UM JORNAL DOS TRABALHADORES NA LUTA PELO SOCIALISMO

sábado, 11 de abril de 2026
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Estudantes de São Gonçalo do Amarante (RN) protestam por ônibus suspenso no início do ano

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Prefeitura de São Gonçalo do Amarante (RN) suspende Transporte Universitário (TI) no início deste ano. Estudantes protestam reinvidicando esse direito.

Caju Bezerra | Natal (RN)


EDUCAÇÃO — Os estudantes da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) moradores de São Gonçalo do Amarante retornaram às aulas no dia 7 de janeiro com uma surpresa: O Transporte Universitário (TU) cedido pela prefeitura foi suspenso com a justificativa da perda dos cadastros pela secretaria responsável. Não é de hoje o descaso com o Transporte Universitário da região metropolitana; apesar da demanda existente, os ônibus são cedidos para o turno noturno exclusivamente o que prejudica os estudantes dos demais horários. Além disso, a má comunicação e desinteresse da Prefeitura também têm indignado os estudantes

Essa suspensão ocorreu poucos dias após um retrocesso no transporte público: o aumento da tarifa de ônibus de Natal para 4,90 ocorrido no dia 26 de dezembro, mesmo com manifestação popular contrária. Dessa forma, os estudantes da UFRN ainda precisam tirar do próprio bolso um gasto altíssimo para poder chegar na universidade utilizando um transporte já precarizado, além de levar horas para ir e retornar. Como boa parte dos estudantes noturnos também trabalha ao longo do dia, muitos são prejudicados na rotina exaustiva de dividir uma graduação com a jornada de trabalho exploratória, muitas vezes chegando em casa mais de meia noite. A utilização de um transporte universitário de qualidade ajudaria a não agravar essa situação.

A justificativa da prefeitura para a suspensão piora: No momento de troca de gestão haveria a perda dos dados dos estudantes que já contam com a carteira de uso do transporte universitário. O que revolta ainda mais os estudantes é que a própria carteira já é uma prova em documento físico que são usuários regulares do transporte. Além disso, em nota lançada, a Prefeitura admite que os transportes utilizados não estão em condições seguras para o deslocamento dos estudantes

Estudantes não se calam

Diante do descaso os estudantes da região metropolitana organizaram um ato em frente a parada da reitoria da UFRN, onde o transporte deveria estar funcionando. Levantando as reivindicações do retorno do transporte universitário, não apenas para o período da noite mas também para os demais turnos, denunciando o descaso e a irresponsabilidade da prefeitura, a resposta à mobilização foi um formulário on-line para o cadastro dos estudantes até o dia 31 do mês de janeiro, porém a UFRN ainda permanece em suas atividades até essa data. Sendo assim, os estudantes de São Gonçalo e região metropolitana ainda permanecerão sem transporte universitário por todo o mês.

“Já era muito difícil conseguir uma vaga para o ônibus e ele ainda vai superlotado, porém a mobilização veio agora com mais força pois nem o ônibus superlotado nós temos, o grupo de estudantes hoje se reúne e se organiza para lutar por essas reivindicações quer mais que isso, acreditamos que o estudante infelizmente não é valorizado e não existe uma preocupação de trazer um serviço que supra a necessidade dos estudantes de São Gonçalo” relata William Azevedo, estudante de Pedagogia da UFRN:

O que se demonstra cada vez mais é o descaso com a vida dos estudantes que já estão precarizados dentro da Universidade. Com um dos RU’s mais caros do nordeste, salas com má estrutura e atrasos nas bolsas, os estudantes da UFRN sentem as consequências disso na sua formação. Por isso o Movimento Correnteza cria espaços de luta através dos núcleos para debater e organizar atos e ocupações pela universidade pública gratuita, acessível e de qualidade. A organização estudantil é essencial para mudar a realidade universitária, após anos de descaso com o transporte universitário e público somente a luta organizada pode realmente dar as reivindicações e a visibilidade necessária para garantir não só o retorno do TU de São Gonçalo do Amarante para o período da noite, mas para dar voz à todos os estudantes afetados em toda a UFRN.

 

 

Mulheres ocupam Secretaria municipal de Educação de Natal (RN) por mais vagas nas creches e conquistam vitória

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Na última quarta-feira (12) as mulheres moradoras da periferia de Natal organizaram uma ocupação na Secretaria Municipal de Educação (SME)

Coordenação Estadual do Movimento de Mulheres Olga Benario | Natal (RN)


MULHERES – No dia 12 de fevereiro, cerca de 80 mulheres do Movimento de Mulheres Olga Benario ocuparam a Secretaria Municipal de Educação de Natal. As principais reinvidicações foram a ampliação de vagas nas creches dos bairros da Rocas e do Guarapes, além da criação de uma nova unidade no conjunto habitacional Village da Prata, localizado no Guarapes.

No ano passado, foram mais de mil crianças que não tiveram acesso a um centro de educação do nível infantil. Muitas dessas famílias não contempladas estão nas zonas periféricas da capital, como a zona oeste e a zona leste.

“Minha filha ainda tentou deixar meus netos comigo, mas sou uma pessoa doente e com muito problema de pressão. Para cuidar de criança você tem que ter uma saúde boa e acabou que não deu certo e ela teve que deixar o emprego [de garçonete] porque era o dia todo, quando não a noite”, relata Marinês Oliveira, moradora do Leningrado e militante do Movimento Olga Benario.

Além disso, com a mudança de gestão, a Prefeitura de Natal anunciou que pretende buscar PPPs (Parcerias Público Privadas) para construção de escolas e creches no município, com a alegação de cortar gastos. “Por que não reativar os CMEIs que já temos? Preferem enriquecer o bolso dos ricos, mas é a Prefeitura que é responsável pela Educação e não o setor privado”, critica Kivia Moreira, militante do Movimento Olga Benario.

Quem Luta, conquista!

Graças a manifestação na secretaria, foi acordado com o movimento que haveria uma reunião na próxima segunda-feira (17) entre o movimento e o atual secretário Aldo Fernandes para tratar dessa demanda pela creche nos bairros.  

Após meses de mobilização nas periferias com panfletos e o jornal A Verdade, estivemos conversando com as mulheres sobre as dificuldades enfrentadas pela falta de ter onde colocar suas crianças para poder ir trabalhar ou estudar. Assim conseguimos organizar núcleos do movimento nos bairros, onde debatíamos a necessidade da organização das mulheres e a falta de perspectiva que nos é colocada por causa desse sistema capitalista.

Servidores lutam por pagamento de salários na Bahia

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Alegando falta de recruso, Prefeitura de Servidores Lauro de Freitas (BA) atrasa o salário dos servidores municipais no mês de dezembro. Servidores se mobilizam para lutar pelo salário

Vitória Louise | Movimento Luta de Classes 


BRASIL – A Prefeitura do Município de Lauro de Freitas (BA), na Região Metropolitana de Salvador, deixou os servidores municipais sem o pagamento de salário no mês de dezembro. A atual prefeita, Débora Régis (União Brasil), alega que a antiga gestão, encabeçada por Moema Gramacho (PT), não deixou recursos suficientes em caixa para a realização dos pagamentos. Porém, um levantamento feito pelas entidades sindicais indica que a Prefeitura tem sim verbas para remunerar os trabalhadores.

Passado o período da transição de governos, os servidores esperavam receber no dia 08 de janeiro o salário referente a dezembro, no entanto, foram surpreendidos com o anúncio da de que não receberiam. Desde então, os trabalhadores se mobilizaram, organizaram manifestações ao longo da semana, incluindo passeatas no Centro da cidade e a ocupação do Centro Administrativo Municipal.

Para Renata Pinheiro, professora de História e Cultura Afro-brasileira, a situação é revoltante. “A declaração inicial era de que eles não tinham responsabilidade em fazer a quitação do pagamento da gestão anterior, o que é um equívoco gigantesco, porque nós trabalhamos normalmente e quem assume a gestão assume todas as responsabilidades”, afirmou.

