No último dia 14 de agosto, a contra-revolução teve mais uma vitória no tortuoso caminho do povo Egípcio em busca de sua libertação. Com o argumento de reprimir os partidários do presidente deposto Mohamed Morsi que estão acampados em diversos pontos do país e em mobilização exigindo a volta do presidente ao poder, o governo dos militares assassinou milhares de pessoas e decretou estado de exceção com duração de pelo menos um mês. Neste momento, civis estão sendo presos e polícia secreta do exército trabalha livremente.
As mobilizações de rua que depuseram Mohamed Morsi em junho deste ano, abriram espaço para o fortalecimento da imagem do exército junto à população, imagem que estava desgastada desde a queda do ditador Hosni Mubarak fortemente apoiado pela cúpula da corporação. O atual ministro da defesa, Abdul Fatah Khalil Al-Sisi, é quem exerce o poder de fato, apoiado por uma junta civil que incluía o cientista Mohamed El Baradei como vice-presidente. Os eventos de 14 de agosto, no entanto, fizeram o próprio governo estremecer e El Baradei apresentou sua demissão.
Durante seu governo, o presidente deposto Mohamed Mursi, membro da irmandade mulçumana, intentou aplicar um programa conservador inspirado nos escritos islâmicos que, entre outras medidas atrasadas, atacava os direitos das mulheres e outros direitos democráticos fundamentais. Foi um governo incapaz de realizar as medidas populares reclamadas pelo povo, realizando a reforma agrária e nacionalizando as reservas naturais. Como resultado, cresceu o desemprego e os problemas sociais do país se agravaram.
Os militares liderados por Al-Sisi, por outro lado, mantêm fortes relações com os EUA e uma posição dúbia frente ao estado de Israel. São uma casta estabelecida há anos no país e que trabalha pela manutenção de seus privilégios. No último período, os militares têm insuflado o sentimento nacionalista no povo do Egito, pregando a xenfóbia para com sírios, palestinos e iemênitas, sob o pretexto de combater o fundamentalismo da irmandade mulçumana.
A história recente do Egito é um grande ensinamento para a classe trabalhadora de todos os países e do Brasil, em particular. Sem organizações políticas da classe trabalhadora, fortes o suficiente para fazer a revolução e retirar da classe dos burgueses o poder político construindo um novo estado, as revoltas populares serão sempre cegas, inconsequentes e manipuláveis por setores da própria burguesia.
O movimento revolucionário da Rússia, ao abarcar rapidamente novos e novos setores da população, está criando toda uma série de organizações à margem dos partidos. A necessidade de união manifesta-se com força tanto maior quanto mais tempo foi contida e perseguida. As organizações, de uma ou de outra forma, se bem que frequentemente ainda não cristalizadas, surgem sem cessar, o seu caráter é extremamente original. Aqui não há limites nitidamente assinalados semelhantes aos das organizações europeias. Os sindicatos adquirem caráter político. A luta política funde-se com a econômica — por exemplo, sob a forma de greves —, criando tipos mistos de organizações temporárias ou mais ou menos permanentes.
Qual é o significado desse fenômeno? Qual deve ser a atitude da social-democracia diante dele?
O rigoroso espírito de partido é consequência e resultado de uma luta de classes altamente desenvolvida. E, ao contrário, no interesse de uma ampla e aberta luta de classes é necessário o desenvolvimento de um rigoroso espírito de partido. Por isso, o partido do proletariado consciente, a social-democracia, combate sempre com absoluta razão a ideia de se situar à margem dos partidos, esforçando-se invariavelmente para criar um Partido Operário Socialista coeso e fiel aos princípios. Esse trabalho tem êxito entre as massas à medida em que o desenvolvimento do capitalismo divide todo o povo, cada vez mais profundamente, em classes, aguçando as contradições entre elas.
É perfeitamente compreensível que a presente revolução na Rússia tenha engendrado e engendre tantas organizações situadas à margem dos partidos. Por seu conteúdo econômico-social, esta revolução é democrática ou, melhor, burguesa. Essa revolução derruba o regime autocrático-feudal, abrindo campo livre ao regime burguês, satisfazendo assim as reivindicações de todas as classes da sociedade burguesa, sendo, nesse sentido, uma revolução de todo o povo. Isso não significa, é claro, que nossa revolução não tenha caráter de classe; naturalmente que o tem. Mas esta revolução é dirigida contra as classes e castas que caducaram ou estão caducando do ponto de vista da sociedade burguesa, classes e castas estranhas a essa sociedade e que impedem o seu desenvolvimento. E como toda a vida econômica do país já é burguesa em todos os seus traços fundamentais, como a imensa maioria da população já vive de fato em condições burguesas de existência, os “contrarrevolucionários são, portanto, insignificantes em número, são na realidade “um punhado” em comparação com “o povo”. O caráter de classe da revolução burguesa manifesta-se, pois, inevitavelmente, no seu caráter “popular”. E por isso, à primeira vista, sem caráter de classe, mas como luta de todas as classes da sociedade burguesa contra a autocracia e a servidão.
A época da revolução burguesa distingue-se, tanto na Rússia como em outros países, por um desenvolvimento relativamente incompleto das contradições de classe da sociedade capitalista. É verdade que na Rússia o capitalismo está, hoje, muito mais desenvolvido do que na Alemanha de 1848, sem falar da França de 1789; mas não há dúvida de que as contradições puramente capitalistas ainda estão bastante encobertas em nosso país pelas contradições entre a “cultura” e o asiatismo, o europeísmo e o tartarismo, o capitalismo e o regime de servidão, isto é, no primeiro plano se apresentam reivindicações cuja satisfação impulsionará o desenvolvimento do capitalismo, o depurará da escória do feudalismo e melhorará as condições de vida e de luta, tanto do proletariado como da burguesia.
Com efeito, se examinarmos o número infinito de reivindicações, exigências e doléances (queixas) hoje formuladas na Rússia em cada fábrica ou escritório, em cada regimento, seção da guarda municipal, paróquia, centro de ensino, etc, etc, comprovaremos facilmente que a imensa maioria delas são, se é possível exprimir-se assim, reivindicações de caráter estritamente “cultural”. Quero dizer que não são, propriamente falando, reivindicações específicas de classe, mas exigências de sentido fundamentalmente jurídico, exigências que, longe de destruir o capitalismo, colocam-nos nos marcos do europeísmo e libertam-no da barbárie, da selvageria, do suborno e de outros restos “russos” do regime de servidão. Na realidade, também as reivindicações proletárias limitam-se, na maioria dos casos, a exigir transformações plenamente realizáveis nos limites do capitalismo. O proletariado da Rússia reclama, hoje, de maneira imediata, não o que mina o capitalismo, mas o que o purifica e o que acelera e impulsiona seu desenvolvimento.
