O assassinato do menino boliviano de 5 anos, Brayan Yanarico Capcha, deixa claro a situação de segregação social e violações de direitos enfrentadas por esses imigrantes que, muitas vezes, chegam de forma ilegal ao Brasil.
Brayan foi morto, na região de São Matheus, zona Leste de São Paulo, durante um assalto à casa em que morava com a família e outros bolivianos, na última sexta-feira, dia 28 de junho.
Familiares relatam que o menino foi baleado pois chorava muito. Quatro suspeitos já foram presos. A família do menino estava no Brasil havia apenas seis meses e trabalhavam em uma oficina de costura.
A comunidade boliviana na cidade de São Paulo realizou um ato, no centro da cidade, no dia 1º de julho. Logo no dia seguinte a ministra da Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República, Maria do Rosário, convocou uma reunião extraordinária para discutir ações de proteção aos estrangeiros no Brasil. O assassinato abre uma discussão sobre os direitos dos imigrantes no Brasil.
Um golpe de Estado organizado pelo Exército egípcio derrubou o presidente Mohamed Morsi, suspendeu a Constituição, dissolveu o Parlamento e nomeou para presidente interino Adly Mansour, presidente do Supremo Tribunal Constitucional. O anúncio da decisão foi feito num mensagem televisiva do chefe do Exército, rodeado de líderes religiosos, jovens do movimento Tamarrod e Mohamed El Baradei.
Mais uma vez, o as Forças Armadas realizam um golpe no Egito. No dia 03 de julho, tanques ocuparam as ruas e pontes do Cairo e foi decretada a prisão do presidente Mohamed Morsi e de vários de seus colaboradores.
Abdel Fatah al Sisi, chefe do Exército, fez o anúncio oficial, rodeado por Ahmed al Taayeb, xeique da instituição islâmica Al Azhar, pelo papa da igreja copta, Teodoro II, pelo prémio Nobel da Paz, Mohamed El Baradei.
O presidente interino, Adly Mansour tomou posse e dirigirá um governo de gestão e de coligação, que irá preparar eleições presidenciais e legislativas. Será constituído um comitê de especialistas para emendar os artigos mais polêmicos da Constituição.
Morsi está refugiado numa mesquita do Cairo e impedido de sair do País, assim como as principais figuras da Irmandade Muçulmana. Morsi afirmou que “não aceitará nunca renunciar de forma humilhante à sua pátria, à sua legitimidade e à sua religião”, mas apelou aos membros da Irmandade que não lutem, apesar de, segundo ele, lhes terem “roubado a revolução” e garante que continua a ser o presidente do Egito.
Na Praça Tahrir e junto ao palácio presidencial juntaram-se centenas de milhares de pessoas que festejaram o derrube de Morsi.
Os militares afirmam que o seu objetivo foi proteger os manifestantes, mas depois de terem ficado por mais de três décadas no poder, muitos desconfiam desse objetivo. O fato é que as Forças Armadas egípcias, com forte vinculação com os serviços de inteligência dos Estados Unidos, nunca saíram no poder e a maior prova é a de ter em menos de 24 horas realizado o golpe militar.
Durante a manifestação em Fortaleza, Capital do Ceará, no último dia 27 de junho, uma cena chamou a atenção de todos os presentes, ganhou destaque na imprensa nacional e foi parar na capa do jornal norte-americano The New York Times.
O ex-militante da ALN Sílvio Mota, 68 anos, foi tirar satisfações cara a cara com o Batalhão de Choque porque, minutos antes, encontrava-se sentado na calçada com sua esposa, em meio a mais um protesto próximo à Arena Castelão, quando os dois foram atingidos por gás lacrimogêneo. Sílvio é juiz do trabalho aposentado e coordenador do Comitê pela Memória, Verdade e Justiça do Ceará. A ALN é a Ação Libertadora Nacional, organização revolucionária dirigida por Carlos Marighella no combate à Ditadura Militar no Brasil.
“Eu fui protestar. Eles me agrediram. Me levantei e fui tomar satisfações. Aquilo foi uma violação de tudo! Primeiro, eles tentaram dizer que eu não tinha direito de ir até eles. Depois tentaram me prender. Precisei mostrar minha identidade profissional, aí eles recuaram”, afirma. Ainda de acordo com Sílvio, após a queixa contra os policiais, ele se afastou para voltar à manifestação e, neste momento, mais projéteis de gás lacrimogêneo foram lançados, um deles atingindo suas minhas costas. “O Batalhão de Choque e a Polícia Militar em geral não reagiram a provocações. Eles chegaram para acabar com a manifestação”, completa.
