UM JORNAL DOS TRABALHADORES NA LUTA PELO SOCIALISMO

domingo, 30 de novembro de 2025
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Greve dos bancários conquista aumento real

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Após 10 dias de uma intensa paralisação nacional, os bancários conquistaram um aumento real de salário de pouco mais de 2%. Antes, os banqueiros queriam impor um aumento real de 0,58%. Obviamente, trata-se de uma vitória da greve que fechou mais de 9.400 agências no País. O fato é que, sem a greve, não se conseguiria tal reajuste. Além disso, foi conquistado um aumento de 8,5% do piso salarial e do auxílio-alimentação e 10% na parcela fixa da Participação nos Lucros e Resultados (PLR).

Nos últimos anos, foram várias vitórias dos trabalhadores com as paralisações, entre elas concursos para os bancos públicos. No entanto, a defasagem salarial continua absurda. No período FHC, os bancários acumularam uma redução salarial de 88,2%. Após esse período nefasto, houve uma gradual recuperação. Segundo Carlos Cordeiro, presidente da Confederação Nacional dos Trabalhadores do Ramo Financeiro (Contraf), “com mobilização e greves, os bancários conquistaram, nos últimos nove anos, aumento real de salário, acumulando 13,22% nos salários e 35,57% no piso, de acordo com o INPC”.

Essa proporção, no entanto, nem de longe se compara ao crescimento da lucratividade dos bancos. De 2003 a 2010, os lucros dos cinco maiores deles (Itaú, Banco do Brasil, Bradesco, Santander e Caixa Econômica Federal) elevaram-se de R$ 11,1 bilhões para R$ 46,2 bilhões. Ou seja, em sete anos, elevação sustentada, à média de 17,7% ao ano, ou seja, 313%. Em termos reais (correção pelo IPCA): 12,1 % ao ano, acumulando 222%.

Ressalta-se que essa lucratividade só foi possível através da exploração dos trabalhadores bancários, de sua jornada cada vez mais estafante, dos seus baixos salários e das cobranças absurdas de tarifas dos correntistas. Logo, os trabalhadores devem continuar mobilizados para conquistar mais vitórias. Parabéns a todos os bancários do Brasil!

Serley Leal,Forataleza

Avança luta dos trabalhadores de informática em Minas Gerais

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Uma mobilização inédita impulsionou a campanha salarial dos trabalhadores em empresas privadas de informática no Estado de Minas Gerais em 2012, organizada pelo Sindicato dos Trabalhadores em Empresas de Informática, Processamento de Dados e Similares de Minas Gerais (Sindados-MG). Após vários anos acumulando perdas salariais, com o consequente rebaixamento de seu poder de compra e de seu padrão de vida, a categoria decidiu se mobilizar para defender seus direitos já conquistados – e alguns deles ameaçados – e lutar também pelo avanço dos seus interesses.

A campanha salarial 2012 se iniciou com uma mobilização tímida, mas, após as primeiras rodadas de negociação com o sindicato das empresas, nas quais os patrões propuseram um reajuste salarial abaixo da inflação (INPC), congelamento dos tíquetes e redução da PLR (Participação nos Lucros e Resultados) dos atuais 25% para 15%, a categoria se sentiu provocada e iniciou uma mobilização. Há muito tempo que não se via entre os trabalhadores das empresas privadas do setor tanta determinação para defender seus direitos.

Logo na assembleia seguinte a essa infame proposta, a categoria lotou o auditório do Sindados. Para as próximas assembleias foi necessário alugar um amplo estacionamento ao lado do sindicato para acomodar a todos.

Mostrando que é uma categoria esclarecida, que sabe muito bem o valor daquilo que produz, e que as empresas estão tendo lucros fabulosos devido à exploração do seu trabalho, os trabalhadores de tecnologia da informação não arredaram o pé dos valores iniciais de sua pauta de reivindicações durante várias rodadas da mesa de negociação. Isso levou a um acirramento com os patrões, que se mostraram intransigentes e dispostos, então, a resolver o impasse no tribunal.

Mas, para mostrar sua disposição de luta, numa das rodadas, a categoria fez manifestação, comparecendo à porta do sindicato patronal com bandeiras, faixas, apitos, cornetas e carro de som, fazendo muito barulho enquanto a comissão do Sindados negociava com o patronato. Somente quando os patrões abandonaram sua posição intransigente, sinalizando que manteriam a PLR, a categoria reconheceu que a negociação realmente iria começar.

O sindicato patronal, não obstante o crescimento do setor de Tecnologia da Informação nos anos anteriores, alega que as empresas estão passando por um momento delicado. E isso mesmo sendo beneficiadas com a redução dos encargos trabalhistas na folha de pagamento concedida em 2011 pelo Governo Federal às empresas do setor. O plano Brasil Maior reduziu os encargos de 20% para 2,5%. E, em agosto, essa taxa cairá ainda mais, para 2%.

Além dessa benesse do Governo, a presidente Dilma Rousseff anunciou em setembro o programa T.I. Maior, um pacote de R$ 500 milhões para incentivar as pequenas empresas do setor.

No ano de 2011, o mercado de Tecnologia da Informação fechou com US$ 102,6 bilhões, o que correspondeu a 4,4% do total do PIB. E, já no primeiro trimestre de 2012, o crescimento do setor foi três vezes maior que o PIB. Para o ano de 2012, algumas fontes projetam um crescimento de 10% a 12%.

Apesar dos incentivos fiscais e da redução de encargos criados pelo Governo Federal e dos superlucros obtidos pelas empresas do setor, os trabalhadores continuam sendo muito explorados, recebendo um salário abaixo do praticado pelo mercado e vivendo constantes ameaças de retirada de direitos.

Os trabalhadores sabem que toda essa riqueza foi produzida por eles e, por isso, não aceitam nem migalhas e muito menos retirada de direitos. A categoria de informática em Minas Gerais mantém, portanto, suas reivindicações de ganho real, reajuste dos tíquetes, aumento dos pisos e redução da jornada de trabalho de 44 horas para 40 horas semanais. Nas próximas semanas, as negociações prosseguem com os trabalhadores mobilizados.

Glauber Athayde, diretor do Sindados-MG

Relato de uma visita a um presídio de segurança máxima na Paraíba

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No último dia 28 de agosto, o Conselho Estadual de Direitos Humanos da Paraíba (CEDH/PB) realizou, de surpresa, uma visita ao presídio de segurança máxima Dr. Romeu G. Abrantes (PB1/PB2), em João Pessoa, para averiguação de denúncias de tortura e maus-tratos praticadas pela direção do presídio. Durante a visita, foram presenciadas várias irregularidades na unidade, culminando na detenção ilegal dos conselheiros.

