UM JORNAL DOS TRABALHADORES NA LUTA PELO SOCIALISMO

sexta-feira, 10 de abril de 2026
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202 anos da Revolta das Carrancas

Em 13/05/1833, Ventura Mina liderou a Revolta das Carrancas (MG), organizando uma grande ofensiva às fazendas escravocratas da família Junqueira. A rebelião, duramente reprimida pela Guarda Nacional, simboliza a luta antiescravagista, hoje lembrada pela Unidade Popular e a Frente Negra Revolucionária, que denunciam o racismo inerente ao capitalismo e constroem o socialismo.

André Molinari | Redação SP


No ano de 1833 uma enriquecida família portuguesa de escravocratas acumulava uma vasta extensão de propriedades nas intermediações dos atuais municípios de Carrancas, São João del Rei, Cruzília, Luminárias e São Tomé das Letras, no sul do estado de Minas Gerais. Essa era a família dos Junqueira.

O deputado Gabriel Francisco Junqueira, o Barão de Alfenas, detinha nessas intermediações uma fazenda que, em 1839, matinha 103 negros e negras escravizados para cuidar da plantação e do gado, na Fazenda Campo Alegre – chegaram a ter 163. Na freguesia de Carrancas existia, na época, cerca de 2,5 mil negros escravizados, cerca de 62% de toda a população da região.

A família dos Junqueira, atualmente, é uma das famílias mais tradicionais da região de Ribeirão Preto (São Paulo), onde também instalaram fazendas com trabalho escravo, contribuíram com a Ditadura Militar e hoje membros da família são até sócios do NuBank.

Julião Congo, um dos negros escravizados pela família Junqueira relatou os maus-tratos que sofria: “Respondeu que seu senhor o tratava de mandrião, não estava contente com o seu serviço, dava-lhe pancadas, ainda mesmo quando estava doente”.

Falando sobre as violências a que os escravizados eram submetidos, Clóvis Moura, relata em Cem Anos de Abolição do Escravismo no Brasil:

“Essa massa escrava distribuída nacionalmente era submetida a todos os tipos de torturas físicas e morais quando se rebelavam ou por simples capricho do seu senhor: máscaras de ferro, tronco, gargalheira, libambo, além de açoites públicos no pelourinho. Suas famílias, por sua vez, eram fragmentadas ao serem os seus membros vendidos para senhores diferentes.

A mulher negra-escrava era aquela que mais sofria. Transformada em objeto de trabalho era, também, objeto de uso sexual do senhor, nascendo dessas relações um enorme número de filhos bastardos, mas escravos […]. Por outro, esse princípio proporcionava imensa mortalidade infantil, não só pelas condições em que eram criados nas senzalas, mas também porque o senhor achava mais econômico comprar outro escravo quando ele morria ou ficava incapacitado para o trabalho. […]

O escravo, no entanto, não aceitava passivamente tal estado de coisas. Revoltava-se constantemente contra o cativeiro a que estava submetido. O rosário de lutas do negro escravizado contra o estatuto que o oprimia enche todo o período no qual perdurou o sistema escravista de produção.”

E foi o que aconteceu, quando um escravo da família Junqueira decidiu, no dia 13 de maio de 1833 que era hora de tomar a história em suas próprias mãos.

Ventura Mina

Ventura Mina, o rei negro, era um escravizado da etnia Mina, da cultura Fanti-Axânti oriunda de Gana. Em 1931 os escravizados da região de Carrancas já tinham começado a preparar um levante, mas que não foi levado a cabo.

Ao longo dos anos seguintes, Ventura Mina organizou uma rede de armamentos, materiais com escravizados tropeiros – Roque e Jerônimo, da fazenda da Prata – e conversava com vários escravizados das fazendas do entorno. Ventura entrou em contato com tropeiros garantiu com eles carregamentos de armas e informações da vida política do Império. Nos autos do processo-crime da insurreição, foi registrado com base no testemunho de seus companheiros que: “Ventura além de ter um gênio fogoso e ardente era empreendedor, ativo, laborioso, tinha uma grande influência sobre os réus e estranhos de quem era amado, respeitado e obedecido”.

José Mina, companheiro de luta de Ventura, afirmou que Ventura passou dois anos preparando uma insurreição. Que começou a articular e planejar isso no instante que chegou nas intermediações, comprado pela família Junqueira no Rio de Janeiro. Na véspera da revolta, Ventura foi até a senzala da fazenda Bela Cruz, também da família Junqueira, onde junto com Joaquim Mina decidiram que no dia seguinte deveriam lançar toda a organização numa revolta contra os seus senhores.

A Revolta das Carrancas

Na manhã do dia 13 de maio de 1833, exatos 55 anos antes da incompleta abolição da escravatura no Brasil, Ventura Mina liderou mais de 30 negros num levante contra a família escravocrata dos Junqueira. O plano era de justiçar todo o senhorio da região e expropriar as propriedades.

Para isso, primeiramente seriam invadidas as fazendas Campo Alegre, Bela Cruz, Jardim, Campo Belo, Campo Formoso e Carneiros. Depois voltariam reunidos para tomar as fazendas Santo Inácio, Favacho, Traituba e Penhas. A partir daí os escravos se dividiriam em duas porções dos quais uma seguiria para o Espírito Santo a extinguirem a família dos Andrades e outra para Carrancas a extinguirem às famílias dos Machados e mais fazendeiros desse lado.

Os escravos usaram instrumentos de trabalho – paus, foices e machados – e mesmo armas de fogo para dar cabo da rebelião. Primeiro derrubaram Gabriel Franscisco Junqueira, filho do dono da fazenda Campo Alegre, não atacaram a sede da propriedade, porque estava fortemente protegida com capitães-do-mato. Rumaram para a sede da fazenda Bela Cruz e lá justiçaram todos os escravocratas e cúmplices que encontraram. Depois decidiram partir para travar combate na fazenda Bom Jardim.

João Cândido Junqueira, escravocrata dono da fazenda Bom Jardim, já tinha tomado consciência do ocorrido nas terras de Campo Alegre e Bela Cruz, organizando a fazenda para repelir a rebelião. Neste confronto, Ventura Mina foi gravemente ferido, e pela resistência dos escravocratas foi preciso bater em retirada. Em seguida, as autoridades locais, proprietários e a Guarda Nacional se uniram para liquidar toda a revolta. Nestes últimos confrontos, Ventura Mina, João Inácio, Firmino, Matias e Antonio Cigano foram mortos.

Temendo uma onda de sucessivas revoltas, os vilarejos da região convocaram homens armados para impedir os levantes. Foram colocados no centro da vila de Rezende, uma vila próxima, uma força de quarenta soldados, parte da cavalaria e parte da infantaria, devidamente munida de pólvora e bala, para derrubar qualquer escravizado revoltoso.

Resistência que permanece

As sucessivas ondas de resistência da história do Brasil demonstram que os trabalhadores pobres e explorados, humilhados pelos ricaços, nunca se contentaram com sua situação de dor e opressão. Seja nas confederações e levantes indígenas, revoltas e quilombos negros, levantes camponeses, greves operárias, manifestações democráticas e muitos outros exemplos de luta. Cotidianamente se levantam as “vítimas da fome e os famélicos da terra” para dizer: basta!

Neste 13 de maio, dia da incompleta abolição da escravatura no Brasil serão organizados diversas manifestações e atividades pela Unidade Popular e pela Frente Negra Revolucionária – Manoel Aleixo (FNR) para denunciar a violência de estado que cai sobre a população negra desde o início do capitalismo. Violência esta que só poderá ter fim quando todos os trabalhadores e trabalhadoras, assim como Ventura Mina, tomarem seus destinos em suas mãos e confrontarem seus senhores, tomar aquilo que é nosso por direito e neste histórico ato de justiça, construir uma sociedade sem amos, construir o socialismo.

