UM JORNAL DOS TRABALHADORES NA LUTA PELO SOCIALISMO

domingo, 29 de março de 2026
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“A greve nos ensina que, unidos, podemos conquistar novos direitos”

Professores e orientadores educacionais da rede pública do Distrito Federal iniciaram uma greve em 2 de junho, após o Governo do DF se recusar a negociar e descumprir compromissos firmados em 2023, como a nomeação de aprovados em concurso e a realização de novo edital. 

Alexandre Ferreira | Brasília (DF)


TRABALHADOR UNIDO – No dia 02 de junho, professoras(es) e orientadoras(es) educacionais do Distrito Federal iniciaram uma greve em resposta ao Governo do Distrito Federal (GDF), que se nega a negociar e não apresentou nenhuma proposta à categoria. Como se não bastasse, o governador Ibaneis Rocha (MDB) não cumpriu vários aspectos do acordo da greve de 2023, como, por exemplo, a nomeação de todos os aprovados no último concurso e a preparação de um novo concurso naquele mesmo ano.

O governador, logo após a decretação da greve, declarou que era uma “greve política”, que não iria negociar e entrou na Justiça, que prontamente decidiu pela suspensão da greve e decretou multa de R$ 1 milhão por dia, caso não fosse acatada. Para piorar, o principal argumento foi por não ter tido o “esgotamento das vias negociais entre sindicato e Governo”.

Esta decisão não intimidou os trabalhadores, que demonstram uma grande disposição com ações de ocupação da sede da Secretaria de Educação, assembleias com mais de 4 mil pessoas, passeatas e atos na frente do Palácio do Buriti, sede do GDF.

Toda esta pressão fez o Governo receber a comissão de negociação durante a assembleia da categoria, onde os professores ali permaneceram, mesmo sob o intenso sol do meio-dia. Logo terminado, o comando de greve se reuniu para avaliar a proposta de nomeação, em dezembro, de 3 mil aprovados no último concurso; prorrogação do atual concurso; abertura de um novo edital até o final do ano; criação de um Grupo de Trabalho para discutir a reestruturação da carreira em até 90 dias; anulação das multas de R$ 1 milhão por dia. Proposta que nada apresentou de concreto na restruturação da carreira, nem aumento salarial e promete nomear apenas 3 mil dos mais de 14 mil aprovados no concurso.

Apesar disso, a atual gestão do Sindicato defendeu no comando a suspensão da greve. As forças políticas que são oposição a atual gestão do sindicato, entre elas, o Movimento Luta de Classe (MLC), defenderam que a proposta era insuficiente. Mesmo assim, foi aprovada a proposta de encerramento da greve na comissão. Só que, quando o sindicato foi recebido na assembleia aos gritos de “GREVE! GREVE!”, não tiveram coragem de apresentar a proposta que eles mesmos defenderam, com medo de serem desmoralizados.

A postura da atual gestão do sindicato é um reflexo de uma política social-democrata, que transforma os sindicatos em entidades administrativas, e não em instrumentos de organização e conscientização da classe trabalhadora. Preferem criticar a categoria, dizendo que ela não tem disposição de luta. A realidade, porém, mostra que o problema está mesmo nessas direções sindicais que fazem de tudo desarticular e desestimular a mobilização de base.

A greve é uma escola de formação

A greve é um estágio avançado da luta, em que o trabalhador, submetido a altas jornadas de trabalho, sofrendo com adoecimento, resultado de um trabalho degradante, percebe como única alternativa se organizar com seus colegas e lutar.

“A greve nos ensina que somos fortes e que, unidos, podemos conquistar novos direitos. Esta experiência demonstra a disposição da categoria em participar ativamente da greve e estamos vendo em toda a assembleia várias pessoas se filiando à Unidade Popular. Isso aumenta nossa esperança”, afirma Felipe Sinicio, militante da UP eleito para o comando de greve.

Lênin, líder da Revolução Socialista da Rússia, em 1917, afirma em seu artigo Sobre as Greves, que a greve é uma “escola de guerra”. Ou seja, um processo rico de muito aprendizado. Momento em que o trabalhador desperta sua consciência, fortalece seu espírito de solidariedade. Para ele, a greve é uma excelente professora: “As greves ensinam os operários a unirem-se, as greves fazem-nos ver que somente unidos podem aguentar a luta contra os capitalistas, as greves ensinam os operários a pensarem na luta de toda a classe operária contra toda a classe patronal e contra o governo autocrático e policial”.

Instrumento de luta

A greve continua e, a cada dia, vem se fortalecendo, tendo vitórias como a suspensão da cobrança da multa milionária, resultado de decisão no STF, e o engajamento de mais trabalhadores. Mas sabemos que o Governo fará de tudo para atacar os professores e sabemos que a atual gestão do sindicato cede facilmente a estas pressões.

Muitas vezes, uma greve é encerrada sem vitórias imediatas, criando uma insatisfação em grande parte dos trabalhadores; vários até decidem se desfiliar do sindicato. É necessário compreender que o problema não está na entidade sindicato em si, nem muito menos na forma de luta greve, mas sim na gestão do sindicato.

Logo, em vez de se desfiliar, é necessário convidar mais pessoas para se filiarem ao sindicato e se organizarem no MLC para construir um sindicato forte e que utilize toda a sua estrutura para organizar a luta da categoria. Junto a isso, é preciso apresentar a alternativa que vai além dos marcos do capitalismo, mostrar que é possível uma nova sociedade, a única realmente feita pelos trabalhadores em seu próprio proveito, a sociedade socialista.

Matéria publicada na edição impressa  nº315 do jornal A Verdade

Precarização e pejotização impedem trabalhadores de se sindicalizarem

Trabalhadores da área de tecnologia têm se organizado em núcleos do Movimento Luta de Classes (MLC), em diversos estados do país, para combater a precarização do trabalho no setor.

Núcleo MLC (RS)


TRABALHADOR UNIDO – Ao longo dos últimos dois anos, centenas de trabalhadores da área de tecnologia de informação (TI) e áreas afins se organizaram no Movimento Luta de Classes (MLC) e debateram a precarização do trabalho na área, sua necessidade de organização e de sindicalização. Os núcleos têm se organizado em diferentes estados do Brasil e descobrindo dificuldades parecidas em todo país.

Em primeiro lugar, a pejotização, ou seja, o contrato que obriga o trabalhador a vender sua força de trabalho constituindo um CNPJ (empresa) mascara a real relação trabalhista, sob a justificativa de que o funcionário CLT é caro demais para a empresa e que isso prejudica o trabalhador, as empresas propõem um contrato ilegal. O argumento para convencer os trabalhadores a aceitar esse modelo de contrato é que eles, enquanto profissionais, sofrerão menos descontos de impostos e de INSS e, por isso, receberão um valor maior no final do mês. A verdade é que esse argumento não condiz com a realidade, pois o que leva os profissionais a aceitarem o contrato de pessoa jurídica são as alternativas oferecidas pelas empresas: salários baixos ou desemprego.

O argumento do “salário maior” também se baseia em mentiras. Ao pesquisar na internet “clt ou pj calculadora” é possível encontrar diversos sites que fazem a comparação. O comparativo inclui itens como vale-alimentação, vale-transporte, plano de saúde e “outros benefícios”. Ou seja, oculta do cálculo da Previdência, do FGTS e do seguro-desemprego – excluindo as ferramentas de segurança social criadas para situações de vulnerabilidade como doença, velhice, acidente de trabalho, desemprego ou maternidade, por exemplo. Na prática, para o “PJ” ter segurança nesses momentos, terá que guardar valores todos os meses, o que diminui ainda mais o valor real que recebe e não traz a mesma segurança.

Essa dinâmica é reflexo da ideologia dominante, que coloca nas costas do indivíduo toda a carga do trabalho e, nos momentos de vulnerabilidade, a carga para se recuperar também. Na prática, o que acontece são pequenas poupanças ou investimentos individuais que, quando o profissional precisa parar de trabalhar, não são suficientes para cobrir os gastos: ele fica sem salário, sem benefício social e consome suas economias individuais.

