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sexta-feira, 10 de abril de 2026
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Review de O Capital no século XXI, de Thomas Piketty: A economia política e o marxismo hoje

Piketty-book (1)O mais recente livro do economista francês Tomas Piketty, O capital no século XXI, que será lançado no Brasil em novembro, foi objeto de polêmica entre os principais especialistas em economia em muitos países. Formado em matemática e economia, Piketty é diretor da Escola de Altos Estudos em Ciências Sociais de Paris, prestou assessoria nas campanhas do Partido Socialista Francês – hoje na presidência da França – e teve seu livro atacado de forma veemente por porta-vozes da extrema direita estadunidense e europeia, enquanto o economista Paul Krugman, ganhador do prêmio Nobel em 2008, defendeu-o.

O livro de Piketty se propõe a analisar o desenvolvimento do sistema capitalista desde o início do século 19 sob dois aspectos principais: a relação entre a taxa de lucro e a taxa de crescimento das economias nacionais; e a relação entre o fluxo total de renda e o estoque de renda acumulado dentro de um determinado país. A quantidade de dados que o autor pôde analisar, principalmente acerca dos países imperialistas (França, Inglaterra e EUA) é impressionante.

O marxismo hoje

Talvez o grande êxito da obra de Piketty seja o de comprovar as mesmas teses que já havia provado Marx na metade do século 19, agora com a possibilidade de utilizar muito mais dados estatísticos, sem chegar, contudo, à mesma profundidade nas conclusões. Piketty procura evitar os conceitos formulados por Marx e, quando fala de capital, não se refere ao processo descrito nas obras marxistas, mas estritamente a uma quantidade de riqueza acumulada.

A análise da obra O capital no século XXI deixa ainda mais clara a genialidade de Karl Marx, que pôde explicar com tanta profundidade os processos do capitalismo sem ter acesso, em sua época, a tal quantidade de dados estatísticos que apenas hoje podemos manejar.

O que Piketty prova, principalmente, é que, a longo período, a taxa de lucro do capital (chamada de ‘r’) será sempre maior que a taxa de crescimento da economia (chamada de ‘g’). Isso é exatamente o que Marx havia dito com outras palavras em O capital, ou seja, que no processo da produção a ação da força de trabalho do operário gera uma mais-valia que é apropriada pelo dono do capital.

O autor chega à conclusão de que o livre desenvolvimento dessa força de concentração de riqueza (r>g) levará ao colapso da produção social, estabelecendo uma sociedade de rentistas que solapam o que ele considera como sistema democrático.

O capitalismo e seus períodos

Os dados apresentados levam à conclusão da divisão do capitalismo, pelo menos no que diz respeito aos países ricos, em três fases distintas. A primeira cobre toda a segunda metade do século 19 e vai até o fim da Primeira Guerra Mundial (1919); a segunda compreende os choques que foram fruto da Primeira e Segunda Guerras e vai até meados da década de 1970; a terceira vai do fim da década de 1970 até os dias de hoje.

Piketty caracteriza a primeira fase como de altíssima concentração de riqueza nas mãos de muito poucas pessoas e de enfraquecimento do poder público, e aponta esses problemas como os causadores dos dois conflitos mundiais. A segunda fase é a de maior igualdade de rendimentos até hoje vivida nos países estudados, quando foi criado o Estado de Bem-estar Social e havia a sensação de que o capitalismo seria capaz de dar cobro dos problemas sociais. Já na terceira, 1980 em diante, o autor identifica a volta da situação de profunda injustiça social existente antes da Primeira Guerra.

Durante o século 19, a taxa de lucro oscilou na casa de 4 a 5% nos países ricos, enquanto a taxa de crescimento não foi maior do que 1,5%. No final do século 20 e início do século 21, vivemos situação semelhante, com a taxa de lucro se fixando nos mesmos 4 ou 5%, e a taxa de crescimento não superando 1%.

Essa situação é a responsável pelo extremo acúmulo de riqueza nas mãos dos mais ricos do mundo. Na pesquisa do banco Crédit Suisse ficou comprovado que 0,7% da população mundial é dona de 41% da riqueza acumulada, 99 trilhões de dólares (o PIB dos Estados Unidos é de 14 trilhões, o PIB mundial da ordem de 80 trilhões), enquanto mais de um bilhão de pessoas passam fome.

Piketty procura se distanciar das posições do marxismo e, por isso, desconsidera quase completamente o papel cumprido pela luta de classe dos trabalhadores na conquista das posições de igualdade no período que compreende a segunda fase, período de existência da União Soviética e em que esta nação exercia posição de retaguarda dos movimentos de trabalhadores da Europa e do mundo. Desconsidera também as contribuições dadas por Lênin e outros teóricos sobre a nova fase imperialista do capitalismo no início do século 20, representando a nova repartição do mundo uma questão fundamental para o advento das guerras.

Rentistas, ‘managers’ e capitalismo patrimonial

A obra de Piketty analisa de maneira aprofundada a origem das desigualdades sociais em seus diferentes aspectos, no que diz respeito à divisão capital-trabalho, mas também no que diz respeito à divisão entre as diferentes remunerações no trabalho. Ele demonstra que os novos ‘managers’ das instituições financeiras e monopólios passaram a receber, a partir da década de 1980, um salário 300 vezes maior que a média de sua empresa.

Os supersalários se somaram ao afrouxamento do imposto sobre a herança, que, no caso dos países ricos, caiu de 70% para menos de 35%. Dessa maneira, os grandes ricos do período atual são exatamente os que herdaram essa riqueza e a renda advinda do trabalho de nenhuma maneira é capaz de distribuir a riqueza como pareceu possível durante o segundo período analisado pela obra.