Professores perseguidos

No caso dos professores e docentes do município, além do não receberem o salário de dezembro, ficaram sem receber as férias coletivas referentes a janeiro. Para os servidores da educação, o município poderia contar com os recursos federais do Fundeb, mas, para punir os professores, a atual gestão optou por não utilizar esse recurso para honrar o pagamento da folha.

 A situação de muitos deles é delicada, a exemplo da servidora Geisa Silva, professora efetiva da rede municipal há 13 anos, enfrentando uma situação de vulnerabilidade social. Geisa tem um filho com autismo em nível III, com fortes crises, que levam à necessidade de utilizar fármacos que não podem ser comprados sem o salário.

“Aqui não existe marginal e nem bandido. Nós somos trabalhadores, servidores. Nós estamos aqui reivindicando o nosso salário e as nossas férias, que são direito nossos. Está na legislação, qualquer trabalhador, independente de qual tipo de contrato ele tenha, tem o direito de receber a sua remuneração. Então ninguém tá aqui fazendo baderna. Estamos reivindicando aquilo que é nosso! Eu tô numa situação que eu não tenho uma margarina na minha geladeira, mas eu tenho um salário para receber”, denuncia Geisa.

Além de todo o vexame a que a Prefeitura está submetendo os servidores públicos, vereadores da mesma ala política da atual gestão foram à manifestação dos professores para perseguir e tentar desmoralizar os lutadores sociais. Gabriel Bandarra, um vereador do PL, ameaçou agredir o professor Mateus Costa, militante da Unidade Popular e do Movimento Luta de Classes (MLC). Em tom de provocação de briga, o vereador esbanjou desrespeitos contra Mateus e todos os trabalhadores que estavam presentes exigindo seus direitos, mas acabou expulso da manifestação.

Dinheiro tem

Na saúde, iniciou-se o ano com o de R$ 43 milhões no caixa municipal. A natureza neoliberal da gestão do União Brasil prioriza guardar fundos maltratando os servidores para usar da forma que eles querem. Na educação, havia pouco mais de R$ 1 milhão de sobras do Fundeb e preferiram não usar para os salários. O Fundeb de janeiro chegou e não foi imediatamente utilizado para pagar o terço de férias dos professores. Então isso demonstra uma vontade política e hoje é dia 20 de janeiro e já temos R$ 26 milhões de transferências constitucionais nas contas do município, que é suficiente para pagar a folha de todo o município. O que percebemos é que esse governo quer desgastar os setores públicos”, explicou Valdir Silva, diretor do Sindicato dos Trabalhadores em Educação de Lauro de Freitas (Asprolf).

Na tarde do dia 17, a prefeita propôs realizar o pagamento de dezembro em seis parcelas. A categoria recusou a proposta por considerá-la indecente e decidiu, em assembleia geral, manter a paralisação. No dia 20, os servidores públicos municipais ocuparam o Centro Administrativo e foi realizada uma assembleia com muita mobilização. Os servidores levaram piscina, dominó, guarda-sol e denunciaram: “Nós estamos passando as nossas férias exigindo o nosso salário – o direito básico dos servidores, é rir para não chorar”.

Para Eslane Paixão, presidenta estadual da Unidade Popular na Bahia, que estava presente na assembleia, “esse ataque aos servidores públicos representa uma política de ataque aos setores públicos. Querem precarizar o público para fortalecer o falso discurso que o público não funciona, para depois apresentarem a mágica solução de privatizar para funcionar. A verdade é que, ao não pagar os salários, a Prefeitura está agindo de acordo com o projeto neoliberal de desvalorizar seu quadro de funcionários. Nós, da Unidade Popular, nos colocamos em apoio aos servidores públicos, pois entendemos que devemos lutar para manter e fazer funcionar as instituições públicas que passam pelo processo de desmonte no nosso país” concluiu. 

Com muita combatividade e pressão, os trabalhadores lutaram até a prefeita decidir dar as caras na cidade e negociar alguma proposta com o comando de greve. Os servidores em luta recusaram qualquer tentativa de redução de direitos. Assim, no último dia 24, doi confirmado que a Prefeitura cumpriu o acordo de pagamento.

As categorias dos servidores públicos municipais em Lauro de Freitas saíram muito fortalecidas desta luta. Essa conquista só foi possível graças aos servidores que lutaram, exigiram seus direitos, organizaram várias atividades de paralisação dos serviços públicos e organizaram uma greve unificada, que pressionou a Prefeitura até a conquista da reivindicação.

Mais uma experiência que demonstra que só conquista quem luta e reafirma a greve como uma ferramenta de fundamental para a classe trabalhadora, além de mostrar a importância de construir sindicatos classistas e combativos.

Prefeitura de SP quer despejar 300 famílias na Zona Sul

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Moradores da Favela Esperança e da Favela do Boi, na Zona Sul de São Paulo, se mobilizam para barrar o despejo de suas comunidades. O prefeito Ricardo Nunes (MDB) ameaça recorrer à polícia se a região não for desocupada até 24 de fevereiro

Bia Behling e Elania Santos | São Paulo (SP)


Neste início de ano, as comunidades da Favela Esperança e da Favela do Boi, localizadas na Vila Joaniza (Zona Sul de SP), travam uma luta contra uma tentativa de despejo promovida pela Prefeitura de São Paulo. Sob a justificativa da construção de um piscinão para conter enchentes, a gestão do prefeito Ricardo Nunes (MDB) planeja remover cerca de 300 famílias da área, sem oferecer uma alternativa digna de moradia.

No último dia 26 de janeiro, os moradores organizaram uma manifestação que bloqueou a Av. Yervant Kissajikian, uma das principais vias da região, para chamar atenção à situação. Em resposta, representantes das secretarias de Habitação (Sehab) e Infraestrutura Urbana e Obras (Siurb) realizaram uma reunião com os moradores para defender o projeto. Segundo os moradores, as justificativas apresentadas não convenceram.

“Eles dizem que é para conter alagamentos, mas os moradores afirmaram que as enchentes já diminuíram drasticamente após as obras realizadas pela Sabesp no córrego Zavuvus. Nós não vemos necessidade dessa obra aqui”, afirmou Francisco, morador da comunidade.

Despejo e valores desatualizados

Os moradores também questionaram as alternativas oferecidas pela prefeitura. Entre as propostas criticadas, estava o pagamento de um auxílio-aluguel no valor de R$600,00 para parte das famílias, considerado insuficiente para cobrir as despesas com moradia em São Paulo. “Esse valor é o mesmo de seis anos atrás e não reflete a realidade do mercado imobiliário atual. Hoje em dia, não se aluga nem um banheiro por esse preço”, denunciou um dos moradores.

Além disso, os proprietários de terrenos particulares relataram terem recebido um comunicado exigindo a desocupação até o dia 24 de fevereiro, sob pena de uso de força policial.

A situação afeta 364 famílias, de acordo com os moradores. “Eles falam que a obra é para beneficiar a comunidade, mas vão arrancar a comunidade daqui. Nós somos a comunidade”, desabafou um manifestante.

A construção do piscinão é apresentada pela Prefeitura como parte de um plano para mitigar enchentes na região, mas os moradores acreditam que os verdadeiros beneficiários serão os empreendimentos imobiliários que cercam a área, cada vez mais presentes na Zona Sul de São Paulo. “Esse projeto parece muito mais voltado para os ricos do que para quem vive aqui”, apontou outro morador.

Próximos passos

O episódio lança luz sobre a necessidade de uma profunda reforma urbana popular para o povo que vive nos bairros, vilas e favelas, especialmente nos grandes centros urbanos, onde o avanço de projetos de infraestrutura frequentemente é utilizado como pano de fundo para os fascistas agirem contra os direitos dos trabalhadores.

Os moradores prometem continuar se mobilizando para impedir os despejos. A Prefeitura ainda não se manifestou sobre as críticas em relação aos valores oferecidos ou sobre a falta de alternativas habitacionais definitivas. A tensão deve aumentar nas próximas semanas, com o prazo de desocupação se aproximando, mas a população promete lutar.

“Nós queremos ser removidos apenas se for direto para uma nova casa, com as chaves na mão, e pelo valor justo para nossos terrenos”, completou o morador Francisco.