A penitenciária de segurança máxima PB1/PB2 destina-se a presos definitivos e possui um total de 700 vagas, localizada em Jacarapé, Zona Sul da Capital. Realizavam a visita o padre João Bosco (da Pastoral Carcerária e presidente do CEDH/PB), Guiany Coutinho (Pastoral Carcerária), Lídia Nóbrega (Defensoria Pública da União), Valdênia Paulino (Ouvidoria de Segurança Pública do Estado da Paraíba), Maria Nazaré Zenaide (Núcleo de Cidadania e Direitos Humanos da UFPB) e Socorro Praxedes (Fundação Margarida Maria Alves), seguindo os ditames da Lei Estadual nº 5.551/92, que garante à Comissão competência para denunciar e investigar as violações de direitos humanos no Estado da Paraíba.

Depois de horas de espera e de uma dezena de dificuldades para entrar na penitenciária, a Comissão iniciou a visita mesmo com a recusa de acompanhamento por parte dos agentes penitenciários, orientados pela direção do presídio.

De acordo com o relatório da Comissão, foi constatado o péssimo estado físico do estabelecimento e a superlotação de celas, as quais “abrigam” entre 40 a 120 pessoas, todas sem colchões ou qualquer outro local para dormir, úmidas, molhadas e sujas com fezes.

No primeiro pavilhão visitado, 80 presos alojados estavam praticando greve de fome por melhores condições de tratamento no presídio. Não havia nenhum local para dormir (colchão, rede), apenas o chão. Os homens estavam todos sem camisa, com estado de higiene ruim. Afirmaram que não estavam tendo direito ao banho, nem banho de sol, e somente tinham acesso a uma única bacia higiênica na cela para 80 pessoas fazerem suas necessidades fisiológicas, bacia que era trocada pela administração de forma esporádica. Os detentos ainda relatavam sede e se queixavam da dificuldade de receber a visita dos familiares, restringida para um único dia da semana (domingo), e por um curto espaço de tempo.

Houve ainda o relato de diversos presos de que um apenado doente, de nome Luís Carlos Nascimento dos Santos, ficou esperando fora da cela, sofreu agressões e teria falecido em seguida, no dia 25 de agosto de 2012, sem nenhuma assistência médica, sendo o corpo levado para local que desconhecem.

Ao final da conversa com os presos da primeira cela, os membros da comissão informaram que seguiriam com a visita, e os próprios detentos pediram que visitassem os detentos restritos nas celas de disciplina, pois estavam em condições ainda piores. O acesso a estas celas estava impedido, sendo mantida a porta trancada, recusando-se os agentes a abri-las.

Desse modo, para averiguação da situação dos referidos apenados fez-se necessário obter acesso à cela pela entrada de ventilação da parede, após dar a volta no presídio. Quando os membros da Comissão chegaram ao local, o odor já prenunciava as terríveis condições que verificariam. Havia sinais de vômito na área externa das celas e só se podiam ver as mãos dos presos e ouvir o que tinham a dizer.

Não era possível vê-los, pois a abertura para ventilação nas paredes era pequena e as celas estavam escuras. Os presos relataram que estavam sem acesso a banho higiênico, água potável, sem banho de sol há quatro meses, todos dormindo no chão, nus. Afirmaram ainda que os seus parentes eram obrigados a pegar fichas para conseguir visitá-los e, muitas vezes, a pagar por elas. Informaram que havia presos doentes nas celas e presos machucados por maus-tratos da administração penitenciária.

Diante de tal situação, um membro da CEDH entregou a câmera fotográfica a um apenado para que fotografasse a cela em que eles estavam. Com isso, foi declarada a prisão dos conselheiros, sendo alegado que é proibido repassar aparelhos eletrônicos aos presos. Os conselheiros passaram cerca de três horas sendo intimidados e ameaçados constantemente por policiais militares. Somente foram liberados com a chegada do Ministério Público Estadual e Federal, que também compõe a Comissão Estadual.

O que foi perfeitamente constatado foi o trato autoritário que a diretoria do presídio tem dado em sua gestão, não respeitando as leis fundamentais da legislação brasileira e internacional, a Lei de Execução Penal e a fiscalização do Conselho Estadual de Direitos Humanos. Como afirmou a professora da UFPB Nazaré Zenaide, “eles estão acima da lei e tratam da forma que bem entendem”. Uma sindicância foi aberta e está apurando o que aconteceu.

Autoritarismo contra o povo

Esse fato traz reflexões imediatas. A primeira sobre a situação alarmante do sistema penitenciário nacional. Conforme relatório do Departamento Penitenciário Nacional, do Ministério da Justiça, em dezembro de 2011, havia no Brasil aproximadamente 514.582 presos, entre provisórios e condenados, uma proporção de 262,79 presos para cada 100 mil habitantes. O Brasil ainda ocupa o terceiro lugar no ranking das populações carcerárias, perdendo somente para os Estados Unidos e a China, e crescendo a cada ano, sem parar.

A segunda reflexão é sobre a forma que o País e as autoridades públicas de segurança pública tentam enfrentar essa situação. Um detalhe observado por poucos é que o sistema penitenciário não deve ser administrado somente como política de segurança pública, mas como política social de reabilitação.

O que se tem visto, porém, é uma política dos governos de repressão excessiva, sem investimentos estruturais nas unidades prisionais e nos seus serviços públicos, e nenhuma perspectiva de retorno à sociedade.

O sistema tornou-se outro sistema criminoso forte, que recruta mais e mais a cada dia.

Tiago Medeiros, mestrando em Direitos Humanos pela UFPB

Elmano de Freitas: “Meu sonho é mudar o mundo, o país e a cidade”

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Elmano de Freitas é advogado, formado pela Universidade Federal do Ceará (UFC), onde participou do movimento estudantil no Centro Acadêmico Clóvis Beviláqua e no Diretório Central dos Estudantes (DCE). Iniciou sua carreira defendendo os trabalhadores, atuando em sindicatos e também na luta juntamente com os movimentos sociais, em especial o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra (MST). Entre 2001 e 2009, foi coordenador da Rede Nacional de Advogados e Advogadas Populares (Renap). Participou da gestão da prefeita Luizianne Lins (PT), em Fortaleza, ocupando a direção do Orçamento Participativo (OP), onde as comunidades decidem sobre políticas públicas a serem efetivadas pelo Poder Executivo, e logo depois foi secretário de Educação do Município. Elmano é o candidato do PT à Prefeitura de Fortaleza e concedeu entrevista a A Verdade.

