UM JORNAL DOS TRABALHADORES NA LUTA PELO SOCIALISMO

sábado, 11 de abril de 2026
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A nova mulher e a moral sexual

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Trechos extraídos do livro A nova mulher e a moral sexual (1978)

Alexandra Kollontai


TEORIA MARXISTA – A dura realidade exige outras qualidades nas mulheres trabalhadoras. Precisa agora de firmeza, decisão e energia […]. Privada da proteção que até então lhe prestara a família, ao passar do aconchego do lar para a batalha da vida e da luta de classes, a mulher não tem outro remédio senão armar-se, fortificar-se, rapidamente […].

A mulher da classe operária contempla como nasce e se fortalece dentro de si a consciência de sua independente individualidade. Tem fé em suas próprias forças. Gradualmente, de forma inevitável e poderosa, desenvolve-se o processo de acumulação de novos caracteres morais e espirituais da mulher operária, caracteres que lhe são indispensáveis como representante de uma classe determinada. […] 

A vontade individual submerge e desaparece no esforço coletivo de milhões de mulheres da classe operária, para adaptar-se às novas condições da vida. Também nesta transformação desenvolve o capitalismo uma grande atividade. Ao arrancar do lar, do berço, milhares de mulheres, o capitalismo converte essas mulheres submissas e passivas, escravas obedientes dos maridos, num exército que luta pelos seus próprios direitos e pelos direitos e interesses da comunidade humana. Desperta o espírito de protesto e educa a vontade. Tudo isto contribui para que se desenvolva e fortaleça a individualidade da mulher. […]

O novo tipo da mulher, que é interiormente livre e independente, corresponde, plenamente, à moral que elabora o meio operário no interesse de sua própria classe. A classe operária necessita, para a realização de sua missão social, de mulheres que não sejam escravas. Não quer mulheres sem personalidade, no matrimônio e no seio da família, nem mulheres que possuam as “virtudes femininas” – passividade e submissão. Necessita de companheiras com uma individualidade capaz de protestar contra toda servidão, que possam ser consideradas como um membro ativo, em pleno exercício de seus direitos e, consequentemente, que sirvam à coletividade e à sua classe. […]

A força dos séculos é demasiado grande e pesa muito sobre a alma da mulher do novo tipo. Os sentimentos atávicos perturbam e debilitam as novas sensações. As velhas concepções da vida prendem ainda o espírito da mulher que busca sua libertação. O antigo e o novo se encontram em contínua hostilidade na alma da mulher. Logo, as heroínas contemporâneas têm que lutar contra um inimigo que apresenta duas frentes: o mundo exterior e suas próprias tendências, herdadas de suas mães e avós. […]

Determinemos, pois, quem sāo essas mulheres que constituem o novo tipo feminino. Desde logo, não são as encantadoras e “puras” jovens cujas novelas terminam com o matrimônio feliz, nem as esposas que sofrem resignadamente as infidelidades do marido, nem as casadas culpadas de adultério. Não são, tampouco, as solteironas que dedicaram toda a sua vida a chorar um amor desgraçado de juventude, nem as “sacerdotizas do amor”, vítimas das tristes condições da vida ou de sua própria natureza viciada. Não. Estas mulheres são algo novo, isto é, um quinto tipo de heroína desconhecida anteriormente, heroínas que se apresentam à vida com exigências próprias, heroínas que afirmam sua personalidade; heroínas que protestam contra a submissão da mulher dentro do Estado, no seio da família, na sociedade; heroínas que sabem lutar por seus direitos. Representam um novo tipo de mulher. […]

A característica típica da mulher do passado, considerada seu maior ornamento e defeito, era o predomínio do sentimento. A realidade contemporânea, que arrastou a mulher à ativa luta pela existência, exige, antes de tudo, a ciência de saber vencer seus sentimentos e os numerosos obstáculos de ordem social que se seu espírito pouco resistente, seu espírito que cede com demasiada facilidade, por meio da vontade. Para conservar seus novos direitos conquistados, a mulher tem que realizar um trabalho de autoeducação muito mais profundo que o do homem. […]

A realidade contemporânea exige, de uma maneira implacável, que toda mulher que se vê obrigada a trabalhar num ofício ou profissão, em qualquer trabalho que a leve para fora do lar, possua autodisciplina e força de vontade necessárias para saber vencer seus sentimentos; qualidades que somente poderíamos encontrar excepcionalmente nas mulheres do tipo antigo. […]

Outro traço característico da mulher contemporânea consiste nas exigências, cada vez maiores, que fazem ao homem. A mulher do passado estava acostumada por seu amo e senhor, durante séculos e séculos, a esquecer-se de si mesma, a descuidar completamente seu pequeno mundo espiritual. A mulher do passado não dava nenhum valor a sua própria personalidade, acostumada aos sorrisos indulgentes que os homens tinham para com suas debilidades e sofrimentos de mulher. Por isto resignava-se, sem protestar, a que seu companheiro não prestasse a menor atenção ao que pensava e sentia. Ainda em nossos tempos, admiramo-nos de que somente alguns homens extraordinários saibam compreender a mulher, ainda que nos momentos de maior intimidade. […]

A mulher do passado, incapaz de enfrentar a vida sozinha, tinha medo da solidão, e por isso, estava sempre disposta a renunciar, quando se lhe apresentava a menor ocasião, à sua inútil e desagradável independência.

A mulher do novo tipo não somente não tem medo da independência, como, a cada dia, aprecia mais seu valor, à medida que seus interesses se sobrepõem aos limites impostos pela família, pelo lar e pelo amor. […]

O amor deixa de ser para a mulher o conteúdo único de sua vida, começa a ficar relegado a um lugar secundário, como sucede com a maioria dos homens. […]

A nova mulher não abdica da sua natureza de mulher, não foge da vida, nem de suas alegrias terrenas, que a realidade, tão avara em sorrisos, lhe concede. As heroínas modernas são mães sem estarem casadas; abandonam o marido ou o amante; sua vida pode ser rica em aventuras amorosas. […]

Esta é a mulher moderna: a autodisciplina, em vez de um sentimentalismo exagerado; a apreciação da liberdade e da independência, em vez de submissão e de falta de personalidade; a afirmação de sua individualidade, e não os estúpidos esforços por identificar-se com o homem amado; a afirmação do direito a gozar dos prazeres terrenos, e não a máscara hipócrita da “pureza”; e, finalmente, o relegar das aventuras do amor a um lugar secundário na vida. Diante de nós, temos não uma fêmea, nem uma sombra do homem, mas sim uma mulher-individualidade.