Coletivamente, esse cenário cria uma crise a longo prazo, já que mais pessoas passam a viver em situações vulneráveis, mesmo que antes recebessem um salário suficiente ou até mesmo alto.

A pejotização também impede a sindicalização, ou seja, a organização e negociação coletiva dos trabalhadores ante grandes empresas que, por sua vez, fazem parte de sindicatos patronais fortes. O que coloca os trabalhadores para refletir: se sindicatos são tão ruins como as empresas pregam, por que elas próprias criaram sindicatos patronais?

No período de organização desses trabalhadores, poucos conseguiram se sindicalizar devido à pejotização e a lógica do trabalho remoto em relação aos sindicatos. Os “PJs” são legalmente vistos como empresas e não podem se sindicalizar. Para piorar a situação, alguns sindicatos sequer aceitam trabalhadores autônomos.

Além da pejotização, o teletrabalho (trabalho remoto ou home office), que pode ser sim uma grande qualidade de vida dos trabalhadores, é utilizado como mais uma barreira na sua organização. Convenientemente, as grandes empresas contratam trabalhadores que estão muito distantes da sua sede, mas a negociação é feita exclusivamente com o sindicato dessa sede. Por exemplo, uma empresa de tecnologia de São Paulo pode contratar um trabalhador do interior do Rio Grande do Sul ou do interior do Ceará, mas esse trabalhador será obrigado a se sindicalizar no sindicato de São Paulo.

Essa dinâmica dificulta a comunicação, a associação dos trabalhadores em sindicatos e a manutenção e duração dessa sindicalização. Afinal, com a possibilidade de buscar mão de obra cada vez mais barata no interior do país, as empresas não hesitam em demitir. Assim, o trabalhador precisará de um novo emprego, provavelmente em uma empresa com sede em um local diferente. Se vê obrigado a mudar de sindicato e nunca poderá estabelecer uma relação forte com o sindicato e nem permanecer tempo o suficiente para compor chapas e disputar a direção dele.

Outras duas questões impõem grandes dificuldades à organização dos trabalhadores da tecnologia: a contratação realizada por empresas estrangeiras, que não negociam com os sindicatos brasileiros, e a contratação em empresas não caracterizadas como de tecnologia.

No último caso, um programador contratado por um e-commerce, precisa se associar ao sindicato de empregados no comércio. Já um especialista em banco de dados que trabalhe para uma universidade, precisará ser coberto pelo sindicato ou dos trabalhadores técnicos da universidade.

O que os trabalhadores organizados nos núcleos de tecnologia do MLC, em todo o Brasil, têm descoberto são inúmeras barreiras à organização enquanto classe nos espaços dos sindicatos. Estatutos sindicais, regulamentações e formas de organização legais hoje não condizem mais com a realidade do trabalho na tecnologia.

Para reverter essas situações, é preciso combater a ideologia que individualiza os riscos do trabalho, a pejotização, conscientizando a respeito dos direitos que ficam ocultos nas ofertas de trabalho PJ. Também participar e pressionar os sindicatos a rever seus estatutos, buscando formas de incluir os trabalhadores autônomos e pejotizados e lutar por uma integração sindical que consiga garantir direitos e proteção aos trabalhadores remotos – seja em território brasileiro ou internacional.

Não podemos ficar parados, enquanto não for possível participar de forma adequada e formal dos sindicatos que deveriam nos representar, precisamos nos organizar como classe trabalhadora e fomentar esse tipo de discussão nos nossos grupos de colaboradores, conscientizando aqueles que não conhecem ou não se sentem parte da luta sindical pelos direitos dos trabalhadores de tecnologia.

Matéria publicada na edição impressa  nº315 do jornal A Verdade

“Cadê a praça que estava aqui?”

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As praças públicas deveriam ser espaços de lazer, cultura e convívio social com a natureza, mas não é bem isso que vemos na realidade das grandes cidades. E a cidade do Recife é prova disso. 

Nayara Ramos | Recife (PE)


BRASIL – Em meio à selva de pedras que é uma cidade grande, como é o caso do Recife, praças e parques são essenciais para oferecer um respiro verde à população. Esses espaços promovem saúde física e mental, proporcionando ambientes para a prática de exercícios e esportes, lazer, apreciação da natureza e contato com outras pessoas. O problema é saber se esses espaços estão sendo oferecidos para a população, e como estão sendo ofertados.

Na Praça do Cavouco, localizada na Zona Oeste da capital pernambucana, em um bairro residencial, e fazendo parte do Programa Academia da Cidade (PAC), gerenciado pela Prefeitura do Recife, que deveria fornecer à população uma área de atividade física, pista de cooper, quadra poliesportiva e um parque para crianças, hoje possui apenas a quadra e a área de atividade em boas condições de uso, deixando os moradores sem aproveitar o espaço.

Abandonar espaço público é abandonar o povo

O direito ao lazer e à saúde são garantidos pela Constituição Federal, mas, no Brasil, esse e outros direitos não chegam em muitos bairros similares ao da Iputinga. Uma das principais preocupações dos moradores é a falta de manutenção da pista de corrida, onde o acúmulo de sujeira já causou até quedas de pessoas idosas. Renata, aluna da academia relata: “Só não caí porque uma colega do meu lado me segurou. É muita sujeira. Muitas senhoras idosas caminham aqui mas a gente não vê uma manutenção. Será necessário esperar alguma tragédia para que a Prefeitura tome providências?

A falta de lixeiras e a limpeza irregular da praça reforçam a sensação de abandono. Moradores já cobraram melhorias na praça, mas nunca tiveram resposta da prefeitura. Quando não há atividade na academia ou na quadra, o local atrai a presença de usuários de drogas e aparenta insegurança para a população. Sandra, outra aluna da academia, conta que tentou passear com seus filhos numa tarde e não se sentiu segura: “É muito frustrante isso, você está querendo aproveitar o seu bairro e não pode”.

Outra questão que afeta a população são os cavalos soltos no local. A população solicitou por diversas vezes a remoção dos animais, mas com a postura indiferente da prefeitura a situação persiste, assim como persistem as fezes dos bichos no local e a falta de uma limpeza mais regular e constante.

Uma questão de classe

Essa é a triste realidade de quem utiliza a Praça do Cavouco: parque quebrado e perigoso para crianças, fios elétricos expostos e até mesmo o banheiro do local, interditado por 6 meses. O abandono é generalizado. No fim, o que importa é a falta de atenção da Prefeitura do Recife para bairros que não estão nas áreas “nobres”, onde o uso do dinheiro público é para favorecer bairros ricos.

Isso fica claro ao atravessar a ponte que conecta a Iputinga com à Zona Norte do Recife. No Parque Jardim do Poço, localizado em bairro nobre, a grama bem irrigada, a limpeza é frequente e os brinquedos estão em pleno funcionamento para os filhos de quem tem dinheiro. Enquanto o interesse público não cuidar verdadeiramente de toda a população, as “Praças do Cavouco” pelo Brasil continuarão abandonadas e perigosas.

O Recife do comercial é outro

Esse abandono das praças públicas enquanto espaços de cultura e lazer para a grande população é um reflexo de uma política populista e enganosa, sobretudo em épocas de redes digitais. Um exemplo disso é que o prefeito do Recife, João Campos (PSB), gastou nos últimos quatro anos (2021 a 2024), R$609 milhões com propaganda, shows e eventos, enquanto destinou apenas R$ 234 milhões em manutenção e drenagem da cidade, deixando escancarado todo o transtorno que vemos quando chove. Ou seja, o Recife na propaganda da prefeitura é bem diferente do mundo real. Enquanto a população paga seus impostos, a sequência de privatizações (disfarçadas de concessões) deixa claro que o interesse real é beneficiar empresários e não cuida do dia a dia do povo trabalhador.

No início desse ano, o prefeito recifense aumentou em 25% o número de cargos comissionados e as gratificações na prefeitura, aumentando os gastos em R$ 65 milhões ao ano, enquanto propôs um “aumento” de 1% no salário dos servidores, levando diversas categorias a fazerem greves e paralisações. A cidade não acolhe quem lhe mantém, e o abandono dos mínimos espaços para quem deseja um mínimo de saúde mental e lazer, se quer consegue ter acesso.

