UM JORNAL DOS TRABALHADORES NA LUTA PELO SOCIALISMO

domingo, 1 de fevereiro de 2026
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Melhorar as cidades só é possível lutando pela reforma urbana

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Pixação em MuroO déficit habitacional brasileiro é de cerca de 5,4 milhões de moradias, de acordo com o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), estando as capitais São Paulo, Rio de Janeiro, Brasília e Salvador, respectivamente no topo do ranking. A pesquisa leva em conta quatro indicadores: moradias precárias, onde três pessoas ou mais dividem o mesmo cômodo, moradias cujo valor do aluguel ultrapassa 30% da renda familiar e coabitação, nas quais mais de uma família moram temporariamente na mesma casa.

Este déficit é majoritariamente urbano, representando 81% do total. As famílias que recebem até três salários mínimos representam mais de 70% deste déficit. Pará e Maranhão são os primeiros quando olhamos apenas para o número de moradias precárias.  Já em relação ao quesito aluguel, São Paulo permanece o primeiro, seguido do Rio de Janeiro, Minas Gerais e Bahia.  O adensamento excessivo, que ocorre quando mais de uma família mora na mesma casa, também ganha em São Paulo em numero três vezes maior que o segundo colocado, Rio de Janeiro. Cabe lembrar que a pesquisa não leva em conta toda a população que vive de aluguel, mas apenas aqueles cujo valor do aluguel ultrapassa os 30% da renda familiar, ultrapassando dois milhões de famílias vivendo nessa condição.

O Estado de São Paulo tem um déficit de mais de 1,3 milhão de moradias. São milhares de trabalhadores e trabalhadoras que moram precariamente. Comprar um imóvel está fora de cogitação. A maioria dessas famílias recebe até três salários mínimos, e em São Paulo o preço do solo aumentou 153% entre 2009 e 2012. No Rio, o aumento foi de 184%. Com esse aumento, os trabalhadores e a população mais pobre acabam tendo que ir morar cada vez mais longe dos centros.

Por outro lado, e como parte do mesmo problema, na capital de São Paulo, segundo um levantamento realizado pelo do ImovelBid, existem cerca de 20 mil imóveis novos parados. Segundo o IBGE (2010) a região metropolitana de São Paulo tem mais de 61 mil imóveis vazios e 290 mil na capital. No entanto, segundo os movimentos de moradia da capital, esse número ultrapassa 400 mil.

De um lado, temos milhares de trabalhadores e trabalhadoras sem casa, sofrendo com o alto custo do aluguel, morando de favor, dividindo um ou dois cômodos entre várias famílias. Do outro, temos os especuladores imobiliários, com centenas de prédios, casas e terrenos vazios e os empresários da construção civil. Para se ter uma ideia, o setor que mais tem crescido em São Paulo é o das empresas da construção civil. São estas as empresas campeãs em doações nas campanhas eleitorais. Nas eleições municipais de São Paulo em 2012, elas foram responsáveis por mais de 57% das doações feitas somente aos diretórios nacionais de partidos que elegeram os vereadores da cidade, segundo pesquisa realizada pela agência Repórter Brasil.

Conforme apontam o Estatuto da Cidade e a Constituição, os imóveis urbanos devem cumprir sua função social e ao não cumprir podem ser desapropriados. Os números mostram que o problema, portanto, não é a falta de moradia, mas de concentração destas em algumas mãos, disponíveis apenas para a especulação. As cidades têm sido mais e mais privatizadas e elitizadas e quem não pode pagar pelo alto preço de nelas viver, que se mude. Em busca do crescimento das cidades, incendeiam-se favelas, matam-se jovens, internam-se e prendem-se usuários de crack, realizam-se despejos e fecham-se cortiços.

O Programa Minha Casa, Minha Vida não tem resolvido o problema. Enquanto, construtoras e empresas receberam incentivos fiscais e crédito do Governo Federal, podendo aumentar consideravelmente seus lucros, somente uma parcela da população pobre tem sido atendida com moradias em regiões distantes, mal localizadas e sem infraestrutura adequada.

O problema da moradia no Brasil não é a falta de terrenos. Também não é a falta de moradias já prontas, muito menos falta de dinheiro, já que para financiar a Copa do Mundo o governo gasta uma fortuna de mais de R$ 86 bilhões.

O fato é que os interesses dos ricos, dos empresários da construção civil, dos especuladores e dos donos de terras são inconciliáveis com os interesses de milhares e milhares de trabalhadores sem teto. Não há como atender um sem mexer no interesse do outro. E até agora, os governos não têm atendidos a outros interesses que não os dos ricos. Por isso, o problema da moradia não será resolvido sem uma profunda reforma urbana e uma mudança profunda no sistema econômico.

Carolina Vigliar, Diadema

Jornada do MST luta por Reforma Agrária

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MSTNo dia 14 de outubro, foi deflagrada a Jornada Nacional Unitária de Lutas Pela Reforma Agrária e a Soberania Alimentar. A jornada, que teve a duração de uma semana, foi organizada pela Via Campesina, articulação internacional que, no Brasil, reúne o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), a Comissão Pastoral da Terra (CPT), o Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB), o Movimento de Pequenos Agricultores (MPA) e o Movimento dos Quilombolas. Em 20 estados foram realizadas marchas, fechamento de rodovias, ocupações de prédios públicos, refinarias, portos, etc., denunciando que a Reforma Agrária está completamente paralisada no Brasil. O movimento reivindica o assentamento das mais de 160 mil famílias acampadas no País.

Na Paraíba, pode-se dizer que a jornada começou antes e se prolongou até o dia 24. É que no dia 05 de outubro, após várias ameaças durante a semana, três policiais militares entraram armados no Acampamento Wanderley Caixe, localizado às margens da BR-101, na cidade de Caaporã (divisa entre Paraíba e Pernambuco), buscando as lideranças locais sem qualquer mandato judicial. Foram, então, rendidos pelos trabalhadores sem terra e só liberados com a presença da Polícia Rodoviária Federal.

