UM JORNAL DOS TRABALHADORES NA LUTA PELO SOCIALISMO

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026
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Professor da USP tenta defender o Golpe de 64

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Isolado, o professor Eduardo Lobo Botelho Gualazzi da Universidade de São Paulo tentou ler em sala de aula um “Ode” ao golpe militar de 64 e foi contido por estudantes.

Enquanto tentava iniciar a leitura, estudantes encenavam torturas e perseguições nos corredores da Universidade.

Ditadura usou doente mental como desculpa para crimes

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Com “rabo entre as pernas”, militares colocaram a culpa de várias morte em um doente mental, Orlando Sabino, que chegou a ser internado no interior de Minas Gerais. Doces eram oferecidos por um sargento do Exército para que confessasse.

Fonte: UOL/SBT

 

Ato Unificado Contra o Golpe é encerrado com o hino da Internacional

Ato Unificado que lembrou os 50 anos do Golpe Militar no Brasil, realizado na ex-sede do DOI-CODI em São Paulo, é encerrado com o hino da Internacional.

Fernando Santa Cruz e a luta dos estudantes contra a Ditadura

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fernando_santa_cruz 2Olinda não tem apenas as belezas naturais e a arquitetura colonial que a transformaram em Patrimônio da Humanidade. Essa bela cidade foi palco de muitas lutas de libertação, como as travadas pelos bravos guerreiros caetés contra os invasores portugueses, e os movimentos republicanos. Berço de heróis, ela gerou, entre tantos, um jovem que combateu a ditadura militar implantada no Brasil em 1964 e teve a sua vida sacrificada por defender os ideais de Liberdade, Justiça Social e Lealdade aos companheiros.

Fernando Augusto de Oliveira Santa Cruz nasceu em 20/02/1948, quinto filho do médico sanitarista Lincoln Santa Cruz e de Elzita Santos de Santa Cruz Oliveira. Quando caíram sobre o país as trevas do 1º de abril de 1964, ele tinha apenas 16 anos, mas não tardou a se engajar na luta pela democracia, integrando-se ao Movimento Secundarista.

Ensino público e gratuito, liberdade e revolução

No início dos anos 60 o Movimento Estudantil, dirigido por suas entidades nacionais União Nacional dos Estudantes (UNE) e União Brasileira dos Estudantes Secundaristas (UBES) tinha presença marcante na vida do país. Defendia a Reforma Agrária e demais reformas de base propostas pelo governo de João Goulart e, especificamente, a Reforma Universitária e a democratização do ensino – por uma escola pública e gratuita.

As medidas repressivas adotadas pela ditadura militar desestruturaram as organizações operárias, camponesas e estudantis. Com muita dificuldade, o Movimento Estudantil começou a reerguer-se. Em 1966, recomeçaram as mobilizações de massa contra o acordo MEC-Usaid, que colocava o ensino brasileiro nas mãos dos Estados Unidos da América do Norte, principal potência imperialista. 1968 foi um ano de grandes manifestações nas principais capitais do país, culminando com a histórica passeata dos 100 mil no Rio de Janeiro. Esse ano registra, ainda, a retomada da luta operária com as greves em indústrias metalúrgicas de Contagem (MG) e Osasco (SP). As lideranças tinham a impressão de que os dias da ditadura militar estavam contados e, em pouco tempo, ela ruiria tal qual um castelo de areia.

O regime, ao contrário, endureceu. Em 13/12/1968 editou o Ato Institucional nº 5, o famigerado AI-5. Fechou o Congresso Nacional, cassou mandatos e direitos políticos de líderes oposicionistas; suspendeu as garantias do Judiciário. Daí em diante foi célere a escalada repressiva, até o fecha-mento total. Em fins de agosto de 1969, uma Junta composta pelos ministros do Exército, da Marinha e da Aeronáutica assume o governo, sucedendo o ditador Costa e Silva, vítima de um derrame cerebral. Em 30/10/1969 torna-se ditador de plantão o general fascista Emílio Garrastazu Médici. Sobrevém a completa escuridão. Imprensa censurada, Lei de Segurança Nacional, criação de um sis-tema repressivo clandestino a partir dos DOI-Codi, Centros de Informação do Exército, Marinha e Aeronáutica, Dops, Polícia Federal, enfim toda uma parafernália articulada nacionalmente. Os militantes eram presos na calada da noite, sem nenhum mandado judicial, torturados e mortos nos porões da repressão. Em relação a alguns, o sistema divulgava notas mentirosas, dizendo que tinham sido “abatidos” em tiroteios com os agentes; outros, simplesmente, eram dados como” desaparecidos”.