Frei Caneca: 200 anos do martírio de um revolucionário

A Revolução Pernambucana de 1817 foi um dos principais levantes republicanos do Brasil colonial. O movimento foi brutalmente reprimido, e Frei Caneca, líder da Revolução enfrentou perseguição e foi assassinado aos 45 anos de idade.

Luiz Alves | Redação


HERÓIS DO POVO BRASILEIRO – Na primeira metade do século 19, o Nordeste brasileiro, tendo Pernambuco como centro, foi palco de importantes lutas pela independência e pela república. Esse ímpeto revolucionário não se deu por acaso, como nada na História, aliás.

No início do século entrava em crise a economia regional, com o declínio da produção do açúcar e do algodão, dada a perda de posição no mercado internacional. Os interesses econômicos deslocavam-se para o Sudeste, voltados para a produção cafeeira, que passava a ser a nova fonte de riqueza e poder. Por outro lado, a Coroa Portuguesa, instalada no Rio de Janeiro desde 1808, fugindo das tropas francesas, aumentava constantemente a carga tributária para poder sustentar o seu luxo parasitário.

No Nordeste todas as classes sociais sofriam as consequências dessa política imposta pela dominação da monarquia portuguesa. A insatisfação transformou-se em rebelião, que explodiu no dia 06 de março de 1817, derrubou rapidamente o governo imperial e instalou a república em Pernambuco. O movimento alastrou-se pelas capitanias vizinhas, vencendo também em pouco tempo na Paraíba, no Ceará, no Maranhão e em Alagoas. 

A República só durou 75 dias. A contrarrevolução portuguesa foi mais forte e retomou o poder. As classes dominantes não tiveram contemplação com os lutadores. Os principais líderes foram enforcados, e três deles, para servirem de “exemplo”, depois de enforcados tiveram as mãos cortadas, as cabeças decepadas e os restos dos cadáveres amarrados na cauda de cavalos e arrastados pelas ruas até o cemitério.

Cristianismo revolucionário

O seminário de Olinda, fundado em 1800, era um centro de formação cultural, ensinando aos seus seminaristas não apenas a teologia, mas também o conhecimento das ciências naturais e humanas. Foi por ele que penetraram no Nordeste as ideias da Revolução Francesa, de democracia, liberdade, igualdade, fraternidade. O seminário não formou simples padres, mas homens cultos e lutadores. Sessenta padres e dez frades participaram da Revolução de 1817, entre eles frei Joaquim do Amor Divino Caneca.

Preparando as novas batalhas

Caneca não era nome de família. Nosso herói foi registrado Joaquim do Amor Divino Rabello. Nasceu no Recife no ano de 1779. Seu pai, Domingos da Silva Rabello, tinha uma oficina onde fabricava toneis e canecas; por isso apelidaram-no “frei da caneca”, e ele, numa homenagem à profissão do pai, incluiu “caneca” no sobrenome. Ordenou-se cedo, aos 17 anos, no seminário de Olinda. Contemplativo e estudioso, foi professor e escritor, com várias publicações sobre Retórica, sobre a Oração, Tratado de Eloquência (sobre literatura), entre outras obras.

Da contemplação partiu para a ação, engajando-se na Revolução de 1817, na qual teve uma participação discreta. Foi preso e, juntamente com os demais revolucionários, encaminhado para uma casa de detenção em Salvador. 

O período como prisioneiro foi altamente produtivo. Organizou cursos para os presos políticos e comuns, principalmente para os últimos, pois fazia questão de dizer: “…eu não escrevo para os homens letrados e sim para o povo rude que não tem aplicação às letras”. A partir dessas aulas redigiu um Breve Compêndio de Gramática Portuguesa

A monarquia portuguesa teve um certo enfraquecimento quando as tropas de Napoleão foram expulsas de Portugal, mesmo com a Corte refugiada no Brasil. Em 1820, uma rebelião na cidade do Porto (Portugal) exigiu um regime constitucional. Esse movimento repercutiu no Brasil: em várias capitanias os governos nomeados pelos portugueses foram substituídos e lançou-se uma campanha pela anistia para os presos políticos de 1817. Finalmente, D. João VI voltou para Portugal, jurando respeitar a constituição, e decretou a anistia no Brasil, em 1822.

Os anistiados foram recebidos com festa no Recife. Frei Caneca continuou a luta pela independência do Brasil e por um regime constitucional. Divulgava suas ideias em folhetos distribuídos de mão em mão. Acreditava que o povo estava consciente e ansioso por mudanças.

Um falso grito de independência

Pedro I seguiu a orientação do seu pai e antecipou-se ao movimento pela independência, que tomava corpo em todo o país, em especial no Nordeste, que já vinha conflagrado desde 1817. Em sete de setembro de 1822, o príncipe regente proclamou a “independência” do Brasil e convocou uma Assembleia Constituinte para elaborar o ordenamento jurídico do estado brasileiro.

Instalada a Assembleia Constituinte, as discussões encaminharam-se para a consolidação da independência e do regime constitucional. Em 1823, o Imperador Pedro I dissolveu-a, temendo que não lhe fosse dado o Poder Moderador, na verdade um absolutismo disfarçado, pelo qual ele poderia alterar ou vetar qualquer decisão que contrariasse os seus interesses.

Levante pela República

O Nordeste continuava vivendo um quadro de estagnação econômica, vítima das desigualdades regionais. As esperanças voltavam-se para a constituinte. Ao dissolvê-la o imperador acendeu o estopim da revolta. 

Frei Caneca lançou um jornal O Thypis Pernambucano, através do qual pregava a luta revolucionária. Escrevia: “…um monarca, quando incorre na desconfiança da nação, é imediatamente reputado um inimigo interno”.

Os pernambucanos rejeitaram a nomeação de Paes Barreto para governador, feita pelo imperador, e escolheram Manoel Carvalho Paes de Andrade. O mesmo ocorreu no Ceará, onde foi eleito para o governo um revolucionário, Tristão Alencar Araripe. Paraíba e Rio Grande do Norte também aderiram ao movimento. Nasceu a Confederação do equador, a república nordestina, proclamada oficialmente em 02 de julho de 1824. Mas não se tratou de um movimento separatista. O manifesto republicano fez um apelo às demais províncias para se unirem em torno de um regime democrático, em defesa da soberania nacional. No Recife, o governo Paes Andrade tomava as decisões mais importantes em assembleias públicas secretariadas por Frei Caneca.

No movimento pela república e pela independência uniram-se as diferentes classes e setores da sociedade pernambucana, cada um entendendo o sentido da liberdade em conformidade com os seus interesses. Na elaboração do anteprojeto de constituição, quando a comissão acenou para o fim da escravidão, os grandes proprietários recuaram. Frei Caneca tentou manter a unidade propondo no seu jornal: “…só há um partido, que é o da liberdade civil e o da felicidade do povo; e tudo o que não for isso há de ser repulsado a ferro e fogo”.

A divisão enfraqueceu o poder republicano, e o governo imperial aproveitou para contra-atacar. Contratou uma esquadra inglesa e enviou uma tropa terrestre de 3.500 soldados, que entrou no Recife no dia 12 de setembro de 1824.

A maioria dos confederados rendeu-se, mas foi afogada num mar de sangue. Alguns líderes conseguiram fugir, entre eles o governador Paes de Andrade, que se asilou num navio inglês.

Em vez de terço, um fuzil

As forças populares decidiram continuar a luta. Somavam cerca de três mil revolucionários em todas as províncias nordestinas, mas ficaram com poucas armas e munições, treinamento precário e quase nenhum dinheiro. A estratégia foi deslocar-se para os sertões, proclamar uma “República de Lavradores”, desenvolver uma guerra de guerrilhas e ir acumulando forças para retomar o litoral.

Frei Caneca largou a batina, vestiu um “jaleco de guerrilheiro” e seguiu com a coluna popular. No final de setembro reuniram-se em Pitimbu os revolucionários de Pernambuco, da Paraíba e do rio Grande do Norte, e decidiram rumar para o Ceará, onde avaliavam que as tropas populares estariam em melhores condições. Conseguiram chegar a Juazeiro do Norte, mas a rebelião já havia sido derrotada. Famintos, desanimados com o quadro encontrado, foram cercados pelas tropas governistas e resolveram render-se. Presos, os revolucionários foram conduzidos para o Recife.