Naturalmente, a situação especial do proletariado na sociedade capitalista faz com que a inclinação dos operários para o socialismo, a união dos operários com o partido socialista, abra caminho espontaneamente nas próprias fases iniciais do movimento. Mas as reivindicações nitidamente socialistas são ainda coisa do futuro, e na ordem-do-dia figuram as reivindicações democráticas dos operários na política; bem como as reivindicações econômicas dentro dos limites do capitalismo, no terreno da economia. Inclusive o proletariado faz a revolução, por assim dizer, dentro dos limites do programa mínimo e não do programa máximo. Não é nem mesmo preciso falar do campesinato, dessa gigantesca massa da população, esmagadora por seu número. Seu “programa máximo”, seus objetivos finais, não vão além das fronteiras do capitalismo, que se desenvolveria com mais amplitude e força se toda a terra passasse às mãos dos camponeses e de todo o povo. A revolução camponesa é atualmente uma revolução burguesa, por muito que essas palavras “ofendam” o ouvido sentimental dos cavalheiros sentimentais de nosso socialismo pequeno-burguês.
O caráter bem delimitado da revolução em desenvolvimento origina organizações à margem dos partidos, em um processo inteiramente natural. Todo o movimento, em seu conjunto, adquire inevitavelmente o selo da independência externa em relação aos partidos, a aparência da falta de filiação política; mas, está claro, somente a aparência. A necessidade de uma vida “humana” e culta, da união, da defesa da própria dignidade e dos direitos do homem e do cidadão abarca tudo e todos, agrupa todas as classes, diminui com gigantesco ímpeto qualquer limite partidário, perturba as pessoas que ainda estão muito longe de ser capazes de se elevar até às posições partidárias. A urgência da conquista dos direitos e reformas imediatas, fundamentalmente necessárias, relega, por assim dizer, a segundo plano, qualquer ideia e pensamento sobre o que virá mais tarde. A paixão pela luta atual, necessária e legítima, sem o que não seria possível o êxito, obriga a idealizar esses objetivos imediatos e elementares, pinta-os de cor-de-rosa e inclusive envolve-os às vezes em roupagem fantástica; o simples democratismo, o vulgar democratismo burguês, é confundido com o socialismo e classificado como socialismo. Tudo é, ao que parece, “independente dos partidos”; tudo se funde, por assim dizer, em um só movimento “libertador” (que, na realidade, liberta toda a sociedade burguesa); tudo adquire um leve verniz superficial de “socialismo”, principalmente graças ao papel de vanguarda do proletariado socialista na luta democrática.
A ideia da posição independente na luta dos partidos não pode deixar de, pelo menos, alcançar, em tais condições, determinadas vitórias passageiras. A independência em relação aos partidos não pode, pelo menos, deixar de passar a ser uma palavra de ordem da moda, pois a moda se agarra impotente ao reboque dos acontecimentos, e uma organização sem cunho partidário aparece precisamente como o fenômeno mais “comum” da superfície política; democratismo à margem dos partidos, movimento grevista à margem dos partidos, revolucionarismo à margem dos partidos.
Pergunta-se agora: qual tem que ser, diante desse fato, a posição independente com respeito aos partidos, e diante dessa ideia da independência com respeito aos partidos, a atitude dos partidários e representantes das diferentes classes? Não no sentido subjetivo, mas objetivo, isto é, não no sentido de qual deva ser a atitude diante desse fato, e sim no sentido de que atitude se impõe inevitavelmente subordinada aos interesses e aos pontos de vista das diferentes classes.
II
Como já indicamos, a independência a respeito dos partidos é um produto ou, se quereis, uma expressão do caráter burguês de nossa revolução. A burguesia não pode deixar de, pelo menos, tender para essa independência, pois a ausência de partidos entre os que lutam pela liberdade da sociedade burguesa significa a ausência de uma nova luta contra esta mesma sociedade burguesa. Quem desenvolve uma luta “independente dos partidos” pela liberdade, ou não compreende o caráter burguês da liberdade, ou consagra esse regime burguês, ou adia para as calendas gregas(1) a luta contra ele, o “aperfeiçoamento” do referido regime. E, pelo contrário, quem consciente ou inconscientemente se mantém ao lado da ordem de coisas burguesas, não pode deixar de, pelo menos, sentir inclinação pela ideia de se situar à margem dos partidos.
Numa sociedade baseada em classes, a luta entre as classes hostis converte-se de maneira infalível, numa determinada fase de seu desenvolvimento, em luta política. A luta entre os partidos é a expressão mais perfeita, completa e acabada da luta política entre as classes. A falta de cunho político significa indiferença diante da luta dos partidos. Mas essa indiferença não equivale à neutralidade, à omissão na luta, pois na luta de classes não pode haver neutros, na sociedade capitalista não é possível “abster-se” de participar da troca de produtos ou da força de trabalho. E essa troca engendra infalivelmente a luta econômica e, a seguir, a luta política. Por isso, a indiferença diante da luta não é, na realidade, inibição diante da luta, abstenção dela ou neutralidade. A indiferença é o apoio tácito ao forte, ao que domina. Quem era indiferente na Rússia diante da autocracia antes de sua queda durante a Revolução de Outubro(2) apoiava tacitamente a autocracia. Quem é indiferente na Europa contemporânea diante do domínio da burguesia, apoia, tacitamente, a burguesia. Quem mantém uma atitude de indiferença diante da ideia do caráter burguês da luta pela liberdade, apoia, tacitamente, o domínio da burguesia nesta luta, o domínio da burguesia na nascente Rússia livre. A indiferença política não é outra coisa senão a saciedade política. Aquele que está farto é “indiferente” e “insensível” diante do problema do pão de cada dia; porém o faminto será sempre um homem “de partido” nessa questão. A “indiferença e insensibilidade” de uma pessoa diante do problema do pão de cada dia não significa que não necessite de pão, mas que o tem sempre garantido, que nunca precisa dele, que se acomodou bem no “partido” dos que estão saciados. A posição negativa diante dos partidos na sociedade burguesa não é senão uma expressão hipócrita, velada e passiva de quem pertence ao partido dos que estão empanturrados, o partido dos que dominam, o partido dos exploradores.
