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sexta-feira, 4 de abril de 2025
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“Lênin vive! Lênin viverá!”

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Há 138 anos, no dia 22 de abril, nasceu Vladimir Ilicht Ulianov, Lênin, líder da mais importante revolução já realizada na história da humanidade, a revolução socialista russa, e fundador da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS).

Para festejar o aniversário de Lênin e homenagear o herói da classe operária mundial, uma imensa multidão, em sua grande maioria jovens, se fez presente no último dia 22 de abril na Praça Vermelha, em Moscou, onde se encontra seu mausoléu. A presença da juventude na manifestação não é à toa. Os jovens são hoje as principais vítimas do retorno do capitalismo nesse país.

Em homenagem a Lênin e à sua vida dedicada à libertação da humanidade, A VERDADE publica o artigo Lênin, organizador e chefe do Partido Comunista da Rússia, publicado no Pravda por ocasião do 50 ° aniversário do nascimento de Lênin.

Lênin, organizador e chefe do Partido Comunista da Rússia

Há dois grupos de marxistas. Ambos atuam sob a bandeira do marxismo e se crêem marxistas “autênticos”. Não obstante, estão longe de ser idênticos. Mais ainda: separa-os um abismo, pois seus métodos de trabalho são diametralmente opostos.

O primeiro desses grupos limita-se, habitualmente, a aceitar formalmente o marxismo, a reconhecê-lo convencionalmente. Não sabendo ou não querendo penetrar na essência do marxismo, não sabendo ou não querendo traduzi-lo em fatos, transforma as teses vivas e revolucionárias do marxismo em fórmulas mortas e vazias. Baseia suas atividades não na experiência, não nos ensinamentos do trabalho prático, mas em citações de Marx. Deduz suas instruções e diretivas não da análise da realidade viva, mas de analogias e paralelos históricos. A divergência entre as palavras e os atos é a principal enfermidade desse grupo. Daí as decepções e o eterno descontentamento com o destino, que a todo o momento lhe prega boas peças a o deixa “de cara à banda”. Esse grupo se chama menchevismo (na Rússia) e oportunismo (na Europa). No congresso de Londres, o camarada Tyczko (Jogiches) definiu com muita acuidade esse grupo, quando disse que ele não sustentava o ponto-de-vista marxista, antes “jazia” sobre o mesmo.

O segundo grupo, pelo contrário concede primordial importância não à aceitação formal do marxismo e, sim, à sua aplicação, à sua transformação em realidade. Concentra sobretudo sua atenção determinação, em conformidade com a situação, dos caminhos e meios de realização do marxismo e na modificação desses caminhos e meios quando a situação se transforma. Deduz suas instruções e diretivas não de analogias e paralelos históricos, mas do estudo das condições. Baseia suas atividades não em citações e máximas, mas na experiência prática, verificando experimentalmente cada um dos seus passos, aprendendo com seus erros e ensinando os outros a construir a vida nova. Daí, precisamente, que não haja divergência entre palavras e fatos nas atividades desse grupo e que os ensinamentos de Marx conservem plenamente, entre eles, sua força revolucionária viva. A esse grupo podem ser perfeitamente aplicadas as palavras de Marx, segundo as quais os marxistas não se podem contentar com interpretar o mundo; devem ir mais adiante e transformá-lo. Esse grupo se chama bolchevismo, comunismo. O organizador e chefe desse grupo é V.I.Lênin.

A formação do Partido proletário na Rússia processou-se em condições particulares, diferentes das existentes no Ocidente na ocasião em que se organizara ali o Partido operário. Enquanto no Ocidente – na França, na Alemanha – o Partido operário nasceu dos sindicatos, nas condições de uma revolução burguesa já feita, com os sindicatos e os partidos tendo existência legal, com o parlamento burguês funcionando, com a burguesia – que ascendera ao poder – defrontando-se frente a frente  com o proletariado, na Rússia, pelo contrário, formou-se o Partido do proletariado nas condições do mais feroz absolutismo, na expectativa da revolução democrático-burguesa, num momento em que, de um lado, fervilhavam nas organizações do partido os elementos burgueses “marxistas-legais”, ansiosos por utilizar a classe operária para a revolução burguesa, e de outro lado, estavam os policiais  do tzar arrebatando ao partido seus melhores militantes, num momento em que o ascenso do movimento revolucionário espontâneo impunha a existência de um firme, combativo e unido núcleo de revolucionários, suficientemente conspirativo, capaz de dirigir o movimento para a derrubada do absolutismo.

Tratava-se de separar o joio do trigo, de desfazer-se dos elementos estranhos, de organizar por todo o país quadros de revolucionários experimentados, de traçar-lhes um programa claro, uma tática e construir uma combativa organização de revolucionários profissionais, suficientemente conspirativa para poder resistis às investidas dos policiais e, ao mesmo tempo, suficientemente ligada às massas para levá-la à luta no momento preciso.

Os mencheviques, aqueles indivíduos que “jazem” sobre o ponto-de-vista marxista, resolviam o problema de modo simples: Uma vez que o Partido operário nascera, no Ocidente, dos sindicatos apartidários, que lutavam pela melhoria da situação econômica da classe operária, também na Rússia se deveria proceder tanto quanto possível, assim; quer dizer, era suficiente para o momento “a luta econômica dos operários contra os patrões e o governo” no âmbito local, não deveria ser criada nenhuma organização combativa para toda a Rússia, e mais tarde…bem, mais tarde se nesse ínterim não surgissem os sindicatos, convocar-se-ia um congresso operário não-partidário em que seria proclamado o Partido.
Mal se davam conta, naquela época, os mencheviques – e talvez até um bom número de bolcheviques – de que esse “plano marxista”, embora utópico nas condições da Rússia, acarretava um vasto trabalho de agitação, destinado a rebaixar a própria idéia do partido, a destruir os seus quadros, a deixar o proletariado privado de seu Partido e a entregar a classe operária à vontade dos liberais.

Lênin prestou um imenso serviço ao proletariado russo e a seu partido, ao revelar todo o perigo do “plano” de organização dos mencheviques, quando esse “plano” ainda estava em germe, quando seus próprios autores ainda não percebiam claramente seus contornos e, após ter revelado o perigo, ao desencadear violento ataque contra o relaxamento dos mencheviques em matéria de organização, concentrando sobre este problema a atenção de todos os militantes dedicados à atividade prática. Foi um grande serviço porque era a própria existência do Partido que estava em jogo; tratava-se de questão de vida ou morte para o Partido.

O plano que Lênin desenvolveu em seus célebres livros: Que fazer? e Um passo adiante, dois passos atrás, foi o de criar um jornal político destinado a toda a Rússia como centro de reunião das forças do Partido, organizar nas localidades os quadros firmes como “formação regulares” do partido, reunir esses quadros por meio do jornal e agrupá-los através de toda Rússia num Partido combativo, com limites nitidamente marcados, possuidor de um programa claro, de uma tática firme e de uma vontade única. Esse plano tinha o mérito de corresponder por completo à realidade russa e de generalizar magistralmente a experiência de organização dos melhores militantes dedicados ao trabalho prático. Na luta por esse plano a maioria dos militantes russos seguiu decididamente Lênin, sem recuar ante a perspectiva de uma cisão. A vitória desse plano lançou as bases deste fortemente unido e temperado Partido Comunista, sem igual no mundo.

Nossos camaradas (e não apenas os mencheviques!) acusavam frequentemente Lênin de ter excessiva inclinação pela polêmica e a cisão, de manter uma luta intransigente contra os conciliadores, etc. Por vezes foi realmente assim. Não é difícil, porém compreender que nosso Partido não teria podido acabar com a debilidade e a desarticulação internas, nem adquirir a força e o vigor que lhe são próprios, se não tivesse alijado de seu seio os elementos não proletários e oportunistas. Na época do domínio da burguesia, o Partido do proletariado só pode crescer e fortalecer-se na medida em que leve a cabo, no seu seio e entre a classe operária a luta contra os elementos oportunistas, hostis à revolução e ao Partido. Lassale tinha razão quando dizia: “o Partido fortalece-se depurando-se”. Os acusadores citavam habitualmente o Partido alemão, no qual florescia então a “unidade”. Mas, em primeiro lugar, nem toda unidade é sinal de força e, em segundo lugar, basta voltar os olhos para o antigo Partido alemão, dilacerado hoje em três partidos, para compreender quanto havia de falso e fictício na “unidade” entre Scheidemann e Noske, de um lado, e Liebknecht e Luxemburgo, do outro. Quem sabe se não teria sido melhor para o proletariado alemão que os elementos revolucionários do Partido alemão se tivessem separado a tempo dos elementos anti-revolucionários… Não, Lênin tinha mil vezes razão ao conduzir o Partido pelo caminho da luta intransigente contra os elementos hostis ao Partido e à revolução. Pois foi somente em virtude dessa política de organização que nosso Partido pode criar essa unidade interna e essa surpreendente coesão que lhe permitiram incólume da crise de julho sob o governo Kerenski, agüentar o impacto da insurreição de outubro, atravessar sem qualquer abalo a crise do período de Brest-Litovsk, organizar a vitória sobre a “Entente” e , por fim, conseguir essa flexibilidade sem paralelo que lhe permite, a qualquer momento, reagrupar suas fileiras e concentrar centenas de milhares de seus membros numa grande tarefa determinada sem causar confusão em seu seio.

Pravda (A Verdade), nº 86.
23 de abril de 1920. 

Marxista ou robô burguês?

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Em discurso para dezenas de empresários, na abertura da 29ª Reunião do Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social (CDES), no dia 5 de março, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva declarou: “Será que os países ricos vão continuar apenas colocando dinheiro com o intuito de salvar os bancos ou será que alguns países terão coragem, sem medo da palavra, de estatizar os bancos, recuperá-los, fazer voltar o crédito e, depois, então, se quiserem, entregar os bancos a quem eles entenderem que devam entregar?”(Jornal do Brasil, 6/3/2009).

No mesmo discurso, Lula disse ainda: “Eu me lembro de que quando caiu o Muro de Berlim, eu fui muito criticado aqui no Brasil, porque eu dizia que a queda do Muro de Berlim era a oportunidade de a gente repensar as coisas no mundo, porque até então estava tudo escrito, o Manifesto Comunista dizia tudo o que a gente tinha que fazer, o Marx já tinha dito tudo o que nós tínhamos que fazer. Era como se nós tivéssemos que ser um pequeno robô, sem ter o direito de pensar. O meu Partido nasceu exatamente do desaforo de pensar diferente. Os sindicatos, no Brasil, cresceram exatamente pensando diferente. (Discurso do Presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, durante abertura da 29ª Reunião do Pleno do CDES)

Ou o presidente Lula esqueceu o que leu no Manifesto do Partido Comunista ou, então, quando o leu, o fez apressadamente, pois, como se sabe, o Manifesto, um dos livros mais traduzidos e mais vendidos no mundo nos últimos 150 anos, nunca se propôs dizer tudo o que cada um ou que cada partido deveria fazer, mas, sim, expor o programa teórico e prático dos comunistas. Essa foi a decisão do Congresso da Liga dos Comunistas (mais tarde chamada de Associação Internacional dos Trabalhadores, a Internacional), realizado em novembro de 1847, e cumprida magistralmente por Karl Marx e  Friedrich Engels.

No entanto, embora nele não esteja escrito tudo o que cada um deva fazer, com certeza – se o que nele está escrito fosse cumprido pelos atuais governantes – não existiriam no mundo miséria, fome, guerras, desemprego e, tampouco, crises econômicas.

De fato, o Manifesto, queira ou não o presidente, permanece uma obra atual e profundamente necessária para quem quiser compreender por que ocorrem as crises econômicas e a verdadeira causa da existência de pobres e ricos na sociedade capitalista. Vejamos apenas algumas frases dessa importante obra de Marx e Engels:

“De há decênios para cá, a história da indústria e do comércio é apenas a história da revolta das modernas forças produtivas contra as velhas relações de  produção, contra as relações de propriedade que são as condições de vida da burguesia e de seu domínio. Basta mencionar as crises comerciais que, na sua recorrência periódica, põem em causa, cada vez mais ameaçadoras, a existência de toda a sociedade burguesa. (….) Nas crises declara-se uma epidemia social que teria parecido um contrassenso a todas as épocas anteriores – a epidemia da sobreprodução. A sociedade vê-se de repente retransportada a um estado de momentânea barbárie; parece-lhe que uma fome, uma guerra de destruição generalizada lhe cortaram todos os meios de subsistência; a indústria e o comércio parecem-lhe aniquilados. E por quê? Porque a sociedade possui civilização em excesso, comércio em excesso. As forças produtivas de que dispõe deixam de servir para promoção das relações de propriedade burguesas; pelo contrário, tornaram-se demasiado poderosas para estas relações, e são por elas tolhidas; e assim que superam este obstáculo lançam na desordem toda a sociedade burguesa, põem  em perigo a existência da propriedade burguesa.” (Manifesto do Partido Comunista. Edições Progresso)

Que há  de ultrapassado ou de superado nessas afirmações? Nada, absolutamente nada! Pelo contrário, aí está sintetizada a explicação para as crises econômicas que acometem o sistema capitalista desde seu nascimento.

