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Polêmica fez Stálin voltar à moda, também fez Folha de S. Paulo mentir sobre ele

FALSIFICAÇÕES – Após a morte de Stálin, os jornais da burguesia começaram a propagar uma campanha de difamação contra o socialismo que não corresponde à ética jornalistica. (Foto: Reprodução/Klimbim)

Não basta surgir uma falsa polêmica entre Caetano Veloso e o liberalismo, sabemos que sempre teremos o colunista Igor Gielow pronto para mostrar que não conhece nada sobre José Stálin e socialismo.
Thales Caramante e Giulia Caramante

MOGI DAS CRUZES (SP) – Não bastasse um artigo anterior repleto de mentiras, invenções descaradas e claras contradições no discurso geral, Igor Gielow aproveita do atual antiliberalismo de Caetano Veloso e da crescente fama de Domenico Losurdo, comunista italiano, para escrever um novo artigo com curiosidades sobre José Stálin.

Pior que o primeiro, o anticomunista decide usar fontes dessa vez. Teoricamente, isso enriqueceria ainda mais a veracidade de seu escrito, porém, o que seria virtude de enriquecimento teórico e proatividade literária acabou se tornando no mais cômico e nojento mau-caratismo: todas as fontes do artigo de Igor Gielow são, pasmem, Igor Gielow.

Apesar de, no décimo parágrafo, o autor citar, respectivamente, “Stephen Kotkin, Dmitri Volkogoronov, Sheila Fitzpatrick, Simon Sebag Montefiori” como exército literário, no decorrer do artigo esses nomes jamais são utilizados para alguma coisa – são apenas uma garantia de que Igor não falará mentiras sozinho. Ademais, vale destacar que, pelo calibre do artigo, fica claro que Gielow não leu nenhum destes autores, no máximo uma coleção de antistalinismo para sua estante repleta de panfletos e propagandas nazistas.

O Jornal A Verdade já demonstrou que o “paradigma anti-Stálin”, como diz Grover Furr, está ganhando força entre a mídia burguesa no Brasil dado ao enriquecimento militante criado por organizações verdadeiramente comunistas revolucionárias que, pouco a pouco, são capazes de questionar o atual estado de coisas no país e convencer ainda mais trabalhadores e trabalhadoras pelo Brasil do legado revolucionário de Marx, Engels, Lênin e Stálin.

O último não como objeto alegórico de estigma do “comunista comum”, mas como clara e límpida inspiração do que é a classe operária consciente – marginalizada, nômade, ousada, imparável, consequente e simples. Stálin, para além do exemplo do “militante perfeito”, “fiel ao partido” e sua “justa linha política”, Stálin mostrou o que é a classe operária construindo um novo sistema econômico sem exploradores nem explorados ao solidificar as bases para a construção do socialismo na URSS.

Assim, responderemos as curiosidades colocadas por Gielow em sua própria narrativa contraditória. Porém, ao contrário de Igor, usaremos verdadeiramente autores e seus estudos, levando em consideração que alguns pontos colocados pelo autor não passam de preconceitos políticos que precisam ser respondidos politicamente.

Como diz Grover Furr, “quando livros acompanham referências puramente intelectuais, bibliografias fraudulentas, testemunhas desconexas, saltos lógicos, estimativas e hipóteses repletas de palpites, eles não se configuram como objeto de estudo da verdade, mas sim o estudo da propaganda. Esta acompanhada com referências bibliográficas, propaganda com notas de rodapé.”

Entre eles, usaremos, principalmente, Grover Furr, Vladimir Bobrov, Ludo Martens, Douglas Tottle, Domenico Losurdo, Mario Sousa, Elena Prudnikova, Arch Getty, Charles Bettelheim, Henri Barbusse, Tatiana Khabarova, Bill Bland, Anselmo Santos, Ulrich Huar, Mikhail Kilev, Marco Martinengo, Raúl Marco enfim, diversos outros autores e autoras que se destacaram teoricamente pela capacidade de responder às acusações dos “Stephen Kotkin, Dmitri Volkogoronov, Sheila Fitzpatrick, Simon Sebag Montefiori e outros [como Snyder, Robert Conquest e Robert Service].”

“Stálin não se chamava Stálin e não era russo” – Ao destacar a origem de Stálin, Igor utiliza este parágrafo somente para introduzir o ritmo do que será o decorrer do texto, tratando do nome real de Stálin, onde nasceu, como passou de “Koba” para “Stálin” etc. Neste parágrafo, Gielow consegue resumir em algumas palavras o que um colunista burguês médio atual, como Guga Chacra ou Vera Magalhães, é capaz de falar sobre a história de Stálin antes de iniciar uma avalanche de mentiras. Igor Gielow segue o roteiro da cartilha perfeitamente.

“Stálin quase foi um padre” – Como dito acima, a partir daqui começam as falsificações. Por exemplo: não, Stálin não teve um envolvimento com gangues. Essa é uma terminologia utilizada pela polícia czarista para descrever grupos de estudos e/ou núcleos do Partido Operário Social-Democrata Russo (POSDR) dos quais Stálin participava desde o seminário católico. Em um aspecto semelhante, não é incomum que comunistas sejam chamados ainda hoje de vândalos ou terroristas.

Comunistas não são vândalos do século 21, assim como comunistas não eram gangsters no final do século 19 e início do século 20. Aqui, vemos apenas uma forma de estigmatizar moralmente Stálin como bandido, como alguém a ser questionado por forças da “lei e da ordem”, no caso, as do Czar; aqui, da Polícia Militar (PM). Afugentar a opinião pública moralmente, por meio da crítica à bandidagem e à desordem.

“A infância não foi fácil” – Mas é claro, nada mais pode criar “um ser humano perturbado” do que uma “infância perturbadora e traumática”. Lê-se neste parágrafo uma interpretação completamente vulgarizada de uma infância comum. Gielow é um ser humano tão distante do que é real, que ele não é capaz de notar o próprio Brasil na descrição que faz da infância de Stálin.

Me digam quem é feliz, quem não se desespera vendo nascer seu filho no berço da miséria? Favelado, marginalizado, de uma etnia subjugada por outra, pai ausente e alcoólatra, uma mãe solitária e batalhadora que faz tudo por seu filho, um promissor vagabundo, uma vida exposta a todo tipo de doenças e pandemias e violências, sem nenhuma perspectiva para si a não ser a sua própria organização.

Com a descrição acima eu posso estar falando tanto de Stálin como de qualquer jovem negro de Osasco, do Jardim D’Abril, Parelheiros, Mogi, Jardim Brasil, Bela Vista, Jardim Ângela, Heliópolis, Itapevi, Paraisópolis.

A descrição que Gielow tenta fazer é não só um reflexo do próprio Brasil, mas sim de como o autor vê a origem, a infância, o crescimento e a vida da maioria das crianças brasileiras: ditador paranoico em potencial, assim, incapazes de governar. Para Igor, Stálin e o brasileiro, por sua origem pobre, são pessoas a serem subjugadas pelo mesmo chicote policial de ontem e de hoje, afinal, não passamos de “gangsters” e vândalos de uma “origem nada fácil”.

JOVEM OPERÁRIO – Stálin enfrentou, durante sua juventude, três prisões czaristas e organizou a fuga das três. (Foto: Reprodução/Arquivo)

“Só teve um emprego fora da política” – Outra falsificação, até porque, ao longo de sua vida, Stálin trabalhou em centros de sapateiros junto com seu pai, na ferrovia, centros elétricos, onde conheceu Mikhail Kalinin, editor de jornal, tipógrafo e, também, nas refinarias de petróleo do Cáucaso. Todos esses trabalhos submissos a seu interesse maior: organizar o partido comunista entre a classe operária e preparar terreno para a resistência operária. Seu emprego no Observatório de Tíflis não foi diferente deste interesse.

“Ele roubou para o Partido” – Se antes Stálin era um gangster, agora é oficialmente um ladrão. Afinal, todo favelado é, em sua busca pela mudança radical da estrutura da sociedade, automaticamente, como diria Mano Brown, um vagabundo nato. Protagonizando “sequestros e assaltos a bancos para bancar a atividade política”, é evidente que, para o autor, uma leitura simplista das expropriações organizadas por Stálin e Simon Arshaki é mais do que obrigatória.

Evidentemente, o autor não leva em consideração que um proletário comum no gueto da Georgia submissa à Rússia tem o valor do seu trabalho roubado todos os dias por uma classe parasitária que não trabalha e especula em cima do trabalho alheio.

Claro, a expropriação é uma violação da propriedade burguesa, mas a propriedade burguesa é fruto, antes, do valor roubado do trabalho de milhões de operários e operárias, diariamente torturados de diversas formas no transporte público, sujeitos a Covid-19, assédio moral no trabalho, baixos salários, perda de direitos trabalhistas, perda da aposentadoria, demissões em massa. Os “sequestros e assaltos a bancos para bancar a atividade política” não passam, afinal, de um acerto de contas entre um sujeito que, para recuperar seus pertences, vai atrás do bandido que há pouco o assaltou.

