UM JORNAL DOS TRABALHADORES NA LUTA PELO SOCIALISMO

domingo, 29 de março de 2026
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Carta para Leandro

Leandro, estudante de Farmácia da UFPA e militante da UJR, deixa lembranças em seus colegas de curso e companheiros de militância.


MEMÓRIA – O Leandro, ou melhor “meu louro”, como se referia carinhosamente a professora Osmarina, fazia parte da nossa subturma, a sub B. Era um colega/amigo, querido por todos, era tranquilo, alto astral, possuía uma presença marcante, muito além por ser “apenas” o vice-representante da nossa turma. Ele se dedicava de verdade a essa função, mesmo sabendo dos desafios que ela trazia. Sempre ocupou o cargo com muito carinho e responsabilidade. Era um dos poucos que conversava com todos da nossa sala, sem exceção.

Era um ótimo aluno, sempre se dedicou às atividades acadêmicas. Ter o Leandro no grupo de trabalho era sinônimo de tranquilidade, pois sempre fora um aluno esforçado que nunca nos deixava na mão. Sempre achava que ia mal nas provas, mas, quando saíam as notas, era sempre o contrário, só tirava notão. Era um dos últimos a sair da prova, muito dedicado em dar o seu melhor. Gostava dos professores (até daqueles de quem ninguém gostava) e levava tudo com bom humor nas conversas do dia a dia.

Puxo na minha mente lembranças ruins do Leandro, mas não consigo. Só imagino ele rindo nas aulas da professora Osmarina, respondendo as perguntas da professora Carla e fazendo os testes na Nutrição, onde era Iniciação Científica. Sempre que ele chegava na faculdade, brincávamos com ele o chamando de “meu louro”, ou falávamos das camisas das bandas que ele gostava.

Das últimas lembranças que tenho dele, perguntei como ele tinha ido na prova de Microbiologia. Ele disse que tinha ido super mal, que estava muito difícil. Mas, como eu já comentei, na hora que as notas saíram, a dele não foi baixa. É engraçado como ele sempre estava enganado em relação a isso. Também lembro do dia em que a Sub B foi ao SEDAN. Saímos muito tarde da última aula (já que o passeio era depois do almoço). Pegamos três ônibus e um ainda foi errado. Chegamos super atrasados, andamos muito, pegamos sol e chuva. Algumas pessoas ficaram molhadas por não terem levado sombrinha, inclusive ele. Todo mundo estava bravo e estressado, mas ele estava lá, todo tranquilo, sempre com aquela calma e aquele sorriso, mesmo com todos esses imprevistos…

Fora da sala, era engajado no laboratório da faculdade de Nutrição e participava de movimentos estudantis. No quarto semestre, lembro dele com o grupo Correnteza, indo de sala em sala sem medo de apresentar as propostas, inclusive ele já foi na nossa dizendo: “Pra quem não sabe, eu sou o Leandro”… Sempre defendendo aquilo em que acreditava, sempre lutando. Lembro-me dele concorrendo como chapa 2 na disputa do Centro Acadêmico de Farmácia e, mesmo tendo perdido, falou que tentaria de novo na próxima. Também me recordo de várias vezes em que o encontrei no sol, distribuindo panfletos pela universidade, sempre presente e atuante.

Mesmo sendo um pouco tímido, ele estava sempre incluído, ali com o nosso pessoal e com todo mundo, pronto para uma boa brincadeira com os amigos mais próximos.

Era vegetariano, gostava de chopp de pudim (ou qualquer outro docinho) e sempre que podia queria ir tomar café durante o dia.

Ele também não gostava de ser o último a apresentar trabalhos. Dizia que ficava nervoso, ansioso, e sempre pedia, se pudesse, para trocar de ordem. E, no meio de tudo isso, ele era alguém que quando você conversava, sabia te ouvir, sendo um assunto sério ou sendo só uma baboseira, ele se interessava de verdade, questionava, dava sua opinião, sempre com muito respeito por tudo e por todos.

Perdemos um representante e um grande amigo, que sempre lutou pelos direitos dos estudantes, o qual jamais será esquecido. Sua partida é muito dolorosa, para nós, seus colegas de classe que convivíamos com ele diariamente, nas aulas teóricas, práticas e estágio.

Todavia, é reconfortante lembrar da forma como ele viveu: com intensidade, entrega, humor e verdade.

Que possamos sempre nos recordar da essência dele. Um jovem inteligente, engajado, que sabia equilibrar seriedade com leveza. Um amigo. Um companheiro de sala.

Com carinho,

Subturma B.

Matéria publicada na edição impressa  nº319 do jornal A Verdade

O pixo como ferramenta de protesto

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Após a reinauguração da Feira do Açaí, em Belém, uma pichação gerou ataques contra artistas de rua e intensificou a presença policial no espaço, o que demonstra a importância do debate sobre a criminalização da arte periférica e do pixo como ferramenta de protesto.

Jon da Rima e Lana Borges | Belém (PA)


BRASIL – As elites burguesas criaram uma série de consensos e códigos sociais ideológicos para promover a exclusão sistemática de grupos sociais, e deslegitimar manifestações artísticas e políticas que possam ameaçar o seu poder. Assim, percebe-se que se tornou algo normalizado no pensamento coletivo odiar e menosprezar toda arte e cultura proveniente das periferias, das favelas, das pessoas negras e pobres.

Após a reinauguração da Feira do Açaí em Belém-PA, espaço de cultura popular onde são realizadas rodas de samba e carimbó, houve um grande linchamento digital contra os artistas de rua por conta de um pixe feito em um banco colocado no espaço. Depois disso, o espaço passou a ter maior presença da polícia e intimidação, o que pode acabar afastando os frequentadores da feira e retirando da população este espaço de lazer.

A grande crítica e preconceito da população em relação ao movimento cultural que ficou conhecido como “cultura hip hop” e à arte de rua em geral não é por acaso. Esse movimento nasceu na periferia dos EUA e é um dos principais movimentos artísticos no Brasil com protagonismo de pessoas negras e periféricas.

A pichação veio para o Brasil no contexto da ditadura militar de 64. Este ato político de escrever ou rabiscar sobre muros, fachadas de edificações, asfalto de ruas ou monumentos é uma forma de intervenção que tem como objetivo principal a promoção da transformação social. É utilizada até hoje como uma forma de protesto e denúncia principalmente pela juventude periférica, socialmente excluída e ignorada por representantes políticos.

Justamente pela forma como nasce essa manifestação artística, com forte caráter político de protesto, o pixo foi sempre criminalizado e associado a tudo o que é “marginal”, ao vandalismo, à falta de respeito. Hoje, vemos que essa expressão artística é importante, pois ela é um afronte ao padrão cultural burguês, que prega a submissão aos valores dessa classe dominante.

Apesar de estarem relacionados e fazerem parte desse universo da arte de rua, o pixe e o grafite são manifestações artísticas diferentes. A pichação é um ato de protesto e resistência, criminalizado pelas autoridades públicas. O grafite, por outro lado, apesar de ter nascido de uma cultura de periferia, é visto muitas vezes como uma obra de arte e recebe autorização das autoridades públicas para serem feitos. Portanto, é preciso compreender que o pixe, como forma de protesto que é, tem função de incomodar, não de se adequar às normas sociais burguesas, e não necessita, nem nunca vai ter, autorização dos opressores e de sua máquina pública para existir.