Só a ação popular faz a diferença

No bairro de San Martin, Zona Oeste do Recife, a Associação Amorforte, coletivo que debate gestão ambiental e os espaços públicos na cidade, mostrou que a mobilização comunitária traz resultados. Criada a partir do incômodo da população com a sujeira, insegurança e abandono dos bairros recifenses, conseguiram, depois de muita mobilização por meio de eventos, palestras e debates, que a prefeitura revitalizasse 3 praças com manutenção, arborização e novos parques, e segue lutando por melhorias, mostrando que quando o povo age de forma coletiva e organizada, consegue realmente mudar a realidade.

Enquanto essa política só atende aos interesses dos pouquíssimos ricos, e a maior parte da população sofrer com serviços precários, todos os trabalhadores e trabalhadoras tem o direito de exigir viver em cidades com espaços públicos limpos, seguros e acessíveis. Mais ainda: é necessária uma transformação social na qual o poder político e a capacidade de gerar mudanças verdadeiras esteja nas mãos da classe trabalhadora e só com organização e luta o povo poderá conquistar isso.

O direito à cidade é um direito também a questões básicas, cotidianas, mas que também fazem parte das necessidades básicas e que também nos diz respeito.

Moradores do Jardim Pantanal resistem a despejos e denunciam ataques constantes na região

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Moradores do Jardim Pantanal se organizam para resistir à primeira fase dos despejos no bairro e denunciam que a prefeitura está mentindo e manipulando os moradores para entregarem suas casas.

Wildally Souza | São Paulo (SP)


LUTA POPULAR – O ano de 2025 tem sido marcado por inúmeros ataques da prefeitura e do governo do estado de São Paulo aos moradores do Jardim Pantanal, localizado no distrito do Jardim Helena, zona leste de São Paulo.

No começo do ano, os moradores enfrentaram uma das maiores enchentes na comunidade, resultante do descaso histórico dos governantes com a região. Na ocasião, os trabalhadores perderam diversos pertences. No mesmo período, as famílias que ali residem tiveram que ver seu bairro sendo invadido pela Guarda Civil Metropolitana (GCM) e por funcionários da prefeitura e da Companhia de Desenvolvimento Habitacional e Urbano (CDHU), para uma operação de despejo que ameaça milhares de casas.

Além da ação de despejo, moradores relatam que receberam multas por morarem no local. Algumas das multas chegam a R$5 mil reais. A justificativa da prefeitura é de que as pessoas estão arriscando suas vidas em imóveis irregulares e que não querem sair do local. Suleiman Rosário denúncia que “se nos tirarem daqui, só temos um lugar para ir: às ruas ou pra debaixo dos viadutos”.

Suleiman é ex-auxiliar de cozinha e já trabalhou no gabinete da prefeitura. Após receber valores retroativos de um auxílio-doença congelado por 5 anos, finalmente conseguiu conquistar o terreno e sair do aluguel. Suleiman divide o terreno com sua filha, o genro e o neto.

“Eles estão mentindo pra nós. Vejam minha sogra aqui, só conseguiu sua casa depois de muitos anos trabalhando e ainda nem terminou ela toda por falta de dinheiro. Além disso, eu e minha esposa só conseguimos ter onde morar porque ela deixou a gente construir uma casa aqui em cima dela. Para onde vamos todos nós? Será que eles não pensam nisso? Na verdade, eu acho que pensam sim, mas eles gostam de ganhar dinheiro em cima da nossa miséria”, disse Lucas Brito, genro de Suleiman.

Selagem das casas é marcada por manipulação

Desde essa segunda-feira (28), uma nova ação da prefeitura com o objetivo de avançar os despejos foi implementada. Funcionários da prefeitura e do CDHU, acompanhados por assistentes sociais, iniciaram a chamada “selagem das casas”, que consiste na fixação de uma etiqueta de marcação nos imóveis com o objetivo de mapear os imóveis e colocá-los oficialmente na lista de despejo.

Aliciando os moradores com promessas distintas e contraditórias, os funcionários da prefeitura revelam o caráter emergencial dos despejos. Moradores relatam que eles chegam fazendo diversas perguntas e quando eles entendem qual o tema “mais sensível nas nossas vidas, começam a usar disso para nos convencer de entregar tudo que temos pra eles.”

De acordo com os comunicados da prefeitura, comandada por Ricardo Nunes (MDB), a ação faz parte da operação “Recupera Pantanal”, que está dividida em três fases com a previsão de despejos de 4 mil famílias, até 2029. Essa primeira fase conta com o despejo de mil famílias até novembro de 2025 e a a construção de um gabião (espécie de gaiola preenchida com pedras para conter deslizamentos ou avanços de rios).

De acordo com o plano oficial da prefeitura, serão mais de 4.344 famílias despejadas, contudo os moradores denunciam que nas reuniões que tiveram com a prefeitura, os funcionários de Nunes não sabiam sequer a geografia do bairro e que as linhas traçadas para o plano corta ruas e quarteirões inteiros que não estão considerados no plano, aumentando o número de casas e famílias na linha dos despejos no bairro ainda nessa primeira fase.

Até o momento, mesmo já com a selagem e marcação das casas, Ricardo Nunes e o governador Tarcísio de Freitas (União Brasil) não divulgaram quais seriam as alternativas para os moradores. Apesar disso, desde o começo da operação, foi observado que os funcionários do CDHU prometem desde indenizações irreais e falsas, até novas casas em bairros diversos.

Deise Nascimento, assistente social e militante do Movimento de Mulheres Olga Benario, diz que conhece bem a prática de seus colegas e alertou os moradores sobre práticas ilegais que constantemente aparecem nessas ações. “Não é só o direito à moradia que está sendo atacado, mas existem ameaças sutis usando o medo das pessoas, principalmente as mães e as pessoas idosas. Eles usam as crianças e a vulnerabilidade das pessoas para que assinem de forma desesperada, acordos ilegais e cheios de falcatruas. É um claro abuso ao Estatuto do Idoso e ao Estatuto da Criança, que garantem moradia digna para essas pessoas.

Moradores organizam resistência

Na noite desta terça-feira (29), dezenas de moradores do Jardim Pantanal se reuniram junto ao Movimento de Luta nos Bairros, Vilas e Favelas (MLB), para debater os próximos passos da resistência contra os crimes e os despejos de Nunes e Tarcísio em mais uma periferia de São Paulo.

Todos os presentes na reunião afirmam que essa selagem não os intimidou e que essa ação só demonstram que os governantes de São Paulo não se importam com suas vidas e querem despejá-los para “vender essas terras para os ricos construírem prédios ou fazer uma grande obra para vender (privatizar), logo depois”.

Reunião de moradores do Jardim Pantanal nesta terça-feira (29) Foto: Wildally Souza/JAV SP

Antônio Barros, 70 anos e morador do Jardim Pantanal há mais de 30 anos, conversou com a equipe do jornal A Verdade e nos disse que a resistência no Pantanal cresce porque há um esforço comunitário dos que já entenderam a ação para conscientizar os que ainda não entenderam: “Onde eu moro, tô todo dia indo de casa em casa para conscientizar meus vizinhos. Ganhei até um almoço esses dias enquanto tava conversando sobre isso. Não vamos deixar que nossas casas sejam colocadas no chão. Se vierem para destruir, vão sair destruídos”.

Já Rosileide Pereira, moradora da região, expressou que se apega aos exemplos de luta que já presenciou: “Lá no Jardim Romano, o povo colocou o Kassab pra correr debaixo de pau e o Serra também, eu lembro muito bem. E vejam, conseguiram suas casas. Se for preciso, quando esses vierem mentir pra gente aqui, a gente vai fazer o mesmo, nossas casas em pé vão ficar.”

Rosileide faz referência a um episódio que ocorreu em 2010, no Jardim Helena, quando o ex-prefeito Gilberto Kassab foi desafiado pelos moradores a andar com o pé na lama, mas na ocasião, decidiu percorrer as ruas na traseira de uma caminhonete e debochou da situação dos moradores.

