UM JORNAL DOS TRABALHADORES NA LUTA PELO SOCIALISMO

sábado, 28 de março de 2026
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Protestos pelo Brasil

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No Ceará foi assim…

Em Fortaleza, a primeira manifestação ocorreu no dia de 17 de junho, convocada pelas redes sociais. Sendo organizada em repúdio à dura repressão sofrida pelas passeatas na Capital paulista. Cerca de 500 pessoas se concentraram na Praça da Gentilândia, ao lado do Estádio Presidente Vargas, onde a seleção brasileira de futebol realizou seu primeiro treino antes do jogo contra o México. Os manifestantes caminharam pelas ruas do Centro até o Marina Park Hotel, onde a seleção estava hospedada. O protesto terminou de maneira pacífica.

No dia 19, cerca de 80 mil manifestantes se concentraram no supermercado Makro, na BR-116, e seguiram em passeata rumo à Arena Castelão no intuito de denunciar os gastos exorbitantes promovidos pelos governantes para garantir a Copa das Confederações. Foram impedidos de seguir adiante pelas barreiras promovidas pela Força Nacional de Segurança e da Polícia Militar. Mais de 50 manifestantes foram feridos.

No dia 20, cerca de 30 mil estudantes liderados por suas entidades se concentraram na Praça Portugal rumo à Assembleia Legislativa e, em seguida, ao Palácio da Abolição (sede do Governo Estadual). Eles exigiam redução imediata da tarifa de ônibus dos atuais R$ 2,20 para R$ 2,00; cancelamento imediato das obras do Aquário e da Ponte Estaiada; Reforma Política; criação de um Fundo para obras contra a seca; destinação de 10% do PIB para a educação e 10% para a saúde; aumento salarial para os professores; realização de concurso público para professor efetivo para as Universidades Federais e Estaduais; e entrega imediata de todas as carteiras de estudante 2013. Também se manifestaram contra as remoções e os despejos de comunidades ocasionados pelos megaeventos.

No dia 21, houve a concentração de manifestantes no Centro Cultural Dragão do Mar, por volta das 17h. Essa nova manifestação reivindicou maiores investimentos na área da educação, com o tema “Educação 10”, com a participação de 10 mil pessoas, culminando na Prefeitura. O Paço Municipal se encontrava cercado por 250 guardas municipais e pela tropa do choque, que reprimiram os manifestantes com bombas de gás e balas de borracha. Por volta das 21h, representantes da prefeitura receberam uma comissão de sete manifestantes.

No dia 27, cerca de 800 manifestantes se concentraram na Avenida Dedé Brasil, em frente ao Campus da UECE a partir de 10 horas. O movimento foi ganhando força e prosseguiu rumo à Arena Castelão, contando com cerca de cinco mil participantes. Nesse dia, ocorreu o jogo pela Copa das Confederações entre Espanha e Itália. Este ato, em especial, contou com a participação de vários segmentos sociais, entre eles estudantes, professores, policiais, enfermeiros, motoristas de ônibus, entidades estudantis, sindicatos, agricultores vítimas da seca, movimentos sociais que lutam por terra e moradia, além de partidos políticos.

Por volta das 13h, começou a violência policial com balas de borracha, bombas de efeito moral, gás lacrimogênio e um canhão supersônico, que emite um som ensurdecedor, provocando danos à audição e náuseas, deixando as pessoas em estado de desorientação. Os manifestantes resistiram com muita coragem e sem recuar. Nesse ato foram detidas 84 pessoas, sendo 23 adolescentes.

 Waldiane Sampaio, Fortaleza

Dez mil nas ruas de Natal

No dia 28 de junho, aconteceu mais uma grande passeata nas ruas de Natal. Cerca de dez mil pessoas foram às ruas para defender um transporte público de qualidade e o passe-livre. A concentração ocorreu na Praça Cívica e, em seguida, passou pela Câmara Municipal, Sindicato das Empresas de Ônibus do Rio Grande do Norte (Seturn) e, por último, pela Prefeitura.

Participaram do ato diversos sindicatos, partidos de esquerda, movimentos sociais e, em sua maioria, a juventude. Palavras de ordem como “Da Copa eu abro mão, quero meu dinheiro pra saúde e educação” marcaram toda a passeata. Foi uma demonstração de indignação contra as injustiças do nosso País e também foi marcado por um espírito de unidade e liberdade para todos que estão na luta.

Alex Feitosa, Natal

    

Protestos na Paraíba garantem diminuição das passagens

ParaíbaEm João Pessoa, dois protestos marcaram a jornada de lutas do povo em defesa de um País melhor. No dia 20 de junho, cerca de 30 mil pessoas, de todas as idades e com diferentes reivindicações, tomaram as ruas do Centro da cidade e depois seguiram em passeata pela Av. Epitácio Pessoa.

Em abril, após anos de luta, o movimento estudantil secundarista já havia conseguido o passe-livre para estudantes da rede municipal de ensino, e agora a Prefeitura baixou o valor da tarifa de ônibus de R$ 2,30 para R$ 2,20. Assim, buscando avançar nessas conquistas, uma nova manifestação, que reuniu três mil pessoas, sobretudo jovens, foi realizada no último dia 27, sendo as principais pautas a redução da tarifa nos ônibus e passe-livre. O ato se concentrou na porta da Prefeitura Municipal e no Governo do Estado. Logo após, o governador anunciou a redução de 6% no preço das passagens nas Regiões Metropolitanas de João Pessoa e Campina Grande.

