UM JORNAL DOS TRABALHADORES NA LUTA PELO SOCIALISMO

sexta-feira, 27 de março de 2026
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Luta dos estudantes da UFPB conquista a redução do RU mais caro do Brasil

Após anos de luta organizada, o movimento Correnteza junto aos estudantes da Universidade Federal da Paraíba (UFPB) conquistaram a redução de 60% no valor da refeição no Restaurante Universitário.

Martone Viana e Isabele Ribeiro| Paraíba


EDUCAÇÃO- Uma vitória histórica marcou o início do semestre 2025.2 para os estudantes da Universidade Federal da Paraíba (UFPB). O preço do Restaurante Universitário (RU), que havia se tornado o mais caro do país em agosto e chegado à tarifa de R$ 17,33, foi reduzido para R$ 6,93 após uma longa e organizada mobilização estudantil. A conquista é fruto de uma trajetória de lutas que incluiu abaixo-assinados, debates, ocupações de espaços e a pressão constante por meio de petições em assembleias para audiências públicas com a reitoria.

A luta por um bandejão acessível não foi um ato isolado, mas parte da atuação do Movimento Correnteza, que se consolidou como a principal força de oposição dentro da União Nacional dos Estudantes (UNE). Em âmbito nacional, o Correnteza tem crescido cada vez mais – um aumento de 40% em seu número de delegados no último congresso – e defende bandeiras como o fim da política fiscal que asfixia as universidades, a ampliação da assistência estudantil e, centralmente, a garantia de alimentação gratuita e o passe livre para os estudantes no transporte coletivo.

O RU da UFPB e a crise na assistência estudantil

O problema do RU da UFPB não é de hoje. Desde 2022, quando após muita luta conseguimos a reabertura do restaurante com o custo de R$ 10,00, o Movimento Correnteza veio denunciando o valor abusivo das refeições. Se naquela época o valor já estava alto e sob a intervenção na Reitoria, o que não imaginávamos era que o preço continuaria aumentando:  primeiro para R$15,01 e posteriormente para R$ 17,33.

De todos os valores que o RU já obteve, o de R$ 17,33 era o que mais afrontava e escancarava a precarização da educação pública e de qualidade. Mesmo quando conseguíamos nos alimentar, nos deparávamos com larvas e pino de panela na comida. Houve, inclusive, a intoxicação alimentar de pelo menos 300 alunos que comeram no restaurante no mesmo período.

A UFPB perdeu, nos últimos 10 anos, mais de R$ 200 milhões de reais em orçamento. Só no comparativo entre 2024 e 2025, houve uma redução de 4,68%, o que representa R$ 2.167.787,00 a menos no PNAES e R$ 930.853,00 a menos em bolsas acadêmicas. Esses cortes atingem diretamente as políticas de permanência e o combate à evasão estudantil. Ao mesmo tempo, a universidade virou refém das emendas parlamentares, que aumentaram 373%, tornando o orçamento cada vez mais dependente das negociações políticas no Congresso e sob sua influência na indicação de cargos e políticas educacionais.

Quem luta conquista!

A organização pela redução do preço do RU começou há mais de três anos com a coleta de assinaturas, demonstrando numericamente a insatisfação geral. Os abaixo-assinados deram lugar a debates intensos, onde se discutiam não apenas o preço da refeição, mas o modelo de gestão da universidade. Aos poucos, a luta dos estudantes ganhou corpo e voz, saindo dos grupos de conversa e tomando os espaços físicos da instituição. A tática se intensificou com ocupações, um ato de resistência e pressão direta que visava não apenas chamar a atenção, mas forçar um diálogo concreto com a administração da universidade.

Nesse sentido, a redução para R$ 6,93 é mais do que um alívio no orçamento mensal dos estudantes; é a comprovação de que a organização coletiva é eficaz. A pauta do RU se mostrou indissociável de outras reivindicações da assistência estudantil e os estudantes continuam se organizando pelo aumento no valor das bolsas e recomposição orçamentária da UFPB.

A mensagem que fica é nítida: quando os estudantes se unem, a mudança é possível. A batalha pelo bandejão na UFPB se tornou um capítulo inspirador na luta nacional por uma universidade verdadeiramente pública, gratuita e acessível a todos.

Estado persegue aqueles que lutam, enquanto 19 milhões de brasileiros passam fome

Enquanto gigantes do setor de supermercados movimentam 10% do PIB nacional e acumulam lucros bilionários, 19 milhões de brasileiros ainda enfrentam a insegurança alimentar severa.

Matheus Araújo | Recife (PE)


LUTA POPULAR – Recentemente, a ONU considerou que o Brasil saiu do mapa da fome. Essa manchete foi estampada em diversos jornais e veículos de comunicação e usada pelo Governo Federal, muitas vezes em tom de comemoração. O problema é que, ao tomar essa decisão, a ONU e seus especialistas analisam somente números e dados, ficando longe da realidade do povo brasileiro.

A fome segue presente na vida de milhões de pessoas. Ocorre, na verdade, uma tentativa de fugir e camuflar a realidade. As pesquisas subdividem a chamada “insegurança alimentar” (que nada mais é do que um nome bonito para a fome) em baixa, moderada e alta. Mas fome é fome, e hoje 19 milhões de brasileiros, que a enfrentam diariamente. Sua grande maioria é de mulheres e pessoas negras.

“Quem inventou a fome são os que comem” – Carolina Maria de Jesus

Engana-se quem acha que a fome é uma questão do acaso, um castigo divino ou um problema individual. A verdade é que a fome é um projeto político, de um Estado orquestrado com o objetivo de dar lucro a um pequeno grupo de pessoas em detrimento do sofrimento da maioria do povo.

Segundo o ranking da Associação Brasileira de Supermercado (Abras), só em 2024, o grupo francês Carrefour, envolvido em diversos casos de mortes, como o de João Alberto, há cinco anos, em novembro de 2020, em Porto Alegre, e denunciado por financiar e alimentar o Exército de Israel no genocídio em Gaza, lucrou R$ 120,6 bilhões. Já o grupo Assaí foi o que mais cresceu, aumentando seu lucro para R$ 80,5 milhões, seguido do grupo Mateus, que, mesmo tendo R$ 36,3 milhões de lucro, em 2024, negou cestas básicas às famílias organizadas pelo Movimento de Luta nos Bairros, Vilas e Favelas (MLB) e tenta, até hoje, criminalizar aqueles que lutam contra a fome.

Ao todo, esse setor movimentou, no ano passado, quase 10% do PIB brasileiro, e segue se concentrando cada vez mais em grandes conglomerados. Mas de onde vem tanto dinheiro?

Primeiro, não seria exagero falar o óbvio: esses grupos lucram com a fome. Quanto maior a carestia e o preço dos alimentos, maior será o lucro. Segundo, esses grupos exploram cerca de 9 milhões de trabalhadores, a sua grande maioria na cruel escala 6X1, com baixos salários e grandes humilhações. E, por último, esses mesmos grupos desperdiçam R$ 4 bilhões em alimentos por ano, ou seja, é melhor jogar fora do que alimentar aqueles que enfrentam a fome.

Lutar contra a fome não é crime

Pior é que o Estado não só não combate a fome, como é cúmplice daqueles que lucram com ela, além de perseguir aqueles que lutam contra as causas da fome. Não são poucos os exemplos e o mais recente, em Santa Catarina, escancara essa realidade.

Na manhã do dia 27 de novembro, as Polícias Civil e Militar do governador fascista Jorginho Mello (PL) arrombaram e invadiram a sede do partido Unidade Popular (UP), em Florianópolis, além de realizar buscas e apreensões em casas de militantes do MLB. Uma investigação que corre em sigilo e não teve como alvo nenhuma facção criminosa, muito menos algum político corrupto. Foram perseguidos aqueles que ousaram lutar contra a fome e a miséria. Em nota, a PM assume que, entre outros motivos, o protesto contra a fome realizado pelo MLB, no dia 07 de setembro, em uma grande rede de supermercados, é apontado como justificativa para a ação violenta contra os militantes populares.