A Verdade Você é um candidato com uma longa trajetória de lutas e participação no movimento popular. Conte-nos mais um pouco sobre o seu histórico de militância.

Elmano de Freitas – Desde os meus 16 anos, sonho em mudar o mundo, o país e a cidade. As convicções e intenções que tinha, aos 16 anos, continuam extremamente vivas até hoje. Lembro sempre do padre Eldazio e da irmã Elvira, que me orientaram desde o início da militância e na luta pelos direitos das pessoas mais pobres. A minha militância começou nas Comunidades Eclesiais de Base, na cidade onde nasci, em Baturité, no trabalho de alfabetização das crianças que não contavam com escola pública.

Foi nessa época também que resolvi cursar a faculdade de Direito, por ver na profissão o caminho para defender quem mais precisa, ou seja, os mais carentes que vivem à margem da sociedade.  A minha trajetória como advogado dos movimentos sociais, com a Comissão Pastoral da Terra, da irmã Dorothy, segue o caminho da minha militância ainda na adolescência.

Você conhece, de perto, os movimentos sociais e sindicais. Como será sua abordagem com os mesmos sendo prefeito de Fortaleza?

Com muito diálogo, como sempre foi em toda a minha vida. O que quero levar como prefeito, caso seja eleito, é justamente a minha experiência ao lado dos movimentos sociais. Isso faz parte da minha vida. Acredito que os movimentos populares são imprescindíveis para a realização das transformações sociais que almejamos, caminhando para uma sociedade mais justa.

Na gestão da prefeita Luizianne Lins (PT), a coordenação do Orçamento Participativo foi desenvolvida sob sua direção. Para o seu mandato, quais mecanismos de participação popular pretende criar para avançar num projeto popular e democrático?

Quando eu assumi o Orçamento Participativo, conseguimos dobrar o número de demandas efetivamente executadas. A participação das pessoas foi o que fez a diferença para que isso acontecesse. A minha proposta é consolidar essa experiência e ampliar ainda mais a participação popular. Quero fazer o OP digital, para facilitar e incluir mais pessoas nas decisões sobre ações e obras importantes para Fortaleza.

Um grande movimento vem sendo organizado pelos movimentos sociais, entidades de direitos humanos e partidos políticos exigindo a abertura dos arquivos da Ditadura. Qual a sua opinião sobre esse tema?

Sou plenamente a favor da abertura dos arquivos da Ditadura. O direito à memória e à verdade é fundamental para todos os brasileiros. A abertura dos arquivos é decisiva para garantirmos o direito à verdade para o povo brasileiro conhecer os fatos ocorridos.

Um recado aos leitores do Jornal A Verdade.

Gostaria de agradecer o espaço, ainda mais em um jornal como A Verdade, que se coloca como um canal dos trabalhadores e da organização coletiva. Assim como é importante a liberdade de imprensa, é importante ter veículos de informação com abordagem diferente dos tradicionais, da grande imprensa. Isso ajuda a provocar debates para que a política não seja monopolizada por uma quantidade restrita de visões.

Michell Plattini, Fortaleza

Direção do INPI persegue lideranças sindicais

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A Direção do INPI, Instituto Nacional da Propriedade Industrial, adota a prática ostensiva de perseguição política sobre as lideranças sindicais.

Em claro descumprimento a o acordo celebrado em no 11 de outubro, sobre a reposição dos dias paralisados em razão do movimento de greve, onde na cláusula sétima é expresso literalmente:

“Que em nenhuma hipótese o servidor, em decorrência de sua participação em greve, sofrerá qualquer prejuízo funcional ou profissional”

O diretor de Administração Leonardo de Paula Luiz pede a demissão dos servidores Wander Alcantelado, coordenador do Núcleo de Base do Sintrasef no INPI e Antonio Lúcio, do comando de greve, anistiado político, da resistência à ditadura militar pelo PCBR.

Os dois Companheiros participaram juntos com um grupo de aproximadamente 50 servidores que se dirigiram de forma organizada para a ante-sala do gabinete do diretor de Administração para pedir o início da negociação dos dias cortados por motivo da greve. Ocorre que no dia 28 de agosto, terça-feira, em Brasília, quando da assinatura do termo de acordo com o Ministério do Planejamento o presidente do INPI nos orientou a procurar o diretor de Administração Leonardo de Paula.

No dia 30 de agosto, quinta-feira, os representantes dos servidores Denis Ferreira Diniz e Joaquim Adérito procuraram o citado diretor em seu gabinete e tiveram a resposta por parte de sua secretária que retornaria logo para confirmar a reunião, o que não ocorreu.

Foi devida a falta de resposta por parte do diretor e a grande ansiedade dos servidores que estavam com grande parte dos salários cortados, que os trabalhadores de forma ordeira, fizeram uma visita ao gabinete do diretor com o objetivo de marcar uma reunião para negociar a reposição dos dias parados e a devolução do salário cortado.

Esta prática não é nova por parte da Direção do INPI, no mês de maio passado, uma liderança sindical, o Companheiro Xavier, foi exonerada da chefia da Engenharia Mecânica, cargo puramente técnico, por ter escrito um artigo acadêmico sobre o tema “Patente de Software” que questionava a política a favor das multinacionais do setor adotada pela Diretoria de Patentes.

Diante do descalabro da abertura de um processo disciplinar pedindo a demissão de alguns lideres do movimento, sem nenhuma razoabilidade, fica claro que a intenção é retaliar, criar exemplos, para tentar neutralizar nossos futuros movimentos, o que não vão conseguir, ao contrário reforçam nosso discurso de que é com a unidade dos trabalhadores, que derrotaremos os dirigentes totalitários e suas políticas entreguistas.

Justiça reconhece: Herzog morreu sob torturas

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Justiça reconhece: Herzog morreu sob torturasA certidão de óbito do jornalista Vladimir Herzog (1937-1975) será alterada, por decisão judicial em primeira instância. Em vez de suicídio, agora constará: “A morte decorreu de lesões e maus-tratos sofridos em dependência do 2º Exército – SP (DOI-Codi)”.

O juiz Márcio Bonilha Filho, da 2ª Vara de Registros Públicos de São Paulo, acatou um pedido da viúva do jornalista Clarice Herzog, encaminhada pela Comissão da Verdade. A sentença afirma que não acatar o pedido de mudança é “prolongar o martírio da viúva e dos familiares e afrontar a consciência pública nacional”.