A luta dos estudantes era conduzida por organizações políticas forçadas a se manterem clandestinas. Além da luta por um ensino público, gratuito e livre de ingerências imperialistas, elas combatiam a ditadura militar e propagavam o Socialismo como solução para os problemas dos trabalha-dores brasileiros. Entre essas organizações, estava a Ação Popular Marxista-Leninista (APML), na qual militou Fernando Santa Cruz. A APML nascera da Juventude Universitária Católica. Muitos membros da JUC evoluíram politicamente e resolveram romper com os limites da Igreja Católica, fundando em fevereiro de 1963 a Ação Popular (AP). A AP manteve a estrutura organizativa herdada da JUC até 1971 quando, em sua 3ª reunião ampliada, assumiu o marxismo-leninismo e se transformou em Partido Revolucionário, de acordo com os princípios e a estrutura leninistas. Para a derrubada da ditadura militar e a tomada do poder político, definiu o caminho da luta armada, não na forma de guerrilha urbana – como fizeram outras organizações – mas na construção das condições para a deflagração da Guerra Popular, a partir das regiões mais sofridas do campo.

A hora da luta

Fernando Santa Cruz participou ativamente das manifestações contra o Acordo MEC-Usaid, como estudante secundarista no Recife (Colégio Carneiro Leão e, depois, Colégio Estadual de Pernambuco). Numa dessas manifestações, em 19/05/1967, aos 19 anos de idade, amargou sua primeira prisão. Em ofício ao Juiz de Direito da Vara Privativa de Menores, o Delegado de Segurança Social, Moacir Sales de Araújo, informa que Fernando e seu colega Ramires Maranhão do Vale foram detidos “quando, juntamente com vários outros estudantes, promoviam manifestações de caráter reconhecidamente subversivo, representadas por atos previstos no decreto-lei nº 314, de 13 de abril de 1967 (Lei de Segurança Nacional). Passou uma semana no Juizado de Menores, juntamente com crianças e adolescentes recolhidos das ruas. Essa convivência com os excluídos despertou sua consciência de classe; ele saiu mais disposto, intensificou a militância e integrou-se à Ação Popular. Foi um dos reorganizadores da Associação Recifense dos Estudantes Secundaristas (Ares).

Com a feroz repressão intensificada após o general Médici assumir o governo, mudou-se para o Rio de Janeiro em dezembro de 1969, onde ingressou no curso de Direito da Universidade Federal Fluminense, tendo atuado no Centro Acadêmico do seu curso e no Diretório Central dos Estudantes. Em 1972, nasceu o único filho, Felipe, fruto do seu casamento com a também militante Ana Lúcia Valença. Nesse mesmo ano mudou-se para São Paulo, onde assumiu emprego conquistado através de concurso público, no Departamento de Águas e Energia do Estado. Fernando optara por não ingressar na clandestinidade e, por isso, afastou-se de uma militância mais ativa, mas cumpria importantes tarefas de apoio: visitava e ajudava famílias de militantes presos; fazia a ligação entre companheiros clandestinos. Angustiava-se com as prisões e desaparecimentos que ocorriam, cada vez com maior freqüência.  Pouco tempo antes do seu próprio seqüestro visitou a família e disse a um dos irmãos: “Esse pode ser o último ano que venho aqui, que estou tomando cerveja com você, revendo pessoas amigas, queridas, re-vendo Olinda”. Recusou firmemente a sugestão de deixar a política. “A luta política, a defesa do seu povo, era para Fernando o próprio sentido de estar vivo. Abandoná-la, seria como sair da vida”¹.

“Mamãe, por que papai não volta para casa? Tenho tanta saudade dele…”²

Coerente com o que dissera ao ir-mão, Fernando decidiu estreitar os contatos com a APML e retomar uma militância mais intensiva. Para isso, foi com a família passar o carnaval de 1974 no Rio de Janeiro. No dia 23 de fevereiro daquele ano foi a um encontro com o amigo Eduardo Collier Filho, também pernambucano e militante da mesma organização, e nunca mais voltou. A confirmação do seqüestro dos dois jovens pela polícia política veio com a invasão efetuada pouco depois ao apartamento de Eduardo, onde um grupo de homens, sem identificação alguma, revirou todos os pertences e levou os seus livros.

