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sábado, 11 de abril de 2026
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Nada de esquecer: justiça é punir os torturadores da Ditadura

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“Se não falar, será quebrado por dentro, pois sabemos fazer as coisas sem deixar marcas visíveis. Se sobreviver, jamais esquecerá o preço de sua valentia”, disse o capitão Bernone de Arruda Albernaz a frei Tito, quando de sua entrada no DOI-Codi. Frei Tito Alencar Lima (v. A Verdade, nº141) ficou mais de um mês sob as garras do famigerado delegado Sérgio Fleury; sobreviveu, mas sua alma ficou profundamente ferida e ele acabou se suicidando. Centenas de prisioneiros políticos morreram sob as torturas mais cruéis no período da Ditadura Militar (1964-1985).

Não tem este artigo o objetivo de descrever esses métodos bestiais utilizados apenas por seres humanos degenerados; tantos, inclusive, que sentiram na própria pele e no espírito os seus efeitos, já o fizeram. O seu fim é refletir sobre a seguinte questão: merecem anistia tanto os que pegaram em armas, expropriaram bens, sequestraram e mataram no combate à ditadura quanto os agentes do Estado que torturaram sadicamente para obter confissões?

Os guerrilheiros nunca torturaram alguém. Atingiram em combate, eventualmente, alguma pessoa que nada tinha a ver com o regime ditatorial que imperava no País. Compare isso com a montagem de uma estrutura profissional, equipada de agentes recrutados no próprio meio militar ou entre policiais civis integrantes de esquadrões da morte: os Dops e DOI-Codi. Nessas casas da morte, os agentes não podem ser classificados de valentes, e sim de modelos de covardia, ao bater, dar choques elétricos, humilhar, empalar homens e mulheres de mãos atadas, sem nenhuma chance de defesa.

Por isso, a tortura é classificada como crime hediondo e imprescritível pelos órgãos internacionais de direitos humanos. A Corte Interamericana de Direitos Humanos decidiu que o Brasil descumpriu a Convenção Americana de Direitos Humanos em duas ocasiões: por não processar e julgar os autores dos crimes de homicídio e ocultação de cadáver de mais 60 pessoas, na Guerrilha do Araguaia, e quando o Supremo Tribunal Federal interpretou a lei de anistia de 1979 considerando que a legislação apagou os crimes de tortura e assassinato de militantes por parte de agentes do Estado brasileiro.

Tais crimes hediondos ocorreram nas dependências do Exército, da Marinha e da Aeronáutica, já devidamente identificadas, assim como muitos dos torturadores. O tenente-coronel Paulo Malhães falou à Comissão da Verdade do Rio de Janeiro e foi explícito. Confessou que torturou e matou tantos quanto foi necessário, na Casa da Morte, em Petrópolis, e informou como procedia para que os cadáveres não fossem identificados: “Naquela época, não existia [exame de] DNA. Quando você vai se desfazer de um corpo, quais as partes que podem determinar quem é a pessoa? Arcada dentária e digitais. Então você quebrava os dentes. As mãos, cortava daqui para cima”. Poucos dias depois do depoimento, foi assassinado, dentro de sua casa, num assalto mal explicado (não teria sido queima de arquivo?).

A Lei da Anistia – nº 6.683/79 – foi promulgada ainda no regime militar, no governo do ditador João Baptista Figueiredo, e concedia “anistia a todos quantos, no período compreendido entre 2 de setembro de 1961 e 15 de agosto de 1979, cometeram crimes políticos ou conexos com estes, crimes eleitorais, aos que tiveram seus direitos políticos suspensos”. É com base no termo “conexos com estes”, que o STF conclui que não cabe punição às torturas e assassinatos praticados nas dependências das Forças Armadas, pois estariam anistiados em conformidade com a lei, visto que seriam crimes conexos com os crimes políticos.

A Constituição Federal de 1988 diz em seu artigo 5º, inciso XLIII: “A lei considerará crimes inafiançáveis e insuscetíveis de graça ou anistia a prática de tortura, o tráfico ilícito de entorpecentes e drogas afins…..”. A norma constitucional não se aplicaria, entretanto, aos crimes praticados pela ditadura, pois de acordo com o princípio do direito, a lei não retroage, a não ser para beneficiar o réu.

Depois de muita mobilização dos familiares de “desaparecidos” durante a ditadura, entidades de direitos humanos, organizações de esquerda e a Igreja, especialmente a Arquidiocese de São Paulo, com a publicação Tortura, nunca mais, houve muitos avanços em nosso país quanto à responsabilização do Estado brasileiro, mas insuficientes, haja vista a não abertura total dos arquivos da repressão e a não punição dos responsáveis e executores.

Em 1995, o governo brasileiro promulgou a Lei nº 9.140, assegurando reparação moral às vítimas da ditadura militar no País por meio de indenização às suas famílias. Essa lei estabeleceu ainda a criação da Comissão Especial de Mortos e Desaparecidos Políticos (CEMDP), com o objetivo de promover o reconhecimento do Estado mediante a responsabilidade pelos crimes cometidos durante o período da repressão política. Nos 11 anos de atuação (1996-2007), a CEMDP recebeu processos referentes a 475 vítimas. Desse total, 136 nomes já constavam no Anexo I da Lei nº 9.140/95. Os outros 339 casos foram objeto de análise da Comissão. Desse número, 221 casos foram deferidos e as famílias foram indenizadas, e 118 casos foram indeferidos. A lei teve caráter restrito, pois não permitiu a localização dos restos mortais dos desaparecidos e não garantiu punição aos que praticaram os crimes. A indenização das famílias foi concretizada pela Lei nº 10.559/2002.

A Comissão Nacional da Verdade (CNV) foi criada pela Lei nº 12.528/2011 e instituída em 16 de maio de 2012. A CNV tem por finalidade apurar graves violações de direitos humanos ocorridas entre 18 de setembro de 1946 e 5 de outubro de 1988. O mandato da CNV foi prorrogado até dezembro de 2014 pela Medida Provisória nº 632.

Além da Comissão Nacional, foram criadas Comissões da Verdade nos Estados. A atuação dessas comissões tem trazido fatos à tona, confirmado outros sobre os quais se tinha informações ou evidências, como é o caso do assassinato e sumiço do cadáver do deputado Rubens Paiva, entre tantos.

Fruto de toda essa luta, algumas ossadas enterradas clandestinamente foram localizadas e as vítimas puderam ser sepultadas por seus familiares e admiradores com as honras merecidas, heróis que foram – a exemplo de Manoel Lisboa de Moura e Emmanuel Bezerra dos Santos.

Entretanto, ainda há muito a lamentar e por fazer. A lamentar, a destruição de aproximadamente 19,4 mil documentos secretos produzidos ao longo da ditadura militar (1964-1985) pelo extinto Serviço Nacional de Informações (SNI). A destruição foi determinada pela chefia do SNI no segundo semestre de 1981 (no governo do ditador João Figueiredo).

As Forças Armadas, por sinal, não reconhecem oficialmente a prática de tortura nas suas dependências, com autorização ou conhecimento dos seus comandantes, apesar de todos os testemunhos, evidências e provas materiais já apresentados. Isso é grave, pois o reconhecimento e a autocrítica seriam sinais de desaprovação e compromisso público de não repetir essa prática abominável. A negativa ou o silêncio deixam aberta a possibilidade de repetição.

Os crimes, por sua vez, não podem ficar impunes; por isso, a luta continua, reforçada pelo posicionamento da Corte Interamericana de Direitos Humanos. Afirma a Corte: “São inadmissíveis as disposições de anistia, as disposições de prescrição e o estabelecimento de excludentes de responsabilidade que pretendam impedir a investigação e punição dos responsáveis por graves violações dos direitos humanos, como a tortura, as execuções sumárias, extrajudiciais ou arbitrárias, e os desaparecimentos forçados, todas elas proibidas, por violar direitos inderrogáveis reconhecidos pelo Direito Internacional dos Direitos Humanos”.

Esquecer, jamais. Punir os culpados, para que nunca mais se repitam as violações dos direitos fundamentais e elementares da pessoa humana, é tarefa não apenas dos revolucionários, mas de todas as pessoas de bem!

José Levino, historiador

Cúpula do Clima constata avanço na destruição do Planeta

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climate summit - rtr2zxltEm setembro de 2014 foi realizada mais uma “Cúpula do Clima” da ONU, que, outra vez, acabou sem acordo entre os países para buscar uma solução aos problemas climáticos do planeta causados pelo homem. Com isso, o povo e os milhares de manifestantes que estiveram nas ruas de Nova York, onde ocorreu o evento, sabem que a situação ambiental vai caminhando para uma destruição sem volta.

