UM JORNAL DOS TRABALHADORES NA LUTA PELO SOCIALISMO

sábado, 11 de abril de 2026
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Grande vitória na greve dos operários da Volks no ABC paulista

VolksApós 11 dias de greve, os operários de todos os turnos e setores da montadora de veículos Volkswagen, localizada na cidade de São Bernardo do Campo no ABC paulista, fizeram os patrões da montadora alemã voltarem atrás em suas pretensões de demitir 800 trabalhadores e impor um regime de terror no interior da fábrica. Os trabalhadores também conquistaram um reajuste salarial que repõe a inflação do período.

Não à toa, os operários foram comunicados da demissão com telegramas entregues em suas casas nas vésperas do ano novo. O objetivo era o de aterrorizar a categoria e barrar a disposição de luta dos mais de 13 mil trabalhadores da fábrica. Trata-se de uma tática muito parecida com a aplicada pela GM em São José dos Campos no início de 2014, quando mais de mil operários foram demitidos.

Após receber uma série de incentivos fiscais por parte do governo federal, sendo a redução do Imposto sobre Produtos Industrializados – IPI o principal deles, e mesmo após receberem uma enorme quantidade de recursos com juros subsidiados pelo BNDES, as montadoras demitem sem dó. Já o dinheiro recebido do governo os capitalistas enviam mesmo para suas matrizes no exterior.

As montadoras de automóveis são o setor econômico que mais pratica a remessa de lucros ao exterior. De 2010 a 2013 essas empresas enviaram U$ 15,4 bilhões às suas sedes nos EUA, Alemanha, França etc. Dessa maneira, todo o incentivo dado pelo governo brasileiro não se reverte em melhorias para a indústria nacional nem em mais direitos para os trabalhadores, mas apenas em mais lucros para os países imperialistas.

A greve da Volks, no entanto, provou que a união e a luta dos trabalhadores são o único caminho seguro para enfrentar a ganância dos patrões. Com unidade, a greve foi capaz de enfrentar a truculência de seguranças armados no interior da fábrica e paralisar 100% da planta.

No momento em que os efeitos da crise internacional não mais podem ser escondidos em nosso país é preciso aprender com o exemplo dos operários da Volks para as lutas que virão.

Dilma Rousseff e sua equipe econômica escolhida pelo mercado parecem estar convencidos a aplicar o ajuste fiscal que levará o país a um período de recessão, enquanto são mantidos os privilégios dos banqueiros e dos monopólios. É a luta organizada do povo e da classe trabalhadora que pode criar uma alternativa real a esse arrocho.

Jorge Batista, São Paulo

Quem matou Gaia? Mais um caso de violência contra a mulher

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No último dia 25 de dezembro de 2014, uma turista italiana, Gaia Molinari, engrossou as estatísticas de mulheres assassinadas no estado do Ceará. Vítima de um brutal espancamento, Gaia foi morta na cidade de Jijoca, na Vila de Jericoacara, praia considerada umas das 10 mais belas do mundo.

O caso repercutiu em todo o mundo, o que obrigou a polícia local a apresentar uma resposta rápida ao crime. Imediatamente, a polícia acusou a estudante Miriam França de participação no crime. Miriam conheceu Gaia em Fortaleza, no hostel em que as duas passavam uma temporada.

Entretanto, não havia nenhuma evidência do envolvimento da estudante no assassinato. Na verdade, por ser negra e pobre, Miriam foi eleita pela polícia do Ceará como suspeita “natural” do crime ao entrar em contradição em questões menores durante seu depoimento.

Gaia foi assassinada com fortes pancadas, o que exigiria do agressor bastante força. Já em Miriam não foi encontrada nenhuma marca de luta corporal. A estudante também colaborou desde o começo com as investigações, o que torna sua prisão ilegal e injusta.

Em resposta ao abuso de autoridade da polícia, uma grande mobilização de amigos, familiares e professores de Miriam, além de movimentos sociais, foi realizada para exigir a libertação da estudante, o que aconteceu no último dia 13 de janeiro.

 Quem matou Gaia?

A violência contra a mulher no Ceará tem aumentado nos últimos anos. Apenas entre janeiro e julho de 2014, 172 casos foram registrados, um crescimento 14% em relação ao mesmo período de 2013.

Todos esperam que o responsável pela morte de Gaia seja encontrado e punido. Porém, é preciso ir além e combater todos os atos de violência contra a mulher. Lutar contra o machismo e por uma nova cultura, onde os direitos de homens e mulheres sejam iguais.

Justiça para Gaia Molinari!

Redação Ceará

O desastre da economia, da saúde e da educação na Ditadura Militar

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Quando ouvimos falar em Ditadura Militar no Brasil, a primeira associação que geralmente nos ocorre diz respeito à repressão política: as perseguições, o fechamento de entidades sindicais, estudantis e populares, a cassação de direitos políticos, a censura, o exílio, torturas, mortes, etc. Mas, além de toda essa barbárie, além de todas essas atrocidades que compuseram este lúgubre quadro de horror, houve ainda um outro tipo de violência, também brutal, porém mais sutil, que vitimou milhões de brasileiros: foram os crimes econômicos da Ditadura, que tiveram repercussões drásticas em áreas essenciais como saúde e educação. Num momento da conjuntura em que setores radicais da extrema-direita tentam insuflar camadas politicamente mais atrasadas com seu discurso de ódio e anunciam aos quatro ventos, sem a menor modéstia, decoro ou pudor, suas pretensões ditatoriais, faz-se necessário resgatar este aspecto de nossa história e relembrar que a Ditadura vitimou não apenas aqueles que se engajaram diretamente na luta para derrubá-la, mas também toda a classe trabalhadora brasileira.

Concentração de renda e achatamento salarial

Durante o período da Ditadura Militar (1964-1985), houve um substancial aumento da concentração de renda no Brasil, alargando o abismo entre ricos e pobres e agravando as desigualdades sociais. Essa concentração se deu, principalmente, às custas do achatamento dos salários dos trabalhadores das camadas mais baixas, aumentando os salários de uma pequena “elite” consumidora de supérfluos para sustentar, assim, o falso “milagre econômico” brasileiro.

Alguns dados ilustram isso muito bem. Em 1960, isto é, quatro anos antes do golpe militar, os 20% mais pobres no Brasil detinham 3,9% da renda nacional. Em 1970, este percentual caiu para 3,4% e, em 1980, para 2,8%. Fazendo um outro recorte, considerando agora os 50% mais pobres, estes detinham, em 1960, 17,4% da renda nacional. Sua participação na riqueza nacional caiu para 14,9%, em 1970, e para 12,6%, em 1980. Ao mesmo tempo, os 10% mais ricos subiram de 39,5%, em 1960, para 46,7%, em 1970, e para 50,9%, em 1980. Os 5% mais ricos viram suas fortunas aumentar de 28,3%, em 1960, para 34,1%, em 1970, até chegar aos 37,9%, em 1980. E, por fim, os 1% muito ricos saltaram de 11,9%, em 1960, para 14,7%, em 1970, até os 16,9%, em 1980.

Pesquisas do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostram que, em plena época do “milagre econômico”, 12,5% dos trabalhadores ganhavam até meio salário mínimo; 20,8% recebiam até um salário mínimo; 31,1% até dois salários mínimos; 23,6% entre dois e cinco salários mínimos; 7,25% entre cinco e dez salários mínimos; 3,2% entre dez e vinte salários mínimos; e 1,6% recebiam mais que vinte salários mínimos. Ou seja, enquanto o suposto “milagre econômico” estava a todo vapor, 64,4% da população recebia, no máximo, dois salários mínimos.