A posição negativa diante dos partidos é uma ideia burguesa. O espírito de partido é uma ideia socialista. Essa tese, em geral, é aplicável a toda a sociedade burguesa. Naturalmente, é preciso saber aplicar esta verdade geral às diferentes questões e casos particulares. Mas esquecer essa verdade em certos momentos em que a sociedade burguesa em seu conjunto se lança contra a servidão e a autocracia, significa renunciar de fato e por completo à crítica socialista da sociedade burguesa.
A revolução russa, apesar de encontrar-se ainda em sua fase inicial, já proporciona material suficiente para comprovar as considerações acima expostas. O rigoroso espírito de partido foi e é defendido, exclusivamente, pela social-democracia, pelo partido do proletariado consciente. Nossos liberais, representantes dos pontos de vista da burguesia, não podem transigir com o espírito socialista de partido, nem querem ouvir falar da luta de classes: recordem-se, pelo menos, os discursos recentes do senhor Roditchev, que repetiu pela enésima vez o que já havia sido dito e repetido, tanto por Osvobojdenie, editado no estrangeiro, como pelos inúmeros e submissos órgãos do liberalismo russo. Por último, a ideologia da classe média, da pequena burguesia, foi claramente expressa nos pontos de vista dos “radicais” russos de diferentes matizes, começando por Nasha Jizn, os “radical-democratas”, e terminando pelos “socialistas revolucionários”. Onde esses últimos confirmaram com maior clareza sua mescla de socialismo e democratismo foi na questão agrária, e precisamente na palavra de ordem de “socialização” (da terra, sem socialização do capital). É sabido também que são transigentes com o radicalismo burguês e intransigentes com a ideia do espírito social-democrático de partido.
Em nosso tema não entra como se refletem os interesses das diferentes classes no programa e a tática dos liberais e radicais russos de todos os matizes. Abordamos, aqui, somente de passagem, esse interessante problema, e devemos passar agora às conclusões políticas práticas sobre a atitude de nosso Partido diante das organizações sem cunho partidário.
É admissível a participação dos socialistas nas organizações situadas à margem dos partidos? Se é, em que condições? Que tática é preciso seguir nessas organizações?
A primeira pergunta não pode ser respondida com um não absoluto, baseado nas considerações de princípios. Seria erro afirmar-se não ser admissível, em nenhum caso e em nenhuma circunstância, a participação dos socialistas nas organizações situadas à margem dos partidos (quer dizer, burguesas, mais ou menos consciente ou inconscientemente). Na época da revolução democrática, a renúncia a participar em organizações independentes dos partidos equivaleria, em certos casos, a renunciar em participar na revolução democrática. Mas, sem dúvida, os socialistas devem circunscrever estreitamente esses “certos casos”, só admitindo essa participação em condições determinadas e limitadas de modo rigoroso. Pois se as organizações independentes dos partidos são engendradas, como já dissemos, por um nível relativamente baixo de desenvolvimento da luta de classes, de outro lado, o rigoroso espírito de partido é uma das condições que transformam a luta de classes numa luta consciente, clara, precisa e fiel aos princípios.
A salvaguarda da independência ideológica e política do partido do proletariado é obrigação constante, invariável e incondicional dos socialistas. Quem não cumpre esta obrigação, deixa de fato de ser socialista, por mais sinceras que sejam suas convicções “socialistas” (socialistas de palavras). Para um socialista, a participação nas organizações sem cunho partidário é permissível só como exceção. E os próprios fins desta participação e seu caráter, as condições que ela exige, etc, devem estar inteiramente subordinados à tarefa fundamental preparar e organizar o proletariado socialista para a direção consciente da revolução socialista.
As circunstâncias podem obrigar-nos a participar em organizações independentes dos partidos, sobretudo na época da revolução democrática, e, em particular, de uma revolução democrática em que o proletariado desempenhe papel relevante. Tal participação pode ser necessária, por exemplo, para propagar o socialismo entre um auditório democrático não definido, ou em benefício da luta conjunta de socialistas e democratas revolucionários diante da contrarrevolução. No primeiro caso, a participação será um meio de tornar os nossos pontos de vista conhecidos; no segundo, um pacto de luta visando à realização de determinados objetivos revolucionários. Em ambos os casos, a participação só pode ser temporária. Em ambos os casos, a participação só é admissível com a condição de se resguardar inteiramente a independência do partido operário e sob a condição de que todo o Partido, em seu conjunto, controle e dirija obrigatoriamente os seus membros e grupos “delegados” às associações ou conselhos situados à margem dos partidos.
Quando a atividade de nosso Partido era secreta, a realização desse controle e dessa direção ofereciam enormes dificuldades, às vezes quase insuperáveis. Agora, quando a atividade do Partido é cada vez mais aberta, esse controle e essa direção podem e devem ser efetuados com a maior amplitude, e indiscutivelmente não apenas pela “cúpula”, mas também pela “base” do Partido, por todos os operários organizados que integram o Partido. Os informes sobre a atuação dos social-democratas nas associações ou conselhos independentes dos partidos e sobre as condições e os objetivos dela, bem como as resoluções de qualquer tipo de organizações do Partido a propósito da referida atuação devem, imediatamente, começar a fazer parte do trabalho prático do partido operário. Só uma tal participação real do Partido em seu conjunto, uma participação na orientação de todas as atividades desse caráter, pode contrapor de fato o trabalho verdadeiramente socialista ao trabalho democrático geral.
Que tática devemos aplicar nas associações independentes dos partidos? Em primeiro lugar, aproveitar toda possibilidade para estabelecer nossos próprios vínculos e para propagar nosso programa socialista na íntegra. Em segundo lugar, determinar as tarefas políticas imediatas do momento, do ponto de vista da realização mais completa e decidida da revolução democrática, colocar palavras de ordem políticas na revolução democrática, formular o “programa” das transformações que a democracia revolucionária em luta deve levar a cabo, de modo diverso da tratante democracia liberal.
Só colocando o problema dessa maneira pode ser admissível e fecunda a participação dos membros de nosso Partido nas organizações revolucionárias independentes dos partidos, hoje criadas pelos operários, amanhã pelos camponeses, depois de amanhã pelos soldados, etc. Só colocando dessa maneira o problema estaremos em condições de cumprir a dupla tarefa do partido operário na revolução burguesa: levar até o fim a revolução democrática, ampliar e reforçar os quadros do proletariado socialista, que necessita de liberdade para desencadear uma luta impiedosa pela derrubada do domínio do capital.
No início de julho foi realizado o julgamento do vigilante George Zimmerman, acusado de matar o jovem negro Trayvon Martin, em 2012, na Flórida, EUA . A decisão causou bastante revolta pelas características racistas do julgamento.