“Um patriota não morre”

Tamanha era a popularidade de Frei Caneca, a admiração e o respeito que lhe tinha o povo, que três carrascos preferiram morrer sob tortura a executar a sentença do enforcamento. Começou um movimento por sua absolvição, mas a ordem era irrevogável. O comandante mandou que um pelotão fuzilasse o frade. Na hora da formação, um soldado caiu fulminado por um ataque cardíaco. O comandante Lima e Silva (pai do futuro Duque de Caxias) não recuou: afastou o soldado morto e ordenou o fuzilamento. Foi no dia 13 de janeiro de 1825, no largo do Forte das Cinco Pontas, atras do conhecido forte, que hoje é um ponto turístico.

A condenação à morte não abalou Frei Caneca. Nos seus últimos dias continuou falando aos companheiros de prisão, mostrando que luta tinha de continuar, era preciso sempre “lutar contra os tiranos”. Aos sentinelas, mostrava que “serviam de apoio aos déspotas”. Contava histórias engraçadas para o pessoal rir, não queria ninguém triste. Na véspera do seu assassinato, aos 45 anos de idade, escreveu:

“Tem fim a vida daquele

Que a pátria não soube amar

A vida do patriota

Não pode o tempo acabar”.

*Texto publicado em A Verdade nº 11 (2000)

Coletivo Invisíveis e a luta entre os trabalhadores e trabalhadoras terceirizados

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Na luta da classe trabalhadora a organização nas bases e a solidariedade de classe, são princípios centrais para garantir direitos.

Neste sentido, a militância do Jornal A Verdade tem dialogado com uma iniciativa de luta de destaque na cidade do Rio de Janeiro, o coletivo Invisíveis, que protagoniza ações de defesa de direitos de trabalhadores e trabalhadoras terceirizadas. Confira o relato dos trabalhadores sobre a luta dos terceirizados organizados pelo Coletivo Invisíveis. 

Redação RJ


“Somos um coletivo surgido a partir da necessidade de unir lutas entre trabalhadores terceirizados, estudantes e servidores. Iniciado em Goiânia, com jornal de relatos anônimos dos funcionários da limpeza denunciando que eram impedidos de usar a copa em um setor da UFG. A organização passou a trocar experiências com mobilizações parecidas em São Paulo e Rio de Janeiro, onde atuam hoje na UERJ , UNIRIO e UFRJ.

Essa experiência provocou a percepção de que a precarização e terceirização constantes ameaçando o funcionalismo público, levou a necessidade de união com as demandas e lutas dos trabalhadores terceirizados. Mas, como realizar essa aliança eles se encontram reprimidos por condições sociais e sindicatos que muitas vezes os abandonam ou apoiam seus patrões? Além de serem perseguidos e demitidos.

Mobilizações são criminalizadas e o direito de greve é suprimido. Se comparar com a proibição na época da Ditadura Civil-Militar dos anos 60/70/80, a burocracia e dificuldades para realizar uma paralisação fazem HOJE ser semelhante ou até PIOR. Assim, a voz do terceirizado é uma VOZ AUSENTE na maior parte da esquerda ou do movimento sindical. Para construir uma solidariedade como sujeitos ativos, o Invisíveis faz mídias com JORNAL IMPRESSO, SITES e INSTAGRAM para divulgar relatos anônimos, garantindo a segurança.

As publicações contém denúncias de trabalho, para constranger patrões, gestores e empresas. E também para discutir política, onde terceirizados pensam articulação e mobilização. Para fazer a organização de base. Através dela que o trabalhador impulsiona suas ações. Fortalecido pela solidariedade entre categorias. Atuamos entre terceirizados da limpeza, bandejão, vigilantes, auxiliares administrativos, hospitalares, entre outros de universidades públicas.

Agora vemos que a mobilização é crescente diante da campanha pelo FIM DA ESCALA 6 X 1. Mais trabalhadores estão questionando a situação. E a esquerda e suas organizações? Se agora tomaram para si a luta, é preciso paciência e foco no que importa: a vida de milhões de trabalhadores que precisam de apoio para lutar contra seus patrões, que vão usar de seu poder para impedir a proibição da jornada 6×1. Assédios, ameaças, demissões, compras de apoio, calotes em salários. Por isso, é muito importante apoiar trabalhadores nas lutas diretas contra patrões nos locais de trabalho. E isso passa nas universidades públicas, onde a jornada 2×5 é a norma, mas há terceirizados que trabalham na 6×1.”

Conheça a página do movimento no Instagram.

Estudantes conquistam alteração na Matriz Curricular da rede estadual RJ

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A alteração foi um avanço, mas a reforma no Novo Ensino Médio não garante uma educação de qualidade para todos, precisamos da revogação imediata dele.

Yasmin Farias | presidente da AERJ


EDUCAÇÃO – Nos últimos anos, houve um crescente aumento das reformas e retiradas de direitos do povo e a educação se vê cada vez mais como foco de ataques. Prova disso são as recentes políticas de privatização, militarização e aprofundamento das desigualdades com o Novo Ensino Médio. 

No Rio de Janeiro, o projeto de precarização da educação se articula utilizando como principal ferramenta o Novo Ensino Médio, que retirou diversas matérias da formação geral básica para aplicar os “itinerários formativos”, como “Brigadeiro Gourmet”, “O que rola por aí” etc. 

Fica claro o objetivo do projeto de precarização das escolas públicas: esvaziar as salas de aula com o aumento da evasão escolar, minar o desenvolvimento do senso crítico dos jovens e acabar com o sonho do ensino superior público para a juventude pobre. 

Mas, apesar do crescimento dos ataques às escolas, os estudantes não se renderam e se organizam na luta coletiva cada vez mais. A Associação dos Estudantes Secundaristas do Rio de Janeiro (AERJ), junto com outras entidades estudantis e de Profissionais da educação, organizou uma grande jornada de lutas contra o Novo Ensino Médio no RJ.

Essa jornada de lutas contou com rodas de conversas nas escolas, grandes atos pelo Revoga NEM e uma consulta pública sobre a matriz curricular da Rede estadual, que apresentava uma proposta de nova Grade de matérias para as escolas estaduais, que retirava a matéria “projeto de vida” e outros itinerários formativos irrelevantes para a nossa formação, e estabelecia o mínimo de 2 tempos para as matérias de formação geral básica (história, filosofia, biologia, física, …), essa proposta foi articulada com o GT Contra a Reforma do Ensino Médio, composto por professores da rede estadual, o Sindicato dos profissionais de educação(SEPE) e a AERJ. 

Após essa grande jornada de luta, a rede estadual de ensino do Rio de Janeiro passou a adotar uma nova configuração curricular, baseada na proposta elaborada pelos estudantes e profissionais da educação. 

Apesar de celebrada como uma conquista, a mudança não resolve todos os problemas gerados com a reforma do Ensino Médio, implementada em 2017. “A alteração foi um avanço, mas a reforma no Novo Ensino Médio não garante uma educação de qualidade para todos, precisamos da revogação imediata dele. Por isso, a luta dos estudantes continua, na busca por uma educação de qualidade, e em defesa de um projeto de ensino médio que seja democrático” afirma Isabella Samara, vice presidenta da AERJ. 

Com essa vitória, os estudantes secundaristas mostram, mais uma vez, que a luta organizada  conquista e que é possível, através dela, mudar a realidade da nossa juventude. 

A quem servem os acordos com o Centrão no parlamento?

Não é novidade a defesa de diversos setores da esquerda, sobre os “necessários” acordos com o Centrão para ocupação dos espaços em mesas legislativas, sejam elas municipais, estaduais ou mesmo na Câmara dos Deputados. Mas qual o custo dessa posição? A troco de que?

Rafael Pires | Diretório Nacional da UP


OPINIÃO – No último dia 1 de fevereiro, com a segunda maior votação da história da eleição para a presidência da Câmara dos Deputados, Hugo Motta (Republicanos-PB), o candidato de Arthur Lira (PP-AL), foi eleito para dirigir durante os próximos dois anos a mais importante casa do parlamento brasileiro.