Milhares de manifestantes caminhavam pela Avenida Dedé Brasil, em direção à Arena Castelão, durante a realização do jogo Espanha e Itália, pela Copa das Confederações. Eles pediam mais investimentos em educação e saúde, redução do valor da tarifa de ônibus e o fim dos gastos excessivos com a Copa. No total, 92 pessoas foram detidas pela Polícia.
Cerca de 500 pessoas do movimento Belém Livre ocupam o hall da Câmara Municipal de Belém, no bairro do Marco, desde a manhã de segunda-feira, 1º de julho. Os jovens impediram a votação do Plano Plurianual (PPA) do município, exigindo que fosse votada a redução do preço das passagens. Os vereadores se retiraram do plenário e a votação foi remarcada.
Integrantes da Guarda Municipal de Belém jogaram spray de pimenta. ‘Estamos em um ambiente fechado e a Guarda nos agrediu com o spray de pimenta’, afirmou um dos estudantes.
Na tarde da terça-feira, 2 de julho, a votação chegou a ser suspensa duas vezes, após invasão de manifestantes no plenário. Eram cerca de 200 manifestantes que queriam a aprovação de projetos de emenda sobre o Passe Livre e a redução da passagem de ônibus em Belém. Houve confronto entre os manifestantes e Guarda Municipal. A Guarda reagiu com bombas de gás. Na confusão, várias pessoas ficaram feridas.
Em resposta, na quarta-feira, uma grande passeata foi realizada em Belém pela redução da passagem de ônibus e o passe livre para estudantes.
O protesto foi denominado como um “sentaço flexível”, de acordo com Thiago Cassebe, professor de Geografia, estudante e um dos integrantes do movimento Belém Livre. Cerca de 500 pessoas partiram do Mercado de São Brás e seguiram até o cruzamento da avenida Magalhães Barata com a travessa Castelo Branco, onde realizaram o primeiro bloqueio. Carregando faixas e bandeiras os manifestantes sentaram e deitaram estendidas na pista. Os funcionários de supermercados em greve por melhores salários se uniram ao ato.
Segundo Fernanda Lopes, do Movimento de Luta nos Bairros (MLB) e do PCR, a próxima manifestação deverá ser realizada na sexta-feira. Os manifestantes vão deliberar sobre as ações e percurso do ato momentos antes de sair para a caminhada.
A estudante foi presa sob alegação de estar portando explosivos durante o ato contra o aumento das passagens. Uma vigília foi montada em frente à delegacia exigindo sua libertação.
Durante as últimas semanas, todo o País se envolveu nos protestos e manifestações que começaram em Porto Alegre, ganharam força em São Paulo com o Movimento Passe Livre e se intensificaram com o início da Copa das Confederações.
Estamos participando de um momento em que vemos uma intensa mobilização popular, conduzida por sentimentos de indignação da população, oprimida pelo Estado, que se rebela e mostra nas ruas seu poder de mobilização por direitos como saúde, educação, moradia digna, segurança pública e transporte público de qualidade. Os aumentos das passagens de ônibus levaram à reflexão quanto ao absurdo do sistema de transporte público e fez ressurgir várias outras demandas da população.
As manifestações seguem enfrentando muita violência e repressão por parte da PM, e em Belo Horizonte não foi diferente. Além da repressão nas ruas vivemos uma situação absurda. No dia 22 de junho, a Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) serviu como base militar para 150 integrantes da Força Nacional atacarem os manifestantes que passavam pela Av. Antônio Carlos, rumo ao Mineirão. Os militares perseguirem manifestantes, atiraram bombas de gás lacrimogênio em todas as direações e impedirem pessoas feridas de saírem para buscar socorro. Esta postura, no entanto, não é surpresa para quem conhece a política da atual Reitoria, que persegue lideranças estudantis, jubila estudantes que reivindicam assistência estudantil, proíbe festas, espaços de convivência e de cultura e chama a Polícia Militar para interromper atividades culturais no campus, e que, por outro lado, nem sequer adverte alunos que praticam atos de racismo, machismo ou fazem apologia ao nazismo, como, por exemplo, os autores do trote na Faculdade de Direito.
Uma instituição que serviu na Ditadura Militar para abrigar jovens perseguidos pela repressão tomou uma atitude totalmente contrária à sua história e ao seu princípio fundamental de autonomia.