Ao ouvir uma das centenas de mulheres que foram mobilizadas na ocupação dos supermercados, vemos que o MLB passa longe de ser uma organização criminosa: “O MLB mudou minha vida, eu pagava aluguel, conta de luz, tudo caro. Eu ia no mercado e, aos poucos, eu via as coisas dentro de casa irem acabando. Eu achava que a culpa era minha. Mas depois entendi que a culpa era desse sistema, que só faz a gente trabalhar. Eu moro na Ocupação Anita Garibaldi. Lá eu saí da escravidão do aluguel, e agora eu consigo dar uma alimentação de qualidade aos meus filhos, consigo dormir com tranquilidade. A gente fez o ‘Mães contra a fome’, fomos chamados de vagabundos, mas somos trabalhadoras que lutam pelos seus direitos”, afirma Saionara de Jesus, coordenadora e moradora da Ocupação.

O MLB, há mais de 20 anos, organiza protestos contra a fome. A partir dessas lutas, como o Natal Sem Fome, centenas de milhares de cestas foram conquistadas e distribuídas. “Eu sou mãe de quatro filhos. Antes de conhecer o MLB e participar das lutas contra a fome, eu sofri muito, muitas vezes, sem ter o que dar de comer para os meus filhos. Agora, as coisas são diferentes, eu recebo as cestas da luta e temos o que comer, sem precisar pedir a um e a outro”, Laura Carvalho, 23 anos, moradora de Jaboatão dos Guarapes, Região Metropolitana do Recife.

Por fim, o MLB, em seus 26 anos de existência, deixa claro que sua luta não é só contra a fome ou pela moradia digna. A luta também é pelo fim do capitalismo e pela construção do poder popular e do socialismo.

Matéria publicada na edição nº326 do Jornal A Verdade.

Pejotização é nome chique para fraude trabalhista

O Supremo Tribunal Federal (STF) deve decidir, em 2026, o futuro das relações de trabalho no Brasil ao julgar a constitucionalidade da “pejotização”.

Geraldo Carvalho | Presidente da Comissão de Direito Sindical da OAB/AL


TRABALHADOR UNIDO – Aprofundando um cenário ao qual nem a Reforma Trabalhista, nem as Medidas Provisórias da pandemia, nem a chamada carteira verde-amarela chegaram, o Supremo Tribunal Federal (STF) deve julgar, em 2026, ação que questiona a constitucionalidade da “pejotização”. Trata-se de uma fraude trabalhista em que patrões, explorando a vulnerabilidade econômico-social dos trabalhadores, obrigam-nos a formar pessoas jurídicas para contratar mão de obra sem controle ou limite de jornada e sem direitos como férias, décimo terceiro, FGTS e proteção à saúde e à segurança.

A matéria era pacífica no Tribunal Superior do Trabalho (TST), que protegia empregados que comprovavam, em reclamações trabalhistas, não exercer atividade autônoma, mas sim trabalhar com os elementos que, historicamente, garantiram a proteção empregatícia a todos que os preenchessem: habitualidade, pessoalidade, onerosidade e subordinação.

O combate à pejotização, somado à repressão ao “autônomo” fraudulento foi, nos últimos anos, uma das principais formas de enfrentar o trabalho clandestino, sem direitos, herdeiro direto do trabalho escravo no Brasil.

Com a reforma legislativa (Lei 13.467/2017), que buscou coagir trabalhadores a não recorrer à Justiça do Trabalho, enfraquecer sindicatos e elevar negociações individuais a um patamar incompatível com o desequilíbrio estrutural e próprio existente entre empregados e empregadores, práticas traduzidas pela expressão popular “sou PJ” se intensificaram a níveis inéditos.

Sob o falso discurso da “modernização”, esse modelo retirou direitos históricos, reduziu salários, enfraqueceu a organização coletiva e ampliou a insegurança jurídica, social e econômica. O resultado foi o previsível: mais lucro para poucos e mais vulnerabilidade para muitos, atendendo aos interesses de quem deseja um mercado de trabalho sem garantias, sem vínculos e sem dignidade.

O boom de fraudes gerou boom de reclamações trabalhistas, levando o tema ao STF.  A crise mais recente (e mais grave) começou com a decisão “cautelar” do ministro Gilmar Mendes, que suspendeu todas as ações sobre “pejotização” e “trabalho autônomo”. Em contramão à lógica da urgência das ações de natureza alimentar, a pressa foi justamente para paralisar qualquer processo envolvendo o tema.

A decisão, ainda vigente, determina que toda ação judicial sobre o tema seja suspensa se a empresa alegar, na contestação, que se trata de relação “comercial”, “autônoma” ou “pejotizada”. É isso mesmo: a mera alegação patronal basta para travar o processo, tornando letra morta os princípios fundamentais do Direito do Trabalho, especialmente o da primazia da realidade.

O problema é ainda maior: também está em jogo a própria existência da Justiça do Trabalho. Se o STF validar a pejotização como querem os setores econômicos, criará ambiente de segurança jurídica para que ninguém mais assine uma carteira de trabalho. A Justiça do Trabalho sobreviverá julgando basicamente ações de empregados da Caixa, Correios, Petrobras e similares.

Caberá à Justiça Comum dos estados – responsável por julgar de homicídios a relações de consumo, de tributos a divórcios – analisar também a validade dos chamados contratos “cíveis” ou “comerciais”, escritos ou verbais, e decidirão se um contrato PJ ou de falso autônomo é nulo, por exemplo, por vício de vontade. Se, após anos de tramitação, um juiz comum – não especializado para temas trabalhistas – reconhecer o vício, então o processo será remetido à Justiça do Trabalho, onde tudo começará novamente.

Enfim, validar a pejotização como regra significa institucionalizar a precarização, empurrar milhões de trabalhadores para a informalidade “legalizada” e desmontar, em definitivo, quase um século de conquistas sociais, aprofundando desigualdades, enfraquecendo ainda mais os sindicatos e comprometendo a própria ideia de cidadania trabalhista.

A decisão em gestação no STF atinge não somente a CLT, mas a própria Constituição, desde sua origem – arts. 6º a 11, 170, 193 e 194 – até sua mais célebre reforma, a Emenda Constitucional 45/2004, que ampliou a competência da Justiça do Trabalho e consolidou sua função protetiva.

Por isso, a resposta precisa vir com urgência da classe trabalhadora organizada, das entidades sindicais, da advocacia comprometida com os direitos sociais e de todos os que compreendem que nenhum país se desenvolve sacrificando aqueles que, de fato, produzem riqueza.

O julgamento suspenso no STF não é apenas uma disputa jurídica: é um divisor de águas na luta de classes no Brasil. É momento de reafirmar que direitos não são obstáculos e que dignidade não se negocia.

Matéria publicada na edição nº326 do Jornal A Verdade.

Como organizar a classe operária nas fábricas?

Diante da sistemática repressão patronal e das barreiras à livre organização sindical, o Movimento Luta de Classes reforça a necessidade de organizar núcleos operários combativos diretamente no “chão de fábrica”.

Coordenação Nacional do MLC


TRABALHADOR UNIDO – Os trabalhadores e as trabalhadoras das indústrias são a fonte principal da extração de mais-valia, são os que constroem e transformam as riquezas do Brasil em mercadorias nos mais diversos setores: alimentício, têxtil, químico, mineração, metalurgia, etc. E são os operários fabris que têm a condição de mudar profundamente a organização econômica de um país. Logo, sem a classe operária que está no chão de fábrica, a revolução socialista não acontece.

Sabendo dessa importância fundamental, os patrões e lacaios da burguesia jamais permitirão de bom grado que os trabalhadores se organizem para lutar por melhorias no seu local de trabalho, maiores salários, condições de trabalho e direitos trabalhistas. Por mais que o direito de organização sindical esteja previsto na Constituição Federal, sabemos que são muitas as empresas que demonizam e excluem a representação sindical, impedem a circulação de materiais informativos, perseguem os trabalhadores que se filiam ao sindicato e dificultam o contato entre o sindicato e os trabalhadores.