Busca e denúncia da Ditadura

Começou a busca desesperada. Seu irmão, o advogado Marcelo Santa Cruz, hoje vereador em Olinda, pelo PT, impetrou habeas corpus. Parentes peregrinaram pelos órgãos de segurança. Tudo em vão. Encaminharam denúncias a parlamentares do MDB, personalidades civis e militares, e a organismos como Anistia Internacional e Comissão Interamericana de Direitos Humanos da OEA. Em 6/10/1974 o deputado pernambucano Fernando Lyra leu no plenário da Câmara uma carta enviada pelas mães dos dois jovens seqüestrados, na qual elas bradavam, a certa altura: “…Já não acreditamos mais em nenhum pressuposto jurídico válido, e todo o ordenamento torna-se anticristão e, por conseguinte, sem nenhum sentido ético. Quando é negado aos cidadãos o elementar direito de defesa sob a subjetiva alegação de ‘segurança nacional’, deixando-o em prisões clandestinas; em que as autoridades recusam e negam informações da prisão efetuada, desanimamos e passamos a acreditar que ressurge um passado que a História condenou e sepultou com a vitória na 2ª Guerra Mundial”.

Ante as pressões, Armando Falcão, ministro da “Justiça” do ditador Ernesto Geisel, divulgou nota incluindo Fernando e Eduardo numa lista de 25 militantes que estavam com mandado de prisão expedido, por atividades subversivas, mas não tinham sido encontrados pela polícia. Portanto, estavam desaparecidos. A família de Fernando desmascarou a farsa, provando que ele tinha emprego fixo e endereço certo em São Paulo,  logo não estava sendo procurado. Voltou o silêncio total. Era mais um jovem seqüestrado, torturado e morto nos porões da repressão. Sem ter cometido crime algum. Sem julga-mento. Nem ao corpo para sepultar, a família teve direito. Nem a certeza da morte.

Esta só veio a ocorrer em dezembro de 1995, quando a Lei Federal nº 9.140  reconheceu como mortos os “desaparecidos” entre 02/09/1971 e 15/08/1979. Foi uma vitória parcial das famílias, pois o Estado não assumiu sua inteira responsabilidade. Não esclareceu quais as circunstâncias das mortes, exatamente porque isso leva-ria à identificação dos assassinos, cuja punição os parentes dos mortos e a sociedade brasileira cobrariam. O Estado deve, ainda, a localização dos corpos, pois é desumano negar aos familiares o direito de sepultar seus parentes mortos.

A homenagem maior

Fernando não foi esquecido. Tem recebido várias homenagens. Em 1979 os estudantes do curso de Direito da Universidade Católica de Pernambuco deram seu nome ao Diretório Acadêmico. Chama-se também Fernando Santa Cruz o Diretório Central dos Estudantes da Universidade Federal Fluminense. Em 23/02/1984 a Câmara Municipal de Olinda aprovou uma lei dando, também, seu nome ao Teatro do Mercado Popular do Varadouro. Esta lei, de n.º 4.423/84, foi sancionada pelo prefeito em 20 de março do mesmo ano. Em 1985 é lançado o livro  Onde está meu filho? História de um desaparecido político. O Teatro Fernando Santa Cruz foi palco, na passagem dos 15 anos do seu seqüestro, 23/02/1989, de um ato público de louvor ao herói e denúncia dos crimes da ditadura, para que não mais se repitam. Em 21/03/1996 foi inaugurada a Escola Municipal Fernando Santa Cruz, no bairro do Jordão, Recife.

Mas a maior homenagem não está escrita em nenhuma lei, em nenhuma placa. Está na consciência, na luta dos estudantes e de todo o povo pernambucano e brasileiro, que continua enfrentando uma ditadura bem mais sutil, mas tão nociva quanto aquela que matou o jovem herói. Uma ditadura que está destruindo o patrimônio nacional, sucateando o ensino público, deixando milhões de famílias sem trabalho, sem terra, sem moradia, na mais profunda miséria. Em cada ato público, greve, passeata, panfleto ou discurso; em cada passo dessa  caminhada árdua e longa, mas vitoriosa porque tem o futuro a seu favor, mesmo que seu nome não seja pronunciado, Fernando Santa Cruz está presente!

 Notas

1- Depoimento de Tuca, irmão de Fernando Santa Cruz, para o livro Onde Está Meu Filho?  Editora Paz e Terra, 1984.