O ato de promover uma onda de ódio em massa contra a cultura da periferia e a arte de rua, principalmente por parte de autoridades públicas, como foi feito pela prefeitura de Belém através do prefeito Igor Normando, só mostra o quanto vivemos em um país elitista e racista, que odeia tudo o que não é colonizado, que não se adequa à lógica capitalista, que vem das favelas e periferias e, principalmente, tudo que ameaça às elites, suas ideologias e seus espaços exclusivos e higienistas, que não quer ser comparado, confundido ou associado ao povo pobre.

Isso se tornou ainda mais perceptível com as obras da tão propagandeada COP 30, que não é mais do que uma forma dos governos do Estado e do Município, ambos comandados pela oligarquia dos Barbalho, atraírem bilhões em investimentos em obras públicas que não têm intuito nenhum de servir à população pobre, somente atender aos interesses do mercado imobiliário da cidade. Por isso, são priorizadas obras que valorizam ainda mais as áreas nobres como a Doca e a Avenida Tamandaré.

Portanto, é preciso manifestar nosso ódio de classes e indignação com a péssima gestão do atual prefeito da cidade de Belém, que trabalha dia e noite para os ricos da cidade, e quer empurrar o povo trabalhador para cada vez mais longe dos centros urbanos. Acima de tudo, é preciso conhecer nossa história e descolonizar nossa visão sobre arte e cultura, parando de reproduzir e combatendo essas visões elitistas e opressoras que criminalizam a arte de protesto e resistência, que são instrumentos importantíssimos para a nossa luta revolucionária de construção do socialismo no país.

Matéria publicada na edição impressa  nº318 do jornal A Verdade

As origens árabes do vaqueiro nordestino

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A figura do vaqueiro nordestino tem suas origens ligadas diretamente com o povo árabe. Essa relação reforça ainda mais nossas origens brasileiras, bem como nos ajuda a profundar nossos laços de solidariedade com o povo palestino, que tem sofrido com o genocídio promovido pelo Estado de Israel, com patrocínio do imperialismo norte-americano. 

Alberes Simão- Petrolina (PE)


CULTURA– O vaqueiro do sertão, esse herói das caatingas, que vem dessa região árida do nordeste brasileiro, são homens portadores de uma cultura que remete ao nosso passado, uma origem que muitas vezes não é lembrada, mas que se refere a cultura árabe, que chegou até o sertão do nordeste brasileiro por meio dos colonizadores portugueses, a partir do ciclo do gado. Lembrados pelo ‘aboio’, o canto de trabalho do vaqueiro, sua vestimenta característica, sua contribuição permaneceu na fazendas, sítios, vilarejos, pegas de bois e vaquejadas onde se adaptou ao sertão nordestino que permanece até hoje, marcando nossa cultura nacional.

 

Hoje a situação do genocídio da Palestina é assistido pelo mundo inteiro. Por meio das redes sociais, várias denúncias tem crescido junto a solidariedade mundial em favor desse povo que há décadas enfrentam um projeto colonialista promovido por um estado invasor, e resistem. Os palestinos, que são de origem árabe, estão também próximos de nosso povo, seja por meio dos imigrantes, especialmente do Líbano e Síria, mas também por sua cultura e tradições.

 

Segundo o Antropólogo Potiguar Câmara Cascudo, o aboio teria chegado ao Brasil através de escravos Mouros vindos da Ilha da Madeira, que carregavam um legado cântico pastoril arábico do deserto. Esses ‘cânticos’ remontam até a Arábia Saudita, mostrando o quanto temos de proximidade entre nossos vaqueiros e os árabes em suas tradições de enfrentamento ao solo rochoso das áreas desérticas, e sua   capacidade de resistir, se adaptar e transformar as dificuldades características em possibilidade de vida e trabalho, modificando a realidade ao redor. Quando falamos sobre o aboio, logo nos vem à mente a obra de Luiz Gonzaga, que com sua voz robusta e grave registrou inúmeras música onde registrou esse ritmo musical.

 

O aboio e uma convocação para guiar o pasto, assim como os árabes do sertão da Arábia saudita fazem com seus camelos. Luiz Gonzaga do Nascimento, levou o canto nordestino por todo país, retratando o vaqueiro e o lamento sertanejo em suas músicas, popularizou e eternizou o sentimento e a vivência daqueles que vivem no sertão nordestino, o sentimento de um povo trabalhador que vive da agricultura e do trabalho junto a terra.

 

 

Memória cultural

 

Desde 1971 é realizado no sertão pernambucano, na cidade de Serrita, a tradicional missa do vaqueiro, idealizada pelo padre João Câncio, o poeta Pedro Bandeira e o cantor Luiz Gonzaga em memória do vaqueiro Raimundo Jacó, que era primo de Luiz Gonzaga, que foi assassinado em 1954. A história de Raimundo Jacó se tornou um emblema da cultura do vaqueiro nordestino. A missa é realizada ao ar livre, anualmente no parque estadual padre João Câncio, como uma celebração da fé do sertanejo, onde ocorre apresentações culturais, premiações e a famosa pega de boi por dentro dos espinhosos galhos secos do sertão para se comemorar o dia deste guerreiro do semiárido nordestino e reavivar essa cultura popular que se renova.

 

Viva a cultura dos povos.

 

“Vocês não vivem como nós”

Moradores da Ocupação dos Imigrantes resistem e impedem despejo em audiência no TJSP.

Victoria Magalhães | São Paulo (SP)


LUTA POPULAR – Em junho, mês em que se completaram quatro anos de luta da Ocupação dos Imigrantes Jean-Jacques Dessalines, as famílias organizadas pelo Movimento de Luta nos Bairros, Vilas e Favelas (MLB) receberam a intimação judicial para uma audiência que marcaria a data da reintegração de posse do imóvel.

A ocupação, realizada durante a pandemia da Covid-19 e, em 2023, conquistou a suspensão da reintegração de posse graças à luta, utilizando a ADPF 828, conhecida como “Lei da Despejo Zero”, conquistada pelos movimentos sociais para impedir as remoções forçadas enquanto durasse a pandemia e na “transição” para o pós-pandemia, que deveria garantir que, no caso de necessidade de remoções, se buscassem soluções fundiárias para evitar que as famílias ficassem desabrigadas.

Contudo, a fase de transição tem sido ignorada e a lei não tem sido aplicada como previsto. Segundo levantamento realizado pela Campanha Nacional Despejo Zero, mais de 1,5 milhão de brasileiros estão sob risco iminente de despejo. Só no estado de São Paulo, 9.508 famílias foram despejadas entre outubro de 2022 a julho de 2024. Outras 90.015 pessoas estão sob ameaça de despejo. Este é o caso da Ocupação dos Imigrantes.

A Ocupação fica!

