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sexta-feira, 19 de abril de 2024

Manoel Lisboa de Moura, dirigente da Revolução Brasileira

No dia 04 de setembro, Maria do Carmo Tomáz foi levada a uma câmara de tortura, onde lhe deram a notícia da morte de Manoel e afirmaram: “Um igual àquele vocês não vão encontrar nunca mais”. Enganaram-se. Na luta do povo, no seio do Partido que fundou e dirigiu, diariamente se forjam revolucionários da têmpera de Manoel Lisboa, à luz do seu exemplo, regados pelo seu sangue.

Luiz Alves e Redação


HERÓIS DO POVO BRASILEIRO – Manoel Lisboa de Moura era conhecido por seus companheiros como Galego, Celso, Zé, Mário e outros nomes. Nenhum capricho. Era preciso despistar os agentes da ditadura militar que o perseguiam desde que a ditadura se instalara no país em 1º de abril de 1964.

Por que ele era um dos homens mais temidos pelo regime fascista, que impôs ao povo brasileiro uma longa noite de terror? Deixemos que o jovem herói fale um pouco de sua própria história.

Herói do PCR

“Meu despertar para as questões sociais apareceu quando eu tinha a idade de 17 anos. Iniciei-me nesses estudos à medida que ia vendo os erros cometidos pelas administrações dos governos daquela época. Paralelamente, tive a curiosidade despertada para o marxismo, em virtude do alarde que sempre se fez em torno do socialismo como sendo um perigo. Por outro lado, o avanço das ideias do socialismo no mundo atual é um fato bastante comprovado. Os livros que falam do assunto infestavam todas as livrarias. À medida que ia tomando conhecimento do conteúdo dessas obras, ia relacionando-o com os fatos cotidianos e chegando à conclusão de que nada de perigoso e tremendo ali existia, mas sim uma análise profunda e bem feita dos fatos econômico-sociais. Continuei nos estudos e, aos 19 anos, considerei-me marxista-leninista. Em 1964, fui indiciado por vender livros e revistas em uma pequena livraria. Fui libertado após 15 dias de prisão.” (Depoimento prestado por ocasião de sua segunda prisão, em 12 de agosto de 1965)

A juventude

Manoel Lisboa de Moura nasceu em Maceió, Estado de Alagoas, no dia 21 de fevereiro de 1944, filho de Augusto de Moura Castro, oficial da Marinha, e de Iracilda Lisboa de Moura. Sua formação político-ideológica não se deu apenas por meio de leituras, nem sua prisão ocorreu simplesmente por ele vender livros proibidos. Ainda adolescente, organizou o grêmio do antigo Liceu Alagoano, depois Colégio Estadual. Foi diretor da União dos Estudantes Secundaristas de Alagoas (Uesa) e, aos16 anos, ingressou na Juventude Comunista do PCB. Como universitário, organizou o Centro Popular de Cultura da UNE (CPC) em Maceió, apresentou e dirigiu peças de teatro, envolvendo, inclusive, operários da estiva.

O golpe militar de 1964 o encontrou cursando Medicina na Universidade Federal de Alagoas (Ufal), de onde foi expulso, também cassando-lhe os direitos políticos. Nessa ocasião, pertencia ao Partido Comunista do Brasil (PCdoB), organização criada em 1962 diante da linha reformista adotada pelo velho “Partidão” desde o 20º Congresso do PCUS, fato que provocou a cisão dos militantes.

No início de 1966, resolveu sair do PCdoB por constatar que o partido se diferenciava do PCB apenas na teoria, enquanto na prática seguia o mesmo caminho reformista, além de desprezar o Nordeste e praticar métodos de direção incoerentes, como falta de autocrítica e campanha de desmoralização contra aqueles que questionavam alguma de suas atitudes.

Em maio, Manoel Lisboa, Amaro Luiz de Carvalho, Ricardo Zarattini Filho, Selma Bandeira, Valmir Costa e outros camaradas fundaram o Partido Comunista Revolucionário (PCR).

Lisboa transferiu-se para Recife, onde continuou na luta revolucionária. Trabalhava na Companhia de Eletrificação Rural do Nordeste (Cerne). Em julho de 1966, foi novamente preso, logo após o atentado contra o ditador de plantão, marechal Artur da Costa e Silva, ocorrido no Aeroporto dos Guararapes. A polícia não conseguiu incriminá-lo, pois o inquérito comprovou que ele, no momento do ocorrido, estava trabalhando na Cerne. Posto em liberdade quatro dias depois, concluiu que não era possível continuar levando uma vida legal e dedicar-se à causa revolucionária, optando por entrar na clandestinidade.

Apesar das duras condições da luta clandestina, o PCR procurou ligar-se às massas camponesas, operárias e estudantis. Para isso, desenvolvia trabalho de conscientização na base e intensa campanha de denúncias das arbitrariedades e crimes cometidos contra os trabalhadores, conclamando o povo para organizar-se e lutar por seus direitos. O Partido propunha a utilização de todas as formas de luta, legais e ilegais, abertas ou clandestinas, destacando a luta armada como a única capaz de destruir realmente a ditadura, desde que contasse com o apoio, a compreensão e a simpatia do povo.