Não é estranho que comunistas leiam esse tipo de coisa também. Afinal, a menor violação da propriedade burguesa que fazemos, uma ocupação por moradia ou por terra, é tratada como invasão e, consequentemente, bandidagem.

“Cadeia e exílio eram com ele” – Afinal, o lugar de gangster, sequestrador, assaltante, vândalo, invasor de terra etc. é a cadeia, certo? Somos, por acaso, naturais das cadeias e dos exílios, ou a concentração de riqueza em um polo nos condiciona a enfrentar os piores desterros em nome do fim da pobreza?

O autor não é capaz de notar essa diferença pela mesma razão que não se pode aprender comunismo na universidade. Não se pode notar a presença do comunismo da distância que Igor Gielow está do movimento das massas. Ele as vê como uma massa amorfa de desapegados com compromissos.

“Os brutos também amam” – Variando entre comentários políticos preconceituosos, até de teor racista (pela origem de Stálin) e falsificações históricas, Gielow segue o roteiro e planta uma falsificação. Além de gangster, assaltante, sequestrador, comunista, Stálin também é um degenerado infiel que possui, a seu bel-prazer, uma “coleção de amantes” e, por isso, causou o suicídio de sua companheira, Nadejda Alliluyeva.

É, obviamente, uma mentira. O autor nem mesmo se deu ao trabalho de citar uma fonte para estudo e, evidentemente, se citasse, não seria primária, mas fruto de uma fofoca ou um rumor sem comprovação clara, propaganda moralista novamente.

Destaca-se que o autor ignora que a morte de Nadejda Alliluyeva, em 1932, foi amplamente repercutida na União Soviética, sendo, inclusive, objeto de grande comoção nacional e prestação de solidariedade à perda de Stálin. Entre elas, Nadejda Krupskaia, revolucionária, educadora e companheira de Lênin, escreveu:

“Querido José Vissarionovich,

Nestes dias, tudo ao meu redor me faz pensar em você, de alguma forma… eu queria segurar sua mão. Eu sei como é muito difícil perder alguém próximo. Eu ainda fico lembrando das nossas conversas no escritório de Ilyich [Lênin] enquanto ele estava muito doente. Aquelas conversas me deram coragem para seguir em frente.

Eu novamente aperto sua mão,

N. Krupskaia.”

A ideia de que Alliluyeva se suicidou em um ato de vingança contra Stálin pela coletivização da terra é um rumor divulgado como verdade pelo biógrafo de Nikolai Bukhárin, Stephen Cohen, com origem no anticomunista Isaac Don Levine, que não apresenta nenhuma evidência, além de suas próprias especulações dos “bastidores da vida política soviética”.

A verdade é que Alliluyeva não se matou em vingança contra Stálin, mas foi vítima de enxaquecas crônicas que causavam a convulsões, ampliadas por sensibilidade à luz. A revolucionária viajava constantemente à Alemanha para fazer procedimentos médicos. Segundo Artyom Sergeyev, filho adotivo do casal, Alliluyeva tinha crises de pânico e ansiedade quando as enxaquecas agudizavam, o que a levou subitamente a um suicídio repentino e desesperado.

Stálin e Alliluyeva eram apaixonados um pelo outro, as cartas pessoais entre eles evidenciam tal relação, principalmente as cartas escritas no período de formação universitária de Alliluyeva.

A morte de sua companheira devastou completamente o emocional de José. Artyom Sergeyev relata como Stálin soluçava em choros durante o período de luto que durou meses, talvez anos. Dessa forma, não passa de falta de humanidade do autor fazer considerações tão insensíveis baseadas em rumores. O bom jornalismo real deixa de ser considerado bom para virar fofoca.

“Pais e filhos” – A ideia de que a relação de Stálin com seu filho, Iakov, era ruim é mais uma demonstração das falsificações expostas por Gielow. Conceber que a relação era ruim e que, por isso, Stálin negou qualquer negociação de resgate quando este foi capturado pelos nazistas segue sendo um dos exemplos de uma propaganda moralista do autor baseada em rumores e não provas concretas.

A premissa colocada no argumento é baixa em todos os sentidos, porque nem se explorou as condições colocadas pelos nazistas para tal negociação ou as tentativas de missões de resgate de Iakov – este, herói da resistência antinazista, exposto no texto como um objeto de alegoria da “paranoia de Stálin”.

O fato de Iakov ser um mártir da luta contra os nazistas não mostra a paranoia, mas a abnegação de Stálin como verdadeiro chefe de estado submisso aos interesses do povo e da classe operária. Stálin sabia que seu filho era um militar, que era tenente, sabia que seu filho, em sua atual condição, faria sua parte para combater o inimigo invasor e genocida.

Iakov fez sua parte, porém foi capturado, torturado, assediado, humilhado e comportou-se, mesmo assim, como verdadeiro filho e herói da classe operária, pois, segundo Wasily Kokorin, o sobrinho de Viatcheslav Molotov, que também foi capturado, Iakov não entregou nenhuma informação aos nazistas e rejeitou também as condições para sua troca injusta, dando sua própria vida para garantir que não extraíssem nada dele.

Segundo as memórias de Zhukov, Stálin abordou profundamente a questão da prisão de seu filho, até mesmo, anos mais tarde: “Se Iakov tentar escapar, de qualquer forma, os nazistas matarão meu filho…”. Stálin fazia essa afirmação ao ler os relatórios soviéticos que afirmavam que “durante os interrogatórios, ele [Iakov] se comportou com extrema firmeza, suportou com coragem todas as adversidades e sofrimentos, sobrepôs a si à altura das agressões”. Após uma pausa em uma caminhada com Zhukov, Stálin completou: “Não, Iakov prefere a morte a qualquer traição” e, de fato, preferiu. Iakov jogou-se em uma corrente elétrica fatal para evitar mais assédios nazistas e não vacilar em seu dever de defender a URSS e o socialismo.

AGITADOR, PROPAGANDISTA E ORGANIZADOR – Stálin foi essencial para a construção da revolução russa. (Foto: Reprodução/Arquivo)

“Seu papel na Revolução Russa foi pequeno” – Nada como um contrarrevolucionário determinar o que é um papel grande ou pequeno de um revolucionário em uma revolução. Sabemos, por essa frase titular, que Gielow não compreende nem o que é um papel grande ou pequeno, muito menos o que é uma revolução.

Assim como as afirmações anteriores, Gielow não nos apresenta nenhuma evidência do papel de Stálin na revolução, tampouco faz questão de complementar o assunto do intertítulo ao subestimar a função de Stálin na Revolução Russa. Ele apenas fala da confiança de Lênin e de um “centro”, ao qual, supostamente, Stálin não estava presente.

Ao contrário de Igor, nós vamos apresentar evidências do contrário e reafirmar, assim, que o papel de Stálin na Revolução Russa não foi apenas grandioso, mas essencial, singular, histórico e inspirador.

Segundo o escritor e heroico internacionalista Raúl Marco (que faleceu  há poucos dias), a ideia de que o papel de Stálin na revolução foi pequeno é uma falsificação que se inicia com o trotskista Isaac Deutscher – divulgado atualmente por Volkogoronov, uma das fontes de Gielow –, que afirmou: “nos dias da sublevação, Stálin não figurou entre seus atores principais. Ainda mais que, como de costume, permaneceu nas sombras.”

Para entender por qual motivo frases como estas são falsificações, precisamos abordar questões referentes à organização de Stálin no Partido, suas tarefas e fazer um balanço de seu papel histórico. De tal maneira, teremos como base os escritos de Marco:

Desde setembro de 1901, com apenas 23 anos, Stálin já era diretor de redação de um jornal leninista georgiano chamado A Luta. Em novembro do mesmo ano, ingressou no Comitê Regional do POSDR de Tíflis, onde foi preso pelo seu papel na construção da imprensa clandestina e do Partido. Assim, exilado na Sibéria Oriental, fugiu sem demora.

Perseguido, incorporou-se novamente ao Partido e foi destacado dirigente do Comitê Regional na Transcaucásia, novamente trabalhando como diretor de redação do jornal leninista Proletariatis Brdzola, no qual teve papel fundamental de orientar as novas organizações marxistas isoladas na ligação com o plano de trabalho leninista que ainda estava se desenvolvendo, o estilo de trabalho bolchevique.

Com o passar dos anos, Stálin destacou-se como verdadeiro bolchevique no trabalho entre os petroleiros de Baku, conquistando greves, aumento de salários, redução da jornada de trabalho. Elevou-se por sua produção intelectual, entre elas as obras “Anarquismo ou Socialismo” e “O Marxismo e a Questão Nacional e Colonial”, além de garantir a regularidade da imprensa. Somado a essa produção cotidiana, aprofundou-se na sua ligação com as massas e a organização clandestina do partido.

