UM JORNAL DOS TRABALHADORES NA LUTA PELO SOCIALISMO

sábado, 11 de abril de 2026
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Faltam remédios nos postos de saúde e sobra repressão nas ruas  

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saúde não é mercadoriaSegundo dados de 2013 do IBGE, Alagoas tem uma população estimada em 3.300.935 habitantes, e é o segundo estado com a maior concentração de renda no Brasil, porém, com os piores indicadores sociais. Para os turistas e os membros da burguesia, Maceió é um paraíso, mas os mais pobres sofrem diversos tipos de repressão.

O prefeito Rui Palmeira (PSDB), que se apresentou como o “novo” e a “solução” com sua gestão inútil e ditatorial faz perpetuar velhos problemas e – o que é pior – ainda os agrava.
A edição do Bom Dia Brasil, da Rede Globo, de 17 de julho, mostrou que, na Central de Abastecimento Farmacêutico (CAF), onde ficam armazenados os medicamentos distribuídos pela prefeitura a 68 postos de saúde na capital, foram encontradas dezenas de remédios com validade vencida até depois de dois meses. Entre os medicamentos perdidos, suplementos alimentares, produtos para portadores de diabetes e substâncias de uso controlado para pacientes psiquiátricos. O mais curioso é que os medicamentos que perderam a validade no depósito por falta de uso são os mesmos que estão em falta nas unidades de saúde, vitimando, assim, a população mais pobre, que depende da distribuição desses remédios para o tratamento de suas enfermidades.

Repressão do Estado

Enquanto isso, as ruas fervem quando o assunto é repressão. Trabalhadores do comércio popular são removidos à força bruta pela guarda civil, que se tornou presença constante nas ruas do Centro de Maceió, sendo que, em sua maioria, as lojas do Centro vendem móveis, eletroeletrônicos, roupas e sapatos, enquanto os “vendedores ambulantes” vendem DVDs, canetas, raquetes para matar insetos, lanternas, etc.

Quando alguém lhes pergunta, os donos de lojas respondem que os ambulantes tiram a visibilidade de suas lojas, embora mais de 80% deles vendam suas mercadorias no chão ou penduradas nas paredes. Ora, como poderiam tirar a visibilidade de uma loja que ostenta uma placa enorme, a três, quatro ou mais metros do chão, anunciando que está ali (e que ainda tem propaganda no rádio, na televisão e nos jornais)?

Os pescadores da Vila do Jaraguá, que existe no mesmo local há mais de 415 anos, estão prestes a serem expulsos do seu lugar de origem porque a Prefeitura quer o terreno para construir uma marina (1), já que os ricos e poderosos do Estado pretendem atracar suas lanchas e iates mais perto do Centro.

Para atender aos interesses do grande capital, a gestão do prefeito Rui Palmeira (PSDB) promove uma feroz perseguição aos moradores da vila, na tentativa de realizar o que a coordenadora do Cepa Quilombo e do Museu da Cultura Periférica, Sirlene Gomes, chamou de “faxina social”.

A vila é uma comunidade tradicional e, segundo a Constituição brasileira, comunidades deste tipo não podem ser removidas do seu lugar de origem. E outros mais. A Organização das Nações Unidas (ONU), em sua Declaração Universal dos Direitos Humanos, garante que todo ser humano tem direito à moradia digna. Porém, em nome do lucro máximo, a Prefeitura quer passar por cima da ONU e da Constituição da República Federativa do Brasil.

Isso porque, durante a campanha eleitoral, o slogan do atual prefeito era “O cara é bom”.

E se o “cara” fosse mau? Nem quero imaginar o que poderia ter acontecido.

E a vila de pescadores ainda tem sua imagem vinculada na mídia como se os que moram lá fossem traficantes de drogas.

Se existe algum tráfico na vila de pescadores, esse tráfico só pode ser o tráfico de frutos do mar para a mesa dos alagoanos; o tráfico de cultura popular, a exemplo do maracatu, da capoeira, do artesanato…

É o tráfico de uma luta incansável que contagia toda a cidade, seja entre os pescadores, seja entre os trabalhadores do comércio popular, os estudantes, as mulheres… Resumindo: todos os que lutam, e, parafraseando Olga Benário, unidos pelo justo e pelo melhor do Brasil e do mundo.

Só resta lutar até o fim por esta causa legítima, já que agora os olhos do abutre do grande capital estão voltados para a Vila em Jaraguá. Se nada for feito agora, amanhã os expulsos podem ser os moradores do Jacintinho, Feitosa, Benedito Bentes (2), entre outros. Unidos, venceremos essa guerra.

Talvanes Faustino, Maceió

¹Marina é um pequeno centro portuário de recreação usado primariamente por iates privados e botes recreacionais. As marinas normalmente possuem corredores primários e secundários, permitindo acesso a todos os barcos atracados. Muitas vezes, oferecem serviços como lavagem, venda de combustível e manutenção

²Os nomes citados são de bairros da periferia de Maceió.

