Idalmys Beltrán, Conselheira da Embaixada de Cuba, trouxe um panorama da situação atual em Cuba, e falou das perspectivas da revolução no país. fotos: Madu. JAV- PE.
Convenção de solidariedade com Cuba em Pernambuco foi marcada por muita emoção, denuncia dos crimes do imperialismo aos povos, especialmente ao povo palestino e reafirmação do Socialismo como única saída para livrar o futuro da humanidade.
Clóvis Maia- Redação Pernambuco.
INTERNACIONAL- Dia 31 de maio o auditório do Sindicato dos Servidores Públicos Federais de Pernambuco (SINDSEP), ficou lotado para receber a XIV Convenção Pernambucana de Solidariedade com Cuba, promovida pelo Fórum Pernambucano de Solidariedade com Cuba. A programação contou com a presença da Conselheira da Embaixada de Cuba, Idalmys Beltran, a exibição do documentário “Bloqueio: a guerra contra Cuba”, e uma apresentação cultural para homenagear os esforços dos movimentos sociais, partidos de esquerda e da sociedade civil em torno do significado da resistência cubana, que desde 1959 vem dando exemplo para o mundo de que é possível um novo mundo. A Convenção também aprovou uma moção de Solidariedade ao Povo Palestino.
O documentário “Bloqueio: a guerra contra Cuba”, foi produzido pelo Comitê de Solidariedade com Cuba do Rio de Janeiro e fala sobre o significado, o legado da Revolução de 1959 e como funciona as pressões ao país socialista perpetradas especialmente pelos EUA. Após a exibição do filme, emocionadas falas dos partidos e organizações integrantes do Comitê Pernambucano bem como dos participantes da convenção renovaram o clima de esperança no socialismo e fé na revolução, além da marcante denuncia aos arbitrários crimes que vem ocorrendo na Palestina e na região, num verdadeiro genocídio televisionado.
PCR, PCdoB, PSOL, PCB e PDT foram alguns das organizações que se fizeram presentes no encontro, que contou também com a participação de entidades e coletivos, como a Aliança Palestina Recife, que registrou a união existente entre Cuba e o povo palestino ao longo das últimas décadas, pauta defendida por Fidel como fundamental para derrotar o imperialismo e construir uma alternativa para os povos oprimidos do mundo. Além da eleição dos representantes para a 27° Convenção Nacional (CONASOL) que ocorrerá de 19 a 21 de junho em Vitória (ES) o evento contou com a apresentação cultural do grupo pernambucano Guazapa, banda que tem em seu repertório canções revolucionárias da América Latina, do poeta e militante Marcelo Mário de Melo e do Duo Dobrando a Madeira, formado por Carlos Silva e Edileusa Tavares, músicos e professores que mantém um projeto de difusão e divulgação da música nordestina usando a clarineta e o clarone.
Solidariedade consequente aos povos
Em 1979, Fidel Castro, aliado de primeira ordem de Yasser Arafat, foi categórico ao falar sobre o genocídio em curso:
“Não consigo me lembrar de nada mais semelhante na nossa história contemporânea do que o despejo, a perseguição e o genocídio realizado hoje pelo imperialismo e pelo sionismo contra o povo palestino.”
Mesmo com todo o bloqueio e as dificuldades geradas por essa política imperialista, o povo cubano segue resistindo e se solidarizando com os mais oprimidos, mostrando seu lado internacionalista. Em defesa da Palestina, o Presidente cubano Miguel Diaz Canel chegou a organizar junto ao embaixador palestino em Cuba, Akram Samhan, uma grande manifestação em Havana ainda em novembro de 2023, com milhares de cubanos denunciando o genocídio e sempre foi enfático ao reforçar a posição que a África do Sul adotou frente aos órgãos internacionais como a ONU, ao apresentar denúncia contra Israel no Tribunal de Haia por romper os direitos humanos, sobretudo após as ações dos grupos de resistência palestinos em outubro de 2023.
Porém, a manutenção do governo popular e socialista de Cuba não é um conto romântico e tem suas dificuldades, especialmente as enfrentadas durante a pandemia de Covid-19 e do bloqueio econômico norte-americano mantido há mais de 60 anos e que voltou com ainda mais forças após o retorno de Donald Trump à Casa Branca. Idalmis Brooks Beltraín, Conselheira da Embaixada de Cuba falou sobre essas dificuldades e as perspectivas dos cubanos e dos desafios do governo revolucionário para avançar e manter o projeto da revolução de 1959. Segundo ela, “o imperialismo tentou e vai tentar ainda de tudo para desestabilizar nosso governo, que conta com apoio e solidariedade da sua população. Como é que pode, um governo que não é amado pelo seu povo, colocar milhões de pessoas nas ruas para comemorar o primeiro de maio e reafirmar os compromissos de Fidel e Che com a nossa revolução? Isso, claro, a mídia não mostra. Não vai mostrar. Por isso é importante esses momentos e atitudes de solidariedade. Cuba segue. Venceremos!”
Em sua sanha imperialista, Donald Trump colocou Cuba novamente numa lista de “países patrocinadores do terrorismo internacional”, lista criada pelo próprio EUA em 1979 e visa criar sanções contra os países citados. Entre eles estão Iraque, Síria, Líbia, Coreia do Norte, por exemplo. Cuba havia sido colocado na lista em 1982, mas Biden tinha anunciado em janeiro de 2025 que retiraria a ilha da lista. Ainda lembrando Fidel Castro, a conselheira lembrou que Cuba, a despeito de toda perseguição sofrida, é conhecido por enviar médicos a todos os lugares do mundo. E não bombas”.
Grupo Guazapa.Edileusa Tavares, do Duo Dobrando a Madeira.O auditório do Sindicato dos Servidores Públicos Federais (SINDSEP-PE) ficou lotado de apoiadores de Cuba.Poeta e militante Marcelo Mário de Melo.Edival Nunes ‘Cajá’, presidente do Centro Cultural Manoel Lisboa (CCML) coordenou os trabalhos da XIV Convenção Pernambucana.
Projeto de escola de sargento do Exército ameaça meio ambiente mas é defendido por Ministro do governo. Reprodução.
Projeto do Exército tem projeção de ser uma área equivalente a 200 campos de futebol, e promete iniciar as obras em 2027. Um detalhe é que o projeto ameaça o meio ambiente, em uma área de preservação ambiental mas tem o Ministro da Defesa, José Múcio, que é pernambucano, como principal entusiasta da empreitada.
Milton Tenório- Recife*
A construção da Escola de Sargentos do Exército dentro da Área de Proteção Ambiental (APA) Aldeia-Beberibe, no Grande Recife, é um escândalo anunciado. Trata-se de um crime ambiental em plena Mata Atlântica, que prevê a destruição de cerca de 200 mil árvores em uma das regiões mais estratégicas para a preservação ambiental e comprometer o abastecimento de água para cerca de um milhão de pernambucanos. É um ataque direto à biodiversidade, aos mananciais e à inteligência da população.
Mais do que devastar a flora, o projeto ameaça a fauna já fragilizada e compromete as nascentes do Rio Catucá, único rio que alimenta a Barragem de Botafogo, barragem essa que manda água para os municípios de Olinda, Paulista, Abreu e Lima e Igarassu.
Em vez de zelar pela segurança hídrica, o Exército avança com uma obra megalomaníaca, orçada em R$1,8 bilhão, incluindo 576 apartamentos para Oficiais e Sargentos — tudo bancado com dinheiro público, enquanto falta verba até para o almoço das tropas, onde também faltam verbas para as universidades federais e estaduais de Pernambuco. A escola de sargentos do exército é cinismo social, descaso ambiental e um deboche com a sociedade.
É inadmissível que o Ministro da Defesa, José Múcio Monteiro — pernambucano — esteja à frente de uma ação tão desastrosa para seu próprio estado. Múcio se torna o maior símbolo do negacionismo climático, patrocinando a destruição de uma das áreas mais sensíveis do território pernambucano. A omissão — ou conivência — do Governo de Pernambuco também merece repúdio. A governadora Raquel Lyra utilizou a máquina pública e a Agência Estadual de Meio Ambiente (CPRH) para pedir a derrubada da decisão da juíza da Comarca de São Lourenço da Mata, que proibia obras públicas e privadas nos corredores ecológicos, e o presidente do TJPE, desembargador Ricardo Paes Barreto, atendeu ao pedido em decisão monocrática, escancarando o caminho para o desmatamento em larga escala.
Não há justificativa plausível para instalar uma escola militar em cima de nascentes, desrespeitando decretos estaduais que protegem corredores ecológicos. O que deveria ser um espaço de formação cidadã se converte em um exemplo desastroso de desprezo pelo meio ambiente. Que lição se pretende dar aos jovens? Que destruir florestas e comprometer o futuro do planeta é aceitável? Enquanto fazem discursos vazios sobre sustentabilidade, o que se vê é a prática da destruição acelerada. O que se vê é o poder público, o exército junto com o Governo Federal e Governo Estadual de Pernambuco cometendo greenwashing (maquiagem verde).
A realidade é trágica: o termômetro sobe, os oceanos se aquecem, os aquíferos secam — e ainda ouvimos falar em “compensação ambiental” como se isso justificasse a devastação. É uma grande mentira, um engodo que mascara as várias alternativas locacionais existentes para o projeto e estudadas pelo Fórum Socioambiental de Aldeia.
Dia 30 de maio desse ano saiu na mídia uma parceria do exército brasileiro com o DNIT numa tentativa de maquiar o movimento ecocidas dessas duas instituições, onde o exército pretende fazer compensação ambiental onde o DNIT for derrubando, o que parece tratar-se do Arco Metropolitano Trecho Norte, onde o DNIT e o Governo do Estado querem dividir a APA Aldeia Beberibe no meio, criando outro desmatamento e agressão a Mata Atlântica, deixando de ser um Arco, sendo que o Arco já posto é passando pelo município de Araçoiaba.