De fato, qualquer reacionário que acompanhasse Stálin cotidianamente ficaria espantado com a grandeza de suas tarefas revolucionárias, teriam um vislumbre dos dizeres do niilista russo do século 19, Sergey Nechayev, que retrata o revolucionário como um ser humano que “não tem interesses pessoais, sentimentos, nem sequer um nome. Cortou todos os laços que o prendem à lei e a moral; é um inimigo sem remorso do mundo civilizado em que vive, serve apenas para destruir; todos os sentimentos interiores de amizade, gratidão e honra devem ser reprimidos por uma única paixão primitiva: a revolução.”

O fato é que, em 1917, Stálin já era membro do Comitê Central do Partido há anos e estava no centro do movimento revolucionário e da ação revolucionária, pois ele já estava há muito inserido na construção minuciosa da revolução anos antes do momento decisivo, antes mesmo de 1905.

Após Lênin desenvolver as “Teses de Abril” e ser tachado como louco por Plekhanov e Cheidze, Stálin capta toda a profundidade do plano revolucionário de Lênin e o defende sem vacilação. Neste período, Stálin foi responsável por atualizar a imprensa do partido de acordo com as novas orientações de Lênin, assim como encaminhar a unidade partidária dentro das células, comitês revolucionários etc. Como coloca Emil Ludwig, Stálin converteu-se, nesse período, em “um pesado trator que lavra o solo mais duro, avança lentamente e prepara a terra para receber a semente.”

Raúl Marco destaca que “Stálin foi o principal artífice na tarefa decisiva de transformar a tese leninista em atividade política concreta”. A repressão, por conta disso, tornou-se mais aguda e o Partido passou à clandestinidade completa.

“O governo lança uma campanha de calúnias contra Lênin; fabricam-se informes, provas falsas, chamam Lênin de ‘agente a soldo da Alemanha’… Uma ordem de prisão é expedida contra ele. Diante dos que aconselhavam que Lênin deveria se entregar, Stálin se opôs e convenceu a todos, inclusive ao próprio Lênin, de que ele deveria esconder-se e não entregar-se à reação, pois o governo provisório não era outra coisa que não o que o nome já indica, provisório. Stálin foi encarregado da operação que levou Lênin a um lugar seguro [e o disfarçou].” – afirma o biógrafo de José Stálin.

Exilado, Lênin não pôde participar do VI Congresso do Partido, sendo Stálin seu mensageiro junto a Sverdlov. José tornou-se, então, o homem que seria responsável por manter a linha leninista em defesa da palavra de ordem “todo poder aos sovietes”, porque esta estava sendo questionada por elementos confusos ou derrotistas do Partido Bolchevique.

Já em uma situação madura para a revolução, Stálin integrou o mais importante comitê do Partido naquele momento junto com Lênin, Iakov Sverdlov e Félix Dzerjinsky, o “Comitê Militar Revolucionário”. Sua principal tarefa era fortalecer os comitês e o caráter armado da insurreição e da Guarda Vermelha, milícia bolchevique. Nesse período, cada fábrica converteu-se em uma trincheira de guerra, e os bairros operários organizavam comitês militares locais.

Lênin regressa e é encaminhado para a Universidade de Smonly, onde é recebido por Stálin. Lá, integrava-se todo o aparelho de comunicação e redes de ligações de mensageiros do Partido. Esse aparelho militar que abrigaria a direção do Comitê Militar Revolucionário foi metodicamente organizado por José Stálin.

Das ordens saídas de Pavel Lazimir, Andrei Bubnov, Moisei Uritski, Iakov Sverdlov, Félix Dzerjinsky, Vladimir Lênin e José Stálin, na Universidade de Smonly, inicia-se a insurreição e a tomada do Palácio de Inverno. Ou seja, seu papel não foi pequeno, foi fundamental. Stálin estava na mais completa direção do combate armado junto de seu coletivo. Ironicamente, Trotsky não integrava nenhum comitê, tampouco uma organização militar local.

“Sua ascensão foi meteórica” – Não foi. Como vimos anteriormente, Stálin já tinha ascendido aos postos do Partido anos antes da revolução. Desde 1901, Stálin integrava um comitê regional do Partido. Sua ascensão ao Comitê Central aconteceu logo que o nome “bolchevique” começou a existir.

“Seu grande inimigo foi Trotsky” – Afirmação um tanto patética, afinal, pode-se dizer que o “grande inimigo” de Trotsky foi Stálin, mas dizer que o “grande inimigo” de Stálin foi Trotsky é uma falsificação.

Afirmamos o contrário: o grande inimigo de Stálin foi Adolf Hitler. Não foi o irrelevante Trotsky quem teve capacidade política e militar para questionar o poder soviético, tampouco causou 27 milhões de mortes durante uma guerra de extermínio. Gielow peca pela falta de honestidade e de raciocínio.

O burguês Igor afirma, ironicamente como todo trotskista, que “Leon Trotsky era o herdeiro presumido de Lênin” e, de novo, não apresenta nenhuma evidência dessa afirmação, apenas reforça o paradigma anti-Stálin. A começar pelo fato ridículo de afirmar que Lênin tinha herdeiros, algo abominado por Ilyich, dado a ideia aristocrática do poder hereditário.

Lênin, por diversas vezes, destacou e dedicou dezenas de artigos e textos para criticar Trotsky, inclusive ousou e pontuou a ideia de Trotsky ser um oportunista fracionista ou um Judas. Ou seja, Gielow fala por Lênin sem ao menos ler o autor.

“Ele criou um Estado personalista” – Gielow repete um conceito desenvolvido ao longo da história pelo paradigma anti-Stálin. Ele, isto é, Stálin, teria criado e determinado por conta própria as condições e as regras do que seria o novo Estado socialista.

Stálin não criou um Estado personalista. Pelo contrário, Stálin lutava arduamente contra o personalismo e o culto à personalidade. Para comprovar essa afirmação, é necessário ver como Stálin via a si mesmo.

Ao ser ovacionado por ferroviários, Stálin afirmou: “devo dizer-vos, camaradas, que, falando francamente, não mereço boa parte dos elogios que me fizeram. Disseram que sou um herói de outubro, um dirigente do Partido Comunista da URSS, um dirigente internacional comunista, enfim, um assombro e muitas outras coisas. Tudo isso, camaradas, não são mais que palavras e um exagero inútil. Assim só se fala ante o túmulo de um revolucionário. Mas, camaradas, eu, por ora, não penso em morrer.”

Grover Furr tem contribuições importantes para estudar o culto à personalidade e suas falsificações oriundas do paradigma anti-Stálin.

Um exemplo bem claro da luta de Stálin contra o culto de sua imagem na política nacional foi abordado seriamente por Akakii Mgeladze, escritor georgiano marginalizado por Khrushchev. Mgeladze relembra, por exemplo, todas as medidas que Stálin havia tomado em 1949 para evitar a comemoração pública de seu 70º aniversário em Moscou. O autor relembra também um processo polêmico que o Politburo (escritório político do Comitê Executivo do Partido) propôs em 1937: a mudança de nome da cidade de Moscou para Stalinodar (Presente de Stálin). Porém, a alteração encontrou resistência do georgiano.

Stálin recusou, inúmeras vezes, a medalha de “Herói da União Soviética” (medalha mais importante do país), argumentando que não havia feito nada de verdadeiramente heroico. Mesmo sob recusas anteriores, Stálin vestiu a medalha uma única vez: no seu caixão, depois de morrer. O recebimento da medalha foi feito sem honrarias: ela foi, simplesmente, colocada em seu travesseiro para exposição.

Esses fatos levam à seguinte pergunta: quem alimentava o culto à personalidade de Stálin? A resposta está em seus opositores políticos. Durante a confrontação com os sabotadores, Bukhárin admitiu que orientou o jornal Izvestiia a cultuar Stálin. Karl Radek, trotskista, foi reconhecido por escrever o primeiro ensaio futurista completo que originou o culto, o encarte do Izvestiia “O Arquiteto da Sociedade Socialista” em 1º de janeiro de 1934.

Depois de ambos serem combatidos, os continuadores do culto foram Khrushchev e Mikoian, principais idealizadores da futura desestalinização.

A afirmação correta a se dizer é: a direção de Stálin estabeleceu a sociedade socialista, porém a direção de Trotsky, Bukhárin e Khrushchev estabeleceram o culto à personalidade.