Ocupação do DOPS-MG completa mais de 40 dias na luta por espaço de memória

Ocupação do DOPS-MG completa 42 dias sob risco de despejo por parte do governo estadual. Movimentos e partidos organizaram centro de memória em antigo local de tortura da Ditadura Militar Fascista.

Felipe Annunziata | Redação


BRASIL – Num espaço em que se vê as marcas de um dos piores períodos da História do Brasil, militantes de organizações de esquerda organizaram um Memorial dos Direitos Humanos. No local, que já recebeu mais de 300 pessoas em visitas guiadas, é possível ver antigas celas e salas de tortura organizadas para reprimir militantes socialistas e a população pobre, negra e trabalhadora em geral.

De acordo com um estudo realizado pela UFMG, dezenas de pessoas foram torturadas e mortas dentro das dependências do antigo DOPS (Departamento de Ordem Política e Social), localizado na Avenida Afonso Pena, em pleno centro de Belo Horizonte. Durante a Ditadura funcionou no espaço também o DOI-Codi (Destacamento de Operações de Informações – Centro de Operações de Defesa Interna) de Minas Gerais.

Ameaça de despejo

O espaço, no entanto, corre o risco de sofrer um despejo por parte do governador fascista Romeu Zema (NOVO-MG). O governo de extrema-direita é um negacionista dos crimes da Ditadura Militar e tem tentando fazer um esforço para impedir a criação do Memorial e apagar os vestígios de tortura no local.

No prédio de arquitetura modernista é possível ver celas de presos, espaços para solitárias e salas de torturas, além de um canil onde eram criados cães treinados para atacar prisioneiros políticos.

Durante a ocupação, muitos ex-presos políticos tem participado da luta pela criação do Memorial. A proposta das organizações políticas é transformar o prédio, abandonado há 8 anos, num espaço de memória e verdade dos crimes da Ditadura Militar Fascista (1964-1985), conforme uma proposta organizada por um grupo de trabalho da Universidade Federal de Minas Gerais.

Ato se solidariza com vítima da privatização do transporte em São Paulo

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Nesta terça-feira (6/5), Lourivaldo Ferreira Silva, de 35 anos, morreu na linha 5-Lilás do metrô de São Paulo enquanto se dirigia para o trabalho. Ele era pai de 3 filhos, trabalhador da escala 6×1 e foi mais uma vítima da privatização do transporte público na capital paulista. Ato de solidariedade repudiou a precarização do transporte e convocou para uma aula pública na estação Capão Redondo no sábado (10/5), às 10h.

Redação SP


Nesta terça-feira (6/5) as privatizações ceifaram mais uma vida no Capão Redondo, em São Paulo. Lourivaldo Ferreira Silva, de 35 anos, trabalhador da escala 6×1 e pai de 3 filhos, foi morto pela negligência da ViaMobilidade, empresa privada que assumiu a gestão de linhas de trem em 2018, enquanto se dirigia ao trabalho.

No dia seguinte, manifestantes e movimentos sociais, entre eles o Movimento Luta de Classes (MLC), se reuniram na estação do Campo Limpo, onde a catástrofe ocorreu, para denunciar que as privatizações significam morte para nosso povo. O ato exigiu justiça para Lourivaldo e sua família, e uma atitude imediata tanto da empresa quanto do Governo Estadual. O jornal A Verdade entrevistou alguns dos presentes na manifestação.

Madu, moradora do Campo Limpo, relatou que estava presente na mesma porta em que a ViaMobilidade tirou a vida deste trabalhador. “A gente que é aqui da periferia, que utiliza a Linha 5, sabemos o quão sucateada tá a linha que atende a gente. E a situação só tá piorando, infelizmente. As vidas de nós, pobres, que estão sendo pagas pro lucro deles.”

“Quem é cidadão e morador aqui do Capão e do Campo Limpo não tem como não se indignar com uma situação como essa, né? O que aconteceu ontem com um rapaz jovem, de 35 anos de idade, que tem família, que é um trabalhador, é um crime. Não pode passar impune”, complementou Nilton, professor da rede municipal.

Noêmia, que estava passando pela estação quando viu a manifestação e decidiu participar, compartilhou seu sentimento conosco: “Revolta. Muita revolta. Porque a gente trabalha, a gente paga e a gente acaba morrendo. É uma coisa que a gente está pagando e acaba perdendo a vida.”

Manifestante estendem faixa em denúncia ás privatizações. JAV/SP
Manifestante estendem faixa em denúncia às privatizações. Foto: JAV/SP

Privatizações: lucro para os ricos, morte para o povo

Um dos pontos principais da manifestação foi a denúncia das privatizações, que servem para um punhado de milionários enriquecerem cada vez mais sucateando serviços essenciais para os trabalhadores.

“Representa justamente o que a privatização faz.  Sempre a vida de um pobre que vai estar ali para eles poderem lucrar.  E infelizmente vai ser a nossa vida que vai pagar. É isso. E é uma impunidade que infelizmente por questões de dinheiro eles acabam calando. E se não fosse a pressão que a gente está fazendo seria só mais um caso isolado”, diz Madu.

“Aconteceu o que aconteceu por negligência, não foi por falta de aviso. Eles acham que está tudo bem, que o transporte tá cada vez melhor. Quem usa o transporte fornecido pela ViaMobilidade sabe que isso é mentira, tá cada vez pior. Os trens estão cada vez mais lotados, falta funcionário e segurança na plataforma”, afirmou Robert, militante do Movimento Luta de Classes presente no ato de denúncia da privatização.

Para ampliar a mobilização e derrubar e denunciar ainda mais as condições do transporte, foi convocada uma aula pública sobre os impactos da privatização dos trens para esse sábado (10/05). A aula ocorrerá às 10h na estação do Capão Redondo.

“Nada que essa empresa possa fazer vai trazer de volta o companheiro que morreu ontem. É uma vida de um trabalhador que foi vítima da precarização do transporte”, sintetiza Robert.

A Rede JAV/SP colaborou com a coleta de depoimentos e os registros desta matéria.

Casos de assédio revoltam estudantes da UFRN

“Apesar dos casos alarmantes de violência contra a mulher, a Reitoria da UFRN tem feito medidas tímidas em relação às situações de assédio, como uma nota vaga nas redes digitais, afirmando realizar “medidas cabíveis” e reuniões com as superintendências.”

Kivia Moreira | Natal (RN)


Desde o início do período letivo da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), houve diversos relatos de importunação sexual dentro dos ônibus circulares da universidade, de um único homem que utiliza da superlotação dos ônibus para assediar as estudantes. De acordo com a Delegacia Especializada da Mulher (Deam), de Natal, há pelo menos 20 boletins de ocorrência denunciando o mesmo agressor.

Infelizmente, não houve somente casos de assédio, mas também de sequestro dentro do campus. No dia 09 de abril, a estudante Ana (nome fictício) relatou ao Movimento de Mulheres Olga Benario que estava saindo da aula às 22h00, a caminho de seu carro no estacionamento do Centro de Biociências, quando, na porta do veículo, um homem armado a abordou, obrigando-a a entrar no carro, deitar-se no banco de trás e desligar a localização do seu telefone. A estudante foi deixada no matagal do bairro Ponte Negra, em Natal, sem seus pertences.

Queremos estudar sem medo

Apesar dos casos alarmantes de violência contra a mulher, a Reitoria tem feito medidas tímidas em relação às situações de assédio, como uma nota vaga nas redes digitais, afirmando realizar “medidas cabíveis” e reuniões com as superintendências.

Nesse sentido, cansados de esperar ações efetivas, os estudantes da UFRN realizaram medidas de auto-organização para proteger as mulheres, como aulas de autodefesa e a instalação de uma ouvidoria feminista, além de patrulhas de segurança às alunas e grupos de aviso de situações de importunação sexual.