No dia 08 de julho, às 14h, foi realizada a “Audiência final de conciliação”, promovida pelo Grupo de Apoio às Ordens Judiciais de Reintegração de Posse (Gaorp) e pela Comissão Regional de Soluções Fundiárias do Tribunal de Justiça de São Paulo. A audiência convocou o suposto proprietário do imóvel abandonado há décadas, órgãos da prefeitura, Secretaria Municipal de Habitação e outras secretarias relacionadas a desenvolvimento social, a Policia Militar, Policia Civil, Secretária de Direitos Humanos e a Defensoria Pública, entre outros, além de uma comissão representando as famílias da Ocupação.

Segundo a coordenação do movimento, apesar do histórico dessas audiências demonstrar baixa capacidade de resolver o conflito, mediar as negociações ou garantir direitos, as mulheres do movimento, que são as principais lideranças da luta, compareceram ao TJ determinadas a enfrentar a Justiça e conquistar a vitória.

“Fomos até a audiência em ato, com uma grande manifestação que marchou até a frente do Tribunal com as famílias da Ocupação e apoiadores. A manifestação seguiu firme até o final da audiência, entoando palavras de ordem contra a remoção da Ocupação, pelo direito à moradia e pela necessidade da construção do socialismo. Entramos na audiência numa comissão de quatro mulheres, e junto com nossos advogados, que são de escritórios populares e grandes aliados do movimento”, relatou Perseveranda Pelajia, moradora e coordenadora da ocupação.

Perseveranda continuou: “Fomos até lá tendo ouvido o relato de outras ocupações que já haviam passado por esse processo e apontavam que nunca saiam soluções desta audiência. Mas nós decidimos que desta vez seria diferente. De um lado tínhamos um homem que se diz proprietário com uma dívida milionária com a prefeitura e é dono de mais de 20 prédios no Centro da cidade, ou seja, um grande especulador; e do outro famílias trabalhadoras que têm o direito de viver e de morar.”

Durante a audiência, tanto os advogados do proprietário quanto os representantes da gestão Ricardo Nunes tentaram encerrar rapidamente o debate, afirmando que não havia alternativa possível à remoção forçada da ocupação no prazo de 60 dias. A estratégia buscava impor uma solução unilateral, ignorando os direitos e as necessidades das famílias ocupantes.

Entretanto, integrantes do movimento intervieram, apresentando iniciativas construídas coletivamente na ocupação, como ações de geração de renda, valorização da cultura negra, formação política, mutirões de limpeza e turmas de alfabetização organizadas pelo movimento e as famílias. Destacaram também o papel central da Ocupação dos Imigrantes no resgate da história e na preservação do patrimônio da cultura negra no bairro da Liberdade, região histórica do centro de São Paulo. Com base no Estatuto da Criança e do Adolescente, defenderam que a remoção seria uma violação dos direitos das crianças que ali vivem com dignidade, segurança e acesso à educação garantido, em um ambiente de cuidado coletivo.

Alexandrine Maivais, imigrante haitiana que coordena da Ocupação, destacou em seu depoimento durante a Audiência: “Vocês sabem como é a vida de uma mulher como eu, imigrante haitiana, avó, trabalhadora, após chegar em seu país? Nós chegamos aqui achando que este país é acolhedor, mas não é acolhedor para nós. Chegamos aqui, mulheres pretas, e não temos nada! Não tem trabalho, não tem moradia, não tem nada! A gente tem que se virar, a gente é humilhada, a gente passa fome com nossas crianças. Se não fosse a luta, se não fosse a ocupação e o MLB, não sei o que seria de nós. Nós fomos salvas e hoje lutamos como Jean-Jacques Dessalines lutou no Haiti. Vamos seguir lutando.”

“Vocês não são como nós. Não vivem como nós. Não moram como nós. Não é possível que sejam vocês, os que moram e comem bem, que decidirão o nosso destino. Nós somos donos do nosso destino”, completou.

Ao final da audiência, após todas as partes serem ouvidas, o poder público não apresentar qualquer proposta de mediação e as famílias realizarem suas intervenções, a juíza decidiu suspender a reintegração de posse. Determinou que a remoção não poderia ser realizada na data prevista e que seria marcada uma nova audiência para apresentar alternativas às famílias. A decisão surpreendeu, pois a audiência era considerada “final”. Para o movimento, essa conquista foi fruto das intervenções firmes e organizadas das mulheres sem-teto, que, com argumentos combativos e revolucionários, garantiram ao Movimento de Luta nos Bairros, Vilas e Favelas (MLB) mais uma suspensão da reintegração de posse.

Em entrevista ao Jornal A Verdade, Alexandrine contou: “O homem, ricaço, que se diz dono do prédio, não foi. Mandou apenas três advogados. Mas os advogados deles não tinham respostas para dar, porque tudo o que nós falamos estava certo. Então, ficaram sem palavras. Foi muito bom! Foi mais uma vitória, mais um marco de resistência para a Ocupação Jean Jacques. É importante: com organização e resistência, nós, o povo, podemos tudo!”

Para Priscila, coordenadora do movimento, “essa vitória representa um marco importante na luta por moradia no centro de São Paulo. Conseguimos desmascarar o teatro do poder público, que convocou uma audiência sem apresentar nenhuma alternativa concreta ao povo e recuou diante de cada proposta feita pelo próprio movimento. Mostramos que estavam pisoteando a memória popular ao ignorar todo o trabalho patrimonial que desenvolvemos no bairro da Liberdade e na Baixada do Glicério, resgatando e mantendo viva, em cada ação, a história do povo preto, indígena e pobre de São Paulo. Essa vitória mostrou às famílias, militantes e apoiadores que, coletivamente, somos capazes até do impossível e que não precisamos aceitar qualquer coisa.”

Parafraseando o poeta Aloysio Letra: “Estou enterrado na Rua da Glória / Lembre de mim se passar por aqui / Sou fato oculto da tua história / Mas veja ainda estou aqui”. A Ocupação dos Imigrantes vive e luta e segue sendo exemplo de que um povo organizado pode tudo!

Nossos queridos três camaradas

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Ana Letícia, Leandro e Welfesom são lembrados pela sua simplicidade, pelo compromisso com a libertação da nossa classe, pela alegria de como desenvolviam sua militância e pela camaradagem.

Edísio Leite | Belém (PA)


MEMÓRIA – No último 16 de julho, logo após às 04h da manhã, um micro-ônibus com estudantes da UFPA que estava a caminho do 60º Congresso da UNE, em Goiânia, foi atingido por uma carreta na BR-153, em Porangatu, já no Estado de Goiás, resultando num grave acidente que vitimou os camaradas Welfesom Alves, Ana Letícia e Leandro Souza, além dos motoristas do micro-ônibus da UFPA, Ademilson Militão, e da carreta, Keyne Oliveira. Vários outros passageiros também ficaram feriados, entre eles, eu. Neste micro-ônibus estavam 25 jovens, todos organizados nas fileiras da União da Juventude Rebelião (UJR), da Unidade Popular (UP) e do Movimento Correnteza, orgulhosos de terem construído a maior delegação da história deste Movimento no Pará.