A matemática deles não bate, pois 90 hectares é o que o exército quer desmatar, ou seja, justamente o número de hectares que o exército quer desmatar para implantação da tal escola de sargentos. É cinismo social, é descaso ambiental, é zombar com a cara da sociedade. A AGU (Advocacia Geral da União) leia- se Jorge Messias, o advogado Geral da União, é outro pernambucano e negacionista climático, onde numa manobra, afirma que o Ibama não é o responsável para autorizar ou não a supressão da vegetação na APA Aldeia Beberibe, abrindo assim facilidade para o exército seguir com a ideia do desmatamento. O poder público se comporta como “Faça o que eu digo e não faça o que eu faço!”
O exército brasileiro não é e nunca foi exemplo para a sociedade
Na Guerra do Paraguai em 16 de agosto de 1869, a batalha conhecida como Acosta Ñu, segundo o historiador paraguaio Fabián Chamorro, foi protagonizada, do lado paraguaio, por crianças e adolescentes lutando. Todas dizimadas pelo exército brasileiro. Seu impacto foi tão forte que a data acabou virando o Dia da Criança no Paraguai. O exército brasileiro, no golpe militar de 1964, cassou mandatos legítimos de muitos parlamentares, perseguiu, torturou, matou. Já no Governo Bolsonaro em 2022 permitiu golpistas acampados nas portas dos quartéis.
Voltando ao tempo, em outubro de 2021 nos deparamos com a notícia do projeto da escola de sargentos do exército dentro da APA (Área de Proteção Ambiental) no Grande Recife.
Em 2024 o exército brasileiro junto com o Ministro da Defesa José Múcio Monteiro impôs ao Presidente Lula a dar um discurso quando esteve no Recife, discurso esse apoiando a implantação da escola de sargentos dentro da Mata Atlântica. Em parte do discurso infeliz se ouvia que “Se não fosse o exército aquela área seria INVADIDA e virado uma FAVELA”. O Presidente Lula simplesmente replicou as palavras já ditas em várias ocasiões nas audiências públicas da ALEPE-PE pelo General Joarez Alves Pereira Junior, outro negacionista climático dessa instituição.
O exército quer passar o trator em cima da Mata Atlântica. Esses senhores são lesa pátria; deveriam responder processo por atentar contra o meio ambiente de uma forma tão vil. Portanto, o exército brasileiro há muito deveria ser questionado, nas esferas do judiciário e no parlamento, por suas funções e quanto custa para nossa sociedade. Eles vivem com os pés no século XIX e abusam do poder e das mordomias.
Uma pergunta que não quer calar é por que o exército brasileiro, já tendo uma escola de sargentos em Minas Gerais, quer se instalar em Pernambuco e no Ceará instalar a escola do ITA (Aeronáutica)? Só os ingênuos não percebem a movimentação política desses generais de botarem os pés no nordeste, uma região de esquerda, e de resistência. É um viés ideológico, ao mesmo tempo em que se procura assegurar o capital de grupos, girando o vil metal.
Está na hora do exército brasileiro entender que a crise climática já chegou, respeitando o meio ambiente, a geração atual e as futuras gerações. Que legado o exército quer deixar para nossos filhos e netos: devastar florestas? Aterrar mananciais? Como bem disse o sociólogo francês Alain Accardo: “Tal qual Saturno devorando seus filhos, o capitalismo estende sua voracidade a tudo o que existe, sem se preocupar com sua própria reprodução a longo prazo: recursos minerais, vegetais, animais e até mesmo humanos, tudo passa, tudo está à venda, tudo se torna mercadoria e dinheiro. Até que o planeta inteiro se torne um vasto aterro de lixo fedorento, tóxico e inabitável. A menos que se pare essa loucura assassina antes que ela destrua tudo.”
*Milton Tenório é ativista ambiental e morador de Aldeia (PE)
Ao contrário do que propaga a história da burguesia, as mulheres nunca foram passivas diante da realidade da exploração de classe. Conheça a atuação das mulheres na linha de frente contra a ditadura fascista de 1964 no Brasil.
Catarina Matos | Movimento Olga Benario
BRASIL – Na segunda metade do século XX, o Brasil e diversos países da América Latina sofreram duros golpes militares influenciados e financiados pelos Estados Unidos e grandes países capitalistas, os quais viam nas experiências populares daquele período – a Revolução Cubana como forte exemplo – uma ameaça ao seu controle imperialista. Por isso, na década de 1960, foram consolidadas Ditaduras, nas quais o Estado, dirigido pelas forças armadas, promoveu ações de terrorismo, censura, tortura, assassinato e forte repressão às populações.
No Brasil, em 1961, em meio à conjuntura mundial polarizada como consequência da Guerra Fria, após imensa pressão popular, tomou posse à presidência do país o democrata João Goulart, o Jango. Esse período é reconhecido pelo intenso desenvolvimento da sociedade brasileira no campo político: um momento de efervescência dos movimentos sociais, dos sindicatos e do movimento estudantil. O povo ansiava por mudanças, e os debates acerca das Reformas de Base passaram a ser uma crescente daquele período. Em março de 1964, o presidente brasileiro convocou o histórico Comício na Central do Brasil – Rio de Janeiro, no qual reuniu mais de 200 mil trabalhadoras, trabalhadores e estudantes. Foi neste ato que Jango apresentou as propostas das Reformas de Base: fim do analfabetismo, Reforma Agrária, Urbana, Bancária e estatização dos setores estratégicos (A Verdade, 2024).
Porém, as forças armadas fascistas brasileiras, asseguradas pelo governo norte-americano imperialista, já tinham um plano arquitetado para impedir a concretização das reformas e tomar o poder do Estado. Em 01 de abril, do mesmo ano, o presidente João Goulart tomou a decisão de não resistir ao aparato bélico colocado nas ruas do Rio de Janeiro, ao reforço que vinha dos EUA e à imprensa nacional golpista e exilou-se no Uruguai. Contudo o povo brasileiro, durante 21 anos, ficou e lutou. Durante esse período, as mulheres tiveram destaque em diversos aspectos da resistência ao Golpe Militar, seja no campo, no Trabalho Operário à luta pela Anistia.
O papel da classe operária feminina na resistência ao golpe
O primeiro ataque das forças militares fascistas foi contra as entidades sindicais populares e organizações estudantis. Direções foram cassadas, dirigentes presos e a imprensa sindical e popular amordaçadas. O objetivo era impedir a continuidade das históricas lutas que avançavam a consciência e as condições de vida do povo brasileiro.
Rapidamente uma parte dos dirigentes sindicais começou a resistir ao governo de forma clandestina, atuando de diversas maneiras como encontrando os trabalhadores nos bairros em que moravam. Em virtude da maior perseguição do movimento, que era majoritariamente masculino, as mulheres se sobressaíram, atuando nos períodos noturnos com visitas políticas, escondendo militantes perseguidos e criando uma rede de informações para manter ativa a luta operária brasileira. Muitas delas também passaram a atuar de forma direta nas portas das fábricas e empresas denunciando os baixos salários, o desemprego, a carestia, a falta de direitos como saúde e educação públicas. Exemplos não faltam.
Em 03 de março de 1966, operárias e capatazes da fábrica Petropolitana, localizada em Petrópolis, estado do Rio de Janeiro, entraram em conflito quando a fiandeira Maria Rosa, mesmo pressionada, decidiu não retornar ao trabalho, pois estava sem receber salário. A revolta se espalhou quando outros tecelões aderiram ao chamado de uma liderança, Arlinda, ao afirmar: “A fábrica agora vai parar”. Depois de alguns dias, com a intervenção do padre da cidade e com a mediação da Justiça do Trabalho, a empresa decidiu pagar os salários dos trabalhadores. (Jornal Acontece em Petrópolis, 2017).
No dia 16 de abril de 1968, na Cidade de Contagem – estado Minas Gerais, as mulheres foram decisivas na importante greve na zona industrial que mobilizou mais de 1.200 operárias e operários metalúrgicos e siderúrgicos, que reivindicavam 25% de reajustes nos salários e melhores condições de trabalho. O movimento iniciou-se na trefilaria da Companhia Siderúrgica Belgo-Mineira e se espalhou para outras empresas, sendo o primeiro grande movimento grevista pós-golpe. Foi criado um “Comitê de Apoio à Greve” cujas tarefas eram realizadas em sua maioria por mulheres e consistia em arrecadar dinheiro e alimentos para ajudar os grevistas e suas famílias e elaborar boletins denunciando a situação dos operários e o caráter justo do movimento dos trabalhadores, mesmo sendo declarado ilegal pelas autoridades (SCARPELLI e SILVA, 2014).
E por fim, em 25 de novembro de 1968, as trabalhadoras castanheiras cruzaram os braços e realizaram piquetes na porta da empresa CIONE, localizada em Fortaleza, estado do Ceará. As operárias lutavam pelo pagamento de horas extras e contra os atrasos constantes nos salários, que as deixavam numa situação de imensa miséria. A greve foi dura, com enfrentamento entre as operárias e os seguranças da fábrica. Muitas foram agredidas e precisaram ser atendidas em hospitais da região. Conforme relato de um sindicalista da época “elas não deixaram barato. Pegaram pedaços de madeira para não entrar à força. Eles tentaram duas ou três vezes, mas não conseguiram. Nunca vi uma coisa tão dramática” (Jaime Liberio – diretor do Sindicato do Óleo). O movimento ficou conhecido como A Guerra das Castanheiras, tendo durado sete dias, suas lideranças foram presas no DOPS (Departamento de Ordem Política e Social – órgão de perseguição da Ditadura Militar). Todas essas mobilizações foram realizadas pelas mulheres contra os patrões, o governo ditatorial e o machismo que prevalecia no movimento sindical.
Iara Ivalberg, militante da VPR
Mulheres na luta armada: coragem e combatividade
Não conseguindo frear o movimento popular e operário, mesmo com intensas perseguições, os militares resolveram dar um golpe dentro do Golpe. Em 1968, fecharam o Congresso Nacional, cassaram parlamentares, partidos políticos foram colocados na ilegalidade, suspenderam direitos e a justiça foi amordaçada. Não havia outro caminho senão enfrentar a violência do regime com a violência revolucionária.