No dia 14, já com este clima de tensão, mais de 2.500 pessoas saíram em marcha do Acampamento em direção a João Pessoa, Capital do Estado. Após dois dias de marcha, percorrendo 70 km para chegar ao objetivo, os camponeses se dirigiram a sede do Incra, onde montaram acampamento. A jornada produziu uma agenda de mobilizações diárias em João Pessoa, como ocupação de bancos e fechamento de vias públicas, gerando grande repercussão na cidade e no Estado. O movimento cobrava, além das reivindicações da pauta nacional, o cumprimento de promessas feitas pelo governador Ricardo Coutinho (PSB) para acelerar a Reforma Agrária na Paraíba. Uma audiência agendada para o dia 17 com o governador foi frustrada, pois o mesmo exigiu a formação de uma comissão de apenas quatro pessoas para serem recebidas. Exigência que foi rejeitada pelo movimento, gerando assim um impasse que só foi resolvido uma semana depois.

Sem a audiência com o Governo, 2.500 pessoas que se encontravam na sede do Incra decidiram ocupar o Centro Administrativo do Estado no dia 21.

Após o êxito da ocupação, a Polícia Militar logo cercou o complexo administrativo, cortando a energia e impedindo a entrada de água e alimentos aos manifestantes. Balas de borracha e spray de pimenta foram utilizados pela PM contra os manifestantes, causando pânico aos funcionários do Estado que se encontravam no local. A PM, no entanto, não conseguiu intimidar o movimento, que, embora estivesse, com um saldo de seis pessoas feridas pelas balas de borracha, conseguiu construir rapidamente uma rede de solidariedade formada por sindicatos, organizações juvenis, parlamentares e movimentos ligados aos direitos humanos, que se fizeram presentes no local, impedindo a continuação dos abusos praticados pela ação policial.

A imprensa, porém, comprometida com os interesses do Governo e dos latifundiários, repercutiu a ocupação como um ato de vandalismo, onde os funcionários presentes foram tomados como reféns pelos manifestantes.

Após horas de tensão, numa reunião com secretários de Estado, ficou firmada uma nova audiência com o governador, sem a restrição do número de componentes da comissão, a se realizar três dias depois para dar fim ao impasse criado. Um clima de terror foi explorado pelo Governo nos dias seguintes, afirmando, pelos meios de comunicação, haver a possibilidade de novas ocupações em prédios públicos, justificando, o forte aparato policial deslocado para a frente de alguns prédios públicos e da residência oficial do governador.

No dia marcado, uma nova marcha pela cidade foi realizada pelo movimento em direção ao Palácio do Governo, onde uma comissão de 15 pessoas foi recebida. Antes, porém, a mesma Polícia das balas de borracha entregou rosas brancas aos manifestantes, que, representados pela comissão, responderam ao governador em audiência: “Não queremos rosas, queremos terra”. A audiência terminou após compromisso do governador em acatar os 20 pontos da pauta apresentada pelo movimento.

A luta, porém, continuará para que os compromissos firmados sejam efetivados. A todos ficou o aprendizado da luta política contra o poder do Estado, que, por meio da Polícia, dos meios de comunicação e de seu alto escalão de secretários, tentou a todo custo criminalizar o movimento social.

Emerson Lira, João Pessoa

As mulheres militantes na grande Revolução de Outubro

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Há uma infinidade de obras sobre a Revolução Russa e seus grandes líderes. Porém, sobre a participação das mulheres não há um número significativo de publicações, à exceção das obras de Alexandra Kollontai, que foi a única ministra do primeiro governo bolchevique. A libertação da mulher foi o eixo fundamental da sua vida, como escritora e como militante. Num artigo raro, publicado no Diário Feminino de Moscou, edição de 11 de novembro de 1927, é a própria Kollontai que fala sobre essa temática. Segue um extrato do seu artigo. 

As mulheres que participaram da Grande Revolução de Outubro – quem eram elas? Indivíduos isolados? Não, havia multidões delas; dezenas, centenas e milhares de heroínas anônimas que, marchando lado a lado com os operários e camponeses sob a Bandeira Vermelha e a palavra-de-ordem dos Sovietes, passou por cima das ruínas do czarismo rumo a um novo futuro…

Se alguém olhar para o passado, poderá vê-las, essa massa de heroínas anônimas que outubro encontrou vivendo nas cidades famintas, em aldeias empobrecidas e saqueadas pela guerra… O lenço em sua cabeça, uma saia gasta, uma jaqueta de inverno remendada… Jovens e velhas, mulheres trabalhadoras e esposas de soldados camponesas e donas-de-casa das cidades pobres. Mais raramente, muito mais raramente, secretárias e mulheres profissionais, mulheres cultas e educadas. Mas havia também mulheres da intelligentsia entre aqueles que carregavam a Bandeira Vermelha à vitória de Outubro – professoras, empregadas de escritório, jovens estudantes nas escolas e universidades, médicas. Elas marchavam alegremente, generosamente, cheias de determinação. Elas iam a qualquer parte que fossem enviadas. Para a Guerra? Elas colocavam o quepe de soldado e tornavam-se combatentes no Exército Vermelho. Se elas portassem fitas vermelhas no braço, então corriam para as estações de primeiros-socorros para ajudar o Front Vermelho contra Kerenski na Gatchina. Trabalhavam nas comunicações do exército. Trabalhavam felizes, convictas de que alguma coisa significativa estava acontecendo.  Nas aldeias, a mulher camponesa (seus maridos tinham sido enviados para a Guerra) tomava a terra dos proprietários e arrancava a aristocracia dos postos onde ela se alojou por séculos.

Ainda não tinham certeza do que exatamente queriam, pelo que lutavam, mas sabiam uma coisa: não iriam continuar suportando a guerra. No ano de 1917, o grande oceano de humanidade se levanta e se agita, e a maior parte desde oceano feita de mulheres…Algum dia a historia escreverá sobre as proezas dessas heroínas anônimas da revolução, que morreram na Guerra e amargaram incontáveis privações nos primeiros anos seguintes à revolução, mas que continuaram a carregar nas costas o Estandarte Vermelho do Poder Soviético e do comunismo.

Entretanto, fora deste mar de mulheres de lenços e toucas surradas inevitavelmente emergem as figuras daquelas a quem os historiadores devotarão atenção particular, quando, muitos anos depois, eles escreverem sobre a Grande Revolução de Outubro e seu líder, Lênin.

A primeira figura que emerge é a da fiel companheira de Lênin, NadezhdaKonstantinovnaKrupskaya, vestindo seu vestido cinza liso e sempre se esforçando para permanecer em segundo plano. Via e ouvia tudo, observando tudo o que acontecia; então ela poderia mais tarde fornecer um relato completo para Vladimir Ilich, adicionar seus próprios hábeis comentários e expor uma ideia sensata, apropriada e conveniente.