Com apenas 35 anos, em seu quarto mandato de deputado federal e sem nunca ter trabalhado na vida, Hugo é filho de uma tradicional e oligarca família política na cidade de Patos (PB). Quando Hugo tinha 3 anos, sua avó era vice-prefeita da cidade, e em todas as eleições municipais desde então, sua avó ou pai, atual prefeito, disputaram a eleição para a maior cidade do sertão paraibano.

Ao longo de sua vida na Câmara dos Deputados, Hugo nunca deixou ninguém duvidar de que ele tem lado. Foi tropa de choque do corrupto Eduardo Cunha, ex-presidente da Câmara, apoiou e votou a favor do impeachment de Dilma, compôs a base de Michel Temer e Bolsonaro, sempre se posicionou contra os direitos da classe trabalhadora e a favor dos cortes no orçamento público, e figura ativa na articulação junto a Lira da construção do “orçamento secreto”, aquele que permite aos deputados indicar e desviar verbas sem nenhum controle público ou judicial. 

Foi graças a esse grande currículo e o apoio do governo federal que ele recebeu 444 votos em sua eleição, iniciando em grande estilo uma gestão que, já em seus primeiros dias demonstrou suas intenções, coerente com sua história e compromissos. Hugo declarou que teria imparcialidade e que está pronto para debater com os líderes o projeto de anistia com os golpistas de 8 de janeiro, defendeu ainda discutir proposta de implantação do parlamentarismo, e defendeu com unhas e dentes a continuidade do orçamento secreto!

No Senado, a situação não foi melhor. Os partidos sociais-democratas do governo federal (PT, PDT e PSB) decidiram por apoio David Alcolumbre, que já tinha sido presidente da Casa entre 2019 e 2021. Nesse período, Alcolumbre foi peça central para impedir o impeachment de Bolsonaro e criar o “orçamento secreto”. Além disso, junto com o então presidente da Câmara, Rodrigo Maia, aprovou a Reforma da Previdência, que impede milhões de pessoas de conseguir suas aposentadorias no país.

O que a esquerda ganha apoiando Hugo Motta e David Alcolumbre?

Não é novidade a defesa de diversos setores da esquerda, sobre os “necessários” acordos para ocupação dos espaços em mesas legislativas, sejam elas municipais, estaduais ou mesmo na Câmara dos Deputados. Mas qual o custo dessa posição? A troco de que? Com a eleição de Hugo Mota, algo foi pautado e acordado sobre a votação de projetos em favor da classe trabalhadora e do povo? A votação pelo fim da escala 6×1 foi assegurada com esse apoio? 

Há dois anos, Arthur Lira foi reeleito e se tornou o deputado mais votado da história com 464 votos entre os 513 deputados, com o voto de praticamente toda base do governo Lula. Isso não o impediu de perseguir a atuação da esquerda na Câmara, dando sustentação ao absurdo processo de cassação do Deputado Glauber Braga (PSOL-RJ), por exemplo. A votação da taxação das grandes fortunas ou a ampliação da isenção do Imposto de Renda para R$ 5 mil não saíram do papel com o “aliado” Arthur Lira. 

A ilusão em transformar e mudar a vida da população através de acordos no parlamento, ou mesmo em nome da “estabilidade” do governo é tão grande que ignoram-se os fatos e tentam negar as coisas como elas verdadeiramente são. Arthur Lira e Hugo Mota tem compromissos profundos com a corrupção parlamentar, a troca de favores e as negociações com o dinheiro público para benefício do agronegócio e do capital financeiro, enquanto fecham os olhos para os reais problemas do povo.

Dessa forma, o que a esquerda consegue junto com esses e tantos outros candidatos nas assembleias e câmaras municipais é apenas se igualar aos partidos do Centrão e da direita, apresentando para toda população que, no fim das contas, estarão todos juntos, mais uma vez.

É preciso avançar com radicalidade e consequência a luta popular. Qualquer medida que enfraqueça a autoridade da luta popular frente os acordos parlamentares, deve ser repudiada. Não podemos nos esquecer que a luta contra o fascismo não acabou. Conciliar com vereadores e deputados da extrema direita e seu braço auxiliar, o Centrão, em troca de cargos e espaços em mesas diretoras e comissões parlamentares é negar o único caminho que temos para esmagar o fascismo: aumentar a mobilização popular e o desenvolvimento das lutas de rua.

Palestinos conquistam cessar-fogo e a libertação de 2 mil reféns presos em Israel

O acordo pode ser considerado uma importante vitória da causa palestina. O governo do ditador Benjamin Netanyahu, por sua vez, sai sem garantir nada do que queria. A resistência palestina continua a existir e, mesmo com o genocídio, o povo palestino continua a sobreviver em Gaza.

Felipe Annunziata | Redação


No dia 19 de janeiro, iniciou-se o cessar-fogo na Faixa de Gaza, após quase 500 dias de genocídio televisionado. Entre os primeiros palestinos a ganharem a liberdade das prisões de Israel, como parte do acordo válido por seis semanas entre o grupo Hamas e o Estado de Israel, 70 mulheres e 20 adolescentes (meninas e meninos de 15 anos presos em ataques soldados sionistas a cidades palestinas na Cisjordânia). “Prisão significa escuridão. Você não vê ninguém. É apenas um túmulo”, disse a jovem palestina Rose Khwais, de apenas 16 anos, libertada do cativeiro.

Com a saída dos reféns palestinos dos presídios, voltam a se multiplicar os relatos de torturas, maus-tratos e violações de direitos por parte do Estado de Israel. Mulheres, homens e adolescentes foram submetidos a espancamentos, estupros, privação de sono e de comida, entre outros tipos de tortura.

Uma das principais lideranças populares soltas é Khalida Jarrar, dirigente da Frente Popular de Libertação da Palestina (FPLP), organização de esquerda que faz o enfrentamento ao colonialismo de Israel desde a década de 1960.

Na segunda troca de prisioneiros, ocorrida no dia 25 de janeiro, mais 200 palestinos conseguiram a liberdade. Entre eles, Mohammed al-Tous, de 67 anos, refém de Israel desde 1985. Era o palestino mantido preso por mais tempo em Israel. Os palestinos libertados foram recebidos por uma multidão alegre em Ramallah, maior cidade palestina da Cisjordânia.

A libertação de militantes e jovens mantidos em cativeiro por Israel foi, sem dúvida, a maior conquista do cessar-fogo em Gaza. O acordo também prevê a saída gradual das tropas de Israel do enclave palestino e a garantia de que colonos israelenses não ocuparão o território.

Em Gaza, além dos escombros criados por Israel com a destruição de 90% da infraestrutura, dos cerca de 60 mil mortos e dos 2 milhões de deslocados, ficaram também a força e a resistência do conjunto do povo palestino. 

Um povo formado por homens, mulheres e crianças que não abriram mão em nenhum momento da sua terra natal para a ocupação de uma potência colonial estrangeira. A essa resistência os palestinos chamam de Sumud, palavra árabe que pode ser traduzida como “resiliência”. Este princípio guia a luta palestina desde a primeira limpeza étnica realizada por Israel em 1948. 

Agora, a primeira luta da população de Gaza é para começar a reconstruir suas vidas, como tantas vezes o fizeram nos últimos 77 anos. O povo do enclave também se prepara para iniciar a busca pelos corpos de entes queridos desaparecidos em meio aos bombardeios. No fim do ano passado, a estimativa da ONU era de que pelo menos 10 mil corpos de palestinos estejam soterrados.

É o caso de Inshirah Darabeh, de 55 anos, que tenta voltar para sua casa na Cidade de Gaza para procurar o corpo de sua filha, Maram, de 36 anos, assassinada por Israel em outubro de 2023. Inshirah tenta caminhar cerca de 10 km desde onde está refugiada até sua antiga casa, destruída por Israel. “Não estou voltando para procurar minha casa, o que eu só quero é colocar minha filha num túmulo e colocar seu nome numa lápide”, afirmou a palestina a rede al-Jazeera.