Lutas de classes

O presidente Lula disse ainda que, com o Manifesto, Marx e Engels queriam dizer “tudo que a gente tinha que fazer”.  Os autores do Manifesto, entretanto, têm outra opinião sobre que o que pretenderam com o texto que escreveram: “O Comunismo é já reconhecido por todos os poderes europeus como um poder. Já é tempo de os comunistas exporem abertamente ao mundo inteiro o seu modo de ver, os seus fins, as suas tendências, e de contraporem à lenda do espectro do comunismo um Manifesto próprio do partido.” (Manifesto do Partido Comunista. Edições Progresso.)

Mais:

“A história de toda a sociedade até hoje é a história de lutas de classes. Homem livre e escravo, patrício e plebeu, barão e servo, burguês da corporação e oficial, em suma opressores e oprimidos, estiveram em constante antagonismo entre si, travaram uma luta ininterrupta, umas vezes oculta, abertas outras, uma luta que acabou sempre com uma transformação revolucionária de toda a sociedade ou com o declínio comum das classes em luta.

(….)

A moderna sociedade burguesa, saída do declínio da sociedade feudal, não aboliu os antagonismos de classe. Limitou-se a colocar novas classes, novas condições de opressão, novas formas de luta, no lugar das anteriores. A nossa época, a época da burguesia, distingue-se, contudo, por ter simplificado os antagonismos de classe. Toda a sociedade está a cindir-se, cada vez mais, em dois grandes campos hostis, em duas grandes classes em confronto direto: a burguesia e o proletariado.” (Manifesto do Partido Comunista)

Pois bem, quando se observa a atual realidade de nosso país e do mundo, com os Estados burgueses usando o dinheiro público para salvar uma minoria de bilionários, enquanto a cada três segundos uma criança morre de fome; quando vemos um estudo da própria Organização das Nações Unidas (ONU) revelar que os 10% mais ricos do mundo detêm 85,2% da riqueza mundial e que, do outro lado, os 50% mais pobres do mundo possuem apenas 1% dessa riqueza; quando dezenas de grandes empresas que auferiram enormes lucros nos últimos anos reduzem salários e demitem, 50 milhões de trabalhadores em todo o mundo, segundo a Organização Internacional do Trabalho (OIT); e quando vemos continuar as guerras imperialistas para dominar o petróleo e as riquezas de dezenas países, etc. – é possível, por acaso, concluir que esse “antagonismo entre burguesia e proletariado” não está mais presente na sociedade?

Desaforos

Disse também Lula que o PT nasceu desse “desaforo de pensar diferente do Manifesto Comunista”. Como passaram, então,  a pensar o presidente e seu partido?

Vejamos: “Será que alguns países terão coragem, sem medo da palavra, de estatizar os bancos, recuperá-los, fazer voltar o crédito e, depois, então, se quiserem, entregar os bancos a quem eles entenderem que devam entregar?”

Em resumo, usar o dinheiro público para estatizar bancos e depois entregá-los sem dívidas aos banqueiros: esse o pensamento desaforado do presidente Lula e de seu partido em relação ao marxismo.

Ora, tal pensamento é um desaforo não só ao marxismo, mas a qualquer cidadão que paga impostos e  vê seu dinheiro, em vez de ir para a educação ou para a saúde, ser utilizado para salvar banqueiros falidos.

No Manifesto, Marx e Engels defendem exatamente o contrário. Entendem que, após a revolução, a classe operária arranque o capital das mãos da burguesia e coloque todos os instrumentos de produção nas mãos do novo Estado:  “Centralização do crédito nas mãos do Estado por meio de um banco central com capital do Estado e monopólio exclusivo.”

Nada, portanto, de bancos privados, menos ainda de estatizar para, depois, privatizar.

Outros desaforos do presidente: entregar R$ 4 bilhões às montadoras de automóveis, outros bilhões ao banco Votorantim (da família de Antônio Ermírio de Moraes) e financiar a Embraer com dinheiro público do BNDES – para essa empresa demitir 4.300 trabalhadores.

E:

“Hoje, mais do que fazer uma pauta de reivindicação pedindo aumento, temos que contribuir para que as empresas vendam mais. (…) Se tivermos medo de comprar, o comércio não vai vender. Se o comércio não vende, a indústria não produz”, disse Lula no último dia 28 de março na Feira da Construção Civil, em São Paulo.

Porém, presidente, se os trabalhadores não tiverem aumento salarial quem vai comprar? Além de que, no capitalismo, os trabalhadores já ajudam demais os empresários. Basta observar de onde vem os seus lucros.

Entretanto, não é à toa esse apego do presidente aos pensamentos diferentes ou opostos ao marxismo. Os bancos foram os principais financiadores da campanha de reeleição do presidente Lula, com doações que somam R$ 10,5 milhões, segundo a prestação de contas oficial do PT, seu partido, à Justiça Eleitoral. Entre os bancos, o maior doador foi o Itaú, com R$ 3,5 milhões.

Aliás, o chamado sistema financeiro dobrou de tamanho no governo Lula e seus lucros triplicaram: em 2007, o lucro líquido do setor financeiro alcançou R$ 57,4 bilhões, um crescimento de 200% sobre os R$ 19,1 milhões de 2003.

Na verdade, com esse “desaforo” ao Manifesto, mais uma vez Lula procura se apresentar perante as classes dominantes e seus meios de comunicação como um operário que traiu sua classe e sua ideologia e aderiu à ideologia burguesa. Aliás, a mesma burguesia que é responsável pelo dedo que ele perdeu, por ter sido preso e pela existência de milhões de brasileiros vivendo com fome e desempregados.

Não há de ser nada, pois, como bem escreveram Marx e Engels no Manifesto Comunista, “a burguesia produz o seu próprio coveiro. A sua queda e a vitória do proletariado são igualmente inevitáveis.”

Isso mostraram a Grande Revolução Socialista Russa de 1917, a revolução chinesa de 1949, a do Vietnã, em 1950, a de Cuba, em 1959, entre muitas outras – e o comprovarão ainda mais as revoluções que se realizarão nesse século XXI, inspiradas e animadas por esse pequeno mas profundo e verdadeiro  livro: Manifesto do Partido Comunista.

Lula Falcão é membro do comitê central do Partido Comunista Revolucionário-PCR

Gamal Abdel Nasser e a rebelião do povo egípcio

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O Egito se localiza no Nordeste da África. Sua história remonta a quatro mil anos antes de Cristo, quando, destruídas as Comunidades Primitivas, instaurou-se um Estado despótico, dominado por uma monarquia absolutista, na qual o rei, o Faraó, era um deus.

A economia se baseava na servidão coletiva dos camponeses e no trabalho escravo. Foi o esforço gigantesco desses trabalhadores que possibilitou a construção das famosas pirâmides, que nada mais eram do que túmulos dos faraós. Milhares de vidas foram sacrificadas em sua construção.

No período denominado Novo Império (1580-1080 a.C.), o regime adotou uma política expansionista, conquistando a Síria, a Fenícia, a Palestina e a Núbia (atual Sudão). Formou-se o Império Asiático do Egito, que chegava até o rio Eufrates.

As lutas de libertação das nações ocupadas e as revoltas internas dos camponeses e escravos ante a superexploração provocaram o declínio do Império. O Egito perdeu sua independência em 525 a.C. Já no ano 30 a.C, após a derrota de Cleópatra, tornou-se simples província de Roma.

A conquista do Egito pelos árabes acontece em 395 d.C., com a crise do Império Romano. Ao longo dos séculos seguintes, dá-se a completa “arabização” do país, que é disputado por Inglaterra e França. O general Napoleão Bonaparte invadiu o país em 1798. A Inglaterra expulsa o exército francês em 1801. Depois, ocorre uma parceria entre as duas potências europeias. O Canal de Suez foi construído com apoio da França entre 1860 e 1870. A parte egípcia foi comprada pela Inglaterra em 1875.

Concedida pela Inglaterra em 1822, a independência foi mera formalidade, pois o Reino Unido se reservou o direito de interferir nos assuntos internos sempre que seus interesses fossem contrariados.

Um sentimento anticolonialista foi tomando corpo e contrariando a potência dominante. Em 1945, o Egito integra a Liga Árabe e, em 1948, engaja-se num movimento contra a criação do Estado de Israel. A ONU aprovou a criação de Israel, e o Egito declarou guerra ao novo Estado, mas foi derrotado em 1949. O povo egípcio creditou a derrota à Monarquia, obtendo o apoio do Exército, no seio do qual nasce o Movimento dos Oficiais Livres, liderado pelo general Muhammad Naguib e pelo coronel Gamal Abdel Nasser.

“Os povos não desafiam a repressão e a morte nem permanecem noites inteiras protestando com energia por questões simplesmente formais. Eles fazem isso quando seus direitos legais e materiais são sacrificados sem piedade de acordo com as exigências insaciáveis de políticos corruptos e dos círculos nacionais e internacionais que saqueiam o país.”

(Fidel Castro, sobre a revolta popular no Egito, 2011)

Soberania e Socialismo

Gamal Abdel Nasser nasceu em Alexandria, em 1918, filho de um funcionário dos Correios. Concluiu os estudos na capital, Cairo, onde foi preso aos 17 anos por participar de manifestações contra a Grã-Bretanha e a Monarquia.

Tinha 34 anos quando comandou a derrubada do rei Faruk, na noite do dia 22 de julho de 1952, num golpe bem sucedido, sem derramamento de sangue. Nasser assumiu a liderança do Conselho Revolucionário, e Naguib, a Presidência da República. Eles lideram correntes divergentes do Movimento Nacionalista. Naguib é pró-ocidental e se alia com setores liberais da Monarquia. Nasser defende um Movimento Pan-árabe e quer a independência real do país ante as superpotências, bem como a eliminação das desigualdades econômicas e sociais.

Nessa disputa, Nasser sai vitorioso e assume a Presidência da República em fevereiro de 1954. Um referendo popular em junho de 1956 aprova o projeto de Constituição que torna o Egito uma república socialista, com a quase totalidade dos votos.

Em 1955, juntamente com Josip Broz Tito e Jawaharlal Neru, respectivamente presidente da Iugoslávia e Primeiro-Ministro da Índia, lança um movimento pela neutralidade diante das superpotências, precursor do Movimento dos Países Não-Alinhados. Os três Chefes-de-Estado foram reconhecidos internacionalmente como líderes do Terceiro Mundo.

O governo Nasser promoveu a reforma agrária e planejou um modelo desenvolvimentista, cujo símbolo foi o projeto de construção da barragem de Assuã, na primeira catarata do rio Nilo, para produzir eletricidade e possibilitar a irrigação do deserto. Buscou financiamento do Banco Mundial, negado porque ele rejeitou a condição de não colocar técnicos soviéticos na empresa. Com o apoio da URSS, a barragem de Assuã entrou em operação no ano de 1968.

Rompem-se as relações com Inglaterra e França, que articulam junto a Israel a invasão do Egito. A ofensiva israelense começou no dia 29 de outubro de 1956, penetrando pelo Monte Sinai até chegar perto do Canal. O Egito reagiu e, no dia seguinte, começam os bombardeios britânicos e franceses.

Mas o Egito ganhou no terreno da política. A ONU determinou a retirada dos invasores e reconheceu a soberania egípcia sobre o Canal. As tropas britânicas saíram de imediato, e Israel devolveu o Sinai no ano seguinte.

Vitorioso, Nasser radicaliza o processo revolucionário. Aprofunda a cooperação com a União Soviética e promove a estatização de empresas estrangeiras. Cria a República Árabe Unida em 1º de fevereiro 1958, reunindo Egito, Síria e Iêmen, com duração efêmera, em vista de um golpe de Estado na Síria em 02 de março do mesmo ano. Em 1964, Nasser recebe em Moscou a mais alta honraria do país, nunca antes concedida a um estrangeiro: o título de HERÓI DA UNIÃO SOVIÉTICA. Apoiou incondicionalmente a luta palestina, inaugurando o primeiro escritório da Organização para a Libertação da Palestina (OLP).

Nova ofensiva de Israel, com apoio das potências imperialistas, ocorre em junho de 1967, desta vez destruindo os exércitos do Egito, Jordânia, Líbano e Síria e ocupando a Península do Sinai, a Faixa de Gaza, a Cisjordânia e as Colinas de Golan, no episídio que ficou conhecido como Guerra dos Seis Dias.

A última ação destacada de Nasser foi a mediação do conflito entre o exército da Jordânia e a OLP. As partes firmaram acordo de paz no dia 27 de setembro de 1970. No dia seguinte, Gamal Abdel Nasser morre de um ataque cardíaco fulminante. Dia 1º de outubro, cinco milhões de egípcios dão o último adeus ao seu líder maior.

