UM JORNAL DOS TRABALHADORES NA LUTA PELO SOCIALISMO

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026
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Não à restrição da meia-entrada para estudantes!

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A luta pela meia-entrada nos eventos culturais e esportivos é uma luta histórica, onde milhares de pessoas ocuparam as ruas das principais cidades do Brasil para garantir o direito à cultura para a juventude. Durante a década de 1980, praticamente todos os estados implantaram essa conquista.

A juventude foi às ruas nos meses de junho e julho de 2013 reivindicar que a prioridade das verbas deve ser nas áreas sociais, ao invés de beneficiar os grandes empresários. Porém, no dia 05 de agosto, então, a presidente da República Dilma Rousseff sancionou a Lei nº 12.852, divulgada como Estatuto da Juventude, onde, no parágrafo 10 do artigo 23, restringe nosso acesso à meia-entrada nos eventos culturais e esportivos (cinema, shows, teatro, jogos de futebol, etc.): “§ 10. A concessão do benefício da meia-entrada de que trata o caput é limitada a 40% (quarenta por cento) do total de ingressos disponíveis para cada evento”.

Quem se beneficiará com essa lei?

É claro que não será a juventude, e sim os empresários do mundo da arte, que visam a aumentar seus milionários lucros. Para piorar, quando o estudante for comprar seu ingresso, a empresa poderá dizer que já vendeu a quota dos 40% destinados à meia, e não terá como comprovar esta informação.

A lei, que entrará em vigor em fevereiro de 2014, já recebeu muitas críticas de vários setores da sociedade, inclusive já ocorreram dezenas de atos e mobilizações contra a restrição à meia-entrada. Segundo as entidades representativas da juventude, as mobilizações deverão crescer contra a implementação da lei. A União da Juventude Rebelião (UJR) declarou que “impor o limite de 40% para a oferta de meia-entrada ataca uma conquista histórica da juventude e do movimento estudantil brasileiro”. Já o diretor da Federação Nacional dos Estudantes do Ensino Técnico (Fenet), João Paulo, também se manifestou contrário à restrição: “tenho certeza que com a coragem e a determinação da juventude na luta por seus direitos, como está sendo demonstrado nas ruas, vamos sim barrar esta restrição”.

Davi Lira, presidente da União dos Estudantes de Pernambuco (Uespe)

Falta de políticas públicas penaliza jovens

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JovensOs jovens na faixa etária de 10 a 24 anos ocupam cerca de 27% na pirâmide demográfica, ou seja, representam um grupo de grande relevância social. Mas as políticas instituídas no Brasil não abrangem as necessidades da juventude. Nos últimos dez anos, a mortalidade infantil foi reduzida, salvando 24 mil crianças, mas, no mesmo período, 80 mil adolescentes foram assassinados.

O Estatuto da Criança e do Adolescente prevê várias políticas para os jovens, mas sua aplicação não é ainda uma realidade. Entre os principais problemas da juventude estão a gravidez precoce na adolescência, o alcoolismo, o uso de drogas, a violência praticada pelo tráfico e pelo Estado, a falta de cuidados básicos na saúde.

Quanto a esta última questão, o Sistema Único de Saúde (SUS) nem de longe está preparado para atender os jovens. O cuidado, o diálogo e o respeito às individualidades e ao contexto sociocultural para a efetivação da educação em saúde acabam não existindo. Os profissionais que trabalham nas Unidades Básicas de Saúde (UBS), por exemplo, não possuem uma preparação específica voltada ao entendimento dos problemas que envolvem adolescentes, pois sua formação acadêmica e sua capacitação prática são deficitárias, fazendo com que questões simples não sejam resolvidas na base do sistema, sobrecarregando sua ponta.

A falta de uma infraestrutura mínima por parte das gestões públicas e o desconhecimento de parte dos profissionais no trato com a sexualidade e a reprodução deixam os adolescentes desassistidos, em especial as meninas, pois apenas informações sobre funcionamento do aparelho reprodutor e a prevenção a Doenças Sexualmente Transmissíveis (DSTs) não são suficientes para a conscientização de milhões de jovens, especialmente se falarmos de mulheres jovens e pobres, que, muitas vezes, estão mais expostas à violência sexual, à discriminação por sua condição social ou de gênero.