O juri, composto por seis mulheres, chegou ao veredicto de inocente. Ao aceitar a tese da defesa de legítima defesa, admite-se na realidade que um jovem negro que trajava uma blusa com capus representava uma ameaça, mesmo a vítima se encontrando desarmada.
Outro fato comprovado é que não foi Martin que atacou ou realizou qualquer ação, foi o vigilante que o perseguiu por acreditar que se tratava de um bandido. O jovem foi perseguido e quando alcançado lutou contra o agressor que disparou tirando-lhe a vida. Este e outro fatos fizeram o promotor Bernie de la Riondaia concluir, depois de longas investigações, que Zimmerman era alguém que “se achava um policial” e que “fez justiça com as próprias mãos”.
Em seu próprio depoimento o vigilante declarou que quando viu Martin caminhando na chuva presumiu que o rapaz “não era nada bom”. Mas Bernie descreve assim o jovem assassinado: “rapaz inocente de 17 anos que Zimmerman identificou como um criminoso, brigou com ele e o matou com um tiro a queima-roupa porque quis”. Trayvon era estudante de bacharelado em um colégio da cidade de Miami Gardens, próxima a Miami, Estado da Flórida.
Na mesma noite do julgamento ocorreram manifestações nas cidades de Nova Iorque, São Francisco, Chicago, Washington, Atlanta e Filadélfia, onde as pessoal foram as ruas para demonstrar sua indignação e pedir justiça. Na maioria das cidades os manifestantes foram seguidos por forte aparato policial e em alguns casos houve violência contra os manifestantes.
Os pais de Martin tem participados dos protestos e em seus depoimentos, além de denunciarem a violência contra os negros, citam o grande líder negro Martin Luther King, que dedicou a vida a luta pela igualdade e justiça social nos EUA.
Em Chicago gritavam-se palavras de ordem de “Nenhum policial racista!” e “Não há justiça, não há paz!”. Uma grande manifestação foi realizada no centro da cidade. A Times Square, em Nova Iorque, também foi palco de uma concentração. Várias pessoas carregavam cartazes com os dizeres: “O povo diz: Culpado.”
Em um parque de um histórico bairro negro de Los Angeles foi realizada uma concentração com centenas de pessoas, em sua maioria afro-americanos, que denunciavam o racismo e clamavam por justiça.
Não foi a partir dos atentados de setembro de 2001 que o governo norte-americano passou a investigar seus próprios cidadãos, desrespeitando a Constituição do país.
Invasão de privacidade nos Estados Unidos, por parte do Estado, é prática antiga, conta o professor de jornalismo e sociologia da Universidade de Columbia, Todd Gitlin.
No fim dos anos 60, ele participou do movimento contra a guerra do Vietnã. Na época, morava em São Francisco. Ressalta: “Eu não era uma liderança do movimento”.
Ainda assim, anos depois, através de um amigo advogado que tinha contato com o serviço de espionagem das Forças Armadas, Gitlin passou uma manhã inteira conversando com um agente que fora encarregado de seguir de perto os passos dele.
Na conversa, o professor ficou espantado. O ex-espião ainda sabia todos os endereços nos quais Gitlin morou, para quem trabalhava, onde ía…
Os métodos se sofisticaram e a espionagem se tornou ampla, geral e irrestrita, como as recentes denúncias de Edward Snowden sobre a National Security Agency (NSA) estão deixando cada vez mais claro.
Todd Gitlin analisou o aparato de espionagem, o crescimento da indústria de arapongagem e sua conhecida incompetência em recente artigo publicado no site TomDispatch.
Em entrevista, disse ao Viomundo que desde a publicação do artigo passou a receber novas denúncias sobre o trabalho dos agentes secretos. No texto, conta que enquanto o FBI recebia dicas a respeito dos irmãos Tsarnaev, aqueles que colocaram bombas caseiras na maratona de Boston, os agentes estavam mais preocupados em vasculhar a vida dos ativistas do Occupy.
Essa indústria de vigilância permanente, que trabalha de mãos dadas com as grandes corporações, está mais preocupada com o controle da população que com os terroristas? “Provavelmente”, diz Gitlin.
“Eles podem até achar que estão preocupados com os terroristas, mas o que sabemos a respeito das ações deles mostra que não entendem quase nada de terroristas. Qualquer pessoa que pensou em encontrar terroristas no Occupy é uma besta. Não tem nem graça”, diz.
Todd Gitlin é autor do livro “Occupy Nation”, publicado no ano passado, uma análise dos movimentos que por um período chacoalharam a política dos Estados Unidos.
Uma observação dele nos chamou especialmente a atenção, considerando eventos estranhos que aconteceram recentemente nas ruas brasileiras, especialmente em São Paulo.
Todd conta que na véspera do primeiro de Maio de 2012, um grupo associado ao Occupy de São Francisco seguiu, em passeata, até um bairro chamado Mission — onde não moram ricos, nem representantes do 1% mais rico dos Estados Unidos. Lá, o grupo destruiu lojas e carros. Um médico, que fazia parte do movimento Occupy e testemunhou a cena, garantiu que um grupo de rapazes atléticos, bem barbeados e movidos à testosterona, liderou o quebra-quebra. Acrescentou: “Não sou um desses fanáticos por teorias de conspiração. Mas já li a respeito de agentes provocadores e tenho que dizer que, sem dúvida, acredito 100% que as pessoas que começaram os eventos de hoje à noite eram exatamente isso”.
Gitlin também conta que a vigilância do aparato de segurança já existia quando o movimento Occupy nasceu. No dia 17 de setembro de 2011, um grupo de ativistas de Nova York decidiu seguir em passeata até a sede do banco JPMorgan Chase.
Chegando lá, os ativistas encontraram o quarteirão todo cercado. Muitos deram como certo que a polícia soube, de antemão, através do monitoramento da troca de e-mails do grupo, para onde pretendiam ir. Por isso, decidiram mudar de rumo na última hora. Seguiram para o Parque Zuccotti, no baixo Manhattan, e ali ficaram — dando início ao que se tornou, depois, o Occupy Wall Street.
Todd Gitlin acredita que os métodos policiais foram empregados por mais de um ano para enfraquecer, com sucesso, o movimento. Mas não atribui o desaparecimento do Occupy a essa interferência.
Ele enxerga na gênese do Occupy a origem da dispersão, mais tarde: ausência de uma agenda política mais ampla e desinteresse e/ou a falta de capacidade organizacional para participar do processo político.
