UM JORNAL DOS TRABALHADORES NA LUTA PELO SOCIALISMO

sábado, 28 de março de 2026
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O abandono da Faculdade de Odontologia da Universidade de Pernambuco

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Desde 2009, o prédio da Faculdade de Odontologia de Pernambuco da Universidade de Pernambuco não recebe manutenções e foi condenado em 2019 à desocupação pelo risco de desabamento. Apesar da promessa da construção de casas para famílias sem teto, seis anos se passaram e a construção continua abandonada e sem função social.

Vitor Cesar e Evelyn Dionízio | Camaragibe – PE


EDUCAÇÃO – Não é incomum ouvir reclamações sobre a estrutura das repartições públicas e como influencia diretamente na vivência das pessoas que frequentam esses ambientes. Todos sofrem com a falta de zelo e abandono do governo do estado, seja um trabalhador da própria repartição ou um usuário.

Um caso em especial é do antigo prédio da FOP-UPE (Faculdade de Odontologia da Universidade de Pernambuco) localizado no bairro de Tabatinga em Camaragibe, Região Metropolitana do Recife. O prédio – com terreno ao redor igualmente grande – foi, por 43 anos, um local de aprendizado e apoio à saúde da população na região. Porém, devido a falta de recursos e o descuido por parte do governo do estado, o que era para ser um marco para a saúde e educação se tornou um símbolo de desprezo e negligência.

Abandono que virou moradia

Desde 2009, o prédio não recebe as devidas manutenções e em 2019 foi condenado à desocupação pela Defesa Civil pelo risco de desabamento. Os furtos de equipamentos e materiais da estrutura local agravaram o cenário de abandono, tornando o que antes era uma autarquia de ensino em ruínas a céu aberto. Os alunos foram largados em diversos prédios da UPE, até que, por pressão popular, em dezembro de 2024 a Universidade anunciou a construção de um novo prédio sede para a Faculdade de Odontologia.

Enquanto isso, diversas famílias desabrigadas começaram a ocupar o imóvel desativado, pois encontraram ali uma oportunidade de ter onde morar. No entanto, em meio a pandemia da COVID-19 no ano de 2020, a UPE decidiu por ameaçar essas famílias com o despejo forçado caso elas não desocupem o espaço por espontânea vontade. Apesar das promessas de disponibilizar o terreno com 4.179,93m² para a construção de moradia através do programa Minha Casa Minha Vida, seis anos depois ainda não há avanço, o que faz com que mais de 80 famílias permaneçam desamparadas e largadas à própria sorte.

Cortes na educação é a causa

A política de Teto de Gastos, aprovado pela Emenda Constitucional n° 95, congela e determina que o Estado brasileiro não pode “gastar” com as áreas sociais mais do que a inflação acumulada do ano anterior. Por outro lado, a medida não impõe esse teto para gastos com o pagamento dos juros e amortizações da dívida pública, que destinou 46% do orçamento federal para os bancos e acionistas em 2022, segundo a Auditoria Cidadã da Dívida.

No final das contas, sejam governos de extrema-direita ou governos da social-democracia, os cortes da educação continuam acontecendo. A Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE), por exemplo, contou com menos de 70% dos recursos necessários para funcionar em 2025. O orçamento caiu de R$ 143,1 milhões para R$ 74,6 milhões, como já denunciou o Jornal A Verdade. O futuro das Universidades Públicas brasileiras é o sucateamento e cada vez mais a educação é transformada em mercadoria para que um punhado de bilionários continuem recebendo auxílio do governo. Apenas a mobilização dos estudantes e greves dos servidores públicos é capaz de frear essa realidade.

Metroviários de Recife entram em greve na luta contra a privatização

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Movimento grevista iniciado na segunda-feira (3/7) denuncia o projeto de privatização do metrô do Recife pelo Governo Federal e critica o autoritarismo da PM do governo Raquel Lyra, que prendeu o presidente do sindicato.

Jesse Lisboa, Alysson Monteiro e Evelyn Dionízio | Recife – PE


TRABALHADOR UNIDO – Os trabalhadores e trabalhadoras do Metrô do Recife (Metrorec) iniciaram uma greve por tempo indeterminado na madrugada da última segunda-feira (3 de julho). A decisão, aprovada em assembleia da categoria, é uma resposta ao processo de privatização do sistema, que está sendo acelerado pelo Governo Federal, através do BNDES, e conta com o apoio do governo estadual de Raquel Lyra (PSD).

A paralisação é a principal ferramenta de luta da categoria contra o sucateamento programado e a entrega do patrimônio público à iniciativa privada. Os metroviários denunciam que o roteiro da privatização segue sendo o mesmo modelo: primeiro, o abandono e a precarização do serviço; depois, a venda a preço baixíssimo para grandes empresários.

Sucateamento

O estopim para a paralisação aconteceu no último sábado (25), quando um dos vagões do metrô do Recife pegou fogo, deixando toda a Linha Centro interditada. De acordo com a CBTU, o incêndio foi causado por um curto-circuito na rede aérea, sistema de cabos que fornece a energia elétrica para o funcionamento dos trens.

Esta não foi a única tragédia ocorrida no metrô: o transporte constantemente é interrompido por diversos problemas nos próprios trilhos ou no não funcionamento dos ares-condicionados. O estado de Pernambuco está sob um projeto de entrega para a rede privada dos serviços que devem ser do povo. Além do metrô, a COMPESA (Companhia Pernambucana de Água e Esgoto) está na lista de privatizações, a ser entregue para a empresa canadense BRK.

A governadora Raquel Lyra (PSD) esteve em viagem para a China e avalia conceder para a Corporação de Construção Ferroviária da China (CRCC) o serviço de transporte pernambucano. Caso seja privatizado, o BNDES já prometeu R$ 3,5 bilhões para a rede privada e o aumento da linha ferroviária.

Fogo atingiu um vagão entre as estações Curado I e Alto do Céu - Foto: Reprodução.
Fogo atingiu um vagão entre as estações Curado I e Alto do Céu – Foto: Reprodução.

Em carta aos usuários do metrô do Recife, o Sindicato dos Metroviários de Pernambuco (Sindmetro-PE), coloca: “No último dia 25, uma composição pegou fogo, colocando em risco os usuários e o funcionário que conduzia o trem. Esse fato gravíssimo não pode ser tratado como um caso isolado ou como uma simples fatalidade. Ele é, na verdade, o resultado do descaso e do abandono do Governo Federal em relação ao Metrô do Recife e, consequentemente, do descaso e abandono para com a população que dele depende.”

O presidente do Sindmetro-PE, Luiz Soares, chegou a ser preso pela Polícia Militar durante um piquete realizado no Centro de Operações e Manutenção (COS), no bairro do Cavaleiro.