Ela trabalhou incansavelmente como braço direito de Vladimir Ilich, ocasionalmente dando depoimentos e relatando críticas nas reuniões do partido. Em momentos de grande dificuldade e perigo, quando muitos camaradas firmes perderam o ânimo e sucumbiram às dúvidas, NadezhdaKonstantinovna permaneceu sempre a mesma, totalmente convencida da justiça da causa e de sua vitória certa. Ela transmitia inabalável confiança, e sua firmeza de espírito, escondia uma rara modéstia, sempre contaminava com seu ânimo todos aqueles que entravam em contato com a companheira do grande líder da Revolução de Outubro.

Outra figura que se destaca – outra leal parceira de Vladimir Ilich, uma camarada-em-armas durante os anos difíceis do trabalho clandestino, secretária do Comitê Central do Partido, YelenaDmitriyevnaStassova. Inteligente, com uma rara precisão, e uma excepcional capacidade para o trabalho, uma rara habilidade para “apontar” as pessoas certas para o trabalho. Em suas mãos, segurava um caderno de anotações, enquanto ao seu redor multidões de camaradas do front, trabalhadores, guardas vermelhos, membros do partido e dos Sovietes, buscavam respostas claras ou ordens.

Stassova carregou a responsabilidade por muitos negócios importantes, mas se um camarada demonstrava necessidade ou angústia nesses dias tempestuosos, ela sempre podia auxiliar, fornecendo explicações, ela fazia o que estava ao seu alcance. Ela não gostava de ser o centro das atenções. Sua preocupação não era com ela mesma, mas com a causa.

Pela nobre e estimada causa do comunismo, YelenaStassova experimentou o exílio e a detenção nas penitenciárias do regime czarista, deixando-a com a saúde prejudicada… Em nome da causa ela era firme como aço. Mas em relação ao sofrimento de seus camaradas, ela demonstrava a sensibilidade e a receptividade que só se encontram em uma mulher com um coração afetuoso e nobre.

KlavdiaNikolayeva era uma mulher trabalhadora de origem muito humilde. Ela uniu-se aos bolcheviques já em 1908, nos anos da reação, e suportou o exílio e a prisão… Em1917, ela retornou a Leningrado e se tornou a organizadora da primeira revista para as mulheres trabahadoras, Kommunistka. Ela ainda era jovem, cheia de ânimo e ansiedade. Então ela segurava firmemente o estandarte, e corajosamente declarava que as trabalhadoras, esposas de soldados e camponesas precisavam ingressar no partido. Ao trabalho, mulheres! Vamos defender os Sovietes e o Comunismo!  Ela era uma daquelas que lutou em duas frentes – pelos Sovietes e o comunismo, e ao mesmo tempo para a emancipação das mulheres.

Os nomes KlavdiaNikolayeva e KonkordiaSamoilova, que morreram exercendo funções revolucionárias em 1921 (vítimas da cólera), são indissoluvelmente ligados aos primeiros e mais difíceis passos do movimento das trabalhadoras, particularmente em Leningrado. KonkordiaSamoilova foi uma militante do partido de incomparável abnegação, excelência, uma oradora metódica que sabia ganhar os corações dos trabalhadores. Aqueles que trabalhavam ao seu lado lembrarão por muito tempo de KonkordiaSamoilova. Ela era simples nos costumes, simples na aparência, exigente na execução das decisões, severa com ela mesma e com os outros.

Particularmente notável é a gentil e encantadora figura de Inessa Armand, que foi incumbida de um trabalho partidário muito importante na preparação da Revolução de Outubro, e que depois contribuiu com muitas ideias criativas para o trabalho entre as mulheres. Com toda sua feminilidade e bondade nas maneiras, Inessa Armand era inabalável em suas convicções e capaz de defender aquilo que ela acreditava correto, mesmo quando deparada com temíveis oponentes. Depois da revolução, Inessa Armand se dedicou à organização do amplo movimento das trabalhadoras.

Um imenso trabalho foi feito por VarvaraNikolayevnaYakovleva durante os difíceis e decisivos da Revolução de Outubro em Moscou. No terreno de batalha das barricadas, ela mostrou a determinação meritória de uma líder do quartel-general do partido. Muitos camaradas disseram na ocasião que sua determinação e coragem inabaláveis foi o que deu ânimo aos vacilantes e inspirou aqueles que haviam perdido suas forças.

Ao recordar das mulheres que tomaram parte na Grande Revolução de Outubro, mais e mais nomes e faces surgem como mágica da memória. Poderíamos deixar de honrar a memória de Vera Slutskaya, que trabalhou de modo abnegado na preparação para a revolução e que foi morta pelos Cossacos no primeiro front Vermelho próximo a Petrogrado? Podemos nos esquecer de YevgeniaBosh, com seu temperamento inflamado, sempre pronta para a batalha? Ela também morreu no trabalho revolu-cionário.  Podemos nos omitir de mencionar aqui dois nomes intimamente ligados com a vida e a atividade de V. I. Lênin – suas duas irmãs e companheiras em armas, Anna IlyinichnaYelizarova e Maria IlyinichnaUlyanova?

…E a camarada Varya, das oficinas de linhas de trem em Moscou, sempre animada, sempre inquieta? E Fyodorova, trabalhadora têxtil de Leningrado, com seu rosto amável e sorridente e seu destemor quando estava lutando nas barricadas?

É impossível listar todas elas, e quantas delas permanecem desconhecidas? As heroínas da Revolução de Outubro formavam todo um exército, e embora seus nomes estejam esquecidos, sua abnegação vive em cada vitória daquela revolução, em todos os ganhos e façanhas desfrutadas pelos trabalhadores da União Soviética.

É lógico e incontestável que, sem a participação das mulheres, a Revolução de Outubro não traria a Bandeira Vermelha da vitória.

Glória às trabalhadoras que marcharam sob a bandeira vermelha durante a Revolução de Outubro. Glória à Revolução de Outubro que libertou as mulheres!

José Levino, historiador

Filme La Commune – A Comuna de Paris foi televisionada

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Filme La CommuneUm filme ao mesmo tempo vibrante e reflexivo: assim podemos definir La Commune, do diretor inglês Peter Watkins. A obra retrata a Comuna de Paris pelo lado de dentro, vista em meio à classe trabalhadora, que, por poucas semanas em 1871, “tomou o céu de assalto”.