Mas não só os manifestantes têm consciência disso, pois essa é a realidade apontada por uma pesquisa científica sobre as espécies animais, publicada na capa de uma edição especial da revista Science – uma das mais respeitadas do mundo –, que teve a participação do pesquisador brasileiro Mauro Galetti, professor do Departamento de Ecologia da Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho (Unesp).

Essa pesquisa traz novas visões sobre o Antropoceno, ou seja, a atual etapa geológica vivida pela Terra, caracterizada pela intensa ação humana que produziu mudanças significativas no clima, na biodiversidade, na atmosfera e nos oceanos. Os impactos da atividade humana sobre a natureza estão sendo capazes de alterar até mesmo as rochas, que demoram milhares ou milhões de anos para sofrerem alterações, mas que poderão ser identificadas no futuro como pertencentes à época atual.

Sabemos que esses impactos não são positivos e que a destruição da natureza pelo homem é uma certeza que não pode ser negada; só resta a dúvida sobre quando ela começou. Alguns pesquisadores entendem que foi há 100 mil anos, quando nossos ancestrais saíram da África para povoar o resto do mundo, outros defendem a hipótese de que foi com a invenção da agricultura, há 10 mil anos, e outros dizem que foi com a Revolução Industrial, há cerca de 200 anos.

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A forma devastadora como o ser humano explora a natureza é, atualmente, a principal causa da extinção de espécies. Não à toa, mesmo que espécies estejam desaparecendo há 12 mil anos, os pesquisadores definiram o ano de 1500 como o início do extermínio de outras espécies pela ação humana. É só lembrarmos que o ano de 1500 marcou o início da expansão do capitalismo mercantilista com a descoberta da América e a devastação deste continente junto com a África e a Ásia. Desde então, 322 espécies de vertebrados foram extintas, como o tigre-da-tasmânia, o rinoceronte-negro e o dodô (uma ave que não conseguia voar, assim como a galinha).

A principal causa da matança dos animais ainda é a caça para alimentação, seja por necessidade, como na África, ou por diversão, como nas caçadas que envolvem reis e milionários mundo a fora. A segunda causa é a destruição do habitat (moradia), provocada pelo desmatamento. Hoje, a ganância do lucro no campo tem causado o desmatamento em regiões como a Floresta Amazônica para atender a interesses do agronegócio. A introdução de espécies invasoras também ajuda na extinção. Por exemplo: com a chegada dos europeus ao Brasil, cães e gatos passaram a disputar alimentos ou a atacar os animais nativos do Brasil, como pássaros, macacos, tatus e cotias. Isso acontece ainda hoje em parques que viraram morada de cães e gatos abandonados.

As extinções não são novidade para o nosso planeta. A Terra já passou por cinco delas nos últimos 500 milhões de anos, sendo a mais famosa a do período Cretáceo, que eliminou os dinossauros. A diferença fundamental é que as outras cinco foram causadas por acontecimentos naturais, como mudanças na temperatura global, ação de vulcões ou a queda de asteroides. Já o Antropoceno é a única delas causada por uma única espécie: o homem.

Se contarmos as espécies em risco de extinção, os dados mostram que a população animal vem caindo porque elas não têm tempo de se reproduzirem antes de serem mortas. Somente nos últimos 40 anos, a população animal caiu 28%, ou seja, para cada 100 animais que existiam em 1970, hoje só temos 72.

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Mas a extinção de espécies animais não causa problemas apenas para a fauna (nome dado à diversidade de animais em uma região), mas também para a flora (diversidade de plantas). Animais como pássaros, macacos, roedores e abelhas são responsáveis por carregar e espalhar as sementes ou o pólen de flores, que darão origem a novas árvores e florestas. Hoje existem várias “florestas vazias”, que são aquelas que possuem árvores e plantas, mas não possuem animais. Essas florestas são pobres e improdutivas. A Mata Atlântica não possui nenhum dos principais animais semeadores em 88% do seu território, e a Serra do Mar, no Estado de São Paulo, possui apenas pássaros.
Por isso, o “capitalismo verde” não soluciona o problema ecológico. Plantar eucaliptos não é reconstruir uma floresta.

A solução imediata para evitar um desastre ainda maior para os seres vivos é o fim da exploração desenfreada das florestas e do extermínio de animais; a segurança de áreas protegidas como parques e reservas naturais contra caçadores e o repovoamento com espécies nativas, que podem ser recuperadas das mãos de traficantes; e obrigar os donos de grandes fazendas a fazer não apenas o reflorestamento, mas também o refaunamento, povoando as florestas replantadas com animais semeadores para que estas se mantenham de pé.

Como disse o pesquisador Galetti: “Essa pesquisa rebate o discurso de que o dinheiro usado para salvar o mico-leão-dourado poderia ser empregado para construir hospitais e escolas. Acontece que não estamos preocupados com o mico-leão porque ele é bonitinho, mas sim porque ele dispersa mais de 100 espécies de plantas, que ajudam a controlar o clima e melhorar a qualidade da água. Os animais são essenciais em processos ecológicos chave para a própria sobrevivência dos seres humanos”.

Mas a solução real para o equilíbrio da vida humana na natureza se dará apenas em uma sociedade socialista, na qual os recursos naturais serão usados para garantir uma vida de qualidade para o ser humano, mas com respeito aos outros seres vivos e à natureza.

Lucas Marcelino, diretor da UNE e militante da UJR

Legalizar o aborto para proteger a vida das mulheres

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Agência Brasil - ABr - Empresa Brasil de Comunicação - EBC

Nas últimas semanas, o tema do aborto ocupou grande destaque nos noticiários devido à morte de duas mulheres no Rio de Janeiro após tentarem interromper a gravidez em clínicas clandestinas.

Jandira Magdalena dos Santos Cruz, de 27 anos, e Elisângela Barbosa, de 32 anos, assim como milhares de outras mulheres brasileiras, perderam e continuam perdendo suas vidas precocemente porque o aborto ainda é considerado crime no Brasil e o debate sobre sua legalização é boicotado pelos setores mais reacionários do país.

Aborto inseguro

O aborto inseguro é aquele feito por um indivíduo sem prática, habilidade e conhecimentos necessários ou em ambiente sem condições de higiene. No Brasil, de acordo com o DataSUS, o aborto inseguro é a quinta causa de morte materna, vitimando uma mulher a cada dois dias. Na Europa, onde a interrupção voluntária da gravidez é permita pela maioria dos países, 90% dos abortos são seguros.

Na maioria dos casos, as mulheres pobres são as principais vítimas de problemas decorrentes de abortos inseguros. “Existe uma diferença entre aborto clandestino e inseguro. O aborto clandestino não é necessariamente inseguro. Ele pode ser feito em clínicas clandestinas, porém com todas as condições de higiene, por médicos treinados, quando a mulher tem dinheiro para pagar”, afirma Jefferson Drezett, ginecologista e obstetra representante do Grupo de Estudos do Aborto (GEA).

Segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), cerca de um milhão de abortos ocorrem por ano no Brasil, ou seja, mesmo sendo proibido, as mulheres não deixam de recorrer ao procedimento. Logo, se queremos que casos como os de Jandira e Elisângela não ocorram mais, é preciso debater seriamente e sem preconceito o tema da legalização do aborto e o direito da mulher em decidir sobre seu corpo, pois estamos falando de um problema de saúde pública e da vida de milhões de mulheres.

É o que defende o presidente do Conselho Federal de Medicina, Roberto Luiz d’Ávila. Segundo o médico, “não podemos fingir que não está acontecendo nada. As mulheres decidem interromper a gravidez hoje, decidiram ontem e vão decidir sempre. Enquanto as que podem pagar estiverem protegidas e fazendo esse aborto com segurança – e são as filhas de juízes, médicos e advogados muitas vezes –, ninguém vai se preocupar com aquelas que são de cor negra, pobres e não podem fazer essa interrupção da gravidez com segurança”.

Dito de outra forma, para as mulheres ricas, o aborto já é, de certa forma, legalizado, visto que pode ser feito em condições seguras e não sofre nenhum tipo de discriminação hipócrita da sociedade, ao contrário do que acontece com as mulheres pobres, a maior parte delas negras.

Países legalizaram aborto

Apesar de ainda ser um tabu no Brasil, o tema do aborto já foi abordado por uma série de outros países, que legalizaram a prática e garantiram às mulheres condições seguras de interromper a gravidez.