Também foram realizadas manifestações exigindo respostas efetivas e rápidas, organizadas principalmente pelo Movimento de Mulheres Olga Benario e Movimento Correnteza. “Vamos ocupar toda a universidade para exigir que acabem os assédios”, afirma Milenne Barbosa, do Movimento Correnteza. Os movimentos exigiram uma reunião aberta com a Reitoria da universidade, mas, até o momento, não houve retorno.

Aulas de autodefesa

O Movimento Olga Benario realizou, no último dia 14 de abril, a primeira aula de defesa pessoal para dezenas de mulheres estudantes da UFRN em resposta aos diversos casos de assédio sexual. A primeira aula contou com a participação de cerca de 50 estudantes. O grupo de interessadas chega a ter mais de 300 participantes.

“Como praticante de jiu-jitsu e judô, sinto que é essencial trazer mais meninas para o nosso meio, ocupado majoritariamente por homens. Senti que as meninas estavam muito engajadas em aprender, pois o medo é real. Esperamos continuar com as aulas e seguimos pedindo um campus mais seguro para nós mulheres”, afirma Helena Pires, estudante de Ciências Biológicas e uma das instrutoras.

“As aulas de autodefesa se tornam muito necessárias no contexto que as meninas estão passando. A mulher precisa ter consciência que pode se defender, pois, ultimamente, é mais comum vermos alguém parar para filmar e depois postar a agressão do que tentar ajudar a vítima”, complementa o instrutor Danilo Bezerra.

A organização das mulheres por uma nova sociedade

As mobilizações das estudantes mostraram também que apenas medidas específicas para prender um assediador, não irão acabar com a violência contra a mulher. A raiz dos assédios vem da propriedade privada dos meios de produção, pelo sistema capitalista, que é podre e que lucra em cima da opressão e da exploração das mulheres.

Por isso, somente com a organização das mulheres para transformar a realidade é possível construir uma nova sociedade sem exploração às mulheres, uma universidade inclusiva para todos e livre dos assédios, uma sociedade socialista.

Matéria publicada na edição impressa nº 312 do jornal A Verdade

Ocupação Laudelina de Campos Melo resiste a ataques fascistas e tentativa ilegal de demolição

“A ocupação das mulheres trabalhadoras Laudelina de Campos Melo segue resistindo contra as ameaças e organizando mais mulheres pelo fim da violência e pelo socialismo. Milhares de mulheres tiveram suas vidas transformadas pelo trabalho ali realizado.”

Nicole Ramos | Movimento Olga Benario SP


No dia 24 de abril, militantes do Movimento de Mulheres Olga Benario sofreram ataques e ameaças, além da tentativa ilegal de demolição do imóvel da Ocupação de Mulheres Laudelina de Campos Melo, localizada no bairro do Canindé, no Centro de São Paulo.

Houve destruição do telhado, roubo de itens, corte de luz e a tentativa de demolir o prédio inteiro. Este ataque demonstra o aumento da violência contra as mulheres trabalhadoras na cidade, além da expulsão do povo pobre do Centro, promovida pelo governo de Tarcísio de Freitas e pelo prefeito Ricardo Nunes (MDB).

Mesmo sendo referência para as mulheres do bairro, a Prefeitura colocou a leilão o terreno da ocupação em 2024. O Movimento realizou diversos atos e mobilizações, saindo vitorioso com a decisão do Tribunal de Justiça do Estado São Paulo de suspender a reintegração de posse.

Casa Laudelina

A Ocupação foi realizada em janeiro de 2021, denunciando o aumento da violência contra as mulheres trabalhadoras na pandemia de Covid-19, frente ao fechamento dos serviços públicos nos momentos em que as mulheres mais precisavam. Honrando o nome de Laudelina, uma mulher negra, comunista e que foi a primeira a lutar pelos direitos das empregadas domésticas. Resistindo há mais de quatro anos, a ocupação realizou mais de 10 mil atendimentos às mulheres vítimas de violência de toda a capital paulista, além de organizar várias mulheres politicamente na luta por uma nova sociedade.

“Helena* começou a participar das oficinas de artesanato e escrita, além das reuniões do Movimento de Mulheres Olga Benario. Ela, que era analfabeta funcional, começou a ler na ocupação. E, ao descrever a Casa, disse que o lugar promoveu nela uma verdadeira reforma”. afirma Mariani Ferreira, coordenadora da Ocupação.

A ocupação das mulheres trabalhadoras Laudelina de Campos Melo segue resistindo contra as ameaças e organizando mais mulheres pelo fim da violência e pelo socialismo. Milhares de mulheres transformaram suas vidas pelo trabalho realizado, como relata, de forma dramática, Maria*, que tem medida protetiva e é uma das atendidas. “A Casa Laudelina salva minha vida todos os dias. Se eu não venho para cá, fico dopada na cama do abrigo cheia de remédios sofrendo com a depressão das violências que passei”.

Elaine*, uma das atendidas que está em um dos abrigos do Canindé, relata que a Ocupação Laudelina salvou a sua vida ao lhe proporcionar um ambiente seguro de acolhimento e aprendizado. “Participando das reuniões do Olga, aprendi como o sistema oprime as mulheres e como o socialismo é a saída. Por isso, organizei outros moradores do abrigo e funcionários num abaixo-assinado que conquistou a mudança de toda a alimentação do lugar”, afirma.

*Nomes fictícios para proteger a identidade das mulheres atendidas

Matéria publicada na edição impressa nº 312 do jornal A Verdade

“Permanecemos vivos na proteção do meio ambiente e da verdadeira história do Brasil”

Localizado no Município de Lauro de Freitas, Região Metropolitana de Salvador (BA), o Quilombo Quingoma é um dos mais antigos do Brasil e tem resistido, nas últimas décadas, às investidas da especulação imobiliária, da destruição ambiental e da omissão do Estado. A Verdade entrevistou Rejane Rodrigues, uma de suas lideranças.

Vitor Hugo Moreau | Lauro de Freitas (BA)


Localizado no Município de Lauro de Freitas, Região Metropolitana de Salvador (BA), o Quilombo Quingoma tem resistido, nas últimas décadas, às investidas da especulação imobiliária, da destruição ambiental e da omissão do Estado. Reconhecido como território quilombola pela Fundação Palmares em 2013, o Quingoma é considerado o mais antigo quilombo do Brasil, com registros de 1569. No entanto, o processo de titulação das terras segue travado no Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra), há mais de dez anos.

E os conflitos na região se intensificaram. O território é alvo de um acelerado processo de urbanização. Obras realizadas sem consulta à população quilombola representam ameaças diretas ao meio ambiente e à comunidade.

No centro dessa luta está Rejane Rodrigues, líder quilombola e defensora dos direitos humanos e ambientais. Vivendo atualmente sob medida protetiva, ela enfrenta uma nova onda de intimidações. Sua resistência, no entanto, segue inabalável. A Verdade entrevistou Rejane para conhecer melhor suas motivações, suas dores e suas esperanças em relação à luta do Quilombo Quingoma.

A Verdade – O Quingoma é considerado o quilombo mais antigo do Brasil. Como você descreveria a importância desse território para a identidade e resistência do povo quilombola?

Rejane Rodrigues – A gente tem que levar em consideração quem construiu esse país. Nosso povo passa por um processo de invisibilização. A nossa gente, escravizada, contribuiu com tudo isso e, no entanto, hoje somos penalizados. Se engana quem acha que ser quilombola é só uma questão dos povos quilombolas, porque, na realidade, é de toda a humanidade.

A gente se considera o primeiro quilombo do Brasil e isso é sustentado por uma oralidade, que é assim que a gente vem construindo essa história. A importância do quilombo para o Brasil e para o mundo está na resistência de nós, enquanto quilombolas, permanecermos vivos na proteção do meio ambiente e da verdadeira história do Brasil, mesmo à custa de nossas vidas.