Como, então, é possível construir um movimento operário e sindical revolucionário debaixo de tamanha opressão? O primeiro passo é tomar a decisão de organizar a classe operária em seu local de trabalho sob quaisquer que forem as condições.

Lênin chegou a escrever, no seu texto Carta a um camarada: “A organização operária de fábrica deverá ser tão conspirativa em seu interior, quanto ‘ramificada’ no seu exterior, isto é, nas suas relações externas deverá levar seus tentáculos tão longe e nas mais diferentes direções, quanto qualquer outra organização revolucionária”.

Para o avanço ideológico dos trabalhadores, devem ser usadas as plenárias do socialismo, as rodas de conversa conjuntas com outros movimentos (MLB, Olga, UJR, FNR), assim como os documentários produzidos pelo jornal A Verdade e os livros das Edições Manoel Lisboa.

Mas é preciso, acima de tudo, um núcleo estável que se reúna periodicamente e realize ações práticas. Cada trabalhador ou trabalhadora que queira lutar deve estar organizados num núcleo do Movimento Luta de Classes (MLC), seja por local de trabalho, por categoria, seja por região.

É importante aproximar os operários recém-chegados ao Movimento por meio da realização de atividades culturais, visitas domiciliares e acompanhamento individual. Viver entre os operários significa ir ao futebol, às confraternizações, fazer exercícios juntos, ir ao churrasco do final de semana, conversar sobre a religião de forma respeitosa, enfim, participar da vida quotidiana.

Os comunistas que atuam dentro de uma fábrica devem, ainda, ser o espelho do novo homem e da nova mulher, devem ser símbolo de comprometimento com o serviço, de zelo com os materiais e com os colegas, deve elevar a moral dos trabalhadores, enaltecer suas criações e feitos, escutar com atenção e aprender com aqueles que têm mais experiência.

Ho Chi Minh nos ensina que os comunistas revolucionários devem “preocupar-se com as tarefas antes dos outros e descansar depois dos outros”. Mas o que isso quer dizer? A disciplina, a pontualidade, a organização no setor e a qualidade do trabalho realizado são questões cobradas da classe operária a todo o tempo. Esses requisitos são indispensáveis para que um comunista conquiste a confiança de seus colegas de trabalho.

Os comunistas devem compor as comissões de fábrica, participar da vida orgânica do seu local de trabalho. Mesmo sob condições duras de impedimento da organização sindical, as fábricas possuem órgãos internos que podem se transformar em organismos de luta e conquistas, como é o caso da Cipaa (Comissão Interna de Prevenção de Acidentes e Assédio), que foi regularizada pelo Ministério do Trabalho.

Sua função é promover melhorias nas condições de saúde e segurança do trabalho, além de garantir que o trabalhador eleito tenha estabilidade no emprego até um ano após o fim do seu mandato, já que sabemos que as empresas precisam precarizar a saúde e a segurança do trabalhador para explorar e extrair mais lucros para seus bolsos.

Greves e lutas

As greves são a escola do socialismo na vida do operário. São deliberadas em assembleias dos trabalhadores de uma determinada categoria e, portanto, devemos participar ao máximo desses espaços, com o jornal A Verdade, para fortalecer o espírito de luta e levar aos trabalhadores uma mensagem política.

É dever dos comunistas estar nas assembleias, participar das reuniões do sindicato e dos grupos de trabalho, fazer uso da palavra, propor, defender a linha revolucionária dentro dos espaços sindicais, compor as fileiras sindicais, aumentar as filiações ao sindicato, defender a presença do sindicato nos locais de trabalho, participar dos congressos e conferências temáticas e nunca se eximir de participar da disputa política dentro do sindicato.

Precisamos lutar para a estabilidade e duração das nossas ações, principalmente, no trabalho sindical. Devemos lutar por eleições democráticas e que representem a maior parte da categoria, assim, sentiremos nos votos dados à linha revolucionária a sinceridade e confiança dos trabalhadores no nosso trabalho realizado e ao que temos a realizar.

Matéria publicada na edição nº326 do Jornal A Verdade.

Uma a cada três mulheres já sofreu violência no mundo todo

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O Movimento de Mulheres Olga Benario realizou mais de 30 atos em todo o Brasil para marcar o Dia Internacional de Luta pelo Fim da Violência contra as Mulheres (25). De ocupações em prefeituras a intervenções em portas de fábricas, a jornada de lutas exigiu políticas públicas reais, centros de referência e o fim da opressão de gênero.

Larissa Mayumi | Movimento Olga Benario


MULHERES – Dia 25 de novembro é o dia internacional de luta pelo fim da violência contra as mulheres. Assim, a Organização Mundial da Saúde (OMS) apresentou relatório feito com dados de 168 países recolhidos entre 2000 e 2023. Só no último ano, 316 milhões de mulheres sofreram violência física ou sexual. 840 milhões de mulheres em todo o mundo, ou seja, uma em cada três já sofreu violência física ou sexual ao longo de sua vida.

Entre os principais fatores para essa realidade, a OMS aponta os cortes no financiamento de políticas de prevenção da violência contra as mulheres. Em 2022, apenas 0,2% da ajuda ao desenvolvimento global foi destinado a estas ações, mesmo a violência contra as mulheres sendo considerada um dos principais problemas de saúde pública no mundo. O reflexo disso é uma melhora muito aquém do necessário, com diminuição de 0,2% nas taxas de violência mundiais por ano.

Outro dado apresentado é o de que 21% das adolescentes entre 15 e 19 anos de idade já sofreram violência física ou sexual por seus parceiros íntimos. E 23% das mulheres com 65 anos ou mais também já sofreram este tipo de agressão.

A OMS também especificou a alta taxa de violência cometida por parceiros nos países que falam a língua portuguesa. Sendo Timor-Leste apresentando taxa de 41,7%, Angola com 33,9%, São Tomé e Príncipe com 30,4%, Moçambique, 24,4%, Brasil, 19,3%, e Cabo Verde, 17,3%. Lembrando sempre que a subnotificação é uma realidade quando o assunto é violência de gênero.

Origem da opressão das mulheres

A violência contra a mulher não começou ontem. Há séculos e até milênios a mulher é subjugada na sociedade. A violência física, sexual, psicológica contra a mulher – ou o “direito” de agredir mulheres – está ligada a uma relação de poder na sociedade. É como se determinada parcela da população tivesse o poder de ditar o que a mulher pode ou não fazer e, se ela não se submeter, deve apanhar para colocar-se no seu lugar.

Com o desenvolvimento da sociedade e a produção de excedentes, surgem as bases para a apropriação desses excedentes: a propriedade privada. A propriedade privada, por sua vez, traz outra necessidade: a herança, ou para quem deixar essa propriedade acumulada. Desde então, a mulher passa a ter a função de carregar os herdeiros dessa propriedade acumulada e se torna propriedade igualmente.

O capitalismo potencializa ainda mais essas violências, a partir do momento que transforma tudo em mercadoria, sendo a mulher também tratada como mercadoria, uma vez que se tornou propriedade. Neste tempo de profunda crise do capitalismo, onde as contradições aumentam, aumenta-se também a violência contra as mulheres.

Lutas no Brasil todo

Diante desta realidade de violência, as mulheres não abaixaram a cabeça e, ano após ano, têm construído mais mobilizações, atos, ocupações denunciando o aumento da violência e lutando por delegacias da mulher 24 horas, centros de referência para mulheres, moradia digna, creche e outras políticas fundamentais para prevenir a violência e os feminicídios.

Neste último dia 25, foram mais de 30 atos espalhados pelo Brasil organizados pelo Movimento de Mulheres Olga Benario. Com mobilizações em bairros, nos centros das cidades, panfletagem e agitações com megafone, faixas e cartazes nas portas de fábricas, rodas de conversa para debater violência.

Em Minas Gerais, foi realizada uma ocupação na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), inaugurando a Sala de enfrentamento à violência Walkiria Afonso Costa. “Reivindicamos da universidade uma sala de acolhimento qualificado, um formulário para mapeamento da segurança das estudantes dentro da universidade, a melhoria de infraestrutura e iluminação do campus e campanha de conscientização contra o assédio”, afirma Natalia, estudante de psicologia da UFMG.