Vídeos que circulam nas redes digitais mostram a ação arbitrária da PM, que deteve o dirigente sindical sob a alegação de “desobediência”. A prisão é um ataque ao direito de greve e uma tentativa de criminalizar o movimento sindical, utilizando a força do Estado para defender os interesses privatistas. Nada novo sob o sol.

Enquanto a Justiça do Trabalho (TRT-6) se apressou em declarar a greve “abusiva” e determinar o funcionamento de 60% da frota nos horários de pico, a mesma agilidade não é vista para julgar o abandono do metrô ou a violência policial contra os trabalhadores que defendem o serviço público.

A greve dos metroviários do Recife não é um movimento isolado. Ela se soma a diversas outras lutas pelo país contra a agenda neoliberal de privatizações, que segue a pleno vapor. Os trabalhadores exigem investimentos públicos para a recuperação e melhoria do sistema, garantindo um transporte de qualidade para a população trabalhadora da Região Metropolitana.

Na audiência desta quarta-feira (6), o TRT-6 recomendou a suspensão da greve, acatada pelo sindicato após 3 dias de paralisação.

Movimentos denunciam projeto de lei que criminaliza ocupações urbanas e rurais em João Pessoa (PB)

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Em mais uma tentativa de criminalizar os movimentos sociais e atacar o direito ao teto e à moradia, um projeto de lei arbitrário foi apresentado na Câmara Municipal de João Pessoa, e foi denunciado pelos movimentos sociais e pelo povo organizado. 

Redação PB


ENTREVISTA- Na manhã desta terça (4), a Câmara Municipal de João Pessoa (PB) colocou em pauta um projeto de lei, de autoria do vereador Fábio Lopes (PL), que criminaliza as ocupações urbanas e rurais, além de inviabilizar o ingresso das famílias que vivem nessas áreas nos programas habitacionais e na regularização fundiária. Em outras palavras: as pessoas que mais precisam ter acesso à moradia digna serão excluídas de políticas públicas de habitação! É um verdadeiro ataque às famílias que lutam por moradia e aos movimentos sociais.

Enquanto João Pessoa enfrenta um déficit habitacional de 40 mil casas, a Câmara de Vereadores acelerou o encaminhamento do projeto, sem abertura de diálogo com a sociedade civil ou audiências públicas. Foi realizado um ato contra esse projeto, na Câmara Municipal, com a presença do Movimento de Luta nos Bairros, Vilas e Favelas (MLB), a Unidade Popular (UP) e outros movimentos sociais como o Mãos Dadas, União por Moradia e AMEG. No local, o jornal A Verdade esteve presente no ato e conversou com algumas companheiras do MLB presentes no ato, Rayssa Batista, da coordenação do MLB na Paraíba, Angélica Maria e Laiza Silva, do MLB.

 

Na sua visão, qual o impacto negativo desse projeto de lei?

Rayssa Batista- O impacto desse projeto é muito negativo e cai diretamente sobre o povo pobre da cidade de João Pessoa e, pelo que a gente tem visto, isso tem acontecido em diversas outras cidades. Diversas famílias na cidade que estão participando da luta e já recebem o auxílio aluguel. Na prática, o PL quer que não exista nenhum apoio do governo em relação às famílias que ocupam por que não tem outra opção, querem que a gente fique esperando para sempre, numa fila que nunca acaba. Aqui na cidade são 40 mil famílias que estão no déficit habitacional e são produzidas duas, três, no máximo quatro mil moradias por ano! Então, quando que essas moradias realmente vão alcançar o povo? João Pessoa está crescendo cada vez mais e diversas áreas da cidade estão tomadas pela especulação imobiliária e pelas construtoras, com a entrada de pessoas de diversas outras cidades, enquanto isso a população da periferia não tem consegue pagar o aluguel. Enfim, esse projeto é uma forma de dizer que a gente não tem o direito de morar na cidade de João Pessoa e quem faz essa luta vai ser criminalizado!

Durante o último ano quais os projetos de lei que a Câmara aprovou durante esse ano beneficiam a população?

Rayssa Batista A Câmara é muito limitada em relação a beneficiar a população! A gente não pode nem contar os projetos de lei que tenham sido concebidos nesse sentido. São sempre projetos de lei que favorecem os empresários ou até que nomeiam figuras como Bolsonaro como “cidadão pessoense”.

Qual a importância da ocupação para quem luta por moradia?

Angélica Maria – Na minha opinião, a importância da luta por moradia para as pessoas que não têm onde morar é enorme, porque são muitas das pessoas que não têm onde morar ou pagam num aluguel absurdo, onde sua renda é quase toda para pagar um aluguel. São pessoas que não têm muita oportunidade de emprego, porque muitos dizem que você tem que ter experiência, só que eles não lhe dão oportunidade para você ter essa experiência e poder trabalhar! E é muito difícil, no país onde a gente mora, um apoio para as pessoas que não têm onde morar, que não têm o que comer, que não têm com o quê se manter.

Laíza Silva – Fui moradora da Ocupação João Pedro Teixeira e só consegui conquistar minha moradia e receber o auxílio aluguel depois de ocupar, estava inscrita nos programas a mais de 11 anos e nunca tive resposta de nada. A gente tem que lutar pelo nosso direito, né?! O direito de morar, eles jamais dão pra gente! Por isso é muito importante lutar por aquilo que realmente precisa e quer!

Como é viver pagando aluguel na nossa cidade? O salário é suficiente para pagar aluguel, conta de luz e alimentação? 

Angélica Maria – Não! A gente tem que fazer uma escolha, ou paga aluguel ou alimenta a nossa família, porque para fazer os dois no país que a gente vive não dá! O dinheiro que a gente recebe não dá para pagar aluguel, pagar luz, pagar água, e comprar comida para dentro de casa, principalmente mulheres que têm filhos e são pai e mãe! É mais difícil ainda para essas famílias e para essas mulheres!

Laíza Silva – Não é suficiente porque tem as contas pra pagar, tem as feiras pra fazer. Nunca é suficiente!  Tinha que ser pra mais de três salários pra gente ter uma moradia digna e ter e viver bem com o salário! Tenho três filhos e é muito difícil manter a casa, só consigo garantir as coisas pra meus filhos pela cesta e o auxílio que conquistamos na luta.

 

Luta contra a extrema-direita

O vereador Fábio Lopes (PL) é conhecido na Câmara Municipal de João Pessoa como um dos principais representantes do bolsonarismo local. Costuma priorizar pautas morais, como a “defesa da família cristã” e a proibição da linguagem neutra, enquanto critica movimentos sociais, sindicatos e projetos de diversidade. Suas falas e propostas reforçam uma agenda é mais voltada à disputa política do que à resolução dos problemas reais da população pessoense. Durante a sessão, os militantes puxaram palavras de ordem rechaçando o vereador bolsonarista, com expressões como “Fora Fábio Lopes!” e “Vereador presta atenção se aprovar vamos ocupar sua mansão”, os movimentos presentes reforçaram a necessidade da reforma urbana e solução do déficit habitacional da cidade em vez de perseguir quem luta por moradia.