2- Palavras de Felipe, filho de Fernando, à sua mãe Ana Lúcia, aos 2 anos de idade

Luiz Alves

(Publicado em A Verdade, nº 8)

Manoel Lisboa, um homem de verdade

Manoel Lisboa 2Um homem de verdade

“… Pelo conjunto de sua obra, demonstrou ser o produto da elaboração histórica que em sua forja misteriosa elabora de tempos em tempos homens que sintetizam as qualidades mais nobres da espécie…”1. Ele não veio ao mundo em tempo de paz. O ano em que nasceu marca a ofensiva do Exército Vermelho Soviético, que derrotará os invasores nazistas. E não seria a paz a sua missão, pois o tempo era (como continua sendo) de luta de classes, de opressão da grande maioria – os operários, os camponeses, os excluídos – pela minoria que detém em suas mãos a propriedade e os seus frutos. “Meu despertar para as questões sociais apareceu quando eu tinha 17 anos… aos 19 anos, considerei-me marxista-leninista”2.   É claro que você já identificou este ser especial – Manoel Lisboa de Moura. Mas pode chamá-lo também de Mário, Celso, Zé, Galego. Por que tantos nomes?

O golpe civil-militar de 1964 encontrou Manoel Lisboa militando no Partido Comunista do Brasil, estudando Medicina na Universidade Federal de Alagoas. Ele nascera em Maceió, em fevereiro de 1944. Participou ativamente do movimento secundarista, cultural, universitário, ingressou no PCB, mas saiu deste para o PCdoB por considerar reformista a estratégia do “Partidão”. Foi preso várias vezes em 1964, 1965, 1966. Teve de ingressar na clandestinidade e se desencantou também com o Partido Comunista do Brasil, avaliando que o rompimento com o revisionismo havia sido apenas teórico. Junto com um grupo de companheiros fundou o Partido Comunista Revolucionário (PCR), em 1966. Embora as condições fossem inteiramente adversas, o trabalho do PCR se estendeu por todo o Nordeste, o que tornou seus dirigentes, especialmente o Galego, alvo da mais feroz perseguição.

Os tentáculos da ditadura acabaram encontrando-o no dia 15 de agosto de 1973, quando conversava com uma operária, Fortunata, na Praça Ian Flaming, no Rosarinho. “Ele tentou sacar a arma, mas não teve tempo”. Seu calvário foi longo, mas ele nada cedeu, coerente com a tese que defendia junto aos militantes: “delação é traição”. Morreu no dia 4 de setembro. Companheiros presos que conseguiram vê-lo no DOI-Codi do IV Exército ainda com vida e podendo falar, ouviram dele: “Minha hora chegou. Continuem o trabalho do Partido”.

“…Passou por todos os sofrimentos físicos e psicológicos, possíveis e imagináveis. Assistiu por dias e dias à sua própria agonia. Se viu e sentiu morrer lentamente. Superou tudo. Derrotou tudo – a tortura, o medo, a própria morte… Lembramos sempre dele. Com saudade, com tristeza, com alegria, com emoção. Às vezes, com uma lágrima solitária por sua memória. E em alguma madrugada, tenho vontade de sair pelas ruas, pichando em sua homenagem seu slogan favorito: “O PCR vive e luta!”3.

 Zé Levino

 

Teu Sangue Será Adubo

Nosso orgulho pela tua coragem,

tua bravura, teu espírito de luta,

tua dignidade, teu heroísmo.

Soubeste construir faróis para iluminar a escuridão.

Foste luz no túnel

Teu sangue será adubo

Tua alma já é semente

No fulgor da aurora

De um novo tempo

Tu brilharás

Certeza tenho

Manuel manual de amor

Justiça- liberdade – paz

Na dor de hoje, na dor de sempre,

Teus companheiros te homenageiam

Presença viva, na esperança

Cantaremos todos, e  a ti

O novo sol

És o futuro

O amanhã virá!

Selma Bandeira, companheira de Manoel Lisboa, em 14/9/1983

Como a Ditadura matou Emmanuel Bezerra

emmanuel2

“Meus soldados não se rendem…

O grande dia chegará”

Na praia de Caiçara, município de São Bento do Norte (RN), dia 17 de junho de 1943, nasceu Emmanuel Bezerra dos Santos, filho do pescador Luís Elias dos Santos e Joana Elias Bezerra. Líder estudantil no Colégio Atheneu e na Fundação José Augusto, onde cursou Sociologia, foi também presidente da Casa dos Estudantes de Natal, onde moravam os estudantes pobres do interior que iam tentar a continuidade dos estudos. Teve presença marcante não apenas pela militância política. Atuou na vanguarda dos movimentos culturais natalenses como poeta, crítico literário e organizador de grupos e associações.

Emmanuel organizou a bancada potiguar ao histórico congresso da UNE de 1968, em Ibiúna (SP). Nesse congresso foi preso e teve seus direitos estudantis e políticos cassados com base no famigerado decreto nº 477, da ditadura militar, que proibia aos estudantes o exercício de atividades políticas nas escolas e universidades. A prisão de seis meses não enfraqueceu o jovem líder, que manteve elevados o ânimo e a certeza na mudança da sociedade ( V. no box, poesia de sua autoria, escrita no cárcere).

