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A traição do Partido Comunista da China (PCCh) à classe operária e à Revolução de 1949

CAPITALISMO – Trabalhadores saem de fábrica da Ford no fim do turno, em Chongqing, China, em 2019. (Foto: Gilles Sabrié/The New York Times)

Luiz Falcão
Diretor de Redação do Jornal A Verdade e membro do Comitê Central do Partido Comunista Revolucionário.

Uma das várias mentiras que a burguesia e seus agentes no movimento operário espalham para confundir os trabalhadores é a de que a China é um país comunista e que o partido no poder é também comunista. Deste modo, pretendem responsabilizar os marxistas-leninistas pelos males existentes neste país.

Porém, a China não é nem nunca foi um país de regime comunista. Houve sim em 1º de outubro de 1949, uma revolução dirigida pelo Partido Comunista da China (PCCh), que estabeleceu uma República Popular, cujo objetivo era construir uma sociedade socialista. No entanto, devido à traição do Comitê Central do Partido e do Exército, repressão aos verdadeiros comunistas e várias reformas econômicas realizadas a partir de 1978, o capitalismo foi restaurado. Hoje, na China predomina a propriedade privada dos meios de produção, a exploração do homem pelo homem; com total apoio do Estado, a grande burguesia explora a classe operária, há uma crescente financeirização da economia e o comércio exterior é dominado por grandes monopólios nacionais e estrangeiros. O mercado e a busca incessante pelo lucro determinam os preços das mercadorias. Em resumo, as relações de produção na China são capitalistas.

Para esconder da classe operária que a burguesia é a classe que realmente se beneficia do crescimento econômico, os traidores do PCCh e os kruschovistas do século 21 continuam chamando o partido no governo na China de comunista e o atual regime capitalista no país como “socialismo de mercado” ou “socialismo com características chinesas de uma nova época”.

Mas, o PCCh, de comunista só tem o nome. De fato, trata-se de um partido revisionista da pior espécie, que traiu o comunismo, os ideais e princípios do marxismo-leninismo, a revolução proletária e, como aprovaram seus últimos congressos, guia-se pela “tríplice representatividade, a teoria de Deng Xiaoping e o pensamento de Xi Jinping”, todos apresentados como uma “continuidade e desenvolvimento do marxismo-leninismo”.

Assim, da mesma forma que houve uma Revolução Socialista na Rússia, em 1917, e hoje não há uma só pessoa no mundo que considere a Rússia um país socialista ou diga que o corrupto e reacionário Vladimir Putin é comunista, não demorará muito para que o PC da China seja desmoralizado junto às massas trabalhadoras chinesas e ao proletariado mundial.

Luta de Classes

Apesar de triste e vergonhoso, fatos são fatos: os dirigentes do PC Chinês se venderam à burguesia e à oligarquia financeira que domina a economia mundial. Corrompidos, desprezaram a classe operária e os camponeses e tornaram-se servos do grande capital. Apesar de lamentáveis, tais acontecimentos ensinam aos verdadeiros comunistas e revolucionários que a luta entre as classes continua se desenvolvendo de forma dura, mesmo após a conquista do poder pelo proletariado. Como disse Dostoievsky, o diabo não dorme.

Assim, detalhadamente explicaram Karl Marx e Friedrich Engels no Manifesto do Partido Comunista: “A história de toda a sociedade até hoje é a história de lutas de classes. (…) A nossa época, a época da burguesia, distingue-se, contudo, por ter simplificado os antagonismos de classe. Toda a sociedade está a cindir-se, cada vez mais, em dois grandes campos hostis, em duas grandes classes em confronto direto: a burguesia e o proletariado”.

Para não haver dúvidas, no prefácio da edição inglesa do Manifesto, de 1888, Engels fez questão de esclarecer porque essas duas classes estão em campos hostis: “Por burguesia entende-se a classe dos capitalistas modernos, proprietários dos meios de produção e empregadores do trabalho assalariado. Por proletariado, a classe dos trabalhadores assalariados modernos, os quais, não tendo os meios de produção, estão reduzidos a vender sua força de trabalho para poderem viver”.