Graças à pressão popular presente na Câmara, o projeto de lei foi retirado da pauta do dia, porém com indicação de retomada ainda na quinta-feira desta semana.

 

Movimentos sociais e sociedade civil lotaram auditório da Câmara para denunciar PL golpista. Foto: JAV-PB

 

Trabalhadores da Empresa de Pesquisa Energética (EPE) em greve por direitos e valorização salarial

Movimento grevista dos trabalhadores Empresa de Pesquisa Energética mobiliza dezenas de pessoas no Rio de Janeiro. Pauta de reivindicações inclui valorização salarial e melhores condições de trabalho.

Redação RJ


TRABALHADOR UNIDO – Os trabalhadores e trabalhadoras da Empresa de Pesquisa Energética (EPE) estão em estado de greve há um mês, diante da falta de disponibilidade de diálogo por parte da direção da empresa. A decisão foi tomada após a diretoria declarar que não tem agenda para se reunir com os representantes da categoria, mesmo diante de uma série de reivindicações que seguem ignoradas.

A EPE, vinculada ao Ministério de Minas e Energia, é responsável por planejar o futuro energético do Brasil. Criada em 2004, a empresa pública surgiu como resposta às crises e os apagões do início dos anos 2000, com a missão de viabilizar segurança energética, planejar o crescimento da matriz elétrica e pensar o uso sustentável das nossas fontes de energia.

Seus estudos, projeções e diagnósticos ultrapassam o setor elétrico: abarcam petróleo, gás natural, fontes renováveis, eficiência energética e políticas estruturantes que orientam o futuro energético do país. Ao prover ao governo brasileiro de planos decenais e de longo prazo consistentes, e ao sustentar o desenho da matriz energética, a EPE constitui pilar estratégico para garantir segurança, soberania e transição justa no campo energético.

Trabalhadores lutam por direitos

Por trás dos grandes planos e relatórios que orientam o país, há trabalhadoras e trabalhadores precarizados, enfrentando salários defasados, sobrecarga e falta de valorização. Neste cenário, os trabalhadores reivindicam a recomposição integral das perdas salariais acumuladas ao longo dos anos, que, segundo a categoria, ultrapassam 22% desde maio de 2014. A proposta inicial da empresa de reajuste em apenas 4 %, abaixo da inflação do período, foi rejeitada de forma unânime entre os empregados.

A luta não se limita apenas à recomposição salarial. Entre as demais reivindicações, estão: o fortalecimento das cláusulas sociais (auxílio saúde e alimentação), a definição e implementação de novo Plano de Cargos e Salários, a preservação do regime de trabalho híbrido e a rejeição de uma norma interna que permitiria demissões arbitrárias. Denuncia-se também que a lentidão nas negociações, que já somam sete meses entre a entrega da pauta e a primeira proposta, agravam o desgaste institucional.

O impasse nas negociações reflete o caráter liberal e fiscalista do atual governo, que tem orientado suas políticas para o corte de gastos públicos e sociais às custas da desvalorização do trabalho e do trabalhador. A proposta apresentada à categoria, com índice inferior à inflação oficial, representa na prática uma redução salarial, travestida de reajuste.

Enquanto se ampliam benefícios a setores privados e se flexibilizam regras fiscais para o capital financeiro, o governo impõe arrocho e cortes sobre o serviço público. As negociações, conduzidas sem transparência e sem abertura real ao diálogo, revelam a tentativa de impor um modelo de gestão que subordina direitos trabalhistas às metas fiscais, ignorando o papel essencial que os servidores da EPE cumprem na formulação de políticas energéticas estratégicas para o país.

Essa paralisação não pode ser reduzida a uma mera reivindicação corporativa. Ela expressa o desgaste prolongado de profissionais que detêm especialização elevada, dos quais muitos com cursos de mestrado e doutorado conforme tabela abaixo e que sentem, na prática, que seu aporte é subvalorizado. A fuga desses talentos para as empresas privadas ou para outros cargos públicos é apontada como consequência direta do cenário de defasagem e insegurança. Considerando o quadro atual de pouco mais de 400 empregados após o último concurso, mais de 100 evadiram para outras oportunidades.

Por que as reivindicações devem ser atendidas? Porque uma estatal estratégica não se sustenta sem técnicos motivados e remunerados dignamente. Quando se fragiliza a base humana que gera os estudos e diagnósticos, compromete-se a qualidade dos planos energéticos. E isso reverbera sobre a sociedade brasileira: impactos na confiabilidade do sistema, atrasos em projetos, distorções em políticas públicas e aumento na conta de energia.

A atual greve da EPE expõe uma contradição do atual governo, que apresenta um discurso de compromissos climáticos, investimentos em “transição energética” e promover justiça social, mas que mantém segmentos essenciais do setor público precarizados. O movimento grevista da EPE é uma chamada ao Estado para reconhecer e valorizar quem planeja o futuro energético do Brasil é investir na soberania, no fortalecimento institucional e no direito dos servidores de exercer com dignidade sua missão.

ABC Paulista registra aumento nos índices de violência contra mulheres e crianças

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Apesar do alto IDH das cidades do ABC paulista, o número de feminicídios e a violência contra as mulheres tem aumentado devido ao descaso das prefeituras da região

Isabella Catarina | Casa da Mulher Trabalhadora Carolina Maria de Jesus


MULHERES – A região do ABC Paulista é uma das mais ricas do estado de São Paulo e do Brasil. A história da região faz parte da história colonial do Brasil, devido sua proximidade à cidades importantes para a exploração das riquezas como Santos e São Vicente, o que desde o início fez ampliar a economia da região.
Com o passar dos anos, o ABC Paulista foi se consolidando como um gigantesco polo fabril, possuindo filiais de multinacionais como Volkswagen, Mercedes-Benz, Scania, Bridgestone e Ford. Todo esse processo contribuiu para o enriquecimento e povoamento das cidades, fruto do trabalho de milhares de homens e mulheres.
As sete cidades que compõem a região apoiam-se em dados estipulados pela burguesia como padrões para medir a qualidade de vida, em especial o IDH, liderado nacionalmente pela cidade de São Caetano do Sul.
Entretanto, mesmo com a manipulação de dados e as políticas de higienismo características das prefeituras das principais cidades (Santo André, São Bernardo do Campo e São Caetano do Sul), não é possível esconder o avanço da violência contra mulheres e crianças na região.