Com duração de 5 horas e 45 minutos e todo em preto e branco, La Commune pretende ser uma cobertura popular e documental da Comuna de Paris, mostrando o seu dia a dia por meio de uma TV fictícia criada pelos communards. Ao mesmo tempo em que faz a dramatização da cobertura dos eventos, o filme também os contextualiza, exibindo informações históricas em formato de documentário – um gênero chamado docudrama, em inglês. Também trata do papel da mídia de massas, tanto no passado quanto no presente.

Logo nos primeiros dias da Comuna, ao perceberem que a mídia burguesa mentia, omitia e distorcia os fatos, os communards viram a necessidade de ter seu próprio veículo de comunicação. Assim, criaram a TV Comuna, que com seus dois repórteres acompanhará toda a revolução em seus aspectos mais particulares.

Um filme militante

O calor transmitido pela obra é contagiante. O povo se reúne e debate a organização da nova sociedade a todo o momento. As novas cooperativas de trabalhadores reativando oficinas abandonadas, a nova organização das mulheres, a nova administração e a nova educação desvinculada da Igreja, enfim, não há um só minuto de silêncio no decorrer do filme, com exceção das cenas que mostram como o canal de televisão da burguesia noticiava esses mesmos fatos.

Mas a característica mais marcante da obra é que, por diversos momentos, perde-se a barreira que separa o que é ficção e o que é realidade, o que é passado e o que é presente: durante o filme, os próprios atores são questionados sobre determinadas cenas da Comuna que estão representando. É assim, por exemplo, quando durante a defesa em uma barricada contra o avanço do exército de Versalhes, o repórter da TV Comuna se aproxima para entrevistar uma trabalhadora que ali lutava. No entanto, ele ultrapassa a linha do ficcional e entrevista não a personagem, mas a própria atriz, que lhe responde sob a emoção da cena que continua em andamento com os outros atores.

La Commune é também um filme para reflexão. A obra registra debates políticos entre os atores, ainda trajando seus figurinos dentro do cenário, sem que se avise antes ao telespectador que foi interrompido o fluxo dos eventos e que entramos em uma discussão sobre o mundo atual. Somente no decorrer do diálogo é que se percebe que ocorreu tal transição.

Meses antes das filmagens, cada ator estudou sobre a Comuna de Paris e sobre o que considerou necessário para compreender o tema. Suas opiniões registradas nos debates, portanto, resultaram do confronto entre suas leituras, a recriação dos eventos da Comuna e os debates com outros atores. E foi o resultado de todas essas experiências o que levou uma atriz a revelar durante um debate: “Quando eu ouvi falar desse filme eu reli Valles, Louise Michel, Lissagaray. Eu terminei os três livros e pensei: eu entendi Lênin!”. Para ela, foi somente pela experiência de recriação da Comuna de Paris que foi possível perceber a necessidade de uma organização centralizada como proposta por Lênin para dirigir a revolução – o Partido Comunista –, o que, em sua opinião, faltou na Comuna. Quando outro ator discorda de sua posição devido à repressão ao levante de Kronstadt (um levante que colocava em perigo o novo poder soviético), ela ainda replica: “Sim, mas eles [os bolcheviques] venceram a revolução”.

Por ser um filme engajado, militante, não se poderia esperar, obviamente, que fosse facilmente financiado. E a própria obra denuncia isto, quando, após um debate entre os atores, escreve: “A participação do elenco na produção deste filme é exatamente o que a mídia global teme, e uma das principais razões dos canais de televisão, aos quais foram solicitados recursos para este filme, terem se recusado a financiá-lo. O que a mídia teme, mais especificamente, é ver o homem no pequeno retângulo [televisão] ser substituído por uma multidão de pessoas, pelo público”.

Apesar de lançado no ano 2000, as dificuldades de financiamento e distribuição impediram sua ampla divulgação, somando-se o fato de que suas únicas legendas originais são em inglês (com áudio em francês). No entanto, graças à livre colaboração na internet, já é possível encontrar legendas não oficiais também em português. La Commune é um filme obrigatório.

Glauber Ataide, Belo Horizonte

“A revolução começa de baixo para cima”

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Formado por alunos, ex-alunos, funcionários e professores da Universidade Católica de Pernambuco, o grupo musical MPB Unicap existe há três décadas e foi fundado pelo professor Armando da Costa Carvalho, em 1983. Com sete discos gravados, o grupo musical não só toca e canta como conta a história da Música Popular Brasileira. Com Censura é o nome do espetáculo que apresenta várias canções censuradas pela Ditadura Militar. A seguir, entrevista que Percy Marques Batista, do MPB Unicap, concedeu ao jornal A Verdade. 

A Verdade – Conte um pouco da história da formação do grupo, a origem dos componentes e o porquê da escolha pela MPB?

MPB UNICAP

Percy Marques Batista – O grupo foi criado pelo professor Armando da Costa Carvalho, em 1983, inspirado num trabalho do cantor Sílvio Caldas (uma das maiores vozes da Era de Ouro do rádio brasileiro), quando ele excursionou pelo País inteiro com um espetáculo onde cantava e contava a história das mais conhecidas canções da nossa MPB, contextualizando sempre o cenário político e econômico do Brasil. Para Sílvio Caldas, todo brasileiro deveria conhecer a história do seu país para ser um cidadão de verdade. Certa vez, os dois se encontraram no Recife, e o professor Armando lhe disse que era fã do seu trabalho. Sílvio então lhe perguntou: “Por que o senhor não cria uma ‘cadeira’ sobre música popular brasileira na Unicap?”. Como não era possível a criação da disciplina, o reitor da época, padre Amaral Rosa, autorizou o professor Armando a criar um grupo de música popular brasileira formado pela comunidade da universidade.

Como o grupo é mantido?

O MPB Unicap é mantido pela Universidade. Fazemos parte da missão jesuítica de educação, onde buscamos a qualidade acadêmica numa visão de excelência humana, e essa excelência passa também pela oferta de cultura de qualidade a toda a comunidade, interna e externa de nossa universidade. As pessoas buscam a arte por várias razões, principalmente para atingirem o equilíbrio mental necessário a todo ser humano, equilibrando o seu lado produtivo com o seu lado criativo, artístico e lúdico. O lúdico diz respeito ao lazer e o lazer é necessário ao bem-estar humano.

Levantar a bandeira da arte com qualidade, sem apoio da grande mídia, é um grande desafio?