Após o acidente, houve um grande esforço coletivo para ajudar a retirar do ônibus todos os camaradas com vida, além de muito cuidado com os que se encontravam feridos e emocionalmente abalados. Não éramos apenas 25 jovens numa caravana. Éramos jovens que mantinham profundas relações cotidianas, construídas nas lutas estudantis e pela libertação do nosso povo, relações de camaradagem e de amizade, que dividiam sonhos de um mundo justo.

Foi difícil encarar aquelas cenas e, mais duro ainda, perceber que alguns camaradas poderiam não sair vivos. Eram sonhos sendo interrompidos, mães, pais e irmãos que estavam perdendo os seus, camaradas perdendo camaradas, a luta por um mundo socialista perdendo valorosos lutadores.

Após o socorro, alguns feridos foram encaminhados aos hospitais da região, e os demais foram encaminhados a uma estrutura de apoio no campus universitário da Universidade Estadual de Goiás, na própria cidade. Rapidamente, uma grande rede de solidariedade foi se montando, doações de apoiadores chegaram até a universidade, nossos camaradas em Goiânia receberam a notícia e já iniciaram uma grande articulação para que os feridos pudessem receber o apoio de saúde necessário para nossa pronta recuperação.

Após ser atendido em Porangatu, fui transferido para a Fundação Banco de Olhos, em Goiânia. Cheguei às 19h e, na entrada do hospital, fui recebido pelos camaradas de Goiás, que me relataram todas as medidas que já havíamos tomado, que haviam camaradas da região Centro-Oeste acompanhando todos os feridos nas diferentes cidades e que as demais pessoas também já estavam sendo acolhidos por outro companheiro, em Porangatu. Neste momento, eu senti profundamente que não terminava em mim mesmo e que nada é mais importante para nós, comunistas, do que as nossas vidas.

O Congresso da UNE carrega as energias da juventude que se organiza e luta para mudar a realidade de sua universidade e que, assim, também luta por uma transformação de toda a sociedade. Naquele dia 14, a abertura do ConUNE foi marcada por um profundo sentimento de tristeza, mas também com muitas homenagens pela partida de nossos três camaradas. Nossa bancada decidiu seguir até Goiânia, encontrar os colegas do segundo ônibus da delegação e também receber o abraço da bancada nacional.

Na quinta, dia 17, as delegações do Pará foram recebidas com uma grande energia transmitindo solidariedade, carinho, camaradagem e luta, mesmo diante do luto. Aquela dor da perda não era só nossa. Éramos milhares de estudantes sofrendo com a partida de Ana, Leandro e Welfesom.

Eu não pude estar nesse momento, ainda estava hospitalizado, mas os relatos é de que a agitação durou, sem parar, por mais de uma hora, com todos entoando a palavra de ordem “É Cabanagem, revolta popular. Aqui está a bancada do Pará!”.

O camarada Leo Péricles, da UP, ressaltou que “nós estamos num sistema que trata a vida de forma secundária, que a mercadoria passa a ter mais função do que a vida das pessoas e, assim, fazem a circulação das mercadorias nessas carretas, com os motoristas sendo submetidos a jornadas extremamente exaustivas para ganhar algum dinheiro para levar para casa. Foi o que, provavelmente, aconteceu com esse motorista da carreta, no final da madrugada, tende a cochilar e pode acontecer uma tragédia como essa”.

Durante todo o Congresso, houve uma grande solidariedade de milhares de estudantes e das demais organizações políticas. Fomos acolhidos por diversos profissionais de saúde e pelos camaradas. Em nenhum momento fomos esquecidos e, durante a plenária final, a palavra de ordem mais cantada foi a homenagem à bancada do Pará.

Seguimos de volta ao Pará, nossos camaradas foram acompanhados e homenageados, suas lutas, suas histórias, seus exemplos, seus sorrisos estão sendo contados e lembrados. Com certeza, não serão esquecidos. Não deixaremos!

Ana Letícia, Leandro e Welfesom são lembrados pela sua simplicidade, pelo compromisso com a libertação da nossa classe, pela alegria de como desenvolviam sua militância e pela camaradagem. Apesar do momento de dor que estamos vivendo, temos coletivamente nos fortalecido e acompanhado cada dificuldade, ajudado nossos camaradas a superarem esse momento e a transformarem esse luto em luta, a continuarmos firmes a luta desenvolvida por eles, para encontrarmos novos lutadores e realizarmos os seus sonhos, construindo um mundo verdadeiramente justo, humano e socialista.

No dia 18 de julho, os corpos dos três camaradas e do motorista chegaram a Belém do Pará. Todas as organizações que constroem o Partido Comunista Revolucionário (PCR) estavam presentes desde cedo na UFPA. Na chegada dos corpos, foi feito um corredor com militantes empunhando bandeiras e cada um teve seu nome chamado, num clima de muita emoção.

Em seguida, realizamos um ato político para homenagear os camaradas, que contou com a presença de outras organizações políticas (PSOL, PCBR, PSTU, MST e diversos sindicalistas, amigos da universidade e familiares.

Após retorno dos camaradas que estamos no Congresso da UNE, foi lançada uma campanha de brigadas do jornal A Verdade. A militância rapidamente se respondeu ao chamado e fez a maior brigada da história do Pará. Com cartazes e falas na caixa de som sobre a história dos camaradas e seus exemplos de militância e abnegação pela construção do socialismo. A brigada totalizou mais de 600 jornais. Uma homenagem que se repetiu nos dias seguintes, atingindo quase 1 mil exemplares vendidos.

“Os camaradas deram o melhor do seu tempo, da sua energia, da sua alegria, tudo que podiam, para construir uma nova sociedade. A partida de cada um deixa um grande vazio. Os comunistas são pessoas de um valor inestimável. É uma perda para o povo do Pará e pro povo brasileiro. Seguiremos firmes na certeza de que cada um deles estará conosco até a vitória da classe trabalhadora”, declarou Fernanda Araújo, da direção estadual do PCR.

Toda nossa homenagem aos camaradas!

Leandro Souza Dias (21 anos), estudante de Farmácia da UFPA

Ana Letícia de Araújo Cordeiro (22 anos), estudante de Pedagogia da UFPA

Welfesom Campos Alves (25 anos), responsável pelo jornal A Verdade no Pará

Matéria publicada na edição impressa  nº318 do jornal A Verdade

Servidores da Saúde denunciam condições precárias de trabalho em Jundiaí

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Os servidores públicos de Jundiaí tem sofrido com as duras condições de trabalho e perseguições por parte da prefeitura de Gustavo Martinelli (União Brasil). Mesmo assim, os trabalhadores encontram força para lutar, se organizar e arranjar os direitos da categoria.

Mayara Fagundes e Leonardo Carvalho | Jundiaí – SP


TRABALHADOR UNIDO – Localizada a 57 km da capital, Jundiaí é uma das principais cidades de São Paulo. É conhecida como a terra da uva e do morango e produz cerca de 30% da uva de todo estado paulista. Além disso, é um polo das empresas de tecnologia e de logística e, se destaca pelo seu desenvolvimento industrial, já que atualmente possui um dos maiores parques industriais da América Latina.