Para Piketty, vivemos em um capitalismo patrimonialista, no qual os executivos do mercado financeiro se tornaram rentistas que não atuam sobre a produção; e a tendência natural desse sistema é a de agravar ainda mais a desigualdade, caso nada mude.
A utopia é salvar o capitalismo

A solução que Piketty defende pretende evitar o que ele chama de insucessos do socialismo e está em taxar o patrimônio, a herança e o rendimento do capital de maneira progressiva – ou seja, quanto mais rico, maior a alíquota, e os mais pobres pagam menos ou não pagam. Uma taxação desse tipo tornaria possível dar transparência à dimensão da riqueza e à forma como ela é distribuída, além de fornecer aos Estados nacionais as condições de superar seu atual endividamento e financiar melhores políticas públicas.
Evidentemente, uma política de taxação deste tipo precisa ser aplicada em todos os países ao mesmo tempo, pois, do contrário, bastaria aos capitalistas transferir seus rendimentos para outros países para evitar a taxação, como aliás já acontece bastante nos paraísos fiscais onde está depositada grande parte dos capitais do mundo.

A verdade é que uma política desse tipo não pode ser aplicada enquanto o poder político e econômico se mantiver nas mãos de um punhado de pessoas que, como a própria história demonstra, exercem uma resistência desesperada, inclusive recorrendo à guerra e ao terrorismo para manter seus privilégios. Uma taxa de imposto progressiva não salvará o capitalismo, mas apenas colocará a luta de classes pelo poder político em outro patamar.

Marx voltou

Para o Brasil, os temas levantados na obra de Thomas Piketty são de grande atualidade. Chegamos à condição de ser a sexta maior economia do mundo, mas, ao contrário do que diz a propaganda oficial, o povo continua pobre. Se o atual Produto Interno Bruto (PIB) nacional fosse igualmente dividido, ele seria suficiente para garantir uma renda de R$ 8 mil por mês para cada família de até quatro pessoas, o suficiente para garantir condições dignas de vida para todos.

Mas não apenas pelo volume de dados avaliados a obra é importante. Também é importante a postura do autor em colocar a atual ciência econômica em seu verdadeiro lugar, ou seja, no lugar da economia política, como uma ciência social irmã da sociologia, da antropologia, etc. Os modelos matemáticos criados pela atual economia não são uma lei natural, e o mercado tampouco tem uma tal mão invisível que tudo regula. São contingências de decisões políticas e de estruturas formadas ao longo da História e que, portanto, podem e devem ser mudadas para o futuro.

A obra já pode ser baixada em inglês na internet pelo sítio: http://dowbor.org/blog/wp-content/uploads/2014/06/14Thomas-Piketty.pdf

Jorge Batista, São Paulo

O Sete de Setembro e a liberdade no Brasil

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sete setembroHá mais de 500 anos as terras do Brasil são vítimas de enorme espoliação. Após a chegada dos europeus, o país serve para enriquecer os maiores impérios do mundo. O suor dos trabalhadores se transforma em lucro para multimilionários da França, da Itália, da Inglaterra e principalmente dos EUA. Ainda assim, as Forças Armadas insistem em comemorar a dita independência do Brasil. O Sete de Setembro de 1822 propagado pela imprensa dos ricos, na verdade, é uma farsa, pois, a título de independência política e econômica pouca coisa mudou.

Do fim da primeira metade do século XVI até o fim do século XVII, o Brasil foi palco da maior exploração de açúcar do mundo. Com a exploração da mão de obra escrava, Portugal arrancou das terras brasileiras enormes riquezas por pouco mais de um século, fruto da empresa agrícola instalada no Brasil que tinha apoio fundamental nas refinarias holandesas. Em virtude das disputas territoriais entre Portugal e Espanha e da saída dos holandeses do esquema comercial feito com o açúcar luso-americano, o Estado português sofreu uma profunda debilidade econômica, política e militar – é aí que o ouro brasileiro e a Inglaterra vêm tirar a Coroa lusitana do fundo do poço. Mas o preço foi muito alto.

Em troca da sobrevivência da economia portuguesa, o ouro brasileiro foi todo para o bolso dos ingleses, fruto de um tratado conhecido como Tratado de Methuen. “Segundo as fontes britânicas, a entrada de ouro brasileiro alcançava 50 mil libras por semana em alguns períodos. Sem esta tremenda acumulação de reservas metálicas, a Inglaterra não teria podido enfrentar, posteriormente, Napoleão”. (Eduardo Galeano, As veias abertas da América Latina).

Em 1807, tendo o conquistador francês Napoleão Bonaparte invadido Portugal, a família real portuguesa se muda para o Brasil sob a proteção da Inglaterra, transferindo para a colônia os poderes de decisão sobre o comércio e a economia. É assim que, em 1810, são assinados tratados que entregavam o comércio brasileiro aos ingleses. O capitalismo inglês passa a gozar de privilégios comerciais e taxas alfandegárias no Brasil até 1842, o que prova que, mesmo após a dita independência, em 1822, a economia do País continuou subordinada ao estrangeiro. A própria Inglaterra só reconhece a “independência” do Brasil mediante a renovação dos tratados de 1810.

Após o fim do tratado com os ingleses, nosso país passa a ter relações com os EUA (em virtude do fortalecimento da produção do café). Até hoje, os EUA atuam como um verdadeiro colonizador. Das 500 maiores empresas estadunidenses, 405 estão presentes no Brasil. A verdade é que a falsa visão de independência expressa nas comemorações do Sete de Setembro visam a esconder que ainda hoje a nação brasileira sofre imensa espoliação. Entre 2002 e 2012, foram remetidos ao exterior, em forma de lucro e dividendos, mais de US$ 240 bilhões; só em 2012, foram US$ 27 bilhões!