Foi assim que nasceram diversas organizações armadas revolucionárias, inspiradas nas heroicas resistências populares da América, Ásia e África. Destacam-se o Movimento Revolucionário 8 de Outubro – MR8 (homenagem à imortalidade do comandante Ernesto Che Guevara); a Ação Libertadora Nacional – ALN, dirigida por Carlos Mariguella, a Vanguarda Popular Revolucionária – VPR, sob o comando do capitão Carlos Lamarca e a fundação, em 1966, do Partido Comunista Revolucionário – PCR, sob a liderança do camarada Manoel Lisboa de Moura. Embora os principais dirigentes fossem homens, em todas elas, as revolucionárias tiveram importante destaque nos diversos meios de organização, desde arrecadação de recursos e outros materiais, a guarda e o transporte das informações e das armas, a ligação com os movimentos de massas até o comando de muitas ações contra o regime, como justiçamentos, expropriações de bens e valores e regastes dos camaradas presos.
Dentre elas, Iara Iavelberg, natural de São Paulo-SP, foi uma das mulheres que esteve na vanguarda dessas lutas. Como liderança do MR8 e VPR, participou do sequestro do embaixador suíço Giovanni Buche. Depois de procurada como terrorista pelos agentes da ditadura e tendo sua organização desarticulada, mudou-se para Bahia tornando-se uma das comandantes de diversas ações armadas. Em 1971, foi cercada e encurralada pela polícia, presa e assassinada.
A professora gaúcha Sônia Moraes Angel é também um exemplo de coragem e determinação na resistência ao Golpe Militar de 64. Foi liderança da ALN, cumprindo missões de apoio aos militantes revolucionários, garantindo esconderijo àqueles que estavam sob risco de serem pegos pela repressão. Em 1969, foi presa participando de uma manifestação do 1º de maio contra a Ditadura. Depois de dois exílios, na França e no Chile, retorna ao Brasil para reorganizar a ALN, porém é presa, barbaramente torturada e assassinada em setembro de 1973.
Outras guerrilheiras não podem deixar de ser lembradas; aquelas que atuaram no campo, como na Guerrilha do Araguaia: Jana Barroso, Helenira Resende e Dinalva Conceição Teixeira. Todas assassinadas após uma expedição e cerco do exército brasileiro. Seus corpos nunca foram encontrados.
Essas companheiras não se contentaram em viver num sistema ditatorial, patriarcal, misógino que impunha às mulheres uma vida de opressão. Do campo às cidades, elas combateram a ausência de direitos, a fome, o desemprego, a violência, os papeis de gênero e tudo aquilo que explorava nossa classe. Lembremos que na metade da década de 1970, 30% da classe trabalhadora já era composta de mulheres, e com o aumento da violência estatal, dos assassinatos e desaparecimentos forçados, seja na repressão política ou social, a ditadura deixou marcas permanentes em milhares de famílias no Brasil.
Mulheres Contra a Carestia e pela Anistia
Outros dois movimentos muito importantes nesse período de horror à classe trabalhadora foram as lutas contra o alto custo de vida e pela anistia dos lutadores sociais contra a ditadura.
Foi na periferia de São Paulo, a partir dos clubes de mães organizados nas Comunidades Eclesiais de Base da Igreja Católica, em 1972, que se iniciou um movimento contra o aumento do custo de vida. As mulheres e mães reivindicavam que os “senhores do poder” tomassem uma providência sobre a situação na qual a classe trabalhadora vivia. “…porque o Brasil é uma terra tão rica e as mães choram na hora de pôr a panela no fogo pra fazer a comida pros filhos”. É assim que tem início o documento que deu origem ao movimento intitulado Movimento Contra o Custo de Vida, ou Movimento Contra Carestia (A Verdade, 2021).
Essas mulheres, donas de casa, perceberam que precisavam sair de dentro de seus lares para ser linha de frente na luta pela vida e pela dignidade dos brasileiros mais pobres, e conseguiram organizar um abaixo-assinado, contra a carestia e a política econômica do governo em questão. Com mais de 1 milhão de assinaturas, enfrentaram corajosamente, com seus filhos nos braços, a força policial da época para garantir a entrega do documento popular ao General Geisel, ditador que estava no poder naquele período.
Naquele momento também nascia um forte movimento em defesa dos presos e desaparecidos políticos da Ditadura Militar. Eram filhas, mães, esposas, irmãs que incansavelmente batiam nas portas das delegacias e prisões buscando notícias de seus familiares. O Movimento Feminino Pela Anistia, além de desenvolver intensa campanha em todo o país, conseguiu formar uma rede internacional de denúncia aos crimes políticos, o que pressionou as autoridades brasileiras a aprovar a lei da anistia. Infelizmente, esta passou de forma ampla e irrestrita, inocentando também os militares assassinos e torturadores do período. Um erro que deve ser corrigido, e as mulheres continuam em luta por Memória, Verdade e Justiça no Brasil dos dias atuais. O papel das mulheres na luta pelos direitos dos presos e desaparecidos é inegável, elas foram responsáveis pelo rompimento do silêncio em torno das perseguições, prisões e torturas nos cárceres da ditadura. A utilização do papel tradicional da “mulher de família” e do cuidado maternal das integrantes do MFPA, pode ser entendido também como uma estratégia do movimento para se esquivar da repressão da ditadura, num momento em que as lutas feministas eram alvo de críticas pelo governo e pela opinião pública (Arquivo Nacional – Governo do Brasil).
Apesar da imposição patriarcal da história, que pretende invisibilizar a participação ativa e criadora das mulheres na luta pela libertação dos povos, o legado das mulheres – corajosas e aguerridas – ao enfrentarem em várias frentes toda opressão e exploração na qual são submetidas, deve ser reconhecido como instrumento de ânimo, força e energia para aquelas que hoje continuam nas “trincheiras” de luta pelo fim da sociedade capitalista e pela construção do Socialismo, no Brasil e em todo o mundo.
As crianças ainda são o grupo social que mais sofre violência no Brasil: somente no ano passado, foram registradas 274 mil denúncias. A causa não é outra senão o sistema capitalista de produção.
Alice Morais | Movimento Olga Benario
SOCIEDADE – Segundo dados do Ministério de Direitos Humanos e da Cidadania, em 2024 foram registradas mais de 274.000 denúncias de casos de violência contra crianças no Brasil. Os principais casos são a violência sexual (abusos, estupro de vulnerável e exploração sexual), a física (agressões, maus-tratos, tortura e homicídios) e a negligência (abandono, falta de cuidados básicos, etc). Muitas das denúncias registradas indicam que a violência, na maioria dos casos, parte de pessoas do convívio da criança, em particular do seio familiar.
A infância é fase da vida dos 0 aos 12 anos onde o indivíduo ainda está adquirindo experiências e formando sua personalidade. Por isso, as crianças precisam de cuidados e proteção, justamente por estarem mais suscetíveis a violências, pois ainda não entendem exatamente quais são seus direitos, o que caracteriza uma violência e como pedir ajuda. Assim, crescer em um lar violento gera consequências para o resto da vida e é o que aponta dos dados do Disque 100, que evidenciam que 81% das violências contra as crianças acontecem em suas casas.
Estudos apontam que a violência na infância pode alterar o cérebro não apenas no aspecto psicológico, mas também no biológico. “Todas as situações de maus-tratos, desde as mais leves até as mais graves, modificam de forma neurobiológica a maneira que as crianças têm de responder ante situações de estresse”, relata Lourdes Fañanás de Saura, doutora em Biologia e pesquisadora do Centro de Pesquisa Biomédica em Rede de Saúde Mental (CIBERSAM). Além disso, experiências de violência durante os primeiros anos de vida também se relacionam com mais de 35% dos transtornos mentais diagnosticados na idade adulta.
A banalização da violência
Este cenário de violência parece ser a realidade para a maioria das crianças no país. Os lares violentos são reflexo da realidade violenta do sistema capitalista: hoje, mais de 60 milhões de brasileiros estão em insegurança alimentar; em 2 anos, a violência da polícia contra crianças e jovens em São Paulo aumentou 120%, e cerca de 5 mil crianças são assassinadas anualmente em nosso país.
Diante dessa dura realidade, é que se reproduz a violência no seio familiar. Não é incomum os pais se utilizarem de gritos, humilhação, manipulação e castigos, na “intenção de educar” a criança. O mais comum são as agressões disfarçadas de educação, conhecidas como “palmadas”. Ao contrário do que pensam muitos pais, estudos científicos já comprovam que esses métodos não são eficazes e causam danos ao psicológico das crianças. A criança carrega essa marca para o resto da vida. Além disso, é uma forma de banalizar a violência. Uma criança que cresce em um lar violento tende a achar que é natural ser violentada ou violentar outra pessoa.
Assim, a naturalização da violência às crianças é o reflexo das violências ao qual a classe trabalhadora já é submetida cotidianamente sob o capitalismo, uma vez que a família constitui a sua unidade fundamental para a reprodução deste sistema e de toda a sua dominação. “A família, tal como existe na sociedade burguesa, é ao mesmo tempo o reflexo da ordem econômica e uma de suas bases mais sólidas”¹. Neste modelo familiar, o modelo burguês, o homem é o centro do poder dessa relação social, enquanto a mulher e os filhos tornam-se sua propriedade. “Com a monogamia e a propriedade privada, o homem passou a ver a esposa e os filhos como sua propriedade exclusiva”². Nessa lógica, o homem pode fazer o que quiser com a mulher, já que esta é seu objeto: mandar, bater, até matar; da mesma maneira com as crianças: se são propriedade da família, são seus objetos, por isso os adultos podem decidir tratá-las como bem quiserem.
A causa da violência contra as crianças é o sistema capitalista
As relações familiares modernas são consequência do modo de produção, no caso, do sistema capitalista, sistema que vivemos hoje. Essa forma de organização da sociedade é pautada na exploração de classes: a burguesia — que é a classe dominante, domina os meios de produção e se apropria de tudo que é produzido pela sociedade — explora a classe trabalhadora — que é a classe que não tem posses, tem apenas sua força de trabalho, e a vende para o burguês em troca de um salário, que fornece o mínimo necessário para a sobrevivência.