Os 35 anos da anistia: que a ditadura não continue ameaçando a vida dos brasileiros

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Anistia 2Mesmo às vésperas das eleições, quando se ampliam os espaços para a divulgação das mentiras dos protagonistas desse processo, cresce uma campanha em defesa da verdade e da justiça. É que, com a criação e o funcionamento da Comissão Nacional da Verdade, estruturou-se em cada estado a Rede Brasil, reunindo familiares dos mortos e desaparecidos durante a ditadura militar (1964-1985), ex-presos políticos e demais pessoas que não aceitam a violações dos direitos humanos em nosso país. Neste ano de 2014, com relativa visibilidade, muitas foram as manifestações de repúdio aos 50 anos do golpe que implantou o nazifascismo no Brasil. E em todas elas se sobressaiu o fato de aqui, ao contrário de outros países da América Latina, não haver nenhuma medida que levasse à punição dos agentes que atuaram nos porões da ditadura. Agora, neste 28 de agosto, quando deveríamos estar comemorando os 35 anos da anistia, nossas ações têm outro objetivo. Mesmo reconhecendo que ela resultou da mobilização do povo brasileiro, continuamos lutando para que essa conquista possa assegurar a justiça de transição, consubstanciando uma ruptura com o tempo do terror.

Devemos lembrar que, principalmente a partir de maio de 1978, quando foi fundado o Comitê Brasileiro pela Anistia de São Paulo, tomou as ruas o movimento em defesa de uma anistia ampla, geral e irrestrita, envolvendo vários setores sociais. Então, o ditador de plantão, general João Batista Figueiredo, decidiu elaborar e apresentar um projeto que pudesse conter as pressões recebidas. A Lei da Anistia (nº 6.683) foi sancionada no dia 28 de agosto de 1979, tendo a preocupação de beneficiar os generais, coronéis, almirantes, brigadeiros e todos os agentes militares e civis que praticaram indescritíveis ignomínias durante os anos de tirania.

Mesmo excluindo 186 presos políticos condenados pelas ações de combate à ditadura, o projeto foi aprovado pelo Congresso Nacional, sob as ameaças dos fuzis e da truculência do governo militar. Ainda assim, a vitória foi apertadíssima: a situação teve 206 contra 201 da oposição. Desse jeito, ao longo dos anos, não cessou a luta pelo triunfo da justiça. Aliás, o presidente da Câmara Nacional de Apelações no Tribunal Criminal de Buenos Aires, Eduardo Freiler, procura encorajar os brasileiros, observando que os avanços na Argentina foram possíveis “depois de muitas idas e vindas na legislação”. E a procuradora da República Eugênia Fávero até ironiza. Diz ela temer que juízes argentinos julguem criminosos brasileiros ou que o Brasil passe a receber torturadores argentinos, porque aqui há refúgio para eles.

Inúmeras “idas e vindas” aconteceram nesse período, incluindo a sentenças de uma Corte Internacional. Mas nenhum governo teve autonomia política para enfrentar o problema. A criação da Comissão Nacional da Verdade representou um inequívoco avanço. Todavia, são imensas as suas limitações, deparando-se até com a recente decisão do general Enzo Peri, comandante do Exército, proibindo seus subordinados de passar qualquer informação sobre violências praticadas, em suas unidades, durante a ditadura. E onde está a presidente Dilma, que não exonera esse defensor de quem praticou tortura, homicídio, esquartejamento, desaparecimento forçado, abuso de autoridade, lesões corporais, estupro, atentado violento ao pudor, enfim, crimes de lesa-humanidade? Onde está a presidente Dilma Rousseff? E não venha ela falar de respeito a “pactos políticos que nos levaram à redemocratização”.

Onde está a bancada governista na Câmara Federal que não julga (e aprova) o projeto da deputada Luíza Erundina, que propõe no art. nº1: “Não se incluem entre os crimes conexos, definidos no art. 1º, § 1º, da Lei nº 6.683/79, os crimes cometidos por agentes públicos, militares ou civis, contra pessoas que, de modo efetivo ou suposto, praticaram crimes políticos”? Por quê? E a bancada governista no Senado, que também não vota (e aprova) o projeto do senador Randolfe Rodrigues? A proposta foi colocada em pauta a pedido dos integrantes da Subcomissão da Memória, Verdade e Justiça, que apoiam a campanha da Anistia Internacional pela punição dos crimes da ditadura militar. Por quê?

Francisco Celso Calmon, coordenador nacional da Rede Brasil, teme o caminho da “revisão” ou da “reinterepretação” da Lei da Anistia, pelo Congresso Nacional, que, na sua opinião, pode se constituir uma armadilha, porque “corre o risco de parar no STF, sob a arguição de que sendo uma revisão não retroage e não alcançará os criminosos de lesa-humanidade”. Opina: “O caminho último é uma nova arguição ao STF (patrocinada pela OAB), cuja composição é diferente da de 2010, quando sustentou a tese do pacto”.

Estou convencido de que todos os caminhos devem ser percorridos, porque 35 anos são passados, e o Brasil exige providências urgentes, para que a ditadura não continue ameaçando a vida da maioria dos brasileiros. E a impunidade não mais estimule a hedionda prática dos atuais criminosos, como está acontecendo hoje em Goiânia.

