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sábado, 2 de março de 2024

A memória do 11 de setembro: 50 anos do golpe militar do Chile

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O Dia 11/09 tem grande significado para a luta socialista na América Latina, por representar o dia em que o ditador Augusto Pinochet, em 1973, apoiado pela burguesia e a CIA (serviço de inteligência norte-americana), consolidou um golpe de estado contra o Presidente eleito democraticamente, Salvador Allende.

Lana Borges | Belém


HISTÓRIA – Na noite do dia 10/09 deste ano, em que se completa 50 anos do golpe, cerca de 12.000 mulheres foram às ruas vestidas de preto, com velas na mão, numa vigília de memória pelas vítimas desaparecidas da ditadura, que nunca obtiveram justiça. No dia seguinte, 11/09, os protestos se intensificaram e tomaram caráter violento, sendo duramente reprimidos pela polícia. Estes protestos ocorreram em frente ao Palacio de la Moneda, local simbólico onde morreu Allende, quando o prédio foi bombardeado pelo exército chileno, em 11 de setembro de 1973.

A Via Chilena ao Socialismo 

Para entender o contexto do golpe, devemos retomar o processo que levou um projeto declaradamente socialista ao poder por vias democráticas em 1970, no Chile.

Este país, assim como todos os outros vizinhos da América Latina, tem um passado de exploração colonial, e perpetuação dessa exploração através do imperialismo Norte-Americano. Desta maneira, sua principal atividade econômica consistia na exportação de bens primários como cereais, gado e vinho, além da exploração de Salitre e Cobre (nas chamadas zonas de enclave), os quais eram controlados pelo capital estrangeiro, através das empresas multinacionais como, por exemplo, as Norte-americanas Kennecott e Anaconda.

O Chile sempre se orgulhou de sua estabilidade política e democrática, o pluripartidarismo e revezamento de coalizões no poder fazia deste país um exemplo na América Latina. No fim dos anos 50, via-se um grande controle burguês das instituições governamentais, que se dava pela formação de alianças entre os latifundiários do país e a elite financeira (representados pelos Partidos Liberal, Conservador, Ação Nacional e Democracia Cristã), os quais representavam a maioria das cadeiras do congresso e dominavam a presidência.

Inspirados pela revolução Cubana, os movimentos revolucionários da América Latina ganharam fôlego nos anos 60 e 70. As ideias de melhorias significativas nas condições de vida da classe trabalhadora, através de organizações sindicais e campesinas, e a própria construção do socialismo foram crescendo, e pareciam mais palpáveis diante da experiência bem sucedida da pequena ilha. 

Salvador Allende, que foi candidato a presidente 4 vezes, venceu as eleições no Chile graças a uma coalizão de forças com as organizações de esquerda: Partido Socialista (PS), Partido Comunista (PC), Partido Radical (PR), Partido Social-Democrata (PSD), a Ação Popular Independente (API), o Movimento da Ação Popular Unificado (Mapu) e o Movimento de Izquierda Revolucionária (MIR). Esta coalizão ganhou o nome de Unidade Popular.

Este foi um feito jamais visto anteriormente na história. Levar o projeto socialista por vias “pacíficas”, sem uma insurreição armada, implementando grandes reformas sociais e econômicas, foi o que ficou conhecido como “A Via Chilena ao Socialismo”, uma  estratégia dos partidos que buscavam mudanças estruturais respeitando as tradições democráticas do país. No entanto, essa estratégia também apresentava grandes desafios, já que o congresso ainda era de maioria liberal, representante dos interesses das elites, que tinham interesses totalmente contrários, além da própria contradição em tentar estabelecer um projeto socialista dentro de uma democracia burguesa.

A Unidade Popular tinha como objetivos centrais a garantia de mais direitos democráticos para os trabalhadores, ampliar a participação popular nas decisões através da Assembleia do Povo e integração das forças armadas para garantir a soberania e impedir repressões à população. Ademais, suas medidas econômicas consistiam basicamente na nacionalização dos recursos naturais minerais, do comércio exterior, do sistema financeiro, e das indústrias estratégicas como transporte, energia e comunicações. Além disso, planejavam fazer reformas agrária, urbana, na saúde, na educação,  etc.

Por conta da grande ameaça aos interesses burgueses, os setores reacionários do governo começaram a preparar o golpe, com apoio dos Estados Unidos e das Forças Armadas do país.