No dia 25 de outubro de 1975, Vladimir Herzog morreu após uma sessão de tortura durante interrogatório. Os torturadores, após assassinarem Herzog, armaram uma cena grotesca para simular um suicídio. O jornalista foi localizado enforcado com o cinto que usava, com as pernas dobradas. No pescoço apareciam duas marcas de enforcamento, indicando estrangulamento. No laudo médico assinado pelo legista Harry Shibata, consta que Herzog morreu “por asfixia mecânica” – expressão utilizada para casos enforcamento.

O episódio virou símbolo da luta contra a Ditadura Militar. Na missa sétimo dia, cerca de dez mil pessoas se reuniram na Praça da Sé, Centro de São Paulo, num ato ecumênico para repudiar sua morte.

O juiz Bonilha Filho afirmou, no texto da sentença, que a Comissão “conta com respaldo legal para exercer diversos poderes administrativos e praticar atos compatíveis com suas atribuições legais, dentre as quais recomendações de adoção de medidas destinadas à efetiva reconciliação nacional, promovendo a reconstrução da história”.

O juiz lembrou que, em 2011, a Justiça já reconhecera que o laudo pericial estava incorreto, e que a morte não ocorreu por suicídio. “Há muito, ficou apurado, em termos de convicção inabaláveis, por via jurisdicional comum, que o jornalista Vladimir Herzog perdeu a vida em razão de maus tratos e de lesões sofridas, em circunstâncias de todos conhecidas”. A família de Herzog nunca acreditou na versão oficial da Ditadura sobre suicídio e esperou 37 anos para conseguir a vitória sobre o reconhecimento explícito da culpa do Estado no caso.

Da Redação

Capoeira e libertação

“Capoeira é luta de bailarinos. É dança de gladiadores. É duelo de camaradas. É jogo, é bailado, é disputa – simbiose perfeita de força e ritmo, poesia e agilidade. Única em que os movimentos são comandados pela música e pelo canto. A submissão da força ao ritmo. Da violência à melodia. A sublimação dos antagonismos. Na capoeira, os contendores não são adversários, são camaradas. Não lutam, fingem lutar. O capoeira é um artista e um atleta, um jogador e um poeta.” (Dias Gomes, dramaturgo nascido em Salvador)

A origem da capoeira é controversa. Pode ter surgido no meio rural, sendo sua denominação derivada do tupi-guarani, ao se referir à vegetação de mato rasteiro, comum no interior do Brasil. Os escravos que conseguiam fugir corriam em direção às matas e, muitas vezes, eram alcançados pelos capitães do mato (feitores) ainda nos arredores das fazendas, ou seja, nas capoeiras, onde se davam brigas de morte.

Dentro das próprias fazendas, à noite, após longas e extenuantes jornadas de trabalho, os escravos praticavam a capoeira mascarada de dança, pois ali o que predominava era o ritmo das cantigas e ladainhas ao som dos atabaques, com uma grande presença de rituais religiosos.

Outra explicação dá conta de seu surgimento no meio urbano (especialmente nas cidades de Salvador, Recife e Rio de Janeiro), fazendo referência aos grandes cestos (capoeiras) que muitos escravos e ex-escravos carregavam na cabeça, transportando mercadorias diversas entre a região do porto e do mercado ou entre o mercado e as residências de seus patrões.

Esta linha de raciocínio é defendida pelo antropólogo carioca Carlos Eugênio Líbano Soares, especialista em História da escravidão africana no Brasil. Para ele, a capoeira nasceu em solo brasileiro entre “os filhos dos escravos negros trazidos da África”, ainda no século 18, resultado de uma síntese de elementos africanos associados às condições específicas da escravidão no Brasil. Em suas palavras, a capoeira nasce como “expressão da resistência escrava”.

Passando ao Rio de Janeiro do início do século 19, a capoeira já se encontrava disseminada pelos quatro cantos da Capital do Império e não era mais apenas uma forma de resistência: convertera-se também em centro de identidade cultural e atitude política.

Vários grupos se constituíram e posteriormente se fundiram, aglutinando-se em dois grandes “bandos”, chamados de maltas, cada qual com sua própria indumentária, cor, códigos e território: os nagoas (de matriz africana mais pura) e os guaiamus (que reunia negros nascidos no Brasil e mestiços).

A quantidade de membros das maltas e sua atuação na cidade cresciam. Com a Guerra do Paraguai (1865-1870), muitos capoeiristas foram enviados à força para as frentes de batalha, retornando como patriotas ou mesmo heróis de guerra.

Investidos, até certo ponto, de um novo status social, e contando com a divisão das classes abastadas entre republicamos e monarquistas, as maltas passaram a ser uma força política dentro da sociedade imperial, atuando em aliança com o Partido Conservador.

Tal situação estranha se explica pelo fato de que os republicanos rechaçavam por completo qualquer negociação com as maltas, enquanto que a própria Monarquia “concedera” aos negros uma série de benefícios, que culminaram com a Abolição da Escravatura (oficial, mas não real) por parte da Princesa Isabel, em 13 de maio de 1888.

Ainda durante o Império, a capoeira sofrera forte repressão policial, sendo considerada contravenção. As penas por praticá-la variavam de algumas noites na prisão até 200 chibatadas. Mas foi com a instalação da República, em 1889, que se processou uma verdadeira campanha de combate à capoeira. Em outubro de 1890, o marechal-presidente Deodoro da Fonseca promulga a Lei nº 487, que prevê a deportação e prisão, de dois a seis meses, com trabalhos forçados na Ilha de Fernando de Noronha. No art. 402 da Lei (“Dos vadios capoeiras”), lê-se:

Fazer nas ruas e praças públicas exercícios de agilidade e destreza corporal conhecidos pela denominação capoeiragem; andar em correria, com armas ou instrumentos capazes de produzir uma lesão corporal, provocando tumulto ou desordem, ameaçando pessoa certa ou incerta, ou incutindo temor de algum mal.

As maltas foram, assim, desmanteladas pela repressão, e só em 1930, com as medidas populistas do então presidente Getúlio Vargas, uma série de manifestações populares foi liberada, entre elas a capoeira.

Segundo o historiador baiano Cid Teixeira, “a culinária, a vestimenta, a religião e a capoeira consistiam em elementos de resistência contra a dominação do senhor, do branco, do europeu. A capoeira era ainda ‘coisa de negro’, e nomes como o do capoeirista Besouro Mangangá, também conhecido como Cordão de Ouro, ficaram gravados na história dos negros baianos contra a repressão policial”.