CAMARADAS – Ao contrário do que pregam as falsificações da Folha de S. Paulo, não existiam intrigas entre Lênin e Stálin. (Foto: Reprodução/Arquivo)

“Lênin não o queria no poder” – Bom, a partir desse momento, o autor desistiu de qualquer compromisso e começou com a patetice. Apesar de ele, novamente, não apresentar nenhuma evidência, Gielow faz uma clara confusão. Igor afirma que Lênin não queria José no controle do país, pois “Stálin é descrito como rude e inapto para liderar o país.”

Um detalhe importante, que salta aos olhos dos leitores atentos, é que Lênin, em sua carta, aqui chamada ridiculamente de “testamento”, jamais faz menção à liderança do país, mas sim do partido.

As orientações críticas de Lênin que debatem a militância e a organização de Stálin na direção do partido sempre foram abertamente discutidas na direção da organização.

Em relação à carta, um dos presentes no centro do debate, Lazar Kaganovitch, tem evidências primárias para entender a natureza das orientações de Lênin e também faz um balanço autocrítico da postura de Stálin após as críticas de Vladimir, que determinam se Stálin fez ou não fez uma justa autocrítica de sua postura dirigente.

Apesar de também aqui não haver quaisquer acusações adicionais sobre questões fundamentais de carácter político, e de Stálin ser considerado por Lênin como um dos dois mais destacados líderes do Comitê Central de então, a crítica dirigida a Stálin é bastante grave, por isso, todos nós, delegados ao congresso, analisámo-la com toda a seriedade. Sei isto não só como delegado ao congresso, mas também como funcionário do Comitê Central que estava ligado às delegações. Mas quando a carta de Lênin foi divulgada e discutida nas delegações, os camaradas, com todo o carinho, respeito e lealdade para como Lênin, colocaram antes de mais a pergunta: ‘Mas será possível encontrar uma pessoa que, como escreve Lênin, tenha todas as qualidades de Stálin e se diferencie apenas por uma vantagem, a saber: que seja mais tolerante, mais leal, mais cortês, etc.?’ Se Lênin estivesse convencido de que era fácil fazê-lo, isto é, encontrar substituto para um dos dois mais destacados membros do CC, então, com a sua frontalidade, teria proposto destituir Stálin e apresentar fulano, mas escreveu cautelosamente ou, eventualmente, com reserva: “[…] Proponho aos camaradas que pensem na forma de transferir Stálin deste lugar”.

Destaca-se aqui o raciocínio do Comitê Central ao ler a carta de recomendações ao Congresso. Mais à frente, Kaganovich relembra como Lênin costumava abordar a crítica e autocrítica de seus camaradas e quais as indicações que normalmente buscava fazer para os militantes do partido não errarem mais.

É conhecido que Lênin, criticando frequentemente os quadros com muita severidade, educava-os, incluindo os seus assistentes mais próximos, contando que se corrigissem. Pode-se pensar que Lênin também aqui, colocando desta forma a questão, contava que Stálin corrigisse os seus defeitos. E deve-se dizer que Stálin, no decurso do XIII Congresso, prometeu que teria em conta a crítica do seu mestre Lênin e eliminaria os defeitos que lhe eram apontados. Nós, que trabalhámos com Stálin, podemos dizer que, imediatamente após o XIII Congresso, ele revelou um particular respeito pela colegialidade no trabalho, lealdade e cortesia, tal como Lênin exigiu.

Em outras palavras, Stálin manteve uma postura autocrítica e avançou sua consciência política para o cargo que foi eleito democraticamente pelo Comitê Central do Partido.

AUTODIDATA – Stálin era um autodidata extremamente culto. (Foto: Reprodução/Arquivo)

“Stálin era um leitor obsessivo” – Nada mal para um gangster, ladrão, sequestrador, assaltante, perverso, comunista, devasso, colecionador de amantes, traumatizado, quase padre, doente e deformado ter uma biblioteca com cerca de 20 mil livros e ser um tremendo estudioso autodidata. A contradição está batendo na porta de Gielow.

“E gostava mesmo de faroestes” – “Chegou a sugerir que o ator John Wayne deveria ser assassinado, por ser uma ameaça à cultura comunista” – além de descaramento ridículo, Gielow não apresenta nenhuma prova desta sugestão. Mais uma patetice gratuita de Igor.

A aparente prova não apresentada é uma conversa de Khrushchev com John Wayne, em 1958, na qual o mentiroso teria dito ao ator: “Essa foi uma decisão de Stálin nos últimos cinco anos loucos de sua vida. Quando Stálin morreu, eu revoguei a ordem.”

Presente no livro de Volkogoronov, o autor não apresenta provas primárias, apenas uma fofoca de Khrushchev, que constantemente mentia sobre Stálin para garantir o retorno da URSS ao modo de produção capitalista por meio da desestalinização do país e da cultura soviética.

“Ele tirou a União Soviética do século 19” – Novamente, nada mal para um gangster, ladrão, sequestrador, assaltante, perverso, comunista, devasso, colecionador de amantes, traumatizado, quase padre, doente e deformado conquistar tal êxito. Deve haver alguma incongruência no discurso narrativo de Igor. Como um homem tão perturbado é capaz de promover uma política econômica tão acertada e revolucionária, sendo que evidências atuais mostram que homens perturbados como Bolsonaro apenas representam um desastre econômico e social?

“Mas os dados enganam” – “Não havia produção de bens de consumo”, talvez porque a necessidade mais urgente para a população trabalhadora do país não fosse um alvoroço consumista, mas a garantia da qualidade de vida por meio de serviços públicos eficientes, sendo os gadgets meros acessórios de uma vida já em plenas condições de desenvolver-se completamente.

Um exemplo do contrário é o Brasil, um país onde milhões têm celular, mas estes mesmos milhões vivem sob o déficit habitacional, desemprego, miséria, perda de aposentadoria, perda de direitos trabalhistas, sucateamento dos serviços públicos, analfabetismo e a fome.

“Houve ganhos sociais” – “Embora os dados daquela época sejam poucos confiáveis”. Esta afirmação busca dizer que os dados confiáveis são os divulgados por Hearst, Joseph Goebbels, Hitler e demais anticomunistas que jamais pisaram na União das Repúblicas Socialistas Soviéticas e que jamais tiveram condições de fazer balanços estatísticos reais além de especulações baseadas em rumores e falsificações panfletárias para afastar os trabalhadores do socialismo.

Então, entramos em uma dicotomia: confiar nos rumores anticomunistas ou confiar nos dados primários soviéticos? Essa pergunta faz crer o quão real é a hipocrisia da Folha de S. Paulo. Quando Bolsonaro nega dados oficiais do Datafolha, ele é “anticientífico” e “atenta contra a democracia”, contudo quando os dados são levantados por uma república socialista, é justo agir como Bolsonaro e negar esses mesmos dados oficiais.

Certamente, a historiadora Elena Prudnikova considera que documentos da época não são falsificados. Para ela, se isso ocorresse, a administração local estaria comprometida, assim como como os serviços públicos e as diretrizes do Estado, reinaria a confusão na administração pública, o contrário da crítica burguesa que questiona a “excessiva centralização do Estado”.

“Mas o custo humano foi enorme” – Igor Gielow escolheu os dados nazistas e repete ipsis litteris a frase do anticomunista Viktor Yushchenko: “A coletivização da agricultura gerou uma das maiores catástrofes humanitárias da história”, segundo as vozes na cabeça de Igor, “cerca de 4 milhões de ucranianos morreram”.

Em seu recente trabalho, a historiadora Elena Prudnikova inova a interpretação sobre o período Stálin e ousa: para ela, o Holodomor é uma mitologia. Ao contrário dos anticomunistas, Prudnikova teve acesso exclusivo aos arquivos do Fundo CSO, também do Fundo Tsunkhu (Departamento Central de Contabilidade da Economia Nacional e Estatística). Outra fonte importante registrada metodicamente por Prudnikova foram os óbitos da época. Ela recuperou registros de óbitos em cartórios locais, ou seja, uma pesquisa profunda e formidável. Um adicional feito por ela destacou jornais diários de todo o Leste Europeu e fez outra revelação: índices de fome cresciam na Polônia e na Romênia no mesmo período, mesmo estes sendo países independentes da União Soviética.

As revelações de Elena demonstram uma epidemia local de febre tifoide e de tuberculose. A epidemia não atingiu só a Ucrânia Soviética, mas também antigos territórios da Áustria, Polônia e Romênia, ou seja, regiões fronteiriças e periféricas.

Prudnikova deixa claro: os eventos na Ucrânia, Áustria, Polônia e Romênia foram acontecimentos em cadeia. Entre eles, epidemias e secas locais que atingiam a produção.

A autora recuperou relatos de jornais como O Diário Ucraniano. Os jornais revelam que a epidemia causou a fome e que o papel central do governo soviético foi de aplicar a coletivização para solucionar a crise causados pela epidemia e pela má colheita.