É o caso do Uruguai, que, desde que legalizou o aborto, em 2012, não registrou mais nenhuma morte materna em decorrência da interrupção consciente da gestação. Ao mesmo tempo, o país vizinho implementou uma política séria de planejamento familiar, educação sexual e atenção à mulher, que levou à diminuição do número de abortos de 33 mil para 4 mil por ano, derrubando o argumento dos defensores da criminalização do aborto de que, uma vez legalizado, a prática se tornaria corriqueira e generalizada.

Na verdade, em todos os países em que o aborto não é crime, como Holanda, Espanha e Alemanha, a taxa de mortalidade vem diminuindo ano após ano, bem como o número de interrupções, pois a legalização do aborto é acompanhada de uma política efetiva de planejamento reprodutivo e educação sexual.

Por que legalizar o aborto?

Hoje, a legislação brasileira só permite a interrupção da gravidez para fetos anencéfalos (em que não ocorreu formação do cérebro), em situações onde as mulheres correm risco de vida caso a gravidez continue e em casos de violência sexual. A mulher que fizer o aborto fora destes critérios pode responder a processo e até ser presa.

Essa proibição leva milhares de mulheres a procurar clínicas clandestinas de aborto ou simplesmente realizá-lo em casa, muitas vezes, sem as condições necessárias para garantir a segurança da gestante, daí o número tão grande de mortes.

Defender a vida das mulheres é defender seu direito a decidir sobre seu corpo, garantir melhores condições de vida e trabalho, uma rede de atendimento de saúde de qualidade e uma política de planejamento familiar e sexual que efetivamente funcione.

Chega de hipocrisia!

Os mesmos setores que defendem com unhas e dentes a criminalização do aborto com o argumento de que estão defendendo a vida, são os primeiros a virarem as costas à mãe e à criança pobre, que deverão enfrentar sozinhas e sem nenhum amparo do Estado todas as dificuldades impostas pelo sistema capitalista existente em nossa sociedade.

Logo, devemos lutar por uma política nacional de educação sexual para prevenir a gravidez indesejada, o uso de contraceptivo para não engravidar e a legalização do aborto para acabar com a morte de tantas Jandiras e Elisângelas pelo país.

Gabriela Gonçalves é professora no Rio de Janeiro

Dos Estados Unidos ao Brasil: a morte do povo negro nas mãos da polícia

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michael_brown-331275Um negro, morto a tiros pela polícia, torna-se notícia em vários cantos do mundo. Seu nome? Michael Brown, mas poderia ser João, Ana, Douglas. O local? Ferguson, nos Estados Unidos, mas poderia ser São Paulo, Rio de Janeiro, uma cidade qualquer da Colômbia ou da África do Sul. A morte da população negra nas mãos de um “Estado branco” é rotina no mundo em que vivemos. Afinal, enquanto Michael Brown era assassinado, quantos outros jovens negros e negras também não estavam sendo?

Analisar a morte de Brown é lembrar-se dos assassinatos de Amarildo Sousa e de Cláudia Ferreira, ambos no Rio de Janeiro, e isso nos dá a certeza de que o genocídio da população negra em várias partes do mundo não é tragédia, mas apenas um rodapé nas páginas dos jornais.

Para que os gritos do povo negro sejam escutados é preciso uma prática radical, um desafio à ordem e às leis vigentes de um Estado e de uma sociedade que somente privilegiam os brancos.

“A carne mais barata do mercado é a negra, que vai de graça pros presídios e pra debaixo do saco”. Em sua música A carne, Elza Soares consegue evidenciar a realidade do corpo negro na sociedade, a exclusão e negação que são rotinas em suas vidas. Aliás, quantos jovens negros estão nos presídios e quantos estão nas universidades? Qual população encontra-se hoje encurralada nos guetos das grandes cidades? A juventude branca ou a juventude negra?

Pesquisa do Ipea realizada em 2013 aponta que, a cada três assassinatos no Brasil, dois vitimam negros. Segundo essa mesma pesquisa, as chances de um jovem negro ser morto é 3,7 maior que um jovem branco. A realidade brasileira não difere da realidade nos Estados Unidos, onde a taxa de desemprego entre os negros é de 11, 4% (pesquisa do National Poverty Center).

Nas escolas, aprende-se que a escravidão no Brasil acabou e, assim, os negros hoje são livres. Mas como se pode afirmar isso se a polícia brasileira mata em proporções semelhantes à polícia sul-africana no período do apartheid? E os policiais das Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs) nas favelas cariocas desempenham papel semelhante ao dos capitães do mato no período da escravidão?

A violência do Estado racial, que toma forma na mão de policiais militares, matou Michael Brown, assim como matou Amarildo, Cláudia, os jovens da Chacina da Candelária, o dançarino DG e tantos outros. Para mudar essa situação é preciso mais que uma bênção dos orixás, é preciso a luta do povo negro por sua real libertação. Dessa forma, a morte do povo negro não será apenas mais uma notícia nas páginas de jornal.

Rafael Cantuária, militante da UJR

O fracasso da política de guerra do imperialismo

eua no afeganistãoApesar do tão propalado poderio militar norte-americano e das centenas de bilhões de dólares gastos com a chamada “guerra ao terror”, as tentativas dos Estados Unidos de acabar com a Al-Qaeda e impor à força governos submissos aos seus interesses e aos grandes monopólios capitalistas no Oriente Médio fracassaram vergonhosamente, levando a região a uma grave crise econômica, política e humanitária.

De fato, ao invés da democracia e da prosperidade prometidas, Iraque, Afeganistão, Líbia e Síria encontram-se hoje afundados em guerras civis, com suas economias destruídas, suas riquezas saqueadas e vivendo na mais completa miséria.

Afeganistão

Desde o início da ocupação estadunidense, em 2001, a população afegã vem sofrendo com o aumento da violência. Segundo a ONU, nos seis primeiros meses deste ano o número de civis mortos no Afeganistão aumentou 17% em relação ao mesmo período do ano passado. Ao todo, 1.564 pessoas perderam suas vidas, enquanto outras 3.289 ficaram gravemente feridas, vítimas de conflitos entre as forças oficiais e o Talibã, que ainda controla boa parte do país.

Apesar das inúmeras riquezas que possui – o Afeganistão tem reservas de petróleo estimadas em 1,8 bilhão de barris e é rico em ferro, cobre, cobalto, ouro e metais fundamentais para a indústria, como o lítio – a pobreza cresceu, a expectativa de vida diminuiu drasticamente, enquanto a mortalidade infantil, a fome e a desigualdade social estão entre as maiores do mundo. Hoje, 36% da população vive abaixo da linha da miséria, 35% dos adultos estão desempregados e 1,5 milhão de pessoas passam fome. O país tem também a segunda maior taxa de mortalidade materna do mundo, atrás apenas de Serra Leoa, e a maioria dos afegãos não tem acesso à água potável, ao saneamento básico e à luz elétrica – em pleno século 21.

Iraque

Onze anos após a invasão norte-americana, o Iraque vive uma profunda guerra civil e está praticamente desgovernado. Como resultado, o território iraquiano tem sido controlado por grupos paramilitares armados e financiados pelos Estados Unidos anteriormente, como é o caso do Estado Islâmico, que já domina parte das regiões norte e noroeste do país.

As tão procuradas armas químicas e de destruição em massa jamais foram encontradas, bem como nunca foram comprovadas as supostas ligações do antigo governo iraquiano com grupos terroristas.

A verdade é que o Iraque hoje é um país completamente destruído e dividido pela guerra. Centenas de milhares de pessoas perderam suas vidas e outras tantas foram mutiladas, e a insegurança, o desemprego, a fome e a falta de água potável e outros serviços básicos são uma realidade para a maioria do povo.

Segundo a Cruz Vermelha, 25% da população iraquiana vive abaixo da linha da miséria, 64% enfrentam dificuldades econômicas sérias para sobreviver, 88% não têm acesso à luz elétrica e 86% não têm água em casa. A desnutrição atinge mais de 30% dos habitantes e cerca de 70% das crianças iraquianas sofrem de problemas psicológicos.

Líbia

Intensamente bombardeada pelas tropas da Otan, a Líbia vive em meio ao caos desde que um levante apoiado pela mesma Otan derrubou e matou o ex-presidente Muamar Kadafi, em 2011.