No caso da Bahia, com a criminalização da luta, o Mercado do Ouro, na região do Porto de Salvador, transformou-se no quartel-general dos capoeiristas, pois estes eram, em sua maioria, estivadores. É daí que surge, nos anos de 1930, a figura de Manoel dos Reis Machado, o Mestre Bimba (1900-1974).

Até então, praticava-se nas rodas de capoeira o que hoje chamamos de Capoeira Angola. Para evitar a repressão policial, a luta estava permanentemente camuflada de dança, valendo-se, sobretudo, de movimentos no chão e de “passos a dois”. O maior referencial deste estilo é o Mestre Pastinha (1889-1981).

Para Mestre Bimba, no entanto, a essência da capoeira como luta estava se perdendo, devido aos longos anos de cerceamento. Mesmo que agora descriminalizada, a capoeira continuava marginalizada em guetos. Era, portanto, preciso renová-la para que ela sobrevivesse e se fortalecesse.

Pelas mãos de Bimba a capoeira se transforma, ganhando uma essência pedagógica e elevando-se à condição de educação física. O mestre agora é também um educador.

Buscando profissionalizar a capoeira, ao mesmo tempo em que a mantinha com certo caráter sigiloso para despistar a Polícia, os treinos e as rodas foram levados para dentro de espaços fechados, verdadeiras academias, como o Centro de Cultura Física Regional da Bahia, fundado por Bimba.

Assim nascia um novo estilo, a Capoeira Regional¸ jogado, sobretudo, em pé, dotado de maior velocidade nos movimentos e de uma musicalidade mais agitada em relação à Capoeira Angola.

Já com fama de grande mestre e lutador, Bimba instala sua academia ao lado da Faculdade de Medicina, no Pelourinho (a única do Nordeste). Passa então a contar em seu grupo com alunos brancos, inclusive filhos da elite nordestina que recorriam à faculdade para estudar, fato que influenciou sua formação intelectual.

Assim, a Capoeira Regional passou a se expandir para fora da capital, Salvador, e, junto com ela, seus ensinamentos: “A essência da capoeira é a liberdade. Ela te dá a liberdade de fazer o que quiser dentro do ritmo”; “Capoeira não é pra atacar, é pra se defender. Mas é pra se defender pra valer”; “Deixe de beber e de fumar”; “Evite demonstrar aos seus amigos fora dos treinos o seu progresso na luta, pois a surpresa é a maior arma desta arte”.

Aliás, o fator surpresa, a abertura para o momento, o instante, a improvisação, a espontaneidade, o jogo dissimulado, o ritmo, em resumo, a malícia (palavra-chave para a compreensão do universo da capoeira), têm a ver com a própria vida do negro nas condições da escravidão.

Foi pela capoeira que muitos negros conseguiram romper os grilhões dos senhores e feitores e, a essa altura, era pela capoeira que os negros buscavam se afirmar em meio a uma sociedade completamente centralizada no poder do capital e do latifúndio.

A capoeira hoje

Em 1996, a Universidade Federal da Bahia conferiu a Mestre Bimba o título de doutor honoris causa. Ele não pôde recebê-lo em vida, pois morrera em 1974, em Goiânia. O fato é que, a partir de então, esta expressão popular – que une luta, música e dança – passou a ser reconhecida formalmente em seu caráter técnico, científico, educacional.

Hoje consolidada como modalidade esportiva e arte marcial genuinamente brasileira, estima-se que a capoeira é praticada por mais de cinco milhões de pessoas no Brasil e em outros 150 países. Há grupos que praticam exclusivamente a Capoeira Angola, mas muitos grupos de Capoeira Regional também disseminam o jogo, os toques e a tradição angoleira.

O mais importante é o fato de que a capoeira continua servindo de referência para a cultura afro-brasileira e para a valorização do elemento negro na constituição do nosso povo.

Também representa uma grande alternativa para crianças e jovens das periferias deste Brasil. Diante de uma sociedade tão cruel com os pobres, tão segregadora como aquela dos tempos da escravidão, é possível, através desta arte, aprender os valores da disciplina, do respeito ao próximo, do estudo, da paciência. Aprender, sobretudo, a absorver o espírito de luta dos escravos, muitos dos quais pagaram com suas próprias vidas pela libertação, de toda uma raça, do jugo dos senhores e latifundiários.

Rafael Freire é presidente do Sindicato dos Jornalistas da Paraíba

A música é um componente fundamental da capoeira. O toque do berimbau é o que determina o ritmo e o estilo do jogo desenvolvido na roda, podendo variar de um ritmo bem lento a outro bastante acelerado. Esse instrumento – um dos símbolos da capoeira – é fabricado apenas com um pedaço de pau (geralmente de biriba – daí vem seu nome), um arame e uma cabaça.

As letras das músicas também são bastante valorizadas. Algumas falam sobre capoeiristas famosos, outras sobre o cotidiano do capoeira, do negro, do povo pobre, da Nação. A música, o toque, é, na verdade, que dita o ritmo do jogo na roda.
Recentemente, o consagrado compositor de MPB Paulo César Pinheiro voltou às suas origens com a obra-prima Capoeira de Besouro e venceu o Prêmio da Música Brasileira 2011 na categoria Álbum Regional. Cada faixa do CD é dedicada a um toque diferente da capoeira, tanto na sonoridade quanto nas letras.

Para ouvir o disco na íntegra, basta acessar a Rádio UOL. Para assistir, em vídeo, a uma parte fundamental da história da capoeira, busque no YouTube o documentário Mestre Bimba, a capoeira iluminada, de Luiz Fernando Goulart.

20% dos jovens não estudam nem trabalham

20% dos jovens não estudam nem trabalhamTodos os dias, a grande imprensa aponta um momento positivo na economia do Brasil, dizendo que o país está longe da crise do capitalismo que se espalha pelo mundo, anuncia algumas vagas de emprego, como se estas existissem aos montes, e repete o velho ditado que diz “o Brasil é o país do futuro”. Mas quais são mesmo as perspectivas de futuro para a juventude do nosso país?

O sistema econômico vigente, o capitalismo, tem colocado os trabalhadores e a juventude numa situação de risco. Segundo um estudo realizado pelo professor Adalberto Cardoso, do Instituto de Estudos Sociais e Políticos (Iesp) da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj) atualmente, no Brasil, 19,5% dos jovens entre 18 e 25 anos não trabalham nem estudam.