O falso “milagre econômico”, é importante ressaltar, apresentou um aumento da produção industrial que não refletiu um aumento real da economia. Isto é, o que se chamou “milagre econômico” foi um fenômeno que, segundo alguns analistas, favoreceu cerca de apenas 7,2% dos assalariados, camada que ganhava até dez salários mínimos. Segundo o historiador Júlio José Chiavenato, autor de O golpe de 64 e a ditadura militar, o tal “milagre” só foi possível porque “o empobrecimento do povo não significou necessariamente uma estagnação econômica na soma da renda nacional: ela apenas foi desproporcionalmente distribuída”. Assim, nunca houve “prosperidade” para a classe trabalhadora durante o tal “milagre econômico”, mas miséria, muita miséria para a ampla maioria do povo brasileiro.

Desnacionalização da economia

A hipocrisia do discurso “nacionalista” dos militares é desmascarada da maneira mais gritante quando analisada a relação e a subserviência destes com o capital estrangeiro. A Ditadura, ao privilegiar os investimentos externos, comprometeu o futuro do país a médio e longo prazo. A Constituição promulgada em 1967, em seu Artigo 161, literalmente “entregava” o subsolo brasileiro à exploração das empresas estrangeiras interessadas nos minérios estratégicos.

E um dos principais desdobramentos dessa subserviência, com consequências catastróficas para as décadas seguintes, foi o aumento exorbitante da dívida externa. Em apenas 15 anos, os militares elevaram a dívida externa brasileira em 15 vezes. Passou de 3 bilhões de dólares para 45 bilhões, um recorde mundial. O governo Geisel, geralmente considerado “austero” – talvez uma inspiração para um tal “choque de gestão” contemporâneo – elevou a dívida externa, que era de 9,8 bilhões de dólares, em 1974, para 35,1 bilhões, em 1978. E isso tinha uma razão de ser: não desacelerar a economia, considerando que, se reduzisse os empréstimos externos, comprometeria a produção que dava fabulosos lucros às multinacionais.

E por falar em multinacionais, estas não encontravam nenhuma barreira para explorar os trabalhadores e os recursos brasileiros e remeter fantásticos lucros para suas matrizes no exterior. A fabricante de cigarros Souza Cruz, por exemplo, de 1966 a 1976, investiu 2,5 milhões de dólares no Brasil e remeteu ao exterior, sob a forma de lucros, vultuosos 82,3 milhões. A Firestone, por sua vez, investiu tímidos 4,1 milhões, conforme dados de uma CPI da Câmara dos Deputados, realizada em 1976, e remeteu ao exterior a gorda fatia de 50,2 milhões de dólares.

Para garantir a satisfação de seus patrões, a Ditadura se encarregava de sufocar os trabalhadores brasileiros com seus baixos salários, concedia ampla liberdade de remessa de lucros ao exterior e generosos incentivos fiscais. Vale destacar que uma das primeiras medidas da Ditadura Militar foi revogar a Lei de Remessa de Lucros, aprovada em 1962 e promulgada em janeiro de 1964, no fim do governo de João Goulart.

Até mesmo empresários brasileiros, insuspeitos de qualquer “subversão”, também denunciavam a desnacionalização da economia brasileira imposta pelos militares. Dados mostram que, em 1977, após 13 anos de governo militar, 72% da indústria de aparelhos elétricos era dominada pelos estrangeiros, ocorrendo o mesmo com 99% do setor de fumo, 69% dos materiais de transporte, 60% da mecânica e 100% das máquinas para escritório. Como se não bastasse, 52% do comércio externo brasileiro estava nas mãos das multinacionais.

A miséria brasileira

A entidade internacional World Population apurou que, em 1979, morriam 52 crianças por hora no Brasil. A desnutrição foi responsável, neste mesmo ano, por 52,4% dos óbitos entre crianças de até cinco anos de idade. O IBGE registrou, em 1981, que 70% da população não comia o necessário, e reconhecia de forma oficial a existência de 71 milhões de subnutridos no Brasil. Tudo isso em pleno período de “milagre econômico”.

Em uma entrevista ao jornal O Globo, de 28 de junho de 1987, o pediatra Yvon Rodrigues, da Academia Nacional de Medicina, dava conta que uma pesquisa realizada pelo próprio governo militar, mas não publicada devido a seus resultados aterradores, descobriu que no Brasil “havia famílias que comiam ratos, crianças que disputavam fezes…”.

Ou seja, enquanto o “milagre econômico” registrava um aumento no PIB de 11,4%, em 1973, 13 milhões de crianças e 28 milhões de adultos passavam fome no Brasil. Este ano também registrou a maior baixa salarial da história do Brasil, escancarando a contradição entre crescimento econômico e crescimento da miséria.

Saúde

Em 1979, um documento do Banco Mundial apontou que a saúde do brasileiro piorava a cada ano. No Nordeste, 30% dos menores de 18 anos se alimentavam com 400 calorias diárias, enquanto a cota mínima seria de 3 mil, e que cerca de 80% dos nortistas e nordestinos tinham uma expectativa de vida 14 anos abaixo daquela das elites sociais.
Segundo dados do IBGE, entre 1960 e 1968, a mortalidade infantil subiu de 62,9 para 83,8 (por mil habitantes) em São Paulo. Em Belo Horizonte, de 1960 a 1972, o índice pulou de 74,2 para 105,3.

Mesmo diante desse quadro, os investimentos da Ditadura Militar na área da saúde diminuíram com o passar dos anos. Em 1966, o Ministério da Saúde recebia 4,29% do orçamento federal; essa porcentagem foi caindo progressivamente, até atingir o percentual de 0,99% do orçamento, em 1974.

Ditadura nunca mais!

Estes poucos dados já são suficientes para revelar a essência do que foi a Ditadura Militar no plano econômico: um governo títere, subserviente aos interesses estrangeiros e que, longe de criar uma “base” para industrializar o Brasil, desnacionalizou a economia e submeteu o povo a condições de vida desumanas. É claro que, sob um regime democrático, o povo teria reagido abertamente a tais condições de vida através de seus sindicatos, greves e manifestações. Não é difícil compreender, portanto, por qual razão a burguesia precisou se aliar aos militares e instaurar uma ditadura no Brasil: só assim poderia garantir a superexploração dos trabalhadores brasileiros e a realização de fabulosos lucros.

Ressalta-se também, nesta perspectiva econômica, que a luta de todos aqueles que tombaram em combate não era uma reação apenas à falta de liberdade política, mas também uma busca pela emancipação do povo brasileiro de tais condições de vida humilhantes, desumanas e degradantes. Como o fantasma do rei que no Hamlet, de Shakespeare, não podia descansar enquanto sua morte não fosse vingada, podemos ouvir o insistente clamor por justiça das milhares de crianças mortas por fome e desnutrição pelos crimes econômicos do regime. Não há paz sem justiça.

Glauber Ataide, diretor do Sindados MG

Lançamento do livro “O homem e seu tempo”, de Yuri Pires

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O homem e seu tempoO romance do jovem escritor Yuri Pires intitulado O homem e seu tempo foi lançado pela editora luso-brasileira Chiado, no mês de dezembro. Em seu primeiro livro, Yuri abordou as relações humanas de uma família marcada pela perseguição do regime militar e os caminhos percorridos para encontrar a memória e a verdade sobre esse período.

