e mostra detalhes da sua prisão pelo Exército brasileiro por 15 dias e o julgamento realizado pelo Superior Tribunal Militar (STM) sobre a operação Beco Sem Saída, um diabólico plano para colocar bombas em quartéis do Exército.  

Não se sabe se por vergonha ou por considerar que a revelação dessa prisão poria fim à narrativa do “mito”, o fato é que Bolsonaro nunca fala que foi preso 15 dias pelo Exército por cometer transgressão grave e infringir vários artigos do Regulamento Disciplinar. Vamos aos fatos.

A edição nº 939 da revista Veja chegou às bancas no primeiro dia de setembro de 1986, destacando a cobertura da eleição da Assembleia Constituinte de 1986 e a disputa entre Paulo Maluf e Antônio Ermírio de Morais para o Governo de São Paulo. Na última página, a revista trazia um artigo do capitão de artilharia do 8º GAC Jair Bolsonaro, com o título “O salário está baixo”. Nele o capitão escreveu que “a tropa vive uma situação crítica no que se refere a vencimentos”.

Aparentemente, o artigo tinha o objetivo de chamar a atenção para a situação salarial dos oficiais do Exército. Entretanto, os salários estavam baixo há anos e o artigo só foi publicado um ano após o fim da ditadura militar. Com efeito, após 21 anos de fascismo, o Brasil vivia a redemocratização e tinha acabado de eleger os deputados para a Assembleia Nacional Constituinte. O presidente era José Sarney, que assumiu o governo após a trágica morte de Tancredo Neves. Havia muita tensão e grande desconfiança se a totalidade dos generais iriam respeitar a vontade do povo de eleger diretamente o presidente da República e a nova Constituição democrática.  Afinal, o setor fascista das Forças Armadas continuava conspirando e sonhava com a volta do general Figueredo ou com um golpe militar encabeçado pelo general Newton Cruz, ex-chefe do Serviço Nacional de Informações (SNI), órgão responsável por perseguir e investigar os opositores do regime militar. O artigo do capitão Bolsonaro, portanto, contribuía para desestabilizar o governo de Sarney e, em particular, o ministro do Exército general Leônidas Pires Gonçalves.

A prisão de Bolsonaro pelo Exército

A resposta ao artigo do comandante do Exército general Leônidas Pires Gonçalves foi imediata: o “artigo era um ato de indisciplina inadmissível”. A punição ao capitão também não demorou para sair: o boletim do Exército nº 163, de 3 de setembro de 1986, considerava que o capitão Jair Bolsonaro tinha cometido “transgressão grave” e infringido seis artigos do Regulamento Disciplinar do Exército (RDE), determinando: “FICA PRESO POR 15 DIAS”. 

Pois bem. Ano depois dessa prisão, o general Newton Cruz foi testemunha de defesa de Bolsonaro na Comissão de Sindicância aberta pelo Exército para identificar os responsáveis por um plano terrorista de colocar bombas em quartéis. À comissão, o general desmentiu nota publicada no Jornal do Brasil de que Bolsonaro tinha agido sob sua orientação, mas confirmou ter tido três encontros com o capitão no Rio de Janeiro e um em Brasília. 

Hoje, na propaganda eleitoral na TV, Bolsonaro aparece ao lado de crianças de cinco e quatro anos dizendo que é preciso ter “disciplina até para ter uma boa educação”, mas esconde que ele próprio, um adulto de 31 anos à época, cometeu, segundo o Exército, “transgressão grave com premeditação” e agiu para “prejudicar a disciplina e a boa ordem do serviço”.

O plano terrorista Beco Sem Saída 

O ato de deslealde ao Exército cometido pelo capitão Bolsonaro não foi o único na sua curta carreira militar. Algo mais grave estava sendo preparado e tudo indica sob o comando dele. 