A fome também atingiu a Polônia em 1932-1933 pelas mesmas razões que atingiu a região ocidental da Ucrânia soviética. Segundo O Diário Ucraniano, em 1932, a Polônia, em decorrência da fome e da epidemia, tinha mais de um milhão de desempregados, o que levou 10% da população do país a recorrer a auxílios do governo. Com estatísticas da época, o jornal também revelou, em uma série de reportagens, o início dos chamados “motins de fome”. Um editorial chama a atenção: “Polônia: o país do suicídio pela fome”.

O diário contou também a história de um camponês chamado apenas de “Sila” em Zduńska Wola, próximo de Varsóvia. Na reportagem, Sila iria vender seu filho de dezoito anos por ZŁ$50 para comprar comida e salvar o resto de sua família que morria de fome.

Histórias como essa se repetiram não só na Polônia, mas na Áustria e na Romênia: em 1932, a safra de grãos romenos caiu pela metade em comparação a 1931, o que levou a crises locais e instabilidade.

O jornal Kuvantul revelou que aproximadamente 120 mil crianças romenas morreram de fome em 1933. O diário expôs uma declaração assustadora do Ministro da Segurança Social da Romênia, Monicecu: 18% das crianças romenas recém nascidas morreram em 1930 por conta da fome.

Para piorar: em Bucovina, a mortalidade infantil ultrapassou 20%; em Bessarábia, 25%. O número de pacientes com tuberculose na Romênia chegou a 500 mil, dos quais apenas 80 mil foram atendidos, o jornal também noticiou diversos motins de fome na Romênia no mesmo período, um deles em Chișinău.

“Os motins de fome em Chișinău não cessam. Em novembro, o preço do pão aumentou 100%, porém sumiu do mercado. Uma multidão de várias centenas de pessoas invadiu diversas padarias; dispersaram somente com a ação da polícia que deixou muitos feridos. Leprosos doentes fugiram do hospital porque não recebiam comida há uma semana. Eles fizeram uma campanha contra a fome em Bucareste, e destacamentos da polícia foram enviados para dispersá-los.”

Até o jornal de direita Dimineatsa admitiu: “os trabalhadores romenos, em sua terra natal, encontraram-se em uma situação de escravos coloniais.”

Agora, uma franca pergunta: como Stálin, o socialismo e a URSS têm relação com esses acontecimentos que não dizem respeito à sua jurisdição? Estariam os soviéticos também coletivizando as terras de países que não compunham a União Soviética? Certamente, pode-se afirmar com clareza: epidemias e secas não respeitam fronteiras.

Outro questionamento pertinente que se deve fazer é considerar o seguinte paradigma: se desastres naturais que atingem diversos países são consequência do socialismo (segundo Igor Gielow), por que não podemos considerar os relatos citados anteriormente como consequência direta da crise capitalista de 1929?

Evidentemente, não podemos determinar que as terras secaram por conta crise de 1929. Contudo, deve-se, com toda certeza, considerar a forma de administrar a crise como uma consequência da Grande Depressão.

Tais países não demonstraram um único sintoma de melhora, e somente os países imperialistas recuperaram-se da crise com o início de uma nova guerra mundial imperialista em 1939. A alternativa soviética para crise, ao contrário, foi o aprofundamento constante e imparável da coletivização da terra. Eis o contraste: enquanto os imperialistas solucionaram crises com extermínio em massa de povos inteiros e rapina, a URSS administrou uma crise com amizade dos povos e socialismo.

“A brutalidade era a norma, e o modelo faliu” – Neste ponto cabe uma séria reflexão sobre o caráter de produção socialista e suas consequências. Igor afirma: “Nos primeiros planos quinquenais, cotas absurdas de produtividade eram estipuladas.”

Porém, deve-se dizer o seguinte: como as cotas individuais eram absurdas se, em todos os planos quinquenais, os soviéticos ultrapassavam a margem mínima esperada pelo Estado? Um claro exemplo é a de produção de energia. Ludo Martens escreveu muito bem sobre o efeito em cadeia da produção soviética:

“Lênin lançou as teses para a construção do poder soviético na Rússia, Stálin o apoiou fielmente e, após a morte de seu camarada, cumpre com toda determinação o que lhe foi confiado ao promover a política de eletrificação do país, os Planos Quinquenais, a Coletivização da Terra e a Revolução Cultural.

No setor da eletrificação, segundo ‘Manual Estatístico do Progresso do Poder Soviético’, a URSS sob liderança de Stálin, só em 1935, foi capaz de produzir cerca de 4,07 milhões de KWh com um amplo processo de eletrificação planificada do país. Esse apogeu nos mostra a grandeza no papel de Stálin no cumprimento dos planos de Lênin, sendo que a meta estipulada em 1920 era apenas de 1,75 milhões de KWh, ou seja, Stálin cumpriu o plano inicial em 233%.”

As metas eram tão absurdas que a classe trabalhadora foi capaz de ultrapassar 233% do considerado absurdo. De fato, essa é classe mais avançada da história. A atmosfera nem mesmo era de medo e terror para ultrapassar as metas, afinal o doutor Emile Joseph Dillon viajou à URSS e testemunhou:

Por toda parte o povo pensa, trabalha, organiza-se, faz descobertas científicas e industriais. Nunca se testemunhou nada de semelhante, nada que se lhe aproximasse na variedade, na intensidade, na tenacidade com que os ideais são perseguidos. O ardor revolucionário consegue demover obstáculos colossais e fundir elementos heterogêneos num único grande povo; com efeito, não se trata de uma nação, no sentido do velho mundo, mas de um povo forte, cimentado por um entusiasmo quase religioso. Os bolcheviques têm realizado muito do que proclamaram e mais do que parecia realizável por qualquer organização humana nas difíceis condições em que têm operado. Mobilizaram mais de 150 milhões de seres humanos apáticos, mortos-vivos, e insuflaram-lhes um espírito novo.

“Stálin foi um dos grandes homicidas da história” – Incrível o nível de falsificações expostas: o autor deixa claro que o Holodomor matou em torno de quatro milhões de pessoas, ou seja, os dezesseis milhões que faltam seriam consequência das repressões.

Nem o governo nazista, que construiu campos especificamente para extermínio, que profissionalizou e tornou o genocídio em um método industrial de produção, foi capaz de chegar perto deste número. No entanto, os soviéticos, que não tinham campos de extermínio nem câmaras de gás, trabalho escravo e uma rede de campos inteiros dedicados a matanças cotidianas, por alguma razão, chegou a esse número.

A Primeira Guerra Mundial imperialista ensinou que é necessário um investimento milionário em novas máquinas de guerra para promover uma verdadeira chacina: combates diretos, chacinas em terras de ninguém, mobilizações em massa para a guerra, milhões de toneladas em bombardeios, políticas de arrocho, bloqueios, ações coordenadas, hierarquia etc.

A URSS não promoveu nenhuma dessas políticas no período Stálin, a não ser para exterminar nazistas durante a Grande Guerra Patriótica.

Como um povo que realizou duas revoluções contra governos tiranos se submeteria a um grau tão alto de violência sem ao menos questionar a morte de dezesseis milhões de pessoas por repressão pura do governo soviético?

O autor Arch Getty já nos contempla com uma frase sobre esse raciocínio iniciado por Robert Conquest: “essa conclusão é fruto de um trabalho inútil.”

As mortes por razões políticas não chegam a um milhão de mortos na URSS, quem dirá vinte milhões.

AMIGOS – Ao contrario do que falam as falsificações, Stálin e Kirov eram amigos próximos e aliados políticos. (Foto: Reprodução/Arquivo)

“O Grande Terror de 1936-38” – Igor fala em uma suposta crueldade de Stálin baseando-se na origem de classe do georgiano. Segue um raciocínio não literal de Gielow: um paupérrimo do gueto da Geórgia com certeza será um cruel que um dia chegará ao ápice de sua crueldade e terá energia e condições de matar gratuitamente oitocentas mil pessoas opostas a ele.

Essa suposta crítica da crueldade dada a origem e as estradas que Stálin trilhou não refletem nada além de um nojo que Igor Gielow nutre contra os pobres, afinal, não reconhece a malícia que um trabalhador possui quando se é sabotado pelo capital a vida inteira.

O Grande Terror de 1936-1938” não foi mais do que uma consequência de operários indignados com uma nova agenda de sabotagens dos capitalistas contra a obra mais valorosa produzida pela classe operária: o socialismo.

Entretanto, para além de exercer uma crítica estritamente política do nojo que Igor Gielow tem de pobres e suas tradições, faremos também uma crítica histórica, pois Igor novamente apresenta falsificações.

Tanto o número de oficiais depurados quanto o número de mortos neste período são mentiras. Elas originaram-se com a literatura falsificada de Robert Conquest e seu “O Grande Terror”, de 1968, em continuidade com “Stálin e o Assassinato de Kirov”, de 1988, e de Amy Knight em “Quem Matou Kirov?”, de 1997.