Abertura para o imperialismo

O sucessor, Anwar El Sadat, inicialmente parecia disposto a continuar aprofundando a Revolução.  Organizou uma expedição para libertar as áreas ocupadas por Israel, em 1973, mas não teve êxito. Então começou um recuo, que chamou de “retificação”.  Rompeu com a União Soviética e reaproximou-se das potências capitalistas. Reprivatizou as terras desapropriadas pela Reforma Agrária, bem como as estatais, e abriu as portas ao capital estrangeiro. Contraiu crescente endividamento externo, submetendo-se ao Fundo Monetário Internacional (FMI). Como consequência, os trabalhadores sofreram aumento do custo de vida e do desemprego, e os camponeses retornaram à servidão diante da retomada de suas terras.

Sadat ainda se reaproximou de Israel. Em troca da retirada do apoio à OLP, recebeu de volta o Sinai, consoante os Acordos de Camp David (1979). Em 1981, foi assassinado por militares contrários à sua aliança com Israel e à repressão desencadeada sobre os muçulmanos fundamentalistas.

As lutas de hoje

Assumindo a Presidência, Hosni Mubarak completa a abertura ao capital estrangeiro, a dependência do país e a intervenção do FMI. O agravamento dos problemas abre espaço para o fundamentalismo islâmico, por um lado, e, por outro, à insatisfação com as condições de vida e a repressão, independentemente de credo religioso. Esse caldeirão entornou em janeiro de 2011, quando multidões de egípcios foram às ruas exigir a mudança do regime. Mubarak renunciou, e o governo foi assumido, provisoriamente, promete-se, por uma Junta Militar.

Sem uma direção revolucionária, unitária, a revolta das massas tem futuro incerto. Está claro que não conseguiu impor o ritmo das mudanças que reivindicava e nem se configura o ponto até onde tais mudanças irão. Mas, pelo menos, algo positivo já aconteceu: a abertura da fronteira com a faixa de Gaza, fechada há quatro anos, desde que o Hamas foi eleito pelo povo para governar a Província. Foi uma exigência de Israel aceita por Mubarak. Com isso, os palestinos poderão respirar um pouco mais aliviados.

Embora o nasserismo não tenha se transformado em movimento organizado, com certeza a inspiração das idéias de Nasser, de soberania, união árabe e socialismo iluminam, ao menos, parte dessa multidão que clama por mudanças no país do rio Nilo.

José Levi, historiador

Rose Nogueira e a luta da mulher contra a ditadura

Na página dedicada aos heróis e heroínas e às lutas do povo brasileiro, A Verdade tem homenageado aqueles(as) que, imolados(as) no altar satânico da tortura praticada pela Ditadura Militar (1964-1985), deram sua vida pela causa da libertação do nosso povo.  Mais do que justo. Mas refletimos que muitos(as) militantes sobreviveram ao ritual do terror, superaram as sequelas (alguns não conseguiram, infelizmente, a exemplo de frei Tito Alencar, que se suicidou durante o exílio na França) e continuam acreditando e contribuindo com a construção de uma sociedade sem exploradores nem explorados, fundamentada na igualdade, na justiça, na solidariedade, na cooperação. Eles(Elas) também são nossos heróis e heroínas.

Entre estes(as) heróis e heroínas vivos(as), está Rosemeire Nogueira Clauset. ROSE NOGUEIRA é filha de espanhóis (lado paterno) com italianos (lado materno), mistura típica de São Paulo do século 20. Nasceu em 1946, em Jacareí (SP), cidade do Vale do Paraíba, “o doce rio que, ao contrário do Tietê, fornece a maior parte da água que bebemos por aqui”.

Ação Libertadora

Como centenas de jovens que não aceitaram a ditadura imposta ao povo brasileiro no ano de 1964, Rose ingressou na militância política. Casou com Luiz Roberto Clauset, ambos militantes da Ação Libertadora Nacional (ALN). A ALN resultou de uma cisão do Partido Comunista Brasileiro (PCB), inicialmente chamada Agrupamento Comunista de São Paulo (AC/SP), liderada pelo baiano Carlos Marighella (leia Heróis do Povo Brasileiro, in A Verdade, nº 12), um dos líderes mais carismáticos do PCB, “um dos maiores brasileiros de todos os tempos”, diz Rose.  Considerando que o PCB se mantinha inerte ante a ditadura, a ALN preconizava a formação de um Exército de Libertação Nacional, com base rural, para derrotar o Regime Militar e implementar um programa de transformação da sociedade brasileira, nacional, popular e anti-imperialista. As ações guerrilheiras começaram na cidade, como forma de arrecadar fundos e treinar os militantes para a implantação do movimento no campo.

As ações tiveram início ainda em 1968, ano de intensa mobilização estudantil, e se intensificaram após a edição do AI-5, que marcou o endurecimento do regime, fechou todos os canais de manifestação popular e adotou um sistema repressivo feroz, com um aparelho oficial e outro clandestino, ambos interligados. Em setembro de 1969, a ALN e o MR-8 (Movimento Revolucionário 8 de Outubro), em ação conjunta, sequestram o embaixador dos Estados Unidos no Brasil. A ação é vitoriosa, conseguindo a libertação de 15 prisioneiros políticos e a divulgação de um manifesto revolucionário nas redes de televisão, rádios e jornais.

Sucede-se uma escalada repressiva sem precedentes. Rose lembra detalhes do que ela denomina “essência do fascismo”. O incentivo à delação era tão forte que, “além dos cartazes com as fotos dos militantes perseguidos e a frase PROCURA-SE, circulavam panfletos incitando as pessoas: “se você perceber alguma movimentação à noite na casa do seu vizinhodenuncie à delegacia mais próxima“; “se alguém se mudar no domingo, isso é estranho; chame a polícia”; “se o seu vizinho varrer a casa fora de hora, chame a polícia“. Até as festas de aniversário em família tinham de ser comunicadas aos órgãos policiais.

A repressão atinge mortalmente a ALN, com sucessivas prisões, assassinatos e torturas, que levam ao grande líder Marighella, que resistiu à prisão e foi fuzilado na Alameda Casa Branca, Centro de São Paulo, no dia 4 de novembro de 1969.

Nas garras do monstro

Nessa mesma data, Rose e Luiz Roberto Clauset tiveram sua casa invadida por agentes policiais comandados pelo próprio Fleury. Ela havia dado à luz há um mês, apenas, seu rebento Cacá (Carlos Guilherme Clauset, hoje publicitário, jornalista e campeão de ralies). Fleury queria levar a criança para o Juizado de Menores, mas ela, bravamente resistiu: “só irei presa se deixar o menino com a família”.  O monstro torturador ameaçou, mostrou o revólver, mas cedeu.

No Dops, não poderia ser diferente, a recepção foi rigorosa.  Rose relata: “Na sala de Fleury, uma caveira desenhada com as letras embaixo E.M (Esquadrão da Morte). Empurrões, beliscões nas nádegas, palavrões”. Rose sangrava (parto recente), o leite escorria dos seios, pois não podia amamentar seu bebê. Tudo isso era motivo de zombaria e humilhações. “Olha aí a Miss Brasil, Pariu outro dia e já está magra, mas tem um quadril de vaca. Só pode ser uma vaca terrorista”. Muita dor, tortura física e psicológica, ameaçando trazer o filho para torturar em sua frente.

O sofrimento aumentou ainda mais quando viu e ouviu os soldados rindo e comemorando, na noite de 4 de novembro:  “Matamos Marighella“. Rose o admirava muito, como revolucionário e pessoa humana especial. “Em minha casa, havia reuniões de Marighella com o Comando da ALN, com os frades dominicanos (grupo de religiosos que apoiava a ALN, entre os quais os freis Betto, Ivo, Fernando e Tito). Por algumas vezes, Marighella dormia lá em casa. Como eu não tinha nome de guerra (Rose tinha vida legal; ela e o marido trabalhavam na Folha da Tarde, onde frei Betto era chefe de reportagem), ele me chamava “filhinha”. Um dia, trouxe o livro Parto sem Dore fez exercícios respiratórios comigo. Que companheiro, que pessoa mais linda. Gostava de comer feijão com arroz e banana crua. Como esse misturado gostoso até hoje quando me lembro dele”.

A luta continua

Foram três anos de sofrimento na prisão.  “Depois de tudo isso, fomos absolvidos no final de 1972. Foram três anos desesperados. No nosso processo, que eles chamavam de ALN-1, ou “Ala Marighella”, só os padres foram condenados. Acho que éramos uns 20 denunciados no processo. Penso que a ditadura queria, com isso, condenar o trabalho da Igreja Católica e, principalmente, a Teologia da Libertação”.

Rose Nogueira não desistiu.  Preside o Grupo Tortura Nunca Mais em São Paulo, está engajada na luta pela abertura dos arquivos da repressão, pela punição dos torturadores, e continua acreditando na libertação do povo brasileiro. É heroína, sim, é exemplo para as novas gerações.

Box

Foi doloroso para Rose Nogueira relembrar o sofrimento, a saudade, aflorar a emoção daqueles dias, especialmente num momento em que sua genitora está gravemente doente. Já na véspera do fechamento desta edição, respondendo ao pedido de urgência no envio das respostas que faltavam, ela escreveu: “Fiquei muito mal e deprimida ao escrever sobre a prisão e, principalmente, ao falar do meu filho – que, por coincidência, chegou logo depois e fomos direto para a casa de minha mãe, na Vila Monumento (ao lado do histórico córrego Ipiranga, que ainda corre, mas hoje as margens plácidas são uma larga avenida de duas pistas) porque ela está passando muito doente. Tem câncer de abdome, com tumores no útero, na bexiga e no intestino. Dormi lá e cheguei agora em casa. É muito difícil escrever sobre as torturas. Chorei por tudo ontem. Pelo passado, pelo presente, por ser a mãe e por ser a filha. Espero que você entenda e me perdoe mais uma vez. Tenho de ir, neste momento, à reunião da Comissão de Justiça e Paz. Sou a presidente do Grupo Tortura Nunca Mais de São Paulo e não posso faltar. Não é demorada. Mas todo meu dia, fora isso, será dedicado a você. É que a luta continua…”.

Obrigado, Rose! Nós é que pedimos perdão pela insistência.

José Levino, historiador

Haiti – Primeira República Independente da América Latina

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Janeiro é um mês de duas comemorações para o povo haitiano. Uma de alegria, outra de tristeza. No dia primeiro de janeiro de 1804, foi proclamada a Independência do Haiti.  No dia 12 de janeiro de 2010, um fatídico terremoto deixou sob escombros essa nação.

Haiti, o país mais pobre das Américas, do tamanho do Estado de Alagoas, tem 10 milhões de habitantes. 80% da população vivem abaixo da linha da pobreza, mais de metade é indigente.  “Não admito que o Haiti seja o país mais pobre do Continente. Ele é o mais empobrecido, mas ainda guarda muitas riquezas naturais, as praias, os lugares históricos, a coragem e determinação de um povo, sua alegria”, afirma o estudante hatiano Dudley Mocombe.

É verdade. O Haiti já foi chamado de “Pérola do Caribe”, por suas riquezas naturais, por sua beleza, pela produção de café e cana-de-açúcar, que tanto contribuiu para o enriquecimento da França, país que sucedeu a Espanha no domínio da ilha.

Tudo que acontece hoje não é conseqüência apenas de um terremoto, por mais intenso que tenha sido. É resultado de intervenções, massacres e ocupações que sempre tentaram calar a primeira República Negra do mundo. Os haitianos pagam até hoje por sua ousadia.

A ilha Hispaniola foi onde o invasor pôs os pés primeiro na campanha genocida que desenvolveu por toda a América Latina. Cristóvão Colombo chegou em 1492. Depois, o território foi dividido em República Dominicana (parte leste) e Haiti (parte Oeste). Haiti significa montanha. Em menos de meio século, 300 mil indígenas haviam sido dizimados na guerra de resistência ou no trabalho escravo das minas de ouro. Como no resto do Continente, os dominadores escravizaram trabalhadores em solo africano. Esgotada a mineração, os espanhóis se deslocam para outros países da nossa América, e os franceses vão ocupando seu lugar. Em 1697, a Espanha aceita a soberania francesa sobre o território do Haiti.

A França prioriza a produção de cana-de-açúcar, produto mais importante da época. O Haiti tornou-se a colônia mais rica e mais importante da França.  Quando a Revolução burguesa triunfou na França (1789), havia em solo haitiano 500 mil escravos negros trabalhando de sol a sol, 32 mil brancos e 24 mil mestiços, além de um número insignificante de negros livres por terem conseguido comprar a carta de alforria.

O espártaco negro

A palavra de ordem de Liberdade, Igualdade e Fraternidade ecoou no território do Haiti. O mulato Vicente Ogé  liderou a primeira revolta, mas logo foi preso e supliciado. A massa continuou em rebelião, abandonando os engenhos, e a liderança do movimento libertador foi assumida por Toussaint Louverture, um gênio militar capaz de derrotar o poderoso exército francês.

Em 1794, o governo da França proclama a abolição da escravidão em suas colônias. O povo haitiano continuou a lutar pela independência e Louverture tornou-se praticamente unanimidade nacional. Ele prepara um projeto de declaração da independência e aprovação de uma Constituição que definia o Haiti como Estado soberano, com regime republicano e associado à França revolucionária.