Nesta cidade, também foram organizados protestos no dia 20 e nos dias seguintes, chegando o movimento a ocupar a sede da Prefeitura Municipal, conquistando a redução de dez centavos na passagem urbana, caindo a tarifa para R$ 2,10. O movimento agora concentra forças para estender o passe-livre a todos os estudantes secundaristas e universitários.


Prisão marca manifestação em Recife

Cris, antes de ser detida pela PMOs atos pela redução das passagens em Pernambuco movimentaram diversas cidades do Estado, em especial na Capital, Recife. No Sertão, a famosa ponte que liga as cidades de Petrolina e Juazeiro (na Bahia) parou as duas cidades; em Caruaru, mais de cinco mil pessoas foram às ruas.

No Recife, desde o dia 20, milhares de pessoas ocupam as principais avenidas. Com a justificativa da eterna “proteção”, a Polícia colocou nas ruas um arsenal de guerra, com cavalaria, cachorros, guarda municipal, batalhão de operações especiais, carros, jipes, motos, helicópteros. Tudo à disposição para um enfrentamento, que certamente é desigual. Mesmo assim, cerca de três mil manifestantes saíram às ruas no último dia 26, com o objetivo de entregar uma pauta ao governador. Todos seguiram para o Centro de Convenção, onde está funcionando a sede provisória do Governo. Além os cartazes, faixas e caras pintadas, muitas bandeiras de sindicatos, entidades estudantis e de movimentos sociais foram erguidas.

Pouco diálogo e muita repressão

Uma dessas bandeiras era a do DCE-Fafire (Faculdade de Filosofia do Recife), erguida por sua presidente, a estudante de Biologia de 19 anos, Crislayne Maria da Silva. Cris, conhecida liderança estudantil, passou toda a manifestação à frente da marcha, com um megafone na mão, levantando palavras de ordens e ajudando na organização. Por volta das 19h, quando houve a dispersão do ato, foi presa quando voltava para casa com um grupo de cerca de 50 pessoas. Todos foram revistados e foi nada encontrado. Mesmo assim, a estudante foi cercada por mais de 20 policiais e, apesar de muito protesto e resistência dos presentes, a prisão foi efetuada.

Cris foi levada para diversos lugares: primeiro para o posto da PM no Hospital da Restauração, depois para a Delegacia de Menores; na madrugada, para a Delegacia do Bairro de Santo Amaro, às 06h da manhã para o IML e, em seguida, para a Colônia Penal Feminina Bom Pastor. Os manifestantes que acompanharam esta verdadeira saga também foram ameaçados de prisão. Imediatamente uma rede de aliados foi construída (OAB, sindicatos, entidades estudantis, professores, movimentos religiosos e centenas de estudantes). Um grupo de advogados entrou com o pedido de habeas-corpus.

A liberdade de Cris se deu por volta das 15h do dia 27, quando familiares amigos e manifestantes esperavam, em vigília, sua soltura. A seguir entrevista da líder estudantil Cris Maria ao jornal A Verdade.

A Verdade – Como foi sua prisão?

Cris da Silva – Quatro policiais abordaram nosso grupo, que seguia pacificamente pela Avenida Conselheiro Aguiar, e começaram a revistar a bolsa de todos e  pediram que eu pegasse uma mochila que estava aberta no chão. Logo em seguida, sem diálogo, anunciaram que eu estava presa. Os outros manifestantes não aceitaram, pois era um absurdo o que estava acontecendo. Fui encaminhada à GPCA (Gerência de Polícia da Criança e do Adolescente), onde a tal mochila já não existia mais. No lugar dela, eles estavam com uma sacola plástica contendo um refil para carregar isqueiro e fogos de artifício.

O delegado achou um absurdo aquela situação, e só então me perguntaram nome e idade. Respondi e fui encaminhada à Delegacia da Mulher e posteriormente, por volta das 18h, à Delegacia de Santo Amaro. Só fui ouvida às 04h da manhã. Antes mesmo de me ouvir, a delegada anunciou que eu só sairia de lá após pagar fiança de cinco mil reais.

Quais lições você tira deste processo?

Um governador que se recusa a ouvir o povo, que se esconde atrás da Polícia e reprime as manifestações populares não representa os interesses de ninguém, a não ser seus interesses e dos demais poderosos a sua volta! Tudo que passei me motiva ainda mais a estar nas ruas lutando por uma sociedade mais justa. Foi como uma prova que só fortaleceu a convicção daquilo que eu defendo, que é um governo do povo para o povo!

Elizabeth Araújo, Recife

Juventude conquista redução de passagens no Rio

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RIO - Samuel TostaUma onda de manifestações tomou conta do Brasil, e o Estado do Rio de Janeiro registrou as maiores passeatas desse movimento. No dia 17 de junho, mais de 100 mil pessoas contra os aumentos nas tarifas dos transportes públicos.