O objetivo dos festejos do dia 7 de setembro não é senão uma tentativa dos opressores de inculcar nas pessoas uma sensação de liberdade, quando, na verdade, estamos sendo explorados. Compreender a história da pilhagem que sofreu e sofre o povo brasileiro é fundamental para todas as pessoas, para identificarmos no imperialismo a causa dos males mais cotidianos que sofremos. Mais do que isso, devemos apontar a solidariedade entre os povos e o governo revolucionário dos trabalhadores como contraponto às guerras de rapina e ao controle a que as potências imperialistas submetem os países pobres do mundo.

Daniel Victor Ferreira, Recife

Gravidez na adolescência, um problema social

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gravidez na adolescenciaNo Brasil, a cada ano, cerca de 20% das crianças que nascem são filhas de adolescentes. Segundo o Ministério da Saúde, cerca de 1,1 milhão de adolescentes engravidam por ano, e meninas de 10 a 20 anos respondem por 25% dos partos feitos no país. Esses números só confirmam que a gravidez na adolescência é um problema social grave.

Com poucas informações e uma vida sexual ativa cada vez mais precoce, muitas adolescentes estão engravidando numa fase da vida em que se encontram despreparadas para assumir as responsabilidades de ser mãe com todas suas implicações que a maternidade provocam. Ao se tornarem mães, estas adolescentes acabam deixando de lado uma importante fase de suas vidas; algumas abandonam os estudos, outras buscam o aborto clandestino, colocando em risco sua existência, outras fogem de casa por rejeição de sua família, enfim, a gravidez na adolescência, em geral, é causa de muito sofrimento, em especial para as adolescentes.

No nosso país o povo vive à mingua, sem apoio do Estado, e a juventude é uma das parcelas que mais sofre, em especial os adolescentes das classes desfavorecidas da sociedade, que enfrentam com mais intensidade o preconceito, o machismo, a ditadura da beleza e as cobranças de submissão a modelos e padrões preconcebidos, além de todas as injustiças sociais.

A falta de políticas públicas, aliada à exposição exagerada do sexo na mídia, fazem com que essa maioria dos jovens tenha o sexo como única alternativa de lazer, esporte, divertimento e prazer. Os resultados então são catastróficos em especial para as meninas.

Tendo em conta essa realidade, e procurando assumir o papel de conscientização da necessidade da luta para as mulheres, que, desde muito novas, sentem as consequências dessa sociedade opressora, desigual e machista, o Movimento de Mulheres Olga Benário de Pernambuco, vem, juntamente com a União dos Estudantes Secundaristas de Pernambuco (Uespe), organizando debates sobre essa temática nas escolas públicas na Região Metropolitana do Recife.

A experiência tem sido muito rica e os debates intensos, já que essa realidade é tão presente na vida de todos. A Escola Pública, enquanto instituição, com todas suas deficiências e carências, não tem condições de responder nem dar suporte às suas alunas grávidas, tão pouco os postos de saúde. E a gravidez não pode ser visto como um questão individual pois na verdade já se tornou-se um problema social.

O debate deixa a nu o Estado capitalista que não investe em sua população, não apoia sua juventude, não dá guarida aos desamparados, que só tem que contar com sua organização para cobrar, das autoridades constituídas seus direitos constitucionais e sua luta para mudar sua realidade, pondo no lugar deste Estado capitalista que tanto maltrata nosso povo, um Estado que se baseie nas reais necessidades do povo pobre e trabalhador, que sustenta uma minoria rica e deixa ao relento a grande maioria de sua população.

Alais Santos e Guita Marli – Coordenadoras do Movimento de Mulheres Olga Benário

Entrevista: A democratização da terra e os desafios do trabalho pastoral

carlos lima cpt“O conhecimento, o saber, é uma ferramenta importante para a transformação social”

Carlos Lima, coordenador regional da Comissão Pastoral da Terra, fala em uma entrevista exclusiva ao Jornal A Verdade sobre a luta pela democratização da terra, os desafios do trabalho da pastoral e o novo livro do movimento, que será lançado no dia 16 de outubro, durante a 21ª Feira Camponesa, na Praça da Faculdade.

A Verdade – A CPT e o grupo Terra estarão lançando o livro “Terra e Pastoral em Alagoas: Conflito e liberdade”. De que trata o livro?

CL – Do cotidiano de assentados (as) e acampadas (os) que entraram na luta pela terra em Alagoas. Homens e mulheres que deixaram um passado de sofrimento, de opressão e passaram a lutar e sonhar a partir da conquista ou da luta pela terra. Historia de vidas de gente empobrecidas pelo sistema capitalista, excluídas do acesso a terra. Gente que entende a terra como sinônimo de liberdade, de vida nova. O sentido da obra é abrir espaço para as falas dos acampados (as) e assentados (as).

A Verdade – A escolha de lançar o livro numa Feira de produtos da Reforma Agrária tem um significado especial?

CL – Sim, inclusive na obra, a Feira aparece como um espaço de luta e de conquistas dos camponeses e camponesas. O centro do livro são as entrevistas realizadas com 9 pessoas que vivem em acampamentos e assentamentos, algumas delas, são feirantes. São os testemunhos dessas pessoas que nos permite entender o conflito agrário em Alagoas e o serviço Pastoral da CPT.

A Verdade – Essa já é o segundo livro publicado pelo grupo. O primeiro foi lançado dentro de uma Bienal, um espaço marcado pelo academicismo. O movimento vai além do trabalho camponês?