De acordo com o estudo realizado pela Macroplan Analytics, Jundiaí é a terceira melhor cidade dentre as 100 maiores do país para se viver, com avaliações positivas nas quatro áreas essenciais para qualidade de vida da população: saúde, saneamento, educação e segurança.

Fato é que esse ranking mascara a dura realidade de milhares de servidores e servidoras que trabalham no município. O atual prefeito Gustavo Martinelli (União Brasil) segue a lógica fascista sob a defesa dos acordões de gabinete, que favorece somente a burguesia, amplia a privatização do serviço público e na campanha salarial dos servidores de 2025 fechou as portas de negociação com a categoria, encaminhando proposta de reajuste de apenas 5,32% (sem ganho real) para a Câmara Municipal.

Mesmo com esse ataque ao funcionalismo público de Jundiaí, a atual gestão do SindSerJun é aparelhada pela Administração Pública, não mobiliza a categoria, impede os servidores de participarem das assembleias e no último mês, aceitou de cabeça baixa o autoritarismo de Martinelli e sua corja.

Servidores de Jundiaí denunciam prefeitura em assembleia. Foto: Cande Vianna
Servidores de Jundiaí denunciam descaso com serviço público em assembleia. Foto: Cande Vianna

Descaso e perseguição aos trabalhadores

A falta de destinação de recursos tem sido cotidiana e cada vez mais os trabalhadores tiram do seu próprio bolso, organizam vaquinhas para garantirem o mínimo das condições de exercerem suas funções adequadamente.

A promessa de novas Unidades Básicas de Saúde não sai do papel, pelo contrário, o corte na saúde foi de R$180 milhões. Boa parte dos trabalhadores, inclusive enfermeiros e nutricionistas são terceirizados e a superlotação do serviço já é realidade, como destaca uma servidora da saúde (que prefere não se identificar, devido às perseguições): “Você tem que dar todo dia a sua cara a tapa para uma coisa que você já sabe que não vai dar certo”.

Até para realizar as campanhas mensais como o Outubro Rosa e o Setembro Amarelo, os funcionários das UBS precisam pensar formas de captar recursos para impressão colorida de cartazes e compra de bexigas. E mais, o assédio moral impera e recorrentemente trabalhadores que pontuam alguma insatisfação com suas condições de trabalho são chamados para advertência verbal com a chefia superior e orientados a evitarem esse tipo de manifestação.

Diante desse cenário, somente a mobilização organizada em um movimento combativo dará cabo dessa tarefa. O Movimento Luta de Classes (MLC) organiza trabalhadores em diversas cidades do Brasil e com muita disposição, fundou o núcleo de servidores de Jundiaí com a plena certeza de que a luta é o caminho.

Metroviários se mobilizam para lutar contra privatização

Diante da ofensiva privatista do governo Tarcísio de Freitas, que ameaça o futuro do sistema metroviário estatal, a Chapa 3, encabeçada por Alex Santana e composta pelo Movimento Luta de Classes (MLC) e a Unidade Popular (UP), surge com a proposta de organizar a categoria metroviária para derrotar a concessão das linhas e lutar por um serviço público e de qualidade.

Lucas Carvente e Gustavo Matos | São Paulo (SP)


TRABALHADOR UNIDO – A categoria metroviária vive um momento histórico. Abre-se uma janela de transformação da sua realidade e de possibilidade de derrotar os projetos de privatização que ameaçam o sistema metroferroviário público. Com o objetivo de organizar a luta por um sindicalismo revolucionário, de luta e classista, que enfrente as privatizações e o fascismo, o Movimento Luta de Classes (MLC) e a Unidade Popular (UP) estão compondo a Chapa 3 nas eleições do Sindicato dos Metroviários e das Metroviárias de São Paulo, com Alex Santana como candidato a presidente.

Os planos do atual governador, Tarcísio de Freitas, de conceder as quatro linhas de Metrô públicas em troca da construção de novas linhas, não vingaram, e as obras das linhas 19 – Celeste e 20 – Rosa estão prometidas para se iniciarem em 2027 e 2028, pela gestão pública. Cabe, portanto, à próxima gestão do Sindicato fazer uma grande luta pela abertura de concurso público para que essas linhas não nasçam já privatizadas.

Ataques contra o Metrô público

O volume de passageiros transportados em São Paulo (maior metrópole do hemisfério sul) mostra que o transporte sobre trilhos é essencial, e que, sem seu funcionamento, a cidade entraria em colapso. A Companhia do Metropolitano de São Paulo (Metrô) transporta quase 3 milhões de pessoas por dia em 71,5 km de extensão e 66 estações, enquanto a Companhia Paulista de Trens Metropolitanos (CPTM) transporta 1,6 milhão, em 206 km de extensão e 65 estações.

O Metrô de São Paulo é importante para a classe trabalhadora, que utiliza o serviço, mas também para a classe burguesa, que, a cada ano, expulsa os trabalhadores para mais longe de seus locais de trabalho. Uma máquina sem um operário é incapaz de gerar valor, e se o trabalhador não chega a sua fábrica, aos canteiros de obra, aos hospitais, aos centros comerciais, a produção de lucro é interrompida, mostrando como a categoria metroviária e suas greves têm enorme poder de influenciar no próprio funcionamento da sociedade.

O atual vice-presidente do Brasil, Geraldo Alckmin, quando era governador de São Paulo, iniciou as privatizações no setor metroferroviário com o estabelecimento das Parcerias Público-Privadas (PPPs). Todas as linhas privatizadas foram entregues a grandes empresas e consórcios capitalistas, como o grupo CCR (chamado agora de Motiva), o grupo Comporte e o grupo Acciona. Hoje, no Governo Federal, Alckmin busca privatizar o metrô de Recife, da CBTU.

Tarcísio prometeu, em campanha eleitoral, vender o patrimônio público do Estado de São Paulo: água, geração de energia, trens, presídios, escolas, hospitais, etc. Desde que assumiu o cargo, privatizou a Sabesp, praticamente extinguiu a CPTM e, apesar de não ter concedido nenhuma linha do Metrô, terceirizou várias funções do atendimento ao público, da manutenção e dos serviços de saúde e administrativos, retirou os operadores de trem do monotrilho e encheu as estações de policiais militares.

A privatização do sistema metroviário vem para satisfazer as necessidades do grande capital e do imperialismo. Enquanto grandes empresas, como a francesa Alstom, lucraram com a venda e reforma de composições e a implantação de sistemas de controle que possibilitam a retirada dos operadores de trem, o trabalhador Lourivaldo Nepomuceno morreu prensado entre a porta de plataforma e o trem na Linha 5 – Lilás, da ViaMobilidade, porque a empresa não instalou dispositivo de segurança que pudesse evitar o acidente. A ViaMobilidade também decidiu abandonar a utilização de oito trens, da frota F, causando o aumento do intervalo de trens e a superlotação nas plataformas, espremendo a população.

A espanhola Acciona ganhou R$ 7,85 bilhões do Governo Estadual, mais um empréstimo de R$ 7,4 bilhões do BNDES, para a construção da Linha 6 – Laranja; obra orçada em R$ 18 bilhões.