Ademais, como assinalou Lênin, a burguesia, após ser derrotada, decuplica sua resistência e conta com o apoio do capital internacional: “A ditadura do proletariado é a guerra mais severa e implacável da nova classe contra um inimigo mais poderoso, a burguesia, e cuja potência consiste não só na força do capital internacional, na força e na solidez das relações internacionais da burguesia, como também na força do costume, na força da pequena produção… e ela cria capitalismo e burguesia constantemente, todo dia, a toda hora, através de um processo espontâneo e em massa. Por tudo isso, a ditadura do proletariado é necessária e a vitória sobre a burguesia torna-se impossível sem uma guerra prolongada, tenaz, desesperada, mortal; uma guerra que exige serenidade, disciplina, firmeza, inflexibilidade e uma vontade única”. (V.I. Lênin. O Esquerdismo, doença infantil do comunismo, Editora Escriba)

EXPLORAÇÃO – Fábrica da Foxconn, na China: “Nosso chefe só exige obediência, somos como máquinas, a fábrica quer nos controlar”. (Foto: Reprodução)

O Que é um Partido Comunista?

Pois bem, em 1978, após a morte de Mao Tsé-Tung e a violenta repressão dos dirigentes e militantes que apoiavam a Grande Revolução Cultural Proletária, Deng Xiaoping se tornou chefe do Comitê Central do PCCh e implementou as reformas econômicas que impulsionaram a restauração do capitalismo na China. Algumas pessoas resistem a encarar esta realidade; afinal o partido chinês continua se chamando comunista e ostentando o martelo e a foice em sua bandeira. Mas se a cor do gato não é importante, também não é o nome pelo qual o gato é conhecido. Aqui em nosso país, temos o exemplo do PCdoB, que também se denomina Partido Comunista do Brasil, continua usando a bandeira vermelha com o martelo e a foice – pelo menos em seus congressos –, mas abandonou os ideais comunistas, a teoria marxista da luta de classes e passou a defender a propriedade privada dos meios de produção e glorificar o Exército burguês.

A questão do nome do partido tem tanta importância que levou Lênin, em 1918, a defender a mudança do nome do partido na Rússia. Com efeito, até o 7º Congresso, ocorrido de 6 a 8 de março de 1918, o Partido Bolchevique se chamava Partido Operário Social Democrata Russo – Bolchevique (POSDR). Com a traição dos chefes oportunistas socialdemocratas da 2ª Internacional, Lênin achou por bem demarcar as diferenças com a socialdemocracia e defendeu que o Partido Bolchevique mudasse seu nome para Partido Comunista Russo: “Um argumento importantíssimo a favor da mudança do nome do partido é que, até agora, os velhos partidos socialistas oficiais de todos os países avançados da Europa não se afastaram da embriaguez do socialchauvinismo e do socialpatriotismo, que conduziu durante a presente guerra à completa bancarrota do socialismo europeu oficial, de tal modo que quase todos os partidos socialistas oficiais foram uma verdadeira trava para o movimento socialista operário revolucionário, um verdadeiro obstáculo a ele. E o nosso partido, que goza de simpatias extraordinariamente grandes das massas trabalhadoras de todos os países, tem o dever de fazer uma declaração nítida, clara e inequívoca de que rompe as suas relações com este socialismo oficial, e para isto a mudança do nome do partido será o meio mais adequado para atingir o objetivo”. (V.I. Lênin. Relatório sobre a revisão do programa e a mudança do nome do Partido. OC, t. 36)

Portanto, para definir se um partido é ou não comunista não basta observar apenas o seu nome; é necessário analisar sua composição, seu programa, sua prática (no país e no mundo) e sua teoria.