Vendo o enorme crescimento do movimento, o governador e o prefeito da Capital resolveram atender a reivindicação da passeata. No dia 19, anunciaram a redução das tarifas de metrô, trem, barcas e ônibus. Porém, isso não foi o suficiente para acalmar quem já está cansado de ver o custo de vida só aumentar. No dia seguinte à redução das tarifas, mais de um milhão de pessoas tomaram o Centro da cidade em manifestação exigindo tarifa zero, CPI dos ônibus, mais verba para saúde e educação, contra os leilões de petróleo e contra as privatizações, entre outras bandeiras.

Além dos atos no Centro da Capital, diversos bairros e cidades do Estado fizeram grandes manifestações. Fruto dessas manifestações mais cinco cidades da região metropolitana também reduziram a tarifa.

Contra a repressão policial

Durante todas as manifestações, viu-se a maneira truculenta com que a Polícia tem reagido. Tiros de fuzil e pistola para o alto, agressões e uso de “armas não letais” são comuns e contra todos que estiverem passando perto da passeata, sem nenhuma distinção e consequência.

Prisões sendo realizadas sem nenhuma prova, como no caso de Caio Brasil, estudante de Engenharia da UFRJ e militante da UJR, que foi preso e permaneceu em um presídio de segurança máxima durante três dias. No dia 25, mais de três mil pessoas participaram da reunião do Fórum de Lutas Contra o Aumento das Passagens e aprovaram a realização de novos atos e de que a luta continuará. Não basta reduzir as tarifas, precisa sair do bolso dos empresários de ônibus e não dos cofres públicos como querem os governantes. A luta segue também contra as privatizações, contra a repressão policial e pela anulação dos processos contra os manifestantes.

Rafael Coletto, Rio de Janeiro

MPL: “As pessoas querem ir às ruas reivindicar seus direitos”

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São Paulo pelo Passe LivreAté o início das manifestações pela redução das passagens em São Paulo, o Movimento Passe Livre (MPL) era pouco conhecido. Mas, após os protestos, centenas de pessoas iriam não só conhecer como ingressar nesse combativo movimento. A Verdade entrevistou Mariana Toledo, militante do Movimento Passe Livre, que fala a seguir sobre as propostas e as ideias do MPL.

A Verdade – Como o MPL vê o atual momento de crescimento das lutas populares?

 Mariana ToledoEu acho que a principal coisa que aconteceu nestas últimas semanas, e que é um saldo positivo, e positivo em todos os sentidos, é que a população mostrou que organizada consegue muitas coisas. A vitória da redução dos 20 centavos é uma vitória do conjunto da população que compreende que nas ruas consegue mudar o destino de sua vida. E isto não fica nos 20 centavos: nós vemos manifestações sobre diversas coisas. Então o saldo positivo é sim a possibilidade de organização das pessoas que este tipo de manifestação coloca; mostra para o poder público que as pessoas não querem mais ficar nas suas casas; querem ir para às ruas reivindicar os seus direitos. Portanto, este é o saldo positivo para além 20 centavos, que é uma conquista importantíssima de toda a esquerda e de toda a população.

Quais são os principais entraves para conquista da tarifa zero em São Paulo e outras capitais?

Os principais entraves são, antes dos governantes, os próprios empresários do transporte. Mexer no lucro dos empresários, mexer na forma como o transporte é organizado é atrapalhar uma coisa muito constituída que beneficia algumas famílias, que inclusive patrocinam campanhas de candidatos em muitos países. O principal entrave é este: os interesses que um projeto como a tarifa zero tem que se contrapor, e, ao mesmo tempo, é o potencial da tarifa zero, pois, se conquistada, muda uma lógica cristalizada que exclui a população do transporte.

Qual a opinião do MPL sobre a estatização do transporte público?

O que defendemos é a tarifa zero. Para nós o fundamental é que a população possa circular livremente pela cidade sem pagar a tarifa. A forma como isto será feito, nós estamos abertos para discussões. O nosso projeto prevê a municipalização porque acreditamos que é mais fácil ser implementada, etc. Mas nós não somos contra a estatização. Somos a favor é do transporte enquanto direito. Como isto se dará, vamos discutir todos juntos.

Que mensagem vocês deixam para o conjunto de ativistas que estão nas ruas em todo País?

Se organizem. Se auto-organizem. Não dependam somente de um movimento social para correr atrás dos seus direitos. Se espelhem na possibilidade de vitória que foi colocada e vamos às ruas!

Matheus Nunes, São Paulo

A Verdade agradece aos apoiadores

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anuncie_no_jornal_a_verdadeO jornal A Verdade tem o prazer de agradecer a todos os leitores e colaboradores que adquiriram a rifa de apoio à nossa publicação, que correu no último dia 29 de maio. O número sorteado foi 3521 e saiu para o Estado da Paraíba.

A imprensa alternativa, socialista, só pode se sustentar e ampliar seu poder de intervenção na sociedade se contar com uma permanente rede de pessoas comprometidas com esta causa. Por isso, aproveitamos esta oportunidade para também convidar a todos a se engajar mais e mais conosco. A adquirir sua assinatura, a mensalmente se responsabilizar por uma quota pessoal de venda do jornal, a participar de nossas brigadas e agitações públicas e mesmo a escrever em nossas páginas suas opiniões e denúncias sobre a realidade do povo brasileiro.