O processo de titulação das terras está travado no Incra há mais de dez anos. A que você atribui essa demora?

No mesmo ano em que tivemos nosso reconhecimento pela Fundação Palmares, começamos o processo no Incra para titulação do território. Quando a Bahia Norte invadiu o território para construir a Via Metropolitana, a comunidade se organizou e conseguiu uma audiência com o Ministério Público, onde soubemos que o Projeto do Governo Jacques Wagner, de 2009, já previa a rodovia cortando o território. Depois, veio a construção do Hospital Metropolitano – ao qual nossa gente não tem acesso por não possuir assistência primária – e agora é a construção do Condomínio Joanes Parque, que nos afeta e agrava as ameaças de violência no território.

Nós acreditamos que a morosidade do Incra e a omissão do Governo do Estado se devem ao fato da questão não ser apenas técnica, mas principalmente política. Nós sabemos que o Quilombo Quingoma está bem localizado e a cidade de Lauro de Freitas não tem mais pra onde crescer, a não ser invadindo o Quingoma.

Como o avanço da especulação imobiliária e das grandes obras de infraestrutura afetam a vida dos moradores e o meio ambiente local?

Afetam muito as famílias. Há casos de depressão, pressão alta, diabetes, tudo recai no emocional da comunidade pela incerteza de quem perdeu rios, matas, bichos, território… Os anciões da comunidade vivem assustados. A gente vê também as famílias cada vez mais adoecidas, inclusive as crianças. A especulação imobiliária gera uma mutilação da comunidade, tanto dos corpos, quanto do nosso território e da natureza.

Mais recentemente, a Conder1 entregou intimações para as famílias com avisos de desapropriação das casas. Essas iniciativas têm a intenção de fazer com a comunidade não se envolva na luta pelo território, porque, ao verem suas casas e as principais lideranças ameaçadas e atacadas, muitos ficam com medo.

Como é viver sob medida protetiva devido às constantes ameaças?

Eu me sinto em ameaça mesmo dentro do programa de proteção por eles não entenderem e respeitarem que somos nós que sabemos o que acontece a nossa volta. Quando a gente leva as questões ao programa, eles não recebem de maneira respeitosa. Desde o início de fevereiro, estou fora do território porque o programa de proteção não caracteriza como ameaça o que eu estava sofrendo, não garantindo meu direito de viver com a minha família: minha filha e minha mãe estão precisando de acompanhamento psicológico. A gente teve que construir uma rede própria de apoio que nos acolhesse, porque o programa, que deveria nos defender, pertence ao mesmo Estado que cruza os braços ou até nos ataca. Nós, enquanto lideranças, nos sentimos largadas. Só não nos sentimos totalmente sós por conta dos parceiros que reconhecem a nossa luta e trilham as estratégias para tentar nos proteger.

A impressão que me dá é que, pro Estado fazer alguma coisa efetivamente, é preciso a gente tombar, como Mãe Bernadete2. Esse é o parâmetro pra eles: que as lideranças sejam mortas sem que ninguém descubra os mandantes. Chega de matar a gente pra gente ter nosso território, chega de matar a gente pra gente ter políticas públicas, chega de matar a gente pra gente ter a nossa liberdade!

O Estado e as grandes empresas justificam os empreendimentos como progresso. O que a comunidade do Quingoma propõe como alternativa para um desenvolvimento que respeite sua cultura e seu direito à terra?

A gente tem que entender que o que é progresso pra uns não é pra outros. O que significa progresso pra esse sistema capitalista é uma coisa, e o que significa progresso pra gente é outra – respeitando as nossas raízes, nosso ser, porque a gente não vem desse fast food, a gente não vem desse capitalismo. A gente vem das coisas simples, da natureza, a gente perpetua isso. As políticas públicas têm que vir para o território de forma respeitosa. Eu quero propor que nós pensemos conjuntamente, deem ouvidos às comunidades quilombolas, pra que a gente consiga dizer como pretende organizar nosso território.

O território pra gente, povo quilombola, não é só a terra. A gente tem uma relação peculiar e muito genuína com esse território. É por isso que a gente defende esse território com nossas próprias vidas. Então, eu acho que um progresso que nos respeite precisa ser pensado com os quilombolas, com as comunidades tradicionais. A sociedade hoje clama por um verde, por uma mata, por uma água, pela terra. No entanto, vêm destruindo isso. Nós não somos contra o progresso, mas o progresso tem que ser aplicado às nossas necessidades, não ao lucro de uma meia dúzia de empresários e políticos.

Qual mensagem você gostaria de deixar para aqueles que ainda não conhecem a realidade dos quilombos no Brasil e a importância da sua resistência?

A gente precisa entender que essa luta não é só nossa, é de todos. Por mais que seja o meu corpo que esteja exposto – porque a guerra tem que ter um rosto e, dessa vez é o meu, das lideranças que estão ao meu lado, é o de Mãe Bernadete na foto –, é preciso entender que, sozinhos, não conseguimos vencer. É preciso que a população apoie nossa resistência pra que a gente possa resistir. Não no invisível, no anonimato, mas a público. Muitas vezes, nos veem como guerreiras, como lutadoras e romantizam isso. Não romantizem a violência pelas quais passamos! Não romantizem a perseguição e as ameaças de morte pra depois dizerem: foi guerreira. Cheguem junto com a gente! Mesmo essa história sendo minha, essa história é mais ainda do povo brasileiro. A história do Quilombo Quingoma, que permanece desde 1569 resistindo, preservando e garantindo um futuro pra uma sociedade mais justa, coerente e saudável. É por isso que nós resistimos e vamos continuar gritando.

NOTAS:

  1. Companhia de Desenvolvimento Urbano do Estado da Bahia, empresa vinculada à Secretaria Estadual de Desenvolvimento Urbano, responsável pela implementação de políticas públicas do Governo do Estado.

2. Mãe Bernadete foi assassinada em agosto de 2023, no Quilombo Pitanga dos Palmares, situado no Município de Simões Filho, também na Região Metropolitana de Salvador. Ver A Verdade n° 278.

Matéria publicada na edição impressa nº 312 do jornal A Verdade

80 anos da vitória soviética contra o nazismo

Ao todo, mais de 35 milhões de soviéticos morreram nas câmaras de gás, assassinados nas batalhas, exterminados nas aldeias ou de fome nas cidades sitiadas. Os povos do mundo sempre serão gratos ao heroico povo da União Soviética pela vitória contra o inimigo nazista. Honremos aqueles que morreram lutando pelo socialismo no passado, lutando pelo socialismo hoje.

Raphael Almeida | Historiador


Era 09 de maio de 1945, portanto, há 80 anos, quando toda humanidade respirou fundo e pôde comemorar a derrota da Alemanha nazista na Segunda Guerra Mundial. Os guerrilheiros partisans já haviam executado o ditador fascista Benito Mussolini e libertado Milão, na Itália. Restava apenas a rendição do Japão fascista para que a guerra acabasse. O conflito é considerado, até os dias de hoje, a maior batalha militar da humanidade e vitimou entre 75 e 90 milhões de seres humanos. A guerra foi travada entre duas grandes coalizões militares, de um lado, os Aliados (União Soviética, Inglaterra e EUA); do outro, o Eixo (Alemanha, Itália e Japão).

A guerra se deu na Europa, Ásia, Norte da África e nos Oceanos Atlântico e Pacífico. No entanto, o principal campo de batalha foi dentro do território da União Soviética. Os filmes comerciais, produzidos por Hollywood, tentam contar uma história que não aconteceu. Para combater essas falsificações, é preciso deixar nítido: os Estados Unidos não foram responsáveis pela derrota do nazismo, tampouco venceram a guerra. A grande responsável pela derrota do nazismo, pela rendição japonesa e pelo fim da Segunda Guerra Mundial foi a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS).

