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Victor Vladmir: artistas contra a corrente

VICTOR VLADMIR – Quadrinista militante destaca a necessidade de se organizar politicamente em defesa do socialismo. (Foto: Reprodução/Jornal A Verdade)

“A arte é um espelho para representar a realidade” disse Bertolt Brecht, é também uma forma de representar as opressões, lutas e vitórias do povo contra os capitalistas.
Sued Carvalho

CEARÁ – Victor Vladmir é juazeirense de nascimento e criação, 10 dos seus 29 anos foram vividos produzindo histórias em quadrinhos. De uma versatilidade notável, o quadrinista já produziu surrealismo, drama, histórias de super-herói e horror e, como se isso já não fosse suficiente, é um militante político, filiado a Unidade Popular pelo Socialismo e membro do Coletivo Satírika, formado por escritores e quadrinistas de esquerda. O jornal A Verdade contatou o artista para conhecer mais de seu trabalho e ideias.

Como iniciou sua carreira nos quadrinhos?
Comecei a desenhar ainda na infância para dar vida às histórias que eu imaginava. Me apaixonei tanto que passei a me dedicar muito a isso. Pensei em diversas carreiras ao longo da infância e adolescência, mas a única atividade que eu não desisti ao longo do tempo foi esta, para ser sincero.

Para você qual é o papel dos artistas e, especialmente, dos quadrinhos para a militância política?
Artistas sempre trazem o encanto e a atenção para o que fazem. Mesmo que muitas vezes com uma dose de romantismo exagerado. Desde o Renascimento, quando passaram a ascender como um grupo de indivíduos misteriosamente iluminados, costumam capturar o encanto dos que os acompanham, é possível encontrar nisso um poderoso reverberador de mensagens. Posso citar como ilustração minha experiência ao assistir Bacurau no início de 2020. Nunca havia presenciado numa sala de cinema comercial todas as pessoas presentes aplaudindo de pé um filme. Foi uma reação imediata que nos tomou imediatamente tão logo começaram os créditos. Durante a projeção, a gente sentia os suspiros de surpresa e ânimo sempre que um antagonista era punido. Reconhecíamos nitidamente os antagonistas em meio a tantos personagens dúbios (entre falas e atitudes claramente xenofóbicas, por exemplo) porque estamos intimamente familiarizados com eles. Provavelmente a maioria das pessoas que tiveram aquela experiência, também não sabiam o que significava imperialismo, mas vendo-o evocado em tela sabiam como reagir. E no final, a reação eufórica. Foi como simular uma situação de vitória. Então podemos deduzir o que queremos.

Temos visto uma ascensão de quadrinistas reacionários, adeptos do Bolsonarismo, em nosso país. Na sua concepção o que pode ser feito para enfrentar essa onda?
Acredito que autores e editores progressistas devam disputar este espaço com os reacionários. E quando digo disputar, isto significa necessariamente desferir um contra-ataque, sem medo de receber acusações do tipo “lá vem essa galera meter política na nossa diversão de novo”. Além disso, é sempre lícito sabotar esse tipo de conteúdo quando temos a oportunidade. A mesma lógica de não permitir a veiculação de propaganda nazista se aplica aqui.

Qual seu trabalho mais recente? Está trabalhando em alguma obra?
Desenhei para o grupo Satírika o primeiro volume do quadrinho Olhos Felinos, com uma história que coloca uma heroína lésbica como centro da trama. Estamos agora trabalhando no segundo volume e eu mais uma vez estou responsável pelos desenhos. Além disso, sigo na luta para finalizar um projeto pessoal de terror com minha total autoria, cujo nome ainda estou guardando um pouco em segredo por enquanto.

O que levou a filiar-se a Unidade Popular pelo Socialismo?
A ascensão da extrema direita me fez ver a necessidade de me organizar. Soube da campanha pela legalização da UP e resolvi me juntar a ela via UJR, quando vi outros jovens do Cariri se mobilizando para fundar o partido. E estive de acordo com o posicionamento da organização de colocar o atual desafio como um problema de classe, além de apenas um ataque à democracia e às liberdades. O empresariado que financiou a ascensão do fascismo não está sendo ameaçado. Banqueiros e latifundiários menos ainda. Ao contrário, eles nunca pareceram tão livres a meu ver. Toda a política de ameaça à nossa vida não pode ser vista como apenas loucura desenfreada de um gênio do mal. Ela tem um nítido propósito. A luta contra o isolamento social nestes tempos tem o claro propósito de defender os interesses do capital, não podemos ignorar isso. Acredito que em momentos como este é muito grave ficar completamente imóvel. E a melhor maneira de fazer algo de efetivo é se organizando. Especialmente partidos ou movimentos sociais. Nenhuma ação solitária poderá surtir o efeito necessário.

Para você quais as grandes demandas contemporâneas para quadrinistas, escritores e artistas em geral?
Creio que entender o mundo em que vive. Nunca vivemos em um mundo tão conectado e mesmo assim diversos ruídos entre as informações e diversos conflitos de interesses podem embaçar a percepção dos desavisados. Num momento de intensa pressão em que vivemos, onde a luta se acirra e tudo se coloca como uma questão de urgência, as disputas de narrativa também não nos dão descanso. Então os atores mais covardes da sociedade se aproveitam desse distúrbio para embaralhar ainda mais os sentidos de quem puder. Pode ser fácil, por exemplo, identificar a maior parte das mentiras difundidas pelo ocupante do cargo de maior evidência do governo federal, mas, quanto aos oportunistas… Eles são igualmente perigosos e mais difíceis de notar. Quanto a isso é importante lembrar que um artista, no fundo, é uma pessoa como qualquer outra. Presa a alguma classe social ou etnia, com problemas a se preocupar além do seu próprio processo artístico. A maioria como os de qualquer outra pessoa. Neste momento é importante lembrar sua origem de classe.

Leia Também: Os Escritores, os artistas e o partido, por Jorge Amado.
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