Pinheiro Salles, presidente da Comissão da Verdade, Memória e Justiça do Sindicato dos Jornalistas e coordenador da Rede Brasil do Centro-Oeste

Daniel Aarão Reis e a biografia de Luiz Carlos Prestes: a falsificação da história por um historiador

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Anita Prestes: “O objetivo do livro é a desqualificação dos comunistas e de suas lideranças”

Estamos diante de um livro, escrito por um historiador1, que poderia ser usado em sala de aula de um curso de História como modelo para os estudantes do que não deve ser um trabalho de historiador. Para E. Hobsbawm2, o historiador deve ter um compromisso com a evidência e, portanto, escrever uma História não só apoiada em documentos como também baseada na comparação do maior número possível de fontes documentais que lhe permitam obter os elementos necessários para uma aproximação confiável dessa evidência. Caso contrário, o historiador ficará sujeito a reproduzir e difundir informações falsas, assim como interpretações errôneas e parciais da realidade que pretende retratar.

Nada disso é considerado por D.A. Reis. No seu livro, não se apresentam as fontes documentais das afirmações veiculadas. Em notas, presentes no final da obra, são citados livros ou arquivos de maneira genérica (por exemplo, “Fundo PCB no Arquivo da Internacional Comunista”, no qual existem milhares de documentos), deixando, portanto, o leitor privado da possibilidade de consultar o documento ao qual o autor se refere. Dessa forma, o leitor é induzido a aceitar como verdades indiscutíveis afirmações cuja origem dificilmente poderia ser comprovada.

Tal metodologia adotada por D.A. Reis, marcada pela incompetência e a irresponsabilidade do pesquisador, contribui para que nos encontremos diante de um texto repleto de erros factuais e de informações falsas, assim como de análises supostamente psicológicas de Prestes e dos demais personagens retratados no livro, embora não conste que o autor possua formação de psicólogo.

Entre inúmeros erros, constantes da obra de D.A. Reis, para citar apenas alguns – se fossem listados todos, seria necessário escrever outro livro –, pode-se apontar, por exemplo, o de antecipar o episódio da campanha da “Reação Republicana” de Nilo Peçanha de 1921-1922 para o ano de 1919 (p. 26), quando foi eleito presidente da República Epitácio Pessoa. Outro exemplo: o autor afirma que os dirigentes comunistas Ramiro Luchesi e Fragmon Carlos Borges foram assassinados (p. 347), no início dos anos 1970, quando na realidade faleceram de morte natural; da mesma maneira, escreve que o general Miguel Costa já teria falecido em março de 1958 (p.279), sem indicar quando, o que só veio a ocorrer em dezembro de 1959; também afirma que, em março de 1990, entre as quatro irmãs de Prestes, só Lygia restara viva (p. 480), enquanto, na realidade, Lúcia faleceu em 1996 e Eloiza em 1998. Em diversos pontos da obra, o autor cita documentos constantes dos anexos no livro A Coluna Prestes, de A. L. Prestes, mas a referência incluída na bibliografia é de outro livro da mesma autora (Uma epopeia brasileira: a Coluna Prestes).

Em diversos momentos, D.A. Reis, que se considera entendido nas obras dos clássicos do marxismo, ao abordar a luta constante de Prestes tanto contra o oportunismo de direita quanto contra o oportunismo de esquerda, lhe atribui posições centristas (p. 330, 333, 358, 437), revelando desconhecimento dessa temática nos marcos da teoria marxista. Segundo tal interpretação, V.I. Lênin, que sempre combateu os desvios de esquerda e de direita no seio dos movimentos socialistas e comunistas, teria sido um político de centro…

No que se refere às legendas das fotos reproduzidas no livro, verifica-se que inúmeras estão erradas: o tenente Victório Caneppa, carcereiro de Prestes (à época diretor da Casa de Correção), é apresentado como sendo o diplomata Orlando Leite Ribeiro, amigo de Prestes; a foto da formatura de Prestes no Colégio Militar (aos 18 anos) figura como se fosse da formatura da Escola Militar (aos 22 anos); as fotos de Anita, filha de Prestes, não correspondem às datas que lhes são atribuídas; o retrato da mãe de Prestes, tirado em Londres, em 1936, é atribuído ao período do exílio no México, etc.

Estamos diante de um texto eivado de fofocas, mexericos, intrigas e mentiras, em que se reproduzem as invencionices da viúva de Prestes, assim como de antigos dirigentes do PCB e de comandantes da Coluna Prestes, que viraram inimigos de Prestes. Este foi o caso de João Alberto Lins de Barros, autor de memórias publicadas três décadas após a Marcha, em que revela ressentimentos por seu antigo comandante haver se tornado comunista. Da mesma maneira, vários ex-dirigentes do PCB, em depoimentos prestados ao autor do livro, recorrem à falsificação dos fatos para justificar seus ressentimentos por Prestes ter rompido, em 1980, com a direção do partido da qual faziam parte.

Trata-se de um livro anticomunista, cujo objetivo é a desqualificação de Prestes, da sua mãe, de suas irmãs e também da sua esposa, Olga Benario Prestes; a desqualificação dos comunistas em geral. O autor tem a canalhice de tentar desmoralizar minha mãe, ao afirmar que ela teria abandonado um filho em Moscou (p. 171, 205, 495), como se Olga fosse capaz de semelhante gesto. Os documentos citados – e pior ainda, o autor não cita documento algum, mas apenas o “Fundo PCB no AIC” – não são verdadeiros, pois conheço a documentação da Internacional Comunista, inclusive a pasta referente a Olga. Se alguém, em algum lugar, afirmou tal coisa a respeito de Olga, é mentira; conheci muitos amigos e amigas da minha mãe da época em que ela viveu em Moscou e a afirmação do autor é mentirosa.