O Golpe de Estado 

Desde o momento em que Allende venceu as eleições, o governo norte americano começou a articular o golpe contra ele. O secretário de Estado, Henry Kissinger, juntamente com a CIA, garantiram a troca de informações sigilosas com o Partido Nacional e militares para arquitetar o golpe. Segundo o relatório de Kissinger para Nixon (presidente da época), eles deveriam colocar em prática 5 pontos da guerra encoberta, os quais incluíam debilitar internamente a coalizão da Unidade Popular, fazer contato com militares chilenos, apoiar grupos e partidos opositores e, principalmente, financiar a propaganda anticomunista, para difamar o presidente.

Na realidade, este cenário já vinha se construindo a muito tempo. O exército chileno foi fortemente influenciado pelo exército alemão, pois existiram frequentes missões militares no país até meados de 1910. Esta influência contribuiu para o isolamento do exército, através da criação de uma mentalidade de superioridade intelectual e desprezo pelo parlamento, pelo movimento operário e pelo comunismo.

Ademais, a partir de 1950, houve um processo de cooperação militar entre o Chile e os EUA, em que parte do oficialato chileno foi participar de treinamentos e programas de estágio em escolas militares norte-americanas, onde aprenderam sobre a Doutrina de Segurança Nacional, que basicamente era uma doutrina conservadora, projetada para reprimir movimentos populares, processos revolucionários e qualquer ameaça à ordem burguesa.

Além desse desafio, a Unidade Popular também enfrentava os inimigos internos do governo: a burguesia nacional. Inconformados com a perda de diversos privilégios, essa elite se organizou cada vez mais para boicotar o governo, e tirá-lo do poder. O congresso, que era composto em sua maioria pela oposição, aprovava constantemente medidas que prejudicavam a imagem do presidente. Os empresários e proprietários também provocavam crise de abastecimento com a diminuição da produção industrial e agrícola, e bloqueio das transportadoras, além de organizar saques e atentados, com objetivo de transformar o país no verdadeiro caos.

Apesar disso, Allende contava com expressivo apoio popular. Mesmo com o terror psicológico e manipulação feitas pela extrema direita, a maioria do povo continuava apoiando o presidente eleito. Além disso, ele contava com o setor legalista do exército, dentre eles o General Schneider, que foi assassinado em uma conspiração do Partido Nacional, a CIA e os setores reacionários do exército, e o General Pratts, que conseguiu impedir um golpe em junho de 1973.

Porém, o congresso aprovou a Lei do Controle de Armas e uma resolução que declarava o governo de Allende ilegítimo. Por fim, o presidente cometeu o erro de acreditar que Augusto Pinochet era um general legalista e confiável, e nomeou-o comandante chefe do exército, sem saber que ele, na verdade, estava articulado com os Estados Unidos e a burguesia para o golpe final.

No dia 11 de setembro de 1973, dia em que estava marcado um plebiscito para decidir se seu governo deveria continuar, o exército bombardeou o palácio da moeda, onde Allende resistiu até o último minuto com seu fuzil, que fora dado de presente pelo presidente revolucionário Fidel Castro. Os trabalhadores foram igualmente massacrados: colocaram barricadas em universidades e fábricas, mas não tiveram chance contra o exército burguês.

Durante 17 anos, o povo chileno viveu o verdadeiro terror de estado. Foram realizadas perseguições a toda e qualquer pessoa suspeita de ser comunista, os quais eram presos, torturados e mortos, fazendo mais de 1000 vítimas que, mesmo após a derrubada da ditadura, não obtiveram justiça pelos crimes cometidos pelos militares durante estes anos.

A Luta Continua  

O Chile teve uma grande história de luta e resistência popular. Protagonizaram um processo de construção socialista diferenciado por terem elegido um presidente declaradamente Marxista e terem o apoiado até o fim. Apesar deste grande feito, é preciso reconhecer os desafios deste processo, que pode ensinar grandes lições para os partidos socialistas do mundo inteiro.

Dentre elas, nota-se que não existe diálogo com a burguesia, e que a possibilidade da construção do socialismo pelas vias legais são quase nulas, uma vez que vivemos numa democracia burguesa que permite a articulação dos contra-revolucionários para impedir transformações sociais estruturais profundas, que são necessárias para a superação do capitalismo.

Além disso, em períodos de crise e de ameaça ao sistema, quando se percebe maiores movimentações e organização rumo a revolta popular, os grandes capitalistas sempre usam da força e de todo seu poder para reprimir e impedir estas transformações, mesmo que isso signifique torturar e matar milhares de pessoas.

Apesar disso, é preciso se inspirar na coragem do povo chileno e de Salvador Allende, se organizar e continuar lutando de cabeça erguida, sabendo que a vitória final do povo trabalhador é inevitável, e que o opressor age com tamanha violência exatamente por saber disso também. Logo, seguimos lutando, resistindo e avançando rumo ao socialismo.

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