Tendo em vista a precariedade desse sistema em que vivemos, é indispensável a participação efetiva dos jovens na formulação das políticas públicas para que a opinião da juventude seja levada em conta e para que haja um real comprometimento de todos os envolvidos para a garantia do direito à saúde.

Thais Mátia, do Movimento de Mulheres Olga Benário e da UJR em MG

Juventude pula catracas na Central do Brasil

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aerjNo dia 29 de janeiro, centenas de pessoas se reuniram na Candelária, no Centro do Rio, para a manifestação contra o aumento das passagens. Organizado pelo Movimento Passe Livre (MPL-RJ), Associação dos Estudantes Secundaristas do Rio de Janeiro (Aerj) e pela União da Juventude Rebelião (UJR), a manifestação seguiu em direção à Central do Brasil, principal estação de trem urbano da cidade.

Devido a provocações por parte da PM fluminense, o ato foi tenso desde o início, inclusive com a prisão de uma conhecida figura nos protestos do Rio de Janeiro, o “Batman”, que é um manifestante que sempre vai aos atos vestido como o super-herói dos quadrinhos. Mas, ao chegar à Central, nem a PM nem ninguém segurou a revolta do povo contra o aumento das passagens. Os trabalhadores presentes na estação no momento se recusaram a pagar o preço absurdo da tarifa do trem e pularam as catracas.

Esse ato demonstra, mais uma vez, a indignação do povo carioca contra o aumento nos transportes públicos. Mas, além disso, essa manifestação coloca em pauta a resistência dos trabalhadores e da juventude do Rio aos diversos ataques contra seus direitos. Hoje, no Rio, para todo lado que se olhe vemos um povo em luta, seja na Favela Mangueira, contra as remoções da Copa; na Uruguaiana, com os camelôs enfrentando diariamente a Guarda Municipal, que lhes impede de tirar seu sustento; ou mesmo nas universidades Gama Filho e UniverCidade, onde estudantes e trabalhadores lutam pela federalização dessas instituições em falência.

Juliana Alves e Felipe Annunziata, militantes da UJR

Servidores lutam contra desmantelamento dos serviços públicos

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Durante a inauguração do Estádio Arena das Dunas, em Natal, Rio Grande do Norte, em 23 de janeiro, os sindicatos dos servidores públicos do Estado mostraram o descontentamento do povo com a presidente Dilma Rousseff e, em especial, com a governadora Rosalba Ciarline.

A passeata teve início às 15h, com uma caminhada do shopping Midway Mall, percorrendo a Av. Salgado Filho e terminando no Estádio Arena das Dunas. Centenas de pessoas revoltadas com o desrespeito da governadora Rosalba Ciarline ao povo potiguar, que construiu um dos estádios mais caro do país, enquanto corta verbas em todos os serviços essenciais, descumpre os planos de cargos e salários e mantém péssimas condições de trabalhos no serviço público.

As principais reinvindicações dos servidores foram: reposição salarial, cumprimento do plano de carreira, contratação de novos profissionais e condições de trabalho dignas.

A mobilização teve a participação do Sindicato dos Servidores Públicos Estaduais da Gestão Direta (SINSP), SINAI, SINDSAÚDE, SINPOL, e contou também com o apoio da UJR, ANEL e do PCR, PSTU e PSOL.

Francisco Dias, diretor do SINSP e militante do MLC

Aposentados fazem ato nas ruas de Carpina

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No dia  28 de janeiro, aconteceu, em Carpina-PE, um ato dos aposentados e pensionistas da Previdência Social, organizado pelo Sindicato dos Trabalhadores Aposentados, Pensionistas e Idosos da Previdência Social em Pernambuco (Sintrappe). O Sindicato dos Calçados de Carpina e o Movimento Luta de Classes (MLC) também participaram do protesto. Dezenas de aposentados foram às ruas reivindicar seus direitos, melhores condições de vida, um aumento justo no seu salário e respeito com aqueles que um dia deram seu suor, construindo a riqueza do país.

O sistema capitalista massacra não só os trabalhadores da ativa, mas também aqueles que venderam sua força de trabalho ao longo da vida e que hoje sobrevivem com uma aposentadoria de fome, pois o Governo, mais uma vez, não dá um aumento digno aos aposentados. Para quem ganha acima de um salário mínimo o reajuste foi de apenas 5,56%, menor que a inflação de 5,91% e, do reajuste do próprio salário mínimo, que foi de 6,78%.