Em Santa Catarina, onde ocorreram mais de 10 casos de feminicídio somente em novembro, o ato foi no centro de Florianópolis e contou com dezenas de mulheres. “A morte da Catarina [última vítima de feminicídio do estado] não tem a ver com o desejo sexual. Tem a ver com o poder. É uma forma que essa sociedade tem de nos dominar e de colocar medo. E cada uma que tá aqui hoje, tá dizendo que não tem medo. Essa é a única forma de nos organizar e dizer o que a gente precisa! É fazendo greve em fábrica, é se mobilizando na rua, é convidando outras mulheres pra lutar”, afirma Nathalia, do Movimento Olga na manifestação.

Já no Distrito Federal, mais de 300 mil mulheres ocuparam as ruas na Marcha das Mulheres Negras, e o Movimento Olga também esteve presente. E, em Recife, o ato contou com cerca de 200 mulheres ocupando as ruas para denunciar a violência e os feminicídios.

Em Natal, no Rio Grande do Norte, o Movimento ocupou a prefeitura e em resposta a Guarda Municipal usou de violência contra as mulheres. “Nós estamos ocupando a prefeitura para denunciar que ela não investe em políticas públicas para as mulheres. A Delegacia da Mulher tá fechada há cinco anos, o Centro de referência está precarizado”, denunciam as mulheres em jogral na ocupação. Elas se mantiveram firmes, e fruto da mobilização, conquistaram reunião com o gabinete da Prefeitura para poder apresentar as demandas das mulheres da cidade. Já em Belém do Pará, o ato foi em frente à Delegacia Estadual de Atendimento às Mulheres (Deam).

Além disso, ocorreram várias ações em portas de fábricas, como Alsco, Poliestampo, BRF e Tupy, onde o Movimento de Mulheres Olga Benario realizou panfletagens e denunciou os casos de assédio e violência aos quais as operárias estão submetidas, as intervenções resultaram no interesse de diversas trabalhadoras em se organizar.

Essas ações demonstram que as mulheres não abaixam a cabeça diante desse cenário de violência e de norte a sul do país, construíram mobilizações capazes de alcançar mais mulheres dispostas a lutar em defesa das suas vidas e de todas nós. Agora, devemos continuar as mobilizações, realizar reuniões com as mulheres que conheceram o Olga a partir dessas ações para debater como dar seguimento à luta por políticas de enfrentamento à violência, seguindo unidas e em luta até eliminarmos essa sociedade baseada na propriedade privada, a verdadeira raiz da opressão às mulheres!

Matéria publicada na edição nº326 do Jornal A Verdade.

A Imprensa do Partido

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Este texto corresponde ao capítulo VI do documento “A Estrutura, os Métodos e a Ação dos Partidos Comunistas”, da III Internacional Comunista, aprovado em seu 3º Congresso, em junho de 1921.


A imprensa comunista deve ser desenvolvida e melhorada pelo Partido com uma energia infatigável.

Nenhum jornal poderá ser reconhecido como órgão comunista se não estiver submetido às diretrizes do Partido. Este princípio deve ser aplicado também às produções literárias, como livros, brochuras, escritos periódicos, etc., levando em consideração seu caráter científico, de propaganda ou outro.

O Partido deve se esforçar para ter bons jornais, antes de ter muitos. Todo Partido Comunista deve ter um órgão central, sempre que possível, diário.

Um jornal comunista não deve jamais se tornar uma empresa capitalista, como são os jornais burgueses pretensamente “socialistas”. Nosso jornal deve ser independente das instituições de crédito capitalistas. A organização ágil da publicidade por anúncios, que pode melhorar consideravelmente as condições de existência do nosso jornal, não deve ficar na dependência das grandes empresas de publicidade. Logo, uma atitude inflexível em todas as questões sociais proletárias dará aos jornais de nosso Partido uma força e uma consideração absolutas. Nosso jornal não deve servir para satisfazer o gosto sensacionalista nem a diversão de um público variado. Ele não deve fazer concessões à crítica dos literatos pequeno-burgueses ou aos virtuoses do jornalismo para criar uma clientela de salão.

Um jornal comunista deve, antes de tudo, defender os interesses dos operários oprimidos e lutadores; deve ser nosso melhor propagandista e agitador, o propagandista dirigente da revolução proletária.

Nosso jornal tem por tarefa reunir as experiências adquiridas nas atividades de todos os membros do Partido e fazer disso um guia político para revisão e melhoria dos métodos de ação comunista. Essas experiências devem ser trocadas nas reuniões de redatores de todo o país, reuniões que procurem criar a maior unidade de tom e tendência no conjunto da imprensa do Partido. Assim, essa imprensa, como qualquer jornal em particular, será o melhor organizador do nosso trabalho revolucionário.

Sem esse trabalho consciente de organização e de coordenação dos jornais comunistas e, em particular, do órgão central, colocar em prática a centralização democrática e uma sadia divisão do trabalho no interior do Partido e, consequentemente, também o cumprimento de sua missão histórica, é impossível.

O jornal comunista deve tentar ser uma empresa comunista, isto é, uma organização proletária de combate, uma associação de operários revolucionários, de todos os que escrevem regularmente para o jornal, que o compõem, imprimem, administram, distribuem, reúnem o material de informação, discutem e elaboram nas células, enfim, que agem cotidianamente para distribuí-lo, etc.

Para fazer do jornal uma verdadeira organização de combate, uma poderosa e viva associação de trabalhadores comunistas, impõem-se várias medidas práticas.

Todo comunista se liga estreitamente a seu jornal, trabalhando e se sacrificando por ele. Ele é sua arma cotidiana que, para servir, deve se transformar cada vez mais forte e afiado. Somente graças aos sacrifícios financeiros e materiais o jornal comunista conseguirá se manter. Os membros do Partido devem, constantemente, fornecer os meios necessários para sua organização e para sua melhoria, até que ele seja distribuído nos grandes partidos legais e sólido o suficiente para organização do movimento comunista.

Não é suficiente ser um agitador e um recrutador zeloso para o jornal; é preciso também se transformar em colaborador útil. É preciso informar o mais rápido possível tudo o que mereça ser observado, do ponto de vista social e econômico, na fração sindical e nas células, do acidente de trabalho à reunião profissional, dos maus-tratos dispensados aos jovens aprendizes até o relatório comercial da empresa. As frações sindicais devem informar sobre as reuniões e sobre as decisões e medidas mais importantes tomadas por essas reuniões e pelas direções dos sindicatos, assim como sobre as atividades dos nossos adversários. A vida pública das reuniões e da rua oferece aos militantes atentos do Partido ocasião de observar com senso crítico os detalhes, cuja utilização pelos jornais tornará clara aos mais indiferentes nossa atitude em relação às exigências da vida.

A comissão de redação deve tratar com o maior carinho e zelo essas informações sobre a vida dos operários e suas organizações e utilizá-las como breves comunicações, dando a nosso jornal o caráter de uma verdadeira comunidade de trabalho, viva e forte, ou para, à luz desses exemplos práticos da vida cotidiana dos operários, tornar compreensíveis os ensinamentos do comunismo, o que constitui a via mais rápida para chegar a tornar viva e íntima a ideia do comunismo ente as grandes massas operárias.

Na medida do possível, a comissão de redação deverá estar à disposição dos operários que venham visitar nosso jornal nas horas mais favoráveis do dia para acolher suas necessidades e as queixas relativas à miséria de sua existência, para anotá-las com cuidado e servir-se delas para dar vida ao jornal. Certamente, na sociedade capitalista, nenhum dos nossos jornais se transformará numa verdadeira associação de trabalho comunista. Pode-se, entretanto, mesmo nas condições mais difíceis, organizar um jornal revolucionário operário partindo desse ponto de vista.