A libertação do povo acima de tudo

No dia 16 de agosto de 1973, a repressão conseguiu seu intento. Quando conversava com uma operária, a quem dava assistência política na Praça Ian Flemming, no bairro de Rosarinho, Manoel Lisboa foi agarrado por um bando de fascistas, sob as ordens do agente Luís Miranda e do delegado paulista Sérgio Fleury, algemado, arrastado para um veículo e conduzido para o DOI-Codi do 4º Exército, então situado no Parque 13 de Maio. Fortunata, a operária, presenciou a cena. “Foi uma verdadeira operação de guerra. Quando um homem se aproximou, ele fez menção de pegar a arma, mas foi inútil. De todos os lados da praça surgiam homens. Carros e carros surgiram”.

Manoel Lisboa foi submetido a todo tipo de tortura. Despido, pendurado no pau-de-arara, espancado por todo o corpo, choques elétricos no pênis, nas mãos, nos pés, nas orelhas, queimado com vela. Logo nos primeiros dias, perdeu a sensibilidade dos membros inferiores. Não podia se locomover nem se alimentar.

Manoel sabia tudo da organização. Era seu dirigente máximo, conhecia todos os segredos. Um segundo de vacilação e o PCR estaria completamente aniquilado. Mas ele foi coerente com o que sempre pregara: “Delação é traição, e traição é pior do que a morte. O revolucionário é como um prisioneiro de guerra; só declina o próprio nome. A causa revolucionária, a democracia, a libertação nacional, o socialismo estão acima da própria vida”.

Os militantes Maria do Carmo Tomáz, Zé Nivaldo e Juáres José Gomes viram-no cheio de hematomas e ouviram seus gritos. Outros prisioneiros chegaram a falar com ele, que disse: “Sei que minha hora chegou. Fiz o que pude. A vocês, peço apenas que continuem o trabalho do Partido”.

No dia 04 de setembro, Maria do Carmo Tomáz foi levada a uma câmara de tortura, onde lhe deram a notícia da morte de Manoel e afirmaram: “Um igual àquele vocês não vão encontrar nunca mais”. Enganaram-se. Na luta do povo, no seio do Partido que fundou e dirigiu, diariamente se forjam revolucionários da têmpera de Manoel Lisboa, à luz do seu exemplo, regados pelo seu sangue.

No dia seguinte, os jornais do Recife e os principais jornais do país publicaram nota que dizia: “Durante tiroteio com os órgãos de segurança interna, morreram na manhã de ontem, em Moema, São Paulo, os terroristas Manoel Lisboa de Moura e Emmanuel Bezerra dos Santos, que fizeram parte do atentado ao marechal Costa e Silva, então presidente da República, em visita ao Recife, em 1966”.

A farsa foi facilmente desmontada. Emmanuel Bezerra estava em missão do Partido no exterior. Preso pela Operação Condor, provavelmente na fronteira entre Argentina e Chile, quando regressava ao Brasil, ele foi conduzido ao DOI-Codi de São Paulo, torturado e morto por não abrir as informações de que a repressão precisava para destruir o Partido. Fleury levou Manoel Lisboa para São Paulo apenas para montar a farsa.

A vida mostrou, entretanto, que os verdadeiros terroristas eram Fleury e Miranda, e que, Manoel Lisboa e Emanuel Bezerra são heróis do povo. Manoel já lotou teatros, dá nome a escola, tem um livro depoimentos em sua memória e dois documentários que contam sua vida de lutas.

Sobre ele, assim se expressou seu amigo e camarada Valmir Costa:

“De Manoel, afirmo com emoção: nunca vi uma atitude sua que revelasse desonestidade ou egoísmo. Quantas vezes o presenciei cansado, oferecer sua cama a um companheiro e dormir no chão. Na sua primeira prisão, deu sua camisa a um prisioneiro que tremia de frio. Fazia essas coisas naturalmente, sem alarde, era da sua índole.

Manoel, sozinho, indefeso, desmoralizou os carrascos, superou sua força vital; pelo conjunto de sua vida, demonstrou ser o produto da elaboração histórica, que em sua forja misteriosa elabora, de tempos em tempos, homens que sintetizam as qualidades mais nobres da espécie. A ti, Manoel, a homenagem modesta deste teu amigo que se sente feliz por essa amizade e proclama ao mundo: És um HOMEM DE VERDADE, tua única ambição.” (A Vida e a Luta do Comunista Manoel Lisboa)

Manoel tinha amor à vida. Era feliz, tanto por sua militância, como por sua vida pessoal. Tinha uma companheira, Selma Bandeira, com quem mantinha relação amorosa plena, baseada não apenas em afinidades, mas na militância revolucionária comum. Um amor comunista. Mas a tudo isso ele renunciou, confirmando a tese de Che Guevara, de que “o verdadeiro revolucionário é movido por grandes sentimentos de amor”, um amor maior, pela humanidade, livre das opressões e das injustiças.

Matéria publicada na edição nº 278 do Jornal A Verdade.

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