UM JORNAL DOS TRABALHADORES NA LUTA PELO SOCIALISMO

sexta-feira, 10 de abril de 2026
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Glauber Braga inicia greve de fome contra cassação golpista do mandato

Glauber Braga não se intimidou diante da aprovação do parecer favorável à cassação no Conselho de Ética, e seguirá denunciando o caráter golpista do processo no plenário da Câmara dos Deputados. UP e movimentos sociais estão presentes na luta em apoio ao mandato legítimo de Glauber

Alexandre Ferreira e Guilherme Arruda


Nesta quarta-feira (9/4), a Comissão de Ética da Câmara dos Deputados aprovou a cassação do mandato do parlamentar Glauber Braga (PSOL-RJ), em represália por sua atuação combativa e a favor dos trabalhadores no Congresso Nacional. A votação ainda não significa a perda do mandato, que só será cassado caso a decisão seja aprovada pelo plenário da casa.

Contando com a solidariedade de dezenas de membros de organizações políticas e movimentos sociais presentes, inclusive da Unidade Popular (UP), Glauber Braga alertou que a cassação é um processo político que tenta calar suas denúncias contra o Orçamento