Movimento Olga Benario realiza encontros regionais

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O Movimento de Mulheres Olga Benario realizou encontros regionais nos dias 18 e 19 de janeiro para fortalecer seus núcleos de base e ampliar sua atuação no país.

Ana Carolina Martins (PA) e Talita Bezerra (SP)


MULHERES – Nos dias 18 e 19 de janeiro, o Movimento de Mulheres Olga Benario realizou encontros regionais reunindo suas militantes das regiões Norte e Nordeste, em Recife, e Centro-Oeste, Sudeste e Sul, em São Paulo. Os debates tiveram como foco o fortalecimento dos núcleos de base, em especial, a construção de novos núcleos; o funcionamento das coordenações estaduais e regionais; e a formação de novas dirigentes.

As delegações de cada estado se debruçaram para avaliar o trabalho em 2024, em que o Movimento chegou a mais cinco novos estados, totalizando 22, estando presente em todas as regiões do Brasil.

A presença dessas militantes nos encontros regionais representa um avanço após os diversos desafios que enfrentamos, nos últimos anos, para garantir todas as regiões nas atividades nacionais. Apontou também para a necessidade de organizar e formar mais mulheres diante dos ataques aos nossos direitos e às nossas vidas, como os ataques ao direito ao aborto e a criminalização de vítimas de estupro, sobretudo crianças, assim como o desemprego, a pobreza, o aumento dos casos de feminicídio.

Diante dessa conjuntura fica mais evidente que os núcleos das mulheres trabalhadoras, estudantes e mães organizadas no Movimento de Mulheres Olga Benario são a base do trabalho, sua força real. Por isso, a periodicidade das reuniões de núcleo, com data e horário fixos, se faz tão necessário.

Os núcleos também não podem se fechar em si, ao contrário, devem estar em estado de crescimento diário, construindo as lutas nas ruas: manifestações, panfletagens, patrulhas, rodas de conversa, plantões de atendimento em nossas casas.

Para avançar ainda mais nosso trabalho, foi debatida a importância da formação política das militantes no âmbito dos núcleos e dos espaços estaduais e nacional, bebendo da teoria feminista marxista.

Para que o Movimento possa continuar crescendo e avançando na luta em defesa dos direitos das mulheres e do socialismo, é indispensável debater sua autossustentação, como desenvolver mais atividades para construir as lutas e conseguir mais apoiadores.

Ainda cabe destacar a importância da agitação política e propaganda do socialismo, deixando claro o papel que o jornal A Verdade tem na formação das militantes, com leituras nos núcleos e na aproximação de novas mulheres através de brigadas do jornal em bairros e portas de fábrica.


Matéria publicada no jornal A Verdade impresso nº306

Se todas as favelas juntas fossem um estado, seria o 3º mais populoso do país

“Hoje, mais de 16 milhões de pessoas vivem em favelas de todo o país. Esse processo de crescimento das favelas é um reflexo da política de segregação social, racial e econômica do sistema capitalista que vivemos.”

Laís Chaud | Coordenação Nacional do MLB


Hoje mais de 16 milhões de pessoas vivem em favelas em todo país. Se essa área fosse um estado, seria o terceiro mais populoso do Brasil. O aumento de 39% registrado nos últimos anos (em 2010, eram 11,5 milhões de pessoas) expressa, dentre outras coisas, o aprofundamento das contradições e desigualdades políticas, sociais e econômicas.

O processo de crescimento e formação das favelas é antigo, tendo suas origens desde o século 19, principalmente após a Lei de Terras (1850) e a Lei Áurea (1888). Os negros escravizados, tendo sido “libertos”, foram obrigados a se alojarem nas áreas mais afastadas das cidades, pois não houve qualquer intenção para que eles pudessem viver de forma digna enquanto “pessoas livres”. Assim, a forte opressão e exploração se mantiveram presentes.

Ao longo da história, com o desenvolvimento industrial e a urbanização, aconteceu um forte êxodo rural. Ou seja, a mudança, forçada ou não, de famílias moradoras do campo para as cidades em busca de trabalho e melhores condições de vida. Porém, com a discriminação e por falta de recursos para encarar a carestia, essas pessoas foram construindo seus barracos, casas e cortiços nas áreas mais afastadas dos centros comerciais, muitas vezes, em áreas de risco de enchentes e desabamentos.

Esse processo de crescimento das favelas é, portanto, um reflexo da política de segregação social, racial e econômica do sistema capitalista que vivemos. As favelas são ocupações de autoconstrução, feitas de forma desorganizada, pois não conseguem pagar os elevados preços de aluguel. Por isso, vivem de forma precária, sem saneamento básico, transporte de qualidade, postos de saúde e escolas.

Essa realidade poderia ser diferente. Mas, por ser ocupada pelo povo pobre e, em sua grande maioria, por pessoas negras, essas áreas são propositalmente esquecidas e, ao mesmo tempo, atacadas pelo poder público. Além das dificuldades enfrentadas dentro das favelas, morar em regiões afastadas ou em condições precarizadas dificulta a circulação e nega o direito das pessoas à cidade. Esmaga o dia a dia dos trabalhadores, que passam horas dentro de um transporte público caro e precário, para ir e vir de casa para o trabalho, e ainda enfrentam a humilhação e a opressão da polícia.

Como diz Carolina Maria de Jesus, em seu livro Diário de uma favelada – Quarto de Despejo“De quatro em quatro anos, mudam-se os políticos e não soluciona a fome, que tem sua matriz nas favelas e suas sucursais (filiais) nos lares dos operários”.

Se antes as contas não fechavam, hoje nosso povo está sendo esmagado pelo aumento da carestia da vida. Fazendo alguns cálculos, pelo menos 18% do salário mínimo vai para pagar o transporte público, considerando apenas duas passagens por dia, em uma escala 6×1. Na alimentação vão, pelo menos, mais 53% para comprar uma única cesta básica, que sequer alimenta uma família no mês. Nesse cálculo, sobrariam em torno de R$ 455 para o aluguel. Quem hoje encontra um lugar digno, ou mesmo algum lugar qualquer, para morar por esse valor?

Enquanto os grandes empresários e políticos lucram milhões com a especulação imobiliária, o déficit habitacional registra pelo menos 8 milhões de famílias no nosso país.