CL – Sim. Defendemos um outro modelo de sociedade. Essa disputa passa pela democratização do uso e da posse da Terra, pela produção diversificada de alimentos, pela agroecologia, pelo acesso a educação, transporte e a saúde e, também, pela produção de conhecimento. Esse livro é uma parceria com um grupo de estudos e pesquisas sobre a questão da terra no Nordeste. É constituído por militantes, estudantes e professores ligados à discussão da questão agrária comprometidos com as lutas do povo. O conhecimento, o saber, é uma ferramenta importante para as transformações sociais que queremos. Ocupar uma bienal, com uma obra voltada para a questão agrária alagoana, guardadas as devidas proporções, equivale ocupar um latifúndio.

A Verdade – Conte-nos um pouco sobre a luta da CPT e sua história em Alagoas.

CL – Aqui, a CPT começou os trabalhos junto aos canavieiros e posseiros, organizando oposição sindical. Denunciado os ataques sofridos pelos assalariados da cana. Na Arquidiocese de Maceió, destacamos as atuações dos padres Luiz Canal e Aldo Giazzon, missionários italianos que atuaram em Colônia Leopoldina e Novo Lino. Da Irmã Carmem, da congregação da Assunção da Santa Virgem no município de Campestre. Padre Emilio April e irmã Leia em União dos Palmares. Esse inicio de trabalho, podemos afirmar que foi a primeira fase do trabalho da CPT. Padre Aldo e Luiz Canal tiveram que deixar o Estado para não serem assassinados. A segunda fase é na luta pela terra, no inicio da década de 1990 junto aos sem-terra, logo como apoio as ocupações organizadas pelo MST e depois contribuindo diretamente nas ocupações, tendo com marco a ocupação da fazenda Flor do Bosque, em 27 de novembro de 1998. Nesses anos, a Pastoral organizou as romarias da terra, o jejum da solidariedade, as feiras camponesas, as assembleias estaduais, encontro de jovens, de militantes.

A Verdade – Alagoas é um estado marcado pela concentração de terra, pela monocultura e pelo coronelismo. Como é desenvolver o trabalho da Pastoral entre os camponeses e camponesas no nosso Estado?

CL – Desafiante. Difícil. Estimulante. Alagoas é marcada pela destruição das matas, dos rios, do povo. Tudo em nome do açúcar e nas ultimas décadas pelo álcool. O estimulo vem da nossa fé em viver o evangelho perto dos pobres, dos excluídos, dos humilhados. Assim a nossa missão em Alagoas é acompanhar e ajudar nas lutas das famílias camponesas, sejam semterra ou assentadas. Temos agora uma conjuntura eclesial favorável, o Papa Francisco que exigem que a Igreja fique o mais perto dos pobres.

A Verdade – Os grandes meios de comunicação criminalizam os movimentos sociais, principalmente o movimento semterra. A que você credita essa perseguição à luta do povo?

CL – Quem são os donos desses meios de comunicação? A quem eles estão ligados politicamente? Se respondermos essas duas perguntas, facilmente entenderemos a opção pela criminalização dos movimentos sociais, dos que resistem ao modelo. O que está em jogo é o modelo de produção. O interesse de um usineiro não é o mesmo de um semterra. Criminalizar, demonizar são formas de impedir que uma luta justa e legitima, como a do acesso e uso da terra, atraia para sua trincheira setores da sociedade.

A Verdade – O congresso nacional possui uma grande bancada ruralista, reeleita em sua maioria, que dificultam a democratização das terras e também dos meios de comunicação. O que se pode esperar para o próximo período?

CL – Luta, muita luta. Precisamos ressignificar a reforma agrária, buscar outros elementos de dialogo com a sociedade. Amolar as velhas ferramentas, mas, acima de tudo, buscar novas formas. O governo é refém do agronegócio, a bancada ruralista, que cresceu nas ultimas eleições cerca de 30%, vai vir ainda mais forte. Perdemos nos últimos anos aliados históricos da luta pela Terra. Precisamos retomar o dialogo, colocando a luta pela reforma agrária na pauta da sociedade e, assim forçar o governo a realizar a reforma agrária.

Epidemia do vírus ebola mostra lado desumano do capitalismo

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ebola e capitailsmoA crescente epidemia do vírus ebola no continente africano, mais do que demonstrar a fragilidade do sistema de saúde mundial, reforça as diferenças de classe existentes no mundo. Basta responder a uma simples questão: por que o vírus que causa a febre hemorrágica ebola, conhecido desde 1976 pelos cientistas, ainda permanece matando milhares de pessoas, em surtos recorrentes na África?

O vírus foi descoberto em 27 de junho de 1976, durante a primeira epidemia da doença, com dois focos simultâneos: um em Nzara, no Sudão, e outro no norte do Congo. Com uma mortalidade de 90%, o vírus também contamina e mata macacos, principal suspeito de ser o transmissor para os humanos, através do consumo de sua carne pela população da região.

Na primeira epidemia, foram registrados 284 casos com uma mortalidade de 50%. Em todos esses anos, o ebola já fez mais de 3.000 vítimas (incluindo os números atuais) em 15 surtos epidêmicos, sempre restritos ao continente africano. O último surto havia acontecido em 2012, na República Democrática do Congo e em Uganda.

O mais novo surto, em curso, teria sido notificado à Organização Mundial de Saúde (OMS) no início no mês de março, a partir da Guiné. Acredita-se que o caso fonte (primeiro caso da epidemia, ou caso zero) tenha sido o de um menino de dois anos, morador de um vilarejo na Guiné, cuja morte foi registrada no dia 6 de dezembro do ano passado.