Acreditamos naquela máxima que diz “se tocar, o povo canta!”, ou seja, se os grandes meios midiáticos derem espaço à música de qualidade, com conteúdo poético, as pessoas irão gostar e até consumir essa música. Há muita gente fazendo música de qualidade, só que na surdina, sem espaço e oportunidade de mostrar seu trabalho nos grande meios de comunicação, como TVs, jornais, etc.  Os temas abordados pelo MPB Unicap são os mais variados possíveis, pois somos um grupo institucionalizado por uma universidade que forma opiniões e discute sobre tudo. Assim, qualquer tema político, sociológico, histórico, cultural ou econômico poderá ser abordado por nós, sempre através da ajuda preciosa do cancioneiro popular.

Fale um pouco da ideia do show Com censura, qual sua inspiração?

Estive conversando com alguns amigos sobre como as músicas das décadas de 70 e 80 tinham uma poesia forte e crítica. Daí chegamos à conclusão de que elas foram fruto de todo um momento histórico vivido. Então pedi a um amigo que pesquisasse as músicas que foram censuradas e que depois se tornaram grandes sucessos. Descobrimos vários autores e várias canções, além de todos os pareceres correlatos feitos pelos censores, tudo digitalizado. Depois, selecionei o repertório, montei o roteiro e fizemos o show…

Qual é a principal mensagem desse show?

Dizer às pessoas que fiquem atentas a tudo e a todos; que prestem atenção ao que vão fazer com a sua liberdade; que escolham um país melhor para todos. Para nós, tudo começa com educação. Se nossa cultura está manchada, é por falta de educação. Nós devemos lutar para uma melhoria significativa na educação, porque a revolução começaria de baixo para cima, ou seja, da base, da consciência política do valor do voto, nossa grande arma.

Qual são os próximos projetos do grupo?

O grupo está com o show Nossa Nova MPB, no qual traz canções de qualidade de compositores da nova geração, mostrando que ainda se faz boa música, apesar de não haver muito espaço na mídia. No próximo ano, contaremos como foram as décadas de 70, 80 e 90 à luz das músicas das principais novelas que refletiram a história social do nosso País…

Elizabeth Araújo, Recife

Creche Eliana Silva: “Colaborem com esta causa muito bacana

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Porchat_Eliana_AltaO Movimento de Luta nos Bairros, Vilas e Favelas (MLB) iniciou uma grande campanha, apoiada pelo Movimento de Mulheres Olga Benário, pela ampliação da Creche Tia Carminha, localizada dentro da Ocupação Eliana Silva. Dezenas de voluntários e diversas famílias da comunidade se uniram pela construção do sonho que libertará economicamente muitas mulheres. Elas, que vivem escravizadas por programas governamentais, que pagam valores muito baixos, terão a oportunidade de trabalhar, estudar e participar ativamente da vida política da própria ocupação.

É indissociável a luta pela liberdade econômica da luta por mais unidades de ensino infantil. É melhor para as mães, é melhor para as crianças, é melhor para as comunidades. É sabido que o dever de garantir educação de qualidade, gratuita e universal é do Estado. Entretanto, a necessidade é muito grande, e o povo organizado não pode esperar.

Lançando campanha nacional pela internet, o MLB e o Olga Benário buscam apoio e parcerias de madrinhas e padrinhos que entendam que a causa é justa e que se faz necessário o apoio ao povo de luta.

O ator e diretor Fábio Porchat, famoso por suas atuações cômicas e por seu canal no YouTube “Porta dos Fundos”, que já conta mais de quinhentos milhões de acessos em todo o mundo, se solidarizou e apadrinhou o projeto da creche, afirmando, em encontro com o Movimento de Mulheres Olga Benário, em Belo Horizonte: “Eu fui um que colaborei com a Creche Eliana Silva. Colaborem com esta causa muito bacana, investiguem, entendam que causa é essa. Eu acho que vale a pena sempre colaborar com bons projetos e este é um projeto que vale a pena”. Incentivados pelo exemplo de Porchat, outros artistas, como o ator Gregório Duvivier, também se somaram à causa da creche.

Viva a luta do povo organizado!

Raphaella Mendes, Belo Horizonte

 

Violência doméstica mata 15 mulheres por dia no Brasil

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violência mulherO estudo Violência contra mulher: feminicídios no Brasil, do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), divulgado recentemente, concluiu que a Lei Maria da Penha não alterou substancialmente a quantidade de assassinatos de mulheres em decorrência da violência de gênero, o chamado feminicídio.

Feminicídios são os crimes “geralmente perpetrados por homens, principalmente parceiros ou ex-parceiros, e decorrem de situações de abusos no domicílio, ameaças ou intimidação, violência sexual, ou situações nas quais a mulher tem menos poder ou menos recursos do que o homem”.

Assim, o estudo esclarece que os principais assassinos de mulheres são seus parceiros íntimos, maridos, namorados, etc., chegando a 40% do total de crimes contra a mulher os assassinatos cometidos por esses parceiros.

Tal situação ocorre principalmente devido ao machismo existente em nossa sociedade e à relação de poder existente nela, na qual o mais forte oprime o mais fraco por meio da violência, e isso se transporta para a esfera das relações íntimas, sofrendo as mulheres todo tipo de subjugação e violência, como a física, moral, patrimonial, sexual e psicológica.

 A expressão máxima da violência contra a mulher é a morte, daí a necessidade da análise do efeito da Lei Maria da Penha nessa questão. Essa lei foi promulgada com o intuito de coibir a violência doméstica e familiar contra a mulher, mas, após sete anos de vigência, os dados demonstram que esse objetivo está longe de ser alcançado.

O Ipea constatou que, entre 2001 e 2006 – portanto antes da promulgação da lei – as taxas de mortalidade foram de 5,28 por 100 mil mulheres e, de 2007 a 2011, após a vigência da lei, esse índice foi de 5,22, tendo um sutil decréscimo apenas no ano de 2007, logo após a promulgação da lei, depois voltando a crescer. Esta taxa ficou em 5,82 mortes por 100 mil mulheres de 2009 a 2011. Assim, as taxas de homicídios de mulheres praticamente permaneceram estáveis, antes e depois da promulgação da lei.

O estudo mostrou ainda que, a cada ano, ocorreram 5.664 mortes de mulheres por causas violentas: 472 a cada mês, 15,52 a cada dia, ou uma a cada hora e meia.