Nesse sentido, para manter o sistema funcionando, é necessário que a burguesia dissemine suas ideias, ou seja, a ideologia, para que as pessoas acreditem que a sociedade em que vivemos é a melhor, a mais correta e a única possível. Daí surge a dominação cultural, através das crenças e costumes da sociedade. A família é, portanto, uma unidade fundamental para continuar a disseminação do sistema capitalista, pois reproduz esta lógica de exploração.
A educação libertadora, aquela que é defendida pelos comunistas, pretende que as crianças sejam seres individuais e devem ser respeitadas para garantir seu desenvolvimento pleno enquanto pessoa. Portanto bater, gritar, humilhar e qualquer outra forma de violência não contribui para o desenvolvimento infantil, pelo contrário, reforça a violência. Contudo, se a banalização da violência às crianças é resultado do sistema capitalista de produção, a luta pelo direito à infância está, da mesma forma, ligada à luta pelo socialismo. O socialismo é um sistema de produção baseado na colaboração mútua, sem exploração do trabalho de ninguém; por isso, a individualidade e o bem-estar das pessoas são assegurados.
Assim, na luta pelo socialismo, é fundamental romper com a violência na educação das nossas crianças. Bater, gritar, oprimir e qualquer outra forma de violência não deve ser encorajado. Devemos construir creches coletivas, para assim aliviar a sobrecarga da família — sobretudo as mulheres, que são as principais responsáveis pelo cuidado com os pequenos — e retirar unicamente dela a responsabilidade de educar e cuidar, afinal o bem-estar das crianças é do interesse de toda a sociedade. As creches devem ser espaço de cuidado, proteção e formação das crianças. Criar filhos que acreditam no respeito às diferenças, são solidários e não reproduzem a violência é fundamental para a derrota do capitalismo e a vitória do socialismo.
Notas: (Friederich Engels em A origem da família, da propriedade privada e do Estado)
Professores contratados e estagiários lutam contra o atraso de pagamento e falta de condições de trabalho em Petrópolis-RJ.
Christian Nunes | Petrópolis – RJ
TRABALHADOR UNIDO – Desde o fim do ano passado, centenas de professores e profissionais da educação lutam contra atrasos salariais e corte de direitos patrocinado pela Prefeitura de Petrópolis, na Região Serrana do RJ. Professores temporários, estagiários e de categorias precarizadas convivem com o parcelamento do pagamento ou simplesmente o calote do município.
Esta realidade tem piorado numa das cidades mais ricas do interior do Rio. Isto porque o atual prefeito segue a mesma cartilha do anterior e se recusa a chamar os aprovados no último concurso e a realizar novos. Ao contrário disso, tem imposto uma política de precarização da força de trabalho da educação pública municipal.
Luta pelo salário
No dia 19 de maio, mais uma vez se repetia a mesma história que se arrasta há anos, os estagiários e professores não concursados das escolas da prefeitura de Petrópolis estavam com seus salários atrasados mais uma vez e decidiram partir para a luta.
Vários professores compareceram e grande parte aderiu a paralisação e não compareceu ao trabalho nas escolas. O Movimento Luta de Classes e a Unidade Popular se somaram a esta luta.
Dentre as reivindicações, estão a demanda de pagar os salários em dia e a criação de um contrato que estabeleça regras para a jornada e o pagamento do salário.
Até agora, a prefeitura e a Câmara de Petrópolis deram poucas respostas sobre as demandas da categoria, mas cederam à pressão da luta e pagaram os salários referentes à abril. Ainda assim nenhuma resposta foi dada com relação às reivindicações, dentre elas, a necessidade de um Vale-transporte, a remuneração das horas de planejamento das aulas, ausência de um contrato e a falta de uma data de pagamento.
De forma muito injusta, algumas direções das escolas estão fazendo perseguição contra os trabalhadores que aderiram à paralisação. Inclusive, grande parte dos trabalhadores tem medo de aderir e ter seus salários descontados por falta, receberem represálias ou serem demitidos.
Enquanto isso, o prefeito Hingo Hammes (PP) no final do último ano, em uma manobra articulada com a Câmara, aprovou o aumento de 70% do seu salário e dos seus secretários. Aparentemente, o dinheiro só falta quando não é para encher o bolso dele, caso contrário, não hesita em arrancar mais dinheiro dos trabalhadores que buscam viver digna e honestamente.
Somado a essa situação, o Diário de Petrópolis, mídia burguesa local da cidade, publicou uma matéria sobre a paralisação nas redes, mas aparentemente “mudaram de ideia” e retiraram a matéria do ar, numa tentativa de calar a voz dos estagiários e trabalhadores da educação, demonstrando ser uma mídia que tem o rabo preso com os interesses políticos do prefeito.
Entretanto, esta situação de incerteza não desanima os trabalhadores dessa categoria tão precária que possuem uma instabilidade tão grande junto aos RPAs (contratados por demanda da prefeitura), sendo que podem ser mandados embora a qualquer momento. Todos sabem que sem salário em dia não dá pra viver, e quando não há opção, só a luta organizada, com a união de todos, pode melhorar suas condições de vida. Novas paralisações e atos estão sendo organizados para o próximo período, enquanto a prefeitura e a Câmara Municipal se mantiverem omissas.
Agronegócio subordinado ao imperialismo prefere exportar café para o exterior e quem paga conta é o povo pobre.
Chantal Campello | Cabo Frio (RJ)
BRASIL – O café, produto historicamente ligado à cultura, à economia e à luta do povo brasileiro, está cada vez mais inacessível. O preço do pacote de 500g já ultrapassa os R$35 em muitas regiões do país, afetando duramente o consumo diário das famílias. Mas por trás dessa escalada de preços não está apenas o clima ou o câmbio: há uma engrenagem que envolve a ação direta do imperialismo estadunidense, herdeiro direto das políticas excludentes e a conivência ativa das elites brasileiras.
Apesar de ser o maior produtor mundial de café, o Brasil está vendo o produto sumir da mesa do povo. Isso acontece porque o sistema atual prioriza a exportação do café verde (grão cru) para países ricos, principalmente os Estados Unidos, em vez de abastecer o mercado interno. Os produtores vendem suas safras para fora, onde recebem em dólar, o que é mais lucrativo. O resultado é menos oferta no Brasil e, portanto, preços muito mais altos para o consumidor.
“Eles mandam o melhor café pAra fora. A gente aqui fica com o resto, e ainda pagando caro. O café que eu comprava por R$ 12 agora tá quase R$ 30”, denuncia Vinícius Seguraço, militante e trabalhador do Uber.
Além disso, o dólar alto inflaciona ainda mais o produto, já que os exportadores ajustam seus preços com base no mercado de fora. Ou seja: mesmo um produto 100% nacional, colhido com suor por trabalhadores brasileiros, é cotado como se fosse importado.
Hoje, o país exporta apenas o grão cru, barato, enquanto grandes empresas dos EUA compram esse grão, processam e revendem cápsulas e produtos gourmet a preços até 10 vezes maiores. É um modelo cruel, onde o Brasil fornece matéria-prima barata e importa de volta o produto final caríssimo. A verdade é que o governo Trump escancarou a política de roubo legalizado.
Enquanto o imperialismo lucra, os trabalhadores brasileiros pagam a conta com suor e miséria. No campo, os agricultores recebem cada vez menos, mesmo sendo responsáveis pela produção que sustenta o mercado mundial. Nas cidades, a situação não é diferente.
Inação do governo
Diante desse cenário, o governo brasileiro cruza os braços, ou pior: atua ativamente a favor das grandes exportadoras e corporações do agronegócio. Não há controle de preços, não há proteção ao abastecimento interno, não há incentivo à industrialização nacional. A prioridade segue sendo exportar, enriquecer meia dúzia e empobrecer o povo.
A verdade é que o Estado brasileiro age como agente do imperialismo. Entrega o nosso café cru e importa miséria. Essa política econômica concentra renda, exclui os pobres do acesso a alimentos básicos e impede qualquer possibilidade de soberania alimentar.
Mesmo com a carestia, a resistência popular se fortalece. A luta contra a fome é a ordem das lutas cotidianas. O povo brasileiro precisa retomar o controle sobre sua produção, romper com as amarras do imperialismo e construir uma economia voltada para as necessidades populares. O café, que já foi motor de revoluções e símbolo de resistência, volta a representar a necessidade urgente de mudar esse sistema.
Reunidos em Assembleia na última segunda feira (26/05) os servidores de Campinas rejeitaram a proposta de 5% de reajuste salarial feita pela prefeitura. A exigência da categoria é de pelo menos 35%. Os trabalhadores tem feito uma luta intensa contra o sucateamento do serviço público e pela valorização dos servidores municipais
MLC | SP
Na última segunda feira (26/05) a categoria dos servidores municipais de Campinas realizou uma assembleia no paço da prefeitura para exigir o reajuste salarial de 35% aos trabalhadores.
A proposta da prefeitura de Dário Saad (Republicanos) e Wandão (PSB) é de reajustar apenas em 5,53% o salário dos servidores, enquanto aumenta em mais de 60% os salários dos secretários dos governos. A proposta de reajuste da prefeitura não cobre as perdas salarias dos últimos anos da categoria.
Descaso da Prefeitura
Insatisfeita com as suas condições de trabalho, com a má administração da prefeitura e com a conivência do sindicato, a categoria rejeitou a proposta oferecida pelo prefeito e denunciou o descaso com os servidores da cidade.
Além de negar a proposta de 35% de reajuste salarial, a gestão de Dario Saad (Republicanos) ignorou as demandas apresentadas pelos presentes na assembleia, como: de equiparação do vale nutricional ao vale alimentação para aposentados, a implementação de Cargos, Carreiras e Vencimentos e a melhoria do Bônus da educação.