Os estudantes repudiaram tal atitude, ocuparam a reitoria da UFMG no dia 25 e iniciaram um acampamento na universidade em protesto contra as forças policiais no campus. O protesto esperava por decisões que estavam sendo tomada no Conselho Universitário nesse mesmo dia. A representação discente levou ao Conselho as reivindicações dos estudantes, dentre as quais a principal era a retirada e proibição da permanência da Força Nacional dentro da UFMG, o que foi conquistado diante da pressão da comunidade acadêmica. Uma importante vitória dos estudantes!
Durante anos o Sindicato dos Trabalhadores em Calçados de Carpina e Região tem realizado campanhas salariais com o objetivo de garantir um reajuste de salário decente e um aumento na cesta básica. Após mais uma campanha neste ano, com visitas constantes nas portas das fábricas, realizando assembleias e convocando os trabalhadores à luta, alcançamos uma vitória histórica.
Os funcionários da Alpargatas São Paulo conquistaram 11% de reajuste salarial para auxiliar de produção; 10% para operador de máquina e 7,5% para quem recebe acima do piso; 66,7% de reajuste na cesta básica (passando de 12 cestas de R$ 30,00 para 12 cestas de R$ 50,00); auxílio creche de R$ 65,00 para R$ 80,00, entre outras. Os companheiros e companheiras da empresa tiveram uma valorosa participação, aprovando um indicativo de paralisação de advertência, caso os patrões não apresentassem uma proposta decente, o que fez com que os patrões ficassem com medo da organização da categoria.
Diante desta situação, os patrões, após várias rodadas de negociações, debates e muitas ligações para a sede da empresa, em São Paulo, recuaram e aceitaram a proposta dos trabalhadores. Esta foi mais uma lição política para os trabalhadores: a de que só unidos com seu sindicato podemos arrancar dos capitalistas alguma conquista econômica.
Tramita no Congresso Nacional projeto em defesa do nascituro (conjunto de células com potencialidade de desenvolver um ser humano, se houver o nascimento com vida). O Estatuto do Nascituro afirma que um embrião já é um ser humano desde sua concepção, e que ele tem direitos como qualquer pessoa, mesmo que ainda não tenha nascido. Também estabelece que se uma mulher vítima de estupro engravidar e não tiver condições financeiras para cuidar da vida, da saúde, do desenvolvimento e da educação da criança, o Estado arcará com os custos até que o pai-estuprador venha a ser identificado e responsabilizado por pensão ou a criança venha a ser adotada. Ou seja, toda mulher que engravidar devido a um estupro terá direito a uma pensão alimentícia, garantida pelo estuprador ou pelo Estado, a chamada “bolsa estupro”.
Várias cidades brasileiras realizaram atos contra o Estatuto do Nascituro (PL 478/07). Em São Paulo, três mil pessoas disseram não ao projeto.
Para o Conselho Nacional de Direitos da Mulher (CNDM) esta proposta “viola os direitos das mulheres”, pois dificulta o acesso aos serviços de aborto previsto em lei, nos casos de risco de vida à gestante, estupro e gravidez de feto anencéfalo. O Governo brasileiro também diz não apoiar o projeto. A Organização das Nações Unidas pressiona o Governo Federal e diz que esse projeto não pode ser aprovado porque reduzirá ainda mais a liberdade da mulher no País, além de aumentar o número de abortos ilegais.
Para Débora Diniz, antropóloga, professora da Universidade de Brasília e pesquisadora da Anis – Instituto de Bioética, Direitos Humanos e Gênero: “É sobre as potencialidades que o Estatuto propõe direitos e obrigações absolutas ao Estado brasileiro. Algumas delas são superiores aos direitos das mulheres – uma menina que tenha sido violentada sexualmente por um estranho será obrigada pelo Estado a manter-se grávida, mesmo que com riscos irreparáveis à saúde física e psíquica. Os direitos e as proteções devidos à infância pelo Estatuto da Criança e do Adolescente serão esquecidos pela prioridade do nascituro à ordem social. Se um acaso impuser um risco grave à saúde com a gestação, a menina deverá morrer para fazer viver um nascituro fruto da violência”.
Trata-se de mais um golpe contra os direitos humanos, violentam os direitos da mulher: uma cidadã, que tem uma vida, sonhos, direitos. Querem lhe negar o direito de viver em uma sociedade que a proteja da discriminação, da violência, do estupro, pois legitimar uma gravidez provinda de um crime é legitimá-lo. O estatuto prevê uma mudança constitucional que sustenta a ideia religiosa de que um agrupamento de células humanas recém-fecundadas constituiriam uma vida, preservada e com seus direitos que deveriam ser assegurados pelo Estado. Setores reacionários, elitizados e machistas da sociedade defendem uma aberração destas simplesmente porque é contra o povo, quer massacrá-lo mais do que já o faz todos os dias. Massacrar os direitos das mulheres é retroceder nas conquistas da sociedade como um todo.