Por isso, nossa luta deve ser em defesa da moradia digna, por uma saúde, educação, transporte público de qualidade, que atenda as verdadeiras necessidades do nosso povo trabalhador.

Devemos intensificar nosso trabalho com os operários e as operárias nas portas de fábricas, em quem encontramos as famílias esmagadas pelo preço do aluguel, as mulheres que necessitam de creche para seus filhos, os pais e mães dos jovens que são diariamente assediados pelo tráfico e criminalizados pela polícia. Ou seja, encontramos nosso povo explorado e humilhado por esse sistema e que, por isso, só poderá vir deles a resposta para construção de uma nova sociedade.

Matéria publicada na edição impressa nº 306 do jornal A Verdade

Ocupação Eliana Silva resiste a tentativa de despejo

Forte mobilização de moradores e apoiadores em defesa da Ocupação Eliana Silva, que resiste há 12 anos, derrubou liminar de despejo e conquistou um compromisso da Prefeitura de Belo Horizonte com a urbanização da área

Edinho Silva | Belo Horizonte (MG)


O Vale das Ocupações, em Belo Horizonte, conta com sete ocupações e caminha para a sua completa urbanização. Ao longo dos anos, as lutas proporcionaram das famílias renderam muitas conquistas, como a ligação das redes oficiais de água e energia, asfalto, coleta de lixo e CEP nas ruas e o reconhecimento como bairros populares.

Mesmo com tantos avanços, no final do mês de novembro de 2024, os moradores da Ocupação Eliana Silva foram surpreendidos por um despacho da juíza Rafaela Kehrig Silvestre, de primeira instância, para o cumprimento da reintegração de posse. Esse processo data de 2012 e estava suspenso desde de 2014.

Em janeiro deste ano, o Tribunal de Justiça de Minas Gerais tentou uma mediação para o conflito e, tanto o governo de Romeu Zema (Novo), quanto do prefeito Fuad Noman (PSD), lavaram as mãos. A Prefeitura, inclusive, teve uma atitude ainda mais agressiva, uma vez que toda a região se encontra no programa “Já to lá”, que tem feito pesquisas e levantamentos em toda a região para um processo definitivo de regularização.

A Ocupação Eliana Silva, organizada pelo Movimento de Luta nos Bairros, Vilas e Favelas (MLB), completou 12 anos de resistência em 2024 e nunca abaixou a cabeça para qualquer injustiça.

Solidariedade

Assim que a notícia foi dada, rapidamente formou-se uma rede de apoio e resistência contra o despejo. Grandes assembleias foram realizadas nas ocupações do Vale em solidariedade, mas também entendendo que, caso fosse despejada uma ocupação tão consolidada quanto a Eliana Silva, para as demais seria questão de tempo.

Na noite de 09 de dezembro, o MLB realizou um ato com cerca de 400 pessoas, representantes de sindicatos, partidos políticos, movimentos populares e mais de uma dezena de ocupações de Belo Horizonte e região metropolitana.

Antes do ato, na tarde do mesmo dia, seis viaturas estiveram na Ocupação, fazendo fotos e dizendo “queremos saber o conteúdo da reunião, se vão fazer alguma manifestação”. A resposta diante dessa pergunta não poderia ser outra: “Ditadura nunca mais!”. Ações truculentas como estas não podem ser normalizadas, pois a Polícia não pode intervir em reuniões para as quais não foi convidada, usando de tal violência para intimidar os moradores e cercear o livre direito de manifestação.

No dia 11 de dezembro, cerca de 400 famílias da Ocupação Eliana Silva e outras ocupações de Belo Horizonte realizaram um grandioso ato na porta da Prefeitura para cobrar uma posição sobre o processo. No primeiro momento, a resposta da Prefeitura foi a repressão. Dois moradores foram presos e dezenas foram feridos pela Guarda Municipal militarizada. O povo não recuou nem desistiu.

Após um dia intenso de luta, que repercutiu em toda imprensa e gerou um grande reboliço na cidade, a postura da Prefeitura mudou. Desta vez, não era mais a guarda militarizada, mas uma comissão de representantes da prefeitura e as respectivas secretarias responsáveis pela pauta, além da Procuradoria Geral do Município.

Esses representantes se comprometeram a intervir no processo judicial e se retratarem do erro que haviam cometido em dizer que não tinham interesse de participar da resolução do conflito, além de afirmar que já existe o programa para regularização da região em andamento. No fim do dia, uma grande assembleia foi realizada na porta da Prefeitura, e as centenas de moradores comemoraram a liberdade dos companheiros que haviam sido presos.

Dois dias depois, a Prefeitura visitou as ocupações e se comprometeram a avançar nas obras de urbanização. A juíza suspendeu a liminar do despejo e encaminhou o processo para a comissão de resolução de conflitos fundiários do Tribunal de Justiça, que também realizou uma visita técnica no dia 19 de dezembro.

As ocupações, mais uma vez, mostraram que o caminho para a vitória sempre passa pela luta, e que só com a organização do povo é possível vencer. A Ocupação Eliana Silva, além de vitoriosa, sai ainda mais fortalecida desse processo. Nossa luta resiste e avança!

Matéria publicada na edição impressa nº 306 do jornal A Verdade

O vício em celulares prejudica o ensino nas escolas

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Sobre a recente proibição do uso de celulares nas escolas, o Movimento Rebele-se defende: “É preciso que essa medida venha acompanhada de uma política séria de incentivo à cultura, ao esporte e ao lazer; contratação de mais professores, psicólogos e assistentes sociais; promoção de aulas de artes; abertura das quadras e bibliotecas durante os intervalos e liberdade de organização dos grêmios estudantis.”

Coordenação do Movimento Rebele-se


O uso abusivo e o vício em celulares e outros dispositivos eletrônicos está atrapalhando a aprendizagem das crianças e jovens nas escolas. Nos últimos anos, alguns países como França, México, Espanha e Grécia chegaram a adotar uma política de regulamentação com o objetivo de combater a falta de sociabilidade entre os estudantes, problemas de saúde mental, distração e falta de concentração durante as aulas.

No Brasil, algumas unidades de ensino adotaram a proibição dos celulares e, no dia 13 de janeiro, o presidente da República sancionou a Lei 15.100/25, que proíbe o uso dos dispositivos nas instituições de ensino em todo território nacional. A lei permite a utilização de dispositivos para fins pedagógicos e didáticos, desde que sob supervisão de professor(a).