O anticomunismo, disfarçado sob a capa de uma suposta objetividade histórica, é revelado a cada página da obra de D.A. Reis, tanto através das numerosas informações falsas que divulga quanto da repetição de juízos de valor questionáveis. Assim, a adoção por Prestes de posições políticas em que, incompreendido, ficou só, e as derrotas, enfrentadas por ele e pelos comunistas durante sua longa vida, seriam episódios desmerecedores da sua trajetória como homem público e revolucionário, que se empenhou na conquista de um mundo sem explorados e exploradores, sem oprimidos e opressores.

Ao rebater os juízos de valor adotados por D.A. Reis, vale lembrar William Morris, o revolucionário inglês do final do século XIX, cuja biografia constitui o primeiro trabalho importante de E.P. Thompson3. Conforme foi assinalado por Josep Fontana, W. Morris, em 1887, “ao comemorar uma dessas grandes derrotas coletivas”, escreveu:

A Comuna de Paris não é senão um elo na luta que teve lugar ao longo da história dos oprimidos contra os opressores; e, sem todas as derrotas do passado, não teríamos a esperança de uma vitória final.4

Também Paul Eluard, o poeta da Resistência francesa, pronunciou-se a respeito das derrotas:

Ainda que não tivesse tido, em toda minha vida, mais do que um único momento de esperança, teria travado este combate. Inclusive, se hei de perdê-lo, outros o ganharão. Todos os outros.5

Embora os intelectuais a serviço dos interesses dominantes, comprometidos com a preservação do sistema capitalista, como é o caso de D.A. Reis, empreendam todo tipo de esforços para desmoralizar e destruir a imagem de lutadores pelas causas populares, como Luiz Carlos Prestes e Olga Benario Prestes, não o conseguirão, desde que as forças democráticas e progressistas se mantenham alertas e atuantes na preservação do legado revolucionário desses homens e mulheres que deram a vida por um futuro de justiça social e democracia para toda a humanidade.

Anita Leocadia Prestes, doutora em História Social pela UFF, professora do Programa de Pós-graduação em História Comparada da UFRJ e presidente do Instituto Luiz Carlos Prestes – www.ilcp.org.br

Notas:

[1]  REIS, Daniel Aarão. Luís Carlos Prestes. Um revolucionário entre dois mundos. São Paulo: Companhia das Letras, 2014.
[2]  HOBSBAWM, Eric. Sobre a História; ensaios. São Paulo: Companhia das Letras, 1998, p.286-287.
[3] THOMPSON, E.P. William Morris; romantic to revolutionary. Londres: Merlin Press, 1977.
[4] MORRIS, William. Why we celebrate the Commune of Paris. Commonweal, 3, n. 62, p. 89-90, Mars 1887, apud FONTANA, Josep.  A história dos homens. Bauru, SP: EDUSC, 2004, p.490.
[5]  ELUARD, Paul. Une leçon de morale, prefácio, em Ouvres complètes. Paris: Gallimard, 1984. II, p. 304, apud FONTANA, Josep. Obra citada, p. 490.

Trabalhadores em teleatendimento cruzam os braços no Rio de Janeiro

DSC_5665Na última quarta-feira (17/12) milhares de trabalhadores em teleatendimento do Rio de Janeiro promoveram a primeira greve geral da história da categoria. Ao todo, cerca de 10 mil operadores cruzaram os braços em todas as unidades da Contax e Atento, as duas maiores empresas do setor no país.

A paralisação de 24h foi organizada pelo Sinttel-Rio e teve apoio determinante do Movimento Luta de Classes (MLC). Entre as principais reivindicações estavam um piso de R$ 1.099,00 (hoje é de apenas R$ 724,00), redução da jornada de trabalho de 220 para 200 horas, pausa de 10 minutos a cada 50 minutos trabalhados, fim das metas abusivas e do assédio moral e aumento no vale alimentação para 11 e 22 reais para as jornadas de 6h e 8h, respectivamente.

Adesão 

Nem mesmo a intensa pressão patronal sofrida pelos trabalhadores para que não aderissem à greve foi capaz de enfraquecer o movimento.

Com os serviços de teleatendimento parados no Rio e em Niterói, milhares de ligações tiveram que ser transferidas para os call centers de outros estados e a central de atendimento do cidadão da Prefeitura do Rio ficou praticamente inutilizada.

Diversos sindicatos e movimentos sociais também participaram da construção da paralisação, entre eles o Sintufrj, Sindipetro Caxias, Sintrasef, Sintnaval, a comissão de mobilização dos garis da Comlurb, Unidade Classista, MLB, AERJ, DCE-UFRJ, Fenet, UJR, UP e o Movimento de Mulheres Olga Benario.

A luta continua!

Os trabalhadores em teleatendimento foram uma das categorias que mais cresceram no país nos últimos anos e está entre as principais prejudicadas pelo processo de terceirização. Composta em sua maioria por jovens, mulheres e negros, sofre todo tipo de assédio moral e recebe salários que não se afastam muito do mínimo nacional.

A paralisação de 24h no Rio de Janeiro foi uma grande vitória da categoria e serviu de advertência para que as empresas negociem a sério a pauta da campanha salarial 2014/2015.

Novas reuniões entre o sindicato e os patrões serão realizadas nas próximas semanas e, caso não haja avanço no atendimento das reivindicações, os trabalhadores entrarão em greve por tempo indeterminado.

