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sexta-feira, 13 de março de 2026

Desigualdade salarial entre homens e mulheres é marca do capitalismo

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Enquanto mulheres negras recebem menos da metade do salário de homens brancos, o capitalismo impulsiona a pobreza e a exclusão social.

Ludmila Outtes e Raquel Brito


EDITORIAL – A desigualdade salarial entre homens e mulheres é uma das características do sistema capitalista em todo o mundo, mesmo que tenham o mesmo grau de escolaridade e exerçam a mesma função. Segundo o IBGE, as mulheres brasileiras ganham, em média, 25% menos que os homens. Essa diferença duplica quando acumulada com a questão racial: as mulheres negras recebem 53% menos que homens brancos.

Essa desigualdade salarial segue impulsionando a pobreza e a exclusão social das mulheres em nossa sociedade. Mas, de onde ela vem?

Antes de tudo, precisamos entender de onde vem o salário. Segundo os capitalistas, o salário é o pagamento correspondente ao trabalho realizado. Mentira. A ciência marxista nos ensina que o salário nada mais é do que o custo mínimo necessário para a reprodução da força de trabalho, ou seja, o mínimo necessário a ser pago para que a classe trabalhadora sobreviva e retorne à produção, dia após dia.

No início da industrialização, o salário era calculado levando em conta que parte da reprodução da força de trabalho envolvia a manutenção da casa para uma família, já que as mulheres não estavam na produção, mas eram responsáveis pelo trabalho invisível e não pago: cuidar da casa, cozinhar, cuidar dos filhos. E tudo isso é essencial para a reprodução da força de trabalho.

Porém, também o marxismo nos ensina que o valor pago como salário aos trabalhadores é apenas uma pequena parte do valor total produzido em mercadorias. A diferença entre o que é produzido e o que é pago aos operários fica com os patrões e constitui a base da mais-valia, do lucro.

Assim, na ganância de obter cada vez mais lucros e reduzir os custos da produção, ao longo dos anos sempre houve artimanhas e movimentações da burguesia para reduzir o valor pago aos trabalhadores. Desta forma, o salário há muito deixou de ser o valor necessário para a manutenção da família e a consequente reprodução da força de trabalho. Esse foi um dos motivos da entrada das mulheres na produção.

A mulher no mercado de trabalho

No Congresso Internacional dos Trabalhadores, em 1889, realizado em Paris, a comunista Clara Zetkin declarou: “As mulheres ingressaram na indústria com o desejo de aumentar a renda de suas famílias”. E completou: “O trabalho das mulheres era, a princípio, mais barato do que o dos homens. O salário de um homem foi originalmente calculado para cobrir as despesas de toda a sua família. O salário de uma mulher, desde o início, foi projetado para cobrir apenas os custos de sustentar uma única pessoa e apenas parcialmente, pois se supunha que uma mulher continuaria a trabalhar em casa após terminar suas tarefas na fábrica”.

Assim, o que deveria ser a representação da libertação das mulheres e motivo de desenvolvimento de toda a humanidade, com maior geração de riqueza, possibilidade de diminuição das horas trabalhadas por todos, além da libertação econômica e política delas, virou apenas mais uma face da exploração. Na verdade, o trabalho da mulher serviu para aumentar os lucros dos capitalistas e não representou a sua libertação econômica. Como disse a revolucionária Zetkin, “a escravizada do marido tornou-se escravizada do empregador”. 

Além disso, o salário menor da mulher, na ótica capitalista, pressiona o mercado para baixo, rebaixando o salário médio em geral, o que é uma tentativa de dividir a classe trabalhadora. “Os capitalistas especulam sobre os seguintes fatores: a trabalhadora deve ser paga o mínimo possível e a competição do trabalho feminino deve ser empregada para reduzir os salários dos trabalhadores masculinos o máximo possível. Da mesma forma, os capitalistas usam o trabalho infantil para rebaixar os salários das mulheres e o trabalho das máquinas para rebaixar todo o trabalho humano” (Clara Zetkin, 1889).

Vale lembrar que hoje mais de um milhão e meio de crianças e adolescentes estão trabalhando e metade destes nas formas mais perversas de trabalho infantil, como a exploração sexual e o aliciamento para o tráfico de drogas e de pessoas.

200 anos depois

Mesmo passados 200 anos do início da industrialização mundial e do ingresso das mulheres no mercado formal da produção, a situação está longe de melhorar.

Dados do Dieese mostram que uma em cada três mulheres ocupadas ganham até um salário mínimo. Além disso, são as mulheres que estão nos postos de menor qualificação e, portanto, de menor remuneração. Para piorar, 76% já sofreram violência ou assédio moral/sexual no trabalho, segundo o Instituto Patrícia Galvão. Soma-se a isso que 47,7% das mulheres trabalhadoras com filhos de 0 a 3 anos não têm acesso à creche e entre 50 e 56% são demitidas ou têm que deixar o emprego até dois anos após o término da licença maternidade, sendo 21% logo nos primeiros meses.

Não bastasse isso, a maior taxa de desemprego está entre as mulheres, que são sempre as primeiras atingidas pelos cortes e demissões em épocas de crise. Isso também faz com que as mulheres estejam como maioria dos trabalhadores informais, ou seja, mais precarizados e sem acesso aos direitos trabalhistas. Acumulam ainda mais tarefas domésticas, o que representa em torno de 10 horas a mais de trabalho por semana, quando comparado com os homens.

Por todas essas razões, as mulheres trabalhadoras são as mais interessadas na construção de uma revolução socialista, que destrua o sistema vigente e implante uma nova organização econômica e social, na qual as riquezas produzidas possam ser usufruídas pelas trabalhadoras e pelos trabalhadores, e não apropriadas por capitalistas que sequer trabalham. Só dessa forma as mulheres serão, de fato, livres e estarão em condições de equidade com os homens.

Matéria publicada na edição impressa Nº 329 do jornal A Verdade

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