Como sabemos, Marx, Engels, Lênin e Stálin sempre lutaram para construir um partido revolucionário da classe operária em oposição aos demais partidos que defendiam a propriedade privada dos meios de produção e a conciliação entre as classes. A composição deste partido não é, assim, algo secundário, afinal, “De todas as classes que hoje defrontam a burguesia, só o proletariado é uma classe realmente revolucionária”. (Marx e Engels, obra citada)

Lênin também definiu o partido comunista como um partido da classe operária: “Nós somos um partido de classe: por isso, a maior parte da classe (e em tempos de guerra, na época da guerra, na época da guerra civil, a sua totalidade) tem que atuar sob a direção do nosso partido, deve manter contato o mais estreito possível com o nosso partido” (V.I. Lênin. Um passo em frente, dois passos atrás)

Na realidade, os verdadeiros comunistas nunca deixaram de combater a conciliação entre as classes e foram extremamente intransigentes com a presença de elementos pequeno-burgueses, oportunistas e revisionistas dentro do partido. Observemos o que escreveu Lênin sobre as condições que foram fundamentais para a vitória da Revolução Socialista Russa:

“Não é possível triunfar na revolução proletária, nem é possível defendê-la, mantendo nas próprias fileiras (do partido) os reformistas e os mencheviques. Isto é evidente. A experiência da Rússia e da Hungria confirma-o plenamente… Na Rússia, passamos muitas vezes por situações difíceis em que o regime soviético teria sido infalivelmente derrotado se os mencheviques, os reformistas, os democratas pequeno-burgueses tivessem ficado dentro do nosso partido…” (V.I. Lênin. Os falsos discursos sobre a liberdade).

Repetimos: “o regime soviético teria sido infalivelmente derrotado se os mencheviques, os reformistas, os democratas pequeno-burgueses tivessem ficado dentro do nosso partido”.

Pois bem, o que diria Lênin se dentro do partido existissem não só reformistas e pequeno-burgueses, mas burgueses, e não quaisquer burgueses, mas bilionários capitalistas? É impossível imaginar, simplesmente porque Lênin nunca faria parte de um partido deste tipo e nunca admitiria que tal ultraje se consumasse no Partido Bolchevique ou em algum partido filiado à 3ª Internacional. Sem dúvida, Lênin classificava todos os líderes sindicais oportunistas, social-chovinistas e kautskistas, “pequeno-burgueses pela maneira de viver e pela quantia dos seus rendimentos” como “agentes da burguesia no movimento operário” e deixou tudo isso bastante claro: “A nossa organização é superior a tudo; ninguém que não seja trabalhador, nenhum explorador, tem o direito de participar nesta organização”. (V.I. Lênin. I Congresso sobre o Ensino Extra-Escolar. OE, t. 4)

Também Stálin repudiou firmemente aqueles que defendiam a convivência dentro do Partido com os reformistas e os pequeno-burgueses: “A teoria de ‘superar’ os elementos oportunistas por meio da luta ideológica desencadeada dentro do Partido, a teoria de liquidar estes elementos dentro dos limites de um só partido é uma teoria podre e perigosa que ameaça condenar o Partido à paralisia e ao mal-estar crônico, que ameaça sacrificar o Partido ao oportunismo, que ameaça privar o proletariado do seu partido revolucionário, que ameaça tirar do proletariado a sua principal arma contra o imperialismo”. (Stálin. Fundamentos do Leninismo. Edições Manoel Lisboa)

Os Bilionários e a Traição do PCCh

Esta é a concepção marxista-leninista sobre qual deve ser a composição e o caráter de um verdadeiro partido comunista. Pois bem, o Partido Comunista da China (PCCh) e os apologistas do falso socialismo chinês têm total desacordo com essa concepção leninista de partido.

Vamos aos fatos.

Jack Ma é um dos patrões capitalistas mais ricos da China. Ele é dono do conglomerado privado Alibaba. A fortuna pessoal desse “comunista” chinês é estimada em US$ 37 bilhões (R$ 185 bilhões). Ma, igual a todos os capitalistas do mundo, enriqueceu por meio da exploração dos trabalhadores e seu objetivo foi muito bem desvendado por Karl Marx em sua magistral obra O Capital.

Não se assustem, camaradas: este rico patrão chinês é um dos notáveis membros do Partido Comunista da China e foi um dos homenageados no 19º Congresso do Partido por se constituir num dos “principais arquitetos do socialismo com características chinesas”, informou o Diário do Povo, órgão do PCCh, em sua edição de 27 de novembro de 2018.