O livro se passa entre Portugal e Brasil e procura estabelecer a relação entre a ditadura militar brasileira e a ditadura de Salazar, na forma como esses regimes de exceção marcaram as pessoas. Conta a história de Eduardo, um filho e neto de militantes políticos que nasceu numa prisão e ainda criança foi exilado com seu avô para Portugal.

É uma história de como as relações afetivas e culturais influenciam nossas escolhas de vida e como a privação da memória coletiva é capaz de castrar uma parte importante da individualidade. Em outras palavras, o livro fala das marcas profundas que a ditadura deixou na alma das famílias que por ela foram atingidas.

O romance, que se passa em grande parte nos dias atuais, procura estabelecer conexão com a atual luta pela memória, verdade e justiça que se desenvolve no Brasil. Ajuda aos que querem entender melhor a importância de punir os torturadores e assassinos da ditadura, não apenas pelos motivos políticos, mas também pelos motivos humanos.

Poeta e escritor, Yuri Pires foi coordenador-geral do DCE da UFRPE e vice-presidente da União Nacional dos Estudantes (UNE).

Redação São Paulo

A retomada do Centro Popular de Cultura em Campos dos Goytacazes

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CPC Campos dos Goytacazes

Os Centros Populares de Cultura foram organizados na década de 1960, numa época de efervescência social no Brasil. O povo brasileiro tocava um vigoroso processo de lutas naquele período em nosso país. O Comando Geral dos Trabalhadores (CGT) realizava greves, as Ligas Camponesas mobilizavam o campo, e a União Nacional dos Estudantes, contando com o apoio do CPC, colocava-se em movimento pela reforma universitária. O governo progressista de Jango, ao propor as chamadas reformas de base, entrava em conflito com os interesses dos setores empresariais e latifundiários, apoiados pelo imperialismo norte-americano. Estes arquitetam o golpe que colocaria o Brasil no rumo do injusto desenvolvimento capitalista, ampliando as desigualdades sociais, o endividamento público, além da já conhecida política de tortura e assassinatos dos militantes e intelectuais que pediam por democracia.

Antes e durante a Ditadura, os movimentos culturais da juventude cumpriram também um papel de resistência, seja no teatro de Arena, de São Paulo, ou nos CPCs espalhados pelo Brasil, ou mesmo após o golpe, com o Show Opinião. Os artistas e intelectuais faziam da cultura crítica uma trincheira de luta que buscava resgatar o “sentimento de pertencimento”, de uma vontade coletiva, entre os brasileiros. Fruto desse movimento, destacam-se as produções teatrais que dramatizavam questões como a dominação imperialista, a elitização do ensino superior e o subdesenvolvimento.

O renascer do CPC em Campos dos Goytacazes

O grupo socialista CPC Pedreiro Amarildo, fundado em Campos dos Goytacazes, no Norte fluminense, propõe resgatar a tradição da arte engajada, tão necessária nos dias de hoje. É uma entidade cultural de agitação política, que está em turnê com a peça teatral Escravos Modernos, que trata de forma simples a condição de exploração do povo trabalhador. Já em sua primeira apresentação na UFF, a peça foi recebida com entusiasmo pelos estudantes. Entretanto, não nos limitaremos ao âmbito do movimento estudantil, e estamos caminhando em direção aos assentamentos de trabalhadores rurais e nos colocando à disposição dos sindicatos de luta dos trabalhadores.

Entendemos que ajudar a contar a história dos trabalhadores e trabalhadoras que construíram tudo que aí está é uma das tarefas mais importantes que temos com a arte. No Município de Campos, os índios Goytacá, primeiros habitantes destas terras, foram expulsos pelos colonizadores. Guerreiros, sua história continua na periferia do conhecimento.

Aos negros escravizados que construíram o canal Campos-Macaé sobraram os guetos e as “casas populares”, novas favelas com superfaturados cimentos coloridos. Com os camponeses não é muito diferente. Cortaram cana de sol a sol para os usineiros como escravos, e infelizmente continuam nos dias de hoje na luta pela terra, sem obter grandes conquistas na região. A cultura das elites se impõe. Os fazendeiros são homenageados com seus nomes em ruas da cidade, enquanto lideranças dos trabalhadores continuam completamente desconhecidas. É preciso valorizar a cultura popular, trazendo as consciências das pessoas para a luta.

A trincheira cultural

Em um cenário de crise do capitalismo mundial, não devemos nos iludir de que o sistema está em crise de hegemonia, ou seja, a ideologia das elites permanece predominante, ditando a tônica das artes, fortalecendo o comportamento individualista, cumprindo seu papel de confundir as pessoas. O discurso da intolerância contra as chamadas minorias, por exemplo, está em alta. É uma verdadeira ascensão dos setores fundamentalistas no Brasil, utilizando o discurso de ódio e preconceito, comprovando para nós o caráter fascista da extrema-direita raivosa.

É necessário despertar mais e mais as pessoas à medida que a crise se agrave e a insatisfação se acentue no seio da sociedade. Por isso, dizemos que é fundamental fortalecer as mídias independentes. Jornais como o A Verdade, sites, canais no YouTube, revistas, as redes sociais, as rádios comunitárias, etc., são poderosos espaços de resistência. É preciso também utilizar os mais diversos campos da arte para motivar e organizar a nossa juventude. Seja pela música, pelo teatro, pela literatura, pela produção audiovisual, enfim, seja lá como for, a juventude está convocada a criar revolucionariamente, como criava os CPCs da UNE, agora, no entanto, com maior diversidade de mídias. Hoje temos a internet, diferente do que tinham os CPCs, em 1961.

Temos que ocupar os espaços e criar novos espaços da classe para a classe, resgatando a tradição dos Centros Populares de Cultura no país e fortalecendo o ideário revolucionário, movendo para frente a luta antifascista e anticapitalista.

Bruna Machel, secretária de Movimento Social do CPC Pedreiro Amarildo

Entrevista: Os outubros de Taiguara, um dos maiores compositores da MPB

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taiguaraO jornal A Verdade entrevistou Janes Rocha, escritora e jornalista carioca, autora do livro Os Outubros de Taiguara, livro-reportagem lançado pela gravadora Kaurup. Na entrevista Janes Rocha conta como surgiu a ideia do livro e revela que Taiguara foi um dos artistas mais perseguidos pela Ditadura, principalmente por seu apoio a Luiz Carlos Prestes e sua defesa firme do comunismo.

A Verdade – Além de resgatar a obra deste que é um dos maiores compositores da MPB, o que te levou a escolher a história de Taiguara para ser publicada em livro?

Janes Rocha – Este trabalho foi feito por mim a pedido da Kuarup Produções, empresa que detém um contrato de curadoria da obra de Taiguara junto à família dele. Em princípio, eu iria apenas levantar os documentos no Arquivo Nacional. Até então, sabíamos que ele havia sido um dos mais perseguidos da Ditadura, mas não sabíamos quanto. Ficamos impressionados com os números, então decidimos fazer um livro que não é bem uma biografia, na verdade, é um livro-reportagem. Centramos o trabalho na questão da censura e de seu ativismo político muito mais do que em questões pessoais.

Como livro biográfico é o primeiro, porém encontrei duas teses de mestrado e doutorado sobre ele realizadas por pesquisadoras da Universidade de Brasília, muito boas também, e que estão incluídas na bibliografia de Os outubros de Taiguara.

Você encontrou alguma barreira na preparação deste livro?