A Revolução francesa sofre, entretanto, uma guinada. Em 10 anos (1789/1799), os jacobinos haviam cumprido sua missão revolucionária. Mediante a violência, eles eliminaram qualquer resquício de dominação feudal, com o povo proclamando ao seu lado “Liberdade, Igualdade, Fraternidade”.  Agora, chega! Quem vai desfrutar desses três princípios é apenas a burguesia. A missão cabe ao general Napoleão Bonaparte, que já comprovara na luta sua capacidade de levá-la a cabo.  É Marx quem ensina em Dezoito Brumário“…Napoleão estabeleceu por toda a França as condições que tornaram possível o desenvolvimento da livre concorrência, a exploração das terras depois da divisão das grandes propriedades, e a plena utilização da capacidade de produção industrial do país…”  

Napoleão não queria saber de independência das colônias.  Mandou um dos seus mais importantes generais, Leclerc, comandar uma expedição para retomar o domínio do Haiti. Sem êxito no terreno da guerra, o grande mito baixa o nível. Sequestra dois filhos de Toussaint que se encontram na França.  Desesperado, o espártaco negro cedeu à chantagem e foi a Paris se entregar em troca da libertação dos jovens. Em vão. Foi preso e enviado para uma masmorra  nas montanhas frias, sem roupa adequada, falecendo em pouco tempo. Seus filhos também foram mortos.

Em vão também para Napoleão, pois a guerra de libertação seguiu firme sob o comando do negro Jean-Jacques Dessaline, ex-escravo e analfabeto. A vitória não tardou. Nenhum historiador burguês registra que um exército de negros, pobres, mal-armados, derrotou o todo-poderoso exército de Napoleão Bonaparte. No mesmo ano em que o general francês era proclamado imperador,o general negro  Dessaline proclama a independência do Haiti.

Derrotada no campo militar, a burguesia prepara a reação no campo econômico. Nenhum país reconhece a independência do Haiti. A França articula um bloqueio mundial à ilha caribenha, ao qual adere até o seu arqui-inimigo, a Inglaterra.

Governo brasileiro ajuda França a subjugar o Haiti

Como isolar o Haiti e substituir o próspero comércio de açúcar haitiano?  Abrindo os portos brasileiros, eis a resposta. Daí, Napoleão invade Portugal com apoio da Espanha e da Inglaterra. Esta manda a família real se deslocar para o Brasil com o objetivo de controlar a massa escrava, para que não siga o exemplo haitiano, e determina que abra os portos para o comércio internacional, pondo termo ao monopólio português em 1808.  O açúcar brasileiro permitiu à França matar a revolução haitiana sem dar mais um tiro sequer.

Completamente isolado, o governo de Dessaline não conseguiu construir um novo modelo econômico soberano e autossuficiente.  Economia sufocada, povo insatisfeito, liderança questionada, conflitos entre os próprios negros e entre estes e os brancos e mestiços que compunham a incipiente burguesia e classe média do país.  O caos se instala, com sucessivas deposições de governos. Em 1838, o Haiti se submete à nova chantagem francesa: reconhecer a independência em troca de uma indenização de 90 milhões de francos.  Tal reconhecimento de nada adiantou; melhor dizendo, agravou a situação, pois um país empobrecido assumindo uma dívida externa desse tamanho, aprofundou sua dependência e subordinação.

A instabilidade se sucede. Os Estados Unidos invadiram e controlaram diretamente o país de 1915 a 1934.  Quando saíram, deixaram uma elite política e militar preparada para servir aos seus interesses. A exemplo da ditadura de François Duvalier, o Papa Doc (1964-1971) e seu filho Jean Claude Duvalier (1971-1986).  Repressão a qualquer manifestação oposicionista e desvio de dinheiro público foram características do governo dos Duvalier, que se utilizavam para aterrorizar o povo, de uma milícia secreta, os touton-macoutes (bichos-papões). Uma rebelião popular derruba o último Duvalier, que se exila na França.

Até 1990, sucedem-se governos depostos por golpes de Estado.  Até que em 1987, uma nova Constituição preconiza eleições livres e é escolhido para a Presidência o padre Jean-Bertrand Aristide, adepto da Teologia da Libertação.

Um raio de esperança brilha sobre o Haiti, mas é apagado poucos meses depois, pois novo golpe de Estado restaura a ditadura. Aristide retorna ao governo em 1994, por pressão internacional, mas assume compromissos com os Estados Unidos de não mexer com a estrutura econômica do país.

Sem condições de realizar mudanças em favor do povo, o desencanto popular gera manifestações lideradas pela oposição e apatia da maioria dos seus partidários, abrindo caminho para nova intervenção militar dos Estados Unidos, em 2003, desta vez sob o manto da ONU e com o apoio do governo brasileiro, que assume o comando formal das tropas de ocupação. Aristide foi forçado a exilar-se na África do Sul. René Preval, que havia sido seu vice-presidente, assume um governo fantoche, que não tem autonomia sequer para organizar a distribuição das doações internacionais feitas para as vítimas do terremoto de janeiro 2010. Seu mandato termina dia 7 de fevereiro. Já houve eleições, mas estão com andamento suspenso e o segundo turno não é convocado por suspeita de fraudes e outras irregularidades.

Os EUA dominam a economia haitiana de forma quase absoluta. 80% das importações e 65% das exportações se realizam com os Estados Unidos.  As exportações são de açúcar, café, rum e tabaco. Nos últimos anos, estão se firmando também maquiladoras, isto é, empresas montadoras de produtos fabricados nos “States”, que atuam com mão de obra semiescrava, como vem acontecendo também no México. Sua ajuda às vítimas do terremoto se daria mediante o aumento dessas maquiladoras para oferecer subemprego. Só que esta atitude nada tem de humanitária porque elas estarão de fato aumentando seu lucro.

E as tropas de ocupação, inclusive a brasileira, as chamadas “Forças da Paz”, o que têm feito em benefício do povo haitiano?

Bem, ajudaram a remover 5% (cinco por cento) dos escombros, pois como mostraram as redes de televisão, na passagem de um ano do acontecimento fatídico, a paisagem de desolação e destruição permanece praticamente a mesma. Apenas 42% da ajuda humanitária internacional chegaram às mãos das famílias pobres. Somente 30 mil pessoas foram realocadas para uma nova casa. Mais de um milhão permanecem perambulando nas ruas, inclusive crianças, com fome, doentes, sem segurança. Para completar o quadro, uma epidemia de cólera matou nos últimos meses 3.600 pessoas e infectou 170 mil. Os haitianos afirmam que a doença foi trazida por soldados do Nepal que compõefm as Forças de intervenção.

Exemplo de intervenção do bem é a promovida por Cuba. 1.200 médicos cubanos (isto a imprensa capitalista também não divulga) atuam no Haiti. Já realizaram 14 mil visitas, 200.000 cirurgias, 30.000 atendimentos de casos de cólera, entre outras.  Embora modestamente, a Via Campesina Brasileira está compensando a intervenção militar. Enviou uma brigada que está trabalhando com comunidades rurais haitianas e já ajudou a implantar 1.200 cisternas, amenizando a falta de água potável. Colaboram também na produção de sementes para plantio de alimentos e na organização comunitária. É uma luta de Davi contra Golias, a Monsanto, que já enviou 475 toneladas de sementes transgênicas de milho.  Seu interesse certamente não é humanitário e sim de gerar dependência dos agricultores em relação às suas sementes, cuja reprodução é proibida.

Desse modo, 1º de janeiro não foi um dia de festa. Foi um dia de protesto pelo fato de o Haiti não viver sua verdadeira independência, conquistada ao custo de 200 mil mortos em 1804.  No dia 12, os protestos continuaram com o povo gritando nas ruas por seu direito de decidir e comandar seu próprio destino, construir sua própria história. Com ajuda dos povos, sim, nunca com intervenção armada.

Mas o povo do Haiti não desanimará. Inspirado na sua própria história, capaz de expulsar os exércitos coloniais, de sobreviver a tantos terremotos e maremotos e se levantar, o povo haitiano ouvirá sua irmã poetisa Emmelie Prophète:

Mas cuida-te, Haiti, e recusa ofertas por tua alma combalida/ Retira o pó da gente descolorida pela desgraça/e recria a Nova Fênix Caribe /que deverá surgir das cinzas”.

José Levino, historiador

O massacre dos operários da Usiminas

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A Usiminas instalou-se na então vila de Ipatinga, Município de Coronel Fabriciano (MG), região do Vale do Aço, com 55% de capital estatal, 5% de empresários nacionais e 40% de japoneses. Seus operários eram antigos camponeses e filhos destes, expulsos da terra pela Companhia Belgo-Mineira.

A empresa obtinha falsos títulos de propriedade, jogava as famílias de camponeses nas pequenas cidades da região. Os que resistiam eram mortos, presos, torturados. Nas cidades, sem meio de sobrevivência, quantas famílias viram as filhas se prostituírem, por falta de um meio de sobrevivência digno.

A Usiminas foi vista como a solução da problemática e começou a operar no dia 26 de outubro de 1962. Não conseguia, é claro, absorver a demanda de empregos proveniente dos camponeses expulsos da terra. Registrou-se um inchamento dos aglomerados urbanos e o crescimento do desemprego, da mendicância.

Em fins de 1963, a Usiminas tinha 15 mil operários, dos quais 8 mil empregados diretos e os demais, por intermédio de empreiteiras. Algumas mantinham os trabalhadores em regime de semi-escravidão, enquanto seus donos enriqueciam. Os trabalhadores de empreiteiras recebiam salário menor, moravam nas cidades próximas, gastando mais com transporte; eram chamados de bóias-frias e peões. Não tinham sequer o direito de se filiar ao Sindicato dos Metalúrgicos, cuja sede ficava em Coronel Fabriciano.

Luta contra exploração

Os operários da Usiminas se mobilizavam por salário, melhoria na alimentação, condições de moradia, transporte e fim das arbitrariedades. Havia multas, como humilhações nas revistas de entrada e saída da fábrica, batidas à noite nos barracos em que moravam, espancamento dos que permaneciam nas ruas após o toque de recolher, prisão de líderes sindicais. O operário Matorzinho Ferreira Ramos quase foi castrado porque estava fazendo campanha de sindicalização.

Além da superexploração e dos maus-tratos imprimidos pela Usiminas, os operários de Ipatinga eram revoltados com suas condições de vida, com as diferenças de classe. De um lado, favelas; do outro, belas mansões. O Binômio, jornalzinho da época, retrata: “Os operários da Usiminas estão revoltados com as injustiças sociais de Ipatinga. Enquanto moram em barracões de caixotes nas favelas ou em alojamentos precários, os engenheiros e os japoneses vivem em casas luxuosas. Respira-se um ar de intranqüilidade. Outro motivo de revolta dos operários é o de, exercendo as mesmas funções de um japonês, ganharem menos, o que é proibido pela Constituição Federal, no seu artigo 157”.

Estoura a Revolta

Outubro de 1963. Dia 6. Nesta data, ao saírem de uma estafante jornada de trabalho, os operários  se defrontaram com uma repressão ainda maior que a usual. Todo mundo foi revistado; ninguém poderia levar leite para casa; o que sobrou, tinha de ser jogado numa grande lixeira instalada na portaria. Um operário insistiu em levar o leite, era o único que tinha para dar ao seu filho. Um vigilante, então, atirou contra o recipiente, derramando o leite e, por pouco, não acertando o trabalhador. Foi o estopim. A massa de operários abriu o portão à força; os guardas nada puderam fazer. Acionada, a polícia, quando chegou, encontrou poucos trabalhadores, mas não “perdeu” a viagem. Os retardatários foram presos e espancados. Os soldados, porém, não se contentaram e foram para o alojamento Santa Mônica. Avisados com antecedência, os operários fizeram barricadas e se prepararam para a luta. Os policiais recuaram. Partiram, então, para o Chicago Blitz, acampamento dos trabalhadores de empreiteiras, mais frágeis.

Cena mais humilhante, Ipatinga jamais havia visto. Trezentos operários foram arrastados  dos barracos (um foi assassinado no interior de casa) e obrigados a deitarem no chão, de costas, com a cara na lama. Estava chovendo. Os soldados riscando as espadas nos seus corpos, disparando rajadas de metralhadoras para o ar. Alguns deles, sórdidos, botaram os cavalos para pisotear os trabalhadores, urinaram em cima deles. Muitos foram feridos.

A notícia da selvageria aumentou a revolta dos operários. No restante daquela fatídica noite, a palavra mais ouvida em Ipatinga foi GREVE!  E ela aconteceu.

Na manhã do dia 7 de outubro, 2 mil trabalhadores puseram-se em frente aos portões da Usiminas. Aos companheiros que iam chegando, contavam os acontecimentos da noite anterior e todos aderiam ao movimento. Prepararam uma lista de reivindicações a ser entregue à diretoria da empresa. Às reivindicações econômicas históricas, acrescentaram: retirada da polícia e substituição do corpo de vigilância.