Os jovens nessa faixa etária representam 27,3 milhões de pessoas, das quais 5,3 milhões sem perspectiva de futuro. Para o economista do Ipea Paulo Levy, essa geração perdida vai fazer falta para um crescimento sustentado e, por isso, as empresas terão que aumentar a produtividade dos que estão trabalhando. Ou seja, isso significa que, para manter seus lucros, os empresários terão que explorar cada vez mais os trabalhadores.

Além de o governo investir uma pequeníssima parcela das riquezas do País na educação (apenas 2,99% do PIB) o que faz com que apenas 15% da juventude tenha acesso ao ensino superior, existem outros elementos que geram o fato presente. A ausência de perspectiva no futuro e a sobrevida que o mercado de trabalho oferece aos jovens, entre outras condições, têm gerado esta geração de oprimidos, puro reflexo do sentimento de desesperança que assola a sociedade. O mundo capitalista é o mundo baseado no dinheiro e no lucro fácil, oposto à ideologia das classes trabalhadoras que não querem nada além do recebimento justo, compatível com aquilo que produzem.

Sendo assim, por ser a classe dominante que tenta transformar tudo à sua imagem e semelhança, a burguesia tem impedido, da forma mais brutal, o avanço do proletariado e, consequentemente, da sociedade. Como disse Karl Marx de forma simples, mas profunda, no Manifesto do Partido Comunista, “O sistema burguês tornou-se demasiado estreito para conter as riquezas criadas em seu seio”. Eis o motivo pelo qual se tenta, de forma desenfreada, conter as forças produtivas, por um lado, e, por outro, explorar cada vez mais os trabalhadores que restam na ativa.

Esta realidade só nos leva a uma crise ainda mais profunda do capitalismo, uma vez que o próprio sistema tem criado uma geração que comprometerá a produção de riquezas no futuro. Não vamos esperar para ver cada vez mais famílias entregues à miséria, à fome e ao desemprego. Torna-se cada vez mais necessário que a juventude do nosso país se junte na luta por uma sociedade diferenciada, em que o proletariado esteja à frente das decisões sobre o rumo da vida do nosso país. Sobre o futuro, façamos nossa a frase do Che quando nos ensinou que, “se o presente é de lutas, o futuro nos pertence”.

Daniel Victor, Recife

34 favelas foram incendiadas em São Paulo neste ano

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34 favelas foram incendiadas em São Paulo neste anoNa manhã do dia 17 de setembro, a favela do Moinho era só tristeza. Pela segunda vez em menos de nove meses, a comunidade havia sido incendiada. Uma pessoa morreu, e 80 famílias perderam tudo que tinham.

Esse foi o 34° caso de favela incendiada na cidade de São Paulo só neste ano. Nos últimos dois meses, ocorreram pelo menos quatro casos em diferentes comunidades. Na favela Sônia Ribeiro, conhecida como Morro do Piolho, o incêndio ocorreu no dia 3 de setembro; na Brasilândia foi em 1° de setembro; em São Miguel Paulista, na Zona Leste, em 28 de agosto; e na favela na região de Vila Prudente, no dia 23 do mesmo mês.

O Programa de Prevenção contra Incêndios em Assentamentos Precários (Previn) ainda não recebeu recursos do orçamento municipal neste ano, e ações que deveriam ter sido realizadas desde 2009 em toda a cidade foram executadas em apenas 50 das 1.565 favelas do município.

As famílias desabrigadas perdem tudo. Além dos bens materiais conquistados a muito custo, que são destruídos pelas chamas, não ter onde morar causa outros transtornos e humilhações na vida dessas pessoas. Muitas delas perdem as vagas nas creches e escolas dos filhos, ficam com dificuldade de manter-se no emprego e nem as condições de reconstruírem suas vidas lhes são garantidas. Exemplo disso aconteceu na favela do Moinho: as famílias, principalmente mulheres e crianças, foram agredidas por Guardas Civis Metropolitanos, que impediam os moradores de se aproximarem do local do incêndio, no intuito de evitar que reconstruíssem seus barracos.

A quem interessam os incêndios?

A recorrência destes casos fez com que o Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco) do Ministério Público do Estado de São Paulo iniciasse investigação para averiguar as causas reais dos incêndios. O atual prefeito, Gilberto Kassab, declara que os incêndios ocorrem em decorrência da baixa umidade do ar, aliada a situações precárias de moradia. No entanto, pela forma como aconteceram, não caracterizam acidente. A maioria deles, segundo relatos dos moradores, começam pelas laterais do conjunto de barracos, e não no centro, o que justificaria a argumentação do prefeito.

A suspeita é de que os incêndios estejam sendo provocados por grupos e corporações com interesse em aumentar a especulação imobiliária nessas regiões. Grande parte dos casos se deu em favelas localizadas próximas a áreas da cidade almejadas por grandes construtoras. Parece ser uma enorme coincidência que nas regiões da periferia da cidade, onde estão localizados o maior número de favelas, mas de pouco interesse para o mercado imobiliário, o número de incêndios seja muito menor.

Raquel Rolnik, professora da Universidade de São Paulo e relatora especial da Organização das Nações Unidas para o direito à moradia adequada, escreve: “É bastante estranho que favelas que já passaram por situações muito mais precárias e propensas a incêndios do que hoje – a existência de barracos de madeira, por exemplo – estejam pegando fogo exatamente agora, no contexto de um dos mais altos booms do mercado imobiliário paulistano”.

Em julho deste ano, a AES Eletropaulo, companhia de distribuição de energia elétrica de São Paulo, interrompeu o fornecimento de energia para a Comunidade da Paz, em Itaquera, Zona Leste da cidade, bairro onde está sendo construído o estádio Itaquerão. Em consequência disso, os moradores passaram a utilizar velas para a iluminação, o que ocasionou um acidente que levou a morte um morador da favela. Ainda que se trate, neste caso, de um incêndio acidental, a origem continua sendo a especulação imobiliária.

Segundo relato dos moradores Pedro e Cícero, que participam das reuniões e mobilizações de denúncia desses crimes, a Eletropaulo cortou a energia a mando da Subprefeitura de Itaquera, e esta ação faz parte da política de expulsão da população pobre da região.

“Onde a gente mora hoje é praticamente o canteiro da obra. Eu acho que o corte da energia tem a ver com as obras da Copa, se não eles dariam informações do que vai acontecer com a gente”, relata Cícero.

CPI pra “inglês ver”

Em março de 2012, a Câmara Municipal de São Paulo instalou uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) para investigar e apurar a possibilidade dos incêndios serem uma atuação criminosa. Em cinco meses de funcionamento, a CPI, que deveria reunir-se periodicamente, teve apenas três reuniões, sempre alegando falta de quórum para tal.