O governo trata o aposentado com maldade, humilhação e descaso, impondo a todos um achatamento salarial que já chega a 88% de perdas, levando todo mundo ao desespero. O salário do aposentado pela Previdência não dá nem para comprar remédios, gerando depressão, doenças e fome, o que leva grande parte dessas pessoas aos leitos dos hospitais e abrigos.

Essa luta não é apenas dos aposentados e pensionistas da Previdência Social, mas de todos os trabalhadores que contribuem hoje, para amanhã se aposentar.

Redação

Oposição derrota imobilismo em eleição do Sindipetro CE/PI

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sindipetroDurante os dias 14, 15 e 16 de janeiro, os petroleiros do Ceará foram às urnas para escolher a nova diretoria para o triênio 2014-2017 do Sindicato dos Petroleiros Ceará-Piauí (Sindipetro CE/PI). Depois de uma intensa campanha realizada pela Chapa 2 – TRANSPARÊNCIA E AÇÃO – (Movimento Luta de Classes e independentes), ao final do processo, veio a vitória com  221 votos para a Chapa 2 e 202 votos para a Chapa 1, da situação.

Essa vitória foi importante para os petroleiros em todo o país, pois comprova a força de mobilização e o avanço da consciência na luta contra a violação de direitos, a precarização das relações de trabalho e os constantes leilões do petróleo. Nos postos de votação, o sentimento da categoria era de renovação e disposição para travar os enfrentamentos necessários, algo que não era estimulado pela gestão passada.

O presidente eleito, Carlos Oriá, ressaltou que a nova diretoria “terá independência e autonomia para cumprir a missão de defender a categoria. Arrancamos a velha paralisia e colocaremos no seu lugar a vontade de lutar”.

Para Emanuel Menezes, diretor eleito e membro do Movimento Luta de Classes, os petroleiros optaram pela renovação. “Trabalharemos com total independência para defender a categoria diante dos desafios do dia a dia e para lutar contra as ameaças ao petróleo brasileiro”.

O jornal A Verdade parabeniza a vitória da Chapa 2 e  deseja uma gestão de muita luta para o sindicato. Estaremos juntos na defesa do petróleo brasileiro e da categoria!

Redação Ceará

Trabalhadores em telemarketing realizam mobilização

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33d7909e6a6c3cfb2b52ebf5b610b6f5No dia 16 de janeiro, a Comissão de Trabalhadores do Telemarketing do Grande ABC – Fica Logad@ e o Movimento Luta de Classes (MLC) realizaram uma manifestação que saiu das duas maiores empresas da região, a Atento e a Unitono, ambas na cidade de São Bernardo do Campo, e foram em passeata até o Ministério do Trabalho e Emprego (MTE).

Além de solicitar abertura de negociação com as empresas, a Comissão entregou um relatório com a denúncia de diversas irregularidades cometidas pelas empresas contra os direitos dos trabalhadores garantidos pela CLT e pelo anexo II da NR17. As principais reivindicações são: aumento salarial para R$ 850,00 e revisão do vale-alimentação para R$15,00. Hoje o valor do vale-alimentação para a categoria é de R$ 5,50 por dia.

A mobilização contou com importante apoio do SINDSERV-SBC, da Regional ABC da CUT, da UJR e de diversos sindicatos e movimentos sociais da região.

No MTE uma comissão de trabalhadores se reuniu com o Dr. Ricardo Bacura, que se comprometeu a abrir uma “mesa de entendimento“, onde as empresas serão obrigadas a sentar com os trabalhadores e prestar contas sobre o relatório de irregularidades, bem como discutir a pauta apresentada pela Comissão. À tarde, a mobilização continuou, com muita garra e determinação, mesmo debaixo de uma forte chuva de verão.

Esta manifestação mostrou a força e a disposição de luta dos teleatendentes e a importância de avançarmos na organização dessa categoria no ABC paulista e em todos os estados do país.

Gregorio Gould, membro da Comissão de Trabalhadores e Trabalhadoras de Telemarketing do Grande ABC e do Movimento Luta de Classes

Condsef indica greve para março

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condsefO 11º Congresso da Confederação dos Trabalhadores no Serviço Público Federal (Condsef), realizado de 11 a 15 de dezembro de 2013, na cidade de Beberibe, Estado do Ceará, reuniu quase dois mil delegados e elegeu a nova direção para o triênio 2014-2017, e, após muito debate, aprovou um indicativo de greve da categoria para a segunda quinzena de março de 2014. Essa deliberação refletiu a indignação dos servidores com a política do Governo Dilma de desmantelamento e privatização dos serviços públicos federais.