A revista Veja nº 999, com data de capa de 28 de outubro 1987, trouxe matéria com uma grave denúncia: “Pôr bomba nos quartéis, um plano na EsAO”. A reportagem, que causa grande apreensão no país, traz o contundente depoimento da repórter Cassia Maria, no qual relata os detalhes da reunião com o capitão Bolsonaro e com Lígia, esposa de outro capitão que se identificou apenas como “Xerife”. A reunião ocorreu no apartamento da Vila Militar 101, do prédio nº 865 da Av. Duque de Caxias. Eis o relato da jornalista:

“Fui levada para um dos quartos, por Lígia, para que não visse o oficial que acabava de chegar. Nos poucos minutos que ficamos ali, Lígia revelou-me alguns detalhes da operação Beco Sem Saída. O plano consistia num protesto à bomba contra o índice de aumento para os militares que o governo anunciaria nos próximos dias. Caso o reajuste ficasse abaixo de 60%, algumas bombas seriam detonadas nos banheiros da EsAO (Escola de Aperfeiçoamento de Oficiais), com a preocupação de que não houvesse feridos. Simultaneamente, haveria explosões na Academia Militar de Agulhas Negras e em outras unidades do Exército. ‘Não haverá perigo’, garantiu Lígia. “Serão apenas explosões pequenas, para assustar o ministro [do Exército, general Leônidas Pires Gonçalves]. Só o suficiente para o presidente José Sarney entender que o Leônidas não exerce nenhum controle sobre sua tropa.”

O relato da repórter prossegue: 

“Sem o menor constrangimento, o capitão Bolsonaro deu uma detalhada explicação sobre como construir uma bomba-relógio. O explosivo seria trinitrotolueno, o TNT, a popular dinamite. O plano dos oficias foi feito para que não houvesse vítimas. A intenção era demonstrar a insatisfação com os salários e criar problemas para o ministro Leônidas. De acordo com Bolsonaro, se algum dia o ministro do Exército resolvesse articular um novo golpe militar, ‘ele é que acabaria golpeado por sua própria tropa, que se recusaria a obedecê-lo’. ‘Nosso exército é uma vergonha nacional, e o ministro está se saindo como um segundo Pinochet’, afirmou Bolsonaro a repórter.

Diante da repercussão do diabólico plano de explodir bombas de dinamite nos quartéis e que colocava em risco a vida de soldados e de todos que desconhecessem os locais das bombas e a que horas elas explodiriam, o Exército abriu uma sindicância. O principal acusado era o capitão Jair Bolsonaro, que foi ouvido quatro vezes pela comissão militar. Em seus depoimentos, o capitão confirmou que teve quatro encontros com a jornalista, mas negou ter dado a entrevista e que os croquis (esboços do plano terrorista) publicados pela revista fossem de sua autoria.

Bolsonaro ameaça repórter que o denunciou

Em 7 de dezembro de 1987, a sindicância aberta encaminhou o resultado ao general e ministro do Exército Leônidas Pires Gonçalves. Diante do que leu, o ministro não teve dúvida de nomear um Conselho de Justificação para decidir se o capitão Bolsonaro estava ou não capacitado para permanecer na ativa. 

Em 29 de dezembro de 1987, o Jornal do Brasil publicou outra matéria explosiva envolvendo o capitão Bolsonaro: “Repórter depõe no Exército e recebe ameaças”. A repórter ameaçada era Cassia Maria Vieira Rodrigues. Segundo o Jornal do Brasil, Cassia Maria estava na antessala do coronel Bechara Couto, da EsAO, aguardando para prestar seu depoimento, “quando o capitão Bolsonaro, de outra sala, através de um vidro, fez um gesto com a mão imitando um revólver, como se estivesse disparando contra a jornalista. Ela, então, lhe perguntou, se era uma ameaça de morte. O capitão respondeu que não, mas que “ela poderia se dar mal se continuasse com essa história”. 

Na edição de 6 de janeiro de 1988, Veja também publicou a ameaça sofrida pela jornalista com o título “Ato de força – Capitão ameaça repórter que o denunciou”, e informou que a repórter estava sob proteção de uma escolta de militares à paisana. 

Como se vê, intimidar e ameaçar mulheres, em particular, mulheres jornalistas, não é algo novo na maneira de agir do atual presidente da República. 

Bolsonaro mentiu, afirmou Conselho do Exército 

O Conselho de Justificação instituído pelo ministro do Exército e formado pelo coronel de cavalaria Marcus Bechara Couto, o tenente-coronel da infantaria Nilton Correa Lampert e o também tenente-coronel da infantaria Carlos José do Couto Barros, no dia 25 de janeiro de 1988, decidiu por unanimidade considerar o capitão Jair Bolsonaro culpado das acusações, isto é, que ele era o responsável pelos esboços do plano de explodir bombas de dinamite nos quartéis. Vejamos a conclusão do Conselho do Exército: 

“Este Conselho não tem dúvidas em afirmar que o Justificante [Bolsonaro] era informante da repórter Cassia Maria pelo menos desde o mês de outubro de 1987.”