Olfat Abdrabboh, de 25 anos, tenta também achar o túmulo de seu filho de 4 anos assassinado pelo Exército israelense. A mãe palestina quer agora reconstruir sua vida com seus outros dois filhos. Ela também tenta reencontrar seu marido, da qual foi obrigada a estar separada desde o início do genocídio. À rede al-Jazeera, ela disse que “tudo que eu quero é colocar minha tenda em cima dos escombros da minha casa e reunir minha família”.

Causa palestina

Quando a resistência palestina iniciou suas ações em 7 de outubro de 2023, algumas prioridades foram estabelecidas para garantir o êxito da luta contra a ocupação sionista de Israel: a libertação do maior número possível de reféns palestinos das prisões israelenses; o impedimento de qualquer avanço de colonos de Israel na Faixa de Gaza; a colocação da luta pela libertação da Palestina como uma das prioridades na luta anti-imperialista mundial; e o impedimento da aproximação diplomática de Israel com os países árabes.

Ao contrário dos palestinos, Israel estabeleceu como objetivo principal a destruição completa das organizações da resistência armada da Palestina e a expulsão completa da população da Faixa de Gaza, seja por meio do genocídio ou do deslocamento forçado.

Lembrar desses objetivos é importante para entendermos o caráter vitorioso para os palestinos do acordo estabelecido no momento: 16 meses depois do início dos ataques de Israel, os palestinos garantiram a libertação de quase 2 mil reféns e prisioneiros políticos e a retirada gradual das tropas sionistas de Gaza.

Ao mesmo tempo, a atuação palestina impediu a aproximação de Israel com outros países árabes, que estão sendo forçados pelos trabalhadores de seus países a não celebrarem acordos com o Estado sionista. Foi o caso da Arábia Saudita, governado por uma monarquia absolutista, estava para fechar um acordo com Israel quando se iniciou o conflito e o genocídio em Gaza.

Portanto, o acordo pode ser considerado uma importante vitória da causa palestina. O governo do ditador Benjamin Netanyahu, por sua vez, sai sem garantir nada do que queria. A resistência palestina continua a existir e, mesmo com o genocídio, o povo palestino continua a sobreviver em Gaza.

Luta não acabou

Esta situação também mostra que o cessar-fogo tem um caráter temporário e, portanto, a luta pela libertação da Palestina não acabou. Desde o início da sua implementação, Netanyahu tem dado demonstrações de que pretende romper o acordo em março, após o fim da primeira fase. 

Por sua vez, o presidente fascista dos EUA, Donald Trump, tem se colocado a favor de uma guerra após a consolidação do seu novo governo na principal potência imperialista do mundo. Para Trump, assim como era para o antigo presidente Joe Biden, o conflito em Gaza é bom para os lucros bilionários da indústria armamentista dos EUA e a ocupação da Palestina pode garantir aos estadunidenses acesso mais fácil ao petróleo e gás do Oriente Médio.

Portanto, é urgente também a luta por justiça. “Os criminosos de guerra nazistas, após a Segunda Guerra Mundial, não deixaram de ser buscados. Pelo contrário, após a guerra, houve o Tribunal de Nuremberg. Por isso, a Corte Internacional deve continuar apurando a responsabilidade de Israel, dos Estados Unidos e de outros atores internacionais neste genocídio”, defende Ualid Rabah, presidente da Federação Árabe Palestina do Brasil (Fepal). 

E ele aponta ainda outros objetivos estratégicos: “Para o reconhecimento do Estado palestino, os Estados Unidos devem levantar seu veto na ONU; Israel deve retirar suas forças armadas e colonos de todos os territórios palestinos ocupados, incluindo a Cisjordânia; Gaza deve ser reconstruída às custas daqueles que provocaram sua destruição; e os mais de 18 mil detidos palestinos por Israel devem ser libertados”.

Cabe ainda destacar que, enquanto o acordo de cessar-fogo vale para a Faixa de Gaza, o Estado genocida de Israel segue assassinando na Cisjordânia. No dia 26 de janeiro, a menina Layla Khateeb, de apenas 2 anos, foi executada com um tiro na cabeça no campo de refugiados de Jenin. Segundo sua família, eles preparavam o jantar dentro da tenda quando perceberam os feixes de luz da mira a laser dos atiradores israelenses e, na sequência, vieram os disparos.

Por tudo isso, é fundamental nesse próximo período garantir a mobilização permanente dos povos do mundo em defesa da libertação palestina. Apesar de vitorioso, não se pode confiar no acordo fechado com Israel e os EUA. Para os senhores da guerra do imperialismo, qualquer oportunidade para retomar o genocídio será aproveitada.

É preciso que, no curto prazo, lutemos pela permanência do acordo de cessar-fogo para dar ao povo de Gaza tempo para reconstruir sua vida e à resistência palestina espaço para reorganizar suas forças. Tudo isso, para que, no futuro, a luta pela libertação completa da Palestina possa alcançar uma vitória definitiva.

Matéria publicada na edição n° 306 do Jornal A Verdade.

Manifesto de Fundação da Frente Negra Revolucionária


A Verdade reproduz trechos do Manifesto da FNR – Manoel Aleixo,
lançada oficialmente em 1º de fevereiro de 2025 em Recife.


Nós, o povo negro, maioria da população brasileira; nós, pretas e pretos, pardas e pardos, cansados do açoite contemporâneo do Estado capitalista, exaustos da exploração rica e branca do fascismo, indignados com a opressão selvagem imposta pelo racismo que tenta nos esmagar, nós nos levantamos, aquilombamos e decidimos lutar! 

Assim, nasce a Frente Negra Revolucionária (FNR) – Manoel Aleixo. Avança a Unidade Popular, impulsionada pela união de militantes negros e negras de várias organizações, como o Movimento de Luta nos Bairros, Vilas e Favelas (MLB), o Movimento de Mulheres Olga Benario, o Movimento Luta de Classes (MLC) e a União da Juventude Rebelião (UJR).

A história do negro no Brasil, ensinada nas escolas, narrada pelos brancos europeus, é contada a partir do período da escravidão, destacando os horrores do percurso enfrentado e as atrocidades desse desumano sistema social e econômico.

Não falam, ou apenas citam de relance, o Brasil de antes da invasão Europeia, das grandiosas realizações dos povos originários que governavam este território de norte a sul, sem a existência de fome, miséria ou destruição da natureza, e que foram os primeiros a sofrer com o genocídio promovido pelo invasor e que nunca deixaram de lutar lado a lado com o conjunto dos oprimidos e explorados por liberdade e justiça.

Não falam também da história do nosso país “agigantada” pela nossa ancestralidade negra que traz consigo beleza, cultura, tecnologia e todas as suas cores alegres e fortes, de um povo altivo e desenvolvido. Apresentam apenas, de maneira superficial, a nossa rica cultura afro-brasileira e a tradição negra, ocultando o legado histórico e cultural de luta e resistência dos povos escravizados. 

Nosso país ainda sofre com os resquícios dos mais de 400 anos de escravidão. Em pleno século 21, longe de sermos minorias, somos os menos favorecidos, os desaparecidos políticos, os encarcerados, os desempregados, os menos remunerados, somos aquelas que cuidam dos filhos dos patrões, nas mesmas “casas grandes”. Somos as mães que perdem os filhos pelas balas nada perdidas dos policiais. Vivemos asfixiados por um sistema socioeconômico, dito democrático, que, na tentativa frustrada de esconder suas mazelas sociais, nega o racismo, mas defende o lucro e não gente.

Somos a maior população negra fora do continente africano: 56,7% da população brasileira é preta e parda, ou seja, negra (PNAD – Contínua, segundo semestre de 2024). Somos a maioria dos trabalhadores (55%). E, se tudo produzimos, tudo a nós pertence!

É nessa perspectiva de combate e transformação que a Frente Negra Revolucionária (FNR) se organiza para pôr fim aos herdeiros dos senhores de escravos, a atual classe rica e dominante brasileira e para organizar os negros que ainda hoje necessitam vender sua força de trabalho para sobreviver e seguem sendo massacrados, física e “espiritualmente”, pelo sistema capitalista, racista e opressor. 