Falta de concentração

Diferentes estudos apontam que o uso do celular interfere na capacidade de concentração das pessoas. O relatório do Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (Pisa), de 2022, aponta que 8 em cada 10 alunos brasileiros de 15 anos disseram que se distraem com o uso de celulares nas aulas de matemática. Também há impacto pela simples presença de um smartphone no mesmo local que o indivíduo. Quando as pessoas conseguem evitar a tentação de verificar seus telefones, a mera presença desses dispositivos reduz a capacidade cognitiva. Ou seja, o esforço de ignorar a presença do dispositivo consome recursos cognitivos, tornando a concentração mais difícil e o desempenho nas tarefas prejudicado.

Problemas de saúde

O uso excessivo de dispositivos móveis acarreta em problemas musculares, ortopédicos, visuais, distúrbios do sono, dependência e transtornos psicológicos, como ansiedade e depressão.

A preocupação se intensifica quando se trata de crianças e adolescentes. Estudo publicado na Clinical Psychological Science revelou uma relação entre o aumento do tempo de uso desses aparelhos e o aumento dos índices de depressão e suicídio entre os jovens.

Desde a pandemia, o isolamento social entre os jovens tem se tornado uma preocupação crescente. O uso excessivo de celulares agrava essa situação, substituindo relações interpessoais por conexões digitais superficiais. Durante os intervalos escolares, muitos jovens preferem ficar em frente às telas em vez de interagir com os colegas, o que prejudica o desenvolvimento das habilidades sociais.

Movimento Estudantil

O vício em celulares tem afetado até mesmo a percepção dos estudantes sobre os problemas das escolas e o consequente envolvimento dos estudantes nas atividades do movimento estudantil. Por vezes, o celular se faz mais presente do que o que está sendo discutido em uma assembleia ou na reunião do Grêmio. Nas passagens em salas, testemunhamos que avisos importantes para as lutas, atos e ocupações competem com os chamados “vídeos curtos”.

Cabe, portanto, às entidades estudantis trabalharem para estimular a conscientização sobre os problemas que esse vício traz. É preciso despertar sobre nossa própria realidade e equilibrar os avanços tecnológicos com e a saúde da juventude, alinhada à organização da luta pela transformação da educação e da sociedade.

Quando os milhões de estudantes secundaristas tirarem os olhos das telas, poderão se indignar com a realidade da educação e lutar para transformá-la.

Lutar para transformar a educação

As escolas públicas estão abandonadas, com muitos problemas de infraestrutura, desde a falta de sabonete nos banheiros até a interdição de prédios pela falta de manutenção. A reforma do Novo Ensino Médio aprofundou as desigualdades, piorou o ensino público e destruiu a possibilidade de um ensino crítico e emancipador nas escolas.

A direita e os fascistas que ocupam o Congresso Nacional e os Governos Estaduais trabalham ativamente para impulsionar o desmonte da educação. Os recentes ataques têm como objetivo firmar o poder do lucro acima dos direitos da comunidade escolar, com a privatização do ensino. Nessa mesma lógica, a militarização impõe a repressão e a violência dentro das escolas.

E, diante de todos estes problemas, o Governo Federal, que deveria defender a educação, escolhe reduzir o seu orçamento com o Arcabouço Fiscal. Isso quer dizer que a restrição do uso de celulares é uma medida urgente de saúde pública, mas não vai resolver todos os problemas da educação. Além da revogação do Novo Ensino Médio, da militarização e privatização das escolas, queremos mais verbas para a educação pública brasileira.

É preciso que essa medida venha acompanhada de uma política séria de incentivo à cultura, ao esporte e ao lazer; contratação de mais professores, psicólogos e assistentes sociais; promoção de aulas de artes; abertura das quadras e bibliotecas durante os intervalos e liberdade de organização dos grêmios estudantis.

Precisamos de uma juventude forte, unida e saudável, capaz de edificar uma nova escola e, consequentemente, uma nova sociedade. Vamos à luta em defesa das nossas vidas e das escolas!

Matéria publicada na edição nº 306 do jornal A Verdade

Estudantes fazem greve por mais verbas no Hospital Veterinário da UFRPE

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Falta de materiais básicos para o funcionamento do Hospital Veterinário da UFRPE, quedas de energia e outras precariedades motivaram a paralisação das atividades de médicos e residentes

Cassiano Bezerra |  Diretor de Assistência Estudantil da UNE


No dia 13 de janeiro, médicos e estudantes residentes do Hospital Veterinário da Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE), em Recife, importante centro de pesquisa e de formação dentro da instituição, entraram em greve. O motivo é a falta de materiais básicos (seringas, álcool e etc.), que a universidade não recebe há mais de um ano. Os médicos precisam arcar com a compra junto aos residentes e pesquisadores do hospital. Além disso, de acordo com residentes, o hospital também sofre com frequentes quedas de energia, ocasionando, por exemplo, na perda de um equipamento de raios-x.

O centro de diagnóstico (onde ficam as máquinas de raios-x) também está interditado para uma reforma que nunca aconteceu e, desde então, o hospital não realiza nenhum tipo de tomografia nos animais, mesmo a universidade tendo recebido um tomógrafo de última geração.

“Os atendimentos no Hospital Veterinário são de caráter público, destinado a pessoas de baixa renda que dependem do nosso serviço. Porém, para que a gente continue ofertando esse trabalho, precisamos pedir doações aos tutores. Esses donativos viabilizam a realização de procedimentos cirúrgicos e anestésicos”, afirma Rebeca Paes, uma das residentes em greve.

Após a deflagração da greve, os participantes realizaram várias atividades. No dia 14, realizaram reunião interna para montar um cronograma. A organização da greve pressionou a universidade e conseguiu alcance na mídia local. Já no dia 16, houve uma reunião com o Departamento de Medicina Veterinária, a Reitoria e Pró-reitorias para exigir uma resposta.

Cortes afetam diretamente

É importante lembrar que o Governo Federal aprovou a Lei Orçamentária Anual (LOA) de 2024 com R$30 milhões a menos do que em 2023 e tem seguido uma política econômica neoliberal com o Arcabouço Fiscal (a continuidade do Teto de Gastos dos Governos Temer e Bolsonaro). Nessa mesma linha, em agosto de 2024, contingenciou cerca de R$1,5 bilhão que iriam para saúde e educação. Enquanto isso, o Governo segue pagando cerca de R$ 1 trilhão (47% do PIB do país) para o pagamento da dívida pública, enquanto investe apenas 2% do PIB para áreas como educação e ciência.