Jack Ma, embora seja autor das frases “Eu não vim a este mundo para trabalhar. Não quero morrer no escritório, quero morrer numa praia”, defende que a China implante em todo o país o sistema 996: trabalhar das 9h da manhã às 9h da noite, seis dias por semana. Sua proposição foi defendida em artigo aos funcionários da empresa, onde afirma que trabalhar jornadas de 12 horas por dia é “uma bênção” e, na ausência desta carga laboral, a economia chinesa “muito provavelmente perderá sua vitalidade e seu ímpeto”: “O número de funcionários aumentou nos últimos anos (…) e o número de preguiçosos cresceu rapidamente. Se isso continuar, a empresa será rapidamente eliminada do mercado!”, escreveu este militante do Partido “Comunista” Chinês. (Bloomberg, 15/04/2019). Como vemos, o pensamento de Ma não é um pré-conceito, mas, em sua forma pura, um importante conceito burguês.

BILIONÁRIO CAPITALISTA – Jack Ma, bilionário membro do PCCh, fantasiado de Michael Jackson em festa da empresa Alibaba em 2017. (Foto: Reprodução)

Outro destacado membro do Partido Comunista da China é o bilionário Liang Wengen, dono da Sany Group, indústria de máquinas de construção, e que explora cerca de 70 mil operários. O “comunista” Liang, graças ao “socialismo com características chinesas na nova época”, é proprietário de uma fortuna de US$ 5,9 bilhões (R$ 295 bilhões) e é membro do PC da China desde 2004. Ele e mais 30 grandes capitalistas (todos donos de fortunas de bilhões de dólares) compunham a bancada de 2.270 delegados do 18º Congresso do PCCh. Liang Wengen teve, inclusive, seu nome proposto para o Comitê Central do Partido “Comunista” da China, órgão que tem 370 membros. Porém, de acordo com a Xinhua, agência de notícias da China, Liang declinou do convite com as seguintes palavras: “Como eu poderia assumir esse cargo? Não posso exercer esse trabalho. Espero que outros empresários privados levem os nossos desejos à direção do Partido. Mas sso demonstra que o Partido e o governo defendem e apoiam o grupo social de empresários privados”, disse Liang.”. (Xinhua, 13/11/2012)

A convivência “harmônica e pacífica” da burguesia com o proletariado, em vez da luta de classes, é uma das fabulosas pérolas da Teoria da Tríplice Representatividade ou pensamento das Três Representações, que oficializou que os inimigos de classe, os capitalistas, ingressassem sem restrição no PCCh. Este precioso princípio programático foi aprovado no 16º Congresso do partido, em 2002, proposta apresentada por Jiang Zemin, presidente do país de 1993 a 2003, e se constitui numa das particularidades do “socialismo com características chinesas”.

CONTRADIÇÕES – China criou mais bilionários em 2018 do que a principal economia capitalista do mundo, os EUA. (Foto: Felipe Annunziata/Jornal A Verdade)

Que Crescimento é Esse?

Nas últimas quatro décadas, o crescimento do número de burgueses na China foi tão espetacular, que o filósofo italiano Domenico Losurdo, um dos mais entusiastas apologistas do socialismo de mercado, em artigo de 2001, descreveu assim este fenômeno: “E, no entanto, precisamente como resultado do sucesso das reformas políticas e do extraordinário crescimento da China, o número de milionários e bilionários está crescendo dramaticamente; a riqueza acumulada pelos novos capitalistas pode influenciar a política? É à luz dessa preocupação que você pode compreender completamente a campanha em andamento contra a corrupção. O processo de ‘limpeza’ não visa apenas a consolidar o consenso social sobre o Partido Comunista da China e o governo; significa implementar a recomendação de Deng Xiaoping e, assim, impedir que os ‘elementos burgueses’ formem uma classe organizada capaz de tomar o poder”. (Domenico Losurdo. A China regrediu ao capitalismo? Reflexões sobre a transição do capitalismo para o socialismo. 2001)

Nada poderia ser mais revelador do que é a teoria de Deng Xiaoping, o pensamento de Xi Jinping e o “socialismo de mercado” do que as palavras de Losurdo. Com efeito, o tão propalado crescimento chinês, nas palavras de um dos seus admiradores, tem levado a um dramático crescimento de milionários e bilionários, isto é, a crescente acumulação de riqueza pelos capitalistas. Que coisa fantástica! Como que Marx não previu isso?!