Cabe dizer que nenhuma dessas obras apresentam fontes primárias. Elas são apenas, novamente, literaturas fortificadas com rumores e fofocas alimentadas por jornais nazistas norte-americanos e britânicos.

A narrativa consiste, basicamente, na seguinte ordem: Stálin entrou em contato com um homem chamado Nikolaev para assassinar Serguei Kirov e, assim, justificar uma repressão em massa contra seus opositores políticos, na época, Lev Kamenev, Grigori Zinoviev e, principalmente, Nikolai Bukhárin.

A recuperação de fontes primárias sobre esse período, ainda que modestas, aconteceu somente em 1993 com a historiadora Alla Kirilina, trabalhadora do Museu Kirov de Leningrado. Em seu livro, “O Kirov Desconhecido”, Kirilina desvenda as contradições dessa narrativa fraudada.

Apenas em 2010, o historiador estadunidense Matthew Leone publica sua obra monumental de 800 páginas, “O Assassinato de Serguei Kirov e a História Soviética”. Recupera, traduz e divulga 127 documentos completos ou parciais sobre o assassinato de Kirov. Para Grover Furr, essas descobertas são reveladoras: os documentos comprovam a ligação direta de Nikolaev (assassino de Kirov) com o núcleo terrorista de Kamenev, Zinoviev e Bukhárin.

Se as evidências sobre o assassinato de Kirov representam que a narrativa soviética é real, as evidências da resposta do governo soviético tendem a ser igualmente reais, pois se tratava, então, do combate a uma rede conspirativa fascista que atuava no país, assim como atuava livremente em toda a Europa.

O historiador afirma: “a ameaça era verdadeira” diante dos diversos relatórios que a NKVD apresentou a Stálin e que estão disponíveis para estudo hoje. Entre eles, os relatórios do Fundo Lubianka – volumes de arquivos com três pastas inteiras das investigações no período eleitoral entre 1937-1938.

Os relatórios não só continham provas da ligação direta dos terroristas com os fascistas, como também declarações recolhidas de todos. Stálin os estudou cuidadosamente pelo número de notas, observações e sínteses dos relatórios. Isso prova que Stálin não forjava relatórios sinceros, apenas os estudava.

Um estudioso dos relatórios, Khaustov, muito longe de ser comunista, confia que Stálin acreditou nos relatórios levantados pela NKVD: “a reação de Stálin para com esses documentos foi completamente séria, sincera e de boa fé.”

Obviamente, a Folha de S. Paulo não se deu ao trabalho de verificar as fontes primárias, tampouco ler as mais de 400 páginas de depoimentos de Bukhárin em que ele assume, detalhadamente, como atuou de 1928 até aquele momento para assassinar Stálin e, assim, tomar o poder com um golpe de estado palaciano.

Se o jornal está com preguiça de confirmar suas fontes e ler mais de 400 páginas de confissões diretas, podemos, por exemplo, utilizar a rápida declaração do amigo sueco de Bukhárin, Jules Humbert-Droz que, em 1971, longe da mira da pistola da NKVD, confirmou que Bukhárin foi responsável por planejar o assassinato de Stálin e promover uma conspiração terrorista na URSS:

Antes de partir, fui visitar Bukhárin pela última vez, sem saber se o veria novamente quando voltasse. Tivemos uma longa e franca conversa. Ele me atualizou sobre os contatos que seu grupo fez com Zinoviev e Kamenev para coordenar a luta contra o poder de Stálin. Não lhe escondi que não aprovava esta ligação das oposições.

Bukhárin também me disse que havia decidido utilizar o terror individual para se livrar de Stálin. Também, neste ponto, expressei a minha reserva: a introdução do terror individual nas lutas políticas nascidas da Revolução Russa correria o risco de se voltar contra aqueles que o empregaram. Nunca foi uma arma revolucionária.

Normalmente, os anticomunistas afirmam que as confissões foram forjadas ou frutos de tortura, porém não há evidência alguma de tortura. Pelo contrário, observadores internacionais democratas que assistiram aos processos afirmam que os condenados estavam em ótimo estado.

Um desses observadores é o Embaixador dos Estados Unidos da América em Moscou, Joseph E. Davies, que declarou em seu livro de memórias “Missão em Moscou”: “Eu ouvi as declarações com cuidado. Naturalmente, preciso confessar que duvidava da honestidade das declarações em virtude da credibilidade dos acusados.., porém, observado de maneira objetiva e de acordo com minha experiência em tribunal e na aplicação dos testes de credibilidade, eu devo dizer que a única conclusão possível é confirmar o caso, havia uma rede de conspiradores e uma tentativa de golpe entre aqueles líderes políticos contra o governo soviético.”

Davies fica impressionado com as confissões. “Eu ainda estou impressionado com a quantidade de indícios de total credibilidade que obtiveram no curso das declarações. Dizer que as confissões foram inventadas ou que são falsas, frutos de uma invenção ou drama político seria presumir [que a União Soviética cria] gênios como Shakespeare ou Belasco em criação e preparo de encenações. A conjuntura, as circunstâncias que envolvem a atual situação também comprovam os testemunhos. […] Os detalhes circunstanciais vindos de vários acusados corroboraram inegavelmente o nível das sentenças.”

De Tellier, Ministro Belga que estava em viagem à URSS no período dos julgamentos, concorda com Davies: “os acusados em julgamento são culpados na minha opinião… não há dúvidas mais de que havia uma conspiração e que os acusados participavam delas.”

Denis Pritt, britânico, junto com Pat Sloan, estavam presentes também nos julgamentos e afirmaram que não havia nenhum sinal de tortura: “todos eles estavam muito bem. Mais de dezesseis homens se confessaram culpados… se eles tivessem sido maltratados na prisão, com certeza fariam minimamente algum comentário, ou ao menos teriam algum sinal bem visível ao público. Dizer que eram inocentes era praticamente impossível dado ao número de quase inesgotáveis provas… e todos sabiam disso.”

O antifascista alemão Lion Feuchtwanger comentou abertamente sobre a possibilidade de haver tortura, mas concluiu, ao assistir o julgamento, que não havia nenhuma possibilidade de ter acontecido: “A primeira e mais razoável suposição é, naturalmente, que as confissões foram extraídas dos prisioneiros por meio de tortura e pela ameaça de torturas ainda piores. No entanto, esta primeira conjectura foi refutada pelo óbvio frescor e vitalidade dos prisioneiros, por todo o seu aspecto físico e mental.”

O acusado Valentin Astrov, por exemplo, é uma testemunha ocular de que não ocorreu tortura alguma. Em 1989 e 1993, já idoso e longe da “mira da KGB ou de Stálin”, teve a oportunidade de comentar sobre o caso dos processos de Moscou e sobre Bukhárin. Ele afirmou com tranquilidade que foi bem tratado pela NKVD, que jamais levantaram a voz para ele. Se tivesse ocorrido alguma espécie de tortura, Astrov afirmaria com convicção como elas aconteceram e os traumas que sofreu, porém ele negou porque, simplesmente, não aconteceram.

Um contraste são os relatos do brasileiro, natural de Mossoró, Lauro Reginaldo da Rocha quando foi preso em 1941. Em seu livro de 1991, “Bangu, Memória de um Militante”, relata as impensáveis torturas que sofreu junto com Joaquim Câmara Ferreira e outros companheiros.

Abriram uma caixa de espetos de bambu, lisos, achatados, pontiagudos. Outros apetrechos: um alicate, um sarrafo curto para servir de macete, garrafas com líquidos, uma bacia. Um dos policiais aproximou-se e bradou: “Como é, seu filho da puta, vai dar o serviço ou não vai?” ele verificou que eu não estava com nenhum desejo de dar serviço pois continuei calado.

Começou então a operação. Segurou firme um dedo de minha mão, colocou um espeto de bambu debaixo da unha e começou a bater com sarrafo, com quem crava um prego. Contraí todos os músculos, cerrei os dentes. O espeto penetrou nas carnes, ultrapassou toda a unha. É impossível descrever aquela dor, tive que sufocar um urro na garganta, o primeiro impulso foi gritar, berrar, mas contive-me. Depois passaram aos outros dedos. Um a um os espetos iam sendo cravados, as unhas iam ficando levantadas e roxas, o sangue gotejando sobre o ladrilho.

Enquanto eu me mantinha em silêncio, os monstros cantavam. E acompanhavam o seu nefando trabalho ao ritmo de um estribilho que servia na época de propaganda pelo rádio dos cigarros Adelfi, como se aquilo ao passasse, para eles de um divertimento. E, na sua gíria, os espetos passaram a ter o nome dos cigarros. Havia uma ligação entre a propaganda dos cigarros Adelfi e o “trabalho” dos carrascos. As carteiras desse cigarro traziam vales que davam direito a prêmios aos fumantes e os torturadores eram também premiados pelos seus chefes, sempre que conseguiam arrancar alguma confissão de suas vítimas. Uma ideia digna de seus autores.