A Comissão é composta por seis vereadores, sendo três do partido do prefeito Gilberto Kassab (PSD), e os demais de partidos aliados. Até agora, os únicos encaminhamentos da CPI foram a nomeação do relator (Aníbal de Freitas, do PSDB) e da vice-presidente (Edir Sales, do PSD). Não houve apresentação do relatório que tinha prazo até 9 de setembro para ser concluído, e a CPI teve de ser prorrogada.

No último dia 27, a reunião da CPI foi mais uma vez adiada por falta de quórum, e movimentos sociais e moradores das favelas atingidas realizaram uma manifestação em frente à Câmara. Cerca de 100 pessoas exigiam avanço nas investigações e atendimento digno para as famílias.

Os manifestantes agendaram uma nova reunião de organização deste movimento que tem contato com a participação de diversas entidades com a convicção de que somente a luta será capaz de cessar esses crimes, porque esta CPI “chapa branca” já, há meses, vem demonstrando de que lado está, e não é do lado do povo.

Vivian Mendes e Ana Rosa Carrara, São Paulo

A tortura ontem e hoje

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A tortura ontem e hojeA História registra, em todos os séculos, a prática da tortura por parte de entes públicos e privados, entre os quais os impérios, as igrejas, as religiões e o Estado. Toda prática desse tipo visa violentar lentamente o indivíduo, humilhando-o até à morte. É conhecido o uso desse suplício por parte da Santa Inquisição e de outras inquisições mais secretas, sempre em nome do poder hegemônico, de diversas ideologias.

Em épocas mais recentes, a tortura foi usada, rotineiramente, pelas forças colonialistas da França, na Argélia, e pelas tropas norte-americanas, no Vietnã. Foi incorporada depois à prática nas forças armadas latino-americanas, pelo governo dos Estados Unidos, que criou a tristemente famosa Escola das Américas, situada no Panamá. À luz da chamada “doutrina de segurança nacional”, a tortura ganhou um refinamento “científico”: Os torturadores mudaram de perfil funcional e de classe. Até então, só mereciam o “título” de técnicos da tortura os oficiais franceses na Indochina e os norte-americanos no
Sudeste Asiático. Embora ensinados por altos oficiais, os algozes pertenciam às camadas mais iniciais das três armas.

Na América Latina, porém, os torturadores integravam as várias classes sociais. Entre eles e elas, havia padres, pastores, jornalistas, médicos, oficiais e delegados. Até mesmo um instrutor do FBI e da CIA, Dan Mitrione, veio ao Brasil para treinar torturadores, que foram depois disseminar as novas técnicas nos outros países do continente (por meio da chamada Operação Condor).

E hoje? Hoje a tortura continua a ser uma prática rotineira contra pessoas acusadas de quaisquer crimes, sejam culpados ou não. A maioria da população parece legitimar essa prática, de tão anestesiada pela violência. No entanto, a tortura constitui uma das práticas repressivas mais vergonhosas da atividade humana. Nem os animais considerados irracionais a praticam…

Quem vive a experiência da tortura não tem como descrevê-la com palavras. Sabe apenas que o objetivo dos torturadores é paralisar a vítima, introjetando-lhe o medo, de tal modo que ela nunca mais ouse, no caso do preso político, de desafiar o Estado burguês. Na situação dos chamados presos comuns, a tortura funciona como um exercício de sadismo, seja para transformar os torturados em bodes expiatórios, seja para que, por esse meio, os torturadores descontem todas as suas frustrações, todo o seu ódio, inconsciente ou não, contra o sistema ao qual servem no cotidiano.

Há, portanto, vários aspectos permanentes e transitórios na prática da tortura. Em pleno século 21, no auge da civilização cibernética, praticamene a cada minuto ouve-se o clamor dos torturados, não apenas dos que estão presos (inclusive dos presos políticos), mas também das crianças, adolescentes, das mulheres espancadas (somente em 2011, em todo o Brasil, 49 mil mulheres foram assassinadas por seus “maridos ou companheiros”, conforme dados do Ministério da Justiça).

Lutar contra a tortura, de qualquer tipo, sobre quaisquer circunstâncias, é um dever de todo cidadão e de cada cidadã consciente

do que significa dignidade humana.

(Dermi Azevedo é jornalista e mestre em Ciência Política. Foi preso político em 1968 e em 1974, durante a ditadura militar. Participou ativamente da resistência à ditadura civil-militar de 1964 a 1985. Foi líder estudantil em Natal e teve sua primeira prisão política em 1968, no congresso da UNE em Ibiúna (SP). Sofreu mais duas prisões políticas, em São Paulo, em 1974. Foi torturado. Seu filho Carlos Alexandre Azevedo, que tinha apenas um ano e oito meses, preso com sua mãe Darcy, também foi seviciado e ficou com lesões irreversíveis até o fim da vida.)

Dermi Azevedo

Amelinha Teles: O povo do Brasil precisa conhecer a sua história

Amelinha TelesMaria Amélia Teles, ou Amelinha, como é conhecida, é uma referência nacional na luta pela Memória, A Verdade e, principalmente, A Justiça. Amelinha foi militante durante os duros anos da ditadura militar no Brasil e foi presa junto com seu marido, irmã grávida e os filhos pequenos – Janaína e Edson Teles, com 5 e 4 anos na época –, pela Operação Bandeirantes em São Paulo.

Fundadora da Comissão de Familiares de Mortos e Desaparecidos Políticos e, recentemente, integrante da Comissão Estadual da Verdade de SP, Amelinha se dedica há mais de 30 anos à luta pela apuração das atrocidades da ditadura e pela responsabilização dos agentes do Estado pelos crimes cometidos.

Em agosto, a Justiça condenou em segunda instância como torturador o coronel reformado Carlos Alberto Brilhante Ustra em uma ação movida pela família Teles, uma condenação inédita e histórica.

Amelinha também cumpriu um importante papel junto na localização e traslado dos restos mortais de Manoel Lisboa de Moura e Emmanuel Bezerra, fundadores do Partido Comunista Revolucionário, e brutalmente assassinados pela Ditadura em setembro de 1973.

A Verdade – Como foi a decisão de ingressar com um processo na Justiça contra o coronel Ustra?