Tão elevados que, ao sair, ingressou no Partido Comunista Revolucionário – PCR. Dirigiu o comitê universitário, passou a atuar na clandestinidade em Pernambuco e Alagoas, e em pouco tempo integrou o Comitê Central, dada a sua “dedicação, honestidade, firmeza ideológica e aprofundamento dos conhecimentos teóricos”.

Unir os movimentos anti-imperialistas

No início de agosto de 1973 o PCR enviou-o para  Argentina e Chile, com a missão de contatar revolucionários brasileiros e organizações de esquerda latino-americanas, com o fim de construir um processo de unificação do movimento anti-imperialista no continente. Foi preso na fronteira, em meados de agosto, provavelmente pela Interpol e pela polícia brasileira (na época as polícias políticas sul-americanas agiam articuladamente, através da Operação Condor (V. A Verdade n.º 7 ). Nas mãos do DOI/Codi, órgãos da repressão política do Exército, padeceu violentas  torturas, até ser morto. Não deu uma informação, sequer. Coerente com o lema que defendia, “delação é traição”, morreu como herói do povo para manter vivo o Partido.

Farsa, cinismo e covardia

Como costumavam fazer, os órgãos da repressão montaram uma farsa. Divulgaram nota publicada pela imprensa burguesa, dizendo que ele morrera num tiroteio com a polícia no momento em que se encontraria com Manoel Lisboa de Moura em São Paulo. Tudo mentira. Emmanuel encontrar-se-ia com  Manoel Lisboa no Recife, no dia 15 de setembro, quando estaria chegando da Argentina. Porém Manoel fora preso no dia 16 de agosto, tendo sido também barbaramente torturado e assassinado nos porões da repressão. A mentira, como de praxe, era confirmada pelo falso laudo elaborado pelo já desmascarado médico-legista Harry Shibata. A transferência do cadáver de Manoel Lisboa para São Paulo fez parte da montagem da farsa .     Quando saiu a notícia plantada pela polícia política acerca do “tiroteio”, no dia 4 de setembro, os corpos de ambos já estavam sepultados na “vala comum” do cemitério de Perus, em São Paulo. Isto é certo, tanto que dona Iracilda Lisboa, mãe  de Manoel, foi a São Paulo no mesmo dia em que foi divulgada a notícia; lá, a polícia política mostrou-lhe duas covas em outro cemitério, dizendo já ter ocorrido o sepultamento. Só restou-lhe colocar duas coroas de flores, mesmo desconfiando não se tratar da sepultura do seu filho e do companheiro e amigo Emmanuel, fato que veio a ser comprovado posteriormente com a descoberta da vala comum em Perus.

O povo recuperou seu herói

Os restos mortais de Emmanuel foram encontrados numa vala comum clandestina no cemitério de Perus (SP), junto com os de outros militantes de oposição “desaparecidos” durante o regime militar.  Trasladado para o Rio Grande do Norte recebeu merecidas homenagens: vigília cívica no auditório da Casa dos Estudantes de Natal, e sepultamento em grande cerimônia cívica, na sua cidade natal, Caiçara, já emancipada do município de São Ben-to do Norte. Entre os inúmeros depoimentos apresentados na cerimônia, destacamos os seguintes trechos:

” É este um momento de reencontro do RGN com sua História. História de muitas gerações de revolucionários, desde a Comuna de Natal de 1935 até a saga dos trabalhadores rurais por terra para sobreviver.” (Dermi Azevedo, jornalista).

” Seus restos mortais nos trazem vida; seus ossos suplantaram mais de vinte anos de mentira. Eles pensaram que lhe tinham exterminado, no entanto a força de sua ideologia e de tantos outros que se foram  exterminou a ditadura, e mais uma vez fica como exemplo”. (Josivan Ribeiro do Monte, membro da comunidade de S. Bento do Norte)

A melhor homenagem

O editorial do jornal A Luta, órgão do Comitê Central do PCR editado s depois da morte  dos seus três principais dirigentes: Manoel Lisboa de Moura,  Manoel Aleixo e  Emmanuel Bezerra, comentou: “…A melhor homenagem que poderemos lhes prestar é continuar o trabalho pelo qual deram suas vidas: desenvolver, até a vitória, o trabalho revolucionário que conduzirá o Brasil a ser livre da exploração estrangeira, à democracia, ao socialismo e, finalmente, ao mais belo sonho dos homens, o comunismo”.