O massacre

A Polícia, é claro, não tardou a chegar. Veio num caminhão, com uma metralhadora tripé instalada. A multidão vaiou, algumas pedras foram lançadas. Os soldados ameaçaram atirar.  O vigário, padre Avelino, percebendo a gravidade da situação, tentou convencer o administrador Gil Guatimosin a receber uma comissão de operários, mas ele disse que não negociaria com grevistas. Enquanto conversavam numa sala o administrador e o comandante do destacamento, capitão Robson, alguém viu este passar um bilhete para o tenente Jurandir Gomes de Carvalho. Pouco depois, a metralhadora abria fogo. Primeiro, para cima, depois em cima dos operários. Começou a carnificina.  Mais de 15 minutos de rajadas e dezenas de corpos lançados no ar e caindo ao chão, estremecendo.  José Isabel do Nascimento, fotógrafo amador, registrava tudo até ser despedaçado pela balas. A seguir, os policiais (eram apenas 19) fugiram com medo de serem linchados, abrindo fogo no meio da multidão e fazendo novas vítimas, entre as quais uma mulher grávida e uma criança de três meses (a mãe, ferida, escapou). Foram se esconder nos morros que cercam Ipatinga. Os vigilantes e os administradores da Usiminas também fugiram. Há controvérsias sobre o saldo trágico, mas é voz corrente que houve mais de 30 mortos e 3 mil feridos.

Seguiram-se três dias de rebelião, em que a multidão incendiou a guarita da vigilância que motivara os distúrbios, a seguir destruiu o caminhão de onde a metralhadora foi acionada, a delegacia, a cadeia pública.

A vitória

Autoridades estaduais se deslocaram para Ipatinga, para negociar com representantes dos trabalhadores, da Usiminas e das empreiteiras. Os trabalhadores apresentaram suas reivindicações econômicas e    mais: afastamento da polícia militar, que seria substituída por tropas federais; extinção do corpo de vigilância, cuja função seria desempenhada por funcionários escolhidos em processo seletivo acompanhado pelo sindicato; pensão para as viúvas dos operários mortos; nenhuma punição aos operários que tivessem participado do movimento; assistência aos feridos. Os operários foram atendidos, exceto no que se refere à polícia, que não foi substituída, mas retirou o destacamento de Ipatinga. Só viria, de coronel Fabriciano, quando acionada. Foi aprovado reajuste salarial de 38% e formada uma comissão com representantes da empresa e dos trabalhadores com a missão de elaborar um plano referente à moradia, à alimentação e ao transporte dos operários. Os policiais foram afastados da corporação e se   instalou inquérito para apurar suas    responsabilidades.

Ditadura anulou conquistas

O acordo ainda estava sendo implementado, quando Ipatinga, como todo o país, foi atingida por uma tragédia maior:  o golpe de Estado de 1º de abril de 1964. Os operários que mais se destacavam nas lutas foram caçados como ratos; muitos foram presos, torturados, mortos; líderes sindicais, cassados. Em 1965, os policiais foram absolvidos pela Justiça Militar. As vítimas foram transformadas em réus. As pensões das viúvas, cortadas. Magalhães Pinto, que era Governador do Estado de Minas Gerais, na época do massacre, foi o principal líder civil do golpe de 1964.

Os velhos operários, hoje aposentados, que viveram o terror daquele 7 de outubro, não gostam de falar do que sofreram e presenciaram. Muitos têm parentes trabalhando na Usiminas e temem represálias. “A gente é pobre e de cor. Vão falar: é preto doido. Não vou aborrecer ninguém. Então, deixa o meu aborrecimento comigo”, disse José Elias dos Santos ao Estado de Minas, edição de 1º de junho de 2003.

Do lado dos repressores, falando ao mesmo órgão de imprensa, afirmou o ex-policial Joaquim de Carvalho: “Por meu gosto, nunca tinha feito um negócio daqueles. Até hoje tenho remorso. Nunca pensei em tirar a vida de ninguém”. Ele, entretanto, diz que ninguém deu ordem para que eles dissolvessem a manifestação a bala, que a iniciativa foi de cada um dos soldados.

Já outro ex-policial que não quis se identificar, falou ao Jornal Em Tempo           (edição de agosto de 1978): “Na noite anterior nos deram cachaça com pólvora, para dar valentia e brabeza. Disseram que os operários iam quebrar a Usiminas. O tenente Jurandir deu ordem de fogo. Disseram que Gil Guatimosin (administrador da empresa) foi quem mandou, mas não posso garantir”

Reconhecimento oficial

O Secretário Nacional de Direitos Humanos, Nilmário Miranda, informou que a Secretaria está estudando a concessão de benefícios aos familiares de pessoas que morreram em conflitos de rua com a polícia, entre 1961 e 1988, o que beneficiará os herdeiros das vítimas da Usiminas. “Dinheiro nenhum no mundo vai pagar a dor pela qual a gente passou”, afirma Rossi do Nascimento Filho, filho do fotógrafo assassinado.

Notas:

1. A Usiminas foi privatizada em 1991. Todo o complexo siderúrgico estatal brasileiro foi privatizado/desnacionalizado, num prejuízo incalculável para a economia nacional, o que foi chamado por Barbosa Lima Sobrinho em um dos seus últimos artigos, como crime de lesa-pátria.

2. Fonte de pesquisa: O Massacre de Ipatinga, Carlindo Marques Pereira, edição do Departamento de Imprensa do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo e Diadema. 2ª edição, 1985

Luiz Alves,
publicado em A Verdade nº 44

Os revoltosos da Chibata

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Em pleno gozo da liberdade, conquistada com a Lei Áurea e acreditando na pregação republicana de que o Brasil seria modernizado, muitos negros ingressaram como marujos na Marinha de Guerra do Brasil. Mas o oficialato da instituição não havia absorvido o alcance social e humano do Ato de 1888.

Ao adotar as mesmas humilhações e brutalidades dos tempos da escravatura, aplicando castigos físicos nos novos marinheiros, abolidos com a Proclamação da República, o Código Disciplinar previam-se, em casos de “faltas graves”, 25 chicotadas, no mínimo.

O marujo João Candido Felisberto, durante 15 anos de carreira militar viajou não só pelo Brasil como por vários países. Na Inglaterra, onde em 1909, acompanhava a construção final de navios de guerra encomendados pelo governo brasileiro, vivenciou a diferença de tratamento dispensado aos marinheiros britânicos. Esse testemunho trouxe para seus companheiros de cá. No ano seguinte, junta-se ao comitê de Francisco Martins, o Mão Negra, no Rio de Janeiro.

Marcelino Rodrigues de Menezes, do encouraçado Minas Gerais, acusado de distribuir panfleto que denunciava os maus tratos, foi castigado com 250 açoites, defronte à guarnição formada. Na madrugada 23 de novembro de 1910, estoura-se um motim, provocando a morte do comandante. Martins pede, em carta, a extinção dos castigos corporais, melhoria da comida e anistia aos revoltosos. A rebelião alastra-se e só termina cinco dias depois, com a garantia do presidente Hermes da Fonseca, de que o assunto seria revisto e todos perdoados. Cerca de dois mil rebelados, nas ruas cariocas, aclamam o líder João Candido Felisberto, o “almirante negro”, como herói.

Oficiais juram vingança, pelo desaparecimento de colegas. A chibata volta a ser usada; 600 marinheiros são degredados para o Acre, no porão do navio Satélite, sendo fuzilados oito deles no tombadilho, e dezoito outros morrem por asfixia nas masmorras da Ilha das Cobras. Rui Barbosa, da tribuna do Senado, denuncia: “Essa mancha, essa infâmia, essa coisa sem nome, pela qual o Brasil pode ficar aparelhado com a nação mais baixa no escalão da moralidade…” O paraibano João Pessoa, Auditor da Marinha, é ameaçado por julgadores escolhidos a dedo, de um Tribunal sem jurisdição, por nas reuniões pretender buscar a verdade dos fatos. A João Candido foi concedida anistia post-mortem, por Lei Federal de 2008.

Inocêncio Nóbrega

Paulo Wright, cristão e subversivo

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Paulo Stuart Wright nasceu no dia 2 de junho de 1933 em Joaçaba, interior de Santa Catarina, filho de um casal de pastores presbiterianos estadunidenses: Latham Ephraim Wright e Maggie Belle Miller Wrigt. A Igreja Presbiteriana surge na França no Século XVI, tendo como referência as teses de João Calvino. Assim como Lutero, na Alemanha, Calvino se insurge contra a Igreja Católica Romana, vinculada aos interesses feudais, e propõe o retorno ao evangelho de Cristo.  Para Calvino, o trabalho justo é a medida que define se o ser humano está entre os escolhidos para a salvação divina.

Aprendendo o Valor do Trabalho

Por isso, na infância, o pai não lhe transmitiu apenas os ensinamentos bíblicos. Ensinou o valor do trabalho. As crianças ajudavam nas tarefas de casa, a cuidar de um pequeno roçado, a preparar o suco de uva; as tarefas eram distribuídas de acordo com a idade e as condições de cada uma, naturalmente.

Concluído o Primário, foi para o Instituto Metodista de Passo Fundo (RS) e terminado o científico, foi para os Estados Unidos, onde cursou sociologia e política. Já viajou noivo de Edimar Rickli, a Edi. Nas férias, arranjava emprego na construção civil e participava das greves da categoria. Escreveu para a noiva: “Minhas mãos já estão calejadas de manejar a pá. O seu noivo agora conhece o que significa trabalho”. Falava também com ternura: “Eu a amo numa forma maior do que posso medir ou explicar”. Como tinha também cidadania norte-americana, foi convocado para servir às Forças Armadas. Com certeza, teria ido para a Guerra da Coréia (1950-1953). Foge dos EUA.

São Paulo, novembro de 1956. Paulo Wright tira sua carteira profissional e registra como profissão, servente. Não se satisfazia em defender os operários; queria ser um deles. Mas em dezembro de 1956, dona Belle morre e Paulo se vê na obrigação de não deixar o pai sozinho. De volta à pequena Joaçaba, emprega-se como torneiro mecânico numa pequena indústria. Ajudou a fundar o sindicato dos metalúrgicos e apoiou a organização dos trabalhadores da construção civil e da indústria do papel e papelão. Entende que para contribuir com a libertação do povo, é preciso atuar também na política partidária. Ingressa no Partido Trabalhista Brasileiro (PTB) e se candidata a vereador em 1958, mas não é eleito.

Em 1959, o pai decide regressar para os Estados Unidos e Paulo volta com Edi, já casados, para São Paulo. Foi contratado como torneiro mecânico na Lambretta do Brasil S.A, e logo se tornou sócio do sindicato dos metalúrgicos. Continuava atuando na Igreja. Escreve no jornal da Juventude Presbiteriana: “O nosso testemunho no campo missionário e político é estarmos ao lado dos deserdados, sofrendo com os que sofrem, chorando com os que choram, nos alegrando com os que se alegram”.

No dia 10/10/59, nasce seu primeiro filho, Charles, que não sobrevive ao parto complicado por falta de assistência médica na Maternidade da Lapa, onde nasciam os filhos dos operários.  Em 1960, assume a Secretaria Regional da União Cristã de Estudantes do Brasil. Declara: “…Nossa maneira de amar o próximo deve ir além de ajudar aos mais necessitados. Devemos levar a sério nossa responsabilidade de acabar com a miséria e o analfabetismo”.

Nesse ano (1960), o casal volta para Joaçaba (SC), onde Paulo se candidata a prefeito e perde por apenas 11 votos. A direita usou como estratégia de campanha a idéia de que o povo não devia votar em comunista.

Foi chamado para dirigir a Imprensa Oficial do Estado. Mudou-se para Florianópolis, onde, em outubro de 1961, nasceu a filha, Leila Cristina. Dedicou-se a organizar os pescadores numa rede de cooperativas, para se livrarem dos atravessadores. Em 1962, é fundada a Fecopesca, com 27 cooperativas associadas. Foi acusado pela direita, de organizar “Ligas Marítimas Comunistas”, numa referência às Ligas Camponesas do Nordeste.

Mandato a Serviço do Povo

Em 1962, sem espaço no PTB, se elege deputado estadual pelo Partido Social Progressista (PSP). Seu mandato foi dedicado à organização dos trabalhadores, ao fortalecimento da Fecopesca, das entidades estudantis e populares. Escreve para um jornal estudantil: “…O foco de nossa atenção se concentra na luta pela construção de uma nova sociedade, para a formação de um novo homem”.

Em 1963, nasce seu filho, João Paulo, que veio trazer muita alegria, especialmente para Leila, então com dois anos, uma companhia para brincar.  No mesmo ano, nasce a Ação Popular (AP), formada por militantes jovens oriundos da Juventude Universitária Católica (JUC), União Cristã de Estudantes do Brasil e Associação Cristã dos Acadêmicos. A AP definia como objetivos mobilizar, organizar e conscientizar o povo brasileiro contra o capitalismo internacional, nacional e o feudalismo, priorizando as organizações operárias e camponesas.

Paulo se envolveu completamente na construção da AP. As forças organizadas das classes dominantes travam na Assembléia um combate a ele por suas “idéias comunistas”. O próprio PSP, partido pelo qual se elegeu, pressiona para que renuncie. Seu primeiro suplente, Manoel Santos (Mané Bicheiro) contrata um pistoleiro para matá-lo. Trata-se de um sargento da Polícia, que procura a vítima para ver se ele concorda em cobrir a oferta. Paulo convence-o a desistir da empreitada e juntos prestam uma queixa na Secretaria de Segurança Pública.