Desde a vitoriosa greve de 2012, o Governo não atende às entidades sindicais dos servidores, que passaram um ano sem nenhum sucesso nas conversas com o Ministério do Planejamento, Orçamento e Gestão (MPOG). Mesmo com as diversas mobilizações que aconteceram em 2013, que culminaram com a Marcha a Brasília, que unificou vários segmentos de trabalhadores, somando 20 mil pessoas, o Governo não cumpriu os acordos firmados na greve.

Junto com a intransigência, o ano passado foi repleto de tentativas de jogar sobre os ombros dos trabalhadores o ônus da crise capitalista. Com o intuito de conter as lutas dos servidores o Governo pôs em prática uma política de retaliação das lideranças grevistas, que contou com a demissão de quatro ativistas de Brasília, um deles diretor do Sindsep-DF, e implementou processos administrativos disciplinares para intimidar e impedir que o movimento dos trabalhadores avance no seu grau de unidade e mobilização.

Paralelamente a isso, o Governo tentou aprovar no Congresso Nacional o PL 4.330/04, que terceiriza as atividades-fim do serviço público. Também buscou inviabilizar o direito de greve por meio de um projeto de “regulamentação”. Graças à ação das entidades sindicais, esses projetos foram adiados para este ano, porém não foram ainda derrotados. Mesmo debaixo dessa política de perseguição, os servidores do Hospital das Forças Armadas (HFA) e do Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (DNIT) fizeram mais de 40 dias de greve.

O Congresso da Condsef aprovou ainda a pauta de reivindicação dos servidores, que traz como principais bandeiras: política salarial permanente com reposição inflacionária; valorização do salário-base; incorporação das gratificações; paridade entre aposentados, pensionistas e ativos; cumprimento dos acordos e protocolos firmados com o Governo; anulação da Reforma Previdenciária; regulamentação da negociação coletiva (Convenção 151 da OIT) com direito irrestrito de greve.

Na opinião de Sérgio Ronaldo, novo secretário-geral da Confederação, “nossa tarefa agora é visitar as bases e levantar os servidores para a construção da greve, como única alternativa para garantir nossas conquistas e impedir a aniquilação dos serviços públicos”.

As resoluções do Congresso foram unânimes em afirmar a necessidade da intensificação das mobilizações populares, e que os sindicatos da base da Condsef aprendam as lições da jornadas de lutas de junho de 2013, que abriram uma nova situação política no país, e se unam aos movimentos populares que defendem melhores condições de vida para o povo brasileiro.

Campanha Salarial

O Fórum das Entidades Nacionais dos Servidores Públicos Federais deliberou sobre o calendário da Campanha Salarial 2014. O início aconteceu no dia 22 de janeiro com atos públicos nos estados. Para o dia 05 de fevereiro, está programada uma manifestação na porta do MPOG, em Brasília, para forçar a ministra Mirian Belquior a receber as entidades sindicais com a pauta de reivindicações. O Seminário Nacional sobre a Dívida Pública dará prosseguimento às atividades da Campanha. Já no dia 06, acontecerá uma nova reunião do Fórum, que avaliará o movimento e o indicativo de greve para março.

Por conta da Copa do Mundo de futebol, a chamada da Campanha Salarial será: “Serviço Público Padrão FIFA. Jogando juntos, a gente conquista!”.

A previsão das entidades do Fórum é que só com um movimento de greve unificado dos servidores federais conseguiremos derrotar a política do Governo, que insiste em abrir os cofres públicos para os banqueiros e as grandes empresas privadas e dizer não às reivindicações dos trabalhadores. Em audiência da Condsef com o secretário de recursos humanos do MPOG, Sérgio Mendonça, para cobrar os acordos firmados com servidores do Incra, o representante do Governo foi taxativo e afirmou que “não há espaço, em 2014, para movimentação financeira na estrutura remuneratória dos servidores neste momento”. Esta foi a forma burocrática de o secretário desrespeitar, novamente, o acordo feito com os servidores.

Dentre as entidades nacionais que compõem o Fórum, a Condsef, a Fasubra e o Andes já aprovaram a greve geral dos servidores federais para março.