Os laudos expedidos pelo 1º BPE e pela Policia Federal “atestam não restar dúvidas ao ser afirmado que os manuscritos contidos nesta folha original [os croquis] promanaram do punho gráfico do capitão Jair Messias Bolsonaro”. 

“O resultado do laudo pericial evidencia ter sido o Justificante o autor dos croquis publicados na edição 1000 da revista Veja², e, por isso, ter mentido ao longo de todo o processo, o que permite que seja firmada a convicção, por este Conselho, que a versão apresentada pela repórter Cassia Maria, pela coerência  e testemunhos apresentados, seja a mais aproximada da realidade, o que confirma a ocorrência da reunião, no dia 21 de outubro, na residência do capitão Fábio, e, por consequência, os fatos geradores da reportagem, conforme foram apresentados.”

A decisão do Conselho baseada em prova testemunhal e também em laudos periciais era bastante clara: Bolsonaro foi o autor dos croquis e do plano de explodir bombas nos quartéis. A decisão do Conselho de Justificação foi encaminhada ao ministro do Exército, que, de acordo com a lei 5.836, deveria encaminhá-la ao Superior Tribunal Militar e assim foi feito.

STM absolve o capitão

Um mês depois da decisão do Conselho Militar, o general Leônidas Pires Gonçalves concedeu entrevista coletiva na sede do Comando Militar do Leste, onde admitiu que errou ao acreditar nos militares que planejaram colocar bombas em quartéis para forçar aumentos de salários. Segundo o Jornal do Brasil, o general declarou: “Honra e verdade. Essa é a base na qual espelhamos todos os critérios para punir esses jovens capitães, que esqueceram uma coisa basilar para nós, que é a verdade”. (Jornal do Brasil, 27 de fevereiro de 1988)

Reunido em sessão secreta no dia 16 de junho de 1988, nove ministros do STM votaram por considerar o capitão Bolsonaro “não culpado” ou “justificado” e quatro ministros o consideram responsável pela operação terrorista Beco Sem Saída.  Embora a jornalista Cassia Maria manteve na íntegra o depoimento dado à revista Veja no STM, ela pouco foi levada em conta, pois, segundo um dos ministros, o general Alzir Benjamin Chaloub, indicado pelo general Figueiredo, “repórter não é flor que se cheire”. Além do mais, o laudo da Polícia Federal que atribuía a autoria dos croquis a Bolsonaro foi considerado pelo tribunal apenas um “indício”.

O julgamento da história 

Na edição de 22 de junho de 1988, nº 1.033, Veja publicou o resultado do julgamento no STM, “Palavra Final – STM absolve capitães de Beco sem Saída”. Na matéria, a revista registra que o Ministério Público foi impedido de falar no julgamento e criticou a advogada de Bolsonaro que, “por má-fé ou delírio”, mentiu no STM ao dizer que a repórter Cassia Maria tinha sido demitida da revista e conclui: “O caso agora faz parte da história”.

Ao revelar estes e muitos outros fatos da prisão de Bolsonaro pelo Exército, seus encontros com o general Newton Cruz e o  envolvimento na operação Beco Sem Saída, o livro O Cadete e o Capitão traz luz sobre o Jair  Bolsonaro, que, hoje na Presidência da República, ataca urnas eletrônicas, convoca manifestações exigindo que as Forças Armadas promovam uma intervenção militar, defende fechar o STF e o Congresso Nacional, mostra não ter nenhum apreço pela vida humana, como ficou claro durante a pandemia de Covid, ofende mulheres jornalistas e ameaça os direitos democráticos conquistados pelos trabalhadores e as trabalhadoras deste país.

Matéria publicada na edição impressa nº 260 do Jornal A Verdade (2ª quinzena de outubro de 2022).


¹ Luis Maklouf Carvalho nasceu em Belém, Pará, em abril de 1953, e faleceu aos 67 anos, em maio de 2020. É autor dos livros Mulheres que foram à luta armada (Globo, 1988); Segredos da Constituinte (Record, 2018); João Santana: um marqueteiro no Poder; Cobras criadas: David Naser e O Cruzeiro (Senac, 2001) e Já vi esse filme: reportagens e polêmicas sobre Lula e o PT (Geração Editorial, 2005).

² A edição 100º da Veja, de 4 de novembro de 1987, publicou os croquis (esboços) do plano Beco Sem Saída.

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