Isso está provado pelo exemplo do Pravda, de nossos camaradas russos, durante os anos de 1912-1913. Este jornal se constituiu realmente numa organização permanente e ativa dos operários revolucionários conscientes nos centros mais importantes do Império Russo. Esses camaradas redigiam, editavam e distribuíam conjuntamente o jornal; a maioria entre eles economizando o dinheiro necessário para as despesas do salário de seu trabalho. O jornal, por seu lado, pôde lhes dar o que eles desejavam e o que tinham necessidade nos momentos de luta e que hoje lhes serve ainda no trabalho e na luta. Tal jornal, com efeito, pode ser para os membros do Partido e para todos os operários revolucionários o que eles chamam de “nosso jornal”.

O elemento essencial da atividade da imprensa de combate comunista é a participação direta nas campanhas conduzidas pelo Partido. Se, em certo momento, a atividade do Partido estiver concentrada em determinada campanha, o jornal do Partido deve colocar a serviço dessa campanha todas as suas colunas, suas editorias, e não apenas os artigos de fundo. A redação deve encontrar, em todos os domínios, material para empreender essa campanha e alimentá-la da forma mais conveniente.

O recrutamento para nosso jornal deve ser seguido conforme um sistema estabelecido. Antes de mais nada, é preciso utilizar todas as situações nas quais os operários estejam vivamente integrados no movimento e nas quais a vida política e social esteja mais agitada, seguida de algum evento político e econômico. Assim, depois de cada greve ou paralisação, durante os quais o jornal defendeu franca e energicamente os interesses dos operários em luta, deve-se organizar, imediatamente após o fim da greve, um trabalho de recrutamento entre os que tenham participado da greve. Não apenas as frações comunistas dos sindicatos e das categorias envolvidas no movimento grevista devem levar a propaganda do jornal em seu meio por meio de listas e assinaturas, mas também, na medida do possível, deve-se procurar as listas dos operários que tenham feito a greve, bem como seus endereços, a fim de que os grupos especiais encarregados dos interesses do jornal possam levar uma agitação a domicílio.

Do mesmo modo, após toda campanha política eleitoral na qual seja despertado o interesse das massas operárias, deve ser levada uma campanha de agitação a domicílio, de casa em casa, pelos grupos de trabalhadores especialmente incumbidos desta tarefa nos diferentes bairros operários.

Durante as épocas de crise política ou econômica latentes, cujos efeitos se façam sentir nas massas operárias sob a forma de aumento de preços, desemprego e outras misérias, deve-se tentar, após uma propaganda hábil contra essa situação, obter, se possível, por intermédio das frações sindicais, grandes listas de operários organizados nos sindicatos, a fim de que o grupo especial do jornal possa continuar sistematicamente a agitação a domicílio.

O grupo especial encarregado dos interesses do jornal não deve deixar passar nenhuma reunião pública de operários, nenhuma grande manifestação sem, desde o início, e também durante os intervalos e ao final, agir de maneira mais ativa para obter assinaturas para nosso jornal. As frações sindicais devem cumprir esta tarefa também em todas as reuniões de seus sindicatos, nas células e frações sindicais e nas reuniões por categoria.

Nosso jornal deve ser constantemente defendido pelos membros do Partido contra todos os seus inimigos. Todos os membros devem levar uma luta impiedosa contra a imprensa capitalista, revelar sua venalidade, suas mentiras, sua vileza reticente e suas intrigas.

A imprensa social-democrata e socialista independente deve ser vencida e desmascarada em sua atitude traidora pelos exemplos da vida cotidiana, através de ataques contínuos, mas sem se envolver em pequenas polêmicas de fração. As frações sindicais e outras devem se aplicar organizadamente a subtrair a influência perturbadora e paralisante dos jornais social-democratas entre os membros dos sindicatos e de outras associações operárias. O trabalho de assinaturas para o nosso jornal, assim como a agitação a domicílio ou nas empresas, deve igualmente ser dirigido com habilidade contra a imprensa dos socialistas traidores.

Frantz Fanon: centenário do revolucionário anticolonial

O legado de Frantz Fanon como médico, diplomata e teórico do anticolonialismo é uma ferramenta essencial para compreender as cicatrizes da escravidão e do capitalismo.

Blanca Fernandes e Guilherme Arruda | São Paulo (SP)


HERÓIS DO POVO – Por séculos, uma das faces mais violentas do sistema capitalista foi o colonialismo. Na sanha de enriquecer com o roubo de recursos, terras e trabalho das populações indígenas de várias partes do mundo, potências coloniais como França, Inglaterra, Portugal e Espanha dizimaram povos inteiros, destruíram ecossistemas e culturas, e submeteram milhões de pessoas à escravização. Para justificar as violências que cometeram, criaram também a ideologia do racismo, “naturalizando” a ideia de uma hierarquia racial entre as sociedades.

No entanto, as injustiças da exploração capitalista colonial nunca passaram sem resposta. E, no século XX, a resistência popular das nações oprimidas acumulou forças suficientes para se transformar em grandiosas revoluções de libertação nacional em toda a África, Ásia e América Latina, que conquistaram a independência de dezenas de países (como na Argélia) e deram início à construção do socialismo em alguns deles (a exemplo de Cuba e do Vietnã).

A conscientização dos povos para a necessidade de lutar por sua autodeterminação, pelo fim do sistema capitalista e do racismo se deveu ao trabalho paciente de muitas organizações revolucionárias e seus dirigentes. Neste ano de 2025, comemoramos o centenário de nascimento de um dos principais nomes a dedicar toda sua vida e força à luta contra o colonialismo, nos deixando contribuições teóricas e práticas imprescindíveis: o médico e militante revolucionário Frantz Fanon. Conhecer sua vida e sua obra é uma forma de prestar homenagem a seu legado.

Tornando-se um revolucionário

Frantz Fanon nasceu em 20 de julho de 1925 na Martinica, uma ilha do Caribe colonizada pela França. Ainda jovem, se somou à luta contra o nazismo na Segunda Guerra Mundial, alistando-se no exército francês. Ali mesmo, começam a ganhar contornos suas reflexões sobre o racismo. Mesmo lutando lado a lado com soldados brancos e ganhando uma Cruz de Guerra na Batalha da Alsácia, ainda era tratado de maneira inferior, visto apenas como um negro martinicano aos olhos dos europeus.

Aos 26 anos, Fanon se forma em Medicina na Universidade de Lyon, na França, e na sequência migra para a Argélia, onde foi contratado para dirigir o hospital psiquiátrico Blida-Joinville. O que a princípio era apenas um momento de sua trajetória profissional, se tornou uma relação profunda de compromisso com a luta revolucionária pela libertação dos países africanos.

Naquele período, em 1954, a Frente de Libertação Nacional (FLN) deu início à Revolução Argelina, buscando a independência do país após duzentos anos de dominação francesa. No exercício de suas funções no hospital, Fanon estava atento aos efeitos da guerra sobre colonizadores e colonizados. Escreveu, por exemplo, sobre os “policiais no limiar da loucura”, que reproduziam as torturas que praticavam contra os argelinos também com seus filhos e esposas, e sobre o sofrimento psíquico dos árabes submetidos à desumanização colonial.

Solidário aos independentistas, Fanon atende clandestinamente os combatentes feridos da FLN no subsolo da clínica. Logo passou a ser vigiado e perseguido. Daí em diante, o médico decidiu se envolver de corpo e alma com a luta revolucionária, renunciando à diretoria do hospital e tornando-se militante da Frente de Libertação Nacional.

Revolução na Argélia

De acordo com o pesquisador Deivison Faustino, autor da biografia Frantz Fanon: um revolucionário particularmente negro, o médico martinicano cumpriu três tarefas principais em sua militância: foi redator do jornal El Moudjahid, órgão central da luta anticolonial; atuou diretamente no front de batalha, utilizando seus conhecimentos médicos e militares; e serviu de embaixador da Revolução Argelina na África negra, que também iniciava sua luta para se libertar do jugo das potências coloniais.

Ao participar da Conferência dos Povos Africanos realizada em Gana, no ano de 1958, Fanon contribuiu decisivamente para a unificação da luta da FLN com os esforços independentistas das demais nações africanas. No evento, o martinicano defendeu junto de líderes anticoloniais como o ganês Kwame Nkrumah e o congolês Patrice Lumumba “a necessidade de uma saída continental – e intercontinental – revolucionária, de caráter antirracista e antiimperialista”, explica Faustino.