Mais uma vez, obrigado a todos! Sigamos firmes neste caminho! E vamos preparar a festa dos 14 anos de A Verdade!

Da Redação 

A Verdade convoca para manifestações na Central do Brasil

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As gigantescas manifestações que levaram às ruas do Rio de Janeiro milhares de pessoas no mês passado conquistaram a importante vitória da redução do preço das tarifas de ônibus, trem, metrô e barcas, além de terem incentivado centenas de outras mobilizações pelo País.

Para fortalecer e politizar essas lutas, ao longo do mês, o jornal A Verdade foi levado aos trens da Central do Brasil por meio de brigadas que convocavam a população a participarem das passeatas e denunciavam as tentativas de manipulação das manifestações por parte dos grandes meios de comunicação.

De vagão em vagão, temas como inflação, gastos com a Copa e problemas na saúde e educação foram debatidos com as pessoas, que sempre demonstravam grande atenção e apoio à agitação feita pelos brigadistas do jornal. Como resultado, nenhuma brigada, que durava cerca de uma hora, vendia menos de 80 jornais.

A aceitação do jornal e o interesse das pessoas pelas discussões políticas têm crescido, o que nos deve levar a aumentar o trabalho de propaganda e venda de A Verdade, como forma de influenciar a luta dos trabalhadores e da juventude e crescer sua organização revolucionária.

Novas brigadas continuarão acontecendo, e as plenárias de A Verdade serão retomadas na capital e na Baixada Fluminense.

Redação RJ

Em Belém, repressão provoca morte de trabalhadora

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Passeata em BelémNa Capital do Pará, uma marcha em solidariedade às manifestações que estavam acontecendo em São Paulo levou mais de 13 mil pessoas à Avenida Almirante Barroso, principal via de acesso da cidade, no dia 17 de junho. Além da solidariedade, os manifestantes definiram como principais pautas do movimento a redução da tarifa e o passe-livre para os estudantes.

O movimento assumiu formas de uma verdadeira guerra urbana na segunda marcha, realizada no dia 20, que se dirigiu ao prédio da Prefeitura, com mais de 10 mil pessoas exigindo que o prefeito recebesse representantes do movimento. A tropa de choque e a cavalaria entraram em ação, arremessando bombas de efeito moral contra a multidão pacífica que se encontrava no local. Por conta dos gases lançados, a agente de limpeza Cleonice Vieira, de 51 anos, que se encontrava em seu local de trabalho, teve seis paradas cardíacas provocadas pelo gás lacrimogênio e veio a falecer em um Pronto Socorro. Ela era mãe de três filhos.

O movimento então entregou uma pauta contendo os seguintes pontos: redução da tarifa de R$ 2,20 para R$ 2,00; congelamento da tarifa por dois anos; passe-livre para estudantes e desempregados; e efetivação de lei do passe-livre aos domingos, suspensa através de liminar concedida em favor dos empresários do transporte público da cidade.

A pauta foi recebida pelo assessor do prefeito, Wolfgang Endemann, exonerado dois dias depois por conta da péssima repercussão gerada por declarações fascistas postadas nas redes sociais onde afirmou: “Morte aos petralhas e comunistas. Nós deveríamos matar todo o resto dos comunistas. (…) Vou caçar esses FDP”.

As manifestações continuam com força e, no dia 26, mais cinco mil pessoas voltaram às ruas. Chamam atenção as palavras de ordem criticando a imprensa: “O povo não é bobo! Abaixo a Rede Globo” e “Mídia fascista e sensacionalista”, num grande descontentamento com as coberturas tendenciosas feitas pelos grandes veículos de comunicação. Apesar da resistência do movimento, o prefeito Zenaldo Coutinho (PSDB) tem se negado a atender ao pedido de redução da tarifa como tem ocorrido em todo o País.

Emerson Lira, Belém

Eletricitários terceirizados fazem greve por tempo indeterminado em Minas Gerais

Eletricitários terceirizados fazem greve por tempo indeterminado em Minas GeraisApós 1 ano e 7 meses tentando negociar melhores condições de trabalho e salários com os donos da empresa ECEL, contratada pela CEMIG (Companhia Energética de Minas Gerais) que atua na região de Ipatinga/Vale do Aço, quase a totalidade dos mais de 100 trabalhadores decidiram cruzar os braços e voltar a trabalhar somente quando alguns anseios inadiáveis forem atendidos.

A empresa não paga as horas-extras dos trabalhadores. Quando os serviços acumulam, ela paga os trabalhadores apenas a produtividade, desconsiderando o tempo de prorrogação da jornada de trabalho. Os trabalhadores também acham um absurdo receberem por produtividade, pois trabalham em atividade de risco e atrelar o salário à quantidade de serviços executados é uma ação criminosa e imoral da empresa. Os trabalhadores tem que produzir na correria, o que aumenta os riscos de acidente.

A empresa também não paga o tíquete alimentação há 15 dias. Os salários são irrisórios: a maioria dos trabalhadores recebe salário mínimo, 4 a 6 vezes menos do que um eletricista do quadro próprio da CEMIG.

Alguns companheiros estão sofrendo assédio moral na empresa e os trabalhadores, de maneira solidária e comovente, colocaram este como um dos principais itens da pauta.