A consequência disso são situações como a do Hospital Veterinário da UFRPE, falta de estrutura, insumos e quedas de energia, comuns em várias universidades do país. Não é de hoje que estudantes e residentes da universidade sofrem com problemas estruturais, vários prédios da universidade têm problemas nas janelas e também falta de ares-condicionados. Mas o principal é a falta de bolsas na universidade, que abarca apenas cerca de 2% da comunidade universitária, mas com uma demanda de mais de 60% dos estudantes.

A saída é a luta

Como mostraram os residentes que organizaram a greve, a saída é a luta. Lutar para ter uma entidade estudantil na UFRPE que garanta os interesses dos estudantes a nível geral e consiga ter força para reivindicar frente a reitoria as melhoras da universidade. O Diretório Central dos Estudantes (DCE) é essa ferramenta. Reabrir o DCE, que está fechado há seis anos é uma urgência para garantir as necessidades básicas para a formação discente.

Além disso, apenas criando uma mobilização nacional pela recomposição orçamentária e contra políticas de austeridade como o Teto de Gastos do Governo Federal é possível garantir uma universidade de fato pública, gratuita e de qualidade. Por isso, se organizar no movimento estudantil, com o Movimento Correnteza, é urgente para termos a universidade que queremos.

Matéria publicada na edição impressa nº 306 do jornal A Verdade

Servidores denunciam interferência política e práticas antissindicais da presidência do IBGE

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A criação de uma entidade paralela para captar recursos privados e a falta de diálogo com os trabalhadores do IBGE durante a gestão de Márcio Pochmann são duramente criticadas pelo sindicato dos servidores do órgão

Raul Bittencourt Pedreira | Presidente do Sindsep-RJ


O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) enfrenta uma crise institucional que tem gerado debates acalorados sobre a autonomia da instituição e a qualidade dos dados produzidos. A gestão do presidente Márcio Pochmann tem sido alvo de críticas por parte dos servidores, que denunciam interferência política e falta de diálogo.

A Fundação IBGE+, uma entidade paralela ao instituto, criada às escondidas e sem qualquer diálogo interno, para captar recursos e desenvolver projetos junto a grupos privados, é um dos principais problemas gerados pela gestão Pochmann. Servidores e setores da sociedade civil temem que a fundação possa interferir na autonomia técnica do IBGE e direcionar recursos públicos para projetos privados alheios às suas atribuições tradicionais.

Além disso, mudanças na estrutura organizacional do IBGE, como a centralização de decisões e a falta de diálogo com os servidores, têm gerado insegurança e fragilizado a capacidade operacional da instituição. A credibilidade dos dados produzidos pelo IBGE também tem sido questionada, com temores de que o perfil autoritário da gestão possa comprometer a imparcialidade das informações estatísticas. Exemplos de autoritarismo não faltam, como a tentativa transferência da sede do IBGE para o Horto, na Zona Sul do Rio de Janeiro, e um corte massivo no trabalho remoto, tudo sem qualquer diálogo prévio.

O sindicato dos servidores do IBGE, o ASSIBGE, tem sido um crítico ferrenho da gestão Pochmann, defendendo a autonomia técnica do instituto e a necessidade de um diálogo aberto e transparente. O sindicato também tem alertado para os riscos da criação do IBGE+, que poderia desviar os já limitados recursos (humanos e financeiros) do instituto para priorizar a demanda de clientes privados, esvaziando a finalidade pública e comprometendo tanto a qualidade das informações estatísticas, quanto a credibilidade do instituto junto à sociedade.

Em meio à crise, o presidente Márcio Pochmann tem questionado o uso da sigla “IBGE” no nome do sindicato, alegando que a associação direta com o instituto não seria respaldada pelas atividades estatutárias do sindicato. O sindicato, por sua vez, argumenta que o uso de siglas de órgãos públicos em nomes de sindicatos é uma prática comum e legítima, que nunca foi questionada, nem mesmo no governo do fascista Bolsonaro.

A falsa disputa pelo uso da sigla IBGE é apenas mais um sintoma da crise que tem abalado o instituto e tensionado a relação entre o governo e os servidores. Pochmann, indicação pessoal do Presidente Lula, por sua vez, busca desviar a atenção da sociedade do problema central, o caráter autoritário de sua gestão. Mas não é um caso isolado, as direções do Arquivo Nacional e do Museu do Índio (Funai), ambos no Rio de Janeiro, também tem se mostrado aversos ao diálogo com os servidores e seus sindicatos.

A crise no IBGE é um reflexo da crise de identidade do Lula. Márcio Pochmann, recebido no IBGE como um nome progressista depois de todos os infortúnios do desastre Bolsonaro. Porém, o discurso inicial de aproximação com os servidores não se sustentou e agora busca impor sua vontade de forma autoritária, com uma gestão de visão liberal e privatista, que ataca o sindicato e direitos dos servidores.

Matéria publicada na edição impressa nº 306 do jornal A Verdade

Servidores municipais de Belém lutam por direitos e democracia

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Fórum de Entidades Sindicais dos Servidores Públicos, que reúne os sindicatos que representam os servidores de Belém (PA), coordena mobilização contra um projeto que autorizaria o prefeito Igor Normando (MDB) a retirar direitos dos trabalhadores

Redação PA


No último dia 22 de janeiro, os servidores municipais de Belém do Pará se reuniram no Fórum de Entidades Sindicais dos Servidores Públicos, onde se consolidou mais uma importante etapa na organização da luta por direitos fundamentais para todos os trabalhadores do município. Este fórum, que reúne sindicatos e associações de servidores públicos, tem se tornado a trincheira de resistência contra os ataques que tentam enfraquecer a dignidade e os direitos de quem, de fato, faz a cidade funcionar: os servidores municipais.

O Movimento Luta de Classes (MLC) defende a organização de forma unificada, mobilizando servidores em torno de pautas que são de interesse de toda a categoria, como a valorização do vale-transporte, o aumento do vale-alimentação e, principalmente, o reajuste salarial.