Não, ao contrário. O Arquivo Nacional dá amplo acesso aos documentos. A família dele foi muito bacana, apoiou e ajudou no que pode, todos, mas especialmente Moína Lima, Marcelo Borghi e Eliane Potiguara. Algumas pessoas que eu pretendia entrevistar, amigos, músicos e políticos, não quiseram falar, ou colocaram dificuldades. Mas creio que mais por questões pessoais que eu respeito, ninguém é obrigado a dar entrevista.

A tecnologia foi importante para a recuperação das músicas. Taiguara deixou inúmeras canções em fitas cassete que nunca haviam sido gravadas em vinil ou CD. A Kuarup, com o trabalho de uma equipe de especialistas, artesãos da música, liderados por Pedro Baldanza, conseguiu recuperar e remixar muitas delas. Se você entrar no site www.taiguara.art.br/ele_vive.html vai poder acessar o disco Ele Vive, que está sendo lançado junto com o livro.

Taiguara foi um dos compositores que despertou ódio por parte do Regime Militar. O que causou todo esse ódio, já que ele chegou a ser um dos cantores mais famosos do Brasil na época dos festivais?

Ninguém apresentou uma resposta pronta a essa questão. Muitos acham que ele foi perseguido por sua aproximação com Prestes. Isso só é verdade a partir de 1980, quando ele conhece Prestes e dá início à sua atividade política mais aguerrida. Porém, ele já vinha sendo perseguido muito antes disso, aliás, os documentos das músicas censuradas vão do período 1970-1974, ou seja, antes de seu contato com Prestes.

E o motivo para a perseguição inicial da censura é, na verdade, pura implicância com algumas letras mais sensuais. A primeira música dele censurada não tinha nada a ver com política, foi “Corpos nus”, de 1971, que ele pretendia apresentar no VI Festival Internacional da Canção promovido pela Rede Globo.

Eu acredito, por tudo que pesquisei e pelas informações dos meus entrevistados, que ele se expôs mais que os outros artistas, daí ter atraído a atenção dos censores. Ele radicalizou suas posições, principalmente na sua volta nos anos 80, quando se alia ao Luiz Carlos Prestes. Nesse momento, ele não só entrou na mira do SNI, mas também começou a perder mídia por seu discurso ácido em defesa do comunismo.

Qual a mensagem que você acha que ficou mais forte da obra de Taiguara?

Acho que Taiguara deixou como legado um exemplo de luta e sacrifício com seu ativismo político em defesa da democracia.

Porém, a grande mensagem de Taiguara está em suas canções. Quase todos se lembram dele mais por suas letras românticas dos anos 60 que, de fato, são belíssimas. Mas acredito que a mensagem que ele queria transmitir está nas músicas que fez a partir do álbum “Imyra, Tayra, Ipy Taiguara” (de 1976, inteiramente censurado e recolhido das lojas). Neste álbum, ele começa a fazer uma fusão de ritmos contemporâneos (bossa nova, jazz, pop) com o regional (chamamé, guarânia), que vai aperfeiçoando daí para frente nos discos seguintes, o “Canções de Amor e Liberdade” (1984) e “Brasil Afri” (1994). Além de lindas canções do ponto de vista artístico, são também uma mensagem de integração latino-americana, de integração dos povos e raças que formam o nosso Brasil.

Cloves Silva, estudante de Letras da UFRPE e militante da UJR

As Reformas de Base, o Golpe de 1964 e o Anticomunismo

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capa última hora“Desejo que esta Mensagem ao Poder Legislativo seja, por igual, uma conclamação a todos os brasileiros lúcidos e progressistas para que, cada vez mais unidos e determinados, nos coloquemos à altura do privilégio que a história nos reservou de realizar a nobre tarefa da transformação de uma sociedade arcaica em uma nação moderna, verdadeiramente democrática e livre”.

O problema é que os brasileiros lúcidos e progressistas eram minoria no Congresso Nacional. Assim, o anteprojeto de lei enviado ao Congresso pelo presidente João Goulart na abertura da sessão legislativa de 1964 foi rechaçado impiedosamente, taxado de subversivo, orquestrado e a serviço do comunismo internacional.

Só então, o Governo resolve apelar para a mobilização popular. O povo até respondeu positivamente, indo às ruas, especialmente no dia 13 de março, na estação ferroviária Central do Brasil, no Rio de Janeiro. 150 mil pessoas. Neste ato, Goulart fez coro com o Movimento Popular e Sindical e com os partidos de esquerda, quanto à urgência das reformas, especialmente da reforma agrária, e que para isso seria preciso alterar a Constituição Federal, que exigia indenização em dinheiro para as desapropriações. A indenização teria de ser mediante a emissão de títulos públicos.

Além de mostrar disposição de avanço, Goulart dá provas concretas, com o decreto já assinado em que “Declara de interesse social para fins de desapropriação as áreas rurais que ladeiam os eixos rodoviários federais, os leitos das ferrovias nacionais, e as terras beneficiadas ou recuperadas por investimentos exclusivos da União em obras de irrigação, drenagem e açudagem, atualmente inexploradas ou exploradas contrariamente à função social da propriedade”.

Era tarde. Até então, não apenas o Governo não colocara a mobilização popular como fundamental para as reformas, como a esquerda, em sua maioria, mantinha ilusão no caminho institucional, apelando para a participação das massas como forma de apoio, mas não como centro de uma estratégia de criação de um poder popular. Ao contrário, Luiz Carlos Prestes, o lendário dirigente da Coluna Prestes, imortalizado por Jorge Amado como o Cavaleiro da Esperança, naquele mesmo comício de 13 de março, proclamou: “estamos no poder”. Vã ilusão.

As forças progressistas apenas estavam no Governo Federal e em alguns estados, como Pernambuco. Mas o poder continuava nas mãos das classes dominantes, a burguesia nacional e internacional e os latifundiários, tendo ao seu lado, como ficou devidamente comprovado, as Forças Armadas.

A ofensiva das forças retrógradas

Apesar de deter o poder econômico, o poder militar e, parcialmente, o poder político, pois o Congresso estava em suas mãos, estas classes vinham se preocupando há tempos em contar também com o apoio dos oprimidos. Para isso, nada melhor que apelar para o sentimento da religião e da família, bastando acenar com a ameaça do “comunismo ateu e desagregador”.

A ideia, inclusive, surgiu nos Estados Unidos. É bom lembrar que o capitalismo brasileiro nasceu e se consolidou mediante um poderoso tripé, unindo capital externo, capital interno dependente e associado, e o latifúndio. Impossível, pois, contar com a burguesia nacional como motor de uma revolução nacional anti-imperialista, como sonhava o PCB, não dando crédito à tese dessa impossibilidade defendida por um dos seus mais lúcidos aliados, Caio Prado Júnior (leia A Verdade, nº 86, agosto 2007).

Logo após o comício da Central do Brasil, é desencadeada a Marcha da Família com Deus pela Liberdade, que mobilizou milhões de pessoas em todo o país contra o Governo Goulart e as Reformas de Base.

A origem das marchas foi a Cruzada do Rosário, que, sob o pretexto de homenagear a Virgem Maria e rezar o terço em família, tratava-se de propaganda ideológica convencendo o povo de que os que defendiam a reforma eram comunistas e ateus, que queriam destruir a religião e a família.