A seguir, a entrevista que nos foi concedida pelo autor:
Viomundo – Quais foram os resultados concretos do movimento Occupy?
Todd Gitlin – O Occupy teve efeito considerável na condução das eleições [legislativas] e mudou o centro de gravidade da política norte-americana. A classe política teve que tratar da questão da desigualdade. Isso roubou a vitória do Tea Party e reorientou o eixo da política norte-americana. Eles [integrantes do Occupy] tornaram mais concretos os desafios da democracia estadunidense diante da desigualdade, mas não conseguiram se sustentar. O movimento enfrentou problemas quando ainda estava nos acampamentos. Quando foram fechados, as forças centrífugas foram fortíssimas. Na superfície, ao menos, tenho que dizer que o Occupy, como movimento, foi bem sucedido enquanto fracassava. Não sei como demonstrar isso, mas muito da energia gerada pelo Occupy foi redirecionada para outros movimentos. É o que ainda está acontecendo com lutas em defesa do meio ambiente, liberdades civis e outras. Mas a habilidade de influenciar a classe política foi muito limitada.
Viomundo – No fim, vimos o Presidente Barack Obama usar a retórica do movimento, falar na defesa dos 99% [contra o 1% no topo da pirâmide], sugerir aumento de impostos para quem ganha mais de US$ 250 mil por ano. Mas foram tomadas medidas concretas para atender as demandas que o movimento trouxe à tona?
Todd Gitlin – Não! É o problema de movimentos como esse, de energia difusa. O problema é como fazer a classe política se mexer. Se o movimento acreditasse nisso, teria se juntado ao Partido Democrata — como o Tea Party fez com o Partido Republicano — e tomado controle de várias áreas do partido, o que não seria difícil.
Viomundo – Para promover mudanças efetivas, eles teriam que entrar no jogo político? Não seria suficiente ter reivindicações mais específicas?
Todd Gitlin — Eu faço uma distinção entre o núcleo do movimento, mais anarquista, que começou com os acampamentos, e a parte de fora, mais convencional, organizada, os sindicalistas, os progressistas, a classe média. Essa parte era bem maior. Mas o núcleo dirigia o processo. E não dava para esperar que eles buscassem isso porque não são assim. Na minha visão, a parte de fora do movimento, se houvesse chance para alguma continuação e canalização da energia em prol de reformas, teria que vir de acordos dos grupos de fora do movimento em torno de um programa mínimo. Mas isso nunca aconteceu. O impulso gerado pelo Occupy se dissipou. Esses grupos organizados teriam de ter formado uma grande coalizão, de sindicatos e movimentos sociais, para ter um acordo coletivo.
Viomundo – Por que não aconteceu?
Todd Gitlin – Pelo lado dos sindicatos, porque eles estão se sentindo vencidos, estão envolvidos em divisões internas, chegaram ao movimento com outra mentalidade. Sabem o que fazer quando tem eleição: eleger democratas. Mas só conseguem acordo para isso. Entram com mentalidade defensiva. Não têm uma mentalidade rebelde. Sentem-se fracassados. As outras organizações progressistas estão envolvidas em suas próprias causas – ação afirmativa, aborto, etc. Não têm ideia coerente a respeito da transformação de forma geral.
Viomundo – O Occupy acabou?
Todd Gitlin – Da forma que vimos em 2011 acho que sim. Mas existe um repositório mais ou menos permanente e subterrâneo, um poço de dissidentes, de anarquistas, de contracultura. E de tempos em tempos ele emerge com preocupações que tocam muitas outras pessoas. De certa forma, o Occupy foi o ressurgimento de um espírito que apareceu primeiro em 1999, durante as demonstrações antiglobalização em Seattle. Agora, esse espírito, que é horizontalista e anarquista, voltou para o subsolo e não sabemos quando virá à tona novamente.
Viomundo – O senhor vê uma correlação entre os movimentos populares recentes no Egito, na Turquia e no Brasil?
Todd Gitlin – Existem muitas distinções entre Tunísia e Egito, depois Espanha e Grécia, Estados Unidos, depois Turquia e Brasil. Mas o elemento comum, ou um deles, é o sentimento de boa parte da população de que a classe política está indisponível para eles. Que vive trancada em um universo que está aquém da influência deles.
Essa é a mensagem que veio da Espanha, da Grécia, dos EUA, da Turquia e parece vir do Brasil. E não é por razões desconectadas que sentem a necessidade de ir às ruas. É porque a politica oficial não é adequada para os problemas que enfrentam.
Mas esses movimentos têm um problema em comum. Eles nasceram entendendo que a classe política falhou com eles. E têm neles mesmos a força para gerar um novo segmento ou substituto para a classe política? Em outras palavras, você não pode governar sendo apenas oposição. A pergunta para todos esses movimentos é: eles podem se transformar, ao menos em parte, em uma máquina, uma espécie de força instituída que dure, que possa alcançar vitórias?
Desesperado com a continuidade das manifestações que exigem sua renúncia, e tentando intimidar e criminalizar os protestos, o governador do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral, publicou no Diário Oficial do Estado, no último dia 23 de julho, decreto criando a Comissão Especial de Investigação de Atos de Vandalismo em Manifestações Públicas (CEIV).
Entre as muitas ilegalidades do decreto há uma que determina que as operadoras de telefonia e provedores de internet “terão prazo máximo de 24 horas para atendimento dos pedidos de informações” feitos pelo Governo. Ao mesmo tempo em que o decreto incita as operadoras à ilegalidade, ao quebrar o sigilo de comunicação sem a exigência de uma ordem judicial, também viola a Constituição Federal, pois estabelece a quebra de sigilo fora de estado de sítio ou de defesa, premissas exclusivas do Presidente da República.
Tal medida causou protesto por parte de órgãos ligados aos direitos humanos. De acordo com o advogado Técio Lins e Silva, o decreto “está entre o delírio e o abuso de poder”. “É caso de impeachment; há uma violação clara de direitos constitucionais”, afirmou Lins e Silva.
Temendo isso, poucas horas após a publicação do decreto, o Governo recuou e, por meio da assessoria do procurador-geral de Justiça, Marfan Martins Vieira, afirmou que “não haverá quebra de sigilo sem decisão judicial”. O Ministério Público Estadual, um dos órgãos que compõem a CEIV junto com a Secretaria de Segurança e as Polícias Civil e Militar, também tentou dar suas explicações. No entanto, dois dias após a publicação do decreto, a Polícia Militar foi acusada de infiltrar P2 (policiais disfarçados) entre os manifestantes para criminalizar os protestos, lançando coquetéis molotov sobre seus próprios companheiros de farda. Apesar da negativa do Comando da Polícia, toda a ação do policial disfarçado foi filmada e colocada na internet, tornando-se, hoje, de conhecimento público, desmoralizando ainda mais os órgãos de repressão do Estado e o decreto do governador.