A servidora Gualdina Maria Menezes Leite (Gal), uma das representantes do movimento, destacou que só assim é possível barrar a retirada de direitos que acontece nesse contexto de avanço do neoliberalismo. O prefeito recém-eleito, Igor Norman, primo do governador Helder Barbalho (MDB), tenta impor um ataque brutal à democracia no município. “No dia 18 de janeiro, Norman enviou à Câmara Municipal um Projeto de Lei (PL) que, se aprovado, permitirá ao prefeito governar Belém por meio de decretos, sem consultar a sociedade civil ou os próprios vereadores. A proposta dá ao prefeito o poder de fundir secretarias, extinguir planos de carreira e tomar outras decisões sem qualquer tipo de debate democrático”, denuncia a sindicalista.

Esse autoritarismo foi seguido pela convocação de uma sessão extraordinária na Câmara Municipal, durante o recesso, com a intenção de aprovar o projeto de forma precipitada e sem a devida transparência. “Este ataque aos direitos dos servidores exige uma resposta do movimento sindical. Os servidores estão em plena mobilização para barrar essa tentativa de golpe contra a democracia e os direitos da população. Convocamos todos os trabalhadores a se unirem em frente à Assembleia Legislativa, onde também funciona a Câmara Municipal, para mostrar que não aceitaremos esse retrocesso”, convoca Gal.

Ela protesta ainda contra as tentativas de criminalizar os servidores públicos. “Nos rotulam de baderneiros e vagabundos. Nada disso é verdade! Somos médicos, enfermeiros, professores, trabalhadores da limpeza pública, do Suas, das fundações e de tantas outras áreas que formam o alicerce de nossa cidade. Lutamos pelo direito constitucional à democracia, pela valorização do trabalho e pelos direitos que são nossos por justiça”.

Matéria publicada na edição nº 306 do jornal A Verdade

Alvo de despejo, Ocupação Maria Lúcia Petit Vive salva vidas em Campinas

Em 2024, a Região Metropolitana de Campinas teve um recorde no número de casos de feminicídios. Mesmo assim, a Justiça e a burguesia campineira pretendem despejar a Ocupação Maria Lúcia Petit Vive, que atende mulheres vítimas de violência de gênero.

Cristiane Mendes, Fernanda Nogueira e Paty Kawaguchi* | Campinas (SP)


MULHERES – Nos próximos dias, poderá ser executada uma ordem de despejo contra a Ocupação de Mulheres Maria Lúcia Petit Vive, localizada em Campinas (SP). Mantida pelo Movimento de Mulheres Olga Benario, a ocupação promove um importante trabalho de acolhimento de mulheres em situação de vulnerabilidade e vítimas de violência na cidade, e seu despejo poderá deixar essas pessoas desassistidas.

Após realizar uma série de patrulhas em equipamentos públicos que atendem mulheres vítimas de violência, o Movimento de Mulheres Olga Benario constatou que eles se encontram sucateados, sobrecarregados e insuficientes para atender à demanda da população feminina da cidade. Da luta para mudar essa situação, surgiu a Ocupação de Mulheres Maria Lúcia Petit Vive!, organizada pelo movimento em abril de 2023, cujo trabalho de acolhimento jurídico e psicológico de mulheres já é considerado de extrema importância para a cidade e serve como apoio aos equipamentos existentes.

Ação do poder público é insuficiente

No último período, a violência contra a mulher tem crescido no município. O aumento nos casos de violência contra a mulher pode ser mensurado pelo número de medidas protetivas expedidas pelo Tribunal de Justiça de São Paulo (TJ-SP). Em Campinas, esse número aumentou 31% no primeiro semestre de 2024 em relação ao mesmo período do ano anterior. Em relação aos casos de estupros notificados, ao final do mês de novembro de 2024, os números já haviam superado os registros de 2023.

Dos 351 casos registrados até novembro de 2024, 72% envolvem estupro de vulnerável – quando o crime de abuso sexual acontece com crianças e adolescentes menores de 14 anos. Essa dura realidade de violência já tem reflexos em 2025. No primeiro mês do ano, dois casos de feminicídio já foram registrados, um em Campinas e outro em Hortolândia, apontando como está em risco a vida das mulheres da região.

Mesmo sendo um dos principais centros urbanos do país – de acordo com o IBGE, 596 mil mulheres vivem na cidade, chegando a 52,3% da população campineira –, Campinas conta com um número insuficiente de equipamentos preparados para fazer atendimentos públicos especializados às mulheres vítimas de violência. Hoje, existem o Serviço de Atenção e Resgate à Mulher (Sara-M), o Centro Especializado de Atendimento à Mulher (Ceamo), o Programa Guarda Amigo da Mulher (Gama), a Sala Lilás da Guarda Municipal e o Centro de Atenção Integral à Saúde da Mulher (CAISM). Já as denúncias são feitas nas Delegacias da Mulher (DDM) de Campinas, das quais há apenas duas unidades e só uma com funcionamento 24h.

Vale ressaltar que, para receber o atendimento em qualquer um dos órgãos públicos, é necessário o registro de Boletim de Ocorrência, no qual o agressor também é notificado. Além disso, a grande maioria destes locais está na região central da cidade, longe de onde ocorre a maioria dos casos de violência contra as mulheres. O alto valor da passagem aumenta a dificuldade de acesso aos serviços, principalmente para as mulheres da periferia.

Mulheres lutam pelo socialismo

Para o Movimento de Mulheres Olga Benario, a violência e a exploração que as mulheres sofrem hoje em dia são fomentadas pelo sistema em que vivemos. O capitalismo afeta profundamente a vida das mulheres, pois nele é necessário o trabalho não pago e a submissão das mulheres para a sustentação dos interesses dos ricos. Atualmente, isso se reflete na perpetuação das desigualdades salariais, objetificação de seus corpos e diversos tipos de violência. 

Embora as mulheres representem mais de 50% da força de trabalho, elas recebem sistematicamente menos do que os homens. Isso não é simplesmente uma questão de discriminação individual, mas um mecanismo estrutural, pois a força de trabalho feminina é a mais explorada e precarizada, sujeita a jornadas extenuantes e condições de trabalho instáveis, intensificadas pelo acúmulo de funções cotidianas do lar. 