O idealizador da Cruzada foi um empresário estadunidense, multimilionário, Peter Grace, interessado em investir na América “espanhola”. Ele conseguiu financiamento da CIA para o trabalho a ser desenvolvido pelo padre irlandês Patrick Peyton, chamado padre de Hollywood, por sua capacidade midiática (compare hoje com um padre Marcelo Rossi). A campanha envolveu milhões no Chile, Venezuela, Colômbia, e terminaria em Bogotá, quando, em 1962, o Departamento de Estado dos EUA, com o aval direto do presidente John Kennedy, imprime mudança de rota com sua vinda para o Brasil, onde deveria priorizar Rio de Janeiro e Recife. Assim se fez, sem desprezar Minas Gerais, São Paulo, aliás, todos os grandes centros urbanos. Além das concentrações populares, foram produzidos 600 programas de rádio e televisão.

A participação intensiva dos EUA no golpe que derrubou o Governo constitucional de Jango e implantou a Ditadura Militar é comprovada por documentos do próprio Departamento de Estado, mostrados no documentário O Dia que durou 21 Anos, de Camilo Tavares, filho de Flávio Tavares, jornalista preso e torturado pelo Regime.

Entre os documentos, está a gravação de uma audiência concedida pelo presidente John Kennedy ao embaixador dos EUA no Brasil, Lincoln Gordon, na Casa Branca. Gordon sugere a intervenção americana no Brasil e sugere a nomeação do coronel Vernon Walters para a função de adido militar na embaixada dos Estados Unidos. Kennedy concorda. A indicação de Walters se deve ao fato de ele ter servido na Itália durante a Segunda Guerra Mundial, onde conheceu vários militares brasileiros, entre os quais Humberto de Alencar Castello Branco.

Desse modo, a intervenção se dá por meio de um articulador político, o embaixador Lincoln Gordon, um conselheiro militar, o coronel Walters, a ofensiva ideológica com a Cruzada do Rosário e a Marcha da Família e ainda a distribuição de alimentos de terceira categoria para os pobres, mediante uma campanha intitulada Aliança para o Progresso.

Tinham as reformas de base algo de comunismo?

Nada. Eram reformas perfeitamente possíveis e até exigidas pelo desenvolvimento capitalista, desde que de caráter nacional, soberano, como já acontecera nos países centrais, chamados, na época, de “Primeiro Mundo”.

Era apenas o programa de governo do PTB, dando sequência à linha varguista de consolidação de um capitalismo menos dependente dos países dominantes. Suas principais bandeiras eram a Reforma Agrária, a Reforma Urbana, Educacional e Fiscal. Na sua essência, tratava-se de:

a) Reforma Agrária – Desapropriação do Latifúndio, mediante indenização com títulos da dívida pública, com distribuição para os camponeses sem terra ou com pouca terra (minifúndios).
b) Reforma Bancária – Para concessão de crédito aos pequenos produtores rurais e urbanos, visando ao seu crescimento econômico. O eixo seriam os bancos estatais.
c) Reforma Urbana – Regulamentação do uso e da posse do solo urbano, para desenvolvimento organizado das cidades, garantindo moradia digna para todas as famílias.
d) Reforma Educacional – Valorização do Ensino Público e Gratuito, do Magistério, abolição da cátedra vitalícia nas universidades. Combate ao analfabetismo, utilizando-se o método Paulo Freire.
e) Reforma Fiscal – Promoção da justiça fiscal, com tributação progressiva e taxação das grandes fortunas.

O projeto previa ainda universalização do voto, incluindo analfabetos e soldados de baixa patente e, no campo da economia, o controle das multinacionais e regulamentação da remessa de lucros para o exterior. A remessa, por sinal, foi regulamentada por Goulart, via decreto. Determinava também a nacionalização de setores estratégicos da economia, em vista do desenvolvimento nacional soberano, a exemplo do elétrico, refino do petróleo, indústria químico-farmacêutica.

Te deixo consternado no primeiro de abril

Dia 1º de abril, dia da mentira, sintomático, pois o golpe adota o nome de Revolução, Jango está deposto. Até o general de sua confiança, Assis Brasil, não moveu uma palha para defender o Governo. Ele confessou que o tal dispositivo militar em que Jango e as forças da esquerda reformista tanto acreditavam, nunca existiu. Foi mais uma mentira.

Brizola garantiu o levante do II Exército, mas Jango se opôs. Não queria derramamento de sangue. Preferiu renunciar. A proposta de greve geral feita pelo Comando Geral dos Trabalhadores (CGT) não teve êxito. Houve apenas paralisações isoladas, como a da Mina de Morro Velho (leia A Verdade, nº 18, junho de 2001).

A noite de agonia se instalaria por 21 anos e seus efeitos permanecem até hoje. O que aconteceu depois é do nosso conhecimento. Totalmente, nunca será. Antes do fim, os órgãos de segurança queimaram documentos. Os responsáveis ou executores da repressão que se abateu sobre o povo brasileiro se recusam a falar à Comissão Nacional da Verdade, aliás, criada 26 anos após a redemocratização, com todos os generais-presidentes (ou ditadores de plantão) já falecidos. Os poucos que assumem a condição de terem torturado e assassinado presos políticos afirmam que fariam tudo novamente, pelo bem do Brasil.

Se as esquerdas e os movimentos sociais e populares não tirarem as lições, não aprenderem com a História, não fizerem autocrítica e redefinirem suas estratégias, poderá mesmo acontecer tudo de novo. Como tragédia ou como farsa, o que, de nenhuma forma interessa ao povo brasileiro.

José Levino é historiador

Nota do PCOF sobre os atentados em Paris à Charlie Hebdo

pcofNão ao obscurantismo e à xenofobia. Não à “união nacional” com a reação. Sim à solidariedade e à fraternidade.

O assassinato de 12 pessoas, entre elas os principais cartunistas e jornalistas de Charlie Hebdo, suscita uma grande emoção e uma grande raiva em nosso povo. É a liberdade de expressão, de crítica, o direito ao escárnio, que os autores desse crime vil quiseram assassinar. Foi para dizer “não” – pois não cederemos e não nos deixaremos intimidar – que dezenas de milhares de pessoas saíram às ruas, na mesma noite do atentado.

A outra mensagem dessas manifestações é a recusa e a condenação a todo amálgama que alimenta a islamofobia. Há semanas que “intelectuais” despejam seu ódio contra o islã diante dos microfones e estúdios de televisão. E hoje, lugares frequentados por muçulmanos são alvo de ataques. Como dissemos em nosso comunicado de 07 de janeiro, “é necessário parar a instrumentalização da religião, qualquer que seja, para dividir e questionar os valores de fraternidade e de tolerância”. Por isso, nós defendemos a laicidade, o direito de cada um de crer e de não crer, o direito de criticar qualquer religião, de satirizá-la.

O presidente da República reiterou com veemência que a França estava em guerra contra o terrorismo. Esse discurso lembra o de Bush, após o 11 de setembro. Vários veículos de comunicação, responsáveis políticos, retomam essa comparação e conclamam, com ele, à “união nacional”.

Nós não desejamos essa “união nacional”

É verdade que Hollande e seu governo levaram adiante verdadeiras guerras, em vários frentes: no Mali, no Sahel e, em coalizão, no Iraque. Essas guerras não apenas são fadadas ao fracasso – basta ver a situação no Iraque e no Afeganistão –, mas alimentam os grupos jihadistas. Consequentemente, nosso partido, e outros, sempre denunciaram essa política de guerra, que traz consigo alianças com forças reacionárias e que se insere na visão perigosa do “choque de civilizações”. Não desejamos a unidade nacional com a direita. Uma direita que acha normal que essa unidade se estenda à Frente Nacional (FN), partido de extrema-direita.