Cass(ç)ado pela Ditadura

Abril de 1964. O Golpe de Estado civil-militar derruba o governo de João Goulart. Vozes raras como Leonel Brizola e Paulo Wright pregam a resistência. A ditadura pressiona por sua cassação. Esta se dá em maio do mesmo ano, sob a fundamentação de “incompatibilidade com o sistema democrático que nos incumbe, como Assembléia da Revolução, defender e preservar”.

Acuado, ameaçado, Paulo se refugia na embaixada do México e sai do país. Do México, segue para Cuba, onde não pretende demorar. O tempo foi bem aproveitado. Visitou vários lugares, conversou com o povo, com missionários, com revolucionários, e participou de treinamento militar. Pensava, entretanto, que no Brasil não havia condições de desencandear a guerra de guerrilhas.

Nas palestras em território cubano, destacava que “Ao mesmo tempo, o homem pode ser cristão e socialista e muitos cristãos o são. No mundo de hoje, se vislumbra uma coincidência entre as aspirações dos cristãos e dos socialistas quanto à vida humana”.

Luta pelo Socialismo

Em 1965, aos 32 anos de idade, já chamado pelos garotos revolucionários de “tio”, Paulo Wright volta ao Brasil com o codinome de “João”, certamente para homenagear o filhinho. Integra a direção da AP.

Na clandestinidade, dedica-se de corpo e alma à organização da AP. Em 1967, um grupo de dirigentes foi conhecer a experiência chinesa, enquanto Paulo representou a Organização em Havana, na conferência da OLAS (Organização Latino-americana de Solidariedade). Considerou que a estratégia do foco guerrilheiro não se adequava à nossa realidade. Esta discussão provocou no ano seguinte o primeiro racha na AP. Seu amigo, padre Alípio Freitas, foi um dos que saiu e ajudou a fundar o PRT (Partido Revolucionário dos Trabalhadores).

A maioria dos militantes permaneceu na AP e se aprofundou na linha chinesa, adotando o lema da proletarização. O Revolucionário tinha de ser proletário, sofrer a exploração capitalista, viver no meio do povo como peixe dentro da água. Para Paulo, isso não era novidade. Como dirigente, acompanhou as mudanças, que nem todos suportaram. Mas ele defendia que os que não tivessem condições de se proletarizar, deveriam continuar contribuindo com a organização na medida dos seus limites pessoais.

A AP desenvolveu experiências no meio operário (ABC paulista) e no campo: Vale do Pindaré (MA), Zona do Cacau (BA), Água Branca (AL) e Zona Canavieira de Pernambuco. Em março de 1971, a AP se define como Ação Popular Marxista-leninista (APML), tendo como guia os princípios de Marx, Lênin e Mao-Tsé-Tung.

No final de 1970, Edi não suporta mais a situação instável do casamento e pede  o desquite. Diz em carta ao cunhado, Jaime Wright: “Continuo a admirar o trabalho do Paulo, no entanto eu não consigo acompanhá-lo”. Em março de 1971, a sentença judicial determina o desquite “por estar provado o abandono voluntário do lar conjugal”.

A luta interna se aprofundou, quando a maioria da direção da APML defendeu sua incorporação ao Partido Comunista do Brasil (PC doB). Entre a minoria, estão Jair Ferreira de Sá e Paulo Wright. Eles consideram que essa fusão significa dar um passo atrás na luta pela libertação da classe operária da dominação político-ideológica burguesa. Para eles, o caráter da revolução brasileira é socialista. O fundamento é o esvaziamento progressivo do campo e o crescimento da industrialização, com perspectiva de em 10 anos, 70% da população estar nas cidades. Para conduzir essa revolução, preconizam um partido de novo tipo

Em outubro de 1972, são destituídos dos cargos de direção.  A maioria decide a incorporação ao PCdoB. Os remanescentes permanecem como APML, que fica conhecida como AP Socialista.

Paixão e Morte na Semana da Pátria

Setembro de 1973. A Repressão prepara na Semana da Pátria o cerco à AP, independentes ou integracionistas. 38 militantes são capturados no Recife, Rio, São Paulo e em Salvador.

Paulo Wrigt tinha um encontro com Osvaldo Rocha. Pegaram um trem no sentido São Paulo-Mauá. Os agentes também. Eles perceberam. Tentaram despistar. Osvaldo desceu antes. Foi preso ao chegar a casa. Paulo desceu depois; nunca mais foi visto. Na sala de tortura da Operação Bandeirantes (OBAN) do DOI/Codi de São Paulo, Osvaldo viu no chão a camisa com que Paulo estava vestido no seu último encontro.

O Reverendo Jaime Wrihgt, irmão e confidente de Paulo fez de tudo para descobrir seu paradeiro. Foi com um pastor, que também era tenente-coronel à OBAN, mas disseram que lá não havia nenhum preso com o nome do seu irmão. Brilhante Ulstra, torturador denunciado por vários sobreviventes, disse que havia encontrado uma pasta apenas com o título de eleitor de Paulo dentro, mas não o vira e de nada sabia. Jaime foi aos Estados Unidos, pois Paulo tinha dupla cidadania. Denunciou aos organismos internacionais de defesa dos direitos humanos, impetrou habeas corpus, e nada. Procurou Dom Paulo Evaristo Arns, a Comissão de Justiça e Paz. Pediu licença à Igreja Presbiteriana para trabalhar com dom Paulo e foi um dos coordenadores do projeto Brasil: Tortura Nunca Mais.

Paulo recebeu muitas homenagens. A Assembléia Legislativa de Santa Catarina revogou sua cassação em 1985. Um Plenarinho da Assembléia tem o seu nome, que também denomina logradouros públicos no Rio, Curitiba e Florianópolis. A Medalha Chico Mendes de Resistência foi dedicada a ele em 1991. O Estado brasileiro assumiu a responsabilidade por sua morte (Anexo da Lei 9.140/95).

Fonte: O Coronel tem um segredo – Paulo Wright não está em Cuba. Delora Jan Wright, Petrópolis, 1993

José Levino, historiador

A guerra contra a dominação cruel dos holandeses

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Na Baixa Idade Média, Holanda e Bélgica (Países Baixos) tornaram-se o principal centro comercial da Europa. Os Países Baixos haviam sido dominados pela Espanha até o final do Século XVI.  A Independência da Holanda foi proclamada em 26 de julho de 1581. Seguiu-se a guerra de oitenta anos, e a Espanha só reconheceu formalmente a soberania holandesa no dia 30 de janeiro de 1648. Mesmo em guerra com a Espanha, a Holanda se desenvolveu, expandindo seu comércio por todo o Oriente. Um grupo de capitalistas holandeses criou a Companhia das Índias Ocidentais (WIC) em 1621 com a finalidade de ampliar os investimentos no açúcar brasileiro. Mas a Espanha proibiu que a Holanda mantivesse relações comerciais com as colônias espanholas. Os investidores avaliaram que valia a pena ir à guerra. Portugal, lembremos, foi anexado à Espanha, formando a União Ibérica, que durou de 1580 a 1640.

A empresa holandesa é clara e objetiva. Seu interesse é comercial. Ela não esconde sua meta por trás de objetivos religiosos ou morais, como fizera Portugal. Não chama padres ou pastores para abençoar a empreitada. A primeira invasão holandesa aconteceu na Bahia. A ocupação da Cidade de São Salvador (capital do Brasil até 1763) se deu no dia 8 de maio de 1624. Bastou um dia de luta, para os invasores dominarem a cidade e saquearem estabelecimentos comerciais, templos, prédios públicos, cartórios, etc.  Tropas da Bahia, Pernambuco e reforços enviados por Portugal e Espanha expulsaram-nos em 1º de maio de 1625.

Os holandeses atacaram, então, Pernambuco, capitania que mais produzia açúcar nessa terra. De 15 de fevereiro a 3 de março de 1630, dominaram Olinda,  capital da Província, Recife e a Ilha de Antônio Vaz, que viria a ser a cidade Maurícia. A população não os recebeu como libertadores. Abandonou as casas com o que podia levar e se refugiou nas matas. O governador Matias de Albuquerque (irmão do donatário Duarte Coelho) organizou o QG da Resistência no Arraial de Bom Jesus (elevação situada na atual Estrada do Arraial).

A Orientação da Companhia era incentivar a população a pôr os engenhos em funcionamento o mais breve possível. Os apelos, entretanto, não tiveram eco. Os invasores eram atacados mediante ações de guerrilha e sabotagem, especialmente em Olinda, com suas Sete Colinas e densa mata ao redor. A situação era desesperadora, as tropas dependiam exclu-sivamente dos alimentos que conseguiram apreender e do abastecimento vindo da Holanda. Em 1631, com os reforços enviados, tomam Itamaracá, onde constroem o Forte Orange.  A população foge. Está cada vez mais difícil manter Olinda. Depois de muita relutância, o Conselho aprova a proposta do coronel Waerdenburch: retirar-se e destruir a cidade.  Em poucos dias, os prédios de Olinda são demolidos e o material transportado para utilização em construções no Recife. Incendiada em vários pontos, a bela cidade arde em chamas!

A balança só pende a favor dos holandeses a partir de abril de 1632 com a deserção de Domingos Fernandes Calabar. Bravo lutador, ao lado de Matias de Albuquerque, ele não recebeu nenhuma recompensa material por essa mudança de lado. É o próprio Calabar que explica suas razões em carta a Matias de Albuquerque “…Depois de ter derramado meu sangue pela causa da escravidão, que é a que vós defendeis ainda, passo para este campo, não como traidor, mas como patriota, porque vejo que os hollandeses procuram implantar a liberdade no Brasil, enquanto os espanhóis e portugueses cada vez mais escravizam o meu país”. Com o engajamento de Calabar, as vitórias holandesas se sucedem; ao Norte, estendendo-se até a Paraíba e ao Rio Grande do Norte ou ao Sul, até Alagoas, expandindo-se depois para Sergipe e Maranhão. Quando o Arraial de Bom Jesus foi tomado pelos holandeses, Matias de Albuquerque com sua tropa em fuga para Alagoas enfrenta os holandeses em Porto Calvo (AL), terra natal de Calabar, que é aprisionado na ocasião e morto na forca em 22 de julho de 1635.

 As vitórias holandesas não significam lucro para a Companhia (WIC), pois não há organização da produção. O coronel Waerdenburch adota uma política de vingança, por não terem sido atendidos os seus apelos. As tropas acabam com tudo o que encontram pela frente. De abril de 1632 a dezembro de 1936, contabilizam povoações arrasadas, engenhos, armazéns, aglomerados rurais, bairros portuários e grande número de embarcações, animais e benfeitorias. A Espanha faz propostas de paz, todas recusadas pela Companhia, que impede os Estados Gerais (governo holandês) de negociar. Ainda considera que vale a pena investir na empreitada sangrenta. Para consolidar o poder na região ocupada e normalizar a economia, manda um estadista, o Conde João Maurício de Nassau-Siegen.

A verdade sobre Nassau

Nassau foi recebido com festas no Recife, dia 23 de janeiro de 1637, saudado como “Salvador da Nova Holanda“.  Sua primeira ação militar foi a retomada de Porto Calvo (AL). Generoso na vitória, tratou bem os prisioneiros, não permitiu saques, autorizou quem quisesse acompanhar a tropa derrotada. Abre logo negociação com os senhores de engenho. Publica edital dando prazo para aqueles que quisessem retomar a atividade, garantindo assistência e financiamento. Os que não atendessem ao chamado teriam suas propriedades confiscadas e vendidas aos interessados.  É permitido o comércio direto com importadores holandeses, ficando a Companhia com o monopólio de comércio de madeiras, material bélico e escravos. No final de 1638, 120 dos 166 engenhos estão funcionando; com as vendas, a Companhia embolsa 2 milhões de florins.

Faltava mão de obra, pois os escravos haviam fugido para Palmares ou se incorporado à luta contra os holandeses em defesa da propriedade de seus donos. Nassau organizou uma expedição à África e abasteceu o mercado pernambucano com novos escravos. Estudioso das ciências e admirador das artes, construiu palácios e pontes, implantou um jardim botânico, urbanizou o Recife

Em 1641, incorpora o Maranhão ao domínio holandês. No entanto, as construções e as novas conquistas exigem mais gastos, e os diretores da Companhia não estão mais dispostos a gastar. Com sua mentalidade capitalista de obter lucro acima de tudo, agora só queriam retorno. Responderam ao conde que  ele deveria desmobilizar parte da tropa e parar com suas obras, que teria o dinheiro necessário. Os acionistas da WIC não queriam mais despesas e, sim, maiores lucros.

O governador holandês não tem muito que fazer. Em 1644, os holandeses são expulsos do Maranhão. Enfraquecido, João Maurício de Nassau entrega o cargo. Deixa recomendações para o Conselho: prudência na cobrança dos empréstimos feitos aos senhores de engenho e plantadores de cana, moderação quanto ao aumento de tributos, bom tratamento e pagamento pontual às tropas, manutenção da liberdade religiosa (os holandeses eram protestantes calvinistas, mas não impuseram sua religião aos luso-brasileiros).