Os dados mais recentes dão conta de mais de 1.200 pessoas mortas (sendo a maior epidemia já registrada) e outros milhares de pessoas contaminadas, incluindo um médico americano, Kent Brantly, que prestava assistência voluntária aos doentes, e uma missionária inglesa, Nancy Writebol. Estes últimos receberam assistência em seus países, tendo feito uso de uma medicação experimental, ZMapp, evoluindo com melhora do quadro e remissão da doença. No mesmo período, foi realizado um abaixo-assinado para que dois missionários africanos fossem transportados à Inglaterra para receberem a mesma droga experimental. A solicitação, porém, foi negada pelo governo inglês e um dos missionários, uma freira do Congo, veio a falecer alguns dias depois.

Pesquisadores americanos têm tentado desenvolver vacinas contra o ebola, mas carecem de financiamento das indústrias farmacêuticas. Segundo Peter Walsh, cientista que desenvolveu uma vacina testada em macacos, apesar de a certeza da eficácia também em humanos as pesquisas só não avançaram porque os testes são caros e não há quem os financie. “As indústrias farmacêuticas não vão querer financiar um medicamento para os africanos, pois é um público que não dá lucro”, afirmou em entrevista ao site DW (www.dw.de). Na prática, significa que as pessoas estão morrendo por não terem dinheiro para gerar lucros às indústrias de medicamentos.

“O governo dos EUA pagará pela pesquisa de vacinas, especialmente naquelas contra ameaças terroristas – e o ebola é uma ameaça de bioterrorismo”, afirmou Walsh.

Enquanto isso, os governos africanos montaram uma enorme força-tarefa para garantir a quarentena em regiões onde o vírus foi registrado. A tentativa de conter a transmissão do vírus é mais preocupante do que o tratamento das vítimas. Uma reportagem recente veiculada nas emissoras de televisão mostrou pessoas que vivem nessas áreas em quarentena sem assistênca médica e sem possibilidade de buscar auxílio em outro lugar. Os policiais e soldados de prontidão utilizam armas e bombas de efeito moral para conter o fluxo dos moradores para outras regiões, mesmo os que não apresentam sintomas da doença.

Em resumo: o governo fará de tudo para evitar a transmissão da doença aos países desenvolvidos, mesmo que isso custe o extermínio da população africana, e não gastará um centavo para financiar medicamentos para tratar os doentes, a menos que atinjam a população da Europa e dos EUA. Mais uma vez, a população pobre e marginalizada sofre e continuará sofrendo com a ganância e a falta de compaixão capitalista.

Ludmila Outtes é especialista em Saúde Coletiva

O descaso com as comunidades pobres em Porto Alegre

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comunidades pobres porto alegreAssim como outras cidades brasileiras, Porto Alegre apresenta-se como um cenário de forte segregação social, marcada pela desigualdade econômica. Este panorama pode ser percebido, tanto nos centros urbanos como nas periferias, quando vemos diversas comunidades em condições precárias e quase sempre em locais sem regularização fundiária.

Assim, a disputa pelo solo urbano é desigual. Nos últimos anos, e principalmente devido às obras da Copa, muitas comunidades pobres brasileiras que residiam no centro foram removidas para as periferias.

Esta matéria traz o caso da Vila Chocolatão, uma comunidade pobre que se formou no centro administrativo de Porto Alegre em meados dos anos 1980 e que tinha, entre seus fundadores, um fator em comum: a falta de moradia.

Durante os 25 anos em que esteve no centro de Porto Alegre, a Vila Chocolatão refletiu o descaso do poder público em assegurar condições habitacionais e sanitárias à população pobre. Na Vila faltava encanamento de esgoto e de água. A luz era garantida por “gatos”, que tiveram como consequência vários incêndios.

Porém ao invés de a Prefeitura de Porto Alegre fornecer o direito dos habitantes da Vila Chocolatão de ter uma moradia digna, com luz, água e esgoto, optou por removê-la do centro da cidade para que os ricos e os turistas não vissem o desdém que a Prefeitura tem com as comunidades pobres da capital.

Muitos moradores não queriam sair do centro, pois lá tinham sua fonte de renda. Eram catadores de resíduos, recicladores, e encontravam muito material reciclável na área, que, inclusive, possui oito galpões de reciclagem.

Mas após 11 anos de processo judicial, ocorreu o despejo da comunidade, em maio de 2011. Além da indignação dos moradores, órgãos como a Associação de Geógrafos de Porto Alegre e o Serviço de Assessoria Jurídica da UFRGS escreveram relatórios para a Prefeitura demonstrando como o despejo seria um retrocesso social para aquelas famílias, que minimamente tinham acesso aos bons hospitais e escolas do centro da cidade e ao trabalho.

A transferência da Vila Chocolatão foi feita para um bairro periférico, distante do centro, o bairro Mário Quintana. Chegando lá, as famílias encontraram muitos problemas: disputa de território pelo tráfico de drogas, falta de vagas nas escolas, falta de médicos nos postos de saúde, altos preços cobrados pela luz, cobrança indevida das casas, entre outros.

Além disso, foram construídas 181 casas, para 225 famílias. Essas casas, em 2014, depois de três anos de remoção, já apresentam rachaduras, goteiras, problemas de fiação e de esgoto, demonstrando, mais uma vez, a falta de planejamento e a indiferença da Prefeitura com as comunidades pobres da cidade.

A prática de remover comunidades pobres para a periferia revela as contradições do sistema capitalista, em que as “políticas públicas” são voltadas à valorização do capital, do dinheiro, esquecendo-se da importância da vida humana, da organização de quem constrói suas moradias e faz parte de uma comunidade. Assim, a cidade dá-se como mercadoria a ser comprada e vendida, e a própria moradia torna-se também uma mercadoria, quando é, na verdade, um direito.