O Estado brasileiro não consegue cuidar de suas crianças vivas e já nascidas, temos milhões de crianças desamparadas, sem casa, sem escolas, sem direito a se alimentar, nem de ir ao pediatra. Para que serve este estatuto? Para que as camadas retrógradas do País levantem falsamente a bandeira da “moralidade”, da “Família”, da “vida”…
A sociedade capitalista é extremamente hipócrita, pois condena o aborto, mas as mulheres ricas o fazem em clínicas e com conforto; condenam a prostituição, mas vendem a imagem da mulher como se fosse uma cerveja que quem quiser pega, instigando na cabeça das pessoas que toda mulher está disponível, seja nas novelas, nos comerciais ou nas músicas. Por isso, somente com o fim desta sociedade haverá liberdade e garantia dos direitos das mulheres, das crianças e dos homens. Lutemos contra o Estatuto do Nascituro, contra todo o retrocesso das conquistas das mulheres e por uma sociedade que defende verdadeiramente a vida de todos, o socialismo.
Em Belém uma marcha em solidariedade às manifestações que estavam acontecendo em São Paulo levou mais de 13 mil pessoas à Avenida Almirante Barroso, principal via de acesso a cidade. Além da solidariedade com o movimento em São Paulo, em reunião que preparou a marcha com a presença de cerca de 300 pessoas, os manifestantes definiram como principais pautas do movimento a redução da tarifa e o passe livre para os estudantes.
O movimento assumiu formas de uma verdadeira guerra urbana na segunda marcha realizada no dia 20. A marcha dessa vez se dirigiu ao prédio da prefeitura e mais de 10 mil pessoas exigiram que o prefeito recebesse publicamente o movimento. Segundo a imprensa local, após a saída do prefeito a frente do prédio houve o lançamento de pedras por parte dos manifestantes, tendo atingido um guarda municipal que ficou ferido. A tropa de choque entrou em ação juntamente com a cavalaria arremessando bombas de efeito moral contra a multidão pacífica que se encontrava no local.
Por conta dos gases lançados contra a manifestação, uma gari que se encontrava em seu local de trabalho passou muito mal por conta da intoxicação causada pelo gás lacrimogênio. Cleonice, de 51 anos, mãe de 3 filhos, veio a falecer em um Pronto Socorro após sofrer 6 paradas cardíacas.
No sábado (dia 22) um ato contra a PEC 37 reuniu 3 mil pessoas que se dirigiram ao Ministério Público onde foram recebidos por representantes do órgão.
Já no ato do dia 24 mais de 5 mil pessoas participaram da marcha que novamente se dirigiu a sede da prefeitura. Desta vez o movimento entregou uma pauta contendo 4 principais pontos: Redução da tarifa de R$2,20 para R$2,00; Congelamento da tarifa por 2 anos; Passe livre para estudantes e desempregados; e efetivação de lei do passe livre aos domingos suspensa através de liminar concedida em favor dos empresários do transporte público da cidade.
A pauta foi recebida pelo assessor do prefeito, Wolfgang Endemann, exonerado dois dias depois por conta da péssima repercussão gerada por declarações fascistas postadas nas redes sociais onde o assessor afirmou: “Morte aos petralhas e comunistas. Nós deveríamos matar todo o resto dos comunistas. (…) Vou caçar esses FDP”.
As manifestações continuam com toda força e em mais um dia de protesto 5 mil pessoas voltaram às ruas da cidade no dia 26. Chama à atenção as palavras de ordem contra a imprensa local. Afiliadas de grandes emissoras nacionais a exemplo da Globo, que tem sua sede localizada no trajeto das marchas, sempre é vaiada e hostilizada com palavras de ordem como “O povo não é bobo! Abaixo a Rede Globo”. Toda vez que uma câmera é ligada os manifestantes se unem atrás dos repórteres com seus cartazes e gritam: “Mídia fascista, e sensacionalista” num grande descontentamento com as coberturas tendenciosas feitas por estes veículos de comunicação.
Apesar da firme resistência do movimento, o prefeito Zenaldo Coutinho (PSDB) tem se negado a atender ao pedido de redução da tarifa como tem ocorrido em todo o país.