Agora, os moradores do Pantanal se preparam para as lutas da próxima semana e cobram da prefeitura uma resposta imediata frente a esses despejos. Caso contrário, dizem que irão ocupar a prefeitura e só sairão de lá quando suas casas não forem mais ameaçadas.

Ao jornal A Verdade, Sidney da Cruz, Secretário de Habitação da cidade de São Paulo se recusou a falar sobre o Jardim Pantanal e os despejos.

26 de Julho – Dia da Rebeldia Cubana é comemorado em Recife no Centro Cultural Manoel Lisboa

O povo cubano tem orgulho de sua revolução e luta até hoje pela sua autonomia. Foto: reprodução.

 

Mais um ano o Centro Cultural Manoel Lisboa em Pernambuco (CCML) promoveu junto ao Comitê de Solidariedade com Cuba uma noite de homenagem e solidariedade com o povo cubano e sua revolução, que prossegue mesmo com toda perseguição do imperialismo. 

Madu Silva – Recife


 

INTERNACIONAL- Neste último sábado, dia 26 de julho, completaram-se 72 anos do assalto ao Quartel Moncada, quando Fidel Castro e 165 homens tentaram tomar o quartel para armar a população e derrubar o governo de Fulgencio Batista. A tentativa, fracassada, é considerada como o primeiro passo para a vitoriosa revolução cubana de 1959, que instaurou o governo socialista na ilha.

Em Recife, o Fórum Pernambucano de Solidariedade com Cuba e o Centro Cultural Manoel Lisboa organizaram um cine debate para relembrar a luta do povo cubano e exigir o fim do bloqueio criminoso dos Estados Unidos à Cuba. Dezenas de pessoas participaram do evento e puderam assistir vídeos que relembraram a história do assalto ao Quartel e também que traziam a realidade atual de Cuba e como os cubanos vêm tentando superar os efeitos que o bloqueio tem causado.

A noite finalizou com um debate onde foi colocado a necessidade de sempre comemorarmos datas como essa, sempre manter acesa a chama da luta pelo comunismo em todo o mundo e de relembramos aqueles que deram as suas vidas por uma nova sociedade, além de reforçar a importância entre a solidariedade entre os povos, estarmos juntos na luta pelo fim do bloqueio econômico que há 65 foi imposto à Cuba pelos Estados Unidos. Estiveram presentes o Partido Comunista Revolucionário, a Unidade Popular pelo Socialismo, o Partido Comunista Revolucionário, a União da Juventude Rebelião, o Movimento de Mulheres Olga Benario, Minervino de Oliveira, o Movimento Ana Montenegro, a União dos Estudantes de Pernambuco, a União dos Estudantes Secundaristas de Pernambuco e a Frente Negra Revolucionária.

 

O trabalho sistemático contra a escala 6×1 e a formação de novos núcleos de trabalhadores

Nos últimos meses, a Unidade Popular (UP) e o Movimento Luta de Classes (MLC) organizaram protestos e paralisações em fábricas e centros comerciais, defendendo a redução da jornada, aumento do salário mínimo e fortalecimento da organização sindical de base.

Pedro Morais | Florianópolis (SC)


TRABALHADOR UNIDO – Todo trabalhador sente o peso da escala 6×1. A falta de tempo para aproveitar a família, cuidar da casa, descansar e estudar faz parte da exploração da força de trabalho, que serve apenas para enriquecer uma minoria de burgueses. A verdade é que a redução da jornada de trabalho não vai acontecer sem uma sólida organização e uma luta ferrenha da classe trabalhadora.

Nos últimos meses, a pauta pelo fim da escala 6×1 ganhou uma adesão forte do povo brasileiro, exausto de passar horas no trabalho e no transpor coletivo para ganhar um salário de miséria. A Unidade Popular (UP) e o Movimento Luta de Classes (MLC) realizaram dois grandes atos nacionais pelo fim da escala 6×1, redução da jornada de trabalho e aumento de 100% no salário mínimo. As ocupações de shoppings, mercados, grandes centros comerciais e os atos na frente de fábricas tiveram amplo apoio popular. Na fábrica Tupy, em Joinville (SC), os operários chegaram a paralisar suas atividades.

Frente a essa realidade, está posta a necessidade de organização da classe trabalhadora em diversos níveis e formas. Elaborar um plano de lutas coletivo e desenvolver a linha política é fundamental para que os núcleos da UP e do MLC tenham vida orgânica e ativa nas lutas diárias.

Um núcleo pode ser formado por trabalhadoras do shopping, por exemplo. Três pessoas já são o suficiente para organizar reuniões frequentes e formular ações para a elevação da consciência dos trabalhadores de que é possível não só derrubar a 6×1, mas também esse sistema capitalista e construir um processo revolucionário por meio da propaganda sistemática do socialismo.

Um núcleo estabelecido é capaz de promover rodas de conversa, formações, panfletagens, colagens de cartazes nos arredores e preparar uma ofensiva sindical contra os patrões. Em Florianópolis, o núcleo da UP com trabalhadores realiza panfletagens e brigadas semanais do jornal A Verdade em um shopping. Esse trabalho só acontece por conta da determinação dos companheiros, mas também porque o núcleo funciona e tem política de autossustentação.

A formação de novos núcleos de trabalhadores é peça-chave na engrenagem da luta sindical e revolucionária. A partir dos núcleos, realizamos brigadas sistemáticas, temos planos de finanças e atuamos com a linha política acertada, elevando o ânimo dos trabalhadores para grandes paralisações e greves.

Matéria publicada na edição impressa  nº315 do jornal A Verdade

Portuários lutam contra PL da Privatização dos Portos

Apresentado pelo deputado federal Leur Lomanto Júnior (União Brasil), o Projeto de Lei nº 733/2025 propõe a ampliação da privatização dos portos brasileiros, colocando em risco empregos, salários e direitos históricos dos portuários.

Henry Amorim | Santos (SP) e Welfesom Alves | Belém (PA)


TRABALHADOR UNIDO – No último mês, trabalhadores do setor portuário foram surpreendidos por um novo Projeto de Lei (nº 733/2025), que pretende privatizar mais áreas dos portos, ameaçando empregos, salários e direitos trabalhistas. O PL, apresentado pelo deputado federal Leur Lomanto Júnior (União Brasil), que mantém estreitos vínculos com multinacionais envolvidas nas atividades portuárias na Bahia, especialmente no segmento de cruzeiros, propõe a reestruturação do setor portuário, fortalecendo o poder das empresas, aumentando a concentração econômica e a precarização das relações trabalhistas.

Uma das principais mudanças previstas é a possibilidade de transformar áreas de uso comum, como os cais públicos, em espaços de uso exclusivo por um único operador. Dessa forma, as empresas que “comprarem” esses espaços poderão controlar as cargas embarcadas e desembarcadas, ampliando seu poder e sobrepondo os interesses privados às necessidades públicas. Essa concentração pode afetar o abastecimento e a economia do país, já que a administração dos portos passa a atender ainda mais ao lucro das grandes empresas, em vez dos interesses nacionais.

A aprovação do projeto também eliminaria a exclusividade na contratação de trabalhadores pelo Órgão Gestor de Mão de Obra (OGMO), permitindo que as empresas façam contratações diretas, com salários mais baixos e sem garantia de estabilidade.

A proposta ainda ameaça a extinção da Autoridade Portuária Pública, atualmente responsável pela administração dos portos, abre caminho para a privatização e a terceirização das atividades portuárias, pode levar à extinção da Guarda Portuária e ainda aumentar os custos das operações.

Além de atacar os direitos trabalhistas e prejudicar a operação portuária, é importante destacar que o PL 733 é inconstitucional, já que a Constituição Federal define que a legislação portuária é competência do Governo Federal. No entanto, essa prerrogativa é desrespeitada, enquanto o PL tramita na Câmara dos Deputados sem a participação do Executivo. Mesmo assim, apesar da pressão dos trabalhadores, o Governo Lula não reivindicou essa competência e tem deixado a matéria avançar, inclusive em Comissão Especial na Câmara.

Soberania Nacional

Mas, afinal, o que essa “modernização” quer dizer na prática para os portos brasileiros?