Na década de 1960, 32 países africanos conquistariam sua independência. Nesse sentido, no artigo Descolonização e independência, Fanon escreveu: “Todo o povo argelino sabe que, depois da Argélia, será a África Negra a travar seu combate”. E completa: “Os povos oprimidos sabem hoje que a libertação nacional é parte do desenvolvimento histórico, mas também que essa libertação deve ser obra do povo oprimido”.

Já em A Guerra da Argélia e a libertação dos homens, o médico chama atenção para o caráter internacionalista e de classe dessa luta. Ele aponta o “reforço dialético existente entre o movimento de libertação dos povos colonizados e a luta de emancipação das classes trabalhadoras exploradas nos países imperialistas”, que por vezes “é esquecido”, em sua visão.

Rejeitando as calúnias das potências capitalistas, destaca no artigo O sangue magrebino não correrá em vão que “para os povos coloniais subjugados pelas nações ocidentais, os países comunistas são os únicos que, em todas as ocasiões, partiram em sua defesa”. Mesmo assim, foi um crítico do Partido Comunista Francês, que titubeou na defesa da independência da Argélia.

Sobre o trabalho de Fanon como agitador e propagandista, o editor do jornal da FLN naquele período, Redha Malek, destacou o papel do periódico na atuação política e teórica do martinicano afirmando que uma de suas principais obras, Os Condenados da Terra (1961), “não é nada mais que o desenvolvimento e um aprofundamento das questões tratadas em El Moudjahid, elaboradas no cotidiano da nossa redação”.

Cada vez mais reconhecido enquanto intelectual, Fanon usou seu prestígio para realizar conferências ao redor do mundo denunciando os crimes de assassinato e tortura cometidos pela França na tentativa de impedir a independência da Argélia. Também angariou solidariedade e fundos para a FLN junto a intelectuais e democratas apoiadores da causa argelina, como seus amigos Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir.

Impactos psicológicos do racismo

No entanto, a contribuição de Fanon à luta dos povos não se restringe à atuação política na Revolução Argelina. O médico martinicano também deixou uma série de formulações teóricas profundas, que têm grande importância para pensar os impactos psíquicos e subjetivos da colonização sobre homens e mulheres colonizados, especialmente negros e negras. Muitas dessas reflexões estão condensadas no já citado livro Os Condenados da Terra, mas também em obras como Pele Negra, Máscaras Brancas (1952), Em Defesa da Revolução Africana (1964, póstumo) e Alienação e liberdade (2018, póstumo).

Uma das grandes contribuições de seu estudo clínico a respeito dos complexos de inferioridade causados pela escravização e exploração, foi identificar alguns comportamentos recorrentes entre homens e mulheres negros das Antilhas: ora um ódio virulento a tudo que o colonizador branco qualificou como “de negro” – sua cultura, tradições, linguagem, características e afins – e uma tentativa de se assemelhar ao colonizador; ora um ódio a tudo que o colonizador qualificou como “de branco”, passando a buscar ansiosamente um passado apagado, supervalorizando tradições e culturas que poderiam ser chamadas de suas.

Ao fim, na análise de Fanon, ambas as soluções psicológicas pressuporiam um aprisionamento do negro e do branco em categorias de identidade que só foram criadas para justificar um processo de violência econômica, política e social, e de dominação de um povo sobre outro. Nas palavras do médico, “se há um complexo de inferioridade, ele resulta de um duplo processo: econômico, em primeiro lugar; e em seguida, por interiorização, ou melhor, por epidermização dessa inferioridade. Somente haverá desalienação genuína na medida em que as coisas, no sentido mais materialista possível, tiverem voltado ao seu lugar.”

Legado anticolonial

Em 1962, após quase oito anos de luta armada, a Argélia conquistou sua independência da França. No entanto, Frantz Fanon não viveu para vê-la. Devido a uma leucemia que o acometeu aos 36 anos, o médico faleceu em 1961. Mesmo assim, sua contribuição para a emancipação continua sendo lembrada pela massa do povo argelino – ainda que seu conteúdo revolucionário e anticapitalista esteja bastante apagado, tendo em vista o enfraquecimento dos ideais da Revolução Argelina.

Apesar de sua morte, as reflexões de Fanon seguiram inspirando a luta de libertação nacional dos países da África e Ásia, em especial os que optaram pela saída radical da luta armada contra os imperialistas. O médico foi decisivo para instigar o internacionalismo e a solidariedade entre os povos colonizados.

Vivendo sob o sistema capitalista, o Brasil ainda não acertou contas com quatro séculos de colonização e escravismo. Somos um país para onde seis milhões de africanos foram traficados ao longo desse período, a fim de servir de mão de obra forçada para o lucro dos imperialistas, o que teve consequências profundas sobre nossa formação social.

Somando o estudo de nossa história à obra de Fanon e às experiências de luta de outros países colonizados, podemos ter mais pistas das dinâmicas da opressão do negro em nosso país, e assim construir os caminhos para a libertação de nosso povo.

(Texto baseado em entrevista de Priscilla Santos, pesquisadora da obra de Fanon)

Um laço de irmandade chamado Pátria

Cuba chora a perda de 32 irmãos cubanos, mártires do dever sacrificados pela arrogância imperialista.

Leidys María Labrador Herrera | Granma


MUNDO – Você não os conheceu, nunca trocou uma palavra com eles, não são seus familiares, amigos ou vizinhos, mas sua perda dói, perfura o peito, traz lágrimas aos olhos.

No início, há um número que, embora por si só seja doloroso, não se compara ao momento em que se vê um rosto, um nome, um olhar, um ser humano. Então você entende, você está ligado a eles por um laço que não é de sangue, mas como se fosse, por uma razão inquestionável: eles são cubanos.

Talvez nossa dor não seja comparável à de suas mães, esposas, filhos, netos, amigos mais queridos, mas Fidel também disse isso em um dia triste: a dor se multiplica. Sim, isso acontece quando a Pátria é um conceito tão sagrado que, levando-o ao plano individual, o comparamos com o lar, e aqueles que nela se abrigam, com a família.

Por isso os chamamos de irmãos, e o fazemos, sinceramente, com o coração aberto, porque como tal os sentimos, muito mais sabendo que são mártires do dever, reconhecendo neles – por sua trajetória e à luz dos acontecimentos que lhes roubaram a vida – uma herança de lealdade que enche de orgulho e amplia nossa cubanidade.

Também à luz desses mesmos momentos, vislumbrou-se o rosto inimigo, sem máscaras, sem rodeios. Ele redescobriu para o mundo, para nós, sua inquestionável genética fascista, sua estrutura colonial, sua vocação imperial usurpadora.

Então, sente-se um aperto na alma, e transbordam os heróis que você guarda no peito, porque sabe que 32 dos seus já não estão mais aqui, que lhes foram arrebatados, vítimas da arrogância, da covardia e do egoísmo que corroem desde a gênese os impérios, o império.

E você gostaria de abraçar suas mães, suas esposas, seus filhos, e dizer-lhes não apenas que você compartilha sua dor, ou que lamenta sua perda, mas que você também perdeu alguém, que sente isso, e que nunca perdoará quem o tirou de você. Que somos milhões que não perdoamos.

Porque este povo que hoje chora seus mortos, porque tem o direito de fazê-lo, que hoje guarda minutos de silêncio, que acompanha sua despedida definitiva, continua sendo o mesmo povo «enérgico e viril», que não esquece nem desonra seus irmãos, e que fará tremer a injustiça cada vez que ela colocar em dúvida seus princípios.

Hoje, toda Cuba será um abraço, um adeus para sempre. Uma parte dos nossos cumpriu dignamente sua última missão, travou com coragem sua última batalha. Somando o exemplo deles aos que nos guiam, os demais continuaremos de pé, conscientes de que ainda temos grandes combates a travar.

Construtora Campos Gouveia é condenada por trabalho escravo em Tamandaré (PE)

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Construtora Campos Gouveia foi fiscalizada pelo Ministério Público do Trabalho (MPT) após trabalhador morrer eletrocutado em serviço.