Acusações de vadiagem, consumo de álcool e pederastia jogaram índios em prisões durante o regime militar; para pesquisadores, sociedade deve reconhecê-los como presos políticos.
Um pai carinhoso, dedicado à família e que adorava reunir os familiares e amigos para almoçar em sua casa de campo: estes são alguns dos aspectos da vida de Stálin revelados no livro A Vida Privada de Stálin, publicado este ano no Brasil pela editora Jorge Zahar.
A autora é Lilly Marcou, historiadora francesa de origem romena que estudou a vida do líder soviético por mais de 30 anos. Embora se defina, ao mesmo tempo, como “não comunista”, mas “fascinada” pelo personagem Stálin, Marcou não consegue esconder em seu livro sua admiração pela vida do grande líder bolchevique, o que também não passou despercebido pelos veículos de comunicação mais reacionários, que a acusaram de ser demasiado “condescendente” com Stálin.
Origens
Lilly Marcou nos conta a história de Stálin desde os seus primórdios em Gori, na Geórgia. Nascido numa casinha de dois cômodos, com piso de tijolos, laje de argila e buracos no teto, a casa de Sosso – apelido de infância de Stálin – sempre inundava quando chovia. Seu pai, alcoólatra e ausente, costumava espancar a mãe e até o próprio Sosso quando ainda recém-nascido. Certa vez, quando já crescido, Sosso chegou a atirar uma faca contra o pai ao vê-lo batendo na mãe. Por pouco não o acertou, e por isso teve que se esconder por vários dias na casa de vizinhos.
Na escola
Sosso era brilhante na escola, principalmente em aritmética e matemática. Sua excepcional memória espantava os professores. Com apenas 13 anos de idade, leu A Origem das Espécies, de Charles Darwin, e era primeiro tenor nos corais da igreja e da escola.
Sua mãe, para pagar seus estudos, faxinava, lavava roupas e costurava para as mulheres ricas. O pai de Stálin, contrário aos seus estudos, tirou-o da escola aos 10 anos e o levou para trabalhar como operário em uma fábrica na cidade vizinha. Mas Keke – como era chamada sua mãe – foi atrás do filho e conseguiu trazê-lo de volta em uma semana.
Stálin sempre encontrou nos livros um refúgio para sua vida penosa. Identificava-se com vários heróis, mas um especialmente o marcou mais que todos: Koba, um fora da lei e vingador do povo escravizado, personagem do livro Parricídio, de Aleksandr Kesbegui. O nome desse personagem seria adotado posteriormente por Sosso em sua vida de militante clandestino.
Keke queria que o filho se tornasse padre e, devido às suas boas notas, Sosso conseguiu entrar para o seminário. Mas o ambiente de opressão só aumentou sua revolta. Registros da época revelam que Stálin era considerado um agitador pela direção da escola. Não gostava dos livros religiosos e lia, escondido, Galileu, Copérnico, Darwin e Victor Hugo, o que lhe valeu a solitária várias vezes. Mais tarde, ainda no seminário, descobriria Marx, Plekhanov e Lênin.
A luta
Inicia então sua militância em grupos políticos, já como revolucionário profissional e tendo um emprego apenas de fachada. Deixara o seminário e morava agora em um único cômodo no Observatório de Física, onde trabalhava e recebia operários para reuniões. Formou vários grupos de estudo, quando então se revelou excelente propagandista, possuindo o dom da exposição concisa e límpida.
Era incansável na organização de greves, manifestações de rua, reuniões secretas e comícios. Com a situação financeira precária, não tinha mais ninguém na vida a não ser a mãe, mas não lhe pedia dinheiro algum. Registros policiais da época o descrevem como um intelectual e um dos principais dirigentes na região.
Devido à grande repressão, entre os anos de 1902 e 1913, Stálin foi preso oito vezes, exilado em sete ocasiões, fugindo em seis delas. Mas a prisão para ele nunca foi tempo perdido: aproveitava para estudar. Além dos livros teóricos e científicos, estudou alemão, francês e inglês, além de já falar o russo e o georgiano. Tinha uma disciplina de ferro e lia vorazmente. Durante suas prisões, por causa da situação de miséria, passava frio e fome. Tossia muito e quase contraiu tuberculose. Mais tarde, exilado na Sibéria, chegou a enfrentar temperaturas baixíssimas de até 45º negativos.
