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terça-feira, 23 de abril de 2024

Por que devemos estudar a filosofia marxista?

Georges Politzer*


O materialismo está intimamente ligado a uma filosofia e a um método: os do materialismo dialético. É, pois, indispensável estudar essa filosofia e esse método para compreender o marxismo e refutar os argumentos das teorias burguesas, assim como para empreender uma luta política eficaz.

Com efeito, Lênin disse: “Sem teoria revolucionária, não há movimento revolucionário”. Isto quer dizer, antes do mais, que é preciso juntar a teoria à prática. O que é a prática? É o ato de realizar. Por exemplo, a indústria realiza (isto é: torna reais) certas teorias (teorias químicas, físicas ou biológicas). O que é a teoria? É o conhecimento das coisas que queremos realizar.

É preciso que haja ligação entre a teoria e a prática. A questão é saber quais devem ser essa teoria e a sua ligação com a prática. Pensamos que é necessário ao militante operário um método de análise e de raciocínio justo para poder realizar uma ação revolucionária justa; que lhe é preciso um método que não seja um dogma, dando-lhe soluções acabadas, mas um método que tenha em conta fatos e circunstâncias que nunca são os mesmos, um método que nunca separe a teoria da prática, o raciocínio da vida.

Ora, esse método está contido na filosofia do materialismo dialético, base do marxismo, que nos propomos explicar.

O estudo da filosofia é uma coisa difícil?

Pensa-se, geralmente, que o estudo da filosofia é, para os operários, uma coisa cheia de dificuldades, necessitando conhecimentos especiais. É preciso confessar que a maneira como estão redigidos os manuais burgueses tem a intenção de os levar a pensar desse modo, e não pode senão aborrecê-los. Não pensamos negar as dificuldades que o estudo, em geral, comporta, e o da filosofia, em particular. Mas estas dificuldades são perfeitamente superáveis e ocorrem, sobretudo, pelo fato de se tratar de coisas novas para muitos dos nossos leitores.

Vulgarmente, entende-se por filósofo ou aquele que vive nas nuvens, ou o que toma as coisas pelo lado bom, aquele que nada faz. Ora, muito ao contrário, o filósofo é aquele que quer dar respostas precisas a certas perguntas e, se se considerar que a filosofia quer dar uma explicação aos problemas do universo (de onde vem o mundo? para onde vamos? etc.), vê-se, por conseguinte, que o filósofo se ocupa de muitas coisas, e, ao contrário do que dizem, trabalha muito.

Diremos, portanto, para definir a filosofia, que ela quer explicar o universo, a natureza, que é o estudo dos problemas mais gerais. Os problemas mais específicos são estudados pelas ciências. A filosofia é, pois, um prolongamento das ciências, no sentido em que se apoia nas ciências e delas depende.

 

O que é a filosofia materialista?

A filosofia marxista utiliza um método que se chama de materialismo.  É comum entender-se por materialista aquele que só pensa em gozar dos prazeres materiais. Jogando com a palavra materialismo – que contém a palavra matéria –, chegou a dar a essa palavra um sentido completamente falso.

Vamos, estudando o materialismo – no sentido científico da palavra –, restituir-lhe o seu verdadeiro significado. Ser materialista não impede a pessoa de ter um ideal e de lutar para que triunfe.

Os primeiros homens procuraram, na verdade, explicar a natureza, o mundo, mas não o conseguiram. O que permite, com efeito, explicar o mundo e os fenômenos que nos rodeiam são as ciências. Ora, as descobertas que permitiram às ciências progredir são muito recentes.

A ignorância dos primeiros homens era, pois, um obstáculo às suas investigações. Por isso é que, no decurso da História, por causa desta ignorância, vemos surgir as religiões, que querem explicar o mundo por forças sobrenaturais. É esta uma explicação anticientífica. Aos poucos, no decurso dos séculos, a ciência vai se desenvolver, os homens vão tentar explicar o mundo através de fatos materiais, a partir de experiências científicas, e é daí, desta vontade de explicar as coisas pelas ciências, que nasce a filosofia materialista.

O materialismo não é mais do que a explicação científica do universo. Estudando a história da filosofia materialista, veremos quanto foi áspera e difícil a luta contra a ignorância. É preciso, aliás, constatar que, mesmo nos nossos dias, esta luta não terminou ainda, uma vez que o materialismo e a ignorância continuam a subsistir juntos, lado a lado.

É no coração desta luta que Marx e Engels intervieram. Compreendendo a importância das grandes descobertas do século 19, permitiram à filosofia materialista fazer enormes progressos na explicação científica do universo. Foi assim que nasceu o materialismo dialético.