De acordo com Rêneo Augusto, diretor do Sinttel-Rio e coordenador estadual do MLC, “a paralisação de hoje entrou para a história. Esperamos que as empresas tenham aprendido a lição e passem a respeitar a categoria e suas reivindicações. Se não tiver acordo até a primeira quinzena de janeiro, vai ser greve geral”.

Redação Rio

Xu Lizhi, um poeta operário

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Xu Lizhi
Xu Lizhi

Dezenas de operários da Foxcoon, a companhia que faz a montagem na China do iPhone, se suicidaram desde 2009, mas um deles comoveu de forma especial o país ao deixar escrita, antes de morrer, uma coleção de poemas que resumem magistralmente o lamento de toda sua geração alienada.

Xu Lizhi, de 24 anos, retirou a própria vida no último dia 30 de setembro, ao pular da janela de seu dormitório em Shenzhen, uma das  cidades chinesas onde o gigante taiwanês Foxconn monta, para outras multinacionais, o iPhone, o iPad, o Xbox, o Playstation, o Blackberry e o Wii, que vão ser vendidos em todo o planeta.

O suicídio de Xu seria um a mais, como as dezenas de casos similares que, sobretudo no ano de 2010, sacudiram a Foxconn, a maior fabricante global de componentes eletrônicos e a empresa privada na China com maior número de empregados, 800.000.

Este suicídio adquiriu inesperadas ramificações literárias, já que o jovem era poeta em seu tempo livre e deixou versos em que a dura vida na fábrica era seu tema mais recorrente.

Escreveu Xu em um dos seus versos:

“Oficina, linha de montagem, máquina, cartão de ponto, hora-extra, salário.

Treinaram-me para ser dócil.

Não sei gritar ou me rebelar,

não sei queixar-me ou denunciar,

só me ensinaram a sofrer silenciosamente o esgotamento”,

Após o suicídio, amigos e companheiros do jovem poeta decidiram recompilar seus trabalhos, traduzi-los para o inglês e publicá-los na internet, o que converteu Xu em um símbolo para muitos jovens operários emigrantes. Xu nasceu em um povoado da província sulista de Cantón e, órfão desde pequeno, viajou para a cidade como milhões de jovens de sua idade para buscar trabalho. Em 2011, conseguiu emprego na Foxconn, segundo contou diário Shenzhen Evening News, um dos primeiros que resgatou sua figura do esquecimento.

Em seus primeiros poemas , Xu já mostrava o impacto que lhe causava a mudança do meio rural para o urbano, ou a passagem da infância para o duro trabalho de adulto, algo que acontece com muitos jovens de sua geração.

 “A juventude se deteve nas máquinas, morreu antes do tempo”, disse Xu em um de seus versos.

As novas gerações de jovens chineses, mais formadas e mais protegidas por seus pais que em épocas anteriores, têm maiores problemas para se adaptar à realidade das cinzas e impessoais fábricas que movem a economia chinesa e mundial, com baixos salários, horários intermináveis e duras condições.

“Sou como um morto / que abre lentamente a tampa do ataúde”, escrevia Xu, em 2013, em um poema no qual relatava seu regresso ao dormitório de trabalhadores, após uma dura jornada na cadeia de montagem.

Seus companheiros contavam que Xu tentou em várias ocasiões deixar o emprego para ser contratado em bibliotecas ou livrarias de Shenzhen, mas não teve sorte.

Também buscou, sem êxito, trabalhar fora da cadeia de montagem, como supervisor, ou em uma livraria da própria Foxconn, em cuja revista interna para os empregados havia conseguido publicar alguns de seus poemas.

No princípio deste ano, havia tomado por fim a decisão de deixar Foxconn e ir para Suzhou, cidade do leste da China, para reunir-se ali com sua noiva, mas acabaram rompendo.

Um dia antes do suicídio, Xu havia retomado o mesmo posto que deixou em Shenzhen e, na noite anterior ao triste acontecimento, escrevia um poema cujo título, “Em meu l eito de morte”, já era premonitório:

“Quero tocar o céu, sentir esse azul tão ligeiro

Mas não posso fazê-lo, pois deixarei este mundo.

Todos os que ouviram falar de mim

Não se surpreenderão da minha marcha”.

Em 2010, quando foram denunciados mais de uma dezena de suicídios de empregados da Foxconn em Shenzhen no período de poucas semanas, a empresa pôs em prática uma série de medidas para reduzir o mal-estar dos trabalhadores, desde a contratação de serviços psicológicos a melhoras nas condições laborais ou a simples colocação de grades nas janelas.

 O próprio Xu escreveu então sobre esses suicídios:

 “Um parafuso caiu no solo

em sua noite negra de horas-extras.

Caiu verticalmente e tilintando

mas não atraiu a atenção de ninguém,

igual aquela última vez,

em uma noite como esta,

quando alguém se lançou ao vazio”.

As medidas preventivas reduziram o número de suicídios na firma, ainda que sigam havendo casos esporádicos. O suicídio de Xu, amplificado pela amargura de seus poemas, voltou a recordar as duras condições, as vezes desumanas, dos trabalhadores das linhas de montagem na China, a também chamada “fábrica do mundo”.