Hoje (19) pela manhã esses eletricitários se reuniram na portaria da CEMIG e protestaram, impedindo a saída dos veículos. Depois, entraram em contato com órgãos de imprensa local e deram entrevistas, saindo em seguida pelas ruas da cidade panfletando e denunciando suas mazelas.

O mais surpreendente é que essa greve está ocorrendo quase que de maneira isolada pelos trabalhadores, apenas com apoio do Sindieletro – Sindicato dos Eletricitários de Minas Gerais, que não detém a representação legal dos terceirizados, mas entende que esses trabalhadores fazem parte da mesma categoria. Os trabalhadores também reivindicam que a empresa reconheça a representação do Sindieletro.

A ECEL se reuniu com advogados e pretende impetrar ações para prejudicar os grevistas, mas os trabalhadores estão dispostos a continuar a greve na semana que vem, até a vitória!

“Se a ECEL não pagar, a luz vai acabar”, é o grito de ordem.

Diego Palmares, MG

Evento: Brasil e Turquia: nas ruas os povos encontram o caminho!

As manifestações que tomaram conta do Brasil em junho passado, entraram por julho e suas repercussões se farão sentir por um período muito maior. Milhões de pessoas foram às ruas para lutar pelos seus direitos e contra os absurdos gastos com a Copa do Mundo no Brasil. Tudo começou contra o aumento das passagens e a luta pelo passe livre, enfim as ruas estavam tomadas por uma pauta de reivindicações extensa e diversa!

Na Turquia, uma luta contra a demolição do Parque Taksim Gezi se transformou numa enorme luta contra o governo Erdogan e pelos direitos fundamentais do povo turco. As manifestações se ampliaram por toda a Turquia e também por vários países que possuem grandes comunidades turcas.

Quais os pontos de convergência destas lutas geograficamente tão distantes? Quais os próximos passos do movimento nascido neste mês de junho? Qual o papel da juventude nesta conjuntura?

Debate organizado pela Ujr Brasil e pelo Jornal A Verdade com:

Nuray Sancar – Partido do Trabalho da Turquia (EMEP)
Marcelo Buzetto – Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST)
Representante da União da Juventude Rebelião (UJR)

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Data e hora: 22 de julho (segunda-feira), às 19hs
Local: Sede do Sindicato dos Jornalistas – Rua Rego Freitas, 530 – Sobreloja – Vila Buarque – SP

Redação SP

 

15 mil nas ruas do Rio contra os leilões do petróleo

15 mil nas ruas do Rio contra os leilões do petróleoOs trabalhadores responderam ao chamado das centrais e ocuparam o centro do Rio de Janeiro no dia 11 de janeiro. O palco da manifestação foi a Av. Rio Branco, tomada de bandeiras, professores, estudantes, trabalhadores em telecomunicações, servidores públicos federais, estaduais e municipais; operários da construção civil, metalúrgica e naval; petroleiros, bancários e trabalhadores que aderiram na saída do trabalho.

Após as jornadas no mês de junho que movimentaram o país de norte a sul, conquistando a redução das passagens em mais de 50 cidades e colocando em pauta no Congresso Nacional o passe livre nacional, os trabalhadores, contagiados pelo entusiasmo da juventude que foi às ruas, relembrando as jornadas de maio de 68 do século passado, na França, não podiam ficar de fora.

Às 15 horas, a Praça da Candelária já estava lotada. De todas as partes da cidade chegavam os construtores das riquezas. Logo no início da manifestação, o primeiro enfrentamento com a tropa de choque, policias tentaram levar preso um manifestante, mas foram impedidos pela pressão popular.

A passeata correu tranquila, até a altura da Av. Almirante Barrosos com Rio Branco, quando mais uma vez outro confronto iniciou-se com a tropa de choque e uma chuva de bombas de gás lacrimogêneo caiu sobre os manifestantes e as ruas do Centro do Rio. Chegando à Cinelândia outro enfrentamento e mais uma vez o Centro do Rio de Janeiro foi cena de uma batalha entre manifestantes e policia.

No entanto, os enfrentamentos não ficaram restritos ao centro da cidade. Outra manifestação marcada para o final da marcha das centrais saiu do Largo do Machado até o Palácio Guanabara e o confronto foi generalizado. O despreparo e a violência policiais é tão grande que a tropa de choque atirou uma dessas bombas em um hospital nas imediações do palácio do governo. Da mesma forma que no Centro, as ruas de Laranjeiras e Botafogo ficaram cobertas de fumaça de gás, sufocando os moradores e transeuntes, vindo um deles a falecer este dia.

Para os militantes do Movimento Luta de Classes – MLC, o dia 11 cumpriu um papel fundamental, demonstrando a necessidade urgente de ter oposições fortes e com um consistente trabalho de bases visto que as centrais foram obrigadas a um grande esforço para colocar os trabalhadores nas ruas.

Candidato pela chapa de oposição ao Sindpd-RJ, Marcos Villela disse: “O dia de hoje mostrou como nosso sindicato está distante e afastado das aspirações e necessidades da categoria. Nenhuma empresa foi paralisada e pouquíssimos trabalhadores em TI vieram para rua. Vamos retomar nosso sindicato para a categoria e, com certeza, iremos ocupar nosso lugar nas ruas do Rio de Janeiro, na luta com os companheiros de outras categorias”.