Desigualdade

Materializam-se na cidade as relações da sociedade, vistas pela divisão de bairros pobres e ricos em Porto Alegre. Nos bairros ricos tem tudo: hospital, clínica, farmácia, creche, escola boa, várias linhas de ônibus. Nos bairros pobres, o posto não abre todos os dias, e, à noite, nunca estão abertos. Faltam vagas nas escolas, o ônibus passa de hora em hora e, se chove muito, a água inunda a rua e a casa.

Diante deste cenário, questionamos: Até quando os governantes acham que o povo vai se conformar com esta desigualdade? Com a falta de moradia? Com o descaso com quem mais necessita?

A mudança deste cenário virá com uma profunda reforma nas cidades brasileiras, uma reforma urbana, para que todos tenham acesso aos serviços que a cidade oferece, independentemente de sua classe econômica.

O povo precisa se organizar e lutar por seus direitos e por moradias dignas! Esta luta pode ser feita através de movimentos populares (como o Movimento de Luta nos Bairros, Vilas e Favelas – MLB), por associações e cooperativas de bairros, por pessoas dispostas a combater as injustiças impostas pelo sistema capitalista! Só através da luta relembraremos a Prefeitura de Porto Alegre – assim como o Estado e o Governo Federal – de que moradia digna é um direito, não uma mercadoria!

Nanashara Sanches, mestranda em Geografia na UFRGS e membro da Coordenação Nacional do MLB

Por que a extrema-direita brasileira odeia tanto a Cuba?

28jan2013---milhares-de-pessoas-se-reunem-com-tochas-na-universidade-de-havana-durante-uma-marcha-em-comemoracao-ao-aniversario-de-nascimento-de-160-anos-do-heroi-da-independencia-de-cuba-jose-marti-no-1359384934577_956x500
É de se perguntar o porquê de tantos ataques a uma pequena ilha caribenha, nação onde vivem pouco mais de 11 milhões de pessoas (menor que a população do estado da Bahia) e cujo o Produto Interno Bruto – PIB representava US$ 72 bilhões em 2012 (o orçamento apenas da prefeitura de São Paulo é de US$ 25 bilhões) nas eleições presidenciais brasileiras.

A estratégia durante toda a campanha foi de jogar sobre o governo de Dilma a pecha de estar utilizando dinheiro público para financiar o governo cubano, através da construção do Porto de Mariel e da contratação de médicos para o programa Mais Médicos.  Via de regra, a candidatura de Dilma aceitava a crítica e não desmascarou o motivo de tanto ódio a Cuba por parte da extrema-direita.

A verdade é que o Porto de Mariel, a 40 km de Havana, é uma obra a mais financiada pelo BNDES. Outras obras similares foram financiadas em outros países como Equador e Angola. Longe de ajudar o socialismo, o objetivo dessa estratégia é fortalecer as empresas capitalistas nacionais, criando um mercado com os países de sul que possa suplantar a crise vivida pelos EUA e a União Europeia. O grande beneficiado com o porto de Mariel é mesmo a Oderbrecht, já que o financiamento do BNDES será pago pelo governo cubano.

No caso do Mais Médicos, programa paliativo para levar médicos às cidades do interior, a extrema-direita faz uso de duas mentiras. Primeiro, esconde que a vinda dos médicos estrangeiros só aconteceu após a recusa dos médicos brasileiros em trabalhar nos lugares ermos. A honrada classe médica chegou a afirmar que receber R$ 10 mil de salário é escravidão. Segundo, procuram explorar o fato de que grande parte dos salários dos doutores de Cuba serve para pagar seus estudos, ajudar a família e desenvolver o país deles. Escondem que o trabalho do médico fora das fronteiras nacionais é um ato voluntário, humanitário e social, como heroicamente fizeram os médicos cubanos no Haiti e, agora, nos países africanos atingidos pelo Ebola.

Ao caluniar Cuba, a extrema-direita procura colocar toda a esquerda brasileira em defensiva. Ao não defender as conquistas sociais cubanas, a esquerda perde em legitimidade e protagonismo para defender a justiça social no Brasil.

Por mais diferenças que se possa ter com o modelo de democracia ou de socialismo aplicado por Cuba, não se pode perder de vista que uma sociedade que priorize a justiça social ao invés do lucro é sempre melhor que qualquer regime capitalista. Quando nos calamos, parte da classe trabalhadora passa a repetir e acreditar nesses chavões repetidos a exaustão pelos representantes dos capitalistas, tornando mais difícil a luta por justiça social no Brasil.

Afinal, por que tanto ódio a uma pequena ilha?

Cuba é o exemplo de que é possível construir um caminho diferente. Mesmo cercada, embargada e perseguida pelo imperialismo nos terrenos econômico e político, o povo cubano permanece ostentando os melhores índices de desenvolvimento social, reconhecidos pelos organismos independentes da ONU. Já pensaram se se tratasse de um país rico em petróleo, fontes de energia naturais, com amplas florestas e fontes de minérios, ou seja, um país que tivesse condições geográficas e naturais de desenvolver a indústria e a técnica em níveis superiores?

Cuba é a prova viva de que a igualdade social é mais eficaz que o acúmulo de riqueza. Que a solidariedade é mais eficaz que o individualismo. Que a educação e a justiça social são as armas mais eficazes contra o crime e a violência. Que uma sociedade pode viver sem altos índices de consumos de drogas lícitas e ilícitas e, também, sem encarcerar sua juventude e seus pobres. Em resumo, Cuba é a prova viva que todo o discurso da extrema-direita é mentiroso e por isso precisa ser derrotada.

Não podemos esperar que o governo do PT defenda as ideias de Cuba pois seu interesse para com a ilha se resume a esfera dos negócios. É preciso devolver todo o ataque sofrido pelo povo cubano organizando o povo para lutar pelo programa da classe trabalhadora brasileira.