As poesias de Xu em chinês e traduzidas para o inglês podem ser encontradas no site: https://libcom.org/blog/xulizhi-foxconn-suicide-poetry

Da Redação

Reportagem sobre a emocionante chegada dos três heróis cubanos à Ilha

Reportagem especial da Emissora Estelar sobre a chegada à Ilha dos três heróis cubanos que ainda estavam presos nos EUA.

Só a luta traz conquistas: relato do Movimento de Mulheres Olga Benário – RS no combate à violência contra a mulher

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olga benario rsDados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública anunciaram em agosto de 2013: a cada 12 segundos uma mulher é estuprada no Brasil. Apesar do número de denúncias ter aumentado 168%, desde 2005, percebemos que há um machismo estatal que faz com que muitas mulheres não denunciem casos de abuso, assédio e estupro. No Rio Grande do Sul, a ação do juíz Paulo Augusto Oliveira Irion da 6ª Vara Criminal de Porto Alegre que concedeu liberdade a Marlon Patrick Silva de Mello, comprovou esta tendência. Marlon foi acusado de estupro e foi preso em flagrante no dia 12/10/2014, mas foi solto logo em seguida, por decisão do Juiz Paulo Augusto.

A decisão do juiz Paulo Irion reforça a banalização de crimes de violência contra a mulher, e promove a impunidade, dando a estes covardes inescrupulosos maior segurança de que não sofrerão consequências por seus crimes hediondos. Enquanto isso, em cada mulher cresce o medo, a insegurança e a impotência frente a um sistema que deveria protegê-la e dar-lhe autonomia.

Em resposta à decisão, mulheres de diversos coletivos feministas uniram-se e foram ao Foro Central pedir que o juiz Paulo Augusto fosse afastado do cargo e que se desse prioridade a uma mulher para julgar casos de estupro e assédio a crianças e adolescentes. Também exigimos que Marlon Patrick, fosse preso, por apresentar-se como uma ameaça a todas as mulheres. Após duas horas falando palavras de ordem como: “Se cuida seu machista, a América Latina vai ser toda feminista” e lendo abertamente uma carta formulada pelas Mulheres Organizadas Combatendo a Violência Contra a Mulher, do qual fizemos parte como Movimento de Mulheres Olga Benário, não fomos recebidas pelo juiz. Porém, alguns dias depois, tivemos a boa notícia: o juiz Paulo Augusto Oliveira Irion foi afastado de seu cargo na 6ª vara Criminal, não podendo mais julgar casos de estupro e assédio. A decisão do juiz quanto à soltura de Marlon Patrick foi revogada. Marlon foi preso.

Já no dia 09/12/14, em virtude doas 16 dias de ativismo pelo fim da violência contra as mulheres, aconteceu outra manifestação em frente ao Foro Central. Neste mesmo dia estavam ocorrendo diversas audiências de casos de violência contra a mulher, como o caso de uma estudante de Serviço Social da PUC-RS que denunciou ameaças de agressão física e psicológica. Após a denúncia o agressor descumpriu a medida protetiva, com perseguições e novas ameaças. A vítima obteve uma vitória: o agressor está proibido de entrar no prédio do curso de Serviço Social. Casos como esse acontecem todos os dias, porém a violência é tão banalizada e naturalizada que ao invés da lei e da sociedade proteger essas mulheres, elas são culpabilizadas. Deslegitimando o relato das vítimas e mantendo a mulher numa posição de opressão, humilhação, vergonha e medo.

Esses atos demonstram que somente organizadas podemos combater o machismo do Estado. Ao pressionar a justiça, mostramos nossa força e obtivemos vitórias importantes para o movimento feminista como um todo.

Infelizmente, diante de significativas vitórias citadas acima, um retrocesso: no último dia de ativismo pelo fim da violência contra a mulher, o governador eleito, Sartori (PMDB) comentou que a Secretaria de Políticas Públicas para Mulheres deve ser extinta, e o trabalho da pasta será incorporado ao Gabinete da Primeira Dama, a deputada estadual Maria Helena Sartori (PMDB). O futuro governo demonstra assim qual prioridade dará as mulheres do Rio Grande do Sul.

Isso é um exemplo de como o Estado capitalista serve para manter a mulher em situação de dominação, submissa, sem conseguir enxergar e ter forças para romper as correntes que a prendem. O machismo serve para afastar o conjunto das mulheres de qualquer lugar de destaque, de decisão sobre sua própria vida e do futuro da humanidade. No Brasil somos mais de 51% da população, somos muitas. Unidas e engajadas na luta por uma mudança social fazemos uma enorme diferença, por isso é interessante aos ricos que nos mantenhamos caladas, apassivadas!

Nosso lugar é onde quisermos estar! Na luta, na revolução, na construção de uma sociedade igualitária, sem classes, sem exploração.