Violência contra a mulher

Apenas no ano de 2025, 7 mulheres foram vítimas de feminicídio no ABC. Santo André lidera o ranking, com 4 feminicídios. Mauá, São Bernardo e Diadema contam com um feminicídio cada.
Sabe-se ainda que os equipamentos públicos de acolhimento às mulheres em situação de violência são completamente insuficientes, já que a região conta apenas com uma Casa Abrigo, alvo de desmontes constantes, e nenhuma Delegacia da Mulher 24 horas e Casa de Passagem.
A situação fica muito pior quando trata-se da violência contra vulneráveis. Pode-se considerar que o ciclo violento inicia desde o momento em que as crianças ficam em estado de subnutrição, já que em 2023, 37% das crianças menores de 5 anos passavam fome.
As merendas oferecidas pelas escolas e creches públicas são fora dos padrões nutricionais estipulados para um bom desenvolvimento infantil, e as creches não possuem nem mesmo insumos básicos para higiene. Situações como essa geram casos como o da criança de 5 anos morta após ser atingida por um tronco de árvore na creche em São Bernardo, após a prefeitura recusar-se a fazer a poda preventiva, seguem sendo relativizados pelas prefeituras.
A violência sexual também é alarmante. De acordo com a Secretaria de Segurança Pública, o crime de estupro de vulnerável cresceu 10,42% no ABC, comparado ao mesmo período do ano passado. Apenas em São Caetano – a cidade com maior IDH no Brasil, o número de casos cresceu 50%, com 15 casos, existindo ainda uma investigação de um estupro dentro de uma creche.
Em Santo André, o aumento foi de 45,4%, e em Mauá 17,7%. Há de se considerar ainda a enorme subnotificação, principalmente por tratarem-se de menores de idade, que muitas vezes não compreendem a violência e contam apenas com os órgãos dos Conselhos Tutelares como meio de denúncia.
Movimento de Mulheres Olga Benário em manifestação exigindo justiça por Gabriela Mariel. Foto: Artur Luz/Jornal A Verdade
Movimento de Mulheres Olga Benário em manifestação exigindo justiça por Gabriela Mariel. Foto: Artur Luz/Jornal A Verdade

Descaso das prefeituras

É inadmissível que diante de tamanho avanço da violência as prefeituras mantenham-se caladas. Calar-se diante da violência contra mulheres e crianças é colaborar para que os números aumentem.
Mas não é de se surpreender que as prefeituras nada façam sobre essas problemáticas, como é o caso da prefeitura de Gilvan (PSDB) em Santo André, que se contentou em pintar uma faixa de pedestres foi pintada de rosa em “homenagem” às mulheres no dia 8 de março.
O desmonte dos equipamentos públicos é um plano meticulosamente articulado. O CAPS Infanto-Juvenil de São Caetano está com agenda lotada e a prefeitura altera a composição do Conselho Municipal dos Direitos da Criança e do Adolescente mediante portaria, o que é ilegal, apenas em benefício próprio.
Jornais e portais de notícia da burguesia, fantoches das prefeituras de direita preocupam-se mais em inventar mentiras sobre as ocupações de mulheres, que salvam as vidas que as prefeituras ignoram, do que em denunciar essa situação alarmante e violenta, à exemplo da perseguição política às coordenadoras da Ocupação da Mulher Operária Alceri Maria Gomes da Silva, em São Caetano.
Vereadores das cidades preferem propor projetos inconstitucionais, como o de proibir que qualquer servidor público da cidade fale a palavra aborto, como foi proposto pelo fascista Márcio Colombo (PSDB/Santo André e membro do MBL) do que propor medidas de enfrentamento à violência, um dos fatores principais para o serviço de abortamento ser uma questão de saúde pública.
A realidade é que tanto as mulheres quanto as crianças são vistas como inferiores na sociedade do lucro e da exploração. Não existe uma preocupação por parte dos burgueses e políticos corruptos com o futuro da humanidade, estes preferem ver seus bolsos cheios de dinheiro roubado do povo.
A solução para a violência é a organização popular para a construção de uma sociedade completamente nova, que vê as mulheres como fundamentais para a transformação de tudo que é velho e caduco em novo e justo. Que vê as crianças como aqueles e aquelas que vão viver numa sociedade verdadeiramente livre, a sociedade socialista.

Bancos lucram bilhões, povo está endividado

Dados sobre renda centrados numa média podem enganar os desavisados, mas, quando comparados, escancaram as profundas desigualdades socioeconômicas do Brasil. De um lado, uma massa trabalhadora imensa lutando para sobreviver, enquanto uma pequena parcela de super-ricos vive no luxo e propagandeando que o Brasil é “um país de todos”.

Rafael Freire | Redação


EDITORIAL – No último mês de setembro, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) divulgou dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio (Pnad Contínua), apontando um crescimento de 3,8% na renda média mensal do brasileiro em comparação a um ano atrás. O valor chegou à casa dos R$ 3.484,00.

Se quase 90 milhões de brasileiros (aposentados, trabalhadores formais e informais) possuem renda de até um salário mínimo por mês (R$ 1.518,00), então fica a pergunta: quem puxa essa média para cima? O percentual de 0,1% mais ricos da população brasileira possuem uma renda média de R$ 95 mil mensais (Fundação Getúlio Vargas), o equivalente a 158 beneficiários da faixa mínima (R$ 600,00) do Bolsa Família.

Dados sobre renda centrados numa média podem enganar os desavisados, mas, quando comparados, escancaram as profundas desigualdades socioeconômicas do Brasil. De um lado, uma massa trabalhadora imensa lutando para sobreviver, enquanto uma pequena parcela de super-ricos vive no luxo e propagandeando que o Brasil é “um país de todos”.

Lucros dos bancos

Vejamos agora quem realmente conseguiu “aumento de renda” (lucros extraordinários) no Brasil nas últimas décadas.

Governo Lucro inicial Lucro final Crescimento anual
Lula R$ 6,1 bilhões R$ 39,0 bilhões 26,11%
Dilma R$ 39,0 bilhões R$ 54,5 bilhões 5,73%
Temer R$ 54,5 bilhões R$ 65,6 bilhões 9,71%
Bolsonaro R$ 65,6 bilhões R$ 95,8 bilhões 9,92%
Fonte: Bloomberg

 

Esses foram os lucros somados apenas dos quatro maiores bancos de capital aberto que atuam no país (Itaú, Bradesco, Banco do Brasil e Santander). Em 2024, eles bateram o recorde e lucraram R$ 114 bilhões.

E sabe como esses bancos lucram tanto? Primeiro, explorando seus funcionários e demitindo-os para explorar ainda mais os que ficam, como denunciou A Verdade, em sua última edição (nº 321), a demissão em massa de mil trabalhadores do Itaú.

