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segunda-feira, 15 de julho de 2024

Osasco: resgatar a história da classe trabalhadora na “cidade trabalho”

A classe trabalhadora de Osasco foi exemplo de resistência à ditadura militar, com a Grande Greve de 16 de Julho de 1968! A ‘Cidade Trabalho’ luta pela Memória da classe trabalhadora, pela Verdade dos fatos e por Justiça dos crimes da ditadura.

Núcleo da UP de Osasco e Região | Osasco


LUTAS E HERÓIS DO POVO – Em 1964, quando os militares deram um golpe, muitos intelectuais e políticos liberais de ‘centro’, autoproclamados ‘democratas’, compraram a desculpa dos golpistas de que a derrubada de João Goulart era uma ‘revolução democrática’ ou no máximo um ‘mal necessário’ para afastar a ‘ameaça comunista’, restaurar a ordem e a democracia e que os militares entregariam o poder na eleição do ano seguinte com o cenário limpo da ‘esquerda maligna’.

Mas era tudo mentira: não só os golpistas não tinham pressa para sair do poder, como as verdadeiras intenções da ditadura militar fascista ficaram muito evidentes ao longo dos anos. Arrocharam os salários e destruíram os direitos da classe trabalhadora enquanto enriqueceram com dinheiro público uma minúscula minoria da classe burguesa, os muito ricos.

Mas nem todo mundo caiu nessa história para boi dormir. Além de sentirem na pele a diminuição do poder de compra dos salários, supressão de direitos e piora nas condições de vida, trabalhadores e trabalhadoras com consciência de classe e organizados, intelectuais e políticos de esquerda sempre souberam que o golpe era contra os interesses do povo, e resistiram a ele desde o começo e de diversas formas.

‘Listas sujas’ da Cobrasma eram enviadas à repressão dos militares. (Foto: Relatório da CAAF/Unifesp com Acervo do DOPS)

A resistência à ditadura em Osasco

Osasco não foi exceção! Aqui a classe trabalhadora foi protagonista da resistência à ditadura. Um evento importantíssimo dessa história foi o primeiro grande ato na vida de luta de vários heróis e heroínas da nossa classe: a Grande Greve de 16 de Julho de 1968!

Naquela manhã, o apito da fábrica Cobrasma tocou fora de hora. Conforme já tinham organizado previamente, todos os braços na fábrica se cruzaram com aquele sinal. A greve tinha começado!

Trabalhadoras e trabalhadores de várias outras empresas rapidamente aderiram à paralisação, como a Fósforos Granada, Lonaflex, Osram, Braseixos, Barreto e outras, exigindo melhores pagamentos e condições de trabalho, direitos trabalhistas e o fim da ditadura dos patrões e milicos.

A mobilização foi geral não só entre o operariado, mas também toda uma rede de apoio e luta que rapidamente se formou com o movimento estudantil, as famílias de quem estava nas fábricas e os sindicatos. Mesmo atuando debaixo de um regime antipopular e autoritário, entendiam que era preciso lutar para defender os interesses da nossa classe.

Mas a Greve Geral não caiu do céu, ela foi o ponto de ebulição de décadas de organização e politização da classe trabalhadora osasquense nos sindicatos, nas escolas, no chão das fábricas, nos comércios e nas igrejas. Gente que sabia que sem luta e consciência de classe nenhuma conquista é dada e nenhum direito é garantido para nós.

Grafite em apoio à Greve. (Foto: Arquivo Nacional/Correio da Manhã)

 

A repressão: ‘Osasco é o Vietnã brasileiro’

Quem comparou Osasco da época ao país asiático que venceu o imperialismo francês, japonês e até o monstruoso aparato industrial militar dos EUA foi o general Geisel, que 6 anos depois também foi um dos ‘presidentes’ da ditadura.

E tanto lá como cá, não faltou violência para deter a luta do povo: no final do mesmo dia, o exército invadiu a Cobrasma, depois o Sindicato dos Metalúrgicos, sedes estudantis e até igrejas para desmontar o movimento, prender lideranças e impor o controle por medo e terror na população.

Obviamente, os patrões industriais colaboraram diretamente com os militares, falsificando histórias, entregando listas de nomes, doando recursos materiais de todo tipo para a repressão. Afinal, eram parceiros e a própria família Vidigal, dona da Cobrasma, encheu os bolsos com todo tipo de relação espúria com o regime militar.

Na verdade, era assim que se estruturava a ditadura, nesse caso e em tantos outros: os militares controlavam o povo com mentiras e violência, censura e repressão, assim garantiam a concentração de riqueza para a burguesia nacional sem empecilhos. Em troca, o oficialato participava de todo tipo de esquema de corrupção com essa mesma burguesia.

‘Nós Lutamos’ é passado e presente

Hoje, Osasco não é mais conhecida por seu parque industrial. Com as políticas neoliberais o país todo foi se desindustrializando ano a ano. Além disso, com a luta da nossa classe, conquistamos o fim da ditadura e a Constituição de 88 com diversos ganhos, como o SUS e a liberdade de organização.

Mas não nos deixemos enganar! Se em julho de 68 Osasco e o Brasil viviam numa Ditadura aberta, hoje vivemos numa Ditadura velada. Conseguimos conquistas na vida real, mas muito da nossa ‘democracia’ só existe no dicionário.

O próprio SUS vive sob ataque e muitos dos direitos previstos na constituição nunca nem mesmo saíram do papel. Se diz que ‘a lei é para todos’, mas os muitos ricos vivem acima da lei enquanto aos pobres o acesso à justiça é negado.

E se as grandes indústrias estão cada vez mais raras é só porque quem nos explora é um grupo cada vez menor, mais poderoso e com mais concentração de capital. Como donos de aplicativos, alguns com sede em Osasco, que usam da tecnologia não para melhorar a vida das pessoas, mas para superexplorar entregadores e motoristas.

A luta de classes continua em Osasco e no mundo! Se a ditadura já acabou, seus filhotes e viúvos continuam aí, de farda e de terno, atuando dia e noite para empobrecer nosso povo e enriquecer alguns poucos. Seu legado permanece nas fortunas que criou e nos crimes que cometeu, intocadas e impunes.

Esse legado nefasto permanece até na tentativa de sequestrar nossa memória coletiva, quando não existe nenhuma rua ou lugar em referência à história da nossa greve, mas se mantém até hoje o nome oficial de ‘31 de março’ para o lugar popularmente conhecido como ‘praça das bandeiras’. Uma homenagem ao dia do golpe feita por um prefeito não-eleito imposto pela ditadura em 66.

Por isso a nossa luta também é pela Memória, para que nos ensine e nos inspire hoje. Pela Verdade dos fatos, contra omissões e mentiras que demonizam tudo que vem do povo. E é uma luta por Justiça dos crimes da ditadura.

Nossa luta é para que a classe trabalhadora governe não só a ‘Cidade Trabalho’, mas o país e o mundo.

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