Da Redação

Às gerações futuras

Eu vos contemplo

Da face oculta das coisas.

Meus desejos são inconclusos,

Minhas noites sem remorsos.

Eu vos contemplo,

Pelas grades insensíveis.

Meu sonho,

É uma grande rosa.

Minha poesia,

Luta.

Eu vos contemplo

Da virtual extremidade.

Minha vida (pela vossa).

Meu amor,

Vos liberta.

Eu vos contemplo

Da própria contingência.

Mas minha força

É imbatível

Porque estais

À espera.

Eu vos contemplo

Pelo fogo da batalha.

Meus soldados

Não se rendem.

O grande dia

Chegará.

Eu vos contemplo

Gerações futuras,

Herdeiros da paz e do trabalho.

As grades esmaecem

Ante meu contemplar.

 

Emmanuel Bezerra dos Santos

Base Naval de Natal/1968

 

Em sua edição de número 18, o editorial do jornal A Luta , órgão do Comitê Central do PCR homenageou Manoel Lisboa de Moura, Emmanuel Bezerra e Manoel Aleixo, como Heróis da Causa Revolucionária. Leia a seguir o trecho relativo a Emmanuel.

Nascido em São Bento do Norte, Rio Grande do Norte, no dia 17 de junho de 1947, Emmanuel Bezerra dos Santos, filho de pais humildes, estudou em Natal, onde participou ativamente do movimento estudantil, principalmente em 1967-1968, quando foi eleito presidente da Casa do Estudante de Natal. Cursava sociologia quando foi cassado e preso, durante seis meses, por causa de sua participação à frente do movimento estudantil em Natal.

Em 1968, ligou-se ao Partido Comunista Revolucionário. Compreendera que a miséria de seu povo, as injustiças e a ditadura fascista brasileira que as garantiam, só podiam ser exterminadas com a existência de uma vanguarda revolucionária orientasse, organizasse, conscientizasse o povo para a revolução.

Integrado ao partido após sua prisão, resolveu entrar na clandestinidade, dedicar todas as suas energias à revolução. Rapidamente, por sua dedicação, honestidade, firmeza ideológica e aprofundamento dos conhecimentos teóricos, chegou a condição de dirigente do PCR.

Em 1970, passou a dirigir o trabalho do partido em Alagoas, demonstrando grande capacidade como organizador. No início de agosto de 1973, foi enviado ao Chile, como representante do PCR, para discutir com grupos revolucionários brasileiros. Possivelmente, foi preso na fronteira do Chile com a Argentina, pela polícia internacional, a pedido da polícia brasileira. Enviado ao Brasil em meados de agosto, foi torturado, da mesma forma que Manoel Lisboa de Moura, no mesmo, local, QG do IV exército, e assassinado pelo Departamento de Ordem Interna (DOI), órgão das forças armadas, semelhante ao Centro de Operações e Defesa Interna (Codi), sob a orientação do celerado Sérgio Paranhos Fleury.

Emmanuel Bezerra foi assassinado friamente, submetido às mais bestiais torturas, por sua atuação revolucionária e, principalmente, por não trair o seu partido e sua organização. Diante dos carrascos, comportou-se como um herói, morreu sob tortura, para manter vivo o partido.

(Publicado em A Verdade  nº 13)

“É preciso abrir os arquivos militares”

amelinha-telesMaria Amélia Teles, ou Amelinha, como é conhecida, é uma referência nacional na luta pela Memória, a Verdade e, principalmente, a Justiça. Amelinha foi militante durante os duros anos da ditadura militar no Brasil e foi presa junto com seu marido, irmã grávida e os filhos pequenos – Janaína e Edson Teles, com 5 e 4 anos na época –, pela Operação Bandeirantes em São Paulo.

Fundadora da Comissão de Familiares de Mortos e Desaparecidos Políticos e, recentemente, integrante da Comissão Estadual da Verdade de SP, Amelinha se dedica há mais de 30 anos à luta pela apuração das atrocidades da ditadura e pela responsabilização dos agentes do Estado pelos crimes cometidos.

Você faz parte da Comissão de Familiares de Mortos e Desaparecidos. Quantas pessoas são desaparecidas no nosso país?

Amelinha Teles – Os que nós temos conhecimento são por volta de 160. Nós localizamos muito poucos, somente quatro ou cinco, e quem conseguiu encontrar esses foram os familiares. O ônus total é dos familiares, não houve apoio do Estado brasileiro. Eu acho que podemos localizá-los se houver vontade política do Estado. O Estado tem que assumir essa responsabilidade porque foram os agentes do Estado que mataram, ocultaram os corpos. É preciso ter essa responsabilidade política, essa determinação para abrir os arquivos militares.