Em segundo lugar, cobrando juros extorsivos das famílias trabalhadoras. De fato, mais de 78 milhões de brasileiros estão inadimplentes, segundo o Serasa. Já a Confederação Nacional dos Dirigentes Lojistas (CNDL) aponta que mais de 43% da população adulta do país está com contas atrasadas, e o tempo médio de atraso só cresce. A própria CNDL, entidade que representa os capitalistas do comércio, reconhece que os juros são um dos principais responsáveis por esse cenário. “A gente tem uma taxa de juros que ficou num patamar muito alto [taxa Selic de 15% ao ano]. As famílias têm menos espaço para outras compras ou para poder quitar dívidas que já estavam feitas antes”, afirma a entidade.

Os brasileiros com idades entre 41 e 60 anos representam a maior parcela da população endividada (35,3%). Na sequência, estão as faixas etárias de 26 a 40 anos (34%); acima de 60 anos (19,2%); jovens entre 18 e 25 anos (11,5%).

Levantamento da plataforma Gigu, que auxilia motoristas de aplicativos a calcular a lucratividade de suas corridas, apontou que 92% desses trabalhadores estão endividados, sendo que, em 68% dos casos, as dívidas comprometem as despesas essenciais com alimentação, moradia e as contas de casa. Em São Paulo, maior cidade do país e com alto custo de vida, eles chegam a trabalhar 60 horas por semana, mas sua renda não passa dos R$ 4.000,00 por mês, e, muitas vezes, param de trabalhar por não conseguirem fazer a manutenção dos seus veículos. Em Maceió, capital de Alagoas, a renda média mensal cai drasticamente para R$ 1.800,00.

Portanto, dentro da lógica do sistema capitalista, todo e qualquer aumento na renda da classe trabalhadora brasileira é prontamente corroído pela inflamação dos itens básicos (alimentação, transporte, moradia, saúde, vestuário, etc.) e pela extorsão dos bancos.

Como definiu o revolucionário russo V. I. Lênin, os bancos se fundiram ao capital industrial e se transformaram em imensos monopólios capitalistas:

“A operação fundamental e inicial que os bancos realizam é a de intermediários nos pagamentos. É assim que eles convertem o capital-dinheiro inativo em capital ativo, isto é, em capital que rende lucro; reúnem toda a espécie de rendimentos em dinheiro e colocam-nos à disposição da classe capitalista. À medida que vão aumentando as operações bancárias e se concentram num número reduzido de estabelecimentos, os bancos convertem-se, de modestos intermediários que eram antes, em monopolistas onipotentes, que dispõem de quase todo o capital-dinheiro do conjunto dos capitalistas e pequenos patrões, bem como da maior parte dos meios de produção e das fontes de matérias-primas de um ou de muitos países. Esta transformação dos numerosos modestos intermediários num punhado de monopolistas constitui um dos processos fundamentais da transformação do capitalismo em imperialismo capitalista.” (Imperialismo, Fase Superior do Capitalismo)

É exatamente o caso da família Moreira Salles, que detém um terço das ações do Itaú Unibanco e é dona da Companhia Brasileira de Metalurgia e Mineração (CBMM), com um monopólio de 75% do nióbio mundial. Trata-se de um metal de grande resistência e condutividade, utilizado na produção de um décimo de todo o aço do mundo para a melhoria da qualidade da liga metálica, sendo aplicado no setor automotivo, aeroespacial, de construção, em baterias e em equipamentos de saúde. A família possui ainda vastas plantações de laranja e de cana-de-açúcar, além de ter comprado, em 2017, a Alpargatas, dona da marca de sandálias Havaianas.

Das 12 pessoas mais ricas do Brasil, segundo a revista Forbes, quatro são membros dessa família. A soma das fortunas desses magnatas é de quase US$ 131 bilhões (R$ 693 bilhões). O brasileiro mais rico é Eduardo Saverin, cofundador da rede digital Facebook, com declarados US$ 34,5 bilhões (R$ 183 bilhões).

Solução é a luta

Não há outra maneira de o povo trabalhador sair desse buraco em que os ricos querem nos aprisionar, senão a luta coletiva, organizada, da nossa classe. Foi o que fizeram milhares de pessoas no Brasil no mês de setembro.

No dia 07 (Dia da “Independência”), cerca de 5 mil pessoas atenderam ao chamado do Movimento de Luta nos Bairros, Vilas e Favelas (MLB) (ver pág. 8) e realizaram uma Jornada Nacional de Ocupações em 15 estados. Em Recife (PE), as famílias realizaram a Ocupação Gregório Bezerra num prédio abandonado do INSS.

Maria Aparecida Ferreira, 38 anos, é auxiliar de serviços gerais numa loja de automóveis, trabalhando na escala 6×1, de segunda a sábado. Seu marido trabalha como lavador de carros num lava-jato, e a renda somada é de dois salários mínimos. Moram na casa onze pessoas (além do casal, são cinco filhos, três netos pequenos e a mãe idosa). “Pago aluguel há 18 anos, hoje 650 reais, mais 400 de água e energia, fora as despesas com alimentação e remédios para os bebês e minha mãe doente. É muito difícil viver assim porque, hoje, a gente paga o aluguel e, amanhã, já tá devendo. Depois que conhecemos o MLB e viemos pra Ocupação, temos apoio na alimentação coletiva e estamos lutando por nossa moradia própria. A sociedade nos oprime e não temos direito a se alimentar bem, à saúde, ao lazer, como diz a Constituição”, relata Aparecida.

À luta também foram milhares de brasileiros no dia 21 de setembro no ato nacional contra a PEC da Impunidade e o perdão às penas da organização criminosa encabeça pelo ex-presidente Jair Bolsonaro e seus generais fascistas. Seguramente, foram mais 600 mil pessoas em, pelo menos, 60 cidades. Em São Paulo e no Rio de Janeiro os atos contaram com mais de 100 mil pessoas, cada. No Rio, importantes artistas participaram, como Chico Buarque, Gilberto Gil, Caetano Veloso e Ivan Lins. Belo Horizonte (50 mil); Fortaleza e Recife (40 mil, cada); Brasília, Salvador, Natal e Porto Alegre (20 mil) estiveram entre os maiores atos do país. Na Paraíba, houve atos na capital João Pessoa e em Patos, cidade de origem do presidente da Câmara Hugo Motta, onde, inclusive, seu pai é o atual prefeito.

A PEC da Impunidade previa que deputados, senadores e presidentes de partidos só poderiam ser processados e julgados com autorização do Congresso Nacional. Na prática, era uma forma de impedir que políticos corruptos fossem processados e condenados na Justiça. Fruto dos atos, a Comissão de Constituição e Justiça do Senado rejeitou por unanimidade a PEC uma semana depois que os deputados a aprovaram, junto com o regime de urgência do projeto de perdão aos golpistas de 08 de janeiro de 2023.