Pois bem, para impedir que os elementos burgueses, os capitalistas que crescem dramaticamente no país, formem uma classe social e tomem o poder, a solução apresentada por Losurdo é combater a corrupção e ter fé na teoria de Deng Xiaoping. Vejamos: “Ao iniciar suas políticas de Reforma e Abertura, Deng estava ciente de seus riscos inerentes. Em outubro de 1978, ele advertiu: “Não permitiremos que uma nova burguesia tome forma”.

“Esse objetivo não é negado pela tolerância concedida aos indivíduos capitalistas. A eles deve ser dado muita consideração. No entanto, um ponto é crucial: ‘a luta contra esses indivíduos é diferente da luta de uma classe contra outra classe, como houve no passado (esses indivíduos não podem formar uma classe coesa e aparente) (Deng, 1992-95)”. (Losurdo, obra citada)

Que enorme poder tem o senhor Deng! Suas simples recomendações são suficientes para impedir que burgueses (que têm os mesmos interesses de classe e a mesma ideologia, exploram os trabalhadores para obter mais-valia e aumentam suas riquezas), embora cresçam dramaticamente, formem uma classe! É isso mesmo Sr. Losurdo?! Nada de luta contra a exploração capitalista, contra a burguesia, basta apenas focar na corrupção?! Na China não se fala mais em cortar o mal pela raiz?!

Portanto, milionários e bilionários, lembrem-se das palavras de Deng, e não ousem formar uma classe e tomar o poder na China. Podem lucrar bilhões, ingressar aos milhares no Partido Comunista Chinês, explorar as massas trabalhadoras, exportar seus capitais ou colocá-los em paraísos fiscais, podem roubar as terras dos camponeses, formar um exército de reserva de 200 a 300 milhões de trabalhadores migrantes, e, mesmo assim, não serão uma classe nem organizarão um partido para tomar o poder.

Realmente, são tão poderosos os “ensinamentos” do senhor Deng, que pretendem transformar em vento tudo que Marx escreveu sobre a tendência histórica da acumulação capitalista.

As Mentiras Sobre a NEP

Envergonhados por saberem que não há nada de socialismo no regime econômico e político existente na China, vez por outra, ao serem confrontados com as tragédias causadas pelo capitalismo no país, os teóricos do socialismo de mercado dizem que os leninistas nada podem reclamar, pois Lênin propôs a Nova Política Econômica (NEP) logo após a Revolução de Outubro.

Mas, trata-se de mais uma falácia. A NEP foi uma política econômica para um determinado período na Rússia e adotada em substituição a outra política econômica antes existente, o comunismo de guerra. Ademais, o 16º Congresso do Partido Comunista da União Soviética (PCUS), ocorrido em junho de 1930, aprovou que era chegada a hora de transformar a “Rússia da NEP em Rússia Socialista”, inclusive reduzindo a jornada de trabalho para 7 horas com semana de cinco dias.

Em 1934, a indústria socialista constituía já 99% de toda a indústria do país e a agricultura socialista – os kolkoses e os sovkoses – englobavam cerca de 90% da superfície total semeada. Por isso, em discurso no XVII Congresso, janeiro de 1934, Stálin afirmou: “Agora podemos dizer que a primeira formação (economia patriarcal), a terceira formação (capitalismo privado) e a quarta formação (capitalismo de estado) já não existem, que a segunda formação econômica social (pequena-produção) foi relegada a segundo plano, e a quinta formação econômica-social, a formação socialista, é a única dominante, a única força de comando na economia nacional. (História do Partido Comunista – Bolchevique – da URSS. Edições Manoel Lisboa)

Tivessem os “comunistas” chineses, em vez de ofender o camarada Stálin, pelo menos lido o seu discurso de 19 de outubro de 1928, quando ainda vigorava a NEP, teriam, talvez, seguido outro caminho: “Nas condições do desenvolvimento soviético, onde o capitalismo já foi derrubado, mas onde ainda não foram arrancadas as suas raízes, o desvio de direita do comunismo significa a tendência, a propensão de uma parte dos comunistas – propensão ainda indefinida, é certo, e talvez inconsciente, mas que existe apesar de tudo – para se afastar da linha geral do nosso partido, inclinando-se para o lado da ideologia burguesa. (…).