Amelinha Teles – A iniciativa foi da minha filha Janaína, que cresceu ouvindo essa história. Nós já tínhamos documentos, porque a denúncia foi feita pela primeira vez na Justiça Militar, em 1973, quando nós tivemos oportunidade de falar na frente do juiz e denunciamos que o coronel Ustra torturou, sequestrou nossos filhos, torturou minha irmã grávida e foi um dos assassinos de Carlos Nicolau Danielle, nas dependências da Oban. Isso era um material importante para subsidiar a ação; tanto é que, quando o projeto Brasil Nunca Mais menciona alguns casos para ilustrar o tamanho da repressão, mostra o nosso depoimento porque é um documento oficial. Mas logo nos primeiros anos depois da anistia nós tentamos abrir um processo e não conseguimos; havia dificuldades dos advogados de conseguir acesso à justiça. Janaína sempre acompanhou isso, até porque é historiadora, estudiosa do tema, e achava que essa história precisava de justiça para abrir possibilidades de uma sociedade mais democrática. Foi ela quem tomou a iniciativa de conversar com Fábio Konder Comparato (advogado da família Teles no processo), e ele se dispôs a fazer a ação. O processo foi discutido entre 2003 e 2004 para reunir toda a documentação e testemunhas, porque eram fatos que já tinham muito tempo. Em 2005, estava tudo preparado e entramos na justiça.

O que representa a decisão do Tribunal da Justiça de SP condenando um torturador da ditadura?

Amelinha Teles – A importância é grande, primeiro porque a impunidade é histórica no Brasil, é estrutural, quer dizer, o Estado brasileiro comete crimes contra o povo e isso não tem a menor importância. Esse processo rompe essa tradição de impunidade, rompe uma barreira histórica, sólida, das classes dominantes que têm todo o aparato do Estado a seu favor e podem torturar, matar, reprimir o povo sem nenhuma condenação. Outro aspecto é que é pedagógico mostrar à sociedade que nós temos que lutar pela nossa dignidade, que não é justo que um Estado ditatorial, assassino, que acusa as pessoas de terrorismo, tortura e mata essas pessoas, fique impune. Temos que tomar a iniciativa, eu acho que tem esse efeito pedagógico. E, por último, é restabelecer a dignidade, a história da família Teles diante da ditadura, que não foi a única, pois muitas foram atingidas. Eu gostaria surgissem vários outros processos de famílias atingidas durante a repressão. É importante também porque há um grupo de pessoas que são familiares – e eles gostavam de dizer que nós não tínhamos nenhum respeito às nossas famílias, que éramos perversos – que estão reivindicando justiça contra eles.

Você faz parte da Comissão de Familiares de Mortos e Desaparecidos. Quantas pessoas são desaparecidas no nosso país?

Amelinha Teles – Os que nós temos conhecimento são por volta de 160. Nós localizamos muito poucos, somente quatro ou cinco, e quem conseguiu encontrar esses foram os familiares. O ônus total é dos familiares, não houve apoio do Estado brasileiro. Eu acho que podemos localizá-los se houver vontade política do Estado. O Estado tem que assumir essa responsabilidade porque foram os agentes do Estado que mataram, ocultaram os corpos. É preciso ter essa responsabilidade política, essa determinação para abrir os arquivos militares.

Como avalia até aqui o trabalho da Comissão da Verdade criada pela presidenta Dilma?

Amelinha Teles – Eu acho que a Comissão da Verdade tem um papel político grande e ela potencializa e reforça a nossa luta, que é diária, constante e histórica. Acho que dá força e empoderamento a quem luta pela verdade e justiça há tanto tempo. A Comissão é muito heterogênea na sua composição, nem todos tiveram uma história ligada à resistência, às consequências que a ditadura trouxe para o país, então isso dificulta. Penso também que falta um plano de trabalho mais consistente e, principalmente, há falta de informação. Ontem mesmo eu vi a própria Comissão denunciando que os militares não estão colaborando no sentido de oferecer documentos e informações para esclarecer as atrocidades cometidas durante a ditadura militar. São dificuldades que terão que ser superadas com a mobilização da sociedade; temos que nos mobilizar para poder conseguir força para mudar esse quadro.

Também foram criadas Comissões Estaduais; em São Paulo, a Comissão Rubens Paiva, da qual você faz parte. Qual o papel dessas comissões e qual deve ser sua pauta?

Amelinha Teles – A Comissão da Verdade do Estado de São Paulo tem uma pauta no sentido de fortalecer a Comissão Nacional. Esclarecer os desaparecidos e mortos políticos no Estado de São Paulo, ou que tinham algum vínculo com o Estado. Ela está canalizando a força da sociedade paulista na busca da verdade, de informações junto ao Ministério da Defesa, junto aos órgãos ligados à segurança pública da época, e que, ainda, de uma certa forma, existem nos dias de hoje.

São Paulo foi um dos maiores centros de tortura do Brasil. Aqui teve a Operação Bandeirantes (Oban) que, depois, se transformou em DOI-Codi e que se estendeu para todo o território brasileiro. Portanto, essa Comissão tem uma importância política, talvez uma das mais fundamentais de todo o Brasil. A própria Comissão Nacional precisa dessa. Ela tem que criar condições para desenvolver seu trabalho de investigação dos mortos e desaparecidos políticos, dos órgãos de repressão onde se deram essas atrocidades, e buscar garantir a organização dos arquivos que foram produzidos pela repressão e que ainda não estão disponíveis no Arquivo Público e precisam estar para serem acessados por toda a população. O povo do Brasil precisa conhecer a sua história. Muitos torturadores daqui foram matar na região do Araguaia, depois também nos países do Cone Sul: Uruguai, Argentina, Chile… Temos muito trabalho pela frente.

No fim deste ano, o jornal A Verdade completa 13 anos. Como você avalia o jornal e que mensagem tem para seus leitores?

Amelinha Teles – Eu acho esse jornal muito importante. É interessante porque ele tem o nome A Verdade e, realmente, em todas as oportunidades que eu tive de falar com o jornal, o meu pensamento foi transmitido de uma forma bastante democrática e detalhada, o que acho extremamente importante, porque a grande imprensa, ligada às elites, dá muito pouca importância ao que você fala; destaca às vezes uma ou outra frase fora de contexto, e nem o papel pedagógico se cumpre de mostrar à opinião pública o que está acontecendo. E o jornal A Verdade tem esse valor, de levar o seu pensamento para dentro das páginas. Eu acho isso muito democrático e necessário. E tem o valor também de ser vendido junto a uma militância comprometida com essa transformação social, com a justiça, que são questões que dão o norte para nossa luta.

Vivian Mendes, São Paulo