Quanto à ocorrência de mortes, por cada região do País, Nordeste (6,90), Centro-Oeste (6,86) e Norte (6,42) apresentaram as taxas mais elevadas de mortes de mulheres por cada grupo de 100 mil. Não por acaso, são também essas regiões as mais pobres da Nação e as que mais problemas têm em termos de estrutura, falta de saneamento básico, saúde, educação, etc.

Outro dado demonstra que as mulheres jovens foram as principais vítimas da violência fatal. Mais da metade dos óbitos (54%) foram de mulheres entre 20 e 39 anos.

Outro dado alarmante mostra que 61% das mulheres assassinadas eram negras, as principais vítimas em todas as regiões, exceto no Sul. No Nordeste essa taxa foi de 87%, no Norte, 83% e no Centro-Oeste, 68%.

Foi verificado também que a maior parte das vítimas tinha baixa escolaridade: 48% das mulheres tinham até oito anos de estudo.

A Lei Maria da Penha foi e é um importante instrumento no combate à violência contra a mulher, fruto da luta histórica de milhares de mulheres, e tem que ser incentivada, divulgada e devidamente aplicada, pois visa, além da punição do agente, a formas de prevenir a ocorrência da violência. Está provado, porém, que a aprovação de uma lei não é capaz de acabar com as mazelas de que sofre nosso povo, tampouco com a violência que, infelizmente, a cada dia mais, toma conta da rotina das mulheres, em especial das mulheres pobres e trabalhadoras.

É necessário que as políticas públicas estejam voltadas para a concretização do que está previsto na lei e que as delegacias, o Ministério Público, juízes, defensores públicos e advogados estejam efetivamente preparados para atuar nessas demandas, e possibilitem o acesso à Justiça das mulheres que sofrem violência. É necessário que o sistema as proteja e não as trate como as criminosas, como não raramente observamos na atuação diária.

É preciso também que existam casas-abrigos, que as delegacias da mulher funcionem durante as 24 horas do dia, pois a violência não tem hora marcada para acontecer. Também que tais delegacias invistam em um tratamento humanizado. Necessitamos de mecanismos que garantam a integridade e a segurança física da mulher quando o juiz decreta alguma medida protetiva, como afastamento do agressor do lar, determinação para que o agressor não frequente determinados lugares ou se mantenha à distância da vítima – enfim, que os mecanismos previstos na legislação tenham como ser efetivados na prática.

Mas é imprescindível também que as mulheres tenham acesso à educação, saúde, emprego digno, creches para os filhos e a todas as condições exigidas para que possam se afastar das situações de risco.

Contudo, para a efetiva erradicação da violência contra a mulher, é preciso que a luta seja mais profunda, que se ataquem as raízes da violência, que coincidem com as próprias raízes da opressão da humanidade. Apenas uma sociedade na qual não exista nenhum tipo de exploração, e em que não haja a exploração do homem pelo homem, é capaz de garantir as condições de uma vida de plena igualdade entre homens e mulheres e, assim, acabar com a violência de gênero que ainda perdura no Brasil e no mundo.

Raquel Brito, São Paulo

Drones, a nova máquina de morte dos Estados Unidos

DronesInicialmente utilizados como máquinas de espionagem, os drones, ou Veículos Aéreos Não Tripulados (VANT), passaram a ser máquinas de guerra no ataque dos EUA ao Afeganistão, em 2001, e na Guerra do Iraque, em 2003. Os drones foram empregados pela primeira vez em 1959, pelos Estados Unidos, mas o fato só foi admitido pela Força Aérea norte-americana em 1973, ou seja, 14 anos depois.

Com um operador na estação de controle no solo (GCS) e um satélite ligado a quatro aeronaves, estão criadas as condições para invadir o espaço aéreo de qualquer país, secretamente, assassinar civis indefesos, alegando que se está fazendo combate ao terrorismo. Assim foi, sob o comando da Central de Inteligência Americana (CIA), no Iraque, no Afeganistão e, mais recentemente, na Líbia, no Iêmen, na Somália e no Paquistão.

Em 2009, após um ataque ao território iemenita em que morreram dezenas de civis, entre eles mulheres e crianças, o governo norte-americano construiu uma base secreta na Arábia Saudita e, a partir dali, desferiu dezenas de ataques ao Iêmen sob pretexto de matar membros da organização terrorista Al Qaeda. O governo saudita se calou sobre o assunto e o governo americano não revelou qualquer registro a respeito. Foi num desses ataques que a CIA se vangloria de ter matado o clérigo Anwar al-Awlaki, um dos membros mais importantes da Al Qaeda depois do assassinato de Osama bin Laden, e que seria o primeiro norte-americano da lista de “prender ou matar” da central de inteligência. O clérigo era nascido no Estado do Novo México e a Constituição dos EUA proíbe que se coloquem cidadãos norte-americanos em listas desse tipo, o que causou uma forte reação das organizações de direitos humanos do país.

A mentira da luta contra o terrorismo

As ações no Paquistão, onde também existem bases da Al Qaeda, são da mesma envergadura, mas contam com a posição contrária do premiê Nawaz Sharif, obrigando Obama a se reunir com ele para tentar apaziguar o problema. Para isso foi necessária a liberação de mais de US$ 1,6 bilhão em ajuda militar e econômica ao Paquistão, ajuda que havia sido suspensa em 2011. O jornal The Washington Post informou, no entanto, que documentos secretos dos EUA revelaram que autoridades do alto escalão do governo paquistanês têm conhecimento há anos e apoiaram os ataques com drones da CIA. Eleito em junho deste ano e com repúdio da população aos ataques, o governo respondeu dizendo que “quaisquer que tenham sido os entendimentos no passado, o atual governo vem sendo muito claro em relação à sua política nessa questão”, enfatizando que considera tais ataques uma violação da soberania, bem como das leis internacionais.

Já somam pelo menos 65 os ataques com drones nos últimos anos no Paquistão, segundo o Washington Post chamados, ironicamente, de “pontos de diálogo” pela CIA. De acordo com a Anistia Internacional, ONG com sede em Londres, as mortes de civis acontecem às centenas e ninguém responde por elas. Ano passado, diz a Anistia, após apresentar minucioso relatório, foram assassinados por aviões não tripulados uma avó que colhia para a neta legumes em sua horta e 18 trabalhadores, na localidade de ZowiSidgi, sendo um deles de 14 anos, que conversavam à sombra. “Pessoas que claramente não são uma ameaça iminente aos EUA, não estão lutando contra os EUA, estão sendo mortas. Os EUA têm de se explicar claramente com justificativas para esses assassinatos”, sentencia Mustafa Qadri, pesquisador da Anistia que escreveu o relatório.