Os cinco patriotas cubanos estão livres

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2014_promocionais_cinco_patriotas_cubanosGerardo Hernandez, Ramon Labanino e Antonio Guerrero, os últimos três patriotas cubanos que se encontravam em carceragens de segurança máxima e condenados à prisão perpétua foram libertados no dia de hoje. Eles se somam a Fernando Gonzalez e  René González, já anteriormente libertados.
Os cinco patriotas foram presos em Miami enquanto realizavam atividades de contra-terrorismo, investigando organizações de exilados cubanos que, com financiamento dos EUA, planejavam atentados contra Cuba. Durante todo o julgamento dos cinco, ficou provado que suas atividades em nenhum momento se dirigiam contra o governo ou o povo dos EUA, tratando-se de uma ação de autodefesa do povo cubano.
O jornalista brasileiro Fernando Morais relatou em seu livro “Os últimos soldados da guerra fria” toda a ação dos patriotas e como foi construído um julgamento viciado em território dominado pelos gusanos cubanos para mantê-los presos.
A libertação de Gerardo, Ramon e Antonio envolve a troca por um espião estadunidense preso há 15 anos em Cuba, Alan Gross. Gross trabalhava para uma agência ligada a USAID e está em avançada idade. Em recentes cartas endereçadas ao presidente Obama, Gross vinha acusando o governo dos EUA de tê-lo abandonado e se recusava a receber visitas de sua família ou de membros da embaixada americana.
A libertação de todos os cinco patriotas é, sem dúvida, um vitória de todo movimento internacional de solidariedade ao povo cubano mas, também, uma vitória do movimento popular dos EUA, que se encontra em franca ascensão e ocupando as ruas contra o racismo e por direitos sociais. Com a liberdade dos cinco, os povos de Cuba e dos EUA fortalecem seus laços de amizade e de luta conjunta pela transformação social.
Jorge Batista, São Paulo.

 

PM de São Paulo gasta mais de R$ 30 milhões contra manifestações

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PROTESTO CONTRA AUMENTO DA PASSAGEM DE ÔNIBUS EM SÃO PAULO.O Estado de São Paulo atravessa uma grave crise hídrica devido às más gestões e falta de investimento dos sucessivos governos do PSDB. Centenas de famílias, todos os dias, sofrem com o racionamento de água. Mas isto não é um problema para a PM de São Paulo, que investiu cerca de R$ 35,2 milhões em blindados com jatos d’água, gás e tinta.

Os veículos fabricados por duas empresas israelenses, a Plasan Security Solutions e a Hatehof Armored Vehicles, foram adquiridos através de uma licitação internacional e poderão chegar a março de 2015. Na verdade, estes blindados estavam previstos para salvaguardar a Copa da FIFA e coibir os protestos que tomaram as ruas do País contra os gastos e violações na realização do mega-evento. Para os policiais os carros blindados com jato d’água são “uma tentativa não-letal de manter a ordem e a segurança nos protestos”. A PM foi categórica e declarou que estes blindados agirão contra possíveis “distúrbios” em manifestações, ou seja, o mesmo falatório que acabou deixando centenas de pessoas feridas e muitos mortos durante os protestos.

O que justifica a agilidade da compra destes carros blindados é o crescimento das manifestações populares que eclodiram a partir de junho de 2013. O governo de Geraldo Alckmin e sua polícia reprimiram violentamente estas manifestações, com bombas de gás e efeito moral, balas de borracha, prisões arbitrárias e táticas como o “Caldeirão de Hamburgo” – isolamento de manifestantes por tempo indeterminado. Contudo, a repressão não está restrita nos protestos de junho ou nas manifestações contra a Copa da FIFA. A repressão sobrecaiu sobre os trabalhadores metroviários em greve e nas dezenas de ocupações urbanas que lutam pela moradia e a reforma urbana. Para garantir os lucros dos patrões, das empreiteiras e dos bancos, eles não poupam a vida.

É uma necessidade para o Estado burguês aumentar seu poderio militar neste período de lutas sociais. O sistema capitalista atravessa uma grave crise e para manter intacta a fortuna de poucas pessoas promove guerras de rapina e repressão aos povos. Não é coincidência que quem está vendendo os blindados é o Estado de Israel, um dos maiores exportadores de armas do Mundo. É um crime contra a humanidade aceitar e financiar Israel, pois para aonde vão os R$ 35,2 milhões investidos? Para fabricar mais armas de destruição e avançar no saque das terras e no genocídio do povo palestino.

Apesar de a Defensoria Pública criticar o uso da violência policial nas manifestações e ser contrária a compra dos veículos nada impede a PM atualizar seu arsenal. Inclusive a Assembléia Legislativa de São Paulo aprovou em novembro um projeto de lei que proíbe o uso de balas de borracha nas manifestações. O projeto seguiu para veto ou sanção do Governador Geraldo Alckmin.

Matheus Nunes, São Paulo

O que se passa no Haiti

B4sunPVIUAEYyO0Dez anos após o início da invasão armada da ONU, chefiada pelo Brasil e conhecida como Missão das Nações Unidas de Estabilização do Haiti (Minustah), o país caribenho que compartilha a mesma ilha com a República Dominicana está muito longe de algo que pareça estável. Dezenas de manifestações de rua levaram à renúncia do primeiro-ministro, Laurent Lamothe, no dia de ontem (14).

O povo haitiano ocupou às ruas exigindo políticas sociais que diminuam a situação de miséria que o país se encontra e repudiando os diversos casos de desvio das verbas de auxílio humanitário que são enviadas ao país. O programa de combustível Petrocaribe da Venezuela é um dos que mais envia fundos ao Haiti e o agora ex-primeiro-ministro está sendo acusado de desviar dinheiro desse e de outros fundos.