Do outro lado da disputa imperialista mundial, a estatal chinesa CRCC financiou a privatização das linhas 7, 11, 12 e 13 da CPTM, tendo 48% dessas concessões, e vai vender 44 novos trens sem cabine para a Linha 2 – Verde, e a BYD fornecerá os trens da linha 17 – Ouro.

A farra do dinheiro público na mão das concessionárias é tanta que, a partir do sistema de câmara de compensação do Bilhete Único, as linhas privatizadas receberam cerca de R$ 2 bilhões de repasse para transportar 500 milhões de passageiros no ano, enquanto Metrô e CPTM receberam um repasse de R$ 460 milhões para transportar mais de 1,2 bilhão de passageiros.

Matéria publicada na edição impressa  nº318 do jornal A Verdade

“Temos que fazer muito para gerar a consciência de classes”

A Verdade entrevistou, durante o 29º Seminário Internacional Problemas da Revolução na América Latina, em Quito, Equador, o camarada Juan Batista. Ele é professor e secretário-geral da União Classista dos Trabalhadores da República Dominicana. Entre 25 e 28 de setembro, seu país sediará o 13º Encontro Latino-Americano e Caribenho de Sindicalistas (Elacs).

Claudiane Lopes | Redação


A Verdade – A República Dominicana sediará o 13º Encontro Latino-Americano e Caribenho de Sindicalistas. Como surgiu a ideia desse encontro e quais são seus objetivos?

Juan Batista – A Conferência Internacional de Partidos e Organizações Marxistas-Leninistas tomou a decisão de construir esse encontro depois de uma análise da realidade internacional, sobretudo, da classe trabalhadora.

Em 1998, realizamos o primeiro encontro com o tema dos impactos da política neoliberal na América Latina e no Caribe. A República Dominicana já foi anfitriã de várias edições do encontro, inclusive da primeira à quinta edição, de maneira consecutiva. Depois tivemos no Equador, na Venezuela, no México, no Brasil (em 2015) e na Colômbia. O tema deste ano é “O mundo do trabalho hoje”.

Quais são os principais desafios para a classe trabalhadora na América Latina e Caribe?

São muitos, na medida em que a exploração capitalista se aprofunda e se amplia com novas modalidades. Os sindicalistas em geral, mas, de forma particular, os revolucionários e militantes marxistas-leninistas dentro do movimento operário e sindical, devem dar respostas não apenas à situação concreta de cada um dos nossos países, mas também de modo global, já que a exploração se globalizou de uma maneira selvagem.

O capital se unifica, sua exploração é cada dia mais terrível, mais horas de trabalho. O imperialismo norte-americano, em primeiro lugar, tem gerado em nossa região toda uma ofensiva contra a classe trabalhadora e, nesse sentido, devemos continuar respondendo com uma visão muito mais unitária, com uma unidade de ação na região.

O avanço tecnológico no capitalismo está ligado ao aumento da exploração da classe trabalhadora?

A modalidade de trabalho virtual foi aproveitada pelo capitalismo para explorar ainda mais a classe trabalhadora. Além do trabalho forçoso que isso significa, física e mentalmente, ocorreu também que o salário diminuiu porque os trabalhadores, em casa, precisam gastar com energia e ferramentas de trabalho. Trabalhando de casa, então, há mais exploração. A exploração é dupla.

Mas é preciso destacar, obviamente, que a tecnologia é o resultado do desenvolvimento científico das classes trabalhadoras. Quer dizer, nós não temos por que maldizer a tecnologia, mas temos que ver como parte do avanço.

Qual é a importância de construir uma consciência internacionalista da classe trabalhadora? Deixe um recado para os companheiros do Brasil.

Adquirir consciência de classe é aumentar o compromisso para lutar pela transformação da sociedade. Fundamentalmente, a transformação por uma sociedade mais justa, de maior progresso e bem-estar para a classe trabalhadora e os povos. A consciência, tal como a estabelece o marxismo-leninismo, chega à classe trabalhadora de fora.

A partir do partido do proletariado que lhe chega a consciência política e ideológica. Do ponto de vista da luta econômica, o trabalhador e a trabalhadora são conscientes da explotação em que vivem. Então, para nós, tem muita significação do ponto de vista do propósito da transformação social, econômica, política e cultural das sociedades, a consciência da classe.

É um grande desafio também que tem o sindicalismo de classe revolucionário trabalhar a parte ideológica e política dos trabalhadores e trabalhadoras. Temos que fazer muito para gerar essa consciência, porque isso é o duradouro na luta de classes. Quando uma trabalhadora, ou um trabalhador adquire consciência de classe, não só econômica, mas consciência ideológica e política, milita imediatamente, sai das garras das orientações burguesas e assume compromisso de transformação.

As organizações dirigidas pelos sindicalistas revolucionários não só devem existir para lutar pelas reivindicações econômicas, mas também pelas reivindicações sociais e denunciar constantemente os níveis de explotação em que os trabalhadores e as trabalhadoras estão submetidos à classe exploradora.

Essa é a garantia para que os partidos marxistas-leninistas se fortaleçam, para que lutemos de forma consequente não só representando os demais setores oprimidos, mas, fundamentalmente, na medida que ingressem nas fileiras de nossos partidos, a classe operária. Nessa mesma medida, então, nossos partidos se fortalecem.

Os partidos marxistas-leninistas são tais não só por sua ideologia, mas também por sua composição orgânica. Então, é uma tarefa constante gerar a consciência de que os mais avançados da classe operária se organizam politicamente. Isso é a garantia para nosso triunfo.

Matéria publicada na edição impressa  nº318 do jornal A Verdade

Elites e governos promovem guerra contra o povo em Belém

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Belém vive crise social após o fechamento do restaurante popular e a extinção do programa Bora Belém, medidas da gestão de Igor Normando (MDB) com apoio do governador Helder Barbalho (MDB), que deixaram milhares de famílias sem assistência.

Richard Abreu | Belém (PA)


BRASIL – Belém vive um verdadeiro caos social promovido pelas elites locais, com o apoio direto da prefeitura de Igor “Barbalho” Normando (MDB) e do Governo do Estado do Pará, de Helder Barbalho (MDB). Desde que assumiu a prefeitura, Normando aplica com rigor a cartilha do capitalismo: destrói e privatiza serviços públicos, ataca os trabalhadores e empurra os mais pobres para a miséria absoluta.

O fechamento criminoso do único restaurante popular da cidade, que alimentava diariamente mais de 1.200 pessoas é o retrato fiel desse projeto. Neste restaurante, se alimentavam trabalhadores, aposentados, mães solos e pessoas em situação de rua — muitos dos quais tinham ali sua única refeição digna. A destruição do restaurante veio acompanhada da extinção do programa “Bora Belém” – programa que auxiliava famílias de baixa renda a exemplo do bolsa família – deixando 80 mil famílias sem nenhum auxílio financeiro.

Enquanto isso, os mesmos governantes que empurram o povo para a fome e o abandono anunciam a Conferência das Partes da ONU (COP 30) como uma salvação mágica. A COP é um encontro internacional sobre mudanças climáticas, mas em vez de servir à proteção do planeta e dos povos, está sendo usada como propaganda para atrair negócios, turismo de luxo e limpar a imagem dos mesmos que destroem a Amazônia e expulsam o povo das cidades. Além disso, as obras para a conferência tiveram denúncias de trabalhadores em jornadas exaustivas, em condições inseguras e sem aumento salarial — organizações da categoria já fizeram paralisações por conta de salários atrasados e ausência de EPIs.