Todos os dedos da mão esquerda estavam cravejados com os espetos, passaram para a mão direita. O martírio não parecia ter fim. O serviço era feito, porém, com calma os espetos iam ficando enterrados, não havia pressa em retirá-los, eles davam a impressão de que as unhas cresceram de repente e viraram garras.

Eu contava os dedos espetados e os que faltavam espetar, calculava o tempo em que eu tinha de me manter com os músculos e os nervos tensos e fazendo aquele esforço tremendo para não gritar. Quando os dez dedos das mãos ficaram todos enfeitados, respirei fundo e julguei ter vencido aquele primeiro “round”. Mas enganei-me porque o primeiro “round” não terminara. Com surpresa vi que eles se abaixavam e começavam a meter os espetos nas unhas dos pés.

As torturas prosseguiram pela noite a dentro, o sadismo tomando as formas mais variadas: “mordidas” de alicate na barriga, torceduras dos testículos, queimaduras com ponta de charuto.

Finalmente, exaustos e suados, os algozes suspenderam as operações. Com o alicate arrancaram, uma a uma, as farpas das mãos e dos pés. Puseram numa bacia um líquido que disseram ser água vegeto-mineral, e mergulharam meus dedos nessa água, à guisa de assepsia. A seguir, fui levado para uma sala ao lado, a alguns passos apenas do local das torturas.

Este é o relato de um homem que passou por sérias torturas. Vale destacar que esse é somente o primeiro dia de tortura, Bangu passou por onze dias de diversas seções de torturas inimagináveis e destaca as consequências delas:

O tumulto foi aos poucos diminuindo até chegar a um silêncio total. Em segundos a notícia se espalhou: Joaquim Câmara Ferreira – o companheiro Jurandir – que vinha sendo torturado, aproveitou um descuido do “tira” que o vigiava, correu para uma janela partiu com um soco o vidro e cortou os pulsos, ao mesmo tempo que gritava as frases acima descritas.

Em outra passagem, Bangu fala dos efeitos que as torturas o causaram anos mais tarde:

A imaginação criadora dos verdugos é fértil. Eles estão sempre a descobrir pontos vulneráveis no organismo e a cada descoberta exultam como se tivessem descoberto um tesouro. Isto aconteceu quando eles descobriram um calo, muito sensível, no meu pé. Com um cabo de vassoura passaram o resto da noite a bater sobre o calo. É impossível descrever o que senti. Dessas pancadas originou-se um tumor entre os dedos, o pé inchou, ficou redondo como uma bola.

Fica vivo, assim, o contraste de uma acusação de tortura sem provas e sem declarações e uma tortura real que persegue suas vítimas até seus últimos dias. Bangu, assim como muitos outros, foi uma vítima real das torturas e as denunciou, enquanto os acusados dos processos de Moscou as negaram até mesmo depois que qualquer um pudesse os ameaçar com novas acusações.

Fica mais do que comprovado que Igor Gielow está mentindo descaradamente tanto sobre os processos de moscou quanto sobre as “acusações farsescas”.

MESTRES DA ARTE POLÍTICA – Molotov e Stálin conseguiram preparar o país para uma guerra contra a Alemanha nazista. (Foto: Reprodução/Arquivo)

“O pacto com Hitler quase lhe custou o país” – De acordo com a cartilha de falsificações históricas trotskistas e anticomunistas, falar de uma aliança simbolizada pelo Pacto Molotov-Ribbentrop não poderia ficar de fora.

Não só o autor não apresenta evidência alguma, como sua única fonte para suas declarações é ele mesmo, afinal, o link da fonte colocada por Gielow nos leva a outro artigo… escrito por ele mesmo.

Se estamos debatendo assim, nada impede que façamos o mesmo: respondemos essa acusação pífia sobre o Pacto Molotov-Ribbentrop neste link.

Esse “pacto secreto” jamais existiu, os anticomunistas não têm prova alguma de suas afirmações. Mais: os anticomunistas se negam a falar dos Acordos de Munique de 1938 entre França, Inglaterra e Alemanha que ceifaram milhares de vidas na Tchecoslováquia.

“A violência levou à vitória, ao fim” – “Estima-se que 150 mil soldados soviéticos tenham sido fuzilados em 1941 por fugir de batalha”. O autor quer dizer com essa informação que a violência do aparato militar de Stálin com seus próprios soldados foi responsável pela vitória.

Não só uma afirmação completamente patética, ela não diz absolutamente nada sobre a influência da violência na emulação dos soldados, cabos e sargentos no combate cotidiano aos fascistas, até porque o número apresentado por Gielow pretende fazer acreditar que a repressão do comando central do exército a 0,43% de soldados que descumpriram ordens gerais apassivou 99,57% de um contingente militar ativo.

Não só pífio, esses 0,43% não revelam uma política de mobilização do exército. O que revela a vitória soviética é a emulação, agitação, propaganda, educação política, ódio ao inimigo (importante elemento de toda guerra) e, o mais relevante: estrutura militar, capacidade tática e estratégica do exército.

Segundo o doutor e professor alemão Ulrich Huar, “as contribuições de cada general ou de Stálin não se deixam quantificar”. Em sua obra, Contribuições de Stálin para a Ciência Militar e Política Soviética, Huar faz uma balanço de 400 páginas analisando o papel de Stálin no campo militarista e traz revelações incontestáveis do ponto de vista teórico, histórico e militar.

Não são poucos os exemplos, Huar descreve com detalhes impressionantes, com uma impecabilidade narrativa que nos faz reconhecer a essência do bom jornalismo em contraste com o fedelho jornalismo de Gielow.

Um dos exemplos mais iniciais da capacidade militar de Stálin encontra-se em sua literatura, entre elas, Clausewitz e nas suas escolhas técnicas para comandantes. Nomes renomados de generais vitoriosos não faltam, entre eles, Georgy Zhukov, Konstantin Rokossovsky, Aleksandr Vasilevsky, Vassili Chuikov e, o mais genial, o que era chamado de “o grande mestre” pelos inimigos alemães, Nikolai Vatutin.

Nesse sentido, as colocações de Huar são bastante elucidativas para reconhecer não só a capacidade militar de Stálin, mas compreender, inclusive, que ele era a máxima de Clausewitz. Stálin reconhecia que a guerra é a continuação da política e não se atrelava somente aos meios militares, mas também nas relações exteriores a esta, mas ainda condizentes e determinantes.

Sendo um exímio líder político, Stálin não era um autocrata que tomava decisões sozinho no campo militar, ao contrário do que afirmam os historiadores de Gielow. Zhukov, que trabalhou ao lado de Stálin cotidianamente durante a guerra, traz afirmações bastante realistas do comportamento de José.

Normalmente não havia nervosismo; cada um podia dar a sua opinião. Stálin comportava-se de forma igual com todos, rigoroso e bastante formal. Sabia ouvir, quando o informavam com conhecimento de causa.

Aliás, durante os longos anos da guerra, convenci-me de que ele não era, de forma nenhuma, alguém com quem não se pudesse discutir ou perante quem não se pudesse levantar questões prementes e defender veementemente o seu ponto de vista. Quem afirmar o contrário, respondo-lhe de imediato: isso não é verdade.

Antes da guerra era difícil medir os conhecimentos e capacidades de Stálin no campo da ciência militar, na arte operativa e estratégica, já que nessa época, no Politburo e pessoalmente junto a Stálin, sempre que tive oportunidade de estar presente, se discutiram e se tomaram decisões principalmente sobre questões organizativas, problemas de mobilização e assuntos técnicos. Já relatei que Stálin se ocupava muito com questões do armamento e das técnicas de combate. Chamava frequentemente construtores-chefe de aviões, de artilharia e blindados e informava-se em pormenor sobre os detalhes de construção e das respectivas técnicas de combate, quer no nosso país, quer no estrangeiro. Conhecia bem as características dos principais tipos de armas. Antes da Grande Guerra Pátria, e sobretudo depois, atribuiu-se a Stálin o papel dirigente no desenvolvimento das forças armadas, na elaboração das bases da ciência militar soviética, nas diretrizes da estratégia e até da arte operativa. Stálin terá sido, na realidade, uma cabeça tão excepcional na área do desenvolvimento das forças armadas e um tão profundo conhecedor das questões estratégico-operativas?

Conheço muito bem Stálin da perspectiva militar, já que comecei e acabei com ele a guerra. Ele dominava a organização das operações de cada frente e grupos da frente e dirigia-as de forma conhecedora, orientando-se nas grandes questões estratégicas. Nesse aspecto mostrou o seu valor enquanto Comandante Supremo em Stalingrado.