O país sofre com a guerra civil entre milícias, conflito que já matou mais de 50 mil pessoas. Segundo relatório da ONU divulgado no começo de setembro, nos últimos quatro meses os conflitos pelo controle das duas maiores cidades do país, Trípoli e Benghazi, provocou a fuga de mais de 250 mil pessoas. Até embaixadas foram fechadas. Tanto o governo quanto o parlamento líbio encontram-se refugiados na cidade de Tobruk devido à falta de segurança, enquanto na capital, Trípoli, um governo paralelo foi instalado.
Síria

Na Síria a situação não é diferente. Mais de nove milhões de sírios já abandonaram suas casas e cerca de 11 milhões de pessoas precisam da ajuda humanitária para sobreviver.
Segundo o Alto Comissariado da Organização das Nações Unidas para os Refugiados (Acnur), 2,9 milhões de sírios estão refugiados em outros países, número que aumenta em 100 mil pessoas todos os meses e deve chegar a 3,6 milhões até o fim do ano.

Ainda segundo a ONU, o número de mortos no país até abril deste ano é de 191.369, mas está subestimado, pois muitas mortes nunca foram registradas. Entre as vítimas, pelo menos 8.803 eram crianças, das quais 2.165 tinham menos de 10 anos. “Lamento profundamente que, com o surgimento de tantos outros conflitos armados neste período de desestabilização global, os combates na Síria e as suas consequências dramáticas para milhões de civis tenham desaparecido dos radares internacionais”, desabafou a alta comissária da ONU para os Direitos Humanos, Navi Pillay.

Desde o início, os Estados Unidos e outras potências imperialistas articularam as manifestações de oposição ao governo sírio, financiando e armando grupos paramilitares, alguns deles ligados à Al-Qaeda, que hoje promovem um verdadeiro massacre contra a população do país.
Nova ofensiva

Apesar disso, nenhuma das potências imperialistas parece se preocupar com o sofrimento dos povos desses países ou pensa em rever sua política para região. Ao contrário, continuam gastando fortunas na compra de novos aviões, tanques, mísseis, fuzis, navios, submarinos e drones, e quase nada para resolver a fome e todos os outros problemas sociais que eles mesmos provocaram.

Ao mesmo tempo, enquanto as guerras do imperialismo ferem a soberania dos povos e matam e destroem as esperanças de milhões de pessoas no Iraque, Afeganistão, Síria e Líbia, a indústria do petróleo não tem do que reclamar, pois viu seus lucros dispararem devido aos conflitos no Oriente Médio. De fato, em 2003, o preço do barril de petróleo custava cerca de US$ 25, enquanto hoje gira em torno de 95 dólares, tendo chegado a US$ 140 em 2008. Outros setores econômicos também têm lucrado bastante com as guerras, especialmente a indústria de armas e a da reconstrução.

É para garantir esses lucros que, desde o início da “guerra ao terror”, em 2001, os Estados Unidos já lançaram mais de 94 mil ataques aéreos contra países como o Iraque, Afeganistão, Líbia, Paquistão, Iêmen e Somália, matando centenas de milhares de pessoas, e agora preparam uma nova ofensiva militar, desta vez contra a ameaça do chamado “Estado Islâmico”.

França e Austrália já divulgaram que participarão dos ataques, enquanto o Reino Unido planeja criar novas bases militares nos Emirados Árabes Unidos, Omã e Bahrein para apoiar as operações.

Trata-se da continuação de uma guerra injusta, ilegal e covarde. Injusta porque é uma guerra imperialista, uma guerra de pilhagem, cujo objetivo é tomar posse das riquezas desses países e explorar seus povos. Ilegal, pois desrespeita os mais básicos princípios do direito internacional e da livre determinação e soberania dos povos, passando por cima de várias resoluções da ONU e da vontade da opinião pública mundial. E covarde porque se trata de uma agressão dos maiores exércitos do mundo contra países pobres e indefesos.

Heron Barroso, Rio de Janeiro

Ministério Público Federal pede a prisão de agentes da ditadura

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agente da ditaduraO Ministério Público Federal (MPF) de São Paulo denunciou à Justiça Federal quatro agentes da ditadura militar pela tortura e assassinato do jornalista Luiz Eduardo da Rocha Merlino, em 19 de julho de 1971, nas dependências do DOI-Codi da capital paulista.

Os acusados são o ex-comandante do DOI, o famigerado coronel reformado do Exército Carlos Alberto Brilhante Ustra, o delegado aposentado Aparecido Laertes Calandra e o delegado da Polícia Civil de São Paulo Dirceu Gravina. Todos são denunciados por homicídio doloso qualificado (quando há intenção de matar). Segundo o MPF, os três, “com outras pessoas até agora não totalmente identificadas, mataram a vítima Luiz Eduardo da Rocha Merlino, por motivo torpe, com o emprego de tortura e por meio de recurso que impossibilitou a defesa do ofendido”. Além deles, o médico legista Abeylard de Queiroz Orsini é acusado de falsificar o laudo necroscópico de Merlino, que afirmava que o jornalista havia morrido vítima de atropelamento.

Além da prisão dos acusados, o Ministério Público também pede o cancelamento de suas aposentadorias, o afastamento imediato de Dirceu Gravina de suas funções na Polícia Civil e a suspensão da licença médica de Abeylard de Queiroz Orsini.

Crimes contra a humanidade

Segundo o MPF, o assassinato de Luiz Eduardo Merlino é caracterizado como um crime contra a humanidade e, por isso, não prescreve nem pode ser anistiado.

Para Ângela Mendes de Almeida, ex-companheira de Merlino, “o significado dessa ação para a família é importantíssimo. Na verdade, era esse tipo de ação, uma denúncia criminal, que queríamos desde o início, quando movemos o primeiro processo na área cível, em 2008. Um crime, um homicídio, ainda mais decorrente de tortura até a morte, tem que ser punido criminalmente”.

Luiz Eduardo da Rocha Merlino tinha 23 anos quando foi assassinado. Nascido em Santos (SP), em 18 de outubro de 1948, era estudante de história na USP e militante do Partido Operário Comunista (POC). Preso em 15 de julho de 1971, Merlino foi levado ao DOI-Codi de São Paulo, onde foi barbaramente torturado, vindo a morrer em decorrência dos graves ferimentos.

Revisão da Lei de Anistia

Mais de 200 investigações já foram abertas pelo MPF para apurar casos de crimes políticos cometidos contra opositores da ditadura e, desde 2011, foram ajuizadas nove ações penais contra 22 agentes da repressão acusados de sequestros, torturas, assassinatos e desaparecimentos de presos políticos.

Porém, devido à interpretação de que a Lei da Anistia se estende também aos agentes do Estado, até hoje nenhum torturador foi punido, apesar de a Corte Interamericana de Direitos Humanos ter condenado o Brasil a investigar e punir as violações cometidas durante o período, as quais não seriam passíveis nem de anistia nem de prescrição.

Além disso, mesmo após a criação da Comissão Nacional da Verdade (CNV), uma série de dificuldades são impostas pelas Forças Armadas para que a verdade sobre os crimes cometidos durante a ditadura seja revelada, como prova a ordem do comandante do Exército, general Enzo Peri, que proíbe, na prática, os quartéis de colaborar com as investigações

Essa resistência por parte do Exército, e também da mídia burguesa, legitima a prática da tortura existente até hoje nos presídios e delegacias de nosso país e reforça a impunidade.

A menos de três meses do fim dos trabalhos da Comissão Nacional da Verdade, previsto para dezembro deste ano, é preciso aumentar a pressão pela revisão da Lei da Anistia, o apoio às ações do MPF no sentido de levar a julgamento os responsáveis pelas torturas, assassinatos e desaparecimentos durante a ditadura militar, além de promover movimentos e ações de massa pela memória, verdade e justiça.

Redação Rio

Unidade Popular pelo Socialismo: é necessário o poder político nas mãos dos trabalhadores

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Leonardo Péricles, da Unidade Popular pelo SocialismoLeonardo Péricles iniciou sua militância ainda estudante secundarista, destacando-se como presidente da Associação Metropolitana dos Estudantes Secundaristas da Grande BH (AMES-BH), estando à frente de dezenas manifestações em defesa do meio-passe estudantil em Belo Horizonte e por educação pública de qualidade. Como estudante da UFMG, foi eleito diretor da União Nacional dos Estudantes (UNE), protagonizando as lutas em defesa do livre acesso dos estudantes à universidade pública e pela assistência estudantil. Convidado para participar da reorganização do Movimento de Luta nos Bairros, Vilas e Favelas (MLB) no Estado de Minas Gerais, foi um dos responsáveis pela retomada das lutas por moradia popular e reforma urbana na capital mineira. É um dos organizadores da Ocupação Eliana Silva, um exemplo de organização popular e trabalho coletivo, e da união das dezenas de ocupações urbanas da Belo Horizonte. Agora, Leonardo assume um novo compromisso, que é a construção de um novo instrumento político para continuar avançando a organização popular em todo o Brasil, a Unidade Popular pelo Socialismo. Em entrevista exclusiva ao jornal A Verdade, ele fala dessa nova experiência, das expectativas e dos desafios que terá pela frente.