Marx e Engels compreenderam que as leis que regem o mundo permitem também explicar a evolução das sociedades. Formularam, assim, a célebre teoria do materialismo histórico.

 

Quais são as relações entre o materialismo e o marxismo?

Podemos resumi-las da seguinte maneira:

  1. A filosofia do materialismo constitui a base do marxismo.
  2. Esta filosofia materialista, que quer dar uma explicação científica aos problemas do mundo, progride, no decurso da História, ao mesmo tempo que as ciências. Por consequência, o marxismo tem origem nas ciências, apoia-se nelas e evolui com elas.
  3. Antes de Marx e Engels, houve, em várias etapas e sob formas diferentes, filosofias materialistas. Mas os dois renovaram esse materialismo antigo a partir das ciências modernas, criando o que chamamos de materialismo dialético e que constitui a base do marxismo-leninismo.

A filosofia materialista, ao contrário do que dizem, tem uma história. Esta está intimamente ligada à das ciências. O marxismo é uma teoria viva e, para mostrar imediatamente de que maneira considera os problemas, vamos tomar um exemplo que toda a gente conhece: o problema da luta de classes.

O que pensam as pessoas sobre tal assunto? Uns, que se trata da defesa do pão isenta da luta política. Outros, que basta lutar na rua, negando a necessidade de organização. Outros, ainda, pretendem que só a luta política trará uma solução a este problema.

Já para o marxismo, a luta de classes compreende: a) uma luta econômica, b) uma luta política e c) uma luta ideológica. O problema deve, pois, ser posto, simultaneamente, nestes três campos.

Dito de outra forma, para o marxismo, não se pode lutar pelo pão sem lutar pela paz, sem defender a liberdade e todas as ideias que servem à luta por tais objetivos. O mesmo acontece na luta política, que, depois de Marx, tornou-se uma verdadeira ciência: é preciso ter em conta, ao mesmo tempo, a situação econômica e as correntes ideológicas para conduzir essa luta. Quanto à luta ideológica, que se manifesta pela propaganda, deve ter-se em consideração, para que seja eficaz, a situação econômica e política.

Vemos, pois, que todos estes problemas estão intimamente ligados e, assim, que não é possível decidir face a qualquer aspecto deste grande problema que é a luta de classes – numa greve, por exemplo – sem tomar em consideração cada dado do problema e o conjunto do próprio problema. Logo, aquele que for capaz de lutar em todos os campos dará ao movimento a melhor direção.

É assim que um marxista compreende o problema da luta de classes. Ora, na luta ideológica que devemos conduzir todos os dias, encontramo-nos perante problemas difíceis de resolver: imortalidade da alma, existência de Deus, origens do mundo, etc. É o materialismo dialético que nos dará um método de raciocínio, que nos permitirá resolver todos estes assuntos e, de igual modo, descobrir todas as campanhas de falsificação do marxismo, que pretendem completá-lo e renová-lo.

 

As mentiras da burguesia contra o marxismo

Estas tentativas de falsificação apoiam-se em bases muito variadas. O que interessa aqui, sobretudo, é a campanha de silêncio que a burguesia faz contra o marxismo. Os capitalistas têm feito de tudo para impedir que seja conhecida a filosofia materialista sob a sua forma marxista.

Nas escolas ensina-se a filosofia, mas pode acompanhar-se todo esse ensino sem jamais aprender que existe uma filosofia elaborada por Marx e Engels. Quando, nos manuais de filosofia, fala-se de materialismo (porque é conveniente falar nisso), o marxismo e o materialismo são sempre abordados em separado. Apresenta-se o marxismo, em geral, unicamente como uma doutrina política, e, quando se fala do materialismo histórico, não se fala a este respeito da filosofia do materialismo; enfim, ignora-se tudo do materialismo dialético.

Esta situação não existe somente nas escolas. É exatamente a mesma nas universidades. O fato mais característico disso é que se pode ser um “especialista” da filosofia, munido dos diplomas mais distintos que as universidades passam, sem saber que o marxismo tem uma filosofia, que é o materialismo, e sem saber que o materialismo tradicional tem uma forma moderna, que é o marxismo ou materialismo dialético.

Apesar desta campanha de silêncio, apesar de todas as falsificações e precauções tomadas pelas classes dirigentes, o marxismo e a sua filosofia começam a ser cada vez mais conhecidos.

Extraído do livro “Princípios Elementares de Filosofia” de Georges Politzer

Matéria publicada na edição nº 282 do Jornal A Verdade

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