Victor Madeira

Torturadores serão julgados em ação penal

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No final do ano passado foram realizadas as primeiras audiências de um processo inédito, aguardado há anos, contra torturadores da Ditadura Militar que durou de 1964 a 1985.

O Ministério Público Federal (MPF) move uma ação contra Carlos Alberto Brilhante Ustra, Carlos Alberto Augusto (Carlinhos Metralha) e Alcides Singilo, agentes da repressão no período, pelos crimes de sequestro e privação da liberdade de Edgar de Aquino Duarte, corretor de valores preso pela polícia política da ditadura em 1971 e até hoje desaparecido.

A tese jurídica do MPF é a de que, enquanto não se encontrar o corpo de Duarte, ele permanece desaparecido, configurando um crime permanente e, portanto, não pode ser considerado um anistiado. “Como os fatos ainda estão acontecendo, não há como se falar em Lei de Anistia”, explicou o procurador da República Andrey Borges de Mendonça, um dos autores da ação.

Ustra comandou o Destacamento de Operações de Informações-Centro de Operações de Defesa Interna (DOI-Codi) de São Paulo no período de 1970 a 1974. Augusto foi investigador do Departamento de Ordem Política e Social (Dops), onde integrava a equipe do temido delegado Sérgio Paranhos Fleury. E Singilo foi delegado do Dops.

Nas audiências realizadas nos dias 9, 10 e 11 de dezembro foram ouvidas as testemunhas de acusação – ex-presos políticos que testemunharam a prisão de Duarte no DOI-Codi e no Dops –  pelo juiz titular da 9ª Vara Criminal, Hélio Egydio Nogueira. Os ex-presos, além de relatarem a prisão de Edgar, falaram sobre suas próprias prisões e torturas sofridas.

Neste evento histórico, pela primeira vez, os torturadores sentaram no banco dos réus. Ustra não compareceu às audiências alegando problemas de saúde, mas Augusto e Singilo estiveram presentes nos três dias e não economizaram ironias e risadas durante os relatos das torturas sofridas pelos ex-presos e, em alguns momentos, eles e cerca de 10 pessoas que os acompanhavam, tentaram intimidar os presentes e foram reprendidas pelo próprio juiz. Augusto, que segue na ativa como delegado de polícia de segunda classe no município de Itatiba e foi alvo de um esculacho popular realizado no primeiro semestre do ano passado, era o mais raivoso na audiência e chegou a declarar à imprensa que Ustra, Fleury e outros torturadores eram heróis nacionais.

As audiências de oitiva das testemunhas de defesa dos torturadores, entre elas Paulo Maluf e Michel Temer, serão realizadas no fim de março e início de abril deste ano, justamente na data em que o Golpe Militar completará 50 anos.

O Coronel Ustra já foi condenado em dois processos anteriormente, nenhum deles penal, ambos eram civis. No caso da família Teles, a ação é declaratória e pede para que ele seja considerado torturador e o coronel já foi condenado em segunda instância. Já na ação da família Merlino ele foi condenado em primeira instância pelo assassinato de Luiz Eduardo da Rocha Merlino, mas recorreu nos dois processos e aguarda novo julgamento.

Infelizmente, nos primeiros dias de janeiro deste ano, a Justiça Federal extinguiu o processo de ocultação de cadáver que também tinha como réus Ustra e Singilo, neste caso acusados pelo MPF de ocultar o cadáver do militante da Ação Libertadora Nacional (ALN) Hiroaki Torigoe, assassinado em 1972 no DOI-Codi, alegando que o crime estaria prescrito.

O MPF alega que, assim como o crime de sequestro, o crime de ocultação de cadáver é permanente e não deve prescrever até que o corpo seja localizado. Mas o juiz federal, Fernando Américo de Figueiredo Porto, teve entendimento diferente sobre o assunto. Para ele, o crime de ocultação de cadáver tem natureza instantânea, como o de destruição do corpo, e não permanente.

Autor da denúncia, o procurador da República Sergio Suiama afirma que, ao equiparar as situações – ocultação e destruição de cadáver –, o magistrado ignora que os acusados ainda podem dar satisfações a respeito do paradeiro dos restos mortais de Hiroaki Torigoe. “Para além do erro jurídico, a posição do juiz também representa um descaso em relação à conduta permanente e atual criminosa dos réus”. Ainda cabe recurso contra a decisão.

Nossa luta avança

Na manhã de 27 de janeiro, o Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artístico e Turístico (Condephaat), órgão de preservação do Estado de São Paulo, aprovou por unanimidade o tombamento do prédio que abrigou a Operação Bandeirantes (Oban) e posteriormente o DOI-Codi paulista. Hoje, no local, funciona o 36º Distrito Policial. O tombamento do prédio tem como objetivo a transformação do espaço em local de memória.

O pedido havia sido feito em 2009 pelo ex-preso político Ivan Seixas apoiado por entidades ligadas aos Direitos Humanos. Em 2013, membros da Comissão Nacional da Verdade e da Comissão “Rubens Paiva” se juntaram à ex-presos políticos e militantes dos Direitos Humanos para reiterar a solicitação aos secretários de Segurança Pública e de Cultura do estado de São Paulo, Fernando Grella e Marcelo Araújo.

O deputado estadual Adriano Diogo, presidente da Comissão “Rubens Paiva”, fez intermediações durante o processo. Diogo, que foi preso e torturado no DOI-Codi em março de 1973, disse que agora aguarda a revogação do decreto de 1979, do então governador de São Paulo, Paulo Maluf, onde o Estado passou para o II Exército a propriedade sobre o terreno onde ficava o centro de repressão. “Não é admissível uma delegacia de polícia funcionar num prédio que abrigou o DOI-Codi. É como se uma usina de gás alemã funcionasse até hoje em um campo de concentração”, destacou.

O prédio foi um dos maiores centros de tortura do país. Pelo menos 5.000 pessoas foram presas e torturadas e 50 foram assassinadas no local. A conquista do tombamento representa para Ivan Seixas um significado profundo. Ele tinha apenas 16 anos quando esteve preso no DOI-Codi e ali assistiu o assassinato de seu pai, Joaquim Alencar de Seixas, na noite do dia 17 de abril 1971.

Vivian Mendes, São Paulo

A ditadura caiu pela força das ruas

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audalio_dantasAudálio Dantas nasceu, há 85 anos, no pequeno município de Tanque d’Arca, no Agreste de Alagoas, que hoje tem pouco mais de seis mil habitantes. Do berço, conservou as imagens da vida difícil do nordestino, e se transformou num dos principais jornalistas brasileiros a viver e trabalhar em São Paulo. Foi premiado pela ONU por uma série de reportagens sobre o Nordeste publicadas na extinta revista Realidade e tem ainda em seu currículo profissional obras de referência para o jornalismo brasileiro, como Tempo de reportagem.

Foi também presidente do Sindicato dos Jornalistas do Estado de São Paulo à época do assassinato do jornalista Vladimir Herzog (25 de outubro de 1975) e, posteriormente, presidente da Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj), o primeiro a ser eleito pelo voto direto, mostrando, assim, que o povo brasileiro tinha o direito de eleger seus representantes. Por sua coragem e coerência política, foi eleito deputado federal constituinte pelo MDB de São Paulo. Atualmente se dedica à revista Negócios da Comunicação e à Comissão Nacional da Verdade dos Jornalistas. Também foi vice-presidente da Associação Brasileira de Imprensa (ABI).

No fim de 2013, ganhou o mais importante prêmio literário do Brasil, o Jabuti, concedido pela Câmara Brasileira do Livro, na categoria Reportagem e como Livro do Ano (Não Ficção). Sua obra As Duas Guerras de Vlado Herzog – Da perseguição nazista à morte sob tortura no Brasil traz um relato vibrante e direto da vida do jornalista nascido na Iugoslávia e naturalizado brasileiro, abrindo um capítulo à parte na historiografia da ditadura militar acerca da relevância da denúncia realizada pelo Sindicato dos Jornalistas de São Paulo para que esse crime não fosse silenciado. É sobre esta história que Audálio concedeu entrevista exclusiva a A Verdade.

A Verdade – Conte-nos o que o levou a escrever As Duas Guerras de Vlado Herzog.

Audálio Dantas Foi um processo curioso. Ao mesmo tempo em que havia o bloqueio, eu me sentia como que obrigado a pagar a dívida que tinha comigo mesmo. A decisão de fazê-lo me trouxe, de pronto, um alívio. Foi o bastante para que eu iniciasse a organização dos documentos que tinha guardado e relacionasse as fontes que deveria consultar, as entrevistas que deveria fazer. Com isso, fui descobrindo que a parte principal da história que eu tinha a contar estava registrada na memória. Faltava, apenas, ajustar datas, nomes, locais. Parti então para o plano do livro. A ideia era tratar dos dois tempos vividos pelo Vlado – a infância, sob o terror do nazismo, e a juventude e a formação no Brasil, até a fase adulta, sua atuação no jornalismo e na vida cultural do país, no qual enfrentaria outra guerra, a que lhe custou a vida. A parte central do livro é a reconstituição dos fatos que levaram à morte de Vlado, tendo como pano de fundo a ditadura militar. Dei o devido destaque ao papel desempenhado pelo Sindicato dos Jornalistas de São Paulo, de onde partiu a denúncia do assassinato. Sem essa denúncia o Vlado seria apenas mais uma vítima. Quanto ao pesadelo, revivi-o ao contar os dias de terror que antecederam e sucederam ao seu assassinato. Foi a história contada de dentro para fora, por quem a viveu.

 Além de recompor um capítulo da história da resistência à ditadura militar, você também concebeu esta obra como um material de agitação pelo direito à memória, verdade e justiça? Minha principal preocupação era exatamente a de recompor o capítulo que marcou o início da queda da ditadura. Muito do que havia sido escrito sobre o episódio estava incompleto, com informações erradas ou com omissões graves, como a do papel do Sindicato dos Jornalistas. Considero que o meu livro contribui para o estabelecimento da verdade dos fatos. Mais do que isso, é um documento que traz uma contribuição para o debate sobre o período do regime militar e os crimes cometidos nele. A Comissão Nacional da Verdade e as comissões que foram constituídas pela sociedade civil para apurar esses crimes, como a dos Jornalistas Brasileiros, são instrumentos importantes para a busca de esclarecimento dos abusos cometidos contra os direitos humanos. A tortura, por exemplo, que constitui crime imprescritível.

Que papel você atribui às organizações de classe (partidos, sindicatos, entidades estudantis etc.) para a derrota moral e política do regime militar?

A ditadura conseguiu, por meio do arbítrio total, como a decretação do Ato Institucional nº 5 e uma brutal repressão, manter o controle das entidades representativas dos diversos setores da sociedade. Até que se chegou ao ponto de ruptura, como aconteceu no caso Herzog, quando a consciência nacional levou a uma reação que envolveu sindicatos, organizações políticas e estudantis. O movimento operário, depois amplos setores da classe média, se organizou, o que resultou em movimentos de massa sem precedentes no país, como as campanhas pelas eleições diretas e pela anistia. A ditadura caiu pela força das ruas.

Como você define Vladimir Herzog?

Vlado era, essencialmente, um homem de cultura. Como jornalista, entendia que a informação é um direito dos cidadãos e como tal deve refletir a verdade dos fatos. O jornalista deve, antes de tudo, ter responsabilidade social. Vlado desprezava slogans. A verdade, para ele, dispensava o panfleto.

Qual a sensação de vencer o principal prêmio literário do Brasil com uma obra que é um chamado à rebeldia, uma denúncia dos crimes até hoje impunes cometidos pela ditadura militar?

Entendo que a história contada em profundidade, mas em linguagem direta, com a marca do jornalismo, constituiu o principal fator para a premiação do livro. A concessão do Jabuti na categoria máxima, a de Livro do Ano de Não Ficção, e do Juca Pato – Intelectual do Ano me surpreenderam. Eu tinha consciência da importância do meu trabalho, mas, ao mesmo tempo, considerava difícil que ele fosse assim reconhecido, pois tinha sido praticamente ignorado pela grande mídia. Posso afirmar que o livro foi reconhecido pelo boca a boca, graças à internet. E, a despeito de ignorado nas chamadas colunas literárias, terminou caindo nas mãos das comissões julgadoras, que o “descobriram”.

Rafael Freire, João Pessoa 

Ministério da Defesa iguala movimentos sociais a criminosos

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Recentemente publicado, documento do Ministério da Defesa que regulamenta a atuação das Forças Armadas em operações de segurança pública considera movimentos sociais como “forças oponentes” do Exército, Marinha e Aeronáutica nas situações em que estas forem acionadas para garantir a lei e a ordem, e iguala organizações populares a quadrilhas, contrabandistas e facções criminosas.

De acordo com o manual, também podem ser alvo da repressão militar pessoas, grupos de pessoas ou organizações “infiltrados” em movimentos, “provocando ou instigando ações radicais e violentas” – termos que têm sido utilizados pelas autoridades e pela opinião pública para descrever as atividades de pessoas mascaradas durante manifestações, os chamados black blocs.

O regulamento considera que todos eles, sem distinção, devem ser “objeto de atenção e acompanhamento e, possivelmente, enfrentamento durante a condução das operações” das tropas federais, que agora estão textualmente autorizadas a atuarem em grandes eventos, como já vinha ocorrendo desde a Conferência Rio+20 sobre Desenvolvimento Sustentável, em 2012.

Ameaças

Além de elencar características das “forças oponentes” do Estado brasileiro, o manual enumera as “principais ameaças” à manutenção da lei e da ordem no país. Entre elas, figuram estratégias comuns de protesto popular, como “bloqueio de vias públicas de circulação”, “invasão de propriedades e instalações rurais ou urbanas, públicas ou privadas” e “paralisação de atividades produtivas”.

Ainda no rol das ameaças, o documento cita episódios observados nas manifestações do ano passado em algumas capitais, sobretudo em São Paulo e no Rio de Janeiro, tais como “depredação do patrimônio público e privado” e “saques de estabelecimentos comerciais”. O termo “distúrbios urbanos”, utilizado como sinônimo de manifestações públicas em manuais das polícias militares, também aparece como perigos à ordem.

A normativa passou a vigorar em 19 de dezembro, após publicação da Portaria 3.461/MD, assinada pelo ministro Celso Amorim. Em entrevista ao jornalista Fernando Rodrigues, do jornal Folha de S. Paulo e portal UOL, em 27 de novembro, Amorim já havia informado sobre o emprego de aproximadamente 1.400 efetivos das Forças Armadas em cada cidade-sede da Copa do Mundo, que ocorre neste ano em 12 capitais brasileiras.

Apelativo

“Isso não é qualitativamente diferente do que a gente já fez na Copa das Confederações, na visita do papa e na Rio+20. Na realidade, é uma questão de escala, sobretudo no caso da Copa, que será mais dispersa. Nas Olimpíadas, será mais concentrado. Cada uma terá suas características”, explicou o ministro. “Naturalmente, esses dois eventos são muito apelativos, e precisam cuidado redobrado.”

Na ocasião, Amorim lembrou que o trabalho das Forças Armadas possui basicamente duas naturezas. A principal delas é proteger o país de agressões externas, guardando fronteiras, monitorando espaço aéreo e litoral, desempenhando defesa cibernética e operações antiterroristas. “É sua competência primordial”, classifica. “Teremos também um preparo de contingência para hipótese das forças de segurança pública não darem conta do recado em alguma situação, por qualquer motivo que seja.”

É nestas situações que o emprego de Exército, Marinha e Aeronáutica deverá obedecer ao documento recentemente editado pelo Ministério da Defesa, intitulado Garantia da Lei e da Ordem ou MD33-M-10. “Esperamos que o trabalho de contingência não ocorra, mas pode ocorrer”, alerta Celso Amorim, afirmando que operação semelhante foi desencadeada durante a missa celebrada pelo papa Francisco em Copacabana, no Rio de Janeiro, em julho último.

Comunicação

O documento também mostra como as Forças Armadas estão preocupadas com a recepção de suas atividades pela opinião pública. Há uma seção especialmente dedicada ao uso adequado da comunicação social para auxiliar no cumprimento das missões. “Um simples incidente poderá ser explorado pelas forças oponentes ou pela mídia, comprometendo as operações de garantia da lei e da ordem e a imagem das Forças Armadas.

Assim como fizeram as polícias estaduais durante manifestações públicas no ano passado, o Ministério da Defesa recomenda que os comandos militares utilizem equipamentos de gravação. “Junto aos escalões avançados, deverá haver uma equipe de filmagem e fotografia, composta por pessoal especializado, que registrará a atuação da tropa”, pontua. “A filmagem deverá ser planejada de modo a constituir prova contra possível propaganda adversa à atuação das Forças Armadas.”

Manoel S. Moraes de Almeida

(Professor da UNINASSAU/Comissão da Verdade Dom Helder Câmara e Membro da Comissão Nacional da Anistia)