A Verdade – Como nasceu a proposta de organizar a Unidade Popular pelo Socialismo?
Leonardo Péricles – Esta ideia não surgiu só agora, mas sim há cerca de oito anos. Um grupo de militantes de diversos movimentos populares, sindicalistas, ativistas e jovens, socialistas e comunistas, de várias partes do país e que desenvolvem importantes lutas pelos direitos do povo, há muito tempo, não se sente representado pelos partidos legais existentes. Após as chamadas jornadas de junho de 2013, quando milhões de pessoas tomaram as ruas do Brasil exigindo direitos historicamente negados (saúde, educação, moradia, democracia, etc.), ficou ainda mais clara a necessidade de organizarmos uma alternativa política para dar resposta a essas demandas. Vivemos num país muito rico, populoso e com muitas riquezas naturais. Temos condições suficientes para resolver todos os principais problemas sociais, ou seja, acabar por completo com a fome, a miséria, o desemprego, a falta de moradia, com o analfabetismo, com a falta de uma saúde pública digna. Temos um povo extremamente criativo, que luta diariamente para sobreviver, que não se rende à opressão, mas que ainda não tem vez neste país. Para esta empreitada, contamos com o apoio de diversas militantes e organizações populares, como o MLB, movimento do qual faço parte de sua Coordenação Nacional, do Movimento Luta de Classes (MLC), da União da Juventude Rebelião (UJR), do Partido Comunista Revolucionário (PCR), do Movimento de Mulheres Olga Benário, dentre outros, que são parte integrante desta construção.

Quais são as principais bandeiras do Partido?

Nosso partido tem como bandeiras principais as mudanças estruturais pelas quais o povo luta há mais de um século no Brasil como, por exemplo, uma reforma agrária popular que tire as terras das mãos dos latifundiários e as entregue aos camponeses pobres; nacionalização de todas as riquezas naturais; nacionalização do sistema bancário e controle popular do sistema financeiro; controle social de todos os monopólios e consórcios capitalistas e dos meios de produção nos setores estratégicos da economia; a reestatização das empresas estatais privatizadas em nosso país, como Vale do Rio Doce, CSN, o sistema de telefonia e de energia; salários dignos para e efetiva justiça para a maioria trabalhadora e o povo.

Lutamos também para construir o socialismo em nosso país, pois esta é a única forma de assegurar nas mãos da classe trabalhadora o poder político. Não se pode conduzir uma luta séria, consequente, em busca da justiça social, se não tivermos este norte. O socialismo é o único sistema que pode garantir a felicidade aos que hoje são oprimidos e explorados pelo sistema capitalista.

As campanhas eleitorais dos três principais candidatos à Presidência da República – Dilma, Marina e Aécio – gastarão quase R$ 1 bilhão. Como pretendem enfrentar esta situação nas eleições?

Para que essas campanhas arrecadem tanto, tiveram que buscar recursos nas grandes empresas, bancos e poderosos monopólios econômicos, que acabam determinando e controlando as principais decisões políticas dos governos através dessas “doações”. E lógico que, ao fazer isso, têm que se comprometer em manter os privilégios desses grupos que os financiam. Não há como governar garantindo os direitos da maioria do povo se esses governantes estão comprometidos com uma minoria, com os donos das fábricas, das terras, dos bancos, que enriquecem explorando justamente a maioria trabalhadora.

Para enfrentar essas campanhas milionárias, que têm como base o marketing, desprezando o debate de ideias e escondendo suas reais intenções, é necessário organizar um movimento capaz de reunir milhões de pessoas, ou seja, devemos responder com militância política. Ao invés de cabos eleitorais pagos, vamos investir na formação de militantes para saírem às ruas, escolas, universidades e bairros populares, que atuem nas organizações classistas, nos sindicatos e entidades combativas, lutadores sociais que representem as forças vivas da sociedade e que defendam transformações profundas.

Mas não é só isso, também temos que acumular força entre os trabalhadores, no que há de mais honesto e sincero que exista no meio do povo, contarmos com milhares de lideranças que não se vendam, que não recebam para fazer campanha e não tenham objetivo de enriquecer e de explorar. Pelo contrário, que lutem contra a compra de votos, contra os privilégios e contra esse modelo de político burguês, com um estereótipo de empresário. Por isso, nosso partido entende que devemos defender as classes exploradas, que são a maioria esmagadora do povo, porque todo partido defende os interesses de uma determinada classe, e, como sabemos, a maioria dos partidos legais defende as classes dominantes.

Por ter havido erros de outros partidos, não quer dizer que não possam haver novas opções que superem esses erros. As diversas experiências devem ser usadas a nosso favor. Podemos acumular forças para que nossas ideias sejam entendidas pelo povo e possamos eleger pessoas comprometidas com os reais interesses populares, mas sem cair em ilusões. O atual sistema econômico e político deve ser derrubado e não simplesmente reformado.

Como pretendem cumprir as exigências da legislação eleitoral para a criação de um novo partido?

Nos últimos anos, surgiram partidos montados artificialmente, comprando pessoas para conseguir assinaturas e até falsificá-las, ou seja, já nascem com esquemas de corrupção.

Nossa construção é popular, de forma que quem está trabalhando no recolhimento de assinaturas, levando nossas fichas para a população, são lideranças populares, sindicais, estudantis, intelectuais comprometidos com as causas sociais, milhares de pessoas com os mesmos objetivos. Por isso mesmo, o trabalho coletivo deve ser o principal. Nós indivíduos somos muito limitados trabalhando sozinhos, mas quando trabalhamos segundo as ideias de um coletivo de pessoas, podemos ir muito longe. Todos os envolvidos na construção da Unidade Popular têm a consciência de estarem contribuindo com a criação de um novo instrumento que possa permitir a libertação da exploração a que milhões estão submetidos hoje.

Onde explicamos as nossas propostas e ligamos essa agitação política com os problemas vividos pelo povo no seu dia a dia, somos bem recebidos. E as pessoas ainda dizem coisas do tipo: “já era hora de isso acontecer”, “realmente estamos sem opção”, “pode contar comigo, já me decepcionei muito, mas acredito que coisa nova pode surgir”.
Também é importante termos muita paciência, pois tem muita gente boa que pode nos confundir com a maioria dos demais partidos burgueses, então temos esses vamos convencer pela nossa prática. Isso que vai diferenciar nossa militância da superficialidade dos demais partidos. Não vamos apenas recolher assinaturas, estamos procurando crescer entre os trabalhadores e somente conseguiremos isso se organizarmos, apoiarmos, incentivarmos e participarmos das lutas do nosso povo. Somos, antes de tudo, uma organização de luta da classe trabalhadora.

Da Redação

O caos da educação pública em Alagoas

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educacao publica alagoasAlagoas carrega os piores índices sociais do Brasil na área de educação. Dados recentes do Programa Internacional de Avaliação dos Estudantes (Pisa) mostram esta lamentável situação: os estudantes alagoanos de 15 anos ficaram com o último lugar em Matemática, com 342 pontos; em Leitura, foram 355 pontos; e em Ciências, 346, alcançando uma média de 347,763. A pior colocação entre os estados brasileiros. Segundo a Pesquisa Nacional de Amostra de Domicílios (Pnad), de 2013, o Estado tem o maior índice de analfabetismo do país, com 21,8% dos habitantes de 15 anos ou mais sem ler nem escrever.

Esta realidade é resultado de sucessivos governos que trabalham apenas para atender os interesses das oligarquias (especialmente os usineiros) que dominam a economia e a política local. Não lhes interessa uma educação pública de qualidade, exatamente pelo fato de serem os filhos dos trabalhadores os que estudam na educação pública. Para eles, o melhor é que os filhos dos trabalhadores continuem sendo mão de obra barata para trabalhar em suas usinas ou pagar penitência no comércio local.

Assim, as escolas estão sempre sucateadas, sem laboratórios nem bibliotecas, sem estímulos ao interesse dos alunos pelo saber, sem incentivo ao esporte, à arte, ao lazer, com escolas apartadas da vida da comunidade onde estão inseridas. Além disso, os professores e funcionários recebem salários baixíssimos e também não se sentem estimulados para exercerem suas funções.

A política do atual governador Teotônio Vilela representa a expressão máxima do descaso com a educação em Alagoas. Basta ver a situação das reformas nas escolas. Qualquer pessoa que observa o resultado das reformas identifica claramente que não foi gasto o que se diz. E, quando o dinheiro público é dilapidado desta forma, além de prejudicar a população trabalhadora do nosso estado, que precisa de um serviço público e de uma educação decente, vai para os famosos caixas dois das milionárias campanhas eleitorais e para o bolso corrupto das empreiteiras.