No contexto atual, não é de “unidade nacional” que nós precisamos, mas nos unir no combate contra a política de miséria e de guerra, pela fraternidade e solidariedade dos povos. A unidade pela qual nós lutamos é a unidade do povo, da classe operária, em torno de seus interesses e dos povos. É a unidade no combate pelo progresso social, pela democracia.

Paris, 8 de janeiro de 2015.

Partido Comunista dos Trabalhadores da França

Aniversário de 20 anos da CIPOML é celebrado em Istambul

cipoml-festa 20 anosOs 20 anos da Conferência Internacional de Partidos e Organizações Marxista-Leninistas (CIPOML) foram celebrados em Istambul, maior cidade da Turquia. As atividades foram organizadas pelo Partido do Trabalho (Emep). Durante cinco horas, seguiram-se discursos, músicas e homenagens.

Tudo começou com um minuto de silêncio em nome dos companheiros e companheiras perdidos na luta pelo socialismo. Logo após, o Coral do Trabalhador entoou canções revolucionárias, incluindo A Internacional, cantada pelos milhares de presentes.

O discurso da celebração de abertura foi feito por Selma Gürkan, líder do Emep, que deu exemplos de lutas atuais em diferentes países entre as classes trabalhadoras e a burguesia e declarou que a vitória pertence aos trabalhadores. Chamando a atenção para os acontecimentos no Oriente Médio, Gürkan salientou que a resistência Kobane aumentou a luta decidida dos povos do Oriente Médio e do mundo.

Após o discurso de Gürkan, os representantes dos partidos e organizações da CIPOML, um a um, foram chamados ao palco e apresentados. Raul Marco, líder do Partido Comunista da Espanha (ML), fez um discurso representando as organizações membros da Conferência. “Estamos celebrando o 20º aniversário da CIPOML no país de Nazım Hikmet. A nossa determinação para elevar a luta marxista-leninista na arena internacional continua. Nossa organização é hoje uma referência. Devemos apoiar o trabalho de nossos partidos e organizações. Precisamos garantir que nossas publicações internacionais atinjam um público amplo”, afirmou Raul.

Em seguida, foi Jilani Hammami, deputado da Frente Popular da Tunísia, que subiu ao palco. “Eu sou membro de uma nação que olha para o horizonte e vê a estrela da liberdade e do socialismo”. Depois de afirmar que as eleições na Tunísia são as mais críticas, até essa data, ele continuou a dizer: “Nós nunca desistiremos da nossa determinação de ir até a revolução. A vitória está sempre no horizonte”.

Asya Abdullah, líder da frente curda Unidades de Proteção Popular (YPG), que resiste, há quatro meses, à investida do grupo Estado Islâmico pela domínio da cidade síria de Kobane, juntou-se à celebração por meio do Skype. Ao apontar o 25 de novembro como Dia Internacional de Combate à Violência contra a Mulher, ressaltou o importante papel das mulheres em Kobane. “Mulheres lutando contra isso também é lutar pela liberdade das mulheres. Nossa luta será vitoriosa em Kobane”, afirmou.

Quando Selahattin Demirtaş, presidente da Conferência Democrática dos Povos (HDP), que inclui o Emep, subiu ao palco, abriu-se uma faixa com o slogan de “longa vida e solidariedade aos povos”. Demirtaş disse que estamos em um momento em que as lutas no Oriente Médio estão vindo à tona. “Kobane é a marca disso. A luta continua nas ruas de Kobane entre YPG, que representa os oprimidos, e o Estado Islâmico e os representantes do imperialismo. É claro que o vencedor será a linha da liberdade. Mulheres livres serão vitoriosas. Eles enterrarão esse movimento bárbaro assim como em Stalingrado.

Resistência dos trabalhadores no seu caminho para a Internacional

Vários trabalhadores que atuaram nas resistências e greves em fábricas em Istambul também se juntaram à celebração da CIPOML. As organizações de trabalhadores de cidades distantes enviaram suas declarações de apoio. Trabalhadores dos estaleiros de İstambul-Tuzla saudaram a CIPOML com slogans de “Fim das mortes ilegais no local de trabalho” e “Fim da exploração de trabalhadores estrangeiros”. Trabalhadores do setor de saúde também saudaram a celebração com a sua mensagem de “Verbas para a saúde, não à guerra”.

Também foram representados por seus líderes os sindicatos de trabalhadores e funcionários públicos, como a Confederação Revolucionária de Sindicatos de Trabalhadores (DISK) e os Trabalhadores Públicos pela Confederação dos Sindicatos de Trabalhadores Públicos (Kesk).

 Partido do Trabalho (EMEP)

Eleições na Tunísia: nova vitória sobre o projeto islâmico

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No último dia 21 de dezembro, o povo tunisiano foi às urnas para eleger o novo presidente da República em um cenário inédito no país. Desde a proclamação da República, em 25 de julho de 1957, e da adoção da Constituição de junho de 1959, nunca haviam ocorrido eleições na Tunísia de forma livre, democrática e transparente. O regime neocolonial organizou eleições regularmente, mas o resultado se conhecia de antemão, pois era apenas um plebiscito para referendar o único candidato apresentado. Essa paródia se manteve na Tunísia mesmo depois da reforma da Constituição, em novembro de 1987, que designou Habib Burguiba presidente vitalício. Depois do golpe de Estado de novembro de 1987, o general Ben Ali introduziu algumas modificações: ele mesmo designava os participantes entre os políticos que lhe rendiam homenagens e, com isso, recebia 99% dos votos. Isto fez com que nas recentes eleições houvesse um ambiente de apreensão e também de esperança entre os tunisianos, tendo em conta que foram as primeiras eleições presidenciais organizadas desde 14 de janeiro de 2011.

Lembremos que no 1º turno das eleições, realizado em 15 de novembro passado, houve 27 candidaturas. A maioria delas representava, de uma ou outra maneira, candidaturas de tal ou qual facção da burguesia que ansiava manter-se ou voltar ao poder. Frente a eles – e de certa maneira contra eles – se apresentava Hamma Hammami, da Frente Popular, como representante das classes populares, porta voz de suas esperanças para alcançar os objetivos da revolução.

Hamma ficou em terceiro lugar no primeiro turno. Dessa forma, se enfrentaram no segundo turno candidatos igualmente reacionários: de um lado, Bejy Caïd Sebsi, do “Nida Tounes”, antigo ministro de Burguiba e de Ben Ali, e do outro lado, o candidato não declarado do partido islâmico, o presidente provisório Moncef Marzouki. Antes mesmo de começar a campanha, os meios de comunicação burgueses trataram de apresentá-los como opostos e representantes de projetos sociais antagônicos: um como o representante da modernidade, da democracia e do Estado secular, e o outro como defensor da identidade do Estado religioso. Tudo não passava de fraseologia para ocultar o verdadeiro caráter de classes burguês de ambos os projetos.

Tanto os partidos “Nida Tounes” como o “Nahdha” são expressões políticas e organizativas dos interesses da grande burguesia e, independente de suas diferenças, sua essência é a mesma. Basta dar uma olhada em seus programas econômicos e sociais para perceber as semelhanças: neoliberalismo, limitação da intervenção estatal no terreno econômico e de investimentos, privatização acelerada das empresas públicas e dos bancos estatais, liberação dos preços dos produtos de consumo e dos serviços, liquidação das indenizações, etc. O voto massivo e unitário que esses dois partidos deram no dia 10 de dezembro na Assembleia dos Representantes do Povo a favor da Lei de Finanças 2015 foi uma clara manifestação disto. Apenas os deputados da Frente Popular foram contrários, já que essa lei prevê medidas contra o povo e para fazer recair todo o peso da crise econômica sobre as massas populares.