Como avalia até aqui o trabalho da Comissão da Verdade criada pela presidenta Dilma?

Amelinha Teles – Eu acho que a Comissão da Verdade tem um papel político grande e ela potencializa e reforça a nossa luta, que é diária, constante e histórica. Acho que dá força e empoderamento a quem luta pela verdade e justiça há tanto tempo. A Comissão é muito heterogênea na sua composição, nem todos tiveram uma história ligada à resistência, às consequências que a ditadura trouxe para o país, então isso dificulta. Penso também que falta um plano de trabalho mais consistente e, principalmente, há falta de informação. Ontem mesmo eu vi a própria Comissão denunciando que os militares não estão colaborando no sentido de oferecer documentos e informações para esclarecer as atrocidades cometidas durante a ditadura militar. São dificuldades que terão que ser superadas com a mobilização da sociedade; temos que nos mobilizar para poder conseguir força para mudar esse quadro.

Também foram criadas Comissões Estaduais; em São Paulo, a Comissão Rubens Paiva, da qual você faz parte. Qual o papel dessas comissões e qual deve ser sua pauta?

Amelinha Teles – A Comissão da Verdade do Estado de São Paulo tem uma pauta no sentido de fortalecer a Comissão Nacional. Esclarecer os desaparecidos e mortos políticos no Estado de São Paulo, ou que tinham algum vínculo com o Estado. Ela está canalizando a força da sociedade paulista na busca da verdade, de informações junto ao Ministério da Defesa, junto aos órgãos ligados à segurança pública da época, e que, ainda, de uma certa forma, existem nos dias de hoje.

São Paulo foi um dos maiores centros de tortura do Brasil. Aqui teve a Operação Bandeirantes (Oban) que, depois, se transformou em DOI-Codi e que se estendeu para todo o território brasileiro. Portanto, essa Comissão tem uma importância política, talvez uma das mais fundamentais de todo o Brasil. A própria Comissão Nacional precisa dessa. Ela tem que criar condições para desenvolver seu trabalho de investigação dos mortos e desaparecidos políticos, dos órgãos de repressão onde se deram essas atrocidades, e buscar garantir a organização dos arquivos que foram produzidos pela repressão e que ainda não estão disponíveis no Arquivo Público e precisam estar para serem acessados por toda a população. O povo do Brasil precisa conhecer a sua história. Muitos torturadores daqui foram matar na região do Araguaia, depois também nos países do Cone Sul: Uruguai, Argentina, Chile… Temos muito trabalho pela frente.

Vivian Mendes, São Paulo

Ato no Rio denuncia assassino de Lamarca

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Ato no Rio denuncia assassino de LamarcaDezenas de militantes ligados ao Levante Popular da Juventude, ao Partido Comunista Revolucionário e às Brigadas Populares realizaram na manhã da última terça-feira (25) um protesto em frente à casa do general Nilton Cerqueira, em Copacabana, Zona Sul do Rio.

O “escracho”, como é conhecido esse tipo de ação, aconteceu para denunciar os crimes cometidos pelo militar durante a ditadura (1964-1985). Cerqueira foi comandante do DOI-CODI baiano, chefe da 2ª Seção do Estado-Maior da 6ª Região Militar e responsável pela operação “Pajussara”, que resultou na morte do revolucionário Carlos Lamarca, comandante da Vanguarda Popular Revolucionária (VPR), em 1971.

Além disso, o Ministério Público Federal, após dois anos de investigação, denunciou seis pessoas, entre eles Nilton Cerqueira, que há época era comandante da Polícia Militar do Rio de Janeiro, pelo envolvimento na explosão de uma bomba no estacionamento do Riocentro, na Zona Oeste do Rio, na noite de 30 de abril de 1981, durante show em comemoração ao Dia dos Trabalhadores.

Outras atividades similares estão sendo programadas para repudiar os 50 anos do golpe militar e exigir a punição de todos os agentes do Estado responsáveis pelo sequestro, tortura e assassinato de militantes durante a ditadura. Para que não se esqueça. Para que nunca mais aconteça!

Redação Rio de Janeiro

Copa da FIFA já matou 8 operários

Copa da FIFA já matou 8 operáriosA copa que virou sinônimo de repressão agora também é de morte. O Hospital Santa Marcelina confirmou que morreu às 16h deste sábado, 29, o operário Fábio Hamilton da Cruz, funcionário da empresa WDS Construções, que trabalhava na montagem das arquibancadas da Arena Corinthias, estádio onde ocorrerá a abertura da Copa do Mundo.