O feminicídio de Vitória Rosa de Oliveira, que aconteceu recentemente em Hortolândia, é um exemplo de como as mulheres são vítimas da escravidão doméstica. O assassino afirmou que cometeu o crime brutal, a pauladas, possivelmente na frente dos filhos, por Vitória “não ter feito a comida”. Ou seja, mulheres são submetidas à dupla e às vezes até tripla jornada de trabalho, acumulando as tarefas de cuidado e às vezes pagando até com a própria vida o preço de viver nessa sociedade que se sustenta com a nossa exploração. 

A opressão das mulheres e sua relação com o sistema capitalista é um problema central para a compreensão das desigualdades estruturais da nossa sociedade. Assim, o capitalismo, cúmplice do patriarcado, promove a objetificação das mulheres, as reduz a mercadorias, desvaloriza seu intelecto, alimenta a cultura do estupro e segue perpetuando a violência em diversos espaços. Contudo, o Movimento de Mulheres Olga Benario defende que a emancipação das mulheres só é possível com sua organização e a atuação política.

Sobre esse ponto, o movimento destaca as palavras de Vladimir Lênin, que afirmou que “a experiência de todos os movimentos de libertação mostra que o sucesso da revolução depende da importância da participação das mulheres”. A construção de uma nova sociedade, a sociedade socialista, só triunfará com a participação ativa das mulheres trabalhadoras. 

Reconhecendo os desafios específicos que as mulheres enfrentam quando se propõem a se organizar politicamente, o Movimento de Mulheres Olga Benario promove a garantia de creches em atividades, plenárias e reuniões, a divisão igualitária do trabalho doméstico em seus lares e a escuta respeitosa em todos os espaços coletivos. Além disso, também define dias e horários fixos para as atividades, facilitando o envolvimento das mulheres trabalhadoras.

A Ocupação de Mulheres Maria Lúcia Petit Vive! salva vidas e resiste

Com essa concepção, o Movimento de Mulheres Olga Benario já realizou ocupações em todo o país para denunciar a violência sofrida diariamente pelas mulheres e a falta de assistência pública para atendê-las. Em Campinas, o movimento denuncia que a política fascista do prefeito Dário Saadi é conivente com a violência contra as mulheres, e a partir da mobilização contra esse descaso surgiu a Ocupação de Mulheres Maria Lúcia Petit Vive. 

Com seu trabalho, o Olga já atendeu mais de 100 mulheres da Região Metropolitana de Campinas. Poderiam ser ainda mais, mas as limitações estruturais do imóvel que sedia a ocupação – que estava abandonado há quase 10 anos – impedem um maior e melhor acolhimento de vítimas de violência e vulnerabilidade.

Na última semana, a ocupação tem passado por seu quarto processo de reintegração de posse, com previsão de despejo imediato, evidenciando que para a burguesia campineira e sua “justiça” o mais importante é proteger a propriedade privada do que proteger a vida das mulheres trabalhadoras, aquelas que mais sofrem no sistema capitalista. 

Além de difundir um manifesto em defesa da Ocupação de Mulheres, que está nas redes digitais e conta com uma versão física percorrendo as ruas da cidade, as militantes, apoiadoras e técnicas da Casa lutam para que a Prefeitura ceda um imóvel para que  os atendimentos gratuitos e humanizados às trabalhadoras e crianças da região possam continuar acontecendo.

Mesmo neste momento atribulado, Patricia, militante do Movimento de Mulheres Olga Benario e membro de sua coordenação em Campinas, afirma que “o despejo não intimida nossas militantes e muito menos nos desanima, nós já tínhamos nossa rede de voluntárias antes de ocuparmos e podemos continuar com os atendimentos e crescer nosso movimento em todos os bairros da Cidade e da Região”.

“Não vamos deixar de cobrar a cessão do imóvel pela prefeitura, mas nossa força reside na coletividade e juntas conseguimos superar todos os obstáculos! O que temos de mais precioso é cada uma das companheiras que cede seu tempo, tão disputado, para lutar pela vida das mulheres e pelo socialismo”, ela completa.

Com sua luta, as mulheres mostram que não aceitarão mais morrer para servir o sistema capitalista que as explora. A luta pela libertação das mulheres é a luta de todos os trabalhadores. Mesmo ameaçada de despejo, a Ocupação de Mulheres Maria Lúcia Petit Vive! seguirá resistindo até o último minuto, pois a luta das mulheres é uma luta justa pelo fim da violência e pela construção da sociedade socialista, que será livre da fome, do desemprego, da falta de moradia e de toda forma de opressão.

*Militantes do Movimento de Mulheres Olga Benario em Campinas (SP)

Trabalhadores de Jacobina (BA) denunciam repressão da prefeitura bolsonarista

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A nova gestão bolsonarista da Prefeitura de Jacobina, liderada pela prefeita Valdice Castro (PMB), iniciou o mandato com medidas que afetam trabalhadores e pequenos comerciantes, como a demolição de áreas destinadas a trailers, o remanejamento de feirantes sem diálogo e uma série de demissões para acomodação de aliados políticos.

Redação BA


BRASIL – Na primeira semana de janeiro de 2025, logo quando assumiram a gestão da Prefeitura Municipal de Jacobina, a atual prefeita Valdice Castro (PMB), seu marido, Leopoldo Passos e a vice Manuela Brandão (PL), declaradamente bolsonaristas, já demonstraram o caráter elitista e antipovo de sua política.

A gestão da Prefeitura demoliu locais que seriam destinados a construção de trailers para um pequeno comércio no centro da cidade, com base numa medida judicial que não leva em consideração o desemprego do povo; remanejou trabalhadores de suas barracas na Feira Livre de Jacobina sem ao mínimo uma reunião e, para distribuir os cargos dos apoiadores de campanha, está acontecendo uma série de demissões e remanejamentos nos vários setores públicos. O Decreto nº 0001/2025 declara “estado de calamidade pública na saúde” por um período de 180 dias de vigência e possibilita a contratação de profissionais sem necessidade de licitação.

Em vídeo circulando nas redes sociais, um dos trabalhadores que terá de readequar sua barraca relata: “O gerente da Feira chegou aqui de manhã com os guardas e falou para as meninas que eu tinha até às 14h para desarmar, se não ia derrubar com a máquina”.

A feirante Salma e sua família, que vende salgados ao lado da cobertura da feira, foi forçada a mudar de local, ficando sem condições de estruturar seu ponto no novo local. Ela contou com a solidariedade dos demais feirantes. Mesmo assim, hoje está sem uma boa estrutura e quando chove, molha todo seu ponto. O local onde Selma e vários outros feirantes trabalhavam é um estacionamento de carros.