Erick Padovan, militante do MLC e servidor de Campinas afirma: “as perdas salariais vem desde o anos 2000 e os trabalhadores ainda não viram essas perdas serem repostas. Temos passado em dezenas de bases e conversado com centenas de servidores, a categoria está organizada para lutar pelos seus direitos”
Vale lembrar que a atual gestão da prefeitura tem aumentado ainda mais o gasto do dinheiro público com empresas terceirizadas, como é o caso da recepção das UBS que passaram a ser de responsabilidade da Região Metropolitana
Servidores em Luta
Ao mesmo tempo, a atual gestão do sindicato, STMC, filiada no PSB, partido de Wandão e do antigo prefeito Jonas Donizette, se nega a lutar. Novamente, convocaram uma assembleia à portas fechadas, chamada em horário de trabalho da maioria dos servidores, sem ampla divulgação e num local insalubre e inviável de alocar uma categoria com mais de 26.000 pessoas.
Mesmo com a tentativa de boicote, diversos servidores compareceram ao paço e posteriormente na assembleia, paralisando locais de trabalho e exigindo a luta.
“O sindicato não tem feito as eleições dos delegados de base, isso prejudica muito a participação do servidor nas atividades sindicais, o que é um direito. O sentimentos dos trabalhadores é de muita revolta e frustração com o sindicato. Temos nos organizado para retomar nossa Entidade para a luta como a categoria exige” conclui Erick.
O Movimento Luta de Classes esteve presente e denunciou a precarização do serviço público de Campinas por parte da Administração da cidade, completamente alinhada com o governador fascista Tarcísio de Freitas (Republicanos).
Os servidores ainda citaram os exemplos de mobilização espalhados pelo estado de São Paulo, como a greve dos servidores de Jaguariúna, Vinhedo, Praia Grande e da Capital, retomando que o povo organizado tem condições de superar tamanha precarização e desmonte do serviço público.
A necessidade de aprofundar as mobilizações entre a categoria é uma tarefa urgente, apenas encenações do sindicato no balcão da prefeitura não comove os servidores, que querem cada vez mais retomar sua gigantesca história de luta.
Somente a união da classe trabalhadora é capaz de pôr fim à mesma política de sempre, de manutenção dos interesses da burguesia.
Myrian Villalba, 45 anos, faz parte de uma família paraguaia, de origem humilde, camponesa, e que, há algumas décadas organiza o povo de seu país para lutar por uma pátria livre da opressão capitalista. Devido a isso, em 2020, sua filha (Lilian) e uma de suas sobrinhas (María Carmen) foram mortas numa emboscada de forças policiais e capangas dos latifundiários. Sua outra sobrinha (Elizabeth – Lichita) foi sequestrada e permanece desaparecida desde então.
Três companheiras militantes (Carmen e Laura Villalba e Francisca Andino) estão, atualmente, num presídio de segurança máxima, que mais se parece com um campo de concentração nazista devido às condições de crueldade e tortura permanentes. Uma campanha internacional de solidariedade está em andamento, e também A Verdade vem se somando a esses esforços.
Rafael Freire | Redação
A Verdade – Qual é, hoje, a situação política e econômica no Paraguai? Em que condições se desenvolve a luta das classes no país?
Miryan Villalba – Bem, o Paraguai é um país que tem um pouco mais de 6 milhões de habitantes, além de outros milhões fora do país, como na Argentina e na Espanha. A maior parte dos trabalhos é do tipo subemprego e existem muitos desempregados. As universidades normalmente são privadas porque as públicas são apenas quatro a nível nacional. Então a população mais jovem se vê obrigada a imigrar para se sustentar ou para seguir seus estudos. Cerca de 80% das terras estão em mãos de 2% da população.
No governo segue o Partido Colorado. Estamos falando de um partido que nasce um pouco antes da ditadura de Alfredo Stroessner, que esteve no poder por 35 anos [1954 – 1989]. Só que houve um pequeno recesso, com a vitória do Monsenhor Fernando Lugo, mas que foi rapidamente destituído por um julgamento político. Então, estamos falando de um país muito rico em recursos naturais, mas extremamente pobre, por falta de educação, falta de saúde, falta de emprego, de oportunidades para a população.
Esse é atualmente o Paraguai. Mas lendo os relatórios ou as comunicações que fazem os meios de imprensa, parece um país próspero. Por que razão isso? Porque é um país onde está muito enraizado o cultivo da monocultura da soja, do girassol, a pecuária. Estamos falando de grandes extensões de terra que estão destinadas à pecuária, grandes extensões de terra para a monocultura, para o cultivo de sementes transgênicas. E tudo isso, obviamente, não contribui para que cresça a economia no país, mas sim apenas para crescer as contas desses grandes proprietários de terras, contas que estão no exterior.
E a outra grave doença que atravessa o Paraguai é a corrupção. A corrupção está muito enraizada em todas as instituições, que, obviamente, funcionam como foi estipulado pelo ditador Alfredo Stroessner. Todas as instituições funcionam com o mesmo estilo.
Também não podemos esquecer o narcotráfico. Toda a política oficial é financiada pelo narcotráfico. Estamos falando, por exemplo, do ex-presidente Horácio Cartes, que dirigia os três poderes do Estado. De fato, todos, não somente o Partido Colorado, mas também o Partido Liberal e todos que possuem um cargo, tanto no Poder Legislativo quanto no Executivo, ou em outras instituições, são financiados diretamente pelo narcotráfico.
Nesse contexto, que ações o movimento social, os partidos políticos, o Exército do Povo Paraguaio têm desenvolvido contra essa situação?
Em relação aos partidos políticos, como já disse, se conformam com ocupar um cargo, não há muita oposição. Uma oposição verdadeira não existe. Isso se pode ver perfeitamente lendo os meios de comunicação hegemônicos.
Em relação às organizações camponesas, estão muito atacadas. Como já disse, todas as instituições têm muito enraizado o gerenciamento estabelecido pela ditadura. Essas instituições não registram as denúncias. Por exemplo, há casos de dirigentes camponeses que foram assassinados e há também muitos outros camponeses assassinados por se oporem ao cultivo de transgênicos, aos despejos violentos, às ocupações por parte dos fazendeiros de grandes extensões de terra, que, legalmente, deveriam estar à disposição dos camponeses, que são os verdadeiros sujeitos da reforma agrária.
Em relação ao Exército do Povo Paraguaio, esta é uma organização marxista-leninista, que nasceu em 2008, justamente em uma zona rural, abrangendo o departamento de Conceição, São Pedro e outros. Nasceu da necessidade de enfrentar os assassinatos, as execuções de camponeses, os despejos violentos, formada por jovens que sonhavam com um Paraguai melhor.
E essa situação foi justamente o motivo pelo qual nossa família está passando por uma perseguição de mais de 20 anos. Tenho uma irmã que está privada de liberdade há mais de 20 anos, presa com sentença cumprida, que é Carmen Villalba.
Ela, em seu início de militância, fez parte do movimento de esquerda e do Partido Pátria Livre. Este partido praticamente foi aniquilado pelo governo. Desse processo, nasceu o Exército do Povo Paraguaio, e que teve em seu comando meu irmão mais novo, Osvaldo Villalba, morto em outubro de 2022, em um enfrentamento com forças policiais.
CARMEN VILLALBA. Transferência ilegal para outro presídio. Foto: Reprodução
Qual é a situação de Carmen e dos outros presos políticos?
Carmen [51 anos] e Laura Villalba [40 anos] e Francisca Andino [65 anos], além de outros tantos, como Rubem Villalba, estão nessa condição de presos políticos. As três companheiras foram arbitrariamente transferidas, em 12 de outubro de 2024, para o Presídio de Segurança Máxima de Minga Guazú. Nós o chamamos de Guantánamo Paraguaio, pelo fato de que é uma cópia fiel do presídio estadunidense em Cuba.
Foi uma transferência arbitrária, sem nenhum tipo de explicação nem razão. Pelo Código de Execução Penal, as três companheiras estudavam, trabalhavam, tinham uma conduta impecável, ou seja, não havia justificativa de indisciplina para a transferência. Na verdade, foram as primeiras mulheres que se instalaram nesse presídio de segurança máxima, que estava destinado para albergar pessoas de sexo masculino. Ou seja, estão numa parte do presídio masculino, isoladas, incomunicáveis 24 horas, em uma cela de dois metros por um e meio.
Na cela só tem uma cama de cimento, um colchão e uma latrina, além de uma torneira, que não é própria para consumo porque a água é muito salgada. As companheiras não têm energia elétrica, nem nenhum tipo de outros equipamentos que lhes possam ser úteis. Elas usavam essa torneira para abrandar o calor de 45 graus do Paraguai, porque não havia outro modo, e para se higienizar, mas isso também foi cortado. Já as noites, são muito frias. Ou seja, é um ambiente preparado para torturar as companheiras durante 24 horas. E outra coisa: elas sempre denunciam que estão passando fome e sede!
Por tudo isso, a campanha internacional em solidariedade à família Villalba mobilizou companheiros e companheiras para irem até o presídio para levar alimentos e água para que as companheiras possam consumi-los. Mas isso chega até o presídio, é recebido por eles mesmos, e não chegava até as companheiras, ficava na metade do caminho. No presídio, a comida é de má qualidade e muito pouca.
Esses fatos foram denunciados, e o advogado Salvador Sánchez, que defende as três companheiras desde sua transferência a esse presídio, solicitou Habeas Corpus, que foram rejeitados ou ignorados. Recentemente, foi rejeitado o pedido de transferência para Francisca Andino, uma pessoa com 65 anos, diabetes e outros tipos de doenças. Ela está tendo muitas complicações nesse lugar de reclusão e, por razões humanitárias, foi solicitado a transferência para um presídio comum, mas o governo a rejeitou, alegando bom estado de saúde.
Já Carmen é asmática e está com muita crise porque é um lugar sem ventilação, sem janela, sem absolutamente nada.
Não é possível visitá-las?
Essa é outra questão importante. No presídio de segurança máxima só permitem a entrada de familiares diretos, uma pessoa a cada 15 dias. Como, atualmente, estamos com toda a família em refúgio, não temos mais familiares no Paraguai. Por essa razão, com muita insistência e com muitos pedidos, conseguimos que organizações de direitos humanos e organizações sociais possam entrar. O que ainda estamos sustentando, mas eles querem cortar, querem que as companheiras fiquem incomunicáveis o tempo todo. Mas precisamos nos comunicar com elas para poder escutar suas reclamações, seus pedidos. Ultimamente, até o advogado estava tendo dificuldades para entrar, pois pediam agendamento com pelo menos 15 dias de antecedência para visitar as companheiras.