Os capitalistas, aliados ao governo das elites, fazem obras milionárias para embelezar a área nobre da cidade, como a revitalização da Doca, o metro quadrado mais caro do município, enquanto o esgoto continua sendo jogado na Vila da Barca, uma das maiores comunidades periféricas de palafitas da América Latina.

A serviço das oligarquias, o governador Helder Barbalho cede prédios públicos ao grupo Liberal, maior mídia do estado do Pará, pertencente à família Maiorana. O herdeiro, Romulo Maiorana Jr. está construindo um hotel de luxo com apoio do governo estadual, enquanto não há sequer um programa consistente de habitação popular para o povo, que vive na escravidão do aluguel ou em situação de rua.

O Ataque a saúde também segue firme. Exemplo é o plano de privatização do Pronto-Socorro da 14 de Março – o maior da cidade – que é mais uma violência contra o povo. Trabalhadores da saúde denunciam: mais de 2 mil servidores serão removidos, 500 demitidos, 12 mil atendimentos mensais interrompidos, e 28 especialidades médicas, como a diálise, simplesmente serão extintas. Tudo isso para entregar a unidade à iniciativa privada e impedir o acesso livre da população ao atendimento.

Além de atacar o serviço público, o governo do Estado promove assaltos às iniciativas populares, como no caso da Ocupação de Mulheres Rayana Alves, coordenada pelo Movimento de Mulheres Olga Benario. Este é espaço que acolhe mulheres vítimas de violências e que sofreu corte de água, energia elétrica, além de ter uma companheira detida, que só foi liberada após pagamento de fiança. Tudo isso têm o intuito de criminalizar, desmobilizar e despejar as mulheres.

Não é coincidência: é um projeto político a serviço das elites, que querem transformar Belém em vitrine para os ricos e prisão a céu aberto para os pobres.

Mas o povo não aceita calado!

Hoje cada ataque é respondido com atos e manifestações, deixando claro para cada vez mais pessoas que essas contradições cruéis têm responsáveis e eles têm nome e endereço.

Por isso nossa tarefa é avançar com nosso trabalho de denúncia, agitação e propaganda; organizar mais ainda o povo para ocupar prédios abandonados para construir moradia popular, supermercados e shoppings na luta contra a fome e contra a escala 6×1, como faz o Movimento de Luta dos Bairros Vilas e Favelas, o Movimento Luta de Classes e a Unidade Popular.

O futuro pertence aos que lutam.

Lutemos.

Matéria publicada na edição impressa  nº318 do jornal A Verdade

Cadeia para todos os golpistas: o povo quer justiça!

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Em 8 de janeiro de 2023, golpistas invadiram e depredaram as sedes dos Três Poderes, em Brasília, em ação articulada por Jair Bolsonaro, empresários e militares para impedir a posse de Lula (PT).

Cadu Machado | Redação


BRASIL – No dia 8 de janeiro de 2023, o Brasil viveu um dos capítulos mais escancarados da ofensiva fascista que tem ameaçado nosso país nos últimos anos: vândalos fascistas acampados em frente ao Quartel-General do Exército, em Brasília, marcharam até a Praça dos Três Poderes, invadiram e destruíram prédios públicos sem qualquer repressão. Atacaram os Três Poderes acreditando que, com isso, poderiam dar início a um golpe de Estado.

A tentativa de golpe articulada por Jair Bolsonaro, setores das Forças Armadas e grandes empresários tinha como finalidade impedir a posse do presidente eleito Luiz Inácio Lula da Silva (PT), instaurar uma ditadura e recolocar Bolsonaro no poder. Com isso, pretendiam abrir caminho para criminalizar os movimentos populares, esmagar os direitos do povo e preservar os privilégios de uma minoria que enriquece à custa da exploração da classe trabalhadora.

Diferente do que é propagado pela grande mídia, o 8 de janeiro não foi um ato isolado, mas um plano cuidadosamente arquitetado por militares de alta patente, liderado por Bolsonaro e financiado por setores do agronegócio e grandes empresários. Como revelou o Intercept Brasil, o ex-presidente participou de reuniões ministeriais para discutir medidas ilegais que impedissem a posse de Lula, incluindo a proposta de um decreto golpista.

A trama golpista

Já em 7 de setembro de 2021, durante um ato na Avenida Paulista, Bolsonaro declarou que não mais acataria decisões do Supremo Tribunal Federal. Diante de uma multidão inflamada, afirmou contar com o apoio das Forças Armadas e utilizou as comemorações do Dia da Independência como palanque para incentivar a mobilização golpista. O levante de 8 de janeiro não surgiu do nada: foi o ápice de um projeto autoritário construído ao longo de todo o seu governo.

Após perder as eleições, Bolsonaro passou semanas sem reconhecer a derrota, questionando a transparência e a lisura do processo eleitoral, além de incentivar os acampamentos golpistas montados em frente aos quartéis, onde se articulava abertamente um golpe militar.

Em reuniões ministeriais, chegou a defender e editar um decreto — que posteriormente foi apreendido com o tenente-coronel Mauro Cid, seu ex-ajudante de ordens — para anular o resultado das urnas, decretar Estado de Sítio e autorizar a Operação Garantia da Lei e da Ordem.

Não por acaso, fugiu para os Estados Unidos antes mesmo de encerrar seu mandato, buscando abrigo no exterior enquanto seus seguidores colocavam em prática o plano golpista.

Prisão para Bolsonaro e os golpistas

A prisão de Bolsonaro não é apenas justa — é necessária. Não podemos aceitar a impunidade para quem atenta contra as liberdades democráticas do povo. Sua responsabilização precisa ser exemplar, assim como a de todos os financiadores do golpe: empresários, militares e políticos que usaram sua riqueza e influência para tentar rasgar o voto de milhões de brasileiros.

A tentativa de golpe não foi apenas contra um governo, mas contra os direitos do povo: contra a aposentadoria, contra a saúde pública, contra a educação, contra o salário digno, contra o direito de organização. Foi uma tentativa de aprofundar a exploração e calar os trabalhadores diante da fome, do desemprego e da violência. Como já dissemos em A Verdade, o golpe fascista foi planejado para beneficiar uma minoria rica que lucra com a miséria de milhões.

Bolsonaro não agiu sozinho. A conspiração contou com financiamento de empresários bilionários, apoio de militares e da alta cúpula da Polícia Militar, além da omissão cúmplice de setores do Judiciário. No entanto, até hoje, nenhum grande financiador foi preso. Bolsonaro é réu no Supremo Tribunal Federal, apontado pela Procuradoria-Geral da República como líder do chamado “núcleo 1” do golpe, ao lado de generais, ministros e aliados de confiança. Mesmo com a gravidade dos crimes, segue livre, com tornozeleira eletrônica e proibido de usar redes sociais. O julgamento está previsto para setembro.

