UM JORNAL DOS TRABALHADORES NA LUTA PELO SOCIALISMO

segunda-feira, 27 de maio de 2024

Anatália de Souza Melo Alves deixou legado de luta pela vida das mulheres

Assassinada pela ditadura militar de 64, Anatália deixou um legado de luta contra o regime fascista e burguês que explora, tortura e mata as mulheres do nosso país.

Amanda Louise* | Natal (RN)


MULHERES – Anatália de Souza Melo Alves, costureira, nascida em Frutuoso Gomes (RN), morou grande parte da sua vida em Mossoró (RN) e precisou mudar-se para Recife (PE), juntamente ao seu marido, após o decreto do Ato Institucional nº5 (AI-5) em 1968 e o aumento da repressão. Atuou prestando atendimento de enfermagem aos trabalhadores e militantes, além de alfabetizar trabalhadores rurais no método Paulo Freire.

Em 17 de dezembro de 1972, Anatália foi sequestrada por agentes do Destacamento de Operações de Informações – Centro de Operações de Defesa Interna (DOI-CODI), em Recife. No entanto, sua prisão só foi registrada após 26 dias de seu sequestro, em 13 de janeiro de 1973. Durante o tempo em que ficou presa, ela sofreu diversos tipos de torturas, espancamentos e violência sexual, e teve como uma das suas testemunhas, Isolda Maria Carneiro de Melo, com quem dividia cela e que, assim como Anatália, passou por todo tipo de tortura.

Durante a ditadura, a polícia violentou mulheres das formas mais brutais possíveis. Em uma sessão pública da Comissão Estadual da Memória e Verdade de Pernambuco, o marido de Anatália, Luís Alves Neto, relatou algumas das torturas que ela sofreu quando foi presa pelo DOI-CODI:

(…) submetem ela a uma tortura violentíssima e três ou quatro agentes da polícia torturando ela, eu numa grade, mas ouvia os gemidos dela, ela sendo torturada, clamando por mim, eu numa grade preso só fazia protestar, “Bandidos, canalhas”. Então quando chega num momento que ela gritando muito e me chamando, vem um companheiro depois, disse que ela estava sendo estuprada por cinco homens, cinco policiais. Miranda e mais outros.

As torturas seguiram covardemente por mais de 30 dias, até a sua morte, em 22 de janeiro de 1973, quando o Departamento de Ordem Política e Social (DOPS), forjando o laudo de sua morte, comunicou que Anatália teria se suicidado nas dependências do DOPS, enforcando-se com a alça de sua bolsa. No entanto, segundo o laudo do Instituto de Polícia Técnica (IPT) de Pernambuco, Anatália foi encontrada deitada numa cama de campanha, contrariando a versão de que teria morrido no banheiro. A análise pericial constatou que sua morte teria sido causada por asfixia por enforcamento, porém durante a análise das fotos, foi notado que seus órgão genitais foram queimados, o que indicou a violência presente no caso.

Essa versão falaciosa da sua morte, cheia de falhas e lacunas, perdurou por mais de 42 anos, gerando indignação de familiares, companheiros e testemunhas das suas torturas na prisão. Depois de muitas mobilizações, a retificação do laudo de sua morte foi conquistada e a real história de seu assassinato divulgada. A jovem Anatália foi brutalmente assassinada aos 27 anos, sepultada sem que a família tomasse conhecimento e sem que lhes fosse entregue a certidão de óbito.

Na história, existiram muitas mulheres como Anatália, que foram submetidas a violências e que lutaram até o fim das suas vidas pela libertação. Ainda hoje, essas histórias infelizmente seguem se repetindo, pois somos nós as principais vítimas de opressão nesse sistema que massacra mulheres. O Brasil é o 5º país que mais mata mulheres e, só no ano de 2022, foram mais de 18 milhões sofrendo violência, os quais a maioria são mães.

São as mulheres negras e periféricas que estão tendo seus filhos assassinados e torturados pela polícia. São as mulheres trans que estão sofrendo exploração sexual. São as mulheres indígenas que estão sendo sequestradas enquanto crianças e escravizadas por garimpeiros. São muitas de nós, portanto só nos resta a luta.

Anatália deixa para as mulheres de todo o Rio Grande do Norte um legado de muita luta pelo fim da violência e pela libertação das mulheres do sistema capitalista. Não somos apenas as principais vítimas, mas somos também semente de todas que já se foram. Somos nós que estamos na linha de frente das lutas, liderando greves, mobilizações, atos, enfrentando a repressão policial, lutando por comida no prato, por moradia, por emancipação e por uma vida digna.

Viva a luta organizada das mulheres! Anatália de Souza presente!

*Coordenação Estadual do Movimento de Mulheres Olga Benario

Outros Artigos

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui

Matérias recentes