Jesse Lisboa | Redação


BRASIL – A construtora Campos Gouveia foi condenada a pagar R$ 500 mil por submeter trabalhadores a condições análogas à escravidão na construção do Residencial Beira-Mar, em Tamandaré, Pernambuco. A decisão judicial destaca violações graves de direitos humanos em uma obra à beira-mar.

O Ministério Público do Trabalho (MPT) identificou alojamentos precários, com trabalhadores dormindo em colchões sobre tijolos, sem ventilação, expostos a poeira e fiações elétricas perigosas. Além da miséria nos alojamentos, o risco de morte era diário. Banheiros inadequados eram compartilhados por dezenas de pessoas, e faltava água potável e alimentação constantemente, configurando risco à vida dos trabalhadores.

Em 25 de agosto de 2021, o trabalhador José Luciano da Silva morreu no canteiro de obras do condomínio Porto Cayman Residence, da construtora Campos Gouveia, em Tamandaré. Ele sofreu um choque elétrico enquanto escavava ao lado da piscina para instalar um sistema de drenagem.

De acordo com o relatório do Grupo Especial de Fiscalização Móvel (GEFM), José usava uma bomba elétrica ligada à rede para drenar a água da vala. Após o choque, foi socorrido, mas não resistiu e faleceu no mesmo dia.

A Reforma Trabalhista é culpada pela exploração

A Lei 13.467/2017, ao permitir a supressão de direitos trabalhistas, abriu as portas para a exploração desenfreada: jornadas excessivas, salários irrisórios e precariedade total, tudo respaldado pela lei – um absurdo inaceitável.

As denúncias de trabalho análogo à escravidão explodiram desde 2021: 1.915 casos em 2021, 2.119 em 2022 e 3.422 em 2023, superando o pico anterior de 1.743 em 2013.

Enquanto os trabalhadores enfrentam perda de direitos e informalidade, a burguesia acumula riquezas: hoje, 266 mil brasileiros têm patrimônio acima de US$ 1 milhão, e o Global Wealth Report 2022 prevê 572 mil milionários até 2027 – mais que o dobro em cinco anos.

A solução está nas mãos da classe trabalhadora: retomar os sindicatos e impulsionar a luta sindical. A miséria crescente, a informalidade e o desemprego derivam da piora nas relações de trabalho. A força dos trabalhadores reside na organização coletiva para impor derrotas aos patrões. É urgente lutar pela revogação da Reforma Trabalhista!

“Só o povo pode vencer e alcançar a vitória contra o imperialismo e o colonialismo”

O jornal A Verdade entrevistou Ahmed Mulay Ali Hamadi representante da Frente Polisário no Brasil. Porta-voz da luta do povo saarauí, Ahmed falou do enfrentamento ao colonialismo espanhol e marroquino (este, há 50 anos) e contra os interesses imperialistas franceses, estadunidenses e israelenses no Saara Ocidental, no Norte da África. A Frente Polisário (Frente Popular para a Libertação de Saguia el-Hamra e do Rio de Ouro) atua na luta armada pela emancipação do povo saarauí e reconhecimento da República Árabe Saarauí Democrática (RASD) desde 1973.

Em recente resolução, a Conferência Internacional de Partidos e Organizações Marxistas-Leninistas (CIPOML), afirmou “seu apoio ao povo saaraui em sua luta e à sua justa e legítima aspiração à autodeterminação, incluindo a libertação completa de seu território e o estabelecimento de seu Estado-nação”.

Vinicius Lima | Brasília (DF)


A Verdade – Você é embaixador da Frente Polisário no Brasil, uma organização que representa uma luta tão importante, mas ainda pouco reconhecida. Qual o papel dessa organização?

Ahmed – A Frente Polisário é a Frente de Libertação de Saguía el Hamra e Río de Oro. Saguía el Hamra e Río de Oro são os dois territórios que compõem a República Árabe Saarauí Democrática, que no total tem 266.000 km². A Frente Polisário foi fundada em 10 de maio de 1973, pegando em armas na luta contra o colonialismo espanhol. Mas uma coisa precisa ser dita: antes de recorrer às armas, o povo saarauí tentou negociar com a Espanha para que o colonialismo espanhol concedesse ao povo saarauí a sua independência. No entanto, a Espanha recusou.  A Espanha descobriu que nós possuíamos muita riqueza. Portanto, queriam fazer do nosso país a 53ª província do Estado espanhol. Dez dias depois, em 20 de maio, a Frente Polisário travou sua primeira batalha contra o exército espanhol e iniciou a luta armada. Em 1975, a Espanha começou a concordar em negociar, em conversar. Acreditávamos que iríamos chegar a um acordo, mas nesse momento apareceu outro fator: a França. Ela não queria um Estado saarauí nacionalista, não capitalista, e então apoiou o Marrocos e a Mauritânia. Em 1979, conseguimos vencer a Mauritânia e continuamos a luta contra Marrocos.

Qual o histórico do povo saarauí na região antes da colonização europeia e marroquina?

O povo saarauí já existia antes do colonialismo espanhol. Era um conjunto de tribos formadas por uma mistura de africanos, árabes e berberes. Elas estavam em paz porque havia uma assembleia de chefes que administrava o Saara Ocidental. Marrocos e Mauritânia tentaram pressionar a Espanha para que não fosse aplicado o direito à autodeterminação do povo saarauí. Esses dois países apresentaram uma queixa em Haia, no Tribunal Internacional de Justiça, na qual alegaram que o território lhes pertencia e que o povo saarauí não existia antes da chegada da Espanha. Após o estudo e a análise dos documentos do Marrocos, da Mauritânia e da Espanha, chegou a uma conclusão, que qualquer pessoa pode consultar no site de Haia. Ela afirma três coisas. Primeira: nunca houve soberania da Mauritânia e de Marrocos sobre o Saara; segunda: quando a Espanha colonizou o Saara, um povo já existia; e terceira: nada impede a aplicação da Carta da ONU no Saara Ocidental. O povo saarauí deve exercer a autodeterminação e decidir por si mesmo. Quando Marrocos e Mauritânia perderam na justiça, foi quando invadiram militarmente.

Como acontece essa opressão nacional, política e econômica do Marrocos sobre a população do Saara Ocidental?

O povo saarauí é um povo pequeno. Somos um milhão de pessoas. Mas nós sempre dizemos, provérbios saarauís: “A unidade forte de cinco pessoas, vence mil pessoas”. Então, a união forte e a resistência de um milhão vencem 100 milhões. É por isso que sabemos que vamos vencer Marrocos. Marrocos usou vários métodos contra nós. Um deles foi a colonização com marroquinos, ou seja, qualquer marroquino que quisesse ir para o Saara não pagava impostos e ganhava um salário alto. Eles também abriram nossas riquezas para estrangeiros. Empresas francesas, empresas norte-americanas e, o mais perigoso, empresas israelenses interessadas em nosso gás. Portanto, Marrocos usou tudo juntamente com uma política de tortura e desaparecimentos no território ocupado. Há mais de 650 pessoas desaparecidas. Há centenas nas prisões marroquinas, alguns enfrentando prisão perpétua. Marrocos ainda tenta, com toda sua opressão, fazer com que os saarauís se adaptem à cultura marroquina, mas os saarauís mantêm a sua cultura e mantêm as suas tradições.

Você poderia falar um pouco mais a decisão da Frente Polisário em retomar a luta armada contra o colonizador?

Se você estudar a história do povo do Vietnã, que derrotou os Estados Unidos e a França, do povo da África do Sul contra o apartheid, do povo argelino contra o colonialismo francês, do povo angolano contra Portugal, você chegará à mesma conclusão: só o povo pode vencer e alcançar a vitória. Ninguém vai lhes dar nada. Assim, desde o início, tínhamos dois provérbios muito claros. O primeiro é “com o fuzil, arrebataremos nossa liberdade” e o segundo, “toda a pátria, ou o martírio”. Esse é o nosso caminho. Para o povo saarauí, pegar em armas novamente não é novidade. Agora a guerra é um pouco diferente porque não estamos lutando somente contra Marrocos, mas também contra Israel, que fornece sobretudo drones para Marrocos usar contra o nosso exército, mas isso não irá frear a luta do povo saarauí.

