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sábado, 18 de maio de 2024

Cartunista Ziraldo, que desafiou a Ditadura Militar, morre no RJ

Neste sábado (06), faleceu, aos 91 anos, o jornalista e cartunista Ziraldo. Conhecido como autor de grandes obras infanto-juvenis, Ziraldo também atuou ativamente na resistência à Ditadura Militar a partir do semanário O Pasquim.

Igor Marques | Redação RJ


CULTURA – Neste sábado (06), faleceu, aos 91 anos, o jornalista e cartunista Ziraldo. Vítima de um AVC em 2018, Ziraldo sofria com grandes complicações desde então, tendo vivido acamado nestes últimos 6 anos. Segundo a família, a causa da morte foi falência múltipla dos órgãos.

Conhecido, principalmente, por ter sido autor de grandes obras da literatura infanto-juvenil, como O Menino Maluquinho, Ziraldo deixa, com toda a sua extensa obra, grande legado para a cultura popular brasileira.

Ziraldo também atuou em diversos veículos de imprensa de grande circulação no país. Como jornalista, assinou colunas em importantes veículos como O Cruzeiro e Jornal do Brasil, publicando charges e cartuns de crítica política.

Desde o início do regime militar, quando, ainda em 1964, teve sua revista em quadrinhos A Turma do Pererê, cancelada, Ziraldo foi alvo de censura e perseguição por parte da ditadura.

A perseguição a artistas e jornalistas era comum no regime militar. Além da censura e de intimidações, diversos jornalistas foram presos, torturados e assassinados, como foi o caso de Vladimir Herzog. Após o AI-5 e a criação do semanário O Pasquim, um dos principais veículos críticos à ditadura, Ziraldo também sofreu com a repressão do regime militar fascista. O autor foi preso pelo regime em 3 ocasiões e só viria a ser anistiado no ano de 2008.

O Pasquim: um veículo de denúncia da Ditadura

Fundado em 1969 por grandes jornalistas e cartunistas da época, como Tarso de Castro, Henfil, Jaguar, Paulo Francis, Sérgio Cabral e Millôr Fernandes – além do próprio Ziraldo, O Pasquim se tornou rapidamente um dos principais veículos críticos à Ditadura Militar fascista.

Tendo sido criado em um período posterior ao AI-5 e em que a censura do regime atuava fortemente, o periódico utilizava do humor e da ironia para burlar a censura e conseguir publicar as suas críticas a diversos aspectos do regime militar, desde a repressão até sua política econômica. Em seus principais anos, o veículo chegou a ter tiragem semanal superior a 200 mil exemplares, vendendo mais que veículos da imprensa tradicional como a revista Veja.

Cartum de Ziraldo para O Pasquim. Foto: Arquivo.

A grande repercussão popular do jornal trouxe grande incômodo aos militares. No ano de 1970, Ziraldo e outros nomes da redação d’O Pasquim foram presos por mais de 3 meses. Foi por colocar sua arte ao lado dos direitos do povo e defender a democracia que Ziraldo foi perseguido em diversas ocasiões pela Ditadura Militar. A prisão de seus principais autores, porém, não era o suficiente para acabar com O Pasquim, que continuou circulando mesmo com grande parte de sua redação presa. A repressão do regime chegou ao ponto de realizar atentados à bomba aos pontos de venda do semanário, buscando diminuir e impedir a sua circulação entre a população.

O veículo, no entanto, sobreviveu a todos os ataques e se tornou um espaço fecundo para a oposição ao regime escrever e publicar suas obras e críticas, tendo contado, inclusive, com participações de artistas como Caetano Veloso e Gilberto Gil, que escreviam para o semanário a partir do exílio, e de pessoas como o cineasta Glauber Rocha e o escritor Rubem Fonseca.

O Pasquim também atuou ativamente no processo de abertura política do país e foi extinto apenas no ano de 1991, 6 anos após o fim da Ditadura Militar, sem ter sofrido com longos períodos sem publicação, mesmo com os desafios impostos pelo regime militar.

Charge de Reinaldo Figueiredo na edição 771 de 05/04/1984 d’ O Pasquim tratando sobre a campanha das Diretas Já. Foto: Arquivo.

Um legado para a cultura popular

Com uma obra que impactou diferentes gerações, a produção de Ziraldo gera repercussão até os dias de hoje, sendo um dos principais autores na história do mercado editorial brasileiro. Foi a partir de suas produções infantis que diversas crianças – como eu – tiveram seus primeiros contatos com a leitura.

Tratando de temas fundamentais da cultura popular, como o futebol e o folclore brasileiro, suas obras também se tornaram parte integrante da cultura popular brasileira. Atualmente, na cidade do Rio de Janeiro, está em cartaz no Centro Cultural do Banco do Brasil (CCBB) a exposição Mundo Zira – Ziraldo Interativo, que permite um importante contato com a obra do autor. A exposição, que já havia passado pela cidade de Brasília e atraído mais de 65 mil pessoas, seguirá em cartaz até o dia 13 de maio.

Sua vida e sua obra já renderam homenagens em diversos meios, tendo sido, por exemplo, tema de samba-enredo em duas ocasiões. Em 2003, a escola de samba paulista Nenê de Vila Matilde o homenageou com o samba-enredo “É Melhor ler… O Mundo Colorido de um Maluco Genial” e, em 2012, a escola de samba Tradição desfilou com “Ziraldo: Páginas da Vida de um Maluco Genial!”. 

O Jornal A Verdade lamenta sua morte, deixa seu pesar a familiares e amigos e presta homenagem a esse ícone da cultura e da história brasileira.

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