Jorge Batista, São Paulo.

35 metroviários são readmitidos e categoria se mantem na luta

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Trabalhadores readmitidos na estação Barra Funda
Trabalhadores readmitidos na estação Barra Funda

Para impedir a vitória dos trabalhadores na greve do metrô a 7 dias da copa, Geraldo Alckmin, planejou um esquema fura greve chamado Plano de Contingência. Este plano realizou uma série de atos ilegais como: desvio de funções, jornadas de 12 horas sem descanso e sem folga.

Os chefes de estações foram obrigados a operar trem sem treinamento colocando em risco a população. Já os funcionários administrativos não têm treinamento de incêndio, RCP (Ressuscitação Cárdio Pulmonar), Primeiros Socorros, nem tampouco experiência e paciência com a população. Mesmo assim foram alocados para as estações.

Com efeito, os metroviários lançaram mão de um tipo de piquete nunca feito pela categoria: os piquetes para fechar estações. De maneira pacífica garantimos a greve e protegemos a população da irresponsabilidade do desgoverno.

Esta tática foi vitoriosa por que ganhamos apoio de muitos trabalhadores que com a nossa presença tinham justificava para não trabalhar e não serem demitidos. Nosso diálogo e passividade enervou Alckmin que decidiu expulsar os grevistas das estações com a Tropa de Choque.

As bombas de gás e a linha de ataque da PM geraram imagens que a grande mídia usou para criminalizar os grevistas Em 10 de junho, para várias mídias, Alckmin afirma: “As demissões ocorridas não foram em razão de greve. Nenhum grevista foi demitido. Elas foram em razão de outros fatos, e fatos graves, como invasão de estação, de depredação, vandalismo”.

Mas a verdade é que o governador selecionou lideranças das categorias para dar exemplo para a categoria que irá perseguir quem organiza a luta.

Em resposta às demissões os trabalhadores e o sindicato organizaram uma campanha de denúncias e foi aberto um processo de readmissão na justiça. As vitórias parciais dos trabalhadores foram iniciadas com a readmissão de 2 companheiros que foram confundidos com grevistas. A vontade de demitir era tão grande que na dúvida foi decidido mandar pessoas com nomes parecidos.

Este fato mostra que o critério foi político e repressor. Vejamos um dos processos analisados pelo juiz Tiago Melosi Sória, que reintegrou 33 dos demitidos: “Analisando o vídeo que registrou a conduta dos substituídos na Estação Tatuapé, em 5 de junho de 2014, vejo que, embora os trabalhadores estivessem na plataforma, não aparecem impedindo o fechamento das portas do trem. As testemunhas mencionadas (pela empresa) […], além de não identificarem os praticantes, disseram que não houve violência ou dano”.

Imediatamente após as eleições, Alckmin inicia nova cruzada contra os metroviários.

Já mostrando que serão mais quatro de perseguição e criminalização do movimentos sociais, o metrô entrou com pedido de cassação das liminares que reintegram o primeiro grupo dos demitidos.

Nas bases do metrô tem acontecido grande perseguição a que adere a campanha da readmissão. Está proibido pela chefia das áreas o uso do broches, adesivos, coletes e qualquer adereço. Também o clima é de repressão com ameaças constantes de mudança de local de trabalho e criação de novos postos.

Porém a categoria mantém sua solidariedade e apoio aos demitidos. Sabem que passamos um período difícil e que a solidariedade e união da categoria são as únicas saídas para enfrentar a repressão.

Ricardo Senese, São Paulo.

Obra de Taiguara em biografia

TaiguaralivroO ano de 2014 tem sido um marco importante para debater os 50 anos da ditadura militar no Brasil e seus desdobramentos em todos os campos da nossa sociedade. Esse mês de outubro a gravadora Kuarup lança a biografia de Taiguara, intitulada “Os Outubros de Taiguara. Um Artista Contra a Ditadura: Música Censura e Exílio”, da jornalista carioca Janes Rocha. A Kuarup é a responsável pelo acervo do cantor e relançou ano passado, o disco “Imyra, Tayra, Ipy-Taiguara”, que foi totalmente censurado e tirado das lojas em 1976 após 72 horas do lançamento.

Se vivo, Taiguara estaria completando 69 anos, porém nos deixou em decorrência de um câncer há 18 anos completos esse ano. Nesse sentido, o lançamento de sua biografia não só acende o debate sobre a ditadura militar e a censura (Só o AI5, que durou 10 anos, censurou 500 filmes, 450 peças teatrais, 200 livros, e vetou mais de 500 letras) como resgata essa obra militante, dotada ao mesmo tempo de um lirismo impressionante e uma musicalidade rara.

O livro aborda como a censura voltou-se contra o artista, que teve que se exilar em Londres, Tânzania e na Africa, chegando ao absursdo de, sequer poder enviar cartas aos familares. Ao todo, 81 letras de Taiguara foram censuradas e a perseguição não terminou com o fim do regime: em 94, já de volta ao Brasil, ele lançou seu ultimo disco (Brasil Afri) que também não foi aceito pelas grandes gravadoras da época, interessadas no “novo mercado” do Pagode e do sertanejo em detrimento da MPB.

Na realidade toda a obra de Taiguara sofreu um processo de apagamento e hoje, graças ao desenvolvimento da internet e das redes sociais, é possível encontrar os discos do artista, sua história e um material relevante para quem deseja conhecer um pouco mais desse grande artista e lutador social. Além do livro Os outubros de Taiguara, a Kuarup vai lançar um CD com músicas inéditas do cantor, intitulado “Ele Vive”, canção feita em homenagem a Luís Carlos Prestes, a quem Taiguara dedicou grande amizade, sobretudo nos anos 80.