Não bastasse isso, o governo do PSDB trata de forma vergonhosa os professores aprovados no último concurso da educação. De um total de 2.800, apenas 1.095 foram chamados. Sendo que, segundo a própria Secretaria de Educação e os sindicatos de classe, o déficit no número de professores é de mais 3.500. Hoje, o quadro de professores efetivos nas escolas é inferior a 50%, o que significa que as escolas funcionam tendo em seus quadros uma maioria de monitores, que são professores temporários sem os direitos que um professor efetivo tem, mas com os mesmos deveres. O que isso representa? Uma opção clara de destruir ainda mais a educação pública de Alagoas e adotar um regime de precarização do trabalho nas escolas.

A consequência é que mais de 40 mil alunos, só nos anos de 2011 e 2012, abandonaram as salas de aula. Para cada estudante que não realiza sua matrícula, o Estado deixa de receber R$ 2.285,57 por ano. Agora imaginem, entre 2006 e 2013, 92,8 mil alunos deixaram de se matricular, um prejuízo total R$ 212,1 milhões.

Evidente que a questão não é simplesmente quantificar o prejuízo financeiro, até porque o prejuízo para a vida de todos estes jovens é impagável e não se pode quantificar. A questão é que falta compromisso com o povo.

A primeira coisa que se deve fazer para mudar a realidade da educação pública em Alagoas é não levar em conta os interesses das elites. Neste aspecto, não há possibilidade de mudança qualitativa nas candidaturas postas paras as próximas eleições de Renan Filho (PMDB), Benedito de Lira (PP) e Eduardo Tavares (PSDB). Todos são açúcar do mesmo saco. Vão manter o caos existente. Inclusive, a Secretaria de Educação esteve nas mãos de Benedito de Lira durante o Governo Teotônio Vilela e, até ontem, tanto Benedito de Lira quanto Eduardo Tavares faziam parte da mesma gestão. Renan Filho também não se diferencia em nada. Seu pai, Renan Calheiros, além de usineiro, tem uma trajetória de corrupção em nível nacional.

Portanto, para que as mudanças aconteçam em Alagoas é necessário um grande processo de mobilização popular. O povo precisa exigir nas ruas outra educação e construir alternativas políticas, pois a educação não pode ser tratada como cana de açúcar, triturada no moinho da irresponsabilidade e do descaso das elites.

Magno Francisco, Maceió

Pela punição aos torturadores e assassinos da Ditadura Militar!

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punicao-torturadores-ditaduraMilhares de pessoas já haviam ido às ruas em todo o país reivindicando liberdades democráticas e Anistia Ampla, Geral e Irrestrita. Cerca de cem presos políticos, que ainda mofavam nos cárceres da Ditadura, fizeram 32 dias de greve de fome, só interrompida quando o Congresso Nacional, composto pela situação e pela oposição consentida, aprovou a Lei 6.683, sancionada no dia 28 de agosto de 1979. Governava o Brasil o último ditador, o general João Baptista Figueiredo, que prometia prender e arrebentar quem se opusesse à abertura lenta, gradual e segura do regime.

A anistia, entretanto, não foi ampla, geral e irrestrita, como se reivindicava. Excluía os condenados pelos crimes de terrorismo, sequestro, assalto e atentado pessoal. Estes só foram soltos com a redução das penas resultante de alteração na Lei de Segurança Nacional. Cerca de 150 exilados retornaram à pátria.

E as centenas de mortos e “desaparecidos” nos porões da Ditadura Militar? E a impunidade sobre os agentes do Estado que torturaram, mataram, profanaram e ocultaram cadáveres de opositores?

Na sequência, o Estado assumiu sua responsabilidade pela morte e sofrimento dos prisioneiros, determinou indenização das famílias, instituiu a Comissão da Verdade para apurar os fatos, mas nada de se pronunciar e punir severamente os responsáveis por tais crimes.

O Supremo Tribunal Federal (STF) entende que a lei anistiou todos; mas sua interpretação é política, visto que não se sustenta juridicamente. O texto legal refere-se à anistia dos crimes cometidos por motivação política e os conexos com estes. Ora, a lei penal define como crimes conexos aqueles praticados com o fim de encobrir um crime principal; não em vingança a este.

Está devidamente comprovado que os agentes do Estado – integrantes das Forças Armadas e Polícia Civil – utilizaram toda uma estrutura especialmente montada para torturar barbaramente militantes indefesos a fim de obter confissões, o que levou à morte de muitos que se recusaram a trair seus companheiros de luta. Não foram vítimas apenas os que legitimamente pegaram em armas. A brutalidade atingiu oposicionistas de todos os quilates: padres e freiras, jornalistas, estudantes, operários, camponeses, homens, mulheres e até crianças.

Passar uma borracha nisso tudo e olhar para frente como se nada tivesse acontecido é ser conivente com a barbárie e deixar o caminho aberto para que volte a acontecer, pois a impunidade incentiva o crime. É, como muito bem disse Vera Paiva, filha de Rubens Paiva, eternizar a tortura.

A Corte Interamericana de Direitos Humanos já se pronunciou no sentido da imprescritibilidade dos crimes de tortura, que ferem a Humanidade, além de se tratar de crime continuado, pois muitos cadáveres permanecem desaparecidos, sem que os parentes possam prestar a última homenagem e dar-lhes sepultura digna.

Lamentavelmente, nenhum dos principais candidatos à Presidência da República se pronunciou em seus programas eleitorais ou em entrevistas e discursos favoráveis à punição dos torturadores da Ditadura cometidos pelo Exército. A exceção foi Luciana Genro, candidata do PSOL, conforme vimos na edição nº 165 de A Verdade e num de seus guias, dedicado só para este tema.

Portanto, desenvolver a mobilização nacional e popular pela rigorosa punição dos mandantes e executores dos crimes de tortura praticados nos porões do regime, em suas casas da morte, é tarefa atual para os comunistas revolucionários, mas também para todos os democratas e pessoas de bem.

Só assim teremos enterrado a Ditadura Militar e honrado as centenas de jovens que perderam a vida de forma bárbara e cruel para que pudéssemos dar continuidade à sua luta por democracia e por uma sociedade sem exploradores nem explorados.

Luta, substantivo feminino – Mulheres torturadas, desaparecidas e mortas na resistência à ditadura

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capa_mulheresA Verdade publica a seguir dois depoimentos extraídos do livro Luta, substantivo feminino  – Mulheres torturadas, desaparecidas e mortas na resistência à ditadura, publicado pela Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República, que testemunham as brutalidades cometidas pelos torturadores da Ditadura Militar, verdadeiros terroristas que continuam impunes e protegidos pelas Forças Armadas, e a falta de coragem do Governo e do Congresso Nacional.

“Fomos colocadas na solitária, onde ficamos por três meses, sendo tiradas apenas para sermos interrogadas sob tortura. Era choque elétrico, pau de arara, espancamento, telefone, tortura sexual. Eles usavam e abusavam. Só nos interrogavam totalmente nuas, juntando a dor da tortura física à humilhação da tortura sexual. Eles aproveitavam para manusear o corpo da gente, apagar ponta de cigarro nos seios. No meu caso, quando perceberam que nem a tortura física nem a tortura sexual me faziam falar, me entregaram para uns policiais que me levaram, à noite, de olhos vendados, para um posto policial afastado, no meio de uma estrada. Lá, eu fui torturada das sete da noite até o amanhecer, sem parar. Pau de arara até não conseguir respirar, choque elétrico, espancamento, manuseio sexual. Eles tinham um cassetete cheio de pontinhos que usavam para espancar os pés e as nádegas enquanto a gente estava naquela posição, de cabeça para baixo. Quando eu já estava muito arrebentada, um torturador me tirou do pau de arara. Eu não me aguentava em pé e caí no chão. Nesse momento, nessa situação, eu fui estuprada. Eu estava um trapo. Não parava em pé, e fui estuprada assim pelo sargento Leo, da Polícia Militar. De madrugada, eu percebi que o sol estava nascendo e pensei: se eu aguentar até o sol nascer, vão começar a passar carros e vai ser a minha salvação. E realmente aconteceu isso. Voltei para a solitária muito machucada. A carcereira viu que eu estava muito mal e chamou a médica da penitenciária. Eu nunca mais vou esquecer que, na hora que a médica me viu jogada lá, ela disse: Poxa, menina, não podia ter inventado isso outro dia, não? Hoje é domingo e eu estava de saída com meus filhos para o sítio’. Depois disso, eles passavam noites inteiras me descrevendo o que iam fazer com a minha menina de quatro meses. ‘Você é muito marruda, mas vamos ver se vai continuar assim quando ela chegar.