Mas engana-se quem pensa que toda essa gente foi às ruas apenas contra dois projetos legislativos, mesmo que de grande importância à nação. As graves contradições vivadas pelo povo brasileiro, fruto da exploração capitalista; as ameaças imperialistas, especial dos EUA; a crescente consciência antifascista; enfim, o acirramento da luta de classes são elementos centrais na realidade nacional e devem ser desenvolvidos para uma correta ação das organizações revolucionárias rumo à construção do poder popular e do socialismo.

Editorial publicado na edição nº322 do Jornal A Verdade.

Prisioneiras políticas fazem greve de fome no Paraguai

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Desde 28 de outubro, Carmen Villalba, Laura Villalba e Fracisca Andino estão fazendo greve de fome na Penitenciária De Segurança Máxima de Minga Guazú, conhecida como “Guantánamo do Paraguai”. Elas pedem pelo fim das torturas que estão sofrendo na prisão, onde estão numa solitária em um presídio para homens.

Nana Sanches | Porto Alegre – RS


INTERNACIONAL – A família Villalba é conhecida por ser formada por lutadores sociais do campo e tem sofrido uma sistemática perseguição do Estado Paraguaio desde 2012, após uma ação violenta de reintegração de posse, comandada por latifundiários. 

Presas injustamente pelo governo do país, as militantes tem denunciado a repressão política nos últimos anos. Em 2024, a Unidade Popular conduziu uma campanha de solidariedade para denunciar os desaparecimentos forçados e as prisões arbitrárias no Paraguai.

Família Villalba perseguida pelo governo paraguaio

Carmen Villalba foi presa em 2002 por suas atividades no Partido Pátria Livre. Ela já cumpriu sua pena, mas segue presa. Ela é irmã de Myrian Villalba (veja Jorna A Verdade , mãe de Lilian Villalba, que em 2020, foi fuzilada junto com sua prima, María Carmen, filha de Laura Villalba. Elas tinham 11 anos. 

Laura Villalba foi sentenciada a 31 anos de prisão sob a alegação de abandono da filha, enquanto os assassinos de suas filhas Lilian e Maria Carmen seguem impunes. Não há sequer uma investigação para apurar os assassinatos das meninas Villalba. Carmen Villalba é mãe de Lichita Villalba. Em 2020, Lichita foi sequestrada e está desaparecida desde então. 

Em 2022, Osvaldo Villalba, irmão de Carmen e Laura e dirigente do Exército do Povo Paraguaio foi assassinado. Tal Exército é uma organização marxista-leninista que teve início em 2008 e nasceu com o objetivo de lutar pela soberania do povo daquele país. Atualmente, a família Villalba está exilada na Venezuela e busca apoio internacional para libertar suas irmãs e encontrar Lichita. 

Os crimes cometidos pelo Estado Paraguaio são condenados por diversas organizações internacionais. O infanticídio e desaparecimento de uma jovem não podem ser naturalizados em nenhum contexto. Nos somamos à luta da família Villalba que, apesar de toda repressão, segue resistindo por um mundo sem latifúndios nem latifundiários.

Mickey 17: filme retrata precarização do trabalho em tempos de imperialismo

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A ficção científica de Bong Joon Ho, lançada em março deste ano, faz uma sátira bem humorada ao atual cenário político mundial, ironizando sob temas como a desumanização do trabalhador, imperialismo e autoritarismo, além de aprofundar a discussão sobre a questão do trabalho e da sociedade capitalista em seu estágio atual, o imperialismo.

Gabriela Calixto | Recife


CULTURA – O filme conta a história de Mickey Barnes, um homem que se afundou em muitas dívidas, e é forçando a embarcar numa missão de colonização espacial liderada por um político fracassado. Desesperado para fugir das dívidas, Mickey acaba se voluntariando para ser uma espécie de tripulante “descartável”, ou seja, durante a tal expedição exploratória para esse planeta desconhecido, ele será usado das mais diversas formas, passará por todo dia de experiência científica e testes, sendo exposto à morte de diversas maneiras diferentes — e morrendo em todas elas, tendo seu corpo sempre refeito por uma espécie de impressora tecnológica, o fazendo reiniciar o ciclo de morte praticamente todos os dias.

A questão sai do controle quando esse sistema erra, imprimindo Mickey mais de uma vez, fazendo com que sua cópia o desafie para manter sua vida.  Bong Joon Ho, diretor roteirista sul-coreano, é conhecido por trazer reflexões e críticas sempre muito inteligentes sobre as particularidades e atuais contradições do sistema capitalista, entre eles Expresso do Amanhã ( Snowpiercer, 2013, inspirada numa HQ francesa), Okja (2017) e Parasita (Gisaengchung, 2019)) ganhador de 4 Oscars em 2020, incluindo o de melhor filme, além de ser o primeiro filme não-americano a ganhar o Oscar de melhor filme, o que projetou ainda mais o nome do diretor na indústria internacional e o permitiu escrever, produzir e dirigir Mickley 17, que é baseado em um romance de Edward Ashton, de 2022. Diferente de seu filme anterior, esse não conseguiu repetir o fenômeno cultural, sobretudo pelas críticas escancaradas à sociedade americana, tendo um grande nome de Hollywood (Robert Pattinsom) na trama.

A precarização do trabalhador nos dias atuais

O filme de Bong Joon Ho não é apenas uma alegoria ou um retrato caricato de uma realidade inexistente. No mundo real, vemos todos os dias a classe trabalhadora sendo cada vez mais precarizada, perdendo direitos e sendo exposta a morte, assim como é retratado no filme. Com o aumento da uberização do trabalho, nossa classe muitas vezes precisa trabalhar até quatorze horas por dia para conseguir obter o mínimo para sobreviver. Não longe disso, o filme traz uma reflexão que também pode ser associada à luta contra a escala 6×1. Pois é de conhecimento geral que, esse regime de escravidão moderna está intimamente ligada à saúde física e mental da classe trabalhadora, que os impede de ter uma vida com qualidade, cuidar da própria saúde, pensar por si mesmo ou passar um tempo mínimo de lazer com seus familiares e amigos.

Além desses temas, o filme também levanta um questionamento interessante: se você é substituível, qual o valor da sua vida? O que de verdade vai libertar a classe mais pobre do fardo da 6×1, dos perigos da uberização do trabalho, do trabalho abusivo e mal remunerado e da desumanização do indivíduo por meio de um processo de mecanização que tira de nós até a nossa sensibilidade? Nas entrelinhas poderíamos dizer que uma revolução. E é exatamente isso que ocorre com esse trabalhador descartável, que tem que morrer cada dia um pouco para um punhado de rico lucrar. E é difícil não assistir ao filme e lincar com nossa realidade, pois, para meia dúzia de empresários, nós somos “descartáveis”.  Se morrermos hoje, amanhã terá outro trabalhador para ocupar nossa função.