“Eu acho que a única coisa que nos vai salvar é a solidariedade internacional.”
Como tem se desenvolvido a mobilização internacionalista pelo aparecimento da menina Lichita?
Vou falar sobre os três casos: minha filha, Lilian Mariana, uma menina de 11 anos, assim como a filha de Laura, María Carmen. Lichita é filha de Carmen Villalba. Tanto em relação ao duplo infanticídio [Lilian e María Carmen] quanto ao desaparecimento forçado de Lichita, no Paraguai, não se fez absolutamente nada. Tudo continua sem investigação. Não existe pessoa processada nesse caso, salvo Laura Villalba, mãe de María Carmen, que foi condenada a 31 anos de prisão.
Ou seja, em princípio, a acusam de violação do dever de cuidado e educação. Acusam de ser uma mãe ruim e que, por essa razão, os policiais e os militares capturam, torturam e executam a menina. Nesse primeiro caso, a condenaram a três anos. E, como é pouco, armaram uma acusação por terrorismo de Estado e a condenam a mais 25 anos e seis anos em regime de segurança máxima. Esse julgamento foi, na verdade, abafado, foi exagerado, um escárnio por parte da “Justiça” do Paraguai porque as testemunhas que declararam contra Laura foram os mesmos que assassinaram nossas filhas e fizeram desaparecer Lichita.
O caso de Lichita corre a mesma sorte. No Paraguai não se fez nenhuma investigação. O caso está aberto como um caso de tráfico, no qual a acusada sou eu, pois eu tinha a guarda de Lichita. Ou seja, desapareceram forçadamente com ela, o caso não foi investigado no Paraguai, não existe nenhuma causa e é o que estamos lutando para que mudem de caráter. É o que já recomendou, por três vezes, a Comissão Interamericana de Direitos Humanos.
No caso do duplo infanticídio, nós conseguimos, neste ano, com o Comitê para a Infância, em Genebra, que emitiu uma resolução responsabilizando o Estado do Paraguai por esses crimes. E também o fez, antes, a organização Human Rights Watch, mas o Paraguai, como se fosse absolutamente nada, nada fez. Mesmo assim, isso não nos debilita, não nos desencoraja, ao contrário, nos fortalece para continuar lutando, para continuar denunciando tanto o duplo infanticídio quanto o desaparecimento forçado de Lichita.
Atualmente, toda a nossa energia, todas as nossas atividades, estamos colocando nas três companheiras que estão em privação de liberdade, porque estão em uma situação de extrema gravidade. Eles estão matando nossas companheiras a conta-gotas.
Mesmo assim, em 2024, por exemplo, no dia 02 de setembro e no dia 30 de novembro, realizamos mobilização para ambos os casos, tanto o duplo infanticídio quanto a desaparição forçada. E temos uma campanha internacional de solidariedade com a família Villalba, que está bastante fortalecida, muito ampliada.
Estão se somando organizações do Brasil, temos organizações do Uruguai e do próprio Paraguai, apesar do medo, pois a perseguição é implacável lá. É muito fácil inventar acusações falsas no Paraguai e isso também impõe obstáculos. Também estamos vendo a possibilidade de denunciar também nos países europeus e outros países para que realmente se conheça essa situação, para que se rompa esse cerco midiático, para que caia a máscara do governo do Paraguai, que quer vender a ideia de que se trata de um país democrático, um país respeitoso dos direitos humanos.
Estamos falando de duplo infanticídio. Estamos falando de desaparecimento forçado. Estamos falando de um presídio de segurança máxima que não reúne os padrões internacionais para albergar pessoas privadas de liberdade.
Qual foi a situação que vocês enfrentaram na Argentina? E como estão agora?
Nós estávamos vivendo na Argentina desde 2007, em Misiones [fronteira com o Brasil], mas depois do duplo infanticídio, assim como do desaparecimento forçado, nos vimos obrigadas a ir a Buenos Aires e solicitar refúgio político, coisa que o governo anterior imediatamente nos concedeu. Mas, em 12 de abril de 2024, cerca de 70 homens fortemente armados invadiram nossa casa, apontando armas para nossos filhos. Somos cinco mulheres adultas (incluindo a minha mãe, de 80 anos) e 12 menores de idade, meninos, meninas e adolescentes.
Nesse dia, detiveram tanto a mim, minha irmã e uma sobrinha. A ordem de captura estava em nome de minha mãe, de 80 anos, sob a acusação de terrorismo armado. Nós já com refúgio estabelecido em Buenos Aires, nos armam uma denúncia no Paraguai e pedem nossa extradição. Obviamente, o governo de Javier Milei [presidente da Argentina] e de Patrícia Bullrich [ministra de Justiça], disse que iriam nos extraditar. Eles tentaram fazer isso, mas, ao nos deterem e notarem que contávamos com refúgio na Argentina, não teve outra opção senão ordenar nossa liberdade.
Mas já não nos sentíamos seguras na Argentina, porque eles estavam por todos os lados, inclusive viajaram para o Paraguai fazendo lobby para que nos transferissem, para que nos extraditassem. Há um ano, em maio de 2024, tivemos que abandonar a Argentina.
Há um mês, obtivemos oficialmente refúgio na Venezuela. E aqui estamos toda a família: os 12 meninos, meninas e adolescentes e as cinco mulheres adultas, tentando levar uma vida normal, onde os meninos possam seguir seus estudos, coisas que perderam no ano passado. E, bom, sonhar com um lar longe da nossa pátria, mas, pelo menos, onde contamos com segurança jurídica, que é o que nos está concedendo o Governo da Venezuela.
E, para encerrar, com um histórico de luta internacionalista tão grande, de resistência que sua família e sua organização têm desenvolvido, qual é a mensagem que deixa para os leitores de A Verdade?
Eu acho que a única coisa que nos vai salvar é a solidariedade internacional. E os meios de imprensa alternativos cumprem uma função muito importante de quebrar esse cerco. Dizer que vale a pena nos solidarizarmos com os países que estão lutando, vale a pena abraçá-los, porque é o que vai realmente nos salvar de toda essa repressão capitalista, imperialista e podemos falar de uma nova forma de ditadura. Estamos falando, novamente, de um Plano Condor de aniquilamento das organizações, dos dirigentes, e a solidariedade internacional me parece o primordial nesses casos. Estou me ferindo à própria carne, pois não podemos dar assistência às companheiras que estão privadas de liberdade, e os companheiros e companheiras dos movimentos internacionalistas é que estão fazendo esse trabalho por nós. Estão sendo nossos braços para poder abraçar as companheiras. O governo fascista, patriarcal, misógino do Paraguai realmente está tentando, a todo custo isolá-las, mas não vão conseguir.
Quero agradecer ao jornal A Verdade por esse espaço. Muito obrigada por dar-nos espaço nessa mídia alternativa, que é muito importante para romper o bloqueio midiático e para ampliar e aprofundar toda a campanha porque as três companheiras realmente precisam muito da solidariedade internacional.
Entrevista publicada na edição n° 313 do Jornal A Verdade.
Para tentar sair da crise, países imperialistas intensificam a disputa por mercados e zonas de influência no mundo, as custas da morte de milhares e da fome de milhões de pessoas.
Rafael Freire | Redação
EDITORIAL – A crise econômica que afeta hoje grande parte do mundo não surgiu por acaso. Ela é resultado direto da lógica das grandes potências capitalistas, que, ao mesmo tempo em que produzem mercadorias de forma desordenada, empobrecem a classe trabalhadora.
Os próprios operários (sejam os que vivem nos países ricos sejam os que vivem nos países pobres) não conseguem comprar as mercadorias que eles mesmos produzem. Os salários são miseráveis, a renda dos trabalhadores subempregados ou desempregados mal dá para pagar o alto custo dos alimentos, e ainda é preciso pagar aluguel, gastar com transporte e vestimentas, comprar remédios, pagar pela energia, pela água, etc.
Para tentar sair dessa crise, essas mesmas potências intensificam a disputa por mercados e zonas de influência ao redor do planeta, mesmo que à custa da morte de milhares e da fome de milhões de pessoas. Trata-se de uma corrida por lucros que avança por meio da retirada de direitos dos trabalhadores e do agravamento da miséria. Em países como o Brasil, os efeitos são profundos: fome, desemprego e a ameaça constante ao direito de viver.
“Guerra comercial”
Na manhã do dia 12 de maio, EUA e China anunciaram um acordo de 90 dias sobre as “tarifas extras” que um país impôs aos produtos do outro, após a ofensiva do presidente Donald Trump. As tarifas sobre produtos chineses cairão de 145% para 30%, enquanto as tarifas das importações norte-americanas serão reduzidasde 125% para 10%.
Enquanto os EUA aumentam as tarifas para tentar competir com as mercadorias chinesas e demonstrar força, a burguesia chinesa consegue vender produtos a preços muito mais baixos graças aos subsídios estatais e à superexploração da força de trabalho do proletariado chinês e de outros países asiáticos, como Malásia, Tailândia, Camboja e Vietnã. Alguns “intelectuais de esquerda” confundem isso com o sistema socialista, mas não é tão difícil assim ver a floresta por trás das árvores.
Vejamos o que escreveu Eleanor Marx em artigo publicado poucos meses após a morte de seu pai, Karl Marx, em 1883, no qual ela resume alguns dos principais pensamentos do fundador do socialismo científico:
“Suponha que as trocas não foram iguais, que todos os vendedores sejam capazes de vender seus artigos 10% acima de seu valor real. Então, o que todos eles ganham enquanto vendedores, eles perdem de novo enquanto compradores. Novamente, permita que todo comprador compre 10% abaixo do valor do artigo adquirido. O que ele ganha enquanto comprador abandona novamente suas mãos assim que ele se tornar vendedor.