Causas da guerra

O imperialismo já tinha empurrado o mundo para uma guerra mundial entre 1914 e 1918. A crise econômica de 1929 intensificou as disputas por novos mercados e uma redivisão pelo controle das colônias. A cada ano que passava, a beligerância dos Estados e os gastos militares aumentavam. Em 1931, militares japoneses invadiram o Nordeste da China, na região da Manchúria. Poucos anos depois, os japoneses ocuparam Hong Kong, ampliando as ações militares contra a Mongólia e a URSS.

Em 1935, a Itália invadiu a Albânia e a Etiópia a fim de disputar o controle sobre o Mar da Arábia, Mar Vermelho e Canal de Suez. Na Espanha, em 1936, os fascistas impuseram um golpe de Estado que levou a três anos de guerra civil. Inglaterra, França, Itália e Alemanha dividiram a Tchecoslováquia, sem a concordância do Estado Tcheco, entregando a região dos Sudetos ao ditador nazista Adolf Hitler.

Sucessivas provocações foram feitas aos países de economia dependente na Europa por parte dos nazistas, que ameaçavam militarmente as nações em troca de acordos econômicos vantajosos. Assim se deu com a Romênia, a Áustria, até o ataque à Polônia, em 1º de setembro de 1939, que a literatura ocidental trata como o “começo oficial” da Segunda Guerra Mundial.

As ações antissindicais e anticomunistas avançavam, ao passo que se intensificava a hostilidade contra a União Soviética no cenário internacional. Japão e Alemanha assinaram o pacto Anticomintern (Anti-Internacional Comunista), um tratado que visava a atacar o país do socialismo, bem como combater os Partidos Comunistas internos. Posteriormente, Itália, Espanha e Hungria passaram a ser signatárias do acordo.

As burguesias dos demais países capitalistas, como Estados Unidos, Inglaterra, França e Bélgica viam com certo otimismo o avanço da influência nazista, sua política anticomunista, e a recíproca era verdadeira.

Invasão à URSS

Após dominar toda Europa continental, a Alemanha nazista tinha a sua disposição os recursos humanos e materiais (saqueados) necessários para invadir a União Soviética, e assim o fez. Em julho de 1941, as forças armadas alemãs invadiram o território soviético sem nenhuma declaração de guerra com suas 153 divisões, que contavam com 3 milhões e 800 mil soldados, 3 mil veículos blindados e 5 mil aeronaves de combate. Hungria, Romênia, Itália e Finlândia colocaram à disposição dos nazistas 37 divisões e também participaram da invasão.

Os nazistas haviam aperfeiçoado a ciência militar. Precisaram de pouco mais de 150 dias para dominar toda a Europa Ocidental e, após invadir a URSS, alcançaram as duas principais cidades (Leningrado e Moscou) em apenas dois meses. A superioridade militar alemã se dava pela tática da Guerra Relâmpago (Blitzkrieg), que consistia em realizar um ataque coordenado dos tanques de guerra, força aérea e infantaria com o objetivo de cercar o inimigo.

O povo soviético e o Exército Vermelho, dirigidos pelo Partido Comunista Bolchevique da URSS (sob a liderança de Josef Stálin), ofereceram aos alemães algo que eles não tinham vivido até aquele momento: uma barreira intransponível, um desejo de lutar pela Pátria e defender seu Estado e o socialismo. Em vez de se renderem, os soldados soviéticos, mesmos cercados, combatiam até a última bala. Ao mesmo tempo, membros da população civil, militantes do Partido e da Juventude Comunista (Komsomol) se somavam aos milhares nos grupos guerrilheiros, conhecidos como partisans. Esses tinham como objetivo destruir as linhas de comunicação inimigas, impedir o avanço das tropas invasoras e manter o Exército Vermelho informado sobre a localização, a força e os movimentos dessas tropas.

Os nazistas não conseguiam concentrar sua força de ataque no front, já que eram obrigados a combater também na retaguarda contra os grupos do Exército Vermelho que estavam cercados e os guerrilheiros, que transformavam a vida noturna dos alemães em um inferno. O efeito psicológico era devastador contra os nazistas, que comumente tinham seu sono interrompido por todo tipo de ações de sabotagem: estoques de munições e de alimentos incendiados; água de poços envenenada; tanques de combustível e pontes explodidos; carros inutilizados; placas trocadas; conexões de trilhos alteradas, fazendo com que um trem colidisse com outro. Isso fez com que os objetivos alemães não fossem alcançados, e a guerra que foi programada para durar oito semanas se estendeu por quatro anos.

Mesmo em áreas ocupadas, a atuação do Partido não acabou. Só na Bielorrússia ocupada pelos nazistas, o Partido tinha em funcionamento nove Comitês Regionais, 174 Comitês Distritais e mais de mil células em sua base. Na Ucrânia ocupada atuavam 12 Comitês Regionais, 265 Comitês Distritais e 670 organizações do Komsomol. Além das armas, o Partido Bolchevique combatia com panfletos e jornais. Durante a madrugada, os guerrilheiros e os militantes tinham a tarefa de deixá-los debaixo das portas das casas, de picharem os muros, e o efeito moral na população era enorme: mesmo com tantas dificuldades, o povo sabia que seu Partido ainda estava ali, clandestinamente.

Combater a falsificação da história

Por ser um dos eventos mais importantes da geopolítica do século 20, a Segunda Guerra é fonte de muitas distorções e falsificações. Milhões de dólares são gastos todos os anos nos filmes e séries que buscam recontar os eventos dessa época para fraudar a História: afirmar que quem venceu a Guerra foram os estadunidenses.

As narrativas mentirosas dos livros não resistem aos números, tão menos à realidade: a cada 10 soldados do Eixo mortos, 8 foram de responsabilidade do Exército Vermelho; o famoso Dia D só aconteceu em junho de 1944, quando a URSS já estava avançando para a tomada de Berlim. No cinema, a maioria dos filmes transforma derrotas humilhantes de franceses e ingleses em vitórias e tenta justificar o colaboracionismo das potências capitalistas com os nazistas em algumas ocasiões.

Os filmes também tentam nos fazer acreditar que o Japão fascista se rendeu por conta do ataque nuclear contra a população civil japonesa feito pelos EUA. Escondem a realidade: a URSS desembarcou suas tropas na Manchúria e na Coreia, declarando guerra ao Japão, que viu suas tropas de mais de 1,5 milhão de homens se renderem, com os soviéticos tendo superioridade numérica e de armas em combate.

Outra falsificação criada é que o Exército Vermelho obrigou o povo a ingressar nos esforços de guerra. Se isso fosse realmente verdade, bastava a população se render quando os nazistas entrassem no país, mas o que assistimos foi a população integrar os grupos guerrilheiros e defender palmo a palmo o solo da Pátria.

Vencer a guerra não foi uma tarefa fácil: ao todo, mais de 35 milhões de soviéticos morreram nas câmaras de gás, assassinados nas batalhas, exterminados nas aldeias ou de fome nas cidades sitiadas. Mesmo assim, foi possível vencer. Há 80 anos, o Partido Comunista Bolchevique e o Exército Vermelho provaram a superioridade do socialismo e que com um povo ganho para defender seus interesses, é possível tudo, até mesmo vencer uma máquina de guerra que parecia invencível.

Os povos do mundo sempre serão gratos ao heroico povo soviético pela vitória contra o inimigo nazista. Honremos aqueles que morreram lutando pelo socialismo no passado, lutando pelo socialismo hoje.

Matéria publicada na edição impressa nº 312 do jornal A Verdade

Terceirizados da Volkswagen em São Carlos lutam por seus sábados

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Trabalhadores terceirizados da Volkswagen em São Carlos, empregados pela SESÉ Logística, estão lutando para receberem seu PLR sem terem que trabalhar quase todos os sábados do ano. Apesar dos ataques da empresa, os operários têm força para barrar a amarração ao sábado produtivo.