A Feira Livre precisa de atenção e investimentos em sua infraestrutura para dar dignidade de trabalho para todos os feirantes. A necessidade de uma Associação de Feirantes combativa e organizada é mais urgente ainda, pois é isso que o bolsonarismo faz com o povo: autoritarismo no trato com os trabalhadores, uso das forças armadas para reprimir a luta do povo, retirada de direitos trabalhistas, negação da ciência e dos fatos. Quanto mais os trabalhadores estiverem organizados para lutar por seus direitos, menos chances o bolsonarismo terá em nos lançar na pobreza.

A situação da saúde em Jacobina demonstra o fracasso do sistema capitalista e seus representantes em atender essa demanda do povo por uma saúde gratuita e de qualidade. O que querem é a continuidade das privatizações na área da saúde. As “Organizações Sociais de Saúde (OSS)” são instituições privadas que recebem dinheiro do estado, pagos por nós trabalhadores, para gerir o serviço público, não fazem investimentos suficientes, demitem a hora que quiserem e atrasam os salários. A verdade é que a gestão bolsonarista não anunciou nenhum tipo de concurso público para o futuro.

Exemplo de luta

Para que haja mais emprego, saneamento básico, transporte público acessível e de qualidade e concursos públicos, é necessária uma luta forte e organizada do povo trabalhador. Deu um grande exemplo de luta de como começar a fazer isso os moradores e moradoras da Rua João Teixeira, em novembro do ano passado: fecharam com pneus, pedras e paus a Av. João Alberto Dourado e a Rua João Teixeira para exigir a obra de asfaltamento da dita avenida. A movimentação de veículos estava gerando grande quantidade de poeira, que atingia as casas dos moradores, como também concentrava movimentação de veículos na Rua João Teixeira, que começou a rachar as casas e colocar em risco de vida crianças, idosos e moradores.

Dentro de alguns dias resolveram parcialmente a obra, acabando a poeira e controlando a movimentação de carros. Esse exemplo de luta e consciência deve ser seguido para buscar a resolução dos demais problemas que afetam a vida do povo, para acabar com o capitalismo e avançar na construção do poder popular e do socialismo.

Trabalhadores do setor de tecnologia da informação lutam contra descaso patronal no RS

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Com a participação cada vez mais ativa do MLC e da UP, a luta dos trabalhadores da tecnologia da informação avança no estado do Rio Grande do Sul.en

Movimento Luta de Classes (MLC-RS)


TRABALHADOR UNIDO – A campanha salarial 2023/2024 das empresas do setor privado de tecnologia da informação (TI), mediada entre o Sindicato dos Trabalhadores em Processamento de Dados (SindPPD/RS) e o Sindicato das Empresas de Informática (Seprorgs), arrastou-se por mais de sete meses e deixou várias lições à categoria para as novas lutas neste ano de 2025.

As negociações foram deliberadamente atrasadas pelo sindicato patronal, o que, em meio a um cenário de calamidade provocado pelas enchentes que atingiram o Rio Grande do Sul, resultou na aceitação de uma proposta abaixo das expectativas dos trabalhadores.

A primeira mesa de negociação entre os sindicatos ocorreu em 09 de novembro de 2023, onde o SindPPD apresentou as pautas aprovadas pelos trabalhadores em assembleia. Entre as principais demandas da categoria estavam: reajuste salarial pelo Índice Nacional de Preços ao Consumidor (INPC), sendo de 4,14% para a data-base de 01/11/23, mais 5% de aumento real; R$ 600,00 de auxílio-creche; R$ 300,00 de auxílio-rancho; R$ 35,00 de vale alimentação/dia; R$ 200,00 mensais como auxílio trabalho remoto; estender a licença paternidade para 20 dias e redução da jornada de trabalho para 40h semanais sem redução salarial.

Apesar de o sindicato patronal ter se comprometido em levar as demandas da categoria para discussão com empresários, logo na segunda mesa de negociação, 13 dias depois, trouxe uma contraproposta com 16 itens, alguns que já se repetem há anos, como: regionalização dos pisos salariais e dos benefícios, pagando valores diferentes para colegas que residem em Porto Alegre e no interior do Rio Grande do Sul; limitação do número de quinquênios; diminuição do adicional noturno. Nada declararam sobre as demandas apresentadas pelos trabalhadores.

Impacto das enchentes

As enchentes que devastaram o estado em maio de 2024 trouxeram uma nova camada de pressão para os trabalhadores. Muitos profissionais de tecnologia da informação foram gravemente afetados, perdendo seus lares e equipamentos, ou enfrentando dificuldades para continuar trabalhando remotamente. Enquanto o estado enfrentava uma situação de calamidade, o Seprorgs continuou a postergar as decisões, o que agravou ainda mais a situação da categoria. O sindicato patronal não mostrou qualquer sensibilidade diante da crise, recusando-se a adiantar negociações ou a conceder qualquer alívio aos trabalhadores.

O SindPPD cobrou para que as empresas pelo menos adiantassem o pagamento do reajuste do INPC para os trabalhadores mais afetados pelas enchentes, mas os patrões alegaram que estavam sofrendo muito com a crise. Pois bem, os trabalhadores estavam muito pior!

Finalmente, em maio de 2024, após quase sete meses de negociações, chegou-se a um acordo, aceito pelos trabalhadores devido às circunstâncias. A principal proposta garantiu um reajuste salarial de 4,14% entre novembro de 2023 e maio de 2024, seguido de um reajuste de 4,75% a partir de junho de 2024. 

A luta continua

A proposta final não representou os ganhos reais que a categoria esperava, mas o núcleo de trabalhadores de tecnologia da informação e comunicação do Movimento Luta de Classes (MLC) esteve presente nas assembleias e avalia que há muito trabalho de mobilização a ser feito para que as demandas da categoria ganhem força para a campanha salarial 2024/2025, que já foi deflagrada com uma assembleia virtual no último dia 22 de outubro. A pauta de reivindicações aprovada traz ajustes significativos e mantém pautas centrais, como a redução da carga horária semanal.

Fazemos um chamado à organização junto aos núcleos do MLC para direcionarmos nossos esforços de forma coletiva. Temos que ocupar os sindicatos, fortalecê-los para avançar nas pautas econômicas e políticas.

Matéria publica na edição impressa nº 305 do jornal A Verdade