O filme O Agente Secreto, chamou atenção por se tratar de mais uma obra cinematográfica que expõe e aprofunda uma das questões mais delicadas de nossa história recente: a ditadura militar de 1964.
Rafael Freire | Recife (PE)
CULTURA – “PERNA CABELUDA ROUBA PERNA NO IML”. Esta manchete de jornal exemplifica perfeitamente como o real e o absurdo convivem lado a lado na trama de O Agente Secreto, filme do diretor e roteirista pernambucano Kleber Mendonça Filho, vencedor de mais de 70 prêmios nacionais e internacionais, incluindo o Globo de Ouro de melhor filme em língua não inglesa e de melhor ator para Wagner Moura, e indicado a quatro categorias no Oscar.
O filme não entrega uma história pronta. Vai dando pistas (inclusive falsas) e nos instiga a buscar conexões e hipóteses. A ausência de algumas repostas causa incômodo ao expectador. E o efeito esperado é exatamente este. Assim era a vida no Brasil, em 1977, com vidas interrompidas e transformadas bruscamente devido aos sequestros, torturas, assassinatos e apagamentos históricos praticados durante a ditadura militar fascista (1964-1985).
A narrativa trabalha sempre em duas esferas: questões estruturais e questões do quotidiano. O Agente Secreto é, portanto, um filme que toca em muitos assuntos, como memória, microrrelações, luta de classes, soberania nacional, identidade regional, imprensa e o próprio cinema. Mas podemos afirmar que ele é, sobretudo, um filme de denúncias. Uma obra que desmascara as ações da ditadura militar no Brasil e, paralelamente, critica preconceitos regionais, de classe, raça, gênero, sexualidade, o descaso com a universidade pública e até o feminicídio – problemas vigentes à época e que perduram até hoje.
Ditadura fascista
“Para que não se esqueça, para que nunca mais aconteça”. Este é um dos lemas do movimento por memória, verdade e justiça brasileiro. Neste sentido, os filmes Ainda Estou Aqui (2024) e O Agente Secreto representam a insistência em falar sobre os crimes da ditadura.
O filme – com roteiro original do próprio Kleber – não foca diretamente nas ações das Forças Armadas ou mesmo na repressão aos militantes políticos, apesar de Pernambuco ser, proporcionalmente, o estado do país com o maior número de mortos e desaparecidos, se comparado com a população local.
Seu objetivo é traçar um quadro social abrangente, uma “época cheia de pirraça”, como define ironicamente. Mas é contundente, por exemplo, na denúncia de como agentes da repressão estavam envolvidos nos chamados grupos de extermínio, e como a elite econômica e os militares no Governo Federal manipulavam as estruturas de poder em benefício próprio. O retrato do ditador Ernesto Geisel com a faixa presidencial está na parede de todas as repartições públicas para mostrar que os generais estão ali, onipresentes.
No quadro traçado, a vida de um “meliante” não vale nada. Já na primeira cena, o corpo de um homem – morto com dois tiros de escopeta – está, há dias, apodrecendo no sol causticante. Os agentes da PRF que aparecem no local nem ligam para o defunto, pois estão preocupados mesmo em fazer uma extorsão barata, e ficam satisfeitos com uma carteira de cigarros.
A delegacia comandada pelo “doutor” Euclides (Robério Diógenes) é, na verdade, um grupo de extermínio que executa presos comuns. Numa das cenas, uma pessoa acusada de estupro e outra de homicídio estão no camburão para um “passeio da morte”.
Euclides ri dos mortos no Carnaval – noventa e um, segundo a manchete do jornal – e dá proteção à “patroa granfina” que atropelou o filho da empregada, numa alusão explícita ao caso do menino Miguel, ocorrido em 2020, em Recife. O delegado mantém ainda no seu grupo um filho branco (“filho da mãe”) e outro filho preto (“de criação”), distinguindo os dois em vários momentos.
Em outra cena, a câmera enquadra o jornal nas mãos do delegado com a manchete: “Estudante de agronomia continua desaparecido”. E o delegado diz: “Não dava pra saber que era um menino bom”, e faz um gesto, com seu dedo, como se cortasse a perna do jovem que aparece na foto.
E as histórias vão se cruzando. A perna que é encontrada dentro de um tubarão em Candeias, no início da trama, pertencia ao estudante – provavelmente um militante político –, que foi executado pelo grupo de extermínio. Eles, então, roubam a perna de dentro do IML após subornar um funcionário. A perna é jogada no rio e, em seguida, “ressuscita” como um zumbi para atacar pessoas que faziam sexo no Parque 13 de Maio.
O mito da Perna Cabeluda surgiu como uma espécie de aparição fantasmagórica e se espalhou pela Região Metropolitana do Recife. Alguns profissionais da imprensa – como forma de burlar a censura do regime – passaram a atribuir à assombração os crimes reais que envolviam violência contra mulheres, casais homoafetivos e militantes políticos, temas que “incomodavam” os militares.