Esta atitude antidemocrática e policialesca de Cabral, que busca instaurar um estado de exceção no Rio de Janeiro, foi mais um dos ingredientes que engrossou as manifestações e só fez confirmar que o governador, além de não ouvir as reclamações da população, está ligado às forças mais reacionárias do Estado e que faz tudo para servi-las contra os interesses do povo e a favor das oligarquias. Que o digam Cavendish e Delta, Odebrecht, OGX e Eike Baptista, entre tantas empresas e megaempresários favorecidos pelos cofres públicos através de licitações viciadas, dispensas ilegais de licitações, isenções e demais facilidades que lhes são garantidas.
Enquanto isso, os servidores públicos sofrem com salários congelados, escolas não são reformadas, médicos e enfermeiras trabalham em péssimas condições, municípios são abandonados à sorte após sofrerem com enchentes e soterramentos e, principalmente, os trabalhadores, a juventude e o povo fluminense são tratados como meros depositantes de votos nas urnas. As consequências dessa arrogância e prepotência, no entanto, estão sendo respondidas nas ruas pelos mesmos que sofrem com elas.
O jornal A Verdade realizou no último dia 24 de julho, no auditório do Sindicato dos Trabalhadores do Serviço Público Federal, o debate “Brasil e Turquia: uma revolta popular”, que contou com a participação de Nuray Sancar, do Partido do Trabalho da Turquia (EMEP), e Elif Görgü, jornalista do diário Evrensel. Também participaram Emanuel Cancella, do SindiPetro-RJ, Rodrigo Otávio, do coletivo Comunicadores Populares, e Esteban Crescente, da UJR. Na coordenação do debate estava Heron Barroso, representando o jornal A Verdade.
O evento, que contou com expressiva presença de estudantes, sindicalistas e militantes dos movimentos sociais, aconteceu num clima de otimismo em relação às mobilizações que tomam conta do Rio, do Brasil e do mundo, e reflete a vontade do povo de discutir os problemas da sociedade.
Em sua fala, Nuray Sancar destacou a grande participação dos jovens nos protestos turcos, apesar do silêncio e das manipulações dos grandes meios de comunicação ligados ao governo. “A população turca tem percebido de que lado estão os grandes jornais e redes de televisão; isso tem fortalecido o sentimento de que é preciso construir alternativas de comunicação que estejam ao lado do povo que luta”, disse.
Já Esteban Crescente destacou a semelhança entre os protestos nos dois países, especialmente no que diz resepito à violência policial. Para ele, “a repressão tem sido um fator a mais que leva ao crescimento das manifestações”.
Outros temas, como a luta contra os leilões do petróleo e pela democratização da mídia também foram abordados, mostrando que muita luta ainda temos pela frente. A impressão com que todos saíram do debate é de que a vitória da luta hoje travada pelos trabalhadores e a juventude em vários países depende, entre outras coisas, da colaboração e da solidariedade internacional entre os povos.
Em Pernambuco, no dia 26 de julho, foi publicada no Diário Oficial, a portaria conjunta da Secretaria de Defesa Social e da Secretaria de Educação do governo do estado que determina a intervenção da Polícia Militar (PM) dentro das escolas estaduais de ensino médio. As escolas que possuírem mais de mil estudantes serão vigiadas por um turno e as que possuírem quantidade maior de estudantes por dois turnos. Os PM’s atuarão armados e com fardamento completo, preparados para ações de combate. Além disso, estarão disponíveis três viaturas, cada uma com dois policiais.
Após uma onda de protestos, em que os estudantes tiveram uma grande participação, a postura do governador Eduardo Campos através de suas secretarias vai contra as vontades democráticas do povo pernambucano. Em um momento em que se debate a desmilitarização da polícia o governo do estado de Pernambuco põe PM’s armados em escolas. A presença do exército nas escolas traz de volta o espírito de que vivemos em um estado militarizado, onde as normas e a moral do exército é que devem ser seguidas pelos cidadãos. O pior, é que esta medida vai de encontro aos estudos mais avançados da construção pedagógica do ambiente escolar – que deve ser um ambiente educativo e não repressivo. Este tipo de atitude do governo atrasa o processo de democratização do país. Para quem não lembra o Brasil é um país que ainda está na transição da ordem ditatorial para a democracia, justamente por que possuímos resquícios da ditadura militar de 64 na estrutura estatal; isso inclui leis que não foram modificadas, arquivos não revelados do período militar e também a existência de uma polícia militarizada. Ano passado a Organização das Nações Unidas orientou o governo brasileiro a extinguir a polícia militar, por esta ser um perigo a garantia dos direitos humanos.
Segundo o professor de Direito Penal da UFMG, Dr Túlio Vianna “O treinamento da PM é absolutamente violento. Ele é feito para ser violento. (…) É claro que quando se dá um treinamento onde o próprio policial é violentado, como vou exigir que esse indivíduo não violente os direitos de um suspeito? (…) O policial aprende que o valor máximo não é o respeito aos direitos, à lei, e sim a hierarquia, a obediência. ‘Manda quem pode, obedece quem tem juízo’, é isso que ele aprende sempre”, completou. É isso que queremos para os nossos filhos? Que não respeitem mais os valores e apenas as armas? Questionemos, antes que seja tarde de mais.
No último dia 5 de agosto, indígenas e apoiadores da Aldeia Maracanã, no Rio de Janeiro, reocuparam o espaço do antigo Museu do Índio, na Zona Norte carioca. A reivindicação é que o espaço seja devolvido ao Centro de Etnoconhecimento Sociocultural e Ambiental Cauieré (Cesac), entidade associativa de defesa de direitos e interesses indígenas.
Em março deste ano, o governador Sérgio Cabral ordenou que a Polícia Militar despejasse violentamente dezenas de indígenas que viviam na Aldeia Maracanã sob o argumento de que a derrubada do espaço seria uma das exigências da Fifa para as obras do entorno do Estádio do Maracanã, o que foi desmentido pela própria Fifa.
A Aldeia Resiste! Esta é a principal palavra de ordem dos indígenas e de todos os militantes que se solidarizam com o movimento. Depois de 513 anos de saque e massacre, é hora de lutarmos para que haja a reparação e a garantia dos direitos dos povos originários.