“Ser livre da matéria escrava, arrancar os grilhões que nos flagelam”

(“Livre”, Cruz e Sousa)

A letalidade policial no país aumentou 189% nos últimos dez anos, sendo que 90% do total de mortos eram negros (Agência Brasil, 2023). Dessa forma, as chacinas passaram a ser notícias correntes nos noticiários, revelando a maneira como a polícia tem operado nas periferias, como revelam as chacinas de Jacarezinho (RJ), do Guarujá (SP), de Camaragibe (PE) e a Operação Escudo (SP).  

Não esqueceremos: Evaldo Rosa, teve seu carro alvejado com mais de 250 tiros por militares do Exército em 2019 (recentemente, absolvidos); Amarildo Dias, que desapareceu após ter sido detido por policiais militares em 2016 (seu corpo nunca foi encontrado); Cláudia Silva, baleada por PMs e arrastada por cerca de 350 metros pela viatura policial. Lembraremos sempre de: Marielle Franco (RJ), Mãe Bernadete (Quilombo Pitanga dos Palmares, Bahia); Josimar da Silva (Acampamento São Francisco, Vitória de Santo Antão/PE); Giovanne Gabriel (RN) e Genivaldo de Jesus Santos (SE), do Menino Miguel (PE), dentre milhares de outros irmãos e irmãs. Nem mesmo as crianças são poupadas do extermínio, como ocorreu com a menina Ágatha e Thiaguinho (Rio de Janeiro, 8 anos e 13 anos respectivamente) e Jonathas (Engenho Roncadorzinho, Barreiros/PE, 9 anos). Essa situação se agravou a partir do governo fascista de Bolsonaro e seus seguidores e cúmplices nos estados. 

Não resta dúvida, portanto, que o racismo dialoga diretamente com o fascismo, que usa das opressões para silenciar, esmagar e aniquilar o povo para que garanta os privilégios das classes dominantes, ricas. Hoje, o enfrentamento à extrema-direita se faz cada vez mais necessário. Nosso inimigo não é apenas o discurso da meritocracia ou do senso comum; nos últimos tempos, enfrentamos diretamente uma política de morte e violência. 

Por isso, é urgente desmilitarizar as polícias, as escolas e a sociedade, seguindo o exemplo daquelas mulheres e homens que, em nosso país, lutaram contra a ditadura militar fascista de 1964-1985. Sendo assim, se faz necessário e urgente, resgatar a memória dos que lutaram contra o golpe militar e foram perseguidos e por isso, lutamos por memória, verdade, justiça e reparação no Brasil.

A luta de Ventania segue! Manoel Aleixo está vivo!

Nascido no dia 04 de junho de 1931, no engenho Cova da Onça, em São Lourenço da Mata (PE), Manoel Aleixo começou a trabalhar ainda criança para ter direito a comida e a vestuário semelhante ao dos escravos da senzala. Seus pais, João Aleixo da Silva e Maria Sabino da Silva, foram alcançados pela escravidão quando meninos. Trabalhador rural, Manoel foi líder camponês com atuação no Estado de Pernambuco. Após o golpe de 1964, ficou conhecido como “Ventania” e tornou-se militante do Partido Comunista Revolucionário (PCR). Foi morto sob torturas, após ser sequestrado de dentro de sua casa, em 29 de agosto de 1973, no Município de Joaquim Nabuco (PE). Pelo seu exemplo e bravura, decidimos homenagear Ventania como patrono da Frente Negra Revolucionária. 

Ao líder dessa luta de resistência pela democracia brasileira e pelo socialismo, e em memória de todos aqueles que, como Manoel Aleixo, dedicaram suas vidas pela construção de uma nova sociedade: a FNR os vingará! 

Reaja ao racismo: lute pelo socialismo!

Para avançar o nível de consciência dos nossos militantes e do povo, é necessário elevar o nível de organização, de modo a termos pessoas trabalhando, sistematicamente, pelo êxito dessa tarefa. A nossa luta é de gênero, de raça e de classe! Um chamado para construir “o porvir em frente do passado, a liberdade em frente à escravidão” (“Ode ao dois de julho”, Castro Alves).

Portanto, nós que lutamos pelo fim da exploração capitalista, para que nossa luta seja completa e consequente, temos que lutar pela igualdade racial e enfrentar qualquer tipo de racismo e preconceito.

Chamamos, portanto, todo o povo negro do Brasil a se organizar, defender e se aquilombar:

  1.  Lutar contra o racismo e o preconceito em todas as partes: locais de trabalho, bairros, lugares de ensino, campo, etc; 
  2. Lutar contra o extermínio do povo negro, especialmente das periferias. Pela desmilitarização das polícias; punição dos responsáveis; fim do auto de resistência;
  3. Pôr fim ao encarceramento em massa e os maus tratos nos presídios e locais de reeducação de jovens infratores. Apoio aos familiares de presos e denúncia das prisões injustas. Contra o racismo no Judiciário, eleições de juízes e tribunais através do povo;
  4. Garantir a apuração e reparação quanto aos genocídios promovidos pelos regimes autoritários; direito à memória, verdade, justiça e reparação. Punição aos criminosos da ditadura militar implantada com o golpe de 1964. Implantação das recomendações da Comissão Nacional da Verdade;
  5. Exigir a garantia de educação pública e de qualidade em todos os níveis, erradicando o analfabetismo e o cumprimento da lei 10.639/2003 (ensino de história e cultura afro-brasileira) e a descriminalização e incentivo das expressões de cultura negra e popular;
  6. Defender a igualdade e a liberdade das práticas religiosas. Combate aos ataques promovidos a locais de culto religioso e de natureza discriminatória contra os seus praticantes, especialmente quanto às religiões de matriz africana;
  7. Defender condições adequadas de saúde e acesso a tratamento no Sistema Único de Saúde;
  8. Defender os direitos das mulheres contra todas as formas de violência e opressão, incluindo de gênero;
  9. Pela garantia de moradia digna e pela reforma urbana. Contra o racismo ambiental. Demarcação das áreas quilombolas e dos povos originários e reforma agrária;
  10. Defender a promoção, valorização e estímulo da cultura do nosso povo com o ensino da história afro-brasileira;
  11. Proteger as crianças e adolescentes contra a violência e contra o trabalho infantil. Acesso à educação, esporte, lazer, saúde, alimentação e cultura;
  12. Propagandear a história do povo e dos heróis negros do nosso país e do mundo;
  13. Conectar permanentemente a luta contra o racismo com a luta pela superação do capitalismo e a construção do socialismo, entendendo que não há contradição entre as duas pautas e só se cria a condição para acabar em definitivo com o racismo, destruindo o sistema capitalista.

Publicado na edição n° 306 do Jornal A Verdade.

Trump ameaça nações para esconder grave crise dos EUA

Conciliar com Trump e os fascistas do governo dos EUA significa atrasar a luta pela libertação da Palestina, ampliar a dependência da economia brasileira aos monopólios estadunidenses e entregar a classe trabalhadora a uma realidade de exploração sem limites em função do lucro de meia-dúzia de bilionários.

Rafael Freire e Felipe Annunziata | Redação


EDITORIAL Antes mesmo de tomar posse como presidente dos EUA, Donald Trump já iniciou uma série de ameaças a outras nações. Nenhuma surpresa. Quando esteve na Presidência da maior potência imperialista do mundo pela primeira vez, entre 2017 e 2021, não foi diferente. Mas, como diz o ditado popular: “Cão que ladra, não morde”.

No último dia 20 de janeiro, iniciou seu segundo mandato de quatro anos, agora totalmente alinhado com as grandes empresas de comunicação digital do mundo, as chamadas Big Techs. No palco de sua festa estavam perfilados, em destaque, os magnatas da Amazon, Google, Meta, X (Twitter), Apple e até a chinesa TikTok. Não à toa, cada declaração de Trump toma conta hoje, rapidamente, não só do noticiário das redes de comunicação tradicionais (TVs, rádios, jornais), como também das redes digitais. Ou seja, vai poder latir e mentir à vontade.