Já Victor Madeira, diretor da CONDSEF, afirmou: “As centrais mostraram estar, em parte, desconectadas das reivindicações. Nossa principal bandeira hoje no serviço público é a imediata revogação da Reforma da Previdência”. Diego Ramos, petroleiro e membro do Sindipetro-RJ, deixa um sinal claro para o governo -“Para nossa categoria hoje foi um dia importante. Aprovamos e realizamos 24h de greve e furamos o bloqueio da mídia com relação à luta contra os leilões do petróleo; ou o governo para os leilões ou vamos parar o Brasil”. Na área de telecomunicações os trabalhadores da rede externa pararam, foram mais de 1.500 de braços cruzados. Mas, de acordo com Rêneo Augusto, diretor do Sinttel-RJ, “Os operadores de telemarketing após as panfletagens estavam na disposição e alguns vieram para rua. Vamos avançar para construir uma grande campanha salarial. Um novo tempo chegou”.

Gabriela Gonçalves, diretora do Sindicato Estadual dos Trabalhadores de Ensino, SEPE-RJ, após participar de assembleia com aproximadamente 2.500 pessoas, que saíram dali e foram para rua, foi enfática -“Paramos escolas que nunca tinham aderido às greves e paralisações. Vamos avançar nas conquistas. Nenhum governo ou qualquer força pode deter o movimento de massas ascendente como estávamos vivendo e ajudando a construir”. E o presidente do Sintnaval-RJ, Carlos Roberto Maria, o Formigão, afirmou – “Eles disseram que a história tinha acabado, que os trabalhadores não precisavam e nem queriam mais lutar. Pode ter certeza que hoje à noite os jornais burgueses vão tentar desqualificar nossa mobilização. Só demos o primeiro passo. Nos aguardem, vamos para rua, vamos parar o Brasil pelos nossos direitos economicos e políticos. Estas lutas estão temperando a classe operária e o povo para luta pelo Socialismo”.

Com essa disposição demonstrada pelos militantes do MLC em organizar as categorias que atuam e de convocá-las para a luta, as próximas manifestações serão ainda mais combativas. Para ajudar a esse trabalho, o Movimento Luta de Classes convocou todos os seus militantes e aos trabalhadores a participar do debate promovido pelo jornal A Verdade no auditório do Sintrasef. Um novo tempo chegou e o Brasil, nas últimas semanas, se tornou a pátria das manifestações.

Vanieverton Anselmo, membro da Coordenação Nacional do MLC

É hora de ir às ruas exigir a verdade e a punição aos torturadores

É hora de ir às ruas exigir a verdade e a punição aos torturadoresUm ano depois da nomeação da Comissão Nacional da Verdade (CNV), a sociedade brasileira, em particular as pessoas que sempre estiveram presentes nesta luta, se pergunta quais rumos serão tomados a partir de agora.

O prazo da Comissão já está mais perto do fim do que do início. Dos sete membros, dois estão afastados, um por doença e outro por divergências internas; um terceiro nunca aparece, e os conflitos entre os quatro que sobram ganham espaço na imprensa, que, diga-se de passagem, tem pouco interesse de que a verdade seja mesmo revelada, já que boa parte dela colaborou de alguma forma com a Ditadura.

Com um trabalho realizado sem a participação dos protagonistas dessa história, impedidos de atuar para garantir uma suposta “neutralidade” e com pouca transparência sobre a metodologia que está sendo utilizada no andamento dos trabalhos, a dúvida sobre o que, de fato, poderá ser apurado até o final de 2014 e apresentado à sociedade começa a afligir os militantes desta causa.

Mas os lutadores pelo direito à memoria e à justiça não desistem e, depois de muita pressão por parte de ex-presos políticos e familiares de mortos e desaparecidos, alguns membros da Comissão Nacional da Verdade começaram a falar sobre incluir no relatório que será produzido ao término dos trabalhos uma recomendação da Comissão a favor da punição aos torturadores.

Estas declarações demonstraram que a Comissão está, sim, sujeita a mudanças de rumos vindas dos anseios sociais que chegarem a ela. O problema é que, evidentemente, nesta sociedade, não é somente o nosso lado quem faz pressão e, do lado de lá, a força é ainda muito grande. Sem dúvida, Exército, Marinha e Aeronáutica querem tudo, menos que a verdade venha à tona.

A Comissão de Familiares de Mortos e Desaparecidos, com a participação da Comissão da Verdade de São Paulo, realizou uma reunião, em 24 de junho, com a Comissão Nacional, onde apresentou seu descontentamento com a falta de transparência dos trabalhos e do comportamento de membros da Comissão que têm dado depoimentos para imprensa de forma irresponsável. Os familiares reclamam da falta de participação nos trabalhos, já que são os responsáveis por todos os avanços de pesquisas realizados até a instalação da Comissão, e solicitaram uma reunião com a presidente Dilma Rousseff.

Só a mobilização popular pode garantir justiça

Frente a todas estas dificuldades, está na hora de nos perguntarmos sobre como podemos dar um passo no caminho da justiça. Uma Comissão criada após tantos anos dos fatos ocorridos os fatos – diferentemente de todas as outras no mundo – e a partir de um acordo que impôs a nomeação de membros que, em sua maioria, não demonstram compromisso profundo com esta luta ou com a obtenção de justiça, já demonstra claramente seus limites.