O projeto entrega o controle de um setor altamente estratégico às empresas privadas. Num único mês (abril deste ano), os portos brasileiros movimentaram 107,6 milhões de toneladas de cargas, registrando um recorde histórico, impulsionado pelas exportações de gêneros alimentícios, segundo a Agência Nacional de Transportes Aquaviários (Antaq).

Portos alfandegados são considerados áreas de fronteira, sendo, portanto, porta de entrada e saída do país. Com a privatização dos cais, até o controle dessa fronteira passa às mãos de empresas, aumentando a vulnerabilidade da soberania nacional. A situação se torna ainda mais grave porque o PL nem ao menos prevê a presença da Guarda Portuária, abrindo espaço para a contratação de seguranças terceirizados, aumentando a precarização do trabalho e transferindo para entes privados uma função que é, na realidade, de interesse nacional.

Quanto às tarifas, o exemplo do Porto de Vitória, no Espírito Santo, é emblemático: após a privatização promovida pelo Governo Bolsonaro, suas taxas de operação aumentaram em até 1.080%.

Direitos dos portuários

Além dos impactos nas operações, o PL 733/2025 representa um grande retrocesso para os trabalhadores portuários, ameaçando direitos históricos conquistados com muita luta. Pela primeira vez em mais de cem anos, pretende-se acabar com a exclusividade do trabalho portuário, princípio que garante que a contratação dos trabalhadores portuários avulsos seja feita exclusivamente por meio do OGMO.

Este princípio evita a contratação desordenada pelas empresas, aumentando a organização, a segurança trabalhista e a estabilidade para os portuários, além de garantir uma operação portuária mais eficiente e segura. Até hoje, a exclusividade não havia sido atacada exatamente por ser reconhecida como essencial para o funcionamento seguro, eficiente e organizado dessa atividade estratégica para a economia do país.

Na prática, o PL permitirá que os terminais, administrados por multinacionais, contratem quantos trabalhadores quiserem, sem regras claras, acumulando funções, modificando a forma de pagamento, reduzindo salários e aumentando o risco de acidentes. O objetivo é claro: mais lucros para os empresários, às custas da exploração e da perda de direitos dos trabalhadores.

Gilberto, estivador do Porto de Santos, no Estado de São Paulo, destaca que os trabalhadores nem foram consultados na formulação do PL: “É como eles querem. Querem engolir tudo pra eles. Mas, pra gente, o que importa em primeiro lugar são os direitos dos trabalhadores. A briga é nossa e vamos conquistar o que é nosso”.

As mobilizações contra o PL 733/2025 se iniciaram ainda em maio. Em Brasília, as entidades sindicais já alertavam sobre o real objetivo do PL, que é maximizar os lucros através da redução da remuneração dos trabalhadores. No Porto de Santos, poucos dias depois que o texto chegou à Câmara dos Deputados, os trabalhadores tomaram as ruas da cidade e marcharam até o sindicato, onde realizaram uma assembleia com a presença de várias categorias.

No dia 13 de junho, trabalhadores e trabalhadoras do setor portuário realizaram um ato nacional, organizado pelas três federações que representam os trabalhadores dos portos, a Federação Nacional dos Portuários (FNP), a Federação Nacional dos Estivadores (FNE) e a Federação Nacional dos Conferentes e Consertadores de Carga e Descarga, Vigias Portuários, Trabalhadores de Blocos, Arrumadores e Amarradores de Navios nas Atividades Portuárias (Fenccovib), junto com os sindicatos da base.

O ato foi realizado em clima de indignação, e a categoria tem manifestado sua insatisfação contra o PL, demonstrando disposição para organizar greves nos portos e impedir esse ataque aos seus direitos e à privatização. Em uma das falas durante o ato em Santos, um trabalhador destacou: “Nós não somos contra a modernização. Pelo contrário, a verdadeira modernização fortaleceria o trabalhador, garantiria dignidade, ampliaria direitos e valorizaria a mão de obra. O que rejeitamos é o desmonte de tudo o que conquistamos com décadas de luta”.

Interesse das operadoras

A Federação Nacional das Operações Portuárias (Fenop), entidade que representa os operadores portuários privados, elaborou e vem articulando a aprovação do PL 733 sem a participação de setores essenciais da sociedade, como os trabalhadores portuários, seus sindicatos e órgãos públicos. Isso porque é impossível apresentar justificativas plausíveis para os impactos negativos que serão gerados em setores como o de cargas, que deverá enfrentar aumentos exponenciais nos preços das movimentações.

A audiência pública realizada no final de maio na Câmara dos Deputados, evidenciou os efeitos nefastos desse PL nas relações de trabalho. Entre as principais medidas estão: 1) o fim da exclusividade dos trabalhadores portuários avulsos; 2) a perspectiva de extinção da Autoridade Portuária Pública; 3) a privatização e terceirização das atividades portuárias; e 4) a extinção da Guarda Portuária.

A verdade é que buscam maximizar os lucros dos operadores portuários privados a qualquer custo, mesmo que isso prejudique o país, que passará a pagar mais caro pelos produtos, enquanto vê suprimidas as conquistas trabalhistas e tem sua soberania nacional transferida para interesses privados. Esse modelo neoliberal de desenvolvimento, que transforma tudo em mercadoria, deve ser combatido com firmeza, pois trata a vida das pessoas como algo secundário, supérfluo e descartável.

Enquanto vivermos neste modelo, medidas como essa, que visam a precarizar o trabalho e atacar cada vez mais os direitos conquistados, serão comuns. Por isso, é preciso construir uma sociedade onde o trabalho nos portos esteja a serviço dos trabalhadores e dos interesses verdadeiramente nacionais, com o comércio exterior destinado às necessidades do povo.

A luta contra o PL 733/2025 é uma defesa da soberania nacional, dos interesses da classe trabalhadora e da construção de uma nova sociedade. Só a organização dos trabalhadores é capaz de barrar esse projeto!

Matéria publicada na edição impressa  nº315 do jornal A Verdade

“Agora vou pra dentro da FNR”

Cleberton Santos, o Tavinho, para os amigos, 35 anos, morador da favela da Jaguaré, na Zona Oeste de São Paulo, homem negro e trabalhador, foi preso injustamente no começo de abril, três dias depois de ter participado do lançamento da Frente Negra Revolucionária (FNR) na capital paulista. Os militantes e advogados da Frente atuaram no processo, juridicamente e apoiando os familiares, conquistando sua liberdade após dois meses de luta.

Tiago Lourenço | São Paulo (SP)


A Verdade – Tavinho, nos conte um pouco sobre você.

Tavinho Eu cresci numa família contaminada pelo racismo, uma família de criação, devido à dificuldade da minha mãe que veio pra São Paulo fugindo do meu pai e me deixou com essa família.

E eu cresci basicamente sem consciência racial. Foi uma coisa que eu adquiri mesmo no começo da fase adulta, e foi um pensamento que só se consolidou com o passar dos anos, quando eu comecei a pesquisar e refletir mais sobre a realidade cotidiana do povo preto.

Eu passei a perceber como o sistema é estrategicamente viciado para desfavorecer as pessoas pretas. Pode-se dizer que muito da minha consciência política, da minha luta, veio disso. Muito da reflexão mesmo, do cotidiano, e muito apoiado no conhecimento da História, dos fatos, inclusive de militantes conscientes que são exemplo pra mim.

Como você conheceu a FNR?

O pessoal da brigada do jornal A Verdade conversou comigo e me apresentou a Unidade Popular (UP) e o Movimento de Luta nos Bairros, Vilas e Favelas (MLB), e eu comecei a participar das atividades, das brigadas e reuniões.

Um dia, eles me contaram que a UP e os movimentos iriam fundar a Frente Negra Revolucionária, uma forma de organizar o povo preto, uma coisa que eu esperava muito, que é uma coisa que eu almejo muito, até mesmo pelo exemplo dos Panteras Negras.