A diretoria do Corinthias, mais preocupada com a repercussão do caso na mídia, já que na sua obra três operários já morreram, por meio de nota, “corrigiu” as informações oficiais do Corpo de Bombeiros de que o funcionário teria caído de uma altura de 15 metros. No comunicado, o clube esclarece que “o operário caiu de uma altura de 8 metros e portava todos os equipamentos obrigatórios de segurança para a atividade”.

Essa já é a terceira morte registrada na construção do Estádio do Corinthias, em um período de quatro meses. Em novembro do ano passado, após a queda de um guindaste, morreram os trabalhadores Fábio Luiz Pereira e Ronaldo Oliveira dos Santos.

No total, 8 trabalhadores já perderam as suas vidas para atender aos prazos da FIFA, governos estaduais e federal e empresas patrocinadoras da copa. Em junho de 2012, o funcionário José Afonso de Oliveira Rodrigues morreu após cair de uma altura de 30 metros no estádio Mané Garrincha, em Brasília.

Na Arena Amazônia, em Manaus, o operário Antônio José Pita Martins estava desmontando as peças de um guindaste quando uma delas caiu em sua cabeça, em fevereiro deste ano.

No mesmo estádio outros dois funcionários já haviam sofrido acidentes fatais. Marcleudo de Melo Ferreira caiu de uma altura de 35 metros nas obras do estádio e morreu no dia 14 de dezembro. Em março de 2013, Raimundo Nonato Lima da Costa também morreu após despencar de uma altura de 5 metros. Já o operário José Antônio da Silva Nascimento sofreu um infarto enquanto trabalhava na Arena Amazônia.

Como de costume, as famílias das vítimas ficam sem assistência dos clubes e das construtoras. Muitos eram pais e saíram de suas cidades justamente para tentar dar condições de sobrevivência para seus entes queridos. Isso foi o que aconteceu com o operário Ronaldo Oliveira dos Santos, cearense, nascido na cidade de Caucaia. O Sport Club Corinthias destinou à família de Ronaldo apenas um buquê de flores.

Redação Ceará

Ditadura nunca mais! Fascistas não passarão!

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Cerca de 2000 manifestantes uniram forças na Marcha Antifascista na tarde do último sábado, 22 de março, em São Paulo.

A concentração do ato foi na Praça da Sé, centro da cidade, onde se reuniram diversas forças políticas. Organizar este ato antifascista e antigolpista foi uma ação contra os setores reacionários e conservadores que pedem a volta da ditadura militar.

Durante a manifestação lembrou-se que existem resquícios dos anos de chumbo presentes no nosso dia-a-dia. As mortes provocadas pelas milícias na periferia, os despejos das famílias de suas moradias e as violações da PM e do Choque nas manifestações contra a Copa da FIFA.

Na Praça da República os fascistas se reuniram em cerca de 300 pessoas, no que chamaram de “Marcha da família com Deus pela liberdade”, “reeditando” o movimento que buscou a derrubada do presidente João Goulart e contribuiu com o golpe de Estado em 31 de março de 1964. Os fascistas levantaram cartazes comemorando os 50 anos do golpe, instaurado para garantir os interesses da burguesia, do latifúndio e do imperialismo norte-americano.

Participaram da Marcha Antifascista diversos movimentos sociais, sindicalistas, estudantes, partidos de esquerda e anarquistas, compondo assim um grande ato que seguiu até o antigo DOPS, atualmente Memorial da Resistência, onde foi feito 1 minuto de silêncio para manter viva a memória dos que lutaram e tombaram nos porões da ditadura.

Também levantaram a bandeira pela punição aos torturadores e assassinos que agiram durante a ditadura militar e continuam em liberdade e comemorando um período putrefato da nossa história.

PCR São Paulo

Dia 1º de Abril estréia “Militares Da Democracia: Os Militares Que Disseram Não”

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O novo filme do cineasta Silvio Tendler estréia no próximo dia 1º de Abril, dia dos 50 anos do golpe que levou a 20 anos de ditadura militar e manchou nossa história de gritos e sangue.

No documentário, Tendler mostra um lado desconhecido do Golpe de 64: os militares que se mantiveram fiéis à constituição (e ao Brasil) e colocaram-se contrários às ordens dos generais rebelados.

São vários relatos de militares e familiares que demonstram que, mesmo que poucos, alguns militares trabalharam contra o golpe e a ditadura e merecem nosso reconhecimento e respeito pelo dever cumprido.