Estamos cansados de trabalhar com adulto, já estudamos todas as reações, mas nunca trabalhamos com uma criança de quatro meses. Vamos colocá-la numa banheirinha de gelo e você vai ficar algemada marcando num relógio quanto tempo ela leva para virar um picolé. Mas não pense que vamos matá-la assim fácil, não. Vocês vão contribuir para o progresso da ciência: vamos estudar as reações, ver qual vai ser a reação dela no pau de arara, com quatro meses. E quanto ao choque elétrico, vamos experimentar colocando os eletrodos no ouvido: será que os miolos dela vão derreter ou vão torrar? Não vamos matá-la, vamos quebrar todos os ossinhos, acabar com o cérebro dela, transformá-la num monstrinho. Não vamos matar você também não. Vamos entregar o monstrinho para você para saber que foi você a culpada por ela ter se transformado nisso’. Depois disso, me jogavam na solitária. Eu quase enlouqueci. Um dia, eles me levaram para uma sala, me algemaram numa cadeira e, na mesa que estava na minha frente, tinha uma banheirinha de plástico de dar banho em criança, cheia de pedras de gelo. Havia o cavalete de pau de arara, a máquina do choque, e tinha uma mamadeira com leite em cima da mesa e um relógio na frente. Eles disseram: ‘Pegamos sua menina, ela já vai chegar e vamos ver se você é comunista marruda mesmo’. Me deixaram lá, olhando para os instrumentos de tortura, e, de vez em quando, passava um torturador falando: ‘Ela já está chegando’. E repetia algumas das coisas que iam fazer com ela. O tempo foi passando e eles repetindo que a menina estava chegando. Isso durou horas e horas. Depois de um tempo, eu percebi que tinham passado muitas horas e que era blefe.”

Gilze Cosenza, ex-militante da Ação Popular (AP), era recém formada em Serviço Social quando foi presa em 17 de junho de 1969, em Belo Horizonte (MG). Hoje, vive na mesma cidade, onde é assistente social aposentada.

“Toda vez que o guarda abria a cela e vinha com aquele capuz, a gente já sabia que ia apanhar. Numa dessas vezes que foram me buscar, quando chego na sala de tortura, ao tirarem meu capuz percebo que era uma aula. Havia um professor e vários torturadores. Pelo sotaque, percebi que alguns não eram brasileiros, mas provavelmente uruguaios, argentinos. Então me disseram que eu era uma cobaia. Eles começaram a explicar como dar choque no pau de arara. Eu passei muito mal, comecei a vomitar, gritar. Aí me levaram para a cela e, dali a pouco, entrou um médico com outros torturadores.

Ele me examinou, tomou minha pressão e o torturador perguntou: ‘Como ela está?’. E o médico respondeu: ‘Tá mais ou menos, mas ela aguenta’. E aí eles desceram comigo, sob gritos e protestos das companheiras de cela. A aula continuou e acabou comigo amarrada num poste no pátio com os olhos vendados, e os caras fazendo roleta russa comigo, no maior prazer. Essa brincadeirinha levou muito tempo, até que no sexto tiro a bala não veio. Na minha época, eu fui a única a servir de cobaia, acho que eles tinham uma ‘predileção’ especial por mim. No DOl-Codi, a barra foi pesadíssima. Teve pau de arara com choque elétrico no corpo nu: nos seios, na vagina, no ânus. Lá tinha um filhote de jacaré de estimação dos torturadores que eles colocavam para andar em cima do nosso corpo, amarrado numa cordinha. Fiquei três meses no DOl-Codi, depois fui para o Dops e, depois de um tempo, para o presídio de Bangu. Então, fiui transferida para o presídio de Bom Pastor, em Pernambuco.”

Dulce Chaves Pandolfi, ex-militante da Ação Libertadora Nacional (ALN), era estudante de Ciências Sociais quando foi presa em 14 de agosto de 1970, no Rio de Janeiro. Hoje, vive na mesma cidade, onde é professora da Fundação Getúlio Vargas e diretora do Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas (Ibase).

Guerra do Paraguai: o massacre de um povo soberano

Foto Página 12A nação paraguaia libertou-se do domínio espanhol em 1811, tendo assumido o governo José Gaspar Rodriguez Francia, que estabeleceu uma ditadura em favor do povo. Realizou a primeira grande reforma agrária da América do Sul, organizando cooperativas de camponeses sob controle do Estado e adotando o regime de trabalho comunitário baseado na experiência dos guaranis. A elite colonial foi despojada dos seus bens e duramente reprimida, inclusive a Igreja Católica, que teve suas propriedades confiscadas.

O Paraguai não tinha saída para o mar. Foi fácil ao capitalismo internacional, comandado então pela maior potência, a Inglaterra, isolar o país, impedindo desenvolvimento de sua economia, pois não havia como exportar o excedente agrícola que abarrotava os paióis por todo o país.

Quando Francia morreu, em 1840, o Paraguai era o único país sul-americano que não tinha um só analfabeto. Amado pelo povo do seu país, era conhecido no resto do mundo como bárbaro, assassino, terrorista, exatamente porque desapropriou a classe dominante colonialista e não colocou seu país sob o tacão do imperialismo inglês.

Um passo à frente

O sucessor de Francia foi Carlos Antônio Lopez, um dos ricos que fugira para o interior devido à perseguição de Francia e se convenceu de que o caminho melhor para a nação era o adotado por seu perseguidor. Primeiro presidente constitucional da República, seguiu e aprofundou o modelo de desenvolvimento autônomo. Negociou com o Uruguai uma saída para o mar, comprometendo-se a defender aquele pequeno e frágil país contra qualquer invasão estrangeira.

Viabilizando a exportação do excedente produzido, foi possível ao Estado investir na indústria e na infraestrutura. O Governo contratou técnicos europeus e enviou seus jovens para estudar nos países centrais. Com isso, foi possível a criação de tecnologia, o desenvolvimento industrial, a implantação de ferrovias. Em pouco tempo, enquanto Brasil e Argentina importavam de alfinete a botão, o Paraguai tinha uma siderúrgica funcionando 24 horas por dia, tudo isso sem dever a ninguém, com o esforço coletivo de um povo engajado.

Naturalmente, despertou a cobiça dos vizinhos e o temor da Inglaterra de que o exemplo se alastrasse e ela perdesse todo um continente que garantia seu crescimento econômico, fornecendo matéria-prima barata, consumindo seus supérfluos e se endividando cada vez mais.

As classes dominantes de Brasil e Argentina se formaram como sócias menores do capital inglês, de quem já dependiam inteiramente. Portanto, sua visão da realidade não tem como fundamento os interesses nacionais e sim os da metrópole, que são os seus também. Elas também eram atingidas pela autonomia paraguaia e se prestaram, sem vacilar, ao papel sujo de invadir o país vizinho.

Quando morre, em 1862, Carlos Antônio Lopez deixa o Paraguai na seguinte situação: “É o único país da América do Sul que não tem dívida externa nem interna; o único que não tem analfabetos; o mais bem dotado de melhoramentos como telégrafo, ferrovias, linhas de navios para a Europa. Possui o mais moderno sistema de moedas. Está livre da ingerência de bancos estrangeiros em sua economia. Todo esse progresso é a sua sentença de morte!”.

Arma-se a ofensiva militar

O Congresso paraguaio elege para suceder Carlos Antônio seu filho, Francisco Solano López. Não por ser filho, mas por demonstrar, desde os 18 anos, sua capacidade de organizar o Exército e sua qualidade de negociador, posto que, em 1859, conseguiu pacificar as províncias argentinas em conflito. Poderia tê-las ocupado, aproveitando o divisionismo e a fraqueza da confederação argentina. Mas o Paraguai nunca teve pretensões expansionistas, ao contrário do que querem fazer crer certos historiadores, não só os do império, mas até mesmo da época atual. O que queriam os paraguaios era apenas manter a paz e a estabilidade na bacia do Rio Prata.

Quanto à economia, Solano López não tinha muito o que fazer, exceto dar continuidade a um modelo de sucesso, haja vista que o pequeno Paraguai já era conhecido no mundo inteiro. Hábil diplomata, ele vai à Europa e articula apoios, contrata profissionais para ajudar na modernização dos meios de produção, vai de vento em popa.