Professor Armando
Armando de Melo Solimões (Wagner Moura) era natural do Recife e professor na Universidade Federal de Pernambuco, onde desenvolvia uma pesquisa inovadora sobre baterias de lítio para carros elétricos. Ele era casado com a também professora Fátima (Alice Carvalho) e tinham um filho pequeno, Fernando. Ele nasceu de uma relação entre um jovem de família rica, de 17 anos, com a filha da empregada da casa, uma criança de 14 anos, chamada Maria Aparecida do Nascimento, conhecida como “Índia”.
Já no Recife, Armando (usando o codinome Marcelo) é recebido pela irreverente Dona Sebastiana (Tânia Maria) como novo morador refugiado do Edifício Ofir, onde os personagens demonstram grande espírito de solidariedade. Ao entrar no apartamento, dá de cara com uma gata de duas cabeças chamada Laysa e Elis, que surge na história para avisar que aquela não era uma residência comum, pois ali todos eram obrigados a ter uma dupla personalidade, assim como Armando, que passava a ser Marcelo.
Em agosto de 1974, o empresário Henrique Ghirotti (Luciano Chirolli), na condição de membro do Conselho da Eletrobras, foi à UFPE para, supostamente, fazer uma visita de trabalho. No entanto, na noite anterior, o empresário e seu filho foram jantar num restaurante com Armando e Fátima. Após falas preconceituosas contra Fátima e de insinuações que Armando usava a universidade para lucrar com patentes, Fátima manda Ghirotti “tomar no cu”, e Armando dá um soco no filho do empresário. “Precisamos fechar todas essas merdas [universidades]” e “Você não sabe com quem está se metendo, rapaz”, bradou o “sulista de sangue italiano”.
Mesmo assim, no dia seguinte, acontece a reunião do departamento da UFPE com Ghirotti, que destila mais falas preconceituosas contra os nordestinos e afirma que vai mandar parar as pesquisas sobre carros elétricos, uma vez que a Eletrobras já havia adquirido alguns protótipos de uma universidade canadense.
Mais de dois anos se passam; Fátima morre (o filme não dá pistas se foi assassinada); Armando volta a Recife para ficar com Fernando, já sob ameaças. Mas ele não entende bem o que está acontecendo quando é acolhido pelo grupo em torno de Elza (Maria Fernanda Cândido), até saber que Ghirotti contratou dois matadores e os enviou a Recife para matá-lo. Também é informado que o regime plantou duas matérias contra ele, acusando-o de corrupção, em jornais do Rio e São Paulo. Pouco antes, ficou sabendo que seu nome fora incluído numa lista da Polícia Federal e que estaria impedido de deixar o Brasil.
Eis que os matadores chegam a Recife – um deles ex-tenente do Exército, expulso da corporação – e são recebidos pelo delegado Euclides, que, por coincidência, havia conhecido Marcelo (Armando) no dia anterior e tinha simpatizado com o “novo funcionário” do Instituto de Identificação, onde Armando tentava encontrar algum documento de sua mãe.
O plano inicial para executar Armando dá errado; o clima de filme policial toma conta da narrativa; uma semana depois, Armando é executado a tiros, mas o filme não mostra a cena.
Naquela época, a universidade exercia um papel decisivo de resistência política, cultural e científica no Brasil. A UNE atuava cladestinamente, sendo reconstruída legalmente só em 1979. Professores e estudantes foram perseguidos de todas as formas: expulsos das instituições, censurados, presos e mortos. A regime lesa-pátria dos generais era corrupto e apadrinhou setores da burguesia brasileira e estrangeira para ganharem ainda mais dinheiro, mesmo que à custa da soberania nacional.
Cinema e memória
O Agente Secreto é também sobre cinema, e cinema é memória. O pequeno Fernando queria muito ver o filme Tubarão (clássico de Steven Spielberg), que estava em cartaz no Cinema São Luiz, onde seu avô materno, Alexandre (Carlos Francisco), trabalhava como projecionista. Mas o menino tinha pesadelos com tubarões, e o pai, Armando, não permitiu que ele visse o filme. Aqui, além da relação de metalinguagem (cinema falando sobre o próprio cinema), temos a relação entre o filme Tubarão e os incidentes com o animal no Recife e região.
Alguns dos pontos-chaves da obra só são parcialmente revelados na última cena, quando uma jovem pesquisadora – também interessada em resgatar sua própria história familiar – encontra Fernando no banco de sangue onde ele trabalha como médico. Lá eles conversam sobre a história de Armando, mas falam também sobre “coincidências”, sonhos, pesadelos. A clínica funciona, dentro do filme, como uma metáfora sobre o sangue enquanto vida biológica e o sangue enquanto história de vida.
Matéria publicada na edição impressa nº 330 do jornal A Verdade