Organizadas pelo Movimento de Luta nos Bairros, Vilas e Favelas (MLB), as famílias da Ocupação Sá Pereira ocuparam, no dia 01 de agosto, a sede da Prefeitura Municipal de Belém, no Pará, para exigir agilidade em resolver o problema da falta de moradia.
A pauta central de reivindicação é a inclusão imediata das famílias no projeto Viver Bem, que pretende, nos quatro anos de mandato do atual prefeito, construir dez mil casas populares para famílias de zero a três salários mínimos. No final da conversa, foi marcada uma nova audiência, desta vez com o prefeito e o secretário de Habitação.
Em maio de 2012, 100 famílias ocuparam o prédio do INSS, na Capital, que, há anos, não cumpre nenhuma função social. As famílias foram violentamente despejadas do prédio por meio de uma ação da Guarda Municipal, que não tinha mandato de reintegração de posse e que não economizou em bombas, gás de pimenta e palavras ofensivas para assustar e humilhar as famílias.
Passado um ano e dois meses, o prédio continua sem cumprir nenhuma função social. E mais: apesar das inúmeras tentativas de diálogo, nenhuma resposta concreta foi dada por parte da Prefeitura e da Secretaria de Habitação a essas famílias, que continuam morando em condições subumanas.
Seguiremos nossa batalha, lutando organizadamente para garantir nossos direitos!
Uma das principais reivindicações das grandes manifestações que ocorreram em junho foi acesso a saúde pública de qualidade, um direito básico e que a população brasileira sofre todos os dias pela sua escassez.
Como resposta no inicio do mês de julho o governo federal anunciou o programa Mais Médicos para o Brasil, com o objetivo de resolver o problema do déficit de médicos na saúde pública principalmente nas regiões mais pobres e distantes do país.
O projeto já está sendo alterado no que dizia respeito a aumentar em 2 anos o curso de medicina com o intuito de criar um segundo ciclo de ensino, onde os estudantes teriam que fazer um estágio em atenção básica à saúde e em urgência e emergência no Sistema Único de Saúde – SUS. Esse estágio será substituído pela já conhecida residência médica, onde os estudantes terão essa vivência.
Trabalhar para o SUS deve ser encarado pelos estudantes formados como um retorno social do investimento público em sua educação, afinal cerca de 4 milhões de estudantes ficam de fora das universidades todos os anos, criando o absurdo número de 85% da juventude estar hoje fora das universidades.
Segundo o site do projeto MAIS MÉDICOS PARA O BRASIL o governo federal também pretende criar cerca de 12 mil vagas no ensino em medicina até 2017. Das vagas previstas, 3,6 mil deverão ser criadas em instituições públicas e outras 7,8 mil em escolas privadas.
A expectativa, com essa medida, é melhor distribuir as oportunidades do ensino superior e, consequentemente, a atuação dos profissionais no Brasil, reforçando o compromisso do governo com o financiamento das universidades privadas e não com o ensino público.
Sabemos que enquanto o acesso a cursos como medicina for restrito e encarado como um dom para iluminados, enquanto os investimentos em saúde e educação não alcançarem números maiores, a visão elitizada e mercadológica da profissão de medicina irá fazer com que falte médicos no SUS e se formem cada dia mais especialistas em questões estéticas.
Em sua maioria, são os jovens que não conseguem ingressar nas universidades que precisam ter mais acesso aos serviços públicos como a saúde, o que acontece é que os impostos que essa juventude paga direta ou indiretamente financia uma educação excludente e elitista aos nossos futuros médicos.
Os compromissos econômicos do governo ficam muito claros. Não se pauta em nenhum momento as responsabilidades dos planos de saúde que lucram rios de dinheiro, muitas vezes encaminhando pacientes ao SUS e não dando nenhum retorno social por isso. Os investimentos em saúde e educação também são provas disso. Em 2012, 44% do Orçamento da União foi gasto com pagamento de divida pública a banqueiros e grandes empresários, enquanto os investimentos em saúde e educação ficaram com 4,17% e 3,34%.
Médicos estrangeiros
Outro ponto polêmico do projeto é a vinda de médicos estrangeiros para o Brasil, é fato que sem resolver os problemas de investimento e educação esse problema não será totalmente sanado. Porém, como não defender em um país onde o déficit de médicos chega a 54 mil postos de trabalho, que não tenhamos uma solução emergencial? A vinda de médicos estrangeiros com certeza será saudada pelas populações que não tem acesso aos serviços de saúde e deve ser tratada como uma medida emergencial para um problema que de fato tem muita pressa de ser resolvido, pois a falta de médicos no país tem matado pessoas todos os dias nas filas dos hospitais.
O compromisso com os direitos do povo deve continuar a ser cobrado cotidianamente, como o exemplo dado em junho pela população brasileira que se organizou nas ruas, pois só invertendo a lógica de prioridades do governo poderemos ter acesso a saúde e educação de qualidade. Enquanto o financiamento de banqueiros e grandes empresas forem tratadas como prioridade e as políticas sociais forem reféns disso nossa população continuará sem acesso pleno aos seus direitos.
O cenário de insatisfação em todo o país é consequência de uma política defeituosa que há anos permanece mergulhada no ralo da corrupção. E por conta disso, o mundo todo passou a assistir nos canais de televisão e internet, os confrontos de rua entre manifestantes e a polícia do Estado. No ideário das elites o povo brasileiro é pacífico e festivo, sem condições de questionar os desmandos provocados pela política nacional.
Em contrapartida, os vários governos ditos democráticos e seguidores de uma política de mercado competitivo, sempre atuaram a favor do fortalecimento da propriedade privada, em detrimento da estatal. Nesse contexto, muitas promessas foram feitas ao longo dos pleitos eleitorais. Nessas campanhas se debatiam sobre as diversas questões institucionais referentes à moradia, educação, saúde, lazer, reforma agrária, segurança, não pagamento da dívida externa, emprego e salário digno, preservação ambiental, combate à seca e qualidade de vida para todos os ditos cidadãos. Muitos governos passaram e nada foi realmente cumprido na íntegra, desgastando cotidianamente a chamada república democrática.
Nesse sentido o que pairou foi uma ação assistencialista por parte dos governantes sem solucionar verdadeiramente as diversas demandas que assolam a vida diária do trabalhador assalariado da cidade e do campo. Os fenômenos de rebeldia que marcam as páginas dos noticiários nacionais e internacionais são uma variante dos impactos críticos desencadeados pelo sistema decadente que insiste em permanecer com uma estrutura de governo de exclusão, descaso e muitas irregularidades sociais. É notória a crise econômica mundial que coloca em xeque a inconsequente economia de mercado internacional, onde essa mesma engrenagem através de seus mandantes passa a impor aos governantes do Brasil uma política cada vez mais rasteira e desumana, provocando os inúmeros descompassos na sociedade.