Stálin se casa pela primeira vez, em 1906, ainda um jovem revolucionário, em meio ao fogo da luta de classes. Sua primeira esposa não era nem intelectual nem revolucionária: encaixava-se na tradição de esposas dedicadas ao marido e ao lar. Era submissa, mas não escrava; fiel, mas não servil. Ela esperava, no fundo, que um dia Stálin desistisse da vida de revolucionário e levasse uma vida normal de chefe de família. Em 1907, nasce seu primeiro filho, Iakov. Mas, apenas 14 meses depois, morre sua esposa, aos 24 anos.
Sua morte foi uma grande provação para Stálin, que a amava profundamente. Estava preso quando ela morreu e obteve permissão para comparecer ao funeral, no qual se mostrou arrasado, com cabelos desalinhados, feições devastadas e petrificado de dor.
Humildade
No trato com os filhos, a correspondência de Stálin mostra que ele parecia mais afeiçoado aos filhos do que sua segunda esposa. Era quem sempre intervinha para secar as lágrimas e consolar, sobretudo sua filha favorita, Svetlana. “Meu pai me tomava sempre nos braços, não parava de dizer que me adorava, me beijava, multiplicava os apelidos afetuosos: ‘meu pardalzinho’, ‘minha mosquinha’… Não aguentava ver uma criança chorar e gritar. Mamãe censurava-o, dizendo que ele me estragava”.
Vários episódios da vida de Stálin revelam sua grande simplicidade. Nos anos 1930, por exemplo, passeava sozinho pelas ruas de Moscou, sem seguranças, e levava uma vida tão austera que tinha um único terno para cada estação. O restante do seu guarda-roupa era exatamente isto: uma japona de frente de batalha e um uniforme de marechal. Molotov conta que, por ocasião da sua morte, ele não tinha com o que ser enterrado, pois suas roupas estavam extremamente gastas. Tiveram que ser mandadas para uma costureira antes do enterro.
Outro evento, também ilustrativo de sua simplicidade, ocorreu em 17 de julho de 1949. Era um dia chuvoso e, ao passar de carro em frente a um ponto de ônibus, Stálin viu as pessoas se molhando e se compadeceu. Pediu ao seu motorista para descer e oferecer carona para levar todas às suas casas. O motorista foi chamá-las, mas voltou sem ninguém, ao que Stálin replicou: “Isso é porque você não sabe falar com o povo”. Stálin desceu e chamou todas para seu carro. As pessoas não acreditavam no que estava acontecendo: o próprio Stálin estava ali, oferecendo-lhes carona! Mas como o número de pessoas não cabia no carro de uma só vez, foi necessário fazer duas viagens para levar todo mundo. Dentro do carro, Stálin conversou bastante com o povo, e uma adolescente contou-lhe então seu drama: seu pai morrera numa frente de guerra. Passado um tempo, ela recebeu da parte de Stálin um uniforme escolar e uma pasta.
Em maio de 1944, durante um período de trégua na guerra, Stálin percebeu que havia muito dinheiro num cofre cujas chaves eram guardadas por seu secretário. Perplexo, perguntou-lhe de onde vinha aquela soma. Ele lhe explicou que aquele grande volume eram os seus salários de deputado acumulados, já que a única despesa de Stálin era pagar a cota ao Partido. Stálin não sabia o que fazer com aquele dinheiro. Assim, resolveu distribuí-lo entre os seus velhos amigos de Gori, sua cidade natal. Todas as ordens de pagamento eram acompanhadas de um bilhete, dizendo: “…aceite um presentinho de minha parte. Seu Sosso”. Entre os seus amigos presenteados estavam Petia, que recebeu 40.000 rublos; Gricha, que recebeu 30.000 rublos e Dzeradze, que recebeu 30.000 rublos.
Um bom livro, mas…
O livro de Lilly Marcou, enquanto cumpre apenas o que a autora propõe inicialmente – focar na vida privada de Stálin e só aludir aos fatos políticos quando essencial – é envolvente, mas é problemático em suas incursões políticas. Vários adjetivos de forte carga ideológica utilizados para caracterizar Stálin se mostram desnecessários na obra, assim como a reprodução de várias mentiras e lugares-comuns sobre o líder soviético fabricados na Guerra Fria e já provados falsos, como seu suposto antissemitismo, sua “paranoia” ou sua “mania de perseguição”. Mas o livro tem também o seu mérito: aos nos revelar uma face mais humana de Stálin acaba despertando grande admiração e simpatia pelo querido líder soviético, além de inspirar a todos aqueles que, assim como o jovem e o velho Stálin, lutam por um mundo mais justo e dedicam sua vida a isso.
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