Como eu já conversava com o coordenador do meu núcleo do MLB sobre isso, pra mim a pedra de toque para considerar um partido revolucionário, no Brasil, é a visão que ele tem do povo preto. Porque muita gente de esquerda tem uma visão distorcida sobre a população negra. Então eu sempre cobrei isso e vocês deram a resposta perfeita, que foi o lançamento da FNR.

Quando aconteceu o lançamento da Frente, em São Paulo, eu fui lá conhecer. Infelizmente, três dias depois, aconteceu a minha prisão, que me afastou por pouco tempo, mas estamos aí de volta. Agora vou pra dentro da FNR.

Como a FNR ajudou nesses dias de detenção?

Não existe palavra melhor pra explicar do que família. O pessoal se tornou literalmente minha família, me abraçou, juntamente com meus familiares. E, inclusive, por ter mais condições, por estar mais atento à realidade, participou muito mais ativamente nesse momento difícil da minha vida do que a minha família.

Desde o começo, disseram que não iam me deixar para trás por nada, esclareceram os fatos, conversaram muito comigo e deram todo o apoio necessário. Mais do que o apoio material, me deram especialmente o apoio moral, me incentivando a lutar.

Eu escutei palavras muito importantes dos advogados que foram lá me ver, que realmente foram de arrepiar, palavras que motivam mesmo, que comprovam o compromisso, porque eles pegaram o caso de uma pessoa desconhecida, e eles literalmente se colocaram no meu lugar, se sentiram no meu lugar e me defenderam como família deles.

A FNR me deu uma lição de vida mesmo. E, claro, não posso esquecer que assim que eu ganhei a liberdade, os primeiros que estavam lá me esperando eram o pessoal do Partido e da FNR.

Me acompanharam desde o começo, e esse é um parâmetro muito importante nessa questão da união do povo preto, a união do povo trabalhador, a questão das pessoas olharem pro lado dos trabalhadores e lutarem pelos trabalhadores, porque eu fui preso injustamente e eles abraçaram com unhas e dentes o meu caso, e conseguiram virar o mundo e me tirar da mão da lei burguesa.

Penso que o que eu vou fazer o restante da minha vida é atuar e ajudar a construir a FNR e a Unidade Popular.

Matéria publicada na edição impressa  nº315 do jornal A Verdade

Polícia mata jovem negro em festa junina no Rio

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Um jovem negro foi morto e cinco pessoas ficaram feridas durante uma operação do Bope em uma festa junina na favela do Santo Amaro, na Glória, Zona Sul do Rio, na noite de 7 de junho.

Renan Carvalho | Rio de Janeiro (RJ)


BRASIL – No último dia 07 de junho, moradores da favela do Santo Amaro, localizada no bairro da Glória, Zona Sul do Rio de Janeiro, foram mais uma vez surpreendidos com uma ação absurda do Batalhão de Operações Policiais Especiais (Bope). Os policiais chegaram atirando no local onde estava ocorrendo uma festa junina.

Os vídeos mostram que, no momento, não havia qualquer confronto ou presença de pessoas armadas, e que a festa ocorria de forma pacífica e com muita alegria. Fruto dessa ação criminosa da polícia, o jovem Herus Guimarães, de 24 anos, foi assassinado com um tiro na barriga.

A mãe, Mônica Guimarães, relata que Herus morreu com o celular e o pix aberto para pagar o lanche que estava comprando, que policiais impediram o socorro, arrastaram Herus pelas escadas e debocharam da família. O jovem não resistiu e faleceu no hospital. Outras cinco pessoas ficaram feridas.

Revolta popular

A família, a comunidade e a população carioca se revoltaram e realizaram diversos protestos cobrando justiça pela morte de um trabalhador, mas, mais uma vez, a Polícia reprimiu e tentou intimidar aqueles que protestavam contra a morte de Herus.

“A gente precisa de resposta pra isso tudo. Não é porque a gente mora em favela que a gente é traficante, que a gente é bandido!”, desabafou Simone Guimarães, tia de Herus.

Dias depois do ocorrido, o governador do Estado do Rio de Janeiro Cláudio Castro (PL) e toda a mídia burguesa trataram o caso como mais um caso isolado, como se o método de atuação, a formação dos policiais, a escolha política da “guerra às drogas” e a estrutura das corporações não tivessem influência alguma sobre todos esses casos de abusos.

Após a intensa pressão popular, dois coronéis foram exonerados de seus cargos de comando. No entanto, o governador – que é o chefe da Polícia Militar – assina embaixo todo tipo de ação violenta da corporação, sendo o Governo Estadual, portanto, o maior promotor de chacinas nos últimos 30 anos.

Política do extermínio

Não é novidade que as Polícias Militares dos estados brasileiros sempre tiveram métodos violentos para atuar nas áreas de periferia e bairros pobres do nosso país. Desde a sua criação, baseada em uma organização voltada para capturar escravizados que haviam fugido, foi se moldando e se adaptando ao longo dos últimos 200 anos para promover a defesa do patrimônio dos ricos e aplicar a política do terror de Estado nas favelas a partir de torturas, invasões às casas de moradores e agressões, práticas que foram, inclusive, refinadas na época da ditadura militar fascista, de 1964 a 1985.

Essa é uma política que vai na contramão de resolver o problema da segurança pública. A escolha do confronto sempre violento é um claro lobby das empresas que vendem armamentos, blindados, viaturas, helicópteros, fardas, e tudo que envolve a indústria da segurança, no qual bilhões e bilhões são investidos por ano nas polícias no Rio de Janeiro, sendo a pasta da Segurança Pública o segundo maior em custo para o Estado.

Matéria publicada na edição impressa  nº315 do jornal A Verdade

Governo de Israel extermina palestinos e bombardeia Irã

O Estado de Israel mantém, há mais de 620 dias, um verdadeiro genocídio que já matou mais de 60 mil palestinos na Faixa de Gaza.

Felipe Annunziata e Rafael Freire | Redação


EDITORIAL – São mais de 620 dias de genocídio do povo palestino na Faixa de Gaza. Apesar disto, os governos capitalistas e imperialistas do mundo assistem calados ou mesmo apoiam o extermínio de crianças, mulheres, idosos, enfim, de famílias inteiras.

A “nova tática” do governo neonazista de Israel é oferecer “ajuda humanitária” aos palestinos em centros controlados por uma empresa privada estadunidense disfarçada sob o nome de Fundação Humanitária de Gaza (GHF), enquanto abrem fogo indiscriminadamente contra a população faminta e mutilada física e emocionalmente.

Em apenas um dia, 11 de junho, os mercenários de Donald Trump e Benjamin Netanyahu assassinaram 80 palestinos em Gaza, sendo 57 mortos enquanto buscavam comida. Nesses “centros de distribuição”, os palestinos são tratados da mesma forma como os judeus eram tratados pelos nazistas nos campos de extermínio da Europa na 2ª Guerra Mundial.

“Não quero que meu pai morra, não quero que ele se vá! Acabou! Não haverá mais um sorriso! Papai foi buscar algo para comermos e estava levando mais pessoas para buscar comida. Estamos famintos há três meses”, falou numa rede digital a filha de Khaled al-Daghma, assassinado na fila da fome. “A comida virou uma oportunidade para matar. Nunca ouvi falar de tal coisa”, afirmou em entrevista à rede Al Jazeera o ex-chefe de ajuda humanitária da ONU, Martin Griffiths.

Israel segue com bombardeios a casas com famílias inteiras dentro e o bloqueio total da entrada de comida e água, que começou em março. Já são mais de 60 mil mortos, 140 mil feridos e dezenas de milhares de desaparecidos. Toda população da Faixa de Gaza se encontra abaixo da linha da miséria, em situação de fome, sem-teto, sem sistema de saúde, educação, saneamento e água. Mesmo com tudo isso, a resistência palestina continua firme e o povo de se recusa a sair de seu território.

Em cima do muro?

Alguns importantes países, como o Brasil, adotam uma posição totalmente contraditória em relação ao extermínio em Gaza. O presidente Lula condena publicamente o genocídio: “O que está acontecendo em Gaza não é uma guerra, é um genocídio de um exército altamente preparado contra mulheres e crianças. É contra isso que a humanidade tem que se indignar”, afirmou Lula durante recente visita à França. Porém, só neste ano, as exportações de petróleo cru do Brasil para Israel cresceram 309%, segundo o Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio. Além disso, nosso país continua a vender aço e alimentos usados pelas Forças Armadas israelenses para manter sua máquina de morte.