A nova administração não deu ouvida a Nassau. Impôs a cobrança das dívidas de maneira cruel.  A produção de açúcar parou. Muitos senhores de engenho fugiram para a Bahia. Os calvinistas começaram a perseguir os católicos.

Explode a insurreição

A primeira batalha vitoriosa aconteceu no dia 3 de agosto de 1645 no Morro das Tabocas, próximo a Vitória de Santo Antão, sendo os insurretos liderados por João Fernandes Vieira (senhor de engenho, ex-aliado dos holandeses) e Antônio Dias Cardoso, militar português. A seguir, juntaram-se a eles as tropas de André Vidal de Negreiros, filho de proprietários de engenho na Paraíba; Henrique Dias, filho de escravos africanos libertos, e Felipe Camarão ( Poti),  índio da tribo potiguar.  Juntos, vêm tomando as fortalezas do litoral sul, até deixarem os holandeses encurralados novamente no Recife. A tentativa de ajuda holandesa pelo Norte fracassou, ante a resistência encarniçada dos moradores, com destaque para as mulheres do povoado do Tejucupapo  no dia 24 de abril de 1646 (Leia A Verdade, nº 74-jul/2006)

Sitiados em Pernambuco, os holandeses, ainda com domínio do mar, tentaram mais uma vez conquistar a Bahia e ocupam a ilha de Itaparica, bloqueando Salvador em 1647. A conquista foi violentíssima; os invasores mataram duas mil pessoas, incluindo mulheres e crianças, que foram passadas pela espada ou afogadas. O governo português mandou reforços e os holandeses foram expulsos em 1648. Voltando ao Recife, tentam retomar o litoral sul, sem êxito.  As tropas de terra, confinadas no Recife, tentam romper o cerco por duas vezes, sendo derrotadas em ambas: a primeira, no dia 19 de abril de 1648, e a segunda no dia 19 de fevereiro de 1649.

A partir dessa derrota, os holandeses voltam ao confinamento no Recife, fustigados pelas tropas luso-pernambucanas, até que Portugal resolve mandar poderosa esquadra que combate os holandeses no mar, enquanto em terra o assédio ao Recife avança. A 27 de janeiro de 1654, seus comandantes assinam a rendição na Campina da Taborda, fronteiriça ao Forte das Cinco Pontas. No dia 28, à frente dos comandados, o Mestre de Campo General Barreto de Menezes entra triunfante no Recife, que estivera 23 anos em poder da Holanda.

Avaliando a guerra contra os holandeses

A historiografia oficial (e até alguns analistas de esquerda) considera que a luta contra os holandeses representouo nascimento da nação brasileira. Pode ser que a semente de um sentimento nacional tenha se plantado naquele momento. Objetivamente, entretanto, não há nenhum sinal dessa consciência. Pernambuco se liberta da Holanda, mas retorna ao domínio português. Não há registro de que alguém tenha proposto naquele momento a independência nacional ou a independência de Pernambuco. Henrique Dias, por exemplo, quando perde um braço na batalha de Porto Calvo (1637), brada alto e bom som: “Resta-me um braço para servir a Deus e ao Rei”.Concretamente, a derrota dos holandeses fortaleceu o domínio português e os senhores de engenho, que puderam dedicar seus esforços à destruição do Quilombo dos Palmares (1695).

Outro mito é o da união de raças. Esta união existiu apenas do ponto de vista militar, para combater o invasor.  Mas cada segmento tinha seu comandante. Depois da vitória, tudo continuou como antes no quartel d’Abrantes: os negros continuaram escravizados e seus quilombos massacrados sem dó nem piedade; os índios (aliás, divididos, pois os tapuias apoiaram os holandeses) seguiram sendo usados ou dizimados, em consonância com os interesses dos colonizadores e seus descendentes.

Quanto ao endeusamento de João Maurício de Nassau, trata-se de mais um equívoco. Não é possível separar o empreendedor, o construtor, o hábil diplomata, do que ele representa: um projeto colonizador com a mesma essência do português, de explorar as riquezas do Brasil e mandá-las para a sua Companhia, cujo objetivo é o lucro máximo, objetivo de qualquer sociedade capitalista. O príncipe holandês manteve o sistema de trabalho escravo; não conseguindo destruir o Quilombo dos Palmares, foi buscar, a ferro e fogo, novos escravos na África. Como podemos festejar a eficiência de um administrador cujos serviços favorecem o inimigo que vem nos dominar e oprimir? Repetindo Júlio José Chiavennato em As Lutas do Povo Brasileiro, não basta ter povo morrendo para que uma causa seja popular.

José Levino, historiador

A Revolução Mexicana de 1910

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“Ao contemplar os alegres, amáveis e humildes homens que tanto se prodigalizaram em suas vidas e comodidades à heroica luta, não pude deixar de pensar: É uma terra digna de amor – esse México –  uma terra pela qual dá vontade de lutar”. São palavras do jornalista norte-americano John Reed (famoso internacionalmente por sua obra Os Dez Dias que Abalaram o Mundo). Quando expressou este pensamento de amor ao México, Reed, no fervor dos 20 anos, estava no olho do furacão, acompanhando tropas rebeldes por montanhas e desertos, vendo a morte nos olhos por di-versas ocasiões.

Esse México!

Era habitado por povos indígenas, especialmente os maias e os astecas, estes a grande maioria. Civilizações avançadas, com obras de irrigação, arquitetura, astronomia, entre outras, muito ouro e prata, usados para fabricar objetos artísticos para uso e admiração, pois eles desconheciam o comércio, o lucro, a ambição. Viviam nos ejidos, fazendas comunitárias, visto que a terra era pro-priedade coletiva.

No início do século XVI, eles chegaram. Os invasores espanhóis foram destruindo tudo o que encontravam pela frente, exterminando ou escravizando os nativos. A ponto de um sacerdote sensível que os acompanhava para abençoar a carnificina e fora nomeado bispo de Chiapas, ter rompido com seus compatriotas. Frei Bartolomeu de Las Casas indignou-se com tanta crueldade e lançou um anátema: “Com que direito ou justiça mantendes estes índios em servidão tão cruel e horrível? Com que autoridade travastes uma guerra detestável contra estas pessoas, que habitam com quietude e paz na sua própria terra?… Por que com o trabalho excessivo que exigis deles, adoecem e morrem, ou, na realidade, vós os matais com vosso desejo de extrair e adquirir ouro todos os dias?”

Desnecessário dizer que as bestas não lhe deram ouvido e o frade é que foi destituído da diocese; passou o resto da vida escrevendo sobre a experiência vivida, deixando seu testemunho para a eterni-dade.

Que independência?

Depois de anos de luta, aconteceu em 1821, mas não foi uma verdadeira independência, assim como aconteceu nos demais países latino-americanos. A economia continuou dependente e associada ao capital estrangeiro. No período da ditadura de Porfírio Diaz (1876-1911), a aliança burguesia nacional-latifúndio-capital estrangeiro, com apoio do Estado, da Igreja Católica e do Exército, investe contra as terras comunais em que viviam os camponeses pobres, mantendo a tradição que aprenderam com os indígenas. O capital estrangeiro já controlava a exploração de minérios, do petróleo, os bancos, a produção e distribuição de energia elétrica, as principais indústrias e o grande comércio.

Eis que ocorre uma cisão nas classes dominantes. Francisco Madero, filho de latifundiário, se rebela contra a ditadura de Porfírio Diaz, lidera um Movimento Constitucionalista e se candidata a presidente nas eleições de 1909, mas é preso e deportado para os Estados Unidos.

A guerra camponesa

Eclode a Revolução Mexicana, com a rebelião armada dos camponeses. Ao Norte, liderada por Pancho Villa e ao Sul por Emiliano Zapata. Embora com objetivos comuns – a defesa dos ejidos e a reforma agrária – os dois grupos não tinham articulação entre si. Somente em 1914, formalizaram uma frente comum (Pacto de Xoximilco, lago situado nas proximidades da capital mexicana), mas nem chegaram a desenvolver uma ação conjunta coordenada.

Zapata tinha uma visão política mais avançada. Sob o lema Terra e Liberdade, onde seu exército passava, ia organizando os ejidos, criando escolas técnicas, e instalando governos populares com base num regime de democracia participativa. Zapata chegou a governar o Estado de Morelos, situ-ado na região central do país.

Com tropas compostas por camponeses pobres, mal-armados e sem experiência militar, os exer-citos populares de Zapata e Villa impuseram derrotas memoráveis aos federais e colocaram Madero no governo em 1911.

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Imediatamente, Zapata apresenta ao novo governo o Plano Ayala (Ayala era a capital do Estado de Morelos), que prevê o reconhecimento dos ejidos (propriedade comunitária), expropriação dos latifúndios e nacionalização dos bens dos inimigos da Revolução.  Madero vacila. Tanto Zapata como Villa retomam a luta armada, e Madero é deposto em 1913.

Assume o general Vitoriano Huerta, apoiado pelor porfiristas (forças conservadoras). A luta camponesa cresce e ressurge o Movimento Constitucionalista nas cidades, com forte adesão dos setores médios. A classe operária é ainda incipiente, e seus dirigentes conciliadores e corporativistas.

Huerta cai em 1914, sendo sucedido por Venustiano Carranza, originário de uma família de médios proprietários de terra.  Carranza participara da luta constitucionalista ao lado de Madero e fora seu secretário. Assumindo, tratou de isolar o Movimento Camponês. Ordenou ao Exército fede-ral que continuasse o combate contra os exércitos camponeses e convocou uma assembléia consti-tuinte que excluía o campesinato. Adotou medidas nacionalistas, a exemplo da estatização do petró-leo, mas fez concessões a empresas petrolíferas estadunidenses.

Mesmo assim, o movimento constitucionalista urbano resolveu participar da Constituinte. A no-va Constituição aprovou medidas progressistas, como direitos e garantias individuais, leis trabalhis-tas, reconhecimento da propriedade comunitária (ejido) e propriedade do Estado sobre terras devo-lutas, águas e riquezas do subsolo. A Constituição Mexicana de 1917 é considerada pelos analistas como a mais avançada do mundo naquele momento, considerando seus aspectos econômicos e so-ciais.
Zapata e Villa não acreditaram numa Constituição na qual o campesinato não teve a menor participação. Parte dos camponeses, entretanto, se afastou da luta. Queriam esperar um pouco para ver se as medidas seriam concretizadas.

O enfraquecimento do Movimento deu causa, certamente, a que Zapata aceitasse um encontro com um general do exército federal, que fingiu simpatizar com a causa camponesa. Não tomando as medidas de segurança necessárias para um encontro desse tipo, o grande combatente, que disse certa vez “é melhor morrer de pé do que viver de joelhos”, foi abatido covardemente no dia 9 de abril de 1919. Após sua morte, o Exército Popular do Sul se desintegrou. Ao Norte, Pancho Villa fez acordo com o governo em 1920, depôs as armas e acabou assassinado em 20 de julho de 1923.

Álvaro Obregon, que depôs Carranza, governando de 1920 a 1924 e seu sucessor, Plutarco Elias Calles (1924-1928), ampliaram a reforma agrária, reconhecendo os ejidos e estendendo-os a 53% do território, e estabeleceram uma política agrícola que criou uma classe média rural, enfraquecendo o latifúndio. Por outro lado, mantiveram o modelo econômico dependente e associado ao capital estrangeiro.

Lázaro Cárdenas, que participara do Movimento Revolucionário, governou o México de 1934 a 1940. Ampliou e fortaleceu a reforma agrária, incentivando a formação de cooperativas comunitá-rias, aos moldes do programa zapatista, nacionalizou a indústria petrolífera e incentivou a organiza-ção dos camponeses e dos indígenas. Cárdenas apoiou o movimento republicano espanhol e deu gua-rida a centenas de exilados após sua derrota para os fascistas.

Em 1940, a direita vence o pleito eleitoral, estreita os vínculos com a política estadunidense e vai eliminando as conquistas da Revolução Mexicana. Simplesmente, retira o apoio estatal aos ejidos e fortalece a grande agricultura exportadora. Os ejidos, os pequenos e até os médios proprietários foram perdendo suas terras para os grandes grupos privados. O Movimento camponês renasce em 1960, liderado por Rubén Jaramillo, que havia combatido nas fileiras zapatistas. Encaminha as reivindicações pelas vias institucionais, mas vê que os caminhos estão barrados. Apela então para a luta armada até ser assassinado no Estado de Morelos em 1962.

Nos anos 60, aconteceu o chamado “Milagre Mexicano”, que forma uma numerosa classe média consumista, mas a maioria da população só pôde apreciar os bens de consumo modernos pelas vitrines das lojas. Aparentemente, entretanto, tudo era paz, a ser coroada pelas Olimpíadas de 1968.

Mas nesse ano, irrompe no mundo inteiro a rebelião da Juventude, e o México não fica de fora. Os estudantes foram às ruas reivindicando não apenas reformas estudantis, mas mudanças em todo o sistema econômico-político-social. Tudo terminou na Praça das Três Culturas (Cidade do México), onde uma quarta cultura se impôs – a da “ponta do sabre e bala de metralhadora”, varrendo a praça, deixando abatidos trezentos jovens. Foi o fatídico dia 2 de outubro de 1968.