A sua rica intuição foi-lhe útil no comando da luta armada. Ele possuía a capacidade de reconhecer o elo principal na situação estratégica para reagir contra o adversário e conduzir esta ou aquela grande operação de ataque. Ele foi, sem dúvida, um digno Comandante Supremo.

Portanto, não foi a violência revolucionária contra um contingente de 0,43% que educou os demais milhões de soldados, mas sim a capacidade de organização e estilo de trabalho bolchevique que garantiram a explosão da suástica no Reichstag e o triunfar da bandeira vermelha em 1945.

“Stálin jantava os aliados na guerra” – Não é de hoje que comunistas jantam liberais em sabatinas, encontros, debates, textos e argumentos. Stálin foi prova disso em 1945 e essa matéria resposta é prova disso em 2020. Certos costumes jamais morrem…

“Ele foi o pai da Guerra Fria” – Gielow está dizendo que Stálin foi responsável pela guerra não acontecer, ou seja, um herói. Afinal, se dependesse do canalha Churchill, bombas atômicas seriam lançadas em Stalingrado 1947. Sobre isso, Gabriel Kolko faz revelações que demonstram a quão nojento é Churchill pessoalmente falando.

Logo que Churchill soube da existência da bomba atómica, desejou utilizá-la… contra a URSS! O marechal Alan Boorke pensava que o entusiasmo infantil do primeiro-ministro estava a tornar-se perigoso: ele via-se já capaz de eliminar os centros industriais da Rússia. Em Potsdam, Churchill insistiu com os americanos para que utilizassem a bomba como um meio de pressão política sobre os russos.

GEORGI DIMITROV – Stálin e Dimitrov inspiraram e continuam inspirando revolucionários em todo o mundo. (Foto Reprodução/Arquivo)

“O ditador nunca foi um líder libertário” – Gielow busca com essa informação nociva falar que Stálin, aqui chamado de ditador, decidiu fazer uma concessão aos aliados ao dissolver a 3º Internacional Comunista. Mas isso não se revela quando lemos o diário político pessoal do internacionalista Georgi Dimitrov, secretário-geral da Internacional.

Já no 7º Congresso da Internacional Comunista, em 1935, os participantes defenderam maior autonomia para a construção das frentes únicas contra o fascismo, assim fazer um justo balanço das condições históricas, conjuntura, amadurecimento político da classe operária etc.,  uma conclusão generalizada era de que a direção por um único centro era cada vez mais nocivo.

Nas condições da guerra, essa conjuntura chegou a um novo estágio qualitativo por conta das condições cada vez mais agudas da resistência antinazista. A resolução, portanto, não foi nenhum decreto de concessão, mas expunha uma tarefa importante a ser realizada para o amadurecimento da luta nacional contra o invasor nazista que se espalhava pelo globo.

Dimitrov é categórico: “a noite com Manuilsky e com Molotov. Falamos sobre o futuro do Komintern. Concluímos que a Komintern, enquanto centro dirigente dos partidos comunistas, nas condições atuais, é um obstáculo ao seu desenvolvimento autônomo e ao cumprimento das suas tarefas especiais. Era necessário elaborar um documento sobre a dissolução deste centro.”

Em conversas pessoais com Molotov, Stálin afirmou que “a experiência demonstrou que não se pode ter um centro dirigente internacional para todos os países. Isto tornou-se evidente no tempo de Marx, no tempo de Lênin e agora. Talvez seja necessário passar para uniões regionais – por exemplo América Latina, Estados Unidos e Canadá, certos países europeus e outros, mas também neste domínio não nos devemos precipitar.”

Stálin faz uma leitura histórica que não pode passar despercebida e que revela seu real interesse na luta pela concretização real da revolução naquele período: “A Internacional foi fundada no tempo de Marx na expectativa da revolução internacional iminente. O Komintern foi criado com Lênin, igualmente num período idêntico. Agora, as questões nacionais passam para primeiro plano em cada país. Porém, a situação dos partidos comunistas enquanto seções de uma organização internacional, subordinadas ao Comitê Executivo da Internacional Comunista, constitui um entrave. Não se agarrem ao que existia ontem. Avaliem rigorosamente as novas condições criadas.”

A conclusão de Dimitrov é igualmente categórica ao afirmar que “foi colocada de maneira clara e precisa a questão da existência do Komintern nos próximos tempos e das novas formas de ligação e de trabalho internacional nas condições da guerra mundial.”

Fica claro que mais uma afirmação de Gielow não se sustenta quando analisamos materiais primários de testemunhas oculares e políticas do processo. Vale destacar que o diário de Dimitrov não era algo aberto, era pessoal do autor, não teria motivo para ele mentir em um diário que dizia respeito a ele mesmo.

Se o fim da Internacional era uma razão para obter apoio dos imperialistas, por que logo após o fim da guerra ela não foi reconstituída e Stálin foi o responsável pela Guerra Fria? Vê-se que esse argumento se petrifica na história e não se sustenta nos dias atuais, principalmente em nossos tempos, quando a luta internacional cada vez mais se interliga e se desenvolve. Sobre esses aspectos, o insubstituível Raúl Marco traça orientações que questionam esse raciocínio reacionário de Gielow.

“A Conferência Internacional de Partidos e Organizações Marxistas-Leninistas (CIPOML) está avançando, dando passos muito positivos e as reuniões plenárias são boas plataformas político-ideológicas. Isso é evidente e já é possível perceber.  Mas por isso precisamente se pode afirmar: as discussões, as reuniões e encontros de nossos partidos e organizações não podem suprir a uma Internacional. Está correto discutir e tirar conclusões internas e públicas. Mas isso já não basta.  A prática nos exige mais esforços, mais trabalho em comum para construir uma autêntica e férrea unidade” – reafirma Rául.

Dessa forma, vê-se que o caráter libertário, revolucionário, jamais esteve em debate sobre a dissolução da Internacional, mas sim meios de encontrar uma forma de conceber essa revolução de forma mais prática e mais firme em cada país. Os bolcheviques jamais abandonaram esse debate, a CIPOML é exemplo de sua continuidade.

“Stálin era brincalhão, mas de gosto duvidoso” – Recomendamos que Gielow visite uma fábrica, um local de construção, um Senai e faça uma pesquisa de campo empírica para ver como é um operário.

“Stálin foi morto?” – O autor fala de uma paranoia originada contra médicos judeus sob pretexto de promover uma nova depuração no Comitê Central do Partido Bolchevique. Entretanto, novamente, não apresenta nenhuma evidência. De fato, adiantamos que não há, porque essa lorota já foi explorada diversas vezes por historiadores honestos.

O debate sobre os doutores remonta à morte de Andrey Zhadanov, que, ao que indicavam os documentos primários das investigações, foi assassinado por uma política de negligência. O mesmo ocorreu com Maxim Gorky, como já abordado no caso Guenrikh Yagoda. O caso Zhadanov não foi iniciativa da “paranoia de Stálin”, mas da própria NKVD ao constatar que Andrey faleceu por negligência médica proposital.

“Krushchov enterrou o mito (e o corpo)” – E a conclusão dessa colocação é o grito de Grover Furr que ecoa no mundo hoje entre todos os comunistas: “Khrushchov Mentiu!

INAUGURAÇÃO – Novo busto de Stálin foi inaugurado em dezembro de 2019. (Foto: Reprodução/Arquivo)

“Suas estátuas sumiram” – Muito pelo contrário, todos os anos, as estátuas de Stálin retornam, tornam-se mais numerosas, expressivas e respeitadas entre o povo. Em Novosibirsk, o monumento a Stálin tornou-se uma realidade após uma campanha de finanças do Partido Comunista com a população, ou seja, o monumento é fruto do desejo da classe trabalhadora.

“Os russos o adoram?” – Sim, a razão é clara e já foi abordada acima.

“E o que o Putin acha disso?” – Não nos interessa a opinião de Putin sobre Stálin, assim como não nos interessa a opinião da Folha de S. Paulo sobre Stálin. O que importa é a opinião da classe trabalhadora.

Concluímos, assim, nossa resposta. Reafirmamos o que o grande herói dos trabalhadores Raúl Marco sempre dizia: “Stálin se defende!

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4 comments

  1. Felipe

    GRANDE TEXTO

  2. Matheus G. T. Druski

    Texto M A R A V I L H O S O. Repleto de fontes para cada tema, agradeço pelas “dicas” de leitura.

  3. Mateus

    Texto perfeito, meu deus. Nem deu tempo de ler tudo aqui no trabalho, mas vou voltar nele com certeza.

  4. Gianriccà

    Muito bom esse trabalho. Precisamos traduzir essas obras de referência para o português. principalmente as que estão em russo, bem como os vídeos…

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