Vitor Fabris | São Carlos (SP)


Desde o começo de abril, trabalhadores terceirizados da fábrica de motores da Volkswagen em São Carlos, empregados pela SESÉ Logística, estão lutando por um espaço na mesa de negociação da Participação nos Lucros e Resultados (PLR) deste ano. Essa mobilização surge após a SESÉ, em outras fábricas, amarrar a participação no PLR à presença compulsória nos sábados produtivos.

Por sua vez, a Volkswagen, gigante multinacional cujas origens remontam à Alemanha nazista e que apoiou a ditadura militar fascista no Brasil em vários de seus crimes, realizou negociações similares com os operários não-terceirizados de São Carlos.

Os sábados produtivos são dias excepcionais em que, por demandas da Volkswagen, um adicional de 65% é pago aos terceirizados para movimentarem a fábrica. Agora, no momento em que as negociações estão para acontecer, se os terceirizados não tiverem representantes próprios na Comissão de Negociação, a SESÉ poderá fazer o que bem entender.

Na prática, esta amarração significaria que os terceirizados da fábrica de São Carlos poderiam ser obrigados a trabalhar quase 30 dias a mais, passando a uma escala parecida com a 6×1. Escala essa que está sendo enfrentada pelos trabalhadores do Brasil todo, como tem mostrado o jornal A Verdade.

Tentativas de desmobilizar os terceirizados

Sabendo que os terceirizados, caso se organizem, podem impedir essa amarração do sábado produtivo, a SESÉ Logística tem tentado desmobilizar os trabalhadores ao máximo.

A empresa aplica punições aos trabalhadores que se reunirem para discutir seus direitos; se tentarem se organizar em redes digitais, colocam infiltrados para observar tudo. Quando os terceirizados, em sua maioria, organizaram uma Comissão de Negociação em fevereiro, foi desmantelada.

Tudo isso culminou na demissão sem justificativa de Fernando*, terceirizado que estava à frente da formação da Comissão. “Quando mandei mensagem cobrando novamente sobre o processo de formação, não deu 30 minutos e me chamaram ao RH. Lá, falaram que eu estava sendo desligado. Não deram justificativa nenhuma, só me mandaram embora”, disse Fernando.

Terceirizados têm força para conquistar

Porém, a realidade que não gostam de falar é que os lucros e resultados só existem por causa dos operários. Se não fossem os terceirizados realizarem a manutenção das máquinas, a limpeza dos espaços, o transporte das peças, a logística dos materiais, a alimentação dos trabalhadores; os metalúrgicos realizarem a montagem dos motores; enfim, se não fossem os operários das fábricas movimentarem tudo, não haveriam lucros nem resultados.

Se a SESÉ realiza esses ataques, é porque sabe que os terceirizados organizados podem impedir essa amarração. Sozinhos, os operários não têm força contra a ganância dos patrões. Mas, organizados, são os patrões que não têm força contra os operários. Com uma Comissão de Negociação dos Terceirizados grande e forte, os terceirizados poderão lutar pelos seus direitos.

A categoria exige que seja feita a Assembleia Geral Extraordinária para que seja eleita uma Comissão de Negociação dos Terceirizados!

Terceirizados da Volkswagen, se organizem no Movimento Luta de Classes (MLC)! Vamos organizar uma forte Comissão para barrar a ganância dos patrões!

Metalúrgicos, apoiem os terceirizados na sua luta! Articulem-se com seu sindicato para ajudar seus irmãos trabalhadores!

* Fernando é um nome fictício empregado para proteger o trabalhador

Nota do partido Unidade Popular: “Não à usurpação da sigla UP!”

Neste mês, uma federação entre dois partidos oligárquicos da direita deu início a uma tentativa de usurpar a sigla da Unidade Popular, cada vez mais respeitada pelo povo. Leia a nota da Executiva Nacional da UP denunciando o caso

Executiva Nacional da UP


A história do Brasil é repleta de exemplos de ações de uma elite conservadora, composta por latifundiários, banqueiros e bilionários herdeiros de escravagistas, que tudo fazem para se apropriar das riquezas e do patrimônio do povo.

Essa semana tivemos mais um exemplo do arbítrio e desrespeito ao povo brasileiro e à democracia, eis a fraude:

Dois partidos, PP e União Brasil, que recebem somados mais de R$1 bilhão do Fundo Eleitoral e cerca de R$197,65 milhões do Fundo Partidário, querem roubar a sigla da UP!

Esse absurdo está sendo praticado por partidos que defendem os ricos e os patrões, o vergonhoso orçamento secreto, e votam a favor de propostas como o corte de investimentos na saúde e educação para pagar a dívida pública e enriquecer o agronegócio.

Desde que criamos a UP, a admiração do povo só cresce e nos tornamos uma sigla respeitada pelo nosso compromisso com a luta por bandeiras como o fim da fome e da escala 6×1, pelo poder popular e o socialismo.

Acham que podem se apropriar do prestígio que a UP conquistou junto ao povo, mas não conseguirão!

O registro da UP foi possível graças ao apoio de mais de um milhão e duzentas mil pessoas durante a campanha pela criação do Partido. Nossa militância está preparada para impedir qualquer tentativa de golpe e usurpação.

Chamamos todos aqueles que têm senso de democracia e que são contra essa injustiça a se solidarizar com a Unidade Popular – UP, exigindo o fim dessa farsa e dizendo não a tentativa de retirar da UP o direito de utilizar a sua própria sigla.

Executiva Nacional da Unidade Popular Pelo Socialismo – UP

São Paulo/SP, Brasil, 29 de abril de 2025

Distrito Federal vive grave crise habitacional

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“O Distrito Federal também é a unidade da federação com a maior proporção de pessoas sem casa própria. Mais de 53% das famílias da capital dependem de aluguéis, conforme a PNAD Contínua de 2022.”

Pedro Bruno | Brasília (DF)


Moradia é um direito no papel, mas a vida real mostra outro lado. Desde o início, a luta dos comunistas defendeu que todo trabalhador tenha, na lei e na realidade, um lugar digno para viver. Para o governo de Ibaneis Rocha (MDB), que está no poder no Distrito Federal desde 2019, e para a classe que ele serve e protege, moradia é uma mercadoria. 

Nossa capital é profundamente desigual. Ocupa, historicamente, as piores posições nacionais, o DF tem atualmente a terceira maior disparidade de renda dos estados brasileiros, conforme a PNAD Contínua de 2023, do IBGE. O Lago Sul, frequentemente apontado como o bairro mais rico do Brasil, apresentou uma renda domiciliar média superior a R$ 31 mil, cerca de 15 vezes maior do que na Estrutural e no Sol Nascente, dados da PDAD de 2021, do Instituto de Pesquisa e Estatística do Distrito Federal (IPE-DF).

No mesmo ano, mais de 10% das residências estimadas do Distrito Federal estavam em déficit habitacional. Isso significa que mais de 100 mil moradias do quadrilátero eram improvisadas, apresentavam condições precárias, estavam superlotadas ou tinham aluguéis sufocantes, superiores a 30% da renda de seus moradores. Dos residentes que vivem nessas condições, quase metade apresenta algum grau de insegurança alimentar.

Aluguéis proibitivos e infraestrutura precária

O DF também é a unidade da federação com a maior proporção de pessoas sem casa própria. Mais de 53% das famílias da capital dependem de aluguéis, conforme a PNAD Contínua de 2022. A PNAD 2021 já indicava, três anos atrás, que quase 80% da população do DF ganhava até 5 salários mínimos (R$ 5.500, à época), sendo que a faixa de até dois salários mínimos (R$ 2.200, à época) representava mais da metade da população do quadrilátero. 