O imperialismo retratado no filme

No filme, a figura que representa o imperialismo é o personagem Kenneth Marshall, interpretado por Mark Ruffalo. Aqui temos a representação de todo autoritarismo de hoje e de ontem: ele, um político corrupto e empresário sujo, acredita que seu projeto de ocupação do espaço seja justificável e legítima, e que a colonização deve acontecer, não se importando em quantas vidas serão tiradas, desde que ele mesmo não seja colocando em risco. Justificando suas medidas individualistas e desprovidas de razão e até usando o discurso de defesa do “bem coletivo” ele nos aproxima dos atuais “inovadores”, “empreendedores” e milionários de hoje, que enriqueceram com o sangue, suor e lágrimas de milhões de trabalhadoras e trabalhadores.

O caminho é a revolução

Esses problemas expostos no filme vão além do roteiro, eles são dilemas reais, que afetam a vida e o cotidiano da classe mais pobre. No longa, o diretor não esconde a necessidade de se rebelar, de conhecer a sua realidade e fazer de tudo para transformá-la. Em uma das cenas mais interessantes, o personagem, que não se chama Mickey à toa, passa a reivindicar um nome pra si, deixando de ser objetificado. Isso acontece exatamente após ele notar que a realidade da nova natureza em que ele está inserido poder ser transformado por ele.

É assim também em nossa sociedade. Para resolvermos nossas dificuldades e acabar com a exploração, a única saída é se organizar. Quantos milhares de operários precisarão ainda serem mortos para alimentar um único bilionário, que nada produz a não ser mais exploração, banalização da vida e a violência? Mais: com o advento da internet, ficou mais escancarado o quanto é odioso esse mecanismo de alienação. A gente trabalha, não consegue ter direito nem ao descanso ou se quer tem a possibilidade de usufruir daquilo que produz. É como o personagem Mickey, que tem que submeter a diversas situações humilhantes e perigosas, até decidir se revoltar e tomar as rédeas de seu futuro.

Estudantes sofrem prisão arbitrária e truculenta em escola técnica de Teresina (PI)

Militantes são presos durante manifestação em denúncia a ofensiva da SEDUC contra grêmio estudantil e democracia nas escolas do Piauí.

Nimbus Pinheiro e Redação PI | Teresina (PI)


EDUCAÇÃO — Na tarde desta quinta-feira (30/10), a Secretaria de Estado da Educação do Piauí (SEDUC-PI) convocou uma assembleia para destituir o Grêmio Estudantil Torquato Neto, da Escola Técnica de Teatro Gomes Campos, no centro de Teresina.

A Secretaria, junto da diretoria da escola, isolou o presidente do grêmio, José Augusto, e acionou a Polícia Militar, que cercou a escola e tentou impedir a entrada de diretores da Federação Nacional dos Estudantes em Ensino Técnico (FENET), da Associação Municipal dos Estudantes Secundaristas de Teresina (AMES Teresina), e militantes do Movimento Rebele-se; “não-estudantes”, segundo a PM.

“Já de início, tavam querendo impedir que a gente entrasse em contato com os estudantes, com a diretoria, com a assembleia. Ou seja, mostrando, mais uma vez, que a SEDUC não tinha perspectiva de fazer algo democrático, mas sim de alienar o grêmio do companheiro”, aponta Laura Borges, diretora da FENET.

Sobre a assembleia, a SEDUC justifica a tentativa de destituição do grêmio com o argumento de “questões burocráticas”. Mas, na realidade, trata-se de perseguição a um grêmio combativo na Escola Gomes Campos. Além das inúmeras lutas travadas, e das conquistas de ônibus escolar e melhores condições para o refeitório da instituição, o Grêmio Estudantil Torquato Neto convocava uma greve estudantil para o mês de novembro, atendendo ao chamado da FENET, por melhores condições estruturais nas escolas técnicas do Brasil.

Militantes são presos arbitrariamente

José Augusto, também diretor da FENET, e diretor da AMES Teresina, foi, ainda, agredido, sufocado, e então imobilizado, após tentar se defender. Após algemar, o policial pressionou o joelho no pescoço de Augusto, já no chão. E, ainda, ao levantá-lo, enfiou o dedo no olho do gremista.

Além dele, Caetano Teles, do Movimento Rebele-se, teve o celular roubado, foi jogado ao chão e agredido. “Depois que ele me prendeu, foi me levando pra fora da escola. Me ameaçou, disse que ia descobrir meu nome, meu endereço. Que ia atrás de mim, e me deitar na porrada”, relata Caetano.

Dara Neto, do Movimento de Luta nos Bairros, Vilas e Favelas (MLB), também foi algemada e tratada com truculência.

“Sei nem quem é, porque não se identificou, mas [o policial] tá aqui dizendo que não foi ele quem me prendeu, mas por ele, não tinha problema dar tapa na cara, e que não quer saber qual crime que eu cometi”, denuncia Dara, algemada, em vídeo gravado à tarde da quinta-feira, ainda na escola. “Eu falei que tenho meus direitos, ele disse ‘que direitos? Direitos é o de menos, não tem isso de direitos pra polícia’. Essa é a polícia de Rafael Fonteles”.

Os três foram presos, sem justificativa, e levados à Central de Flagrantes.

Grêmios sofrem perseguição pela SEDUC

A Secretaria, a mando do governo estadual, adota, hoje, uma postura autoritária com relação aos grêmios estudantis do Piauí. É imposto controle e tutela sobre essas entidades, transformando gremistas em funcionários não remunerados da Secretaria, e impedindo sua autonomia. Os grêmios que não se submetem a essa política, a exemplo do Grêmio Estudantil Torquato Neto, eleito democraticamente, são perseguidos; o que fere a Lei nº 7.398/1985, conhecida como “Lei do Grêmio Livre”.

O governador do Piauí, Rafael Fonteles (PT) é fundador e um dos principais acionistas do Grupo Educacional CEV, rede privada de ensino do Piauí. Em sua gestão, o empresário impõe políticas neoliberais, como a privatização de estatais e a precarização de serviços públicos.

Por sua vez, a repressão pela Polícia Militar reflete a criminalização da luta dos estudantes, e surge como fruto do sistema capitalista, que condena as denúncias do abuso sofrido pela classe trabalhadora, ao mesmo tempo que reduz, cada vez mais, os seus direitos.

Após quase seis horas em cárcere, e sob vigília ferrenha de militantes e aliados sindicalistas, Dara, Augusto e Caetano foram soltos. Apesar da truculência e do autoritarismo da PM do estado do Piauí, a pressão popular conquistou a liberdade dos militantes, e reafirmou a importância da luta do movimento estudantil.

Lutar pela educação não é crime! Pela livre atuação dos grêmios estudantis!