Suponha, finalmente, que os lucros sejam resultado de trapaças. Eu te vendo uma tonelada de ferro por 5 libras, enquanto seu valor não ultrapassa mais do que 3 libras. Neste caso, eu sou 2 libras mais rico, e você é 2 libras mais pobre. Antes da negociação, você possuía 5 libras em dinheiro e eu possuía 3 libras em valor de ferro – juntos, 8 libras. Após a negociação você possui 3 libras em ferro, e eu, 5 libras em ouro – juntos, mais uma vez, 8 libras. O valor trocou de mãos, porém, este não foi criado, e lucros, para serem reais, devem ser valor recém-criado.”
Sendo assim, fica evidenteque toda essa movimentação entre as duas maiores potências econômicas do mundo faz parte do jogo de especulações típico da fase imperialista do sistema capitalista, a fase do capitalismo parasitário, em que este já não consegue mais produzir e vender em ritmo crescente e em cujo centro se encontra o capital financeiro e o mercado de ações nas Bolsas de Valores. Isso não produz novas riquezas, apenas tira capital das mãos de uns capitalistas para colocá-lo nas mãos de outros.
Recentemente, EUA e China intensificaram a chamada “guerra comercial”, com aumentos diários nas tarifas extras sobre a importação de produtos de ambos os lados. O que houve de concreto, num período 40 dias, foi que cerca de US$ 600 bilhões deixaram de ser negociados, gerando uma ameaça real de disparada na inflação e nas demissões na população norte-americana, caso o impasse se prolongasse.
No total, 185 países foram taxados pelo Governo Trump com porcentagens entre 10% (caso do Brasil) e 50%. Ainda não está definido como ficarão essas taxas extras a partir de agora. Fato é que, na briga entre os capitalistas, quem paga é a classe trabalhadora, como afirma documento da CIPOML, de outubro de 2024:
“As políticas protecionistas, de restrição monetária e de ‘austeridade’ aplicadas pelos Estados capitalistas estão acumulando os elementos de uma futura crise econômica, causando aumento do desemprego e diminuição dos investimentos, com taxas de inflação, especialmente nos preços de energia e alimentos.
O comércio de matérias-primas, especialmente alimentos, prejudica os países dependentes e seus povos, e o fardo da dívida recai sobre os trabalhadores. O abismo entre renda e riqueza está aumentando; os monopólios aumentam enormemente seus lucros, enquanto os salários e rendimentos reais dos estratos mais pobres e desfavorecidos da sociedade diminuem. Todos esses são sintomas de uma crise cada vez mais profunda, que levou os imperialistas até mesmo a realizar a guerra na Ucrânia [e o genocídio na Palestina, como demonstra o texto abaixo].”
E, mais à frente:
“A classe operária e os povos não podem confiar em uma potência imperialista em sua luta contra outra; eles devem intensificar a luta contra todo o imperialismo. A tese do chamado ‘multipolarismo’, que afirma que existem países imperialistas beligerantes e agressivos e países imperialistas progressistas, nos quais os povos podem confiar para a libertação nacional, é falsa. Não basta lutar apenas contra o odiado imperialismo norte-americano, porque, mesmo que ele seja enfraquecido ou mesmo destruído, outros imperialistas continuarão a saquear e oprimir os povos.” (Conferência Internacional de Partidos e Organizações Marxistas-Leninistas – CIPOML)
Dependência econômica
No caso do Brasil, além de não ter sido revogada a tarifa extra de 10% sobre os produtos importados pelos EUA, essa disputa interimperialista aumenta a dependência do país do modelo de exportação que perdura há mais de 500 anos.
Por um lado, o nosso país exportará mais produtos agrícolas e pouco industrializados para atender à demanda dos países que, antes, trocavam produtos entre si. Economistas burgueses dirão que isso é bom, mas, na realidade, isso agravará a fome no Brasil. Com mais alimentos sendo exportados e menos disponíveis no mercado interno, os preços aqui subirão ainda mais, e teremos que pagar mais caro pela comida.
Por outro lado, caso os produtos industrializados desses países sejam transferidos para o Brasil, isso afetará diretamente a produção industrial nacional, que diminuirá ainda mais, gerando desemprego e acelerando o processo de desindustrialização do país.
Frequentemente, o Governo Federal divulga “resultados positivos” da economia, falando em aumento de renda, mas, ao que parece, esquece que, mês a mês, a inflação abocanha uma parte cada vez maior da renda das famílias mais pobres. Cerca de 80% das famílias estão endividadas e hoje não se compra mais no supermercado o que se comprava há semanas atrás.
Só a luta organizada do povo no Brasil e no mundo, da classe operária, da juventude e das mulheres pode deter a política de guerras imperialistas e de fome gerada pelo apodrecido sistema capitalista e apontar para a construção do poder popular e do socialismo.
Trabalhadores da Argentina organizam terceira paralisação nacional contra as políticas liberais de Javier Milei. Situação econômica da Argentina agrava as condições de vida
Fernando Alves | Redação
Nos dias 9 e 10 de abril, trabalhadores e trabalhadoras da Argentina realizaram a terceira paralisação nacional contra o pacote de medidas econômicas do governo do presidente fascista Javier Milei.
A paralisação contou com amplo apoio popular e reuniu diversos setores econômicos e categorias de trabalhadores. A unidade das centrais sindicais e sindicatos combativos conseguiu a adesão de 90% de trabalhadores do setor industrial em algumas regiões do país. Nos ramos dos transportes (aéreo, portuário, ferroviário, urbano de passageiros) e do comércio, a adesão foi total.
Para fortalecer a mobilização foram realizados piquetes e atos conjuntos, mais conhecidos como multisetoriais. Também ocorreram importantes assembleias operárias, como a dos petroleiros de Neuquén. As mobilizações chegaram até aos trabalhadores da economia informal e não faltou apoio aos trabalhadores aposentados.
Avançou a luta contra as políticas do governo. Em resposta, Javier Milei promoveu uma grande repressão no país.
Empréstimo do FMI
Com um “crédito” de US$ 200 milhões, o Fundo Monetário Internacional (FMI) retoma as negociações do pagamento da dívida externa da Argentina. Essa velha política de empréstimo estimula o crescimento da dívida Argentina, aumenta a dependência econômica do país aos banqueiros internacionais e tenta ajudar Milei a sair do atoleiro que esse governo se meteu.
É a farra dos banqueiros, já que, além do FMI, o Banco Mundial, o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) e outros organismos financeiros internacionais estão de olho nos setores estratégicos da economia nacional. Num passe de mágica, a dívida Argentina cresceu em mais US$ 40 bilhões, aumentando ainda mais a dependência aos países imperialistas.
Com o agravamento da crise do sistema capitalista mundial, impulsionada pelas medidas de taxação do governo de Donald Trump nos EUA, o Governo Milei escancara sua submissão e a entrega das riquezas produzidas pelas classes trabalhadoras do país aos abutres da especulação internacional.
Em troca desse “generoso empréstimo”, o FMI impôs a imediata desvalorização do peso argentino em 30%, determinou o aumento do severo ajuste fiscal dos alimentos, das tarifas dos transportes e dos serviços, a privatização das empresas estatais estratégicas, a implantação da reforma trabalhista e a flexibilização total do regime de trabalho, a privatização da água e um severo ajuste fiscal.
Outra exigência dos banqueiros é a Reforma da Previdência, com o aumento do tempo de trabalho de 60 para 65 anos para as mulheres e de 65 para 68/70 anos para os homens, além do aumento do tempo de contribuição de 30 para 35 anos.
Diante dessa situação, os protestos crescentes nas ruas de todo o país exigem “Fora daqui o FMI!” e “Fora o FMI da Argentina!”.
A China também vem negociando com o Governo Milei várias medidas, como prolongar o crédito swap e um empréstimo no montante de US$ 5 bilhões. Porém, ainda não se sabe quais são as exigências de Xi Jinping para sacrificar o povo argentino.
Mesmo com a repressão, a classe trabalhadora da Argentina vem se organizando e está unida na luta em defesa de seus direitos e pela soberania nacional, exigindo a imediata suspensão do pagamento dos juros da dívida externa. As jornadas e paralisações nacionais continuarão até a derrubada de toda a política nefasta de Javier Milei e a derrocada de seu governo reacionário.
As lutas e a resistência do povo argentino são importantes ensinamentos para os trabalhadores e trabalhadoras da América Latina e do mundo.
O Papa Francisco morreu no amanhecer do último dia 21 de abril, aos 88 anos de idade. Deixou um legado de luta em favor dos pobres e desfavorecidos.
Edival Nunes Cajá*
O Papa Francisco morreu no amanhecer do último dia 21 de abril, aos 88 anos de idade (1936-2025), vítima de um acidente vascular cerebral (AVC) e insuficiência cardíaca. Jorge Mario Bergoglio (seu nome de batismo), era argentino e membro da Congregação dos Jesuítas. Foi sepultado fora dos muros do Vaticano, na Basílica de Santa Maria Maggiore, em Roma, no dia 26 de abril.
O primeiro papa filho das Américas encerrou sua missão depois de “combater o bom combate” contra as forças conservadoras e reacionárias incrustadas no Estado do Vaticano e nos demais Estados opressores do mundo. Combateu as ditaduras militares, as torturas e as mazelas do sistema capitalista, como a fome e as guerras. Defendeu a prática dos direitos humanos e acolheu os imigrantes. Morreu lutando para mudar a Igreja e o mundo.
“Todas as nações têm o direito de existir em paz e em segurança e seus territórios não devem ser atacados ou invadidos. A soberania deve ser respeitada e garantida pelo diálogo e pela paz, não pelo ódio e pela guerra.” Assim, o Papa apelou por diversas vezes, defendendo o imediato cessar-fogo, o fim do genocídio do povo palestino, praticado pelos governos nazi-terroristas de Israel e dos EUA, e da guerra da Ucrânia, onde a Rússia ocupa parte do seu território, confrontando-se com tropas da Ucrânia e da Otan, com a sustentação bélica e financeira dos EUA.