Para a maioria dos brasilienses, alugar um imóvel de cem metros quadrados seria impossível em boa parte da cidade, especialmente nas regiões centrais. O valor médio do metro quadrado no Distrito Federal atingiu o recorde de R$ 44,59, sendo que alguns bairros da capital constam na lista dos mais caros do país, segundo dados da plataforma Wimóveis para janeiro de 2024. 

A segregação espacial dos trabalhadores do DF é histórica. Nos anos 1970, a “Campanha de Erradicação de Invasões” (CEI), produto da ditadura militar, deu origem à Ceilândia, maior bairro do DF, com mais de 18 mil moradias em déficit habitacional. Ao longo das décadas, nos seus arredores, formou-se a comunidade do Sol Nascente, que o Censo de 2022 apontou como a maior favela do país, hoje mais populosa que a Rocinha. 

A formalização da comunidade como a 32ª Região Administrativa pouco fez para amenizar sua dura realidade, compartilhada pelas cidades do Brasil e da periferia mundial do capitalismo. Quase metade das vias não é pavimentada e apenas 38% possui drenagem pluvial, segundo a PDAD 2021, do IPE-DF. Buracos, entulho e esgoto a céu aberto fazem parte da paisagem cotidiana desses lugares, enquanto espaços culturais, árvores e faixas de pedestres inexistem para 85% dos moradores. Itens básicos para o bom funcionamento de qualquer comunidade são prioridade apenas nas regiões mais ricas da cidade.

Situação de rua e violência policial

Talvez a face mais cruel do capitalismo seja vivida pelas suas quase oito mil pessoas em situação de rua. Privadas de condições básicas e excluídas de uma socialização digna, elas representam, no Distrito Federal, a maior porcentagem de todas as unidades da federação, como evidenciam dados do relatório de 2023 sobre População em Situação de Rua, do Ministério de Direitos Humanos e da Cidadania. Cerca de três em cada mil pessoas vivem à sombra dos monumentos modernistas de Brasília, à margem de um projeto de futuro que não as contemplou.

O desamparo das milhares de famílias em situação de rua é uma potente ameaça que paira sobre toda a classe trabalhadora, um lembrete constante de que o desemprego é sempre uma possibilidade. A essas condições extremas, junta-se a brutalidade típica da Polícia Militar, a única presença do Estado que muitas pessoas sem-teto conhecem. As ordens de desocupação de Ibaneis foram diretamente responsáveis pelo despejo truculento de ao menos sete comunidades. Os alvos iam de acampamentos provisórios até ocupações populares, como a Casa Ieda Delgado, do Movimento de Mulheres Olga Benario, violentamente desmantelada em 2022. 

Esse tratamento, historicamente racista e militarizado, contrasta com a mansidão do governo diante das ilegalidades de grileiros e condomínios particulares, que frequentemente usam terras públicas para construir e vender propriedades. Existem pelo menos 500 condomínios irregulares ocupados por população de baixa, média e alta renda na capital, segundo o Conselho Regional de Corretores de Imóveis do DF.

Ibaneis Rocha e o fascismo

Pouco antes de tomar posse, Ibaneis Rocha comprou a casa mais cara já vendida no DF, no Lago Sul. Avaliada em R$ 23 milhões, a enorme mansão, e seu terreno de 10 mil metros quadrados, representam um luxo inalcançável pela maior parte da população do Brasil e do mundo, mesmo depois de vidas inteiras de trabalho. Proprietário de escritório de advocacia e de um patrimônio próximo a R$ 80 milhões, o governador está entre os 0,1% mais ricos do mundo, conforme as faixas de renda e riqueza do World Inequality Report 2022.

Ainda que não chegue perto das grandes fortunas do país, Ibaneis Rocha é agente político da burguesia, e se colocou a serviço de seus elementos mais reacionários. Relativamente desconhecido até as eleições de 2018, ganhou apoio considerável ao se alinhar com o fascista Jair Bolsonaro. Desde então, ele governou para o capital, com o desprezo pelos trabalhadores tão característico do ex-presidente. No dia 8 de janeiro, enquanto golpistas se amontoavam na Praça dos Três Poderes, a polícia manteve a distância e permitiu a destruição do patrimônio público. Apesar de se esquivar da devida punição, a sua omissão criminosa o situou publicamente como cúmplice de Bolsonaro na tentativa de golpe fracassada e resultou no seu afastamento temporário do governo.

A experiência socialista

A cinco mil quilômetros de Brasília, nas águas quentes do Caribe, temos outra história. Uma colônia explorada por cinco séculos, não muito diferente do Brasil, Cuba foi libertada pelo seu povo em 1959 e é governada por trabalhadores desde então. A missão do império estadunidense imediatamente tornou-se destruir a Revolução. O pequeno país sofre um bloqueio econômico há mais de 60 anos, que o impede de comercializar normalmente com o mundo. Todos os anos, as Nações Unidas votam esmagadoramente contra a medida ilegal, mas os Estados Unidos continuam tentando sufocar o povo cubano. 

Ainda assim, com uma economia sitiada e recursos escassos, Cuba não abandona o seu povo. Existem quase 4 milhões de moradias, para uma população de 11 milhões, com cerca de três pessoas por unidade, dados do Perfil da Moradia de 2021, da ONU Habitat. Cuba não é um país rico, mas o relatório reconhece que, apesar das dificuldades materiais, ninguém em Cuba mora na rua.

Cada povo tem a sua luta a travar contra o sistema que destrói a humanidade. A falta de habitação e o déficit habitacional no Brasil não são uma falha do capitalismo, mas suas consequências naturais. Os milhares forçados a viver nas ruas são o produto de um sistema feito para gerar lucro para alguns, e não dignidade para todos. Apenas a classe trabalhadora pode salvar a si mesma. No nosso país, os trabalhadores do Movimento de Luta nos Bairros, Vilas e Favelas (MLB) fazem parte das forças revolucionárias que constroem as fundações de um futuro justo, no qual todos terão onde viver. Outro mundo é necessário. Outro mundo é possível.

Reduzir a jornada e combater a escala 6×1 para lutar contra o desumano sistema capitalista

Este sistema resistirá com toda violência e desespero, buscando barrar qualquer reforma proposta pelos trabalhadores, como a redução da jornada de trabalho e o fim da escala 6×1. Conscientes disso, cabe aos trabalhadores se unirem para lutar a favor de uma reforma na escala de trabalho e na redução da jornada.

Wanderson Pinheiro | São Paulo (SP)


A classe trabalhadora é cada vez mais explorada pelos grandes monopólios no atual sistema capitalista-imperialista. No Brasil, com a famigerada escala 6×1, a grande burguesia sustenta uma exaustiva jornada de trabalho de 44 horas semanais. Sem contar que os patrões, muitas vezes, passam por cima das leis trabalhistas, com artifícios como o das horas-extras, para impor uma jornada que chega a 16 horas por dia. Os trabalhadores e trabalhadoras do comércio, da limpeza, dos aplicativos e do telemarketing, são as principais vítimas desse trabalho escravo “moderno”, legalizado pelo Parlamento e pela Justiça burgueses.

Os grandes capitalistas internacionais e seus países imperialistas, que se lançam à guerra para defender os mercados para seus monopólios, são os mesmos que exploram a classe trabalhadora e a empurram para o desemprego e o trabalho informal (sem direitos).

Dessa forma, a grande burguesia atua para aumentar o exército de trabalhadores desempregados, rebaixar os salários e aumentar a jornada de trabalho de forma violenta, tudo com o objetivo de vender suas mercadorias. Por trás disso, existe uma grande disputa por mercados. E se trata de uma disputa entre gigantes, entre oligopólios que levam a concorrência ao extremo. Essas disputas se desenvolvem a ponto de gerar disputa entre Estados imperialistas, de forma que estamos à beira de uma nova guerra mundial.