E essa não é a primeira iniciativa para recuperar o devido lugar que a obra de Taiguara merece: em 2011 um CD com a participação de diversas cantoras de nossa MPB (A Voz da Mulher na Obra de Taiguara) foi sucesso de crítica e teve destaque, como a versão da música “Universo do Teu Corpo”, classico dos anos 70, colocada na novela Amor e Revolução do SBT. O livro será lançado esse mês de outubro e, sem dúvida, será um divisor de águas e uma boa fonte de pesquisa sobre o que foi a arte engajada contra a famigerada ditadura militar no Brasil.

Mais informações nos endereços eletronicos abaixo:

 http://www.taiguara.art.br/index.html

http://www.kuarup.com.br/index.php/kuarup-lanca-em-outubro-cd-postumo-de-taiguara-e-livro-contando-a-trajetoria-do-cantor-e-compositor

Cloves Nascimento – PE

 

 

Estado islâmico massacra população de Kobane

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10440873_10152740054587346_1642825930870855355_nDesde ontem (06 de setembro) os destacamentos dos Estado Islâmico chegaram à cidade de Kobane, na fronteira sul da Turquia. Lugar de maioria curda, a cidade faz parte do território que está nos limites sírios e é conhecido como Rojava.

Desde o início da guerra civil na Síria, o povo curdo assumiu sua auto-defesa criando unidades armadas conhecidas como YPG, sigla em idioma curdo para Unidades Populares de Proteção. As forças da Al-Qaeda, Al-Nusra e outros grupos fundamentalistas se uniram na criação do Estado Islâmico e receberam armas dos EUA, União Europeia, da Turquia, do Qatar e da Arábia Saudita para combater Assad. Agora, essas armas se voltam para o assassinato de crianças, mulheres e idosos na cidade de Kobane.

Há vários dias que as organizações democráticas da Turquia denunciavam o ataque iminente a Kobane. Quando o ataque se iniciou, o povo da Turquia ocupou as ruas das principais cidades exigindo que o governo do presidente Edôrgan permitisse a passagem de armas e suprimentos para Kobane, fortalecendo a auto-defesa e impedindo o massacre.

O governo turco, no entanto, se negou a abrir a passagem dos suprimentos, tornando-se, na prática, cúmplice dos Estado Islâmico no massacre aos curdos. A polícia turca passou a atacar os manifestantes nas ruas com o apoio de milícias islâmicas que apoiam o EI. Até o momento, o resultado é de 10 manifestantes mortos e vários feridos.

A verdade é que  está em curso  um enorme gencídio aos curdos no norte da Síria, promovido por fundamentalistas islâmicos com a complacência do governo da Turquia. Os países ocidentais assistem calados a esse massacre.

Jorge Batista, com informações do jornal Evrensel e do site da Al jazzera .

Teleatendentes adoecem, e empresários lucram cada vez mais

terceirizacaoNo fim dos anos 1980, a profissão de telefonista mudou de perfil, aumentou enormemente e passou a ser chamada de operador de telemarketing ou teleoperador. Mais recentemente, entre 2010 a 2013, a categoria cresceu 235% conforme dados do Portal Educação (portaleducacao.com.br) e hoje já passa de 1,4 milhão de trabalhadores no Brasil, sendo que 70% são mulheres e 80%, jovens.

Multinacionais, bancos e, com a privatização da telefonia, várias outros tipos de empresas passaram a contratar terceirizadas para vender seus produtos, fazer pesquisas ou cobranças e dar suporte técnico. Resultado: recordes de lucros e péssimas condições de trabalho.

Com a terceirização, foi possível contratar milhares de trabalhadores que não estão ainda enquadrados numa categoria regulamentada (há um projeto em tramitação no Congresso Nacional), e, portanto, sem direitos específicos, regidos apenas pelo um anexo II da Norma Reguladora 17 do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE).

Os operadores de telemarketing exercem, na maioria das vezes, as mesmas funções de profissionais específicos, por exemplo, de um bancário, que tem piso salarial e várias conquistas trabalhistas, mas não recebem como tal e não têm os mesmos direitos, diminuindo significativamente os custos de mão de obra. Sem uma legislação que imponha e sancione as empresas, não há limites para exigências de produção, metas e condições adequadas de trabalho.

Em contrapartida, as doenças ocupacionais prevalecem no cotidiano dos trabalhadores, trazendo como consequência o elevado número de casos de Lesão por Esforço Repetitivo (LER) e Distúrbio Osteomuscular Relacionado ao Trabalho (Dort). É comum os teleatendentes apresentarem dores nos dedos, perda de força motora, redução dos movimentos, dores nos ombros, dores nas costas, inchaços, formigamento nas mãos e pernas, inchaços dos membros inferiores, fadiga visual, perda auditiva, labirintite, acúmulo de gordura no abdômen, refluxo alimentar.

Os operadores de call center executam tarefas muito repetitivas, são submetidos à forte pressão e vivem sob a constante ameaça de perder o emprego, já que a rotatividade de funcionários no setor costuma ser em larga escala.

O resultado da exploração de vários trabalhadores é o alto lucro das empresas do setor. Segundo dados da Comissão de Valores Imobiliários, em 2013, a Contax registrou lucro líquido de R$ 75,3 milhões e, segundo o Tribunal Regional do Trabalho de Minas Gerais, esta mesma empresa liderou o ranking de ações trabalhistas, com 1.935 processos. Uma pesquisa feita pela E-Consulting, com 813 empresas de contact center do país, revela que o mercado brasileiro de call center movimentou R$ 40,4 bilhões em 2013, incluindo operações terceirizadas e internalizadas, o que representa um crescimento de 14,13% em relação a 2012.

Camila Áurea, Recife