UM JORNAL DOS TRABALHADORES NA LUTA PELO SOCIALISMO

sexta-feira, 1 de julho de 2022

O laboratório Rio de Janeiro

OPERAÇÕES MILITARES – O “laboratório” Rio de Janeiro não é para fabricar um remédio para os problemas de segurança pública, mas para a burguesia aprender a gerir violência em seu favor nos tempos de crise. (Foto: Reprodução/GBN News)
Douglas Louis

RIO DE JANEIRO – O general Sérgio Etchegoyen, ministro-chefe do Gabinete de Segurança Institucional do governo ilegítimo declarou em entrevista o Rio de Janeiro como um “laboratório” para o plano nacional contra a criminalidade. O objetivo, segundo ele, é fazer de forma permanente o que foi praticado nas olimpíadas de 2016 para controlar o banditismo no Estado que em meio à crise econômica-política observa os índices de violência retornar aos padrões anteriores às Unidades de Polícia Pacificadoras (UPP).

As Unidades de Polícia se propuseram inicialmente a minar a estratégia de tomada de território por parte das facções criminosas e isso saiu como um tiro pela culatra, já que as bases policiais instaladas nos primeiros morros resultaram instantaneamente numa expansão das facções para áreas da Baixada Fluminense, onde o controle estatal é mais débil. O objetivo dos traficantes com isso era de acumular forças e cercar as cidades centrais controlando favelas na periferia do Estado, e isso teve um resultado positivo para as facções, já que para além do seu quartel-general tradicional adquiriram novos complexos lucrativos e pequenas comunidades satélites que servem como fornecedoras de ladrões que roubam veículos para os bandidos do complexo ficarem responsáveis pelo tráfico interno e o roubo de cargas. É a nova divisão do trabalho no tráfico.

O ponto de partida para o entendimento preciso do novo mapa de violência do Rio de Janeiro deve ser as Unidades de Polícia Pacificadoras (UPP). A inauguração do projeto deu uma nova configuração à “divisão do trabalho” que sempre existiu dentro da criminalidade, diversificando as áreas de atuação e consolidando o seu poder nas regiões onde esse domínio era debilitado. Uma reportagem da época de 2015 apontava o Complexo do Chapadão como o novo Complexo do Alemão e essa talvez até fosse uma analogia verdadeira caso o Comando Vermelho não ditasse as ordens em ambas às comunidades.

O Instituto de Segurança Pública (ISP) notou, em 2016, que os índices de violência vinham crescendo em todo o Rio de Janeiro, porém mais vertiginosamente na Baixada Fluminense, onde foi registrado um crescimento dos homicídios bem acima da média estadual. O crescimento na Baixada Fluminense chegou a 30% enquanto que nas demais regiões do estado se mantinha oscilando entre os 20%. Em 2010, a região da Baixada Fluminense representava 30% dos homicídios no Estado; depois de 2014 passaram a representar 40%. Isso mostra claramente o processo de consolidação do domínio das facções e a violência da guerra urbana no Rio de Janeiro. O ex-secretário de Segurança Pública do Rio, José Mariano Beltrame já observava esse processo e declarava que seria instalada uma UPP no Chapadão, o que nunca veio a se concretizar.

A transferência do Quartel General do Tráfico de Drogas do Complexo do Alemão para o Complexo do Chapadão teve implicações flagrantes no que se refere ao roubo de cargas. De lá pra cá, a Pavuna – bairro que abriga parte considerável e lucrativa do complexo – se tornou alvo dos holofotes midiáticos no que toca ao número de roubos. Nos últimos quatro anos, o roubo a cargas aumentou 180% em todo o estado. O bairro sozinho representa 13% de todos os casos registrados no estado do Rio e nos últimos anos o número de casos cresceu de forma ininterrupta, haja vista que de 2015 para 2016 o crescimento foi de 36,6%.

Para conter esse cenário o Governo do Estado recorre ao Governo Federal pedindo apoio da Força Nacional contra os roubos de cargas. A Força Nacional tem como prática realizar blitzes nas Avenidas do bairro onde os números de roubo a cargas são exorbitantes e cercar com patrulhas as entradas das favelas com foco no Complexo do Chapadão.

Note que o objetivo não é desarticular o crime organizado, mas tão somente coibir o roubo de cargas. Sendo assim, a estratégia do Planalto contra o crime peca pelo mesmo erro da UPP: ao tentar coibir determinado crime – no caso da UPP o domínio de territórios – a Força Nacional mantém intacta a estrutura organizacional dos criminosos, dando amplo espaço para que os mesmos acumulem força e venham futuramente a questionar o controle da Força Nacional nessas vias, resultando em mais confrontos armados diretos e instabilidade.

A finalidade última não é garantir a segurança da população, que se vê duplamente oprimida – ora pelo tráfico, ora pelo estado. O ministro-chefe da segurança institucional preza unicamente pela manutenção do atual sistema. O revolucionário não deve depositar esperança alguma nessa operação, já que a última vez que a Força Nacional foi chamada ao Rio de Janeiro era para proteger os políticos da revolta popular, na manifestação dos servidores públicos contra os pacotes de austeridade.

O “laboratório” Rio de Janeiro não é para fabricar um remédio para os problemas de segurança pública, mas para a burguesia aprender a gerir violência em seu favor nos tempos de crise.

Nenhum apoio a essas operações, a única classe capaz de transformar é a classe trabalhadora. Nesse quadro só resta aos revolucionários intensificar os trabalhos do Movimento de Luta nos Bairros, Vilas e Favelas (MLB) para transformar a luta nas favelas tanto contra as forças de segurança, quanto com suas contradições internas.

Outros Artigos

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui

Matérias recentes