O Exército e a CIA trabalham juntos no Iêmen: a CIA voando com seus drones sobre a região norte a partir de sua base na Arábia Saudita e o Exército voando com os seus a partir de Djibuti. Só no Paquistão foram 3.336 mortos por esses ataques, desde 2003, de acordo com a New America Foundation. A Anistia Internacional considera que “os EUA podem ter cometido crimes de guerra no Paquistão”.

Estudo da HumanRightsWatch analisa seis ações com drones americanos contra alvos em território iemenita. A ONG conclui que os bombardeios mataram mais civis do que militantes. Um dos ataques, por exemplo, provocou 57 vítimas “colaterais”. Outro matou um clérigo muçulmano que pregava contra a Al Qaeda.

Da mesma forma, LettaTayler, responsável pelo estudo, diz que “estamos muito preocupados que o fracasso da Casa Branca em mostrar que esses ataques estão de acordo com a lei internacional possa criar um perigoso precedente para outros países”, pois com a quantidade de mortes de civis e o sigilo das operações é altamente provável que outros países – aliados ou não de Washington – comecem em breve a fazer uso dessas armas (só EUA e Israel já realizaram ataques com drones).

Corrida armamentista

Enquanto esse debate internacional esquenta, a indústria norte-americana da guerra desenvolve microdrones, que servirão para segurança interna do país e de suas cidades, mas também para assassinar cidadãos de outros países ou mesmo grupos de pessoas;microdrones do tamanho de uma borboleta, chamados de “Switchblade”, que carregam uma carga do tamanho de uma granada, foram utilizados pelas Forças Armadas dos EUA, segundoJohn Horgan, professor do Stevens Instituteof Technology e autor de quatro livros sobre o assunto.

Mais de 50 nações já têm a tecnologia, bem como grupos como o Hezbollah. Oficiais de segurança dos Estados Unidos estão tão preocupados com a ameaça de terrorismo com drones que já executaram simulações de ataques em um programa chamado “Black Dart”. Empresas de defesa como a Procerus Technologies agora desenvolvem um software que permitirá que drones rastreiem e destruam outros drones.

Assim se desenvolve a indústria da morte e da guerra, confiando em que a tecnologia será maior que o ser humano, que superará todos os limites para a obtenção do lucro e que os homens não alcançarão as condições de se revoltar contra todos os crimes cometidos em seu nome e que não serão capazes de impor suas verdadeiras necessidades de uma vida harmônica, voltada para o bem-estar e a liberdade. Enganam-se: a humanidade está muito mais perto de se libertar desse regime do que imaginam os imperialistas com suas máquinas de guerra.

Marcos Villela, Rio de Janeiro

Luta de sem teto ganha novo impulso

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Depois das gigantescas manifestações de junho e julho, em que milhões de trabalhadores foram às ruas conquistando a redução do preço das passagens, a frase “Quem luta conquista” passou a ter mais força em nosso País. Essa realidade influenciou milhares de famílias de baixa renda da Região Metropolitana de Belo Horizonte, que resolveram não ficar esperando os inexistentes programas habitacionais de prefeituras e governos e foram à luta pelo direito humano de morar dignamente.

No fim do mês de julho, famílias de sete comunidades (Eliana Silva, Camilo Torres, Irmã Dorothy, Helena Greco, Cafezal, Dandara e Rosa Leão), organizadas pelo Movimento de Luta nos Bairros, Vilas e Favelas (MLB) e pelas Brigadas Populares, realizaram uma histórica ocupação da Prefeitura de Belo Horizonte, reivindicando a regularização de suas comunidades, ligação de água, energia elétrica, esgoto e títulos de posse. As famílias foram recebidas pelo prefeito Márcio Lacerda, que, pressionado, foi obrigado a se comprometer com as reivindicações dos movimentos. A repercussão foi nacional e, no Estado de Minas Gerais, acabou sendo outro fator impulsionador para milhares famílias sem teto se mobilizarem.

Aumentam as ocupações urbanas

A Ocupação Rosa Leão, situada na Mata do Isidoro cresceu e passou a contar com cerca de 1.500 famílias. Outras duas ocupações surgiram perto de Rosa Leão: a Ocupação Vitória, com mais de quatro mil famílias, e a Ocupação Esperança, com mais de 2.500, totalizando mais de oito mil famílias nessa mesma região.  Em Contagem, cidade da Região Metropolitana de BH, além da ocupação Guarani-Kaiowá (Brigadas Populares), com 150 famílias, em outubro, surgiu a Ocupação Wilian Rosa (Movimento Luta Popular), com mais de quatro mil famílias. Outras milhares de famílias vêm se mobilizando em cidades como Betim, Ribeirão das Neves e Santa Luzia. Segundo levantamentos realizados pelo MLB, Comissão Pastoral da Terra (CPT) e pela Rede Nacional de Advogados Populares (Renap), essas ocupações urbanas realizadas nos últimos meses, somadas as já existentes e não regularizadas, somam mais de 20 mil famílias.

Cresce a repressão

No entanto, esses milhares de famílias sofrem com a falta de políticas públicas e programas de habitação, e também com a enorme repressão promovida pela Polícia Militar a mando das prefeituras e do Governo Estadual. A PM, com total apoio das gestões municipais, vem utilizando diversas táticas de guerra contra essas famílias pobres, como o emprego de cavalaria, cachorros, batalhão de choque, grupo de ação tática especial, helicópteros, tratores, incêndio de barracas, destruição de pertences das famílias e até o uso do Caveirão (tanque blindado da PM). “Infelizmente, apesar de existir uma ponderação do Estado, afirmando que é ineficaz a desocupação forçada de famílias, uma vez que o que vai resolver é uma política de reforma agrária e urbana, a PM vem agindo de forma truculenta, em casos pontuais com abuso de poder”, destacou o advogado popular Élcio Pacheco, da Renap.