Como você vê o papel do imperialismo francês e estadunidense na continuidade do conflito e qual o interesse deles em manter o Saara sob o jugo marroquino? 

Primeiro, precisamos entender a história da França na África. Ao norte, onde nós ficamos, estão o Marrocos, a Argélia, a Tunísia, a Mauritânia, que foram todas colônias francesas. Portanto, existem muitos interesses culturais e econômicos de empresas francesas lá. Os argelinos lutaram para alcançar a verdadeira independência, já a independência do Marrocos e da Mauritânia foi concedida. Agora, estamos descobrindo nos arquivos que estão sendo divulgados que Marrocos, na realidade, comprou sua independência para continuar funcionando como uma força policial da política francesa. Na França, eles queriam que a riqueza e o território saarauís permanecessem com Marrocos para que Marrocos tivesse o poder econômico para enfrentar a Argélia.

Agora, Israel está intervindo. Por quê? Por causa do mesmo problema, que é o que está acontecendo na Palestina. Israel ocupa a Palestina ilegalmente. Eles querem eliminar os palestinos, para ficar com seu território e sua riqueza. É a mesma política que Marrocos faz, eliminar os povos árabes para ficar com sua riqueza. Agora eles são aliados, apoiam-se mutuamente. há evidências, de que Israel fornece a Marrocos: drones, tanques, equipamentos e, acima de tudo, o trabalho do Mossad (1), que apoia o rei (marroquino). A Palestina está ocupada, parte do Saara está ocupada por Marrocos. A Palestina tem desaparecidos e mortos, a mesma situação nossa com Marrocos. A Palestina tem muros, Marrocos tem muros no Saara.

Trump quer derrubar o Governo da Venezuela para ficar com o petróleo venezuelano. A pressão que eles vêm exercendo sobre Cuba há anos, por quê? Porque esses são países que não entregam sua riqueza ao capitalismo, algo que o capitalismo não aceita.

Quais são os caminhos que a Frente Polisário considera viáveis para a resolução do conflito e a realização do direito à autodeterminação do povo saarauí?

A Frente Polisário apresentou um projeto ao secretário-geral da ONU [António Guterres]. Nele é dito que nós estamos dispostos a sentar à mesa com Marrocos para chegar a um acordo sobre uma solução com base no direito internacional. Embora não acreditemos que isso vá adiantar em nada porque, segundo nossas informações, Trump e Macron estão por trás disso. Para os dois, neste momento, não importa o direito internacional, não importa a Carta da ONU. O que lhes importa são seus próprios interesses. Veremos o que o Conselho de Segurança aprova em 30 de outubro (2). Mas nós, saarauís, temos certeza de que existem apenas dois caminhos. Um deles é sentar-se, negociar, aplicar a lei, respeitar o povo saarauí, e conceder seu direito à autodeterminação. Inclusive, a Frente Polisário declarou que, se o povo saarauí quiser ser marroquino, será bem-vindo. Se quiser retornar à Espanha, será bem-vindo. Se quiser a independência, será bem-vindo, mas devemos respeitar o que o povo saarauí decidir nas urnas. O outro caminho, que também consideramos claro e existente é a luta armada, e é por isso que decidimos continuar com armas em punho.

Qual é a importância do reconhecimento brasileiro da República Árabe Saaraui Democrática? 

Até agora, 84 países reconheceram a República Saarauí. Quanto mais reconhecimento de países importantes como o Brasil, isso poderia ajudar e dar um impulso à ONU, e até mesmo ajudar Marrocos a entender que o melhor caminho é o da negociação e não o da guerra. O reconhecimento da Palestina por Lula foi histórico. E é isso que todos os países devem fazer: reconhecer a República da Palestina. É por isso que também acreditamos que o presidente Lula deve reconhecer a República Saarauí, porque é a mesma história da Palestina.


  1. Mossad: Agência de Inteligência de Israel.
  2. O Conselho Segurança da ONU apoiou, sob influência do imperialismo estadunidense e europeu, o plano de autonomia do Marrocos para o Saara Ocidental.

Matéria publicada na edição impressa Nº 327 do jornal A Verdade

UP anuncia pré-candidatura de Samara Martins à presidência do Brasil

O partido Unidade Popular (UP) anunciou neste domingo (01/02) a pré-candidatura de Samara Martins à presidência da República para defender um programa socialista, anti-imperialista e antifascista nas eleições de 2026.

Redação


BRASIL – Em reunião do Diretório Nacional da Unidade Popular (UP), no último dia 01 de fevereiro, foi aprovado o nome de Samara Martins como pré-candidata à Presidência da República para representar o programa de luta pelo socialismo nas eleições de 2026 do Brasil.

Segundo resolução da UP, “a pré-candidatura de Samara é parte da resposta da classe trabalhadora brasileira à terceirização, pejotização, uberização, escala 6×1, às longas e extenuantes jornadas de trabalho, aos baixos salários e à violência contra as mulheres e a população negra”.

Samara Martins é dentista, trabalhadora do SUS no Estado do Rio Grande do Norte, coordenadora nacional da Frente Negra Revolucionária (FNR) e vice-presidente nacional da UP. Desde sua juventude, organiza-se nas lutas populares, a exemplo da conquista do passe-livre estudantil em Belo Horizonte (sua cidade natal), e em defesa da moradia popular nas ocupações urbanas.

Candidatura socialista e revolucionária

Ao Jornal A Veradade, a pré-candidata afirmou que “A Unidade Popular decidiu lançar novamente candidatura à Presidência (ainda na condição de pré-candidatura) por entender que é necessário apresentar ao povo brasileiro um programa realmente socialista, revolucionário, sem conciliação com os ricos deste país. Um programa que não vai propor reformar o capitalismo, mantendo grande parte do orçamento para a ‘bolsa banqueiro’, para pagar uma dívida pública que não tem fim, que serve apenas para enriquecer os que já são muito ricos.”

Em vídeo publicado nas redes digitais da UP, o presidente nacional do partido Leonardo Péricles reafirmou as denúncias das injustiças do capitalismo que a Unidade Popular tem apresentado nas últimas eleições e nas lutas de rua. “Vivemos uma crise geral do sistema capitalista e com ela o aumento da super exploração sobre nós trabalhadores e trabalhadoras. Ao mesmo tempo a destruição violenta da natureza e o aumento das guerras imperialistas. Essa mesma reprodução que se dá no mundo acontece aqui no nosso país, com essa grande burguesia cada dia mais rica e na política através dessa extrema direita fascista, golpista que quer implantar uma ditadura no Brasil. Por isso, anunciamos como pré-candidata a Presidência da República a nossa querida companheira Samara Martins.” afirmou Leo Péricles.

No ano de 2025, a Unidade Popular foi o partido com o maior crescimento proporcional de filiações no Brasil. Nos últimos anos também, a militância da UP tem ampliado sua presença nas lutas populares, estudantis e dos trabalhadores em todo país.

Trabalho coletivo

Samara reafirmou a importância da tarefa que recebeu do Diretório Nacional do partido, ressaltando o caráter coletivo da luta eleitoral da UP. “Recebo com honra a tarefa e estou com muita energia para levar nossa propaganda ao máximo de pessoas, chamar o povo a debater a política. Ressaltando que temos toda uma coletividade que constrói nossas propostas e atividades. Foi assim desde o início, quando passamos dois anos coletando assinaturas e validando nos cartórios para conquistarmos o registro eleitoral da UP.”

O anúncio marca o início de uma nova etapa na mobilização política reafirmando o compromisso histórico do partido com a organização popular, a soberania nacional e a construção de um projeto de país antifascista, anti-imperialista, dirigido pela classe trabalhadora e de caráter socialista.

Segundo a direção nacional do partido, a apresentação pública nas redes será o primeiro passo de um calendário de mobilizações e lutas sociais. Esta também é a primeira pré-candidatura anunciada que é declaradamente socialista nas eleições presidenciais de 2026.

O partido se prepara também para anunciar candidaturas nos estados para as eleições ao executivo e ao legislativo.