Seria uma posição “em cima do muro”? O problema é que não existe muro faz tempo. Mais de 80% de todas as construções da Faixa de Gaza já foram destruídas pelas bombas estadunidenses lançadas pelos assassinos israelenses. O Governo Lula deveria, imediatamente, romper com qualquer relação diplomática e econômica com o Estado de Israel.

Mas essa conivência não é apenas do governo brasileiro. Outros países adotam a mesma postura hipócrita. A China, a segunda potência imperialista do mundo, foi a maior exportadora de produtos para Israel em 2024, com um comércio de US$ 19 bilhões por ano, mais que o dobro do valor do comércio feito pelos EUA, o principal aliado ideológico e militar israelense. Os chineses mandam, entre outros produtos, metais utilizados na produção de equipamentos militares.

Além desses países que condenam o genocídio, os aliados tradicionais de Israel (o imperialismo estadunidense e europeu) continuam a mandar bilhões de dólares em armas e equipamentos para o Estado nazi-sionista. Segundo pesquisa da Revista Foreign Affairs, Israel recebeu mais de U$ 220 bilhões em ajuda militar desde que foi criado, em 1948. Hoje, toda tecnologia israelense é derivada dos armamentos fornecidos pelos EUA, e o regime sionista depende extremamente do fornecimento contínuo de munições, armas e inteligência por parte dos Estados Unidos. Na prática, Israel é um regime que obedece aos comandos militares do Pentágono, como demonstra o caso da agressão militar contra o Irã.

Essa situação confirma o que o revolucionário russo Vladimir Lênin afirmou, em 1916, em sua obra Imperialismo, fase superior do capitalismo: “O capitalismo transformou-se num sistema universal de subjugação colonial e de estrangulamento financeiro da imensa maioria da população do planeta por um punhado de países ‘avançados’. A partilha deste ‘saque’ se efetua entre duas ou três potências gananciosas, armadas até os dentes, que dominam o mundo e arrastam todo o planeta para a sua guerra pela partilha do seu saque”.

Israel ataca Irã

O Estado assassino de Israel espalha sangue pelo Oriente Médio. Não satisfeito em cometer um genocídio contra o povo palestino, além de já ter bombardeado Síria, Líbano e Iêmen, o neonazista Netanyahu ordenou, em total acordo com Trump, bombardeios contra o Irã a partir do dia 12 de junho, com apoio dos serviços de inteligência e auxílio militar do Reino Unido e dos Estados Unidos.

Segundo o portal de notícias Middle East Eye, que faz cobertura jornalística do Oriente Médio, os EUA entregaram secretamente centenas de mísseis guiados a laser a Israel pouco antes do ataque ao Irã. A entrega de aproximadamente 300 mísseis de alta precisão ar-terra Hellfire teria sido confirmada por duas autoridades estadunidenses que forneceram a informação sob condição de anonimato.

Os governos israelense e estadunidense, em alinhamento com os monopólios burgueses de imprensa, acusam o Irã de produzir a bomba atômica – coisa que os EUA têm aos milhares em seu arsenal. Na prática, é uma guerra para subjugar o povo iraniano e roubar suas riquezas, como petróleo e gás natural. O Irã tem a quarta maior reserva de petróleo do mundo e a terceira maior de gás natural.

Os ataques atingiram instalações nucleares na região de Isfahan, no centro do Irã, e também blocos residenciais, além de um hospital em Kermanshah, no oeste do país. Segundo os serviços de saúde iranianos, até o fechamento desta edição (16/06), mais de 220 pessoas foram mortas nos bombardeios, sendo pelo menos 70 mulheres e crianças. Entre os mortos, também estavam alvos selecionados, como cientistas e membros do alto-comando militar iraniano.

Junto com os ataques aéreos, o regime sionista colocou em atividade dezenas de agentes da organização terrorista de espionagem Mossad para atacar cidades iranianas com carros-bomba, drones e a sabotagem do sistema de energia e distribuição de água para a população.

Apesar de toda esta campanha, as Forças Armadas iranianas mostraram capacidade de resposta e iniciaram uma campanha de bombardeio contra instalações israelenses. Até agora, os iranianos conseguiram destruir armazéns de combustíveis e atacar o porto de Haifa e bases militares de Israel. Os mísseis iranianos também atingiram blocos de apartamentos onde se encontravam baterias anti-aéreas israelenses. Até agora, os ataques deixaram ao menos 16 pessoas mortas. Não é possível saber a real extensão dos danos causados pelos mísseis iranianos devido à censura militar imposta pelo governo de Israel à imprensa local.

Segundo informações divulgadas pela grande mídia, existem mais de 1,5 milhão de bunkers (esconderijos subterrâneos) no território israelense para abrigar a população em caso de ataques. Mais uma prova de que a lógica armamentista faz parte da ideologia do regime sionista, sempre disposto a atacar as nações do Oriente Médio e a tomar mais terras da Palestina Histórica para implantar novos assentamentos de colonos judeus.

Povos do mundo em defesa de Gaza

Diante de tamanha atrocidade, os povos do mundo têm se levantado em defesa da causa palestina. No dia 10 de junho, milhares de argelinos e tunisianos se uniram na “Caravana Sumud” (“resiliência, resistência”, em árabe) e se dirigiram em direção à fronteira do Egito com a Faixa de Gaza. Cruzando três países, os manifestantes pretendiam romper o bloqueio e garantir a entrada de ajuda humanitária aos palestinos, mas foram reprimidos por forças policiais do governo egípcio.

Na Europa, os atos com dezenas de milhares de pessoas continuam a pressionar os governos a romperem com Israel. Cidades como Haia, Paris, Londres e Madrid têm manifestações semanais. Nos EUA, mesmo sob a censura e perseguição do Governo Trump, a juventude continua a se levantar contra o genocídio, combinando com os atos contra a política racista anti-imigrante (ver página 11) vigente no país.

No Brasil, o maior ato em defesa do povo palestino ocorreu em São Paulo, no último dia 15, reunindo mais de 35 mil pessoas. Mais de uma dezena de cidades brasileiras registraram manifestações em defesa do povo palestino.

Neste mês, houve ainda a ação da Flotilha da Liberdade, com tripulantes de várias nacionalidades, incluindo o brasileiro Thiago Ávila. Eles tentaram levar comida e água para Gaza, mas foram sequestrados pelo Exército israelense, torturados e presos nas masmorras sionistas. Posteriormente, a maioria foi solta, mas ainda há três pessoas detidas ilegalmente.

É preciso fortalecer a campanha de solidariedade no Brasil. Diante da falta de atitude do governo brasileiro contra o extermínio palestino, é urgente levantar bem alto a bandeira da libertação da Palestina e exigir respeito à soberania do povo palestino, com seu direito a organização de um Estado próprio.

Editorial publicada na edição impressa  nº314 do jornal A Verdade

Malcolm X: 100 anos de um revolucionário

No dia 19 de maio de 2025, completou-se o centenário de nascimento de Malcolm X, líder negro que marcou a história com sua luta contra o racismo e ao capitalismo nos Estados Unidos.

Queops DamascenoSalvador (BA)


HERÓIS DO POVO – No dia 19 de maio de 2025, comemoramos o centenário de nascimento de Malcolm X, nome pelo qual ficou conhecido o militante revolucionário El-Hajj Malik El-Shabazz. Sua vida, marcada pela rebeldia e a indignação daqueles que buscam a transformação política, representa um capítulo fundamental na história da luta do povo negro, não só nos Estados Unidos, mas no mundo. Malcolm lutou contra o racismo e o capitalismo, e revelou suas raízes em pleno coração da principal potência imperialista, os EUA.