Trata-se de um poderoso setor da burguesia mundial, com tendência a crescer sua influência na disputa ideológica na sociedade, além de sua riqueza. Para efeito de comparação, Elon Musk (Tesla/X), Jeff Bezos (Amazon) e Mark Zuckerberg (Meta) possuem um patrimônio líquido maior que a soma do valor de mercado das dez maiores empresas do Brasil. Juntos, têm US$ 891 bilhões (mais de R$ 5 trilhões). As empresas Petrobras, Itaú e Vale têm hoje um valor de mercado de R$ 1 trilhão.

Derrotismo

As análises derrotistas são sempre colocadas como se fosse inevitável que Trump consiga impor toda sua agenda reacionária aos EUA e ao mundo. A conclusão é sempre a mesma: não há alternativa a não ser aceitar a “nova” política do imperialismo estadunidense.

Na mídia burguesa, os “analistas” defendem que o Brasil e os demais países devem aceitar o governo de Trump, não opor resistência e tentar negociar com o fascista, pois se tratam de países dependentes do capital ianque. 

Por sua vez, jornalistas, comentaristas e dirigentes políticos ditos progressistas repetem a mesma coisa, mas com um verniz à esquerda. Dizem que, para evitar a volta do fascismo ao governo brasileiro, é preciso conciliar com Trump e seu governo de bilionários. 

Em qualquer um dos casos, jamais provocar a ira do furioso Trump.

Porém, como afirmou de maneira objetiva e certeira, no recente artigo intitulado “Nos EUA, águia ou abutre?”, publicado no site de A Verdade, o companheiro Frei Gilvander (este sim, um verdadeiro analista crítico de esquerda), todo esse falatório de Donald Trump não passa de bravata fascista, de um tipo de imperialismo decadente. Vejamos:

“Pelo discurso colonialista, racista, prepotente e ufanista, e também pelos decretos assinados no mesmo dia da posse, expõe a podridão de um sistema que tenta, desesperadamente, manter sua hegemonia. Por isso, assistimos a algo com rompantes de um imperador, usando em vão o nome de Deus, o que é idolatria (usar o nome de Deus para justificar políticas de morte), se auto-apresentando como imbatível, ao afirmar que ‘inicia agora a era de ouro da América’; ‘construiremos as Forças Armadas mais poderosas do mundo’; ‘vamos invadir o Panamá e retomar o Canal’; ‘vamos terminar o muro que separa os EUA do México’; ‘vamos cobrar impostos dos povos em outros países, impondo tarifas comerciais para que nossos cidadãos paguem menos impostos e possam ter prosperidade, glória e seremos motivo de inveja em todo o mundo’.”

Contradições internas

Para não render muito acerca da “inveja” do restante do mundo em relação aos EUA, vamos citar apenas duas graves contradições internas do país: crescimento da pobreza e das greves de trabalhadores.

Pobreza – Quase 30% de todas as famílias dos EUA relataram que, em 2024, gastaram mais de 95% de sua renda em moradia, alimentação e contas de serviços públicos, segundo o Bank of America Institute.

Em outubro, a então vice-presidenta dos EUA e candidata à Presidência derrotada por Trump, chamou de “salário de pobreza” o salário mínimo norte-americano. Atualmente, o valor mínimo da hora de trabalho é de US$ 7,25 (aproximadamente R$ 43,5/hora).

Já nos últimos dias de 2024, o Departamento de Habitação e Desenvolvimento Urbano do Governo dos EUA publicou um relatório oficial em que estimou que, em janeiro daquele ano, havia 771.480 pessoas vivendo em situação de rua no país, 18% a mais do que o identificado em 2023. Com uma inflação persistente e os altos preços dos imóveis, que subiram, em média 20% durante a gestão de Joe Biden e Kamala Harris. Deste total, cerca de 150 mil são crianças e jovens de até 17 anos.

Greves – Os motoristas da Amazon entraram em greve às vésperas do Natal, na maior greve da história da empresa. Os motoristas exigiam vínculo empregatício, salários dignos e o fim do sistema de classificação no estilo Uber, que controla seus horários de trabalho. Em Nova York, motoristas empregados por 20 empresas terceirizadas ganham cerca de US$ 15 por hora, muito abaixo do “salário de pobreza” citado acima.

Também funcionários da rede de alimentos Starbucks entraram em greve no dia 20 de dezembro. Apesar dos US$ 3,76 bilhões em lucros em 2024, a Starbucks não ofereceu nenhum aumento imediato e apenas 1,5% de aumentos futuros. O salário médio na empresa é de US$ 18 por hora.

Tanto Amazon quanto Starbucks são gigantescas corporações globais. A Amazon, com sua vasta força de trabalho em mais de 50 países, domina setores como varejo, logística, tecnologia e entretenimento. A Starbucks, com mais de 360.000 funcionários e presença em 80 países.

Sem nenhuma repercussão na grande mídia brasileira, operários portuários fizeram greve e conquistaram um aumento de 62% nos salários, em outubro passado. Já a greve na Boeing (indústria de aviação) mobilizou 33 mil operários no mesmo período e conquistou um aumento de 35%.

Ainda em 2023, uma greve no setor automobilístico (responsável por 3% do PIB dos EUA) paralisou 350 mil operários, por três meses, arrancando um aumento salarial médio de 25%.

Política anti-imigrante

Na tentativa de intimidar os povos do mundo, o Governo Trump adotou como “primeira medida de impacto” a deportação de imigrantes sem visto, alguns com décadas de moradia e trabalho nos EUA. Há um foco especial para os latinos, incluindo brasileiros.

O primeiro voo de deportados que chegou ao Brasil, no dia 25 de janeiro, trouxe pessoas arrancadas de dentro de suas casas, locais de trabalho e até de serviços de saúde. Alguns foram espancados e enforcados no momento da prisão e durante o voo, feito numa aeronave sem condições para transporte de pessoas, quente e sem direito à alimentação. Quase todos os 88 brasileiros desembarcaram com algemas nas mãos e nos pés, como escravos numa espécie de “navio negreiro”.

“Foi um inferno, uma tortura. Desde que a gente saiu de Luisiana, deu para perceber que o avião estava com algum problema. Mesmo assim, eles forçaram”, disse Sandra Souza, 36 anos. “Eles bateram na gente porque a gente tava com calor e a gente não queria ficar mais preso no avião”, relata Vitor Gustavo da Silva, 21 anos.

Segundo dados do governo do México, somente em 2022, as comunidades latinas foram responsáveis pela produção – em bens e serviços – de US$ 3,6 trilhões do PIB dos EUA (cerca de R$ 21,24 trilhões). Isto significa que, se os latinos fossem um país separado dentro dos Estados Unidos, representariam a quinta maior economia do mundo, à frente de países como o Reino Unido, a França ou mesmo o Brasil.

O imperialismo é invencível?

O medo nunca foi resposta para nada na História. Não foi a saída para encarar a ditadura militar fascista de 1964 ou o governo reacionário de Bolsonaro, em 2022. Tampouco para o povo negro norte-americano que saiu em massa às ruas para dizer “vidas negras importam” e cobrar justiça pelo assassinato de George Floyd, influenciando diretamente na derrota eleitoral de Trump à reeleição, em 2020.

Imaginem se o povo palestino se deixasse apossar por esse sentimento. O que vimos, na verdade, foi uma resistência heroica durante 15 meses e, agora, com o cessar-fogo temporário, declarações e mais declarações de orgulho por terem dobrado a política genocida de Benjamin Netanyahu, Joe Biden e da União Europeia.

Assim como os palestinos mostraram que nem todas as armas do mundo podem acabar com a determinação de um povo pela sua libertação, precisamos levantar mais alto a bandeira anti-imperialista no período que se avizinha. 

Conciliar com Trump e os fascistas do governo dos EUA significa atrasar a luta pela libertação da Palestina, ampliar a dependência da economia brasileira aos monopólios estadunidenses e entregar a classe trabalhadora a uma realidade de exploração sem limites em função do lucro de meia-dúzia de bilionários.

Se, após tantas décadas com o imperialismo estadunidense impondo golpes militares, regimes reacionários, invasões e guerras de rapina, os povos do mundo não se renderam, não será agora que nos renderemos a um bandido como Trump.

Publicado na edição n° 306 do Jornal A Verdade.