Exemplos que confirmam essa afirmação são o despejo violento da Ocupação Eliana Silva, em maio de 2012, quando 350 famílias foram removidas de um terreno na região do Barreiro, em BH; e o despejo de 150 famílias, ocorrido no último dia 25 de outubro, de uma ocupação que nem sequer tinha nome ainda, situada ao lado da Vila Corumbiara, também na região do Barreiro. Nesse último, a Polícia Militar, juntamente com a prefeitura de BH, realizou um despejo ilegal, pois não havia sequer ordem judicial. Em mais uma operação de guerra contra o povo pobre, foram presas sete pessoas. “A Polícia vem agindo como verdadeiros capitães do mato, jagunços fardados, deixando de ser funcionários públicos para agir fora da lei, humilhando as pessoas a serviço do capital”, afirmou Frei Gilvander, da CPT.

Luta e avanços

Diante de tamanhas injustiças, duas declarações são importantes para exemplificar os sentimentos experimentados pelas famílias moradoras dessas ocupações: “Meu filho é cego. Entramos na ocupação porque não suportamos mais sobreviver em um único cômodo, cedido de favor. A gente estava almoçando na barraca e, de repente, bombas começaram a explodir ao lado, que era já nossa casa, esperança de uma vida nova. Foi um sufoco enorme ter que fugir correndo com meu filho cego sob tiros e gritaria. Meu filho e eu temos direito de viver em paz. Como se pode fazer isso também com uma criança cega?”, disse Dona Maria Neuza Barbosa, moradora despejada da ocupação no Barreiro. Mas também importantes avanços vêm sendo registrados por algumas ocupações, fruto das diversas manifestações promovidas pelos moradores da Ocupação Eliana Silva. Com participação das Ocupações Irmã Dorothy e Camilo Torres, organizadas pelas Brigadas Populares, uma comissão composta pela Copasa (companhia de saneamento), Cemig (companhia de Energia), Ministério Público e Prefeitura visitaram essas ocupações para fazer levantamentos iniciais sobre as ligações de esgoto, água e energia elétrica. O levantamento foi bastante positivo: “Os técnicos constataram o que o movimento já diz há muito tempo: é possível ligação oficial de água, luz e esgoto e a regularização de nossa ocupação; vamos aumentar nossa luta até resolver esse problema”, afirmou Poliana Souza, da Coordenação do MLB.

Leonardo Pericles, Belo Horizonte

MLB conquista casa popular em Natal

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Há seis anos, 240 famílias se organizaram no Movimento de Luta nos Bairros, Vilas e Favelas (MLB), e ocuparam um terreno pertencente ao Município de Natal-RN. Um único propósito: iniciar uma luta incansável por uma moradia digna.

Seguindo a tradição do MLB, em uma de suas assembleias, aprovou-se por unanimidade o nome da ocupação. Daquele dia em diante, passou a se chamar 08 de Outubro, Ernesto Che Guevara. Uma justa homenagem ao heroico guerrilheiro e grande revolucionário do mundo inteiro.

 Desde então, muitas batalhas foram travadas. Com o passar de dois anos, 68 famílias foram contempladas em outra parte do projeto do já então Conjunto Leningrado, uma conquista do MLB também. Isso fortaleceu o espírito e o sentimento de vitória em cada uma das famílias que continuariam nessa jornada. Com o passar dos anos, poucas famílias submeteram-se ao conformismo e abandonara a luta. Mas, o mais importante, foi a determinação dos que seguiram em frente.

Foi preciso fazer diversas passeatas rumo à Prefeitura, Secretarias de Habitação e Governo do Estado, mas, como diz o lema do nosso Movimento: “Com luta e com garra, a casa sai na marra!”. Devido a esta permanente mobilização, o MLB conquistou mais 143 unidades habitacionais no Conjunto Vivendas do Planalto, empreendimento do Minha Casa, Minha Vida, que fica ao lado do Conjunto Leningrado.

Hoje, podemos olhar para nosso barraco e dizer com orgulho que vencemos mais essa batalha. Dona Luzia Santos da Silva, mãe de seis filhos, viúva, 63 anos, diz que teve de trabalhar durante toda sua vida para garantir o sustento da família, mas o dinheiro sempre foi insuficiente. Agora ela fala orgulhosa do período em que morou em um barraco na ocupação 08 de Outubro Ernesto Che Guevara: “Foi no barraco que aprendi a diferenciar ocupação de favela, devido à sua organização e a conscientização política dos moradores, reivindicando e alcançando, a cada passo nas ruas, seus direitos, para que hoje eu possa ir morar num apartamento”. Serão 143 famílias que deixarão de morar em barracos, e realizarão o sonho de conquistar com sua luta o seu apartamento a ser entregue nos próximos dias.

Agora temos um novo desafio, acelerarmos o processo de conquista das famílias das ocupações Anátalia de Souza Alves, 08 de Março e tantas outras que ainda existem em nossa cidade. Por isso, devemos continuar na luta por uma verdadeira reforma urbana e pelo socialismo.

Marcos Antonio, coordenador do MLB RN

CMP elege nova direção nacional

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CMPCom o tema “20 anos de luta e resistência popular”, aconteceu, entre os dias 25 e 27 de outubro, na cidade de Ipatinga (MG), o 5º Congresso Nacional da Central de Movimentos Populares (CMP). Ao todo, mais de 400 representantes de movimentos sociais de 18 Estados se reuniram para debater a conjuntura do País e os rumos da CMP para os próximos anos.

O congresso debateu as três teses apresentadas, que resgatavam a importância da CMP e apontavam as tarefas e desafios para o futuro. Eleita a tese-guia, os delegados e delegadas presentes se dividiram em grupos para discutir a organização da Central, seus eixos políticos, o balanço da última eleição e a conjuntura nacional. Diversas alterações foram propostas, entre as quais o repúdio aos leilões do petróleo, a defesa da punição aos torturadores da ditadura e a reafirmação do socialismo como bandeira de luta estratégica da CMP.

Nesse momento, a participação ativa e combativa da delegação do MLB, que reuniu mais de 60 companheiros e companheiras, foi determinante para apontar o caminho das lutas e da mobilização popular como foco principal da CMP.

O último dia foi reservado à votação das emendas e à eleição da nova Direção Nacional. Foram inscritas duas chapas, sendo a chapa 2 “Por uma CMP forte, plural, de luta e independente”, composta pela maioria dos movimentos presentes ao congresso, sagrada vencedora com 345 votos, contra 56 da chapa 1. Ao MLB coube a indicação de quatro membros titulares e um suplente à nova Direção Nacional da Central.

Os desafios da CMP estão traçados. Cabe agora à nova Direção e aos movimentos organizados levar a entidade de volta ao caminho das ruas pela transformação da sociedade.

Da Redação