O que afirmamos sobre os dois candidatos explica em boa medida o andamento das suas respectivas campanhas. Em nenhum momento houve confrontação sobre seus programas políticos. O pior de tudo é a personalidade dos candidatos: um esteve durante décadas a serviço dos regimes ditatoriais de Burguiba e Ben Ali, nos quais ocupou cargos decisivos que o faz de certa maneira responsável por numerosas desgraças sofridas pelos tunisianos, pela repressão e eliminação da liberdade quando foi ministro do interior e por nunca ter manifestado o menor remorso e nem autocrítica por esse passado nada brilhante. O outro candidato, nos últimos três anos tem tido compromisso com o islamismo e o projeto reacionário da Irmandade Mulçumana na Tunísia e outros lugares. A metamorfose deste militante dos direitos humanos, que se tornou um protetor das milícias e aliado objetivo das correntes que preconizam e praticam o terrorismo, foi o centro das críticas contra ele. Os grandes erros durante seu mandato lhe valeram duras críticas de toda sociedade. Um de seus últimos erros foi um discurso de ódio e divisão contra todos aqueles que não compartilham de suas posturas políticas e que segundo ele são peões a serviço do antigo regime.

Lembremos que às vésperas do primeiro turno, a possibilidade dos candidatos era diferente, já que nas eleições para o legislativo um mês antes, o “Congresso pela República”, partido de Moncef Marzouki, só obteve 67 mil votos, ou seja, menos de 4% dos eleitores, enquanto que o “Nida Tounes” teve 37% dos votos. Porém, o Partido Islâmico, que não apresentou candidato a presidente, votou no presidente provisório, depois de um semifracasso nas eleições legislativas, com o que pressionou o partido vencedor a negociar. Marzouki obteve o segundo lugar com mais de um milhão de votos, uma pequena distância de seu adversário.

A maioria dos cidadãos havia votado no “Nida Tounes” na eleição legislativa para impedir a vitória do “Nahdha”. O mesmo aconteceu no segundo turno da eleição presidencial, quando votaram em Sebsi para impedir Marzouki de voltar ao Palácio de Cartago. Houve milhares de pessoas que não votariam em nenhum dos dois, mas acabara votando para acabar com as instituições saídas do escrutínio de 23 de outubro de 2011, que deu plenos poderes ao partido islâmico e aos seus comparsas. Trata-se então de um voto de veto, e não de um voto de adesão a um programa.

Os partidos liberais representados no parlamento pela União Patriótica Liberal (16 cadeiras no parlamento) e o “Afek Tounes” (8 cadeiras), junto com os partidos que se reivindicam do movimento “desturiano” (o antigo partido no poder), chamaram os eleitores a votar no Sebsi.

A Frente Popular, consciente de que nenhum dos candidatos era revolucionário e que não defenderiam os objetivos da revolução, e tendo em conta a caótica gestão do país pelo governo da “troica” e seu presidente, que era o candidato real (mas não declarado) do partido islâmico, convocou o povo a fechar-lhe o caminho e deixou os eleitores decidirem seu voto entre um ou outro candidato.

Os resultados oficiais anunciados confirmam a vitória de Beji Caïd Sebsi com 55,68%, contra seu adversário, o presidente interino Moncef Marzouki. A participação eleitoral foi de 60%, com uma forte abstenção, especialmente na juventude.

Com isso, se abre uma nova era de combate para a Frente Popular e para as forças progressistas dentro do país.

Frente Popular. Tunísia, 22 de dezembro de 2014

Como estudar a filosofia marxista? Dicas do que fazer e do que evitar

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Como estudar a filosofia marxista? Qual a melhor forma de aproveitar o tempo que dedicamos ao estudo desta rica e fecunda tradição filosófica? Ao nos propormos a tarefa de estudar a filosofia marxista, o primeiro ponto que devemos ter em mente é uma “obviedade” que, infelizmente, não se mostra tão óbvia assim na prática de estudo dos militantes: a filosofia marxista é filosofia. Isso quer dizer que ela compartilha diversas características com outras correntes de pensamento não-marxistas, o que lhe permite ser identificada ou classificada enquanto filosofia. Embora ela apresente suas particularidades, não se deve perder de vista este ponto.

E o que é filosofia? Apesar de os currículos do ensino médio e quase todos os cursos de graduação terem uma disciplina chamada “filosofia”, elas pouco podem nos dizer sobre sua verdadeira essência, sobre o que realmente lhe caracteriza enquanto tal. Acontece que em muitos casos, principalmente no ensino superior, as disciplinas com o nome de filosofia são “forçadas” à grade curricular apenas por uma exigência do currículo padrão, o que resulta em uma pseudo-filosofia manca, mutilada. E as experiências pelas quais os estudantes passam com tal filosofia deixam como resíduo a falsa sensação de pelo menos “saber do que se trata” o assunto, o que na verdade é um erro, pois tomar conhecimento de alguns temas abordados por alguns filósofos não é a mesma coisa que saber o que é fazer filosofia.

E por não se saber o que caracteriza a atividade filosófica enquanto tal, tende-se, às vezes, a estudá-la com métodos importados das ciências humanas ou até mesmo das exatas, o que mais obstaculiza do que auxilia no processo. Mas a filosofia não é uma ciência humana. Uma curiosidade para ilustrar: já percebeu que dentro das universidades, o nome das faculdades que ofertam os cursos de filosofia geralmente tem nomes como “Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas” ou “Faculdade de Filosofia e Letras”, etc? Sim, pois sempre são coisas distintas. A filosofia não é uma ciência humana, e nem uma área do curso de Letras. A filosofia seria, de certo modo, “inclassificável”.

Mas não vamos tentar, neste momento, abordar diretamente o que é filosofia, pois além desta pergunta já ser em si um grande problema filosófico, não é exatamente necessário para estas breves dicas de como estudar a filosofia marxista. Nosso objetivo aqui é apenas apontar algumas incompreensões que são de grande prejuízo para o estudo da filosofia em geral e, particularmente, ao estudo da filosofia marxista.

Uma ampla bagagem cultural é o ponto de partida, não de chegada

Um ponto muito importante é que filosofar não é acumular conhecimento. A aquisição de uma vasta cultura é um pressuposto para se fazer filosofia, mas ela não se resume a isso. Não se “sabe” filosofia por já ter ouvido falar que Platão desenvolveu a teoria do Mundo das Formas, que Tomás de Aquino elaborou as Cinco Vias para demonstrar a existência de Deus ou que Descartes disse “Penso, logo existo”. Da mesma forma, não se está estudando filosofia marxista ao saber enumerar quais são “as leis da dialética”, como se essas fossem leis da física que bastaria aplicar à realidade e pronto, está tudo feito. Kant já afirmava que não se aprende filosofia, só se aprende a filosofar. Isso aponta para o caráter eminentemente ativo ou prático da filosofia, no sentido de que ela é um fazer, e não mera acumulação de conhecimento.