Não é evidente que quando o PCCh prega a tolerância e consideração com os capitalistas e declara bilionários e exploradores da classe operária como “comunistas” e membros do partido isto se constituiu uma verdadeira traição à classe operária?

Desemprego e Desigualdade na China

Para defender o “sucesso” das reformas que restauraram o capitalismo na China, os apologistas do falso socialismo chinês vivem exaltando que o país tem as maiores taxas de crescimento do mundo; o setor bancário mais rico, produz e exporta mais que qualquer outro país, possui 119 empresas na lista das 500 maiores do mundo, e muitas são estatais, exporta capitais mais do que importa; a Huawei, propriedade da milionária família de Ren Zhengfei, é líder em tecnologia 5G; a Alibaba, do “camarada” Jack Ma, domina o comércio online do mundo e centenas de bilionários chinesas, genuínos capitalistas made in China, estão na lista de bilionários da revista Forbes. Sim, não vamos esquecer o “projeto do século” em infraestrutura, a Iniciativa do Cinturão e da Rota (Belt and Road Iniciative – BRI).

Radiante progresso, sem dúvida. Mas qual a classe que se apropria dessa enorme produção de riquezas? Quais os benefícios que as “quatro modernizações”, as relações ganha-ganha (benefício de todas as partes) e as reformas econômicas trouxeram para os trabalhadores e o povo chinês?

Com a palavra David F. Ruccio, professor emérito da Universidade de Notre Dame, em artigo publicado no dia 25 de março de 2020 no site GGN: “As crises que ocorrem no capitalismo não são previsíveis e nem decorrem de uma única causa, mas em todas as crises existe algo em comum: o desemprego. Seja por conta do estouro de bolhas especulativas, ou porque empresas estenderam seu endividamento além da sua capacidade de pagar no caso de um ‘choque’ inesperado.”(no capitalismo) “os trabalhadores não têm direito a um emprego (ou o direito de participar de decisões sobre quando e onde as vagas serão criadas ou destruídas). […] Em vez disso, eles têm de trabalhar duro para tentar vender sua capacidade de trabalho – e são forçados a fazê-lo para sobreviver, porque sua capacidade de realizar um trabalho manual só é valiosa no mercado quando pode ser usada para outra pessoa obter lucro”.

De acordo com o professor Ruccio, “mais e mais trabalhadores norte-americanos estão sendo dispensados por empresas que estão encerrando atividades ou cortando suas operações, e o mesmo está ocorrendo em países como China (onde milhões perderam o trabalho) e Itália (onde o número de vítimas fatais pelo coronavírus ultrapassou os registros na China). Nas palavras dele, configura-se como uma “pandemia de desemprego”.

Quer dizer que, o desemprego existe na China e estes operários desempregados não conseguem vender sua força de trabalho aos donos dos meios de produção?

Onde foi parar a virtude Ren dos burgueses chineses? Diabo, sim, isso só pode ser obra do diabo, nada tem a ver com o capitalismo, não importa o que disse o professor Ruccio, afinal, ele não conhece os costumes nem a história da China.

Passemos, então, à palavra para Branko Milanovic, ex-economista-chefe do Banco Mundial e professor no Graduate Center da City University de Nova York, no seu mais recente livro Capitalismo sem rivais, o futuro do sistema que domina o mundo: “Enquanto as desigualdades rural e urbana na década de 2010 se situavam entre 30 e 40 pontos Gini, a desigualdade do país como um todo chegava a quase 50 pontos Gini, com uma leve tendência de queda começando em 2009. Trata-se de um patamar de desigualdade significativamente superior ao dos Estados Unidos, aproximando-se dos níveis de desigualdade encontrados na América Latina. Trata-se também de um patamar de desigualdade muito mais alto que os dos anos de 1980, quando a China era um país socialista no que se refere à participação do setor estatal tanto em termos de emprego quanto de valor agregado. Assim, a desigualdade cresceu de forma acentuada tanto na área rural quanto na urbana e mais ainda (devido ao aumento da distância entre as rendas rural e urbana) na China como um todo.