Mais uma vez, as forças de invasão da ONU cumpriram o vergonhoso papel de polícia política na repressão aos movimentos sociais haitianos como se pode ver no vídeo abaixo. Disparando armas letais, os “capacetes azuis” que sua missão nada tem de humanitária, mas se resume à repressão ao povo do Haiti. Após anos de várias violações, as tropas da ONU são alvo do ódio do povo haitiano.

Este novo episódio de luta do povo haitiano comprova toda hipocrisia dos países imperialistas na ajuda ao Haiti. O Haiti precisa de mais médicos, como os enviados por Cuba, de professores que poderiam ser enviados pela França por proximidade com a língua, de obras de infra-estrutura, principalmente no campo, que vários países, inclusive o Brasil, poderiam fazer. A invés disso, os países imperialistas enviam tropas armadas, preferindo usar a miséria do Haiti como exemplo de medo para os países que queiram enfrentar o imperialismo e seguir um caminho independente.

Jorge Batista, São Paulo

https://www.youtube.com/watch?v=4ivSF_VtFgQ

 

A terceira guerra é contra a Rússia

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ukraineTudo leva a crer que está em preparação a terceira guerra mundial. É uma guerra provocada unilateralmente pelos EUA com a cumplicidade ativa da UE. O seu alvo principal é a Rússia e, indiretamente, a China. O pretexto é a Ucrânia. Num raro momento de consenso entre os dois partidos, o Congresso dos EUA aprovou no passado dia 4 a Resolução 758, que autoriza o Presidente a adotar medidas mais agressivas de sanções e de isolamento da Rússia, a fornecer armas e outras ajudas ao governo da Ucrânia e a fortalecer a presença militar dos EUA nos países vizinhos da Rússia. A escalada da provocação da Rússia tem vários componentes que, no conjunto, constituem a segunda guerra fria. Nesta, ao contrário da primeira, assume-se agora a possibilidade de guerra total e, portanto, de guerra nuclear. Várias agências de segurança fazem planos já para o Day After de um confronto nuclear.

Os componentes da provocação ocidental são três: sanções para debilitar a Rússia; instalação de um governo satélite em Kiev; guerra de propaganda. As sanções são conhecidas, sendo a mais insidiosa a redução do preço do petróleo, que afeta de modo decisivo as exportações de petróleo da Rússia, uma das mais importantes fontes de financiamento do país. Esta redução trará o benefício adicional de criar sérias dificuldades a outros países considerados hostis (Venezuela e Irã). A redução é possível graças ao pacto celebrado entre os EUA e a Arábia Saudita, nos termos do qual os EUA protegem a família real (odiada na região) em troca da manutenção da economia dos petrodólares (transações mundiais de petróleo denominadas em dólares), sem os quais o dólar colapsa enquanto reserva internacional e, com ele, a economia dos EUA, o país com a maior e mais obviamente impagável dívida do mundo.

O segundo componente é controle total do governo da Ucrânia de modo a transformar este país num estado satélite. O respeitado jornalista Robert Parry (que denunciou o escândalo do Irã-contra) informa que a nova ministra das finanças da Ucrânia, Natalie Jaresko, é uma ex-funcionária do Departamento de Estado, cidadã dos EUA, que obteve cidadania ucraniana dias antes de assumir o cargo. Foi até agora presidente de várias empresas financiadas pelo governo norte-americano e criadas para atuar na Ucrânia. Agora compreende-se melhor a explosão, em Fevereiro passado, da secretária de estado norte-americana para os assuntos europeus, Victoria Nulland, “Fuck the EU”. O que ela quis dizer foi: “Raios! A Ucrânia é nossa. Pagámos para isso”. O terceiro componente é a guerra de propaganda. Os grandes media e seus jornalistas estão a ser pressionados para difundirem tudo o que legitima a provocação ocidental e ocultarem tudo o que a questione. Os mesmos jornalistas que, depois dos briefings nas embaixadas dos EUA e em Washington, encheram as páginas dos seus jornais com a mentira das armas de destruição massiva de Saddam Hussein, estão agora a enchê-las com a mentira da agressão da Rússia contra a Ucrânia. Peço aos leitores que imaginem o escândalo midiático que ocorreria se se soubesse que o Presidente da Síria acabara de nomear um ministro iraniano a quem dias antes concedera a nacionalidade síria. Ou que comparem o modo como foram noticiados e analisados os protestos em Kiev em Fevereiro passado e os protestos em Hong Kong das últimas semanas. Ou ainda que avaliem o relevo dado à declaração de Henri Kissinger de que é uma temeridade estar a provocar a Rússia. Outro grande jornalista, John Pilger, dizia recentemente que, se os jornalistas tivessem resistido à guerra de propaganda, talvez se tivesse evitado a guerra do Iraque em que morreram até ao fim da semana passada 1.455.590 iraquianos e 4801 soldados norte-americanos. Quantos ucranianos morrerão na guerra que está a ser preparada? E quantos não-ucranianos?

Estamos em democracia quando 67% dos norte-americanos são contra a entrega de armas à Ucrânia e 98% dos seus representantes votam a favor? Estamos em democracia na Europa quando uma discrepância semelhante ou maior separa os cidadãos dos seus governos e da Comissão da UE, ou quando o parlamento europeu segue nas suas rotinas enquanto a Europa está a ser preparada para ser o próximo teatro de guerra, e a Ucrânia, a próxima Líbia?

Boaventura de Sousa Santos, professor da Universidade de Coimbra.

Fonte: Blog Outras Palavras