A tentativa recente de Donald Trump de interferir nos processos judiciais brasileiros em favor de Bolsonaro é mais do que um gesto de solidariedade entre fascistas. Trata-se de uma ação imperialista, típica dos Estados Unidos, que historicamente tenta impor seus interesses sobre os povos da América Latina. Trump age como porta-voz do imperialismo norte-americano ao defender um político que trabalhou para submeter o Brasil aos interesses estrangeiros, entregando a Amazônia, o petróleo, as estatais e os direitos do povo.

Por tudo isso, é tarefa urgente do povo organizado exigir a prisão de Bolsonaro e de todos os responsáveis pelo golpe. Não haverá justiça verdadeira enquanto golpistas circularem livres, enquanto generais conspiradores ocuparem cargos públicos, enquanto empresários que bancaram ônibus para Brasília seguirem impunes. O Brasil só será soberano quando os inimigos do povo forem julgados e punidos.

Matéria publicada na edição impressa  nº318 do jornal A Verdade

Sanções dos Estados Unidos não freiam médicos cubanos na missão de salvar vidas

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Em mais um ato de perseguição política, EUA cancelam vistos de profissionais e familiares apenas por participarem de programas médicos com Cuba.

Igor Barradas | Redação RJ


INTERNACIONAL – O governo dos Estados Unidos voltou a mostrar ao mundo seu verdadeiro rosto: a de um imperialismo que teme até médicos que curam pobres. Como admitir que uma pequena ilha bloqueada há mais de 60 anos, sem as riquezas naturais e os gigantescos orçamentos militares do império, consiga enviar milhares de médicos aonde Washington só levou bombas e bases militares?

No início deste mês, o Departamento de Estado dos Estados Unidos cancelou os vistos de funcionários de governos africanos, da ilha caribenha de Granada e de Cuba, além de seus familiares, todos diretamente ligados a programas de cooperação médica internacional, incluindo os profissionais brasileiros do programa Mais Médicos.

As novas sanções anunciadas contra Cuba e seus aliados não passam de um ataque contra a própria vida, uma tentativa desesperada de criminalizar a solidariedade. O imperialismo dos Estados Unidos, que se apresenta como guardião da “democracia”, mostra mais uma vez que sua bandeira é a do lucro acima da dignidade humana.

Enquanto milhões de norte-americanos não conseguem pagar por consultas e remédios, a Casa Branca prefere gastar trilhões em guerras intermináveis e em fortalecer multinacionais farmacêuticas. É este o sistema que se atreve a condenar Cuba por salvar vidas gratuitamente.

A política de morte do imperialismo estadunidense

O bloqueio econômico, mantido por mais de seis décadas, é um cerco que tenta estrangular o povo cubano, negando acesso a medicamentos, alimentos e insumos básicos. Segundo estimativas do governo cubano, o embargo já causou perdas superiores a 150 bilhões de dólares. Mais de 90% dos remédios que Cuba consome dependem de importação e sofrem atrasos ou aumentos de preço devido às sanções. Equipamentos hospitalares chegam com meses de atraso e insumos básicos, como vacinas, enfrentam barreiras financeiras e burocráticas.

O resultado é calculado: hospitais sem insumos, pacientes sem acesso a tratamentos, filas de espera que poderiam ser evitadas e o sofrimento de crianças e idosos. Mas, mesmo sob essa guerra econômica silenciosa, Cuba insiste em compartilhar o pouco que tem.

Internacionalismo como arma

Atualmente, 24 mil médicos e enfermeiros cubanos atuam em 60 países, em lugares onde o capitalismo só deixou abandono e desigualdade. Cada brigada enviada é uma bofetada moral no imperialismo, mostrando que a saúde não precisa ser mercadoria.

Em mais de 60 anos de Revolução, Cuba enviou médicos para a Argélia recém-liberta, enfrentou o ebola na África, socorreu vítimas de terremotos e furacões e liderou a luta contra a covid-19. O Contingente Henry Reeve, criado em 2005, é símbolo dessa vocação internacionalista reconhecida até pela Organização Mundial da Saúde.

No Haiti, desde 1998, médicos cubanos realizaram 36 milhões de consultas e salvaram quase meio milhão de vidas. A Operação Milagre devolveu a visão a mais de 4 milhões de pessoas em 34 países. A Escola Latino-Americana de Medicina (Elam) já formou 73 mil jovens de famílias pobres de todo o mundo.

Cada consulta, cada cirurgia, cada estudante formado é uma denúncia viva contra o cinismo imperialista. Os números mostram que, enquanto o imperialismo prefere armar conflitos, Cuba prefere salvar vidas.

LONGO HISTÓRICO DE SOLIDARIEDADE. Programa cubano “Crianças de Chernobyl” acolheu 21 mil crianças vítimas do desastre nuclear de 1986 entre 1990 e 2011, com acompanhamento de Fidel Castro na chegada dos primeiros participantes a Tarará. (Foto: Reprodução)

Apoio necessário do Governo Federal, mas insuficiente

As medidas repercutiram fortemente no Brasil. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva criticou o bloqueio, chamando-o de “violência sem justificativa que dura 70 anos”. Em discurso, disse: “Os Estados Unidos fizeram uma guerra, perderam. Aceitem que perderam e deixem o povo cubano viver em paz”.

O ministro da Saúde, Alexandre Padilha, também se manifestou em defesa do Mais Médicos e dos cubanos que trabalham no Brasil. Lembrou que foram eles que levaram atendimento às periferias e regiões remotas, onde profissionais brasileiros se recusaram a atuar.

Mas se a indignação oficial é importante, ela ainda é insuficiente. O momento exige mais do que discursos: ações concretas de solidariedade, organização de atos públicos, campanhas de denúncia internacional, pressão política e popular. O Brasil, que recebeu a solidariedade cubana em momentos de necessidade, tem uma dívida histórica: defender Cuba não apenas com palavras, mas com mobilização ativa.

O império teme o exemplo

O verdadeiro medo dos Estados Unidos não são os médicos cubanos em si, mas o exemplo que eles representam. Porque mostram que é possível construir um sistema de saúde universal, gratuito e solidário, mesmo sob o cerco mais cruel, o sistema socialista. Mostram que a medicina pode ser arma de libertação, e não de lucro. 

O imperialismo não suporta a ideia de que outros povos possam seguir esse caminho. Por isso, ataca com sanções, pressões diplomáticas e campanhas de difamação. Persegue médicos como se fossem bandidos.

Cuba resiste

Mesmo com o peso do bloqueio, Cuba continua enviando médicos ao mundo. Cada jaleco branco que cruza as fronteiras é como uma bandeira erguida contra o império. Cada vida salva é uma derrota para a política de morte dos EUA.

Se o imperialismo persegue até médicos, cabe a nós proteger esses mensageiros da vida. Como disse Che Guevara: “A solidariedade é a ternura dos povos”. Essa ternura precisa se transformar em luta organizada.

Porque defender Cuba é defender a possibilidade de um mundo em que a vida, e não o lucro, esteja no centro. Cada consulta, cada cirurgia e cada escola médica é um ato de resistência, um grito contra o bloqueio e um farol de esperança para toda a humanidade.