Nessa linha de acontecimentos, o maior sofredor é o trabalhador humilde e desempregado, sendo atingido pela fome, miséria e violência policial, quando ousa reivindicar seus direitos negados e que ao longo de sua história vem sentindo na pele a insalubridade de uma democracia que beneficia os ricaços, que permanecem lucrando sempre mais. Os assassinatos no campo são assustadores, vitimando lavradores que reivindicam um pedaço de chão para tirar o mísero sustento de sua família.
Nenhuma sociedade consegue permanecer na apatia permanentemente, sem que um dia se levante contra seus algozes. Portanto, não deve ser motivo de surpresa a eclosão de recorrentes reivindicações populares nesse período. No início da formação do capitalismo no país, os governantes não tiveram a preocupação de realmente garantir a distribuição de terras aos antigos escravos que se tornaram livres. Nessa medida, uma parte foi transformando-se em trabalhadores assalariados e outra parte ainda mais massacrada ficou totalmente à mercê das intempéries de uma política excludente, todos vítimas de uma profunda desigualdade entre classes.
Assim nascem os primeiros focos de sem-terra, sem-teto, desempregados, excluídos e marginalizados por um punhado de ricaços dominantes. Em vários momentos, as camadas populares lutaram e protestaram contra os antigos opressores, porém essas lutas foram locais sem possuir uma reivindicação de proporção nacional e com pouca mobilidade de massa. Portanto, isso é uma maneira de comprovar historicamente que o brasileiro possui uma marca de luta em gerações anteriores, hora mais expressiva ou menos aguerrida, dependendo da ocasião do momento.
O estouro de manifestações que sacode o Brasil de ponta a ponta, eclodiu em São Paulo com as bandeiras de reivindicação do movimento popular pelo passe livre, que em seguida ganhou o recheio de antigas bandeiras esquecidas pelos chamados representantes políticos. Os eventos ocorridos nas ruas, praças e avenidas de todo o território nacional, significam uma ampla resposta do povo brasileiro contra as lacunas da irregular política dividida em classes.
A juventude e a população em geral não são inativas e demonstraram sua indignação no enfrentamento com a polícia do Estado nas ruas e avenidas. O chamado “vandalismo” resulta de um sistema político degradante e obsoleto. A rebeldia desses ativistas mais ousados faz parte do calor de qualquer luta em andamento por uma possível transformação social. Os bilhões de reais direcionados para a copa das confederações colocaram de forma clara que a política econômica do capital atua em benefício de um punhado de ricos, em prol de um evento futebolístico que foge ao atendimento das necessidades do povo.
Enquanto o Brasil ocupa a 85ª posição no ranking do IDH mundial e uma recente pesquisa revela que 15 milhões de pessoas passam fome em nosso país, uma dinheirama dos cofres públicos corre de maneira desenfreada atendendo aos caprichos de grandes empresários e da FIFA, apoiados pelos governantes. Os valorosos manifestantes que protestam estão protagonizando os rumos de uma nova era na política nacional.
Isso deixa às claras que a verdadeira democracia popular é decidida na base do debate popular sendo incrementada com as ações de rua para fazer valer o direito de um povo sofrido. Antes o que era impossível tornou-se possível, obrigando os ditos representantes do povo a fazer aquilo que as massas desejam alcançar. O povo organizado possui uma enorme força, mas nem sempre consegue perceber a dimensão do poder que possui.
A configuração de um novo quadro de justiça e uma política de agregação social e verdadeiramente democrática só se consolidará com as ações de rua para a derrubada do Estado capitalista opressor, fazendo valer o verdadeiro sentido democrático popular que deve ser construído pelo povo e para o povo, com o Estado socialista. Significa portanto que as contradições de ordem política e econômica do capitalismo financeiro necessitam ser superadas com a organização ativa das camadas populares.
Em suma, o arremedo democrático burguês que impera no país não consegue atender às demandas da população. O Estado burguês só ruirá com a força do povo, numa dinâmica de transformação social e inevitáveis perdas materiais, entre outras. Os fins poderão justificar os meios dependendo da ocasião e do calor do momento. O movimento deve arregimentar imediatamente operários, camponeses, estudantes, domésticas, desempregados, professores etc. Só a luta mudará a vida e a sociedade. É necessário que o movimento permaneça atuante até conseguir alcançar todas as reivindicações. Deve-se salientar que a mídia burguesa tenta desviar as atenções com a intenção de colocar povo contra povo. O Estado capitalista juntamente com toda a sua bandalheira deve ser derrubado e pagar pelos crimes cometidos contra os pobres, miseráveis, excluídos e desafortunados.
O combate à impunidade e à corrupção no Brasil deve ser tratado com rigor utilizando os clássicos tribunais do povo. Medidas governamentais da política vigente não solucionarão os problemas em questão. Está claro que a população não aguenta mais tanto desmando, sendo necessário sacudir o país e erradicar todas as necessidades do povo, por meio das assembleias populares e manifestações de rua. As arbitrariedades cometidas por um governismo atrelado a uma política de contradições só será modificado com a força e formação das lutas populares.
Na realidade a população não se sente representada politicamente e por esta razão tomou as ruas de todo o país, demonstrando a sua insatisfação. A política de pão e circo deve cair por terra e uma nova sociedade deve ser arquitetada. O rosto de ativistas encapuzados representa o rosto de um povo não visto em luta. É inegável que a pressão dos manifestantes fez o governo e empresários do transporte em São Paulo diminuir a tarifa de ônibus. Na seqüência foi barrada a PEC37. Enfim, estamos vivenciando momentos de possíveis mudanças na sistemática ordem do Estado capitalista financeiro. E por fim, os protestos tendem a se multiplicar no Brasil, pois as políticas públicas não garantirão benefícios concretos às camadas sofridas e exploradas de todo o território nacional. O povo na rua é que arrancará os objetivos populares. A meta do Estado é garantir a manutenção da política demagógica e degradante. Manter-se na luta e organizado é a única saída para mudar o Brasil.
Votar em um parlamentar não significa garantia de direitos. O verdadeiro direito é aquele decidido pela democracia direta em nome do povo.
Carlos Holanda, graduado em História e pós –graduando em Metodologia do Ensino de História pela UECE (Universidade Estadual do Ceará)
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