Estudar outras correntes filosóficas além do marxismo

Trata-se de um erro, ao estudar filosofia, isolar determinado autor de sua época. Evitar isso é de fundamental importância para a filosofia marxista. Perde-se muito da riqueza do pensamento filosófico de Karl Marx ao não se compreender o contexto de onde ele surgiu, ou ao se limitar a resumos e manuais, recorrendo-se a chavões do tipo “Marx inverteu Hegel”, sem saber o que isso significa na verdade. Embora isso pareça óbvio aos marxistas, é dessa maneira que a maioria dos militantes estuda a obra filosófica de Marx: fora do contexto intelectual, filosófico da época, como se uma ou duas citações de Hegel bastassem para “contextualizá-lo”. Para deixar claro: não é apenas o contexto econômico que importa, mas também o contexto “espiritual” da época, o qual goza, segundo Marx, de uma “autonomia relativa” em relação à estrutura econômica.

Em suas obras, Marx está sempre em diálogo com autores de sua época, e quando lemos apenas as obras de Marx, sem ler ao mesmo tempo Hegel e o idealismo alemão, por exemplo, tem-se a impressão de que ele estaria sendo “contra tudo que estava lá”. E não é bem assim. Ao não ler em primeira mão as obras de Hegel não sabemos em que aspectos Hegel e Marx se aproximam, pois, quando lemos apenas Marx, ressaltam-se em nossa consciência muito mais as diferenças do que as aproximações entre ambos. O importante para Marx, em suas obras, era mostrar em que ele era diferente de Hegel, em que ele estava definitivamente rompendo, já que as semelhanças eram muito mais claras para o público da época, já envolvido no debate, do que para nós hoje (lembremos que Marx foi um hegeliano de esquerda). Ao se ler os Manuscritos econômico-filosóficos de 1844, por exemplo, é muito evidente como Marx se expressava no espírito e nos termos do hegelianismo. Sua análise do proletariado como “classe em si” e “classe para si” é um claro exemplo disso, mas no texto ele não sinaliza isso dizendo algo como: “Neste ponto estou utilizando categorias hegelianas para definir o proletariado”. E se não temos familiaridade com a obra de Hegel, isso simplesmente passa batido.

Outro exemplo da importância de se entender o contexto intelectual se encontra no fato de Marx não ter sido o primeiro filósofo a estudar economia. Ora, o próprio Hegel já era um leitor das primeiras obras econômicas que surgiram em sua época, embora ali o capitalismo estivesse menos desenvolvido do que na época de Marx. De certo modo, pode-se afirmar que um dos motivos que levou Marx a perceber a importância da economia foi sua formação filosófica hegeliana. Ao contrário da pecha de “idealista” que lhe pregam, no sentido de que Hegel e todo o idealismo alemão só se preocupavam com as “ideias”, Hegel era um pensador muito preocupado com o concreto, com a realidade (Wirklichkeit é um termo muito comum em sua obra), de modo que ele chegou a dizer que “a leitura do jornal é a oração matutina do homem moderno”. O filósofo alemão Fichte também se envolvia em movimentos políticos e buscava elevar o nível de consciência do povo para promover mudanças sociais na Alemanha. Assim, Marx não foi nem o primeiro filósofo preocupado em transformar a realidade, nem o primeiro a estudar economia, embora tenha sido o mais consequente desses.

Dessa maneira, ao se ler Marx no espírito do próprio marxismo, isso é, ao se ler Marx de uma forma realmente marxista, compreende-se que ele não é um surgimento abrupto, anômalo e desconectado de seu próprio tempo, e que tampouco estão esgotadas todas as contribuições anteriores ou posteriores a ele. Pois o pensamento muito comum de que “tudo anterior a Marx foi superado, agora basta estudar Marx” é falso e leva ao dogmatismo, ou seja, à morte da filosofia.

Lênin foi claro sobre a necessidade de se estudar Hegel quando afirmou: “Não se pode compreender plenamente O capital, de Marx e, particularmente, o seu primeiro capítulo, sem ter estudado e compreendido toda a Lógica de Hegel. Portanto, meio século depois de Marx, nenhum marxista o compreendeu!”. Lênin inclusive deixou algumas anotações que foram publicadas postumamente sob o título Cadernos sobre a dialética de Hegel.

Lemos também, na Biografia ilustrada de Lênin (Elio Bolsanello, Edições Manoel Lisboa) que, em seus últimos dias, já bastante doente, mas preocupado com a consolidação ideológica do partido, Lênin visitou o Kremlin pela última vez, no dia 18 de outubro de 1923, “pôs em ordem seus cadernos, pegou três volumes de Hegel e levou-os consigo…” (grifo nosso). Isto é, para aprofundar sua compreensão do marxismo, Lênin, em seus últimos dias, se preocupava em estudar Hegel.

Para o estudo da filosofia marxista é importante conhecer – repetimos – não só o contexto material e econômico da sociedade na qual as obras surgiram, mas também o contexto espiritual, no sentido daquilo que estava sendo produzido no campo das ideias, as quais não podem ser consideradas meros “reflexos” do contexto material (como interpreta erroneamente certa corrente mecanicista do marxismo).

Ter contato direto com os clássicos e evitar ao máximo os manuais

Outro ponto importante para o estudo da filosofia marxista é o contato direto com os textos dos filósofos. O recurso a manuais não pode ser o principal meio de acesso à filosofia. Embora manuais como Princípios Fundamentais de Filosofia, de Politzer, possam ter alguma utilidade como introdução, eles nunca poderão oferecer uma formação filosófica propriamente dita nem mesmo substituir a leitura das obras de Marx. Não há atalhos para isso. Uma das características das obras de filosofia, de forma geral, é que elas só começam a ser compreendidas (de fato, e não aparentemente) por volta da quinta leitura, e isso não é diferente com os Manuscritos econômico-filosóficos ou com A Sagrada Família, de Marx. Assim, o estudo da filosofia exige tempo e esforço, mas não é de modo algum impossível.

Uma compreensão profunda do real é um pressuposto para sua transformação

Certa vez, em uma carta, Hegel afirmou que se convencia cada dia mais da importância do trabalho teórico, e que, uma vez revolucionado o mundo das representações, a realidade (Wirklichkeit) não poderia escapar também dessa transformação. Embora faltasse a Hegel o conceito de práxis, que seria desenvolvido por Marx para efetuar tal transformação, percebe-se já nele certa preocupação em transformar o real, e a importância do trabalho teórico para isso. E não foram a vida e a obra de Marx um imenso e colossal esforço para interpretar a realidade e adquirir o conhecimento necessário para transformá-la? A obra mais extensa de Marx, O capital, não é uma especulação sobre como seria uma sociedade socialista, mas sim uma análise do capitalismo. E também Lênin, citando Engels em O que fazer?, afirma que a luta do proletariado se dá em três frentes: política, econômica e teórica.

A filosofia marxista deve ser estudada, portanto, como filosofia, e não como dogma, não como um conjunto de doutrinas prontas e acabadas que se esgotam no próprio Marx, pois Marx não se esgotou em si mesmo. Não reconhecer o que pode haver de verdade em toda a história da filosofia significa não compreender o próprio marxismo, que não foi uma criação ex nihilo de Marx. A superação dialética, do termo alemão Aufhebung (que não possui tradução exata para o português), envolve a conservação de parte daquilo que será superado, ou seja, não é a completa aniquilação e nem é um mero ecletismo. Isso quer dizer que a filosofia marxista deve ser estudada dialeticamente, em seu devir, em suas múltiplas determinações e conexões. Ao estudar a filosofia marxista enquanto filosofia, e não como dogma ou livro sagrado, os marxistas poderão apreender a essência daquilo que Marx realizou e continuar, segundo seu método, desenvolvendo a tradição filosófica do proletariado.

Glauber Ataide, Belo Horizonte