“Estou aqui para vos dizer que acuso o homem branco. Acuso-o de ser o maior assassino da Terra. Acuso-o de ser o maior raptor da Terra. Acuso-o de ser o maior ladrão e escravizador da Terra!… Ele não pode negar as acusações… somos delas a prova viva! Vós e eu somos a prova. Não sois americanos, sois vítimas da América! Vocês não escolheram vir… Terem nascido aqui não vos torna americanos. Tu e eu não somos americanos. Tu és um dos 22 milhões de pretos vítimas da América. Tu e eu nunca vimos a democracia. Não vimos democracia nos campos de algodão da Geórgia. Lá não há democracia. Não vimos democracia no Harlem, Brooklyn, Detroit, Chicago. Não, nunca vimos a democracia. Não vimos mais do que hipocrisia. Não vimos qualquer ‘sonho americano’. Só experimentamos o pesadelo americano”. Eis o pensamento de Malcolm X, que acusava brancos capitalistas como responsáveis por toda a tragédia da vida do povo negro explorado e oprimido.

Infância e adolescência

Nascido em Omaha, Nebraska, em 1925, Malcolm veio ao mundo em uma época de dura repressão racial. Seu pai, Earl Little, era pastor e ativista do movimento liderado por Marcus Garvey, que pregava o nacionalismo negro e o retorno dos afro-americanos à África. Earl era um crítico feroz da opressão e, quando Malcolm tinha apenas seis anos, sua casa foi incendiada pelo grupo supremacista branco Ku Klux Klan. Dias depois, seu pai foi brutalmente assassinado: espancado, linchado e jogado nos trilhos de um bonde. O impacto dessa violência marcaria para sempre a vida do menino.

Sua mãe, Louise Little, também foi vítima do sistema. Era uma mulher negra de pele clara, resultado do estupro de sua mãe por um homem branco. Após a morte do marido, sofreu um colapso mental e foi internada em um hospital psiquiátrico, onde permaneceu por 26 anos. Os filhos foram separados e enviados a lares adotivos. Malcolm, ainda jovem, passou a rejeitar sua própria pele um pouco mais clara, pois a associava à violência sexual sofrida pela avó. Esse traço do racismo não deixava somente uma herança de luta social, mas também uma mancha íntima, familiar, profunda.

Apesar dos traumas, ele se destacava na escola. Era o melhor aluno da sala e foi eleito representante da turma. Mas, quando disse que queria ser advogado, ouviu de seu professor branco que essa não era uma profissão “realista” para um garoto negro. “Seja carpinteiro, como seu pai”, foi o conselho. Rejeitado e frustrado, abandonou a escola e mergulhou na vida das ruas.

Na juventude, passou por Boston e Nova York, onde trabalhou como engraxate em casas noturnas e conheceu o submundo do Harlem, o tráfico e a prostituição. Mas acabou se envolvendo com duas mulheres brancas que roubavam casas. Quando foi preso em um desses roubos, ele e seu amigo negro, Shorty, receberam uma pena de dez anos, enquanto as mulheres brancas foram condenadas a menos de dois. O crime, para a justiça racista americana, não era apenas roubo: era se relacionar com mulheres brancas.

Foi na prisão que Malcolm teve seu primeiro contato com a Nação do Islã, organização religiosa que pregava que o homem negro era o ser original da Terra e que o branco era o demônio histórico. Através de cartas e livros, Malcolm reconstruiu sua identidade. Ao sair da prisão, em 1953, rejeitou seu “sobrenome de escravo” e passou a se chamar Malcolm X – o “X” simbolizava o nome africano perdido.

Sua militância dentro da Nação do Islã foi vertiginosa. Tornou-se o principal porta-voz do grupo por conta de sua disciplina com os estudos e sua oratória imbatível. Fazia uma crítica feroz ao racismo, construindo mesquitas por todos os EUA e fundando o jornal Muhammad Speaks. Multiplicou o número de membros da organização: de 400 para mais de 40 mil em pouco mais de uma década. Defendia o separatismo negro, a autodefesa e denunciava abertamente a hipocrisia liberal dos brancos. Não via sentido em marchas pacíficas que pediam integração com quem sempre oprimiu.

Ao contrário do “sonho americano”, Malcolm apresentava a realidade americana: fome, desemprego, prisões em massa, violência policial e marginalização dos guetos negros. No Harlem, mobilizou multidões, denunciou o Estado e apontou caminhos de organização. Seu compromisso com a luta era profundo: mantinha um rigor ético e religioso, ou melhor, político-ideológico, que o impedia de ter qualquer bem em seu nome.

Avanço na consciência

Em 1963, a relação com a Nação do Islã começou a ruir. Malcolm descobriu que Elijah Muhammad, o líder da organização, tinha filhos com diversas secretárias jovens e se recusava a assumir publicamente a paternidade. Ao perceber a hipocrisia interna e o autoritarismo do grupo, passou a ser silenciado. Foi suspenso, vigiado e expulso.

A decepção com a elite negra da Nação do Islã, que acumulava riquezas e negócios enquanto o povo negro seguia na miséria, levou Malcolm a repensar profundamente sua militância. Em 1964, rompe com a organização e viaja para a África e o Oriente Médio. Em Meca, realiza a peregrinação islâmica e adota o nome El-Hajj Malik El-Shabazz. Lá, entra em contato com uma diversidade de muçulmanos, superando o separatismo racial e se aproximando de uma visão revolucionária mais ampla, ligada aos processos de libertação africanos, à luta contra o imperialismo e ao socialismo.

Reuniu-se com líderes como Kwame Nkrumah, em Gana, homenageou as Revoluções Chinesa e Cubana, e foi celebrado por ter recebido Fidel Castro no Harlem, quando este foi excluído de uma reunião da ONU em Nova York. Fundou a Organização da Unidade Afro-Americana (OUAA), uma entidade laica, aberta a pessoas negras de todas as religiões, voltada para a construção da unidade do povo negro em torno da justiça, da autodeterminação e da luta contra o sistema capitalista.

Malcolm passou então a defender abertamente a união entre os povos oprimidos e o uso de “todos os meios necessários” para destruir o sistema de opressão. Essa nova postura o colocou na mira do FBI, da CIA, da polícia de Nova York, de grupos racistas e até de setores oportunistas do próprio movimento negro. A repressão se intensificou. A casa onde morava foi incendiada.

No dia 21 de fevereiro de 1965, aos 39 anos, Malcolm X foi assassinado diante de centenas de pessoas durante uma palestra no Harlem. Três homens dispararam dezenas de tiros. Um deles, Talmadge Hayer, foi preso no local. Outros dois sujeitos foram condenados como bodes-expiatórios. Mesmo após Hayer revelar os verdadeiros autores – membros da mesquita de Newark da Nação do Islã – o caso nunca foi reaberto. O principal assassino, William X Bradley, viveu impune até 2018, quando faleceu de causas naturais.

O assassinato de Malcolm foi um crime político, resultado direto da aliança entre setores do Estado norte-americano, FBI, elites negras e organizações religiosas comprometidas com a manutenção da ordem. Malcolm foi morto porque ousou denunciar o racismo como parte estrutural do capitalismo. Como ele mesmo afirmou: “Não há capitalismo sem racismo”.

Mas sua morte não foi em vão. Um ano depois, em 1966, nasceu o Partido dos Panteras Negras, organização marxista-leninista que levou adiante muitas das ideias defendidas por Malcolm: autodefesa, organização comunitária, crítica ao sistema capitalista, combate à violência policial e solidariedade internacional. Os Panteras transformaram as ideias de Malcolm em ação revolucionária.

Agora, no centenário do seu nascimento, Malcolm X segue vivo nas lutas que enfrentam o racismo e o capitalismo, a exploração do trabalho, a marginalização das periferias e o genocídio da juventude negra. Seu legado é um chamado à luta e à resistência. Ele não foi apenas um líder religioso ou um crítico social. Foi um revolucionário de verdade, um homem que se transformou para colocar todas as suas energias e, inclusive sua própria vida, à disposição da luta pelo fim da exploração capitalista, sempre colocando o povo negro no centro.

Sua vida nos ensina que não basta querer inclusão em um sistema que nos oprime. É preciso derrubar esse sistema. E isso só será possível com muita organização e com a revolução!

Matéria publicada na edição impressa  nº314 do jornal A Verdade