“As empresas privadas não só são muitas numericamente, como também são de grandes dimensões. De acordo com dados oficiais, a participação de empresas no 1% das maiores companhias de valor agregado cresceu cerca de 40%, em 1998, para 65%, em 2007. (Bai, Hsieh e Song, 2014)

“Os modelos de propriedade da China são complexos, envolvendo com frequência, em proporções variadas, participação estatal – nos níveis central, provincial e comunal –, privada e estrangeira. Mas o peso do Estado no PIB, calculado no que se refere à produção, dificilmente passa de 20%, enquanto a mão de obra empregada nas empresas estatais e nas empresas de propriedade coletiva corresponde a 9% do total, incluindo campo e cidade (Anuário Estatístico sobre o trabalho na China 2017).” (Milanovic, Capitalismo sem rivais).

Ainda o Branko Milanovic: “No início das reformas, o Estado determinava os preços de 93% dos produtos agrícolas, 100% dos produtos industriais e 97% das mercadorias do varejo. Em meados dos anos 1990, as proporções se inverteram: 93% dos preços do varejo erram definidos pelo mercado, assim como 79% dos preços dos produtos agrícolas e de 81% dos produtos industriais (Pei, 2006). Hoje, o percentual de preços determinados pelo mercado é ainda mais alto.” (Milanovic, obra citada)

Então, 91% dos trabalhadores chineses da cidade e do campo vendem sua força de trabalho para capitalistas e a participação do Estado na produção industrial não passa de 20%?! A gloriosa abertura econômica aumentou o número de milionários e elevou a desigualdade em nível maior do que 1980, quando a China era ainda um país com características socialistas?! A teoria de Deng Xiaopiong e o pensamento de Xi Jinping reduziram a participação das empresas estatais na produção industrial de 100% para um pouco acima de 20%?! Isso acontece na China mesmo com a tríplice representatividade?! Como vai se chegar ao socialismo em 2050 neste ritmo?! É esse o maravilhoso planejamento econômico na China? Stálin tinha razão quando disse que, sem se abolir o princípio da propriedade privada sobre os meios de produção, é impossível criar-se uma economia planificada?! E as reformas capitalistas aumentaram a desigualdade na China?! É possível isso?! Que dirão os apologistas do socialismo de mercado?! Talvez algo assim: “Não acreditamos neste economista, respeitamos seus estudos sobre desigualdade, pois queremos resolver todas as divergências e contradições pacificamente com os elementos burgueses, mas, nada disso vai abalar nossa fé na teoria de Deng e no pensamento de Xi”.

Tem mais: a maioria dos chineses vai a fila de hospitais públicos lotados enquanto os ricos são muito bem acolhidos nos luxuosos hospitais particulares. Na educação, também, houve mudanças para pior: são apenas nove anos de estudo gratuito. A família, porém, que quiser que seu filho ou filha vá à universidade tem que pagar.

Na China, a classe operária é uma classe explorada que trabalha não para si, mas para a classe dos exploradores, a burguesia. A produção da economia está submetida à busca incessante do lucro pelos elementos burgueses, que controlam 80% da produção industrial. Há desemprego, e os preços são fixados pelos elementos capitalistas e monopólios que controlam os meios de produção e o comércio exterior, como, aliás, faziam antes da Revolução de 1949.

Mesmo assim, os modernos revisionistas insistem que a China é um “país socialista com características chinesas da nova época”. Ah! Desculpem-nos os oportunistas, traidores do marxismo-leninismo! Não se trata de socialismo nem de comunismo, mas de um “novo modo de produção, socialismo de mercado seria só o nome fantasia dessa Nova Economia de Projetamento”, como declarou ao IHU o geógrafo Elias Jabbour. (IHU On-Line,16/10/2019)

Não se trata de nenhum preconceito, mas, diante de tamanho idealismo e fantasiosa imaginação, preferimos seguir acreditando nas palavras de Karl Marx: “O objetivo da nossa luta é a derrocada da burguesia, a abolição da velha da sociedade burguesa, baseada sobre os antagonismos de classes e a fundação de uma nova sociedade sem classes e sem a propriedade privada”. Vida longa ao marxismo-leninismo!

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