Para reduzirem seus custos de produção, também aumentam fortemente os investimentos em tecnologia e demitem milhares de trabalhadores. Por outro lado, no geral, reduzem o poder aquisitivo das amplas massas, reduzindo o consumo dos seus próprios produtos e aprofundando a crise econômica do sistema.

Por isso, o avanço da crise do capitalismo-imperialismo moribundo é perfeitamente previsível e inevitável. Porém, este sistema resistirá com toda violência e desespero, buscando barrar qualquer reforma proposta pelos trabalhadores, como a redução da jornada de trabalho e o fim da escala 6×1.

Conscientes disso, cabe aos trabalhadores se unirem para lutar a favor de uma reforma na escala de trabalho e na redução da jornada. Essa reforma progressista é pela vida dos trabalhadores, pela redução da exploração e contra a crise econômica que nos rodeia. Estas bandeiras de luta devem estar no centro dos atos do 1º de Maio que se aproximam, até porque o Dia Internacional da Classe Trabalhadora surgiu, há quase meio século, exatamente em torno da luta pela redução da jornada de trabalho.

Escala 6×1

Os altos investimentos em tecnologia, além de reduzir o tempo de trabalho necessário para produzir as mercadorias, demitindo trabalhadores e reduzindo salários. Um exemplo é o que foi apresentado pelo relatório do FMI, de 2024, no qual afirma que os bilhões de investimentos em Inteligência Artificial (IA) afetarão substancialmente 40% dos empregos em todo mundo.

O investimento mundial em IA, de 2023 para 2024, cresceu 62%, chegando a US$ 110 bilhões no último ano. Este é um forte setor de investimentos do capital financeiro em cadeia, que vai desde a produção de microchips em larga escala, passando por fazendas de grande porte para armazenamento de dados, até chegar ao processamento dos dados por meio da IA. As chamadas big techs são parte desse monopólio das informações e tecnologia nas mãos da burguesia em nível internacional.

Segundo o Relatório Emprego Mundial e Perspectivas Sociais da OIT-ONU, 435 milhões de trabalhadores estiveram desempregados em 2024, o que representa 5% da população mundial. Isto é, como disse Karl Marx, um verdadeiro exército de trabalhadores desempregados.

Somando-se à enorme fila dos desempregados, tivemos a redução dos salários, de maneira mais exacerbada nos países explorados pelo imperialismo. No Brasil, por exemplo, tivemos uma queda geral nos salários de 7%. Em nível mundial, o número de trabalhadores no mercado informal ultrapassou a marca de 2 bilhões, e mais de 241 milhões de trabalhadores vivem em famílias com renda per capta inferior a 2,15 dólares por dia (R$ 12,56).

A tática dos capitalistas é clara. Jogam milhões de pessoas nas filas em busca de emprego, passando fome e morrendo à mingua para pressionarem aqueles que estão empregados, ameaçando-os de demissão caso reivindiquem melhores condições e pagando salários miseráveis. E pior: mesmo passando fome e estando subnutridos, os trabalhadores têm que cumprir jornadas exaustivas, como a escala 6×1.

Jornadas exaustivas

Devemos observar que a escala de trabalho 6×1 é parte de um sistema de exploração geral e violento. É a extração da nossa força de trabalho até o limite, sugando nosso sangue e nos matando. Esta situação é mais grave nos países explorados, onde somos obrigados a vender nossa força de trabalho para os patrões, sem receber o mínimo necessário para nos manter em pé no dia seguinte.

Segundo o IBGE, no Brasil, 60% dos trabalhadores vivem com até um salário mínimo (R$ 1.518,00), que, ironicamente, não satisfaz o “mínimo” para sobrevivermos e nos recompor para trabalhar uma jornada de trabalho exaustiva de 44 horas semanais ou mais. Não temos tempo para o descanso, para o lazer e nem mesmo para conviver com a própria família.

Além disso, esse limite de jornada é muitas vezes “flexibilizado” pela reforma trabalhista. Este é o caso de uma grande quantidade de trabalhadores informais (os “uberizados”, pjotizados, etc.), falsamente caracterizados como colaboradores/empreendedores e trabalham cumprindo até 12 horas por dia.

Pesquisa da ONG Ação Cidadania revela que 56% dos entregadores, em São Paulo e no Rio de Janeiro, trabalham mais que 9 horas por dia. Com dados referentes a agosto de 2024, a pesquisa diz ainda que 13,5% vivem em condições de restrição alimentar grave e 41% já sofreram acidentes no trabalho.

Mais ainda, segundo o Colab/PUC-Minas, o regime de escala 6×1 está associado ao crescimento da síndrome burnout no Brasil, que é uma doença de esgotamento profissional silencioso. Os sintomas da crise são o cansaço extremo, sensação de ineficácia, dificuldade de concentração e irritabilidade constante, que geralmente evoluem para ansiedade e depressão. As causas do desenvolvimento da síndrome são a pressão por produtividade, ausência de pausas adequadas e as jornadas de trabalho exaustivas.

A luta contra o capitalismo

A redução da jornada de trabalho e o fim da escala 6×1 é uma luta de toda a classe trabalhadora contra a classe da grande burguesia e diz respeito diretamente ao lucro dos capitalistas. Por isso, essa luta se desenvolve de maneira encarniçada, já que os patrões não admitem perder nada.

Porém, para obter essa grande conquista, a classe trabalhadora precisa se organizar e desenvolver uma grande luta em nível nacional, e mesmo internacional. Um caminho a seguir é a realização de uma enorme “Campanha pelo fim da escala 6×1”, com grandes atos e manifestações nacionais, que coloquem milhões de trabalhadores nas ruas. Devemos ainda desenvolver e aprofundar atos de protestos nos shoppings, supermercados, call centers e demais empresas que promovem a escala 6×1.

Mas, para obtermos mais rapidamente vitórias, precisamos nos inspirar no que fizeram os irmãos trabalhadores da Pepsico (ver pág. 6), que realizaram uma grandiosa greve de sete dias, parando completamente a produção, e conquistaram a primeira vitória contra a escala 6×1. No final da greve, os trabalhadores conquistaram mais um dia de folga no mês e derrotaram os patrões. Por isso, consideramos que esse é o caminho a seguir: não ficar esperando o Parlamento burguês, mas sim deflagarmos uma jornada de GREVES CONTRA A ESCALA 6×1!

Para avançarmos nessa luta, não podemos ter ilusão que a conquista virá do parlamento, da justiça burguesa ou de alianças com o centrão para a aprovação de um projeto via conciliação. É necessário levarmos nossos interesses às ruas, com ações do poder popular. Já está demonstrado que nem o Centrão nem a social democracia defendem os reais interesses do nosso povo. Também é claro que esses setores não se movem para reverter as privatizações e a retirada de direitos. Portanto, a força para acabar com a escala 6×1 e reduzir a jornada de trabalho deve vir das ruas pelas mãos da classe trabalhadora.

Também é importante avançarmos a consciência dos trabalhadores enquanto classe. Demonstrar que esses precisam se unir e lutar por uma política da classe trabalhadora. Política esta que combate as privatizações, luta pelo cancelamento das reformas trabalhista e previdenciária, pela auditoria e cancelamento da dívida pública, pelo aumento de 100% do salário mínimo, pela redução da jornada de trabalho sem redução de salários e o fim da escala 6×1. Enfim, queremos que a luta por reformas progressistas não caia nos limites da legislação vigente (burguesa), do puro reformismo, pois os capitalistas querem nos fazer conformar com as migalhas permitidas.

A nossa luta pode e deve se desenvolver no caminho da revolução socialista, da construção do poder popular e do socialismo. Pois, somente assim, poderemos acabar de uma vez por todas com todas as formas de exploração e opressão e destruir o velho sistema capitalista-imperialista que tanto nos explora e assassina.

Matéria publicada na edição impressa nº 311 do jornal A Verdade