30 anos de fundação da Biblioteca dos Trabalhadores Amaro Luiz de Carvalho

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Fundada em 1995, com apoio de colaboradores, militantes e ativistas da cultura, o espaço de formação e divulgação da cultura completa 30 anos em atividade e promovendo a leitura e o socialismo como alternativa para transformar a sociedade. 

Alberes Simão | Petrolina (PE)


 CULTURA – Neste mês de outubro, a Biblioteca dos Trabalhadores Amaro Luiz de Carvalho (ALC), do Centro Cultural Manoel Lisboa do Recife, completa 30 anos de existência, reafirmando seu compromisso com a educação popular, a cultura crítica e a organização da classe trabalhadora. Fundada em 1995, a biblioteca nasceu do esforço coletivo de militantes, estudantes e trabalhadores comprometidos com a construção de um espaço de conhecimento voltado ao povo pernambucano.

Durante três décadas, a Biblioteca Amaro Luiz de Carvalho consolidou-se como um importante ponto de resistência cultural e política na capital pernambucana.  Oferecendo acesso gratuito à livros, jornais, panfletos, documentos históricos e produções marxistas que dificilmente encontram espaço nas grandes instituições ou nas prateleiras comerciais, além de organizar diversos eventos ao longo dessas últimas três décadas. O acervo, composto por centenas de obras sobre história, economia, filosofia, política e literatura, foi formado graças a doações solidárias e ao trabalho voluntário de bibliotecários e educadores populares.

Resgate da cultura e difusão do livro

Atuando na difusão e divulgação do marxismo-leninismo, as Edições Manoel Lisboa tem publicado diversos livros clássicos como Às portas de Moscou, A história do Partido Bolchevique ou a biografia de Lênin, todos encontrados esgotados ou publicados há mais de trinta anos. Ao mesmo tempo livros atuais como As ideias Políticas na História: das cavernas às redes sociais, do professor e militante da Unidade Popular Natanael Sarmento, lançado em 2024, tem sido acolhidos pela sociedade como referências para estudo e formação de opinião.

O Centro Cultural também dispõe de um amplo acervo fotográfico e bibliográfico, sendo a única biblioteca pública do Norte/Nordeste a contar com a coleção das obras completas de Lênin, além de textos raros de José Martí, Fidel Castro, Che Guevara, Marx, Engels, Stálin, Ho Chi Minh, Dimitrov, Carlos Marighella, Carlos Mariátegui, entre outros, acervo esse que contribuiu como suporte para trabalhos acadêmicos, artigos científicos, pesquisas para TCCs e etc.

Quem é o patrono da biblioteca do CCML?

Amaro Luiz de Carvalho foi um trabalhador rural que se formou na luta. Nascido em Joaquim Nabuco, em 4 de junho de 1931, Capivara ou Palmeira, como era conhecido, foi um grande leitor, tendo aprendido a ler e escrever com muito esforço, além de ter aprendido sozinho inglês e espanhol, para ajudar na militância internacional contra a ditadura militar (1964-1985). Foi dele a autoria de “As quatro contradições da Zona Canavieira de Pernambuco” (Editorial a Luta, 1967), prova de que a cultura pode ser uma ferramenta de transformação.  Como forma de homenagear seu legado e exemplo, a biblioteca do nosso Centro Cultural foi homenageada com o nome desse lutador, assassinado covardemente pelo regime militar em 1971.

A celebração dos 30 anos da Biblioteca Amaro Luiz de Carvalho (ALC) é também um ato de reafirmação da luta pelo direito à educação crítica e transformadora, especialmente em tempos de avanço da desinformação e da mercantilização do saber. Em um país onde o acesso à cultura ainda é um privilégio, a existência de uma biblioteca popular, autônoma e voltada à classe trabalhadora, é um gesto profundamente revolucionário, especialmente na capital pernambucana, que só tem apenas 5 bibliotecas públicas.

Governo do RJ proíbe Defensoria Pública de acompanhar perícias do Massacre da Penha

Corpos das vítimas do Massacre da Penha se encontram no IML e Defensoria Pública é impedida de fiscalizar perícias. Famílias protestam por justiça e pelo direito de enterrar seus mortos.

Chantal Campello | Redação RJ


BRASIL – A Defensoria Pública do Estado do Rio de Janeiro (DP-RJ) denunciou, nesta quinta-feira (30/10), ter sido impedida de acompanhar a perícia dos corpos das vítimasa da chacina policial nos complexos da Penha e do Alemão, considerada a mais letal da história, com mais de 130 mortos. De acordo com a instituição, seus representantes foram barrados no Instituto Médico-Legal (IML) Afrânio Peixoto, no Centro do Rio, sem autorização para entrar na sala de necropsia ou perícia técnica dos corpos.

“Estamos sendo impedidos de exercer um direito elementar de fiscalização pública. Esses corpos não podem ser tratados como números”, afirmou Rafaela Garcez, coordenadora de Defesa Criminal da DPRJ em entrevista em frente ao local.

A decisão de impedir o acesso da Defensoria ocorre justamente no momento mais crítico de uma operação que mobilizou mais de 2.500 policiais que deixou um rastro de violência, desaparecimentos e execuções sumárias. O órgão afirma que a presença de defensores e peritos independentes é essencial para garantir o respeito à integridade das vítimas e evitar fraudes, manipulação de provas ou destruição de evidências.

“A quem interessa impedir o acesso da Defensoria a esses corpos? Para quem busca transparência e contenção de más práticas, não há motivo para barrar nossa presença.”, questiona Rafaela.

De acordo com o deputado federal Tarcísio Motta (PSOL-RJ), uma comissão de parlamentares descobriu que 100 corpos foram necropsiados (periciados) sem nenhum acompanhamento das famílias ou de órgãos de controle como a Defensoria.

Famílias lutam por justiça e para poder enterrar seus mortos

Essa atitude do governo do Rio de Janeiro, sem a oposição do Ministério Público até agora, mostra que a intenção de Cláudio Castro e seus aliados é esconder provas que surgem de que muitas pessoas assassinadas pela polícia nesta terça são inocentes sem envolvimento com o crime organizado.

Enquanto o Estado se fecha, familiares das vítimas se aglomeram na porta do IML, buscando informações sobre seus parentes. Muitos não sabem sequer se os corpos foram identificados corretamente, ou se ainda estão retidos para exames.

No final da tarde de hoje, dezenas de parentes dos mortos ocuparam a Av. Francisco Bicalho, em frente ao IML, em protesto contra a demora na liberação dos corpos. Até agora, dois dias depois da operação, a maioria das famílias não puderam enterraras vítimas do massacre.

Essa operação é parte de uma escalada de violência estatal no Rio de Janeiro, que, nos últimos anos, tem batido recordes de letalidade. Mesmo após determinações do STF para que o governo estadual restrinja ações em favelas e preserve a vida de civis, o sangue segue correndo nas vielas e o controle civil sobre a polícia segue enfraquecido.