Fechados os canais pacíficos, parte das lideranças do movimento partiu para a guerrilha urbana. Um grupo foi tentar a guerrilha rural junto aos indígenas maias de Chiapas. Os maias, que já haviam convertido frei Bartolomeu de Las Casas, convenceram também os garotos rebeldes a terem calma. No tempo certo, eles saberiam pegar nas armas. Os garotos, por sua vez, ensinaram os indígenas a verem além de suas comunidades, a compreenderem o que estava acontecendo no país e no mundo e o que isso tinha a ver com eles. Os guerrilheiros urbanos foram vitimados pela guerra suja que se abateu sobre toda a América Latina e também tiveram seus mortos, torturados e desaparecidos.

Uma crise econômica que se anunciava nos anos 70 foi contida pela abundância do petróleo mexicano. Aconteceu a “petrolização” do país. A economia (75% das exportações) e as finanças públicas passaram a depender completamente do petróleo, explorado (alguém tinha dúvidas?) pelas empresas texanas.

O início da década de 80 é marcado pela queda vertiginosa nos preços do petróleo. A economia mexicana entra em bancarrota. Em 1982, o governo de López Portillo decreta moratória e nacionaliza os bancos. Mas nos anos seguintes, o governo apela para o Fundo Monetário Internacional (FMI), que cede empréstimo de 9 bilhões de dólares e instala seus funcionários nos ministérios da área econômica do México.

É aplicada a velha receita: arrocho salarial, redução dos gastos públicos e entrega do patrimônio nacional ao capital estrangeiro e a seus sócios nacionais. Crescem o desemprego, a exclusão social, a marginalidade. Milhares tentam passar para seu vizinho dominador, os Estados Unidos, e grande parte encontra a prisão ou a morte na fronteira do falso “paraíso”.

A revolução camponesa retoma seu curso    

A adesão plena ao neoliberalismo (imperialismo) se formaliza em 1º de janeiro de 1994, com a assinatura do Acordo de Livre Comércio da América do Norte (NAFTA), firmado pelos EUA, México e Panamá. O presidente do México, Carlos Salinas de Gortari, ainda comemorava a celebração do malfadado acordo, quando se revela ao mundo o bendito fruto de um casamento que acontecera nos idos de 1968.

O Exército Zapatista de Libertação Nacional (EZLN), formado por indígenas maias de diversas comunidades e por remanescentes do movimento de 1968 (representados pelo subcomandante Marcos), na madrugada de 1º de Janeiro de 1994, com cerca de três mil insurgentes armados tomou o controle de quatro municípios do Estado de Chiapas: San Cristóbal de las Casas, Ocosingo, Altamirano e Margaritas. Tomou uma estação de rádio, atacou um quartel do Exército e divulgou a “1ª Declaração da Selva Lacandona”, da qual transcrevo o seguinte trecho: “Povo do México: Nós, homens e mulheres, íntegros e livres, estamos conscientes de que a guerra que declaramos é uma medida extrema, porém justa. Os ditadores estão aplicando uma guerra genocida não declarada contra nossos povos desde muitos anos; por isso, pedimos sua participação decidida, apoiando este plano do povo mexicano que luta por trabalho, terra, alimentação, saúde, educação, independência, líberdade, democracia, justiça e paz. Declaramos que não deixaremos de lutar até conseguirmos o atendimento das demandas básicas de nosso povo formando um governo de nosso país livre e democrático.”

O Zapatismo vive. Viva Zapata!

José Levino, historiador

Che e Fidel: uma amizade revolucionária

Dois homens especiais cuja contribuição à Humanidade ficará para sempre na História. Duas personalidades com pontos em comum e também com diferenças, mas que se completaram para constituir uma luz para os povos oprimidos do Caribe, da América Latina e de todo o mundo. Fidel Castro Ruz, cubano, nasceu em 1926, filho de Ángel Castro e Lina Ruz, ele um imigrante galego, pobre, que fez fortuna em Cuba, acumulando terras, madeira e gado. Fidel cursou direito na Universidade de Havana, onde começou sua intensa militância política, com uma visão profundamente anti-imperialista, evoluindo para o socialismo e o comunismo. Ernesto Guevara de La Serna, argentino, nasceu em 1928, filho de Ernesto Guevara Lynch e Célia de La Serna, um casal de classe média alta, embora em crise financeira, e progressista. Ernesto (Teté, Chancho) não participou ativamente do movimento estudantil, desde cedo estudou a filosofia marxista, mas não simpatizava com o Partido Comunista Argentino.

Dois caminhos se encontram

Fidel criou um Movimento Revolucionário, que se chamaria 26 de Julho, em memória à data do assalto ao Quartel Moncada para distribuir armas com o povo e incitá-lo a derrubar a ditadura de Fulgencio Batista; foi preso, solto e saiu para o México, onde iria se encontrar com outros companheiros exilados a fim de organizar uma expedição para desencadear uma guerra de guerrilhas contra a ditadura a partir da Sierra Maestra.

Ernesto Guevara buscava um caminho, tinha uma consciência profundamente anti-imperialista e socialista. Não se contentava com o conhecimento baseado na leitura. Queria ver, contatar os oprimidos de perto. Fez sua primeira viagem junto com Alberto Granado, por grande parte da América do Sul (ver filme Diários de Motocicleta). No retorno, disse “Não sou o mesmo de antes”. A segunda viagem foi de engajamento. Na procura de um movimento para lutar pela libertação dos oprimidos, chegou à Guatemala, onde o povo se mobilizava para defender o governo Árbenz (democrático e nacionalista) de uma invasão de reacionários apoiados pelos Estados Unidos (CIA).

Derrotada a revolução guatemalteca, Ernesto segue para o México, onde foi apresentado aos cubanos, em cuja missão se integrou e por eles foi rebatizado como “Che”, devido a Ernesto dirigir-se às pessoas como tchê (costume dos Pampas).  Com eles, encontrou seu “norte”. Che ficou tão impressionado com Fidel, que escreveu um poema para ele: “Vamos, ardoroso profeta da madrugada/por caminhos longínquos e desconhecidos/liberar o grande caimão que você tanto ama/quando soar o primeiro tiro e na virginal surpresa toda a mata despertar/lá ao seu lado, serenos combatentes/você nos terá…

Fidel também se impressionou com aquele argentino cheio de entusiasmo e fé, absolutamente decidido a dedicar sua vida ao povo, que considerava a luta em Cuba a primeira grande oportunidade de pôr em prática seu inquestionável objetivo. Aceitou-o como médico da expedição, mas, logo nos primeiros treinamentos militares, sua firmeza, sua capacidade de aprender as técnicas da guerrilha, sua capacidade de liderança e a magnética personalidade deixaram claro que ali se encontrava um guerrilheiro de primeira hora.

Companheiros de comando, amigos e confidentes

Já no Natal de 1956, após os primeiros meses de luta na Sierra, Che integrava o Estado-Maior do Exército Rebelde, depois foi nomeado Comandante da Segunda Coluna. No dia de sua nomeação por Fidel, Che escreveu no Diário: “Isso me fez sentir como o homem mais orgulhoso da Terra neste dia”. A partir daquele momento, ele era o Comandante Che Guevara.

A bravura e dedicação do Che tornaram-no um símbolo do guerrilheiro heroico, braço direito de Fidel e seu principal confidente.  Mesmo quando suas colunas estavam distantes, constantemente trocavam bilhetes. Fidel falava para ele dos planos militares, debates políticos, assuntos financeiros, e relatava experiências com novas armas que iam inventando no decorrer da luta.

Em entrevista ao jornalista argentino Jorge Masetti, ainda na Sierra, Che disse: “Fidel me impressionou como um homem extraordinário. Ele enfrentou e superou as coisas mais impossíveis. Ele tinha uma fé excepcional de que, uma vez que partisse para Cuba, chegaria. Que uma vez que tivesse chegado, lutaria. E que, lutando, venceria. Eu compartilhei desse entusiasmo…

Após a tomada do poder, em janeiro de 1959, Che assumiu diversas funções no governo, buscando pôr em prática sua ideia de construção do homem novo. Para ele, o socialismo só seria possível com o ser humano superando o individualismo e colocando a coletividade em primeiro plano. Para isso, dizia Che, incentivos materiais não servem e sim a emulação proporcionada pelo trabalho voluntário, no qual ele era o primeiro a dar exemplo. Uma vida simples. Uso de carro oficial apenas a serviço, recusa de levar a mulher em viagens ao exterior, em dar presente aos filhos que o homem do povo não pudesse dar também, e assim por diante.  Che sempre recebeu o apoio e o incentivo de Fidel.

Che sempre teve claro que Cuba não seria seu porto final. Que era preciso continuar a luta pela libertação da humanidade. E que Cuba não poderia avançar sozinha na construção do socialismo, dependendo apenas do apoio da União Soviética, onde a política dos governantes já sinalizava um recuo, em vez de avançar para o comunismo.

De Che para Fidel

Mas Che compreendia a posição do governo cubano e de Fidel, só que não via sentido em permanecer mais em Cuba enquanto outros povos precisavam de sua “modesta” contribuição. A carta de despedida que fez para Fidel antes de partir para o Congo, de onde sairia para a Bolívia, é um testemunho emocionante da admiração e amizade que mantinha pelo Comandante Fidel: “…Vivi dias magníficos ao seu lado, senti o orgulho de pertencer ao nosso povo nos dias brilhantes, embora tristes, da crise caribenha. Raramente um diplomata foi mais brilhante que você naqueles dias…Carrego para novas frentes de batalha a fé que você me ensinou, o espírito revolucionário do meu povo. Se minha hora final me encontrar debaixo de outros céus, meu pensamento será para o povo e especialmente para você…

Bem, infelizmente, a hora final chegou debaixo dos céus da pátria-mãe latino-americana, mais precisamente da Bolívia, quando, ferido em combate em 8 de outubro de 1967, no dia seguinte, o eterno Che Guevara foi assassinado, fria e covardemente, por um esbirro do exército boliviano, assessorado pelos boinas-verdes dos EUA.

De Fidel para Che

Ao anunciar ao povo cubano a morte do Comandante Che Guevara, Fidel manifestou publicamente – e visivelmente emocionado – toda a admiração e amizade que também mantinha pelo herói, dizendo, entre outras palavras ardorosas:
…Che possuía, como revolucionário, as virtudes que podem ser definidas como a mais cabal expressão das virtudes de um revolucionário: homem íntegro, homem de honradez suprema, de sinceridade absoluta, homem de vida estoica e espartana, homem em quem, praticamente, em sua conduta, não se encontra uma só mancha. Constituiu, por suas virtudes, o que se pode chamar de verdadeiro modelo de revolucionário. Um verdadeiro exemplo de virtudes revolucionárias! Mas, além disso, tinha outra qualidade, uma qualidade do coração, porque era um homem extraordinariamente humano, extraordinariamente sensível! Homem de ação, mas também homem de pensamento,  homem de imaculadas virtudes revolucionárias e de extraordinária sensibilidade humana, unidas a um caráter de ferro, a uma vontade de aço, a uma tenacidade indomável.

Trabalhador infatigável, nos anos que esteve a serviço de nossa pátria não conheceu um só dia de descanso. Sua inteligência multifacetada era capaz de empreender, com o máximo de segurança, qualquer tarefa, de qualquer ordem, em qualquer sentido.

Nos dias regulamentares de descanso, empenhava-se no trabalho voluntário. Foi o inspirador e o máximo impulsionador desse trabalho que hoje é atividade de centenas de milhares de pessoas em todo o país, o impulsor dessa atividade que cada dia ganha mais força nas massas de nosso povo.

E como revolucionário, como revolucionário comunista, verdadeiramente comunista, tinha uma infinita fé nos valores morais, tinha uma infinita fé na consciência aos homens. E devemos dizer que, em sua concepção, viu com absoluta clareza nos recursos morais a alavanca fundamental da construção do comunismo na sociedade humana.

Em uma palavra, deixou-nos seu exemplo! E o exemplo de Che deve ser um modelo para nosso povo, o exemplo de Che deve ser o modelo ideal para nosso povo!

Se queremos expressar como aspiramos a que sejam nossos combatentes revolucionários, nossos militantes, nossos homens, devemos dizer sem vacilação de nenhuma índole: que sejam como Che! Se queremos expressar como aspiramos a que sejam os homens das futuras gerações, devemos dizer: que sejam como Che! Se queremos dizer como desejamos que nossos filhos sejam educados, devemos dizer sem vacilação: queremos que se eduquem no espírito de Che! Se queremos um modelo de homem, um modelo de homem que não pertence a este tempo, um modelo de homem que pertence ao futuro, de coração digo que esse modelo, sem uma só mancha em sua conduta, sem uma só mancha em suas atitudes, sem uma só mancha em sua atuação, esse modelo é Che! Se queremos expressar como desejamos que sejam nossos filhos, devemos dizer com todo o coração de veementes revolucionários: queremos que sejam como Che!

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José Levino, historiador