Negocia tratados com Brasil e Argentina para garantir a paz entre as nações que têm interesse comum na região. Acredita que está tudo bem. Não percebe Solano, como não haviam percebido os governos anteriores, que não bastava negociar pequenas querelas de vizinhos, que a razão maior do conflito estava bem longe, na sede do império britânico.

A ofensiva começa no aspecto ideológico, buscando formar uma opinião pública, restrita às elites, aos que liam jornais, de que no Paraguai havia um regime ditatorial, contrário à civilização. Um diplomata inglês, Edward Thornton, afirma: “…Insignificante em si mesmo, o Paraguai pode impedir o desenvolvimento e o progresso de todos os seus vizinhos. Sua existência é nociva e sua extinção como nacionalidade deve ser proveitosa para seu próprio povo e para todo o mundo”.

Os vizinhos engolem a corda. Bartolomeu Mitre, presidente da Confederação Argentina, deixa escapar em seu jornal La Nación: “A República argentina está no imprescindível dever de formar aliança com o Brasil a fim de derrubar essa abominável ditadura de López e abrir ao comércio do mundo essa esplêndida e magnífica região que possui, talvez, os mais variados e preciosos produtos dos trópicos e rios navegáveis para serem explorados”.

A guerra seria para libertar o povo paraguaio do ditador. Seria rápida. Quando atacaram e ficou claro que o povo lutaria até o último homem, o discurso do diplomata norte-americano Charles Washburn tem o tom de um celerado: “Por sua torpeza e cegueira, junto com outros pecados, o povo paraguaio merece o completo extermínio que o aguarda. O mundo terá justo motivo para congratular-se quando não houver uma só pessoa que fale o endiabrado idioma guarani”.

A trama

Como armar um pretexto para o ataque? Simples. Havia na fronteira do Uruguai com o Rio Grande do Sul 40 mil camponeses brasileiros do lado uruguaio, que já dominavam 30% das terras do país. O Governo do Uruguai, para controlar essa ocupação econômica externa, desordenada, estabelece limites severos, aumenta impostos e proíbe o trabalho escravo. Os gaúchos cobram um posicionamento do imperador. Este envia um diplomata, Antônio Saraiva, para negociar. As conversas resultam infrutíferas. O embaixador britânico Thornton propõe uma comissão tríplice: ele próprio, Saraiva, pelo Brasil, e Elizalde, pela Argentina. São recebidos pelo presidente Berro, mas não há acordo, porque a comissão não pretendia conciliação alguma, apenas utilizar sua impossibilidade para justificar uma intervenção. Entre os pontos em discussão, colocavam algo que nada tinha a ver com o problema dos camponeses brasileiros; apenas dizia respeito à política interna uruguaia.

Frustrada a negociação, seguem para Buenos Aires e assinam o acordo, cujo conteúdo já havia sido traçado anos antes, que une Brasil e Argentina para invadir o Uruguai, fato ocorrido no dia 20 de fevereiro de 1865. O que isso tem a ver com o Paraguai? Tudo. Com o vizinho ocupado, os paraguaios ficam novamente sem saída para o mar, o que iria asfixiar sua economia e, por isso, o Paraguai se comprometera a defender o Uruguai diante de qualquer ataque.

A guerra

O Paraguai não tinha outra saída. Rompeu relações diplomáticas com Brasil e Argentina e partiu para a ofensiva, ocupando o Mato Grosso. Era o que bastava para a tríplice aliança, pois Venâncio Flores, o títere imposto ao Uruguai, juntara-se aos invasores.

A guerra, que esperavam breve, durou cinco anos. O Paraguai tinha um Exército de defesa de 50 mil homens, bem preparado, e toda uma população mobilizada para a luta. Juan Batista Alberdi, em correspondência a Sarmiento, Buenos Aires, 1967, testemunha: “O Exército paraguaio é numeroso relativamente ao seu povo porque não se distingue do povo. Cada soldado defende seu próprio interesse e o bem-estar de sua família, na defesa que faz do seu país”.

Já o Exército brasileiro, composto, em sua maioria, por escravos oprimidos no seu país, não tinha motivação para a luta. Nem o argentino, composto de mercenários. As derrotas e a desmoralização se sucedem até que é nomeado para o Comando da expedição o experiente e temido Duque de Caxias (Luís Alves de Lima e Silva), que impõe a disciplina e reverte os resultados, embora a custo de muitas perdas.

O Exército invasor cometeu abomináveis crimes de guerra, entre os quais se destacam: obrigar prisioneiros paraguaios a lutar contra a sua pátria, contaminar as águas do Rio Paraná com cadáveres de pessoas acometidas pelo cólera para contaminar a população ribeirinha (crime assumido por Caxias em carta a D. Pedro II); venda de prisioneiros como escravos (crime confessado por Bartolomeu Mitre, comandante do Exército argentino, em carta ao vice-presidente Marcos Paz); assassinato de milhares de crianças na batalha de Acosta Ñu (crime ordenado pelo conde D’eu, que assumiu o Comando das tropas em substituição a Caxias).

O genocídio

O Duque de Caxias deu por encerrada a guerra no dia 5 de janeiro de 1868, quando o Exército Imperial chegou a Assunção e estabeleceu um governo títere. Mas a ordem foi continuar. Em carta ao imperador Pedro II, datada de 18 de novembro de 1867, ele pediu demissão. Depois de referir-se à bravura do soldado paraguaio, que via como “simples cidadãos, homens, mulheres e crianças”, questionou: “Quanto tempo, quantos homens, quantas vidas para terminar a guerra, é dizer, para converter em fumo e pó toda a população paraguaia, para matar até o feto do ventre da mulher?”.

Caxias desistiu de ser o coveiro do povo paraguaio, mas o Império, atendendo à vontade maior da metrópole britânica, não arredou pé. Pedro II nomeou para o Comando seu genro, o conde D’eu. Este superou qualquer tipo de violência até então conhecido, a exemplo do episódio de Peribebuy, quando o sádico mandou fechar e incendiar um hospital onde só havia velhos e crianças doentes.

Outro crime foi a batalha de Acosta Ñu, no dia 16 de agosto de 1869. Havia se formado um batalhão de 3.500 crianças, a partir de seis anos, para fazer frente aos invasores, possibilitando a fuga de Solano López com 500 homens, o que restava para defender o país. Cercadas por 20 mil soldados, as crianças foram derrotadas, naturalmente. Muitos, chorando, abraçavam- se nas pernas dos soldados pedindo para não serem mortas, mas não havia contemplação. Eram degoladas sem dó. No final, as mães correram para a mata para resgatar corpos e procurar sobreviventes, mas não parou por aí: o conde foi capaz de ordenar o incêndio da mata, queimando as crianças e suas mães. O 16 de agosto foi estabelecido, posteriormente, como o Dia das Crianças no Paraguai.

Solano e seus últimos companheiros, cem soldados, foram encontrados e derrotados no dia 1º março de 1870. Instado a se render, ele pronunciou suas últimas palavras: “Morro com minha pátria”.

O povo paraguaio foi praticamente exterminado: mais de 75% de sua população foi morta. Dos 800 mil habitantes no início da guerra, restaram 194.000. A população masculina adulta foi dizimada em quase 100%. Sobraram 14 mil homens, em sua grande maioria, crianças com menos de 10 anos e velhos. Sarmiento, argentino, escreve: “A Guerra do Paraguai conclui-se pela simples razão de que matamos a todos os paraguaios maiores de dez anos”.

O Paraguai perdeu 140 mil quilômetros quadrados do seu território, o que corresponde a Pernambuco e Alagoas juntos. As terras, como todas as riquezas saqueadas, foram repartidas entre brasileiros e argentinos.

Um só ganhador

Mas o único ganhador, mesmo, foi o imperialismo britânico. Incitou Brasil e Argentina à guerra. Estes, com a economia debilitada, dependiam de mais empréstimos para dar conta da tarefa. Nos anos seguintes, este endividamento só fez aumentar. Entre 1871 e 1889, a soma da dívida externa brasileira atinge 45.500.000 libras, e da Argentina, 18.747.000. Das conseqüências do endividamento crescente sobre a realidade econômico-social dos dois países, não é preciso falar.

Derrotada, a nação paraguaia teve aniquilada sua experiência vitoriosa de desenvolvimento econômico soberano, independente e autônomo, a partir de próprias forças. Atualmente, o Paraguai ocupa o 111º lugar em Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), entre 187 países listados pela ONU (dados de 2013).

José Levino

Fonte: Genocídio Americano, A Guerra do Paraguai. Júlio José Chiavenatto, Brasiliense, 12ª edição, São Paulo, 1980, de onde, inclusive, foram extraídas as citações.