O Papa também defendeu a Teologia da Libertação e suas comunidades eclesiais de base perseguidas pelas ditaduras da América Latina e diversos governos dos EUA. Com firmeza, o Papa Francisco assumiu a luta em favor dos povos deslocados pelas guerras e pela fome, que se tornaram legiões de imigrantes na Europa. Combateu, ao mesmo tempo, a devastação do meio ambiente, do ecossistema que ameaça a vida em todo o planeta, unicamente para atender a insaciável sede de lucro dos grandes capitalistas proprietários dos conglomerados imperialistas da mineração, da indústria e do agronegócio.
O único papa que teve a coragem e a franqueza de se autocriticar: “Eu também cometi meus erros, rezem por mim, eu também preciso de penitência”, disse Francisco ao conversar com os presos da maior e mais violenta penitenciária da Bolívia, denominada Palmasola, em Santa Cruz de la Sierra (10/07/2015).
O Papa, ao longo de sua gestão, criticou fortemente a Igrejapela sua cumplicidade com a escravização dos povos africanos e indígenas nas Américas, como também os crimes de pedofilia de membros da Igreja, o desvio do seu caminho, que, desde o ano de 312 d.C., no reinado do imperador romano Constantino, deixou de estar do lado dos pobres, que têm sede e fome de justiça, para ficar do lado dos colonizadores e capitalistas exploradores dos povos originários e dos trabalhadores.
Por todos esses gravíssimos pecados, o Papa Francisco pediu perdão a Deus e autorizou a bênção da Igreja à união de casais homoafetivos, o batismo de seus filhos e condenou a homofobia, o machismo e a misoginia.
“E não havia nenhuma pessoa necessitada entre eles”
Quando um cardeal dos EUA acusou Francisco de comunista, um jornalista argentino o indagou, e o Papa respondeu, ironizando o rótulo: “Minha carteira de identidade é Mateus 25. Leia Mateus 25 e veja se quem escreveu não era comunista. ‘Tive fome e me deste de comer, tive sede e me deste de beber, estive nu e me vestiste’. Essa é a regra de conduta”, afirmou.
Numa entrevista publicada no jornal La Republica (Itália, 11/11/2016), ao ser questionado sobre uma possível sociedade de inspiração marxista, Francisco respondeu: “São os comunistas os que pensam como os cristãos. Cristo falou de uma sociedade onde os pobres, os frágeis e os excluídos sejam os que decidam. Não os demagogos, mas o povo”.
“Não havia nenhum necessitado entre eles, porque os que possuíam terras ou casas, vendendo-as, traziam os valores correspondentes e os depositavam aos pés dos apóstolos; então se distribuía a cada um conforme às suas necessidades.” (Atos dos Apóstolos, 4:34-35)
De fato, no Evangelho de Mateus, como também no de Marcos, e, principalmente, nos Atos dos Apóstolos, livro do Novo Testamento da Bíblia católica, há vários relatos da saga do cristianismo primitivo que retratam bem o longevo esforço de parte da humanidade, com experiências concretas de tentativas de construção de uma nova sociedade, a sociedade dos iguais, a sociedade comunista, mesmo que de forma utópica, não científica, como que formando, assim, a infância do movimento comunista.
Para compreendermos melhor o valor dessa experiência histórica, da luta de classes daquela época, recomendamos o estudo de um texto de Friedrich Engels. Trata-se de sua Introdução (datada de 06 de março de 1895) ao livro As lutas de classes na França de 1848 a 1850, obra sociológica clássica de Karl Marx.
Também se pronunciou sobre esta temática tão importante um dos mais destacados apóstolos desta causa, a causa do comunismo, o companheiro Ernesto Che Guevara: “Quando os cristãos se atreverem a dar um testemunho revolucionário integral, a revolução latino-americana será invencível, uma vez que, até agora, os cristãos permitiram que sua doutrina fosse instrumentalizada pelos reacionários. Os cristãos devem optar definitivamente pela revolução e muito especialmente em nosso continente, onde é tão importante a fé cristã na massa popular. Mas os cristãos não podem pretender, na luta revolucionária, impor seus próprios dogmas, nem fazer proselitismo para suas igrejas; devem chegar sem a pretensão de evangelizar os marxistas e sem a covardia de ocultar sua fé para assemelhar-se a eles”.
A busca da coerência entre teoria e prática
Não foi à toa que o Papa Francisco recusou morar no luxuoso apartamento do palácio do Vaticano para morar nos simples apartamentos da Casa Santa Marta, onde moram os bispos que trabalham no Vaticano, e determinou a abertura de uma grande área para atender às necessidades dos sem-teto, moradores em situação de rua da cidade de Roma, com banheiros, barbearia, máquina de lavar e secar, fogão, café da manhã e dormitório para até 30 pessoas.
Portanto, o grande legado do primeiro Papa latino-americano é da maior importância para os explorados e oprimidos da Terra, pois ele lutou coerentemente para retomar as pegadas de Jesus de Nazaré, do Movimento dos primeiros cristãos; lutou, quase solitariamente, para a reformulação da arcaica e autoritária estrutura da Igreja, que ainda perdura.
Que os cardeais encarregados da elevada responsabilidade de eleger o novo papa ouçam os clamores de milhares de crianças órfãs da Faixa de Gaza, dos milhões de imigrantes da terra; esperamos que os senhores cardeais se compadeçam dos condenados da terra à fome, pois o sistema capitalista mata atualmente, no mundo, 11 seres humanos de fome por minuto, segundo estudos da Oxfam.
Diante da morte do Papa Francisco, enormes pressões das várias instituições das potências imperialistas pesam enormemente sobre os membros do próximo Conclave de cardeais que elegerá o novo Papa da Igreja Católica. Porém, dialeticamente, vossas eminências reverendíssimas hão de receber também o impacto da santa pressão que parte de milhares de Comunidades Eclesiais Bases e das forças progressistas de todo o mundo. Muito maior foi a pressão dos açoites das instituições do Império Romano e seus centuriões sobre Jesus e seus seguidores para que eles abandonassem o projeto histórico da salvação dos pobres, a construção de um reino de justiça, amor e igualdade para todos.
É verdade que se pagou o mais elevado preço, porém, a ressurreição venceu a morte. A causa da justiça ficou mais forte e mais elevada, com o rubro estandarte da causa agora tinto de sangue de um homem santificado pelo povo, pela força e beleza da causa, assumida radicalmente, em favor da emancipação da humanidade.
Foi a profunda convicção e fé de Jesus e de seu coeso grupo de fervorosos revolucionários, de dedicação integral ao sagrado projeto de construção do novo reino de justiça e fraternidade entre os homens e mulheres da terra, que os fizeram vencer as inúmeras tentações de fuga, ameaças de prisões e o medo da morte.
Assim, conquistaram a imortalidade de seu mestre por meio do seu renascimento encarnado nos homens e mulheres organizadas no Movimento, dispostos a darem a sua própria vida pela sagrada causa que abraçaram: propagar a Boa Nova mundo afora aos cativos e explorados, até alcançar a libertação de toda a humanidade da tirania do império e do capital em todo o planeta.
Cristãos e comunistas devem dar-se as mãos pela causa
Na década de 1840, Karl Marx e Friedrich Engels, dois jovens talentosos, geniais, da Alemanha, que estudavam e pesquisavam a História da sociedade humana e da natureza, compreenderam que, para alcançar uma sociedade onde “todos tenham vida e vida em abundância”, não bastavam a oração e o apelo à compaixão. Por isso, criaram o materialismo dialético e histórico, a ciência social, descobriram a causa da pobreza e a possibilidade de acabar com ela e suas consequências.
Os dois jovens comunistas revolucionários lançaram, no dia 21 de fevereiro de 1848, na Inglaterra e na França, o Manifesto do Partido Comunista, com o programa para a libertação da classe trabalhadora da cidade e do campo, pelo caminho da luta de classes e da ciência histórica, a fim de alcançar o mais belo sonho que o homem já sonhou, o comunismo, que agora saiu do plano da utopia para o terreno da conquista científica e política, realizável somente como “obra da própria classe trabalhadora”.
Por isso, a necessidade histórica da construção do Partido Comunista Revolucionário (PCR) no Brasil, e em todos os países do mundo, assim como os cristãos buscaram levar a Boa Nova de uma sociedade sem explorados nem exploradores, o reino de Deus na Terra, para todos os países então conhecidos. “Ide por todo o mundo”, dissera o Mestre aos seus apóstolos.
O marxismo-leninismo concretiza isso, cimentado na mais profunda unidade entre seus membros e entre os Partidos irmãos, amigos e aliados, entre os quais consideramos os cristãos verdadeiros, numa ação arraigadamente ligada com a classe operária e as massas trabalhadoras da cidade e do campo. Somente levando à prática a consigna “Proletários de todos os países, uni-vos”, é possível vencer o sistema capitalista imperialista, a causa da pobreza, da miséria, do fascismo e das guerras.
Foi essa a razão que levou Manoel Lisboa de Moura a dedicar todas as suas energias e inteligência ao habilidoso trabalho de criação do PCR, em maio de 1966, mesmo sob a mira da ditadura militar fascista. Foi por isso que ele morreu, sob terríveis torturas, assim como Jesus de Nazaré no Gólgota, sem sequer murmurar, no terrível calvário do DOI-Codi do IV Exército Brasileiro, em Recife, no dia 04 de setembro de 1973, para que o Partido não morresse e continuasse trabalhando com os operários na sua organização pelo futuro comunista da humanidade.
Os verdadeiros cristãos, os que não aceitaram a transformação do Movimento de Jesus numa Igreja de apoio à opressão dos impérios e do capital, compreenderam que a luta de classes é o motor dessa transformação histórica e se engajaram na luta ombro a ombro com os comunistas revolucionários em diversos países, sem renunciar à sua fé. Essa união, como disse Che Guevara, torna invencível a luta revolucionária. No campo dos verdadeiros seguidores de Jesus de Nazaré se encontrava (com os limites inerentes ao cargo) o Papa Francisco, que agora fez sua passagem para a imortalidade.
*Edival Nunes Cajá é ex-preso político, sociólogo, presidente do Centro Cultural Manoel Lisboa e membro do Comitê Central do PCR
Matéria publicada na edição impressa nº 312 de A Verdade
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