A Comissão da Verdade de São Paulo realizou no dia 10 de junho uma Audiência Pública para debater a Sentença da Corte Interamericana de Direitos Humanos que condena o Brasil, no que ficou conhecido como “Caso Araguaia”, entre outras coisas, por não punir os torturadores. No evento, foi lançada uma moção por uma campanha nacional pela reinterpretação da Lei da Anistia, entendendo que os crimes cometidos pelo Estado não podem ser passíveis de serem autoanistiados. A Comissão Estadual produziu três mil livros com a sentença para auxiliar no trabalho de divulgação dela e no fortalecimento desta campanha.

Na verdade, somente quando a população conseguir reconhecer que as atrocidades que acontecem hoje – como as torturas e assassinatos, em especial da juventude pobre e negra do nosso País –, são a continuidade de um modo de agir de uma mesma Polícia que se manteve todo o tempo impune, teremos condições de alterar a correlação de forças necessária para que o Estado brasileiro reconheça que não há anistia para crimes de lesa-humanidade, julgue e puna exemplarmente esses violadores dos direitos humanos.

Em resumo, a punição aos torturadores do período da Ditadura precisa ser reconhecida pela população brasileira como uma bandeira justa e levantada nas ruas.

Vemos que o povo na rua tem reaprendido o caminho, o único possível, para fazer valer sua vontade e a justiça. É, portanto, o momento para levarmos essa bandeira também para as ruas, discutirmos com a população e mostrarmos a justeza de nossa causa.
Nunca, nestes 50 anos depois do golpe militar, o momento foi tão propício para popularizarmos essa luta. O Partido de Manoel Lisboa de Moura, Emmanuel Bezerra dos Santos, Manoel Aleixo, Amaro Luiz de Carvalho e Amaro Félix tem o compromisso histórico de levar para as ruas, em alto mastro e bom som, mais um cartaz: PUNIÇÃO DOS TORTURADORES JÀ!

Vivian Mendes, membro da Comissão da Verdade Rubens Paiva de São Paulo e militante do PCR

“A violência está nas mídias, nas escolas, nas famílias, no Governo”

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Vivi 2A Verdade entrevistou a professora Dra. Viviane Melo de Mendonça, do Departamento de Ciências Humanas e Educação da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), sobre o tema homofobia. Na entrevista, ela aponta o sistema capitalista e sua estrutura patriarcal, como principal fator de opressão da homossexualidade, apontando, como solução de enfrentamento, uma política de organização coletiva.

A Verdade – O Brasil é um dos países com maior índice de violência contra homossexuais. Por que?
Viviane Melo de Mendonça- Vejo inicialmente que é preciso entender a violência como tipo de linguagem, quero dizer, ela tem um papel na dinâmica cultural da sociedade brasileira. A violência, como expressão, está nas mídias, nas escolas, nas famílias, no Governo, está no espaço público e no espaço doméstico; e enuncia os conflitos do cotidiano e diferencia territórios e grupos sociais. Do mesmo modo, a violência contra homossexuais no Brasil, que se revela no nosso cotidiano, tanto em piadas ridicularizadoras como em assassinatos cruéis, e que coloca o Brasil em uma posição alarmante, está evidentemente nos dizendo que um determinada estrutura social deve ser mantida, e que alguns grupos as querem manter. A estrutura social e econômica a ser mantida “violentamente” é aquela sustentada por um patriarcado sexista e pela heteronormatividade (que é a obrigação da heterossexualidade como padrão de normalidade), e, cabe ressaltar, é a mesma estrutura que produz também as desigualdades sociais. Deste ponto de vista, não há possibilidades de enfrentamento da violência contra homossexuais sem que haja organização política coletiva, visto que esta violência demarca grupos sociais, e não apenas indivíduos, e produz a subalternaidade no campo do desejo, da sexualidade e do gênero. E, como sabemos, a superação de qualquer posição de subalternidade imposta a grupos sociais apenas acontece com ações políticas coletivas.

A violência contra homossexuais é diferente quando se trata de homens e mulheres?

Como falei antes, a violência e, no caso, a violência contra os homossexuais pode ser entendida como linguagem, e, portanto, a homofobia e a lesbofobia são entendidas aqui como um discurso e, como todos discursos, é vivencial, político e ideológico. Ou seja, nenhuma palavra ou conceito é neutro, os discursos são históricos e políticos. Portanto, a homofobia e a lesbofobia são também uma posição política e ideológica, e construída historicamente (penso do mesmo modo a transfobia, que é a violência contra as pessoas transsexuais). Muitas vezes, esta posição não é consciente e faz parte de um processo de alienação das condições concretas, e, muitas vezes, é uma posição consciente daqueles que desejam a manutenção deste modelo de sociedade, que denomina, numa perspectiva feminista, de uma sociedade capitalista patriarcal e heterosexista. Deste ponto de vista, a lesbofobia se diferencia da homofobia – essa entendida aqui, especificamente, como a violência contra gays – primeiramente pela invisibilização da mulher lésbica na história e na sociedade, de seus direitos e especificidades. A lesbofobia acontecesse mais intensamente pela sua invisibilidade; também pode ser representada pelo seu aparecimento (ou visibilidade) como um desejo que é tomado como propriedade dos homens heterossexuais; como se a sexualidade lésbica existisse à serviço do prazer masculino. Significa aqui que a lesbofobia é produto do sexismo, da opressão e violência de gênero, da reprodução do lugar da mulher como objeto e propriedade do mundo masculino. Quando as lésbicas recusam este lugar, a violência lesbofóbica pode se estabelecer em outra ordem, elas podem ser novamente invisibilizadas e não reconhecidas, ou então podem ser colocadas na posição de alguém que necessita de uma “correção” por via de um estupro ou situadas sob a representação de que não foram “possuídas” por um “homem de verdade” (e, por esta razão, são o que são). Por outro lado, também vejo que a homofobia também se fundamenta no sexismo, que se revela nas violências contra todos (e tudo) que se apresentam como “efeminados”.

Há na sociedade uma “naturalização” da heterossexualidade?

No campo da sexualidade há uma norma, e ela é chamada de “heteronormatividade”. A heteronomatividade prevê o que é chamado por alguns autores e autoras de “heterossexualidade compulsória”, que nada mais é que uma normalização da heterossexualidade e uma obrigatoriedade para o desejo heterossexual. A heteronormatividade também produz uma subalternização nesta sociedade do desejo homossexual, que faz da “homossexualidade” uma sexualidade subalterna, que se coloca como inferior, excluída e abjeta. A heteronormatividade pode dar uma ideia de “naturalização” da heterossexualidade, e faz com que as sexualidades que fogem deste padrão sejam vistas como um desvio, ou uma doença ou um pecado. Quando se fala em normalização (ou naturalização) da heterossexualdiade em nossa sociedade não quer dizer que há um silenciamento ou repressão da homossexualidade, pelo contrário, ela é falada e muito falada nos lugares onde é negada ou rejeitada, e é neste muito falar que o desejo e afeto, amor por pessoas do mesmo sexo, são colocados na posição de subalternos; seja por discursos do pecado ou da doença, ou do ridículo (traduzido em piadas). E fundamentado nestes discursos que o preconceito homofóbico/lesbofóbico/transfóbico é produzido.

Por que as travestis e os travestis, assim como as mulheres, são vítimas da exploração sexual e do tráfico de pessoas?

Retomo aqui a ideia de que a homofobia/lesbofobia/transfobia é resultado de uma sociedade capitalista sexista. As mulheres e as mulheres trans em sua maioria são alvo principal de tráfico de pessoas, aqui entendida em seu aspecto de deslocamento de uma pessoa com o objetivo de que exerça coercitivamente a prostituição. Acontece, portanto, a meu ver, outra forma de violência e opressão de gênero, da transformação da sexualidade feminina em mercado e objeto de consumo por vias da violência, que é outro produto do não reconhecimento da “mulher” como sujeito. Mas este é um assunto muito mais complexo e envolve questões sobre exploração do trabalho tendo como base também, além das questões de gênero, as noções de raça/etnia e classe social em nível mundial, e que estão implicadas também nas análises do tráfico internacional de pessoas.

Como essa luta pode se ampliar para atuar em problemas coletivos e a reivindicações de políticas públicas?

Os direitos civis são bandeiras históricas de lutas dos movimentos LGBT, uma luta para se tornarem sujeitos legítimos nesta sociedade. Estas bandeiras também podem ser entendidas como uma estratégia de enfrentamento contra esta mesma sociedade que não os reconhece e os inferioriza como cidadão. Mas, por outro lado, centrar-se unicamente em direitos individuais é uma armadilha, que, ao invés de transformar a estrutura social que os oprime, a reforça e a reproduz. Portanto, parece-me necessário ter clareza de como a estrutura desta sociedade produz o heterosexismo. Entendo que isto deve estar na agenda dos movimentos LGBT, e também este deve ser um dos principais focos de enfrentamento das suas ações coletivas. Parece-me também que o que produz o heterossexismo – que, ao meu ver ,é o capitalismo patriarcal e o sexismo – é o que também produz as desigualdades sociais, o que faz com que a luta dos movimentos LGBT também seja a luta contra todos os tipos de opressão. Em outras palavras, esta politização da sexualidade se torna uma ferramenta de luta contra este heterosexismo, que produz tanto a violência contra a mulher, a discriminação de gênero como o preconceito homofóbico/lesbofóbico/transfóbico que mantém as hierarquias sociais, morais e políticas, visto que se articulam de modo evidente – é só conferir os dados sobre a violência contra homossexuais – com as categorias de classe social e raça/etinia.

Qual mensagem você deixa às/aos leitoras/es de A Verdade?

Gostaria de deixar uma fala de uma intelectual feminista lésbica de origem latino-americana, e que pode nos inspirar na luta por uma sociedade igualitária. O nome dela é Gloria Anzaldua, e ela nos diz em “Falando em Línguas: Uma Carta para as Mulheres Escritoras do Terceiro Mundo”: Não deixem o censor apagar as centelhas, nem mordaças abafar suas vozes. Ponham suas tripas no papel. Não estamos reconciliadas com o opressor que afia seu grito em nosso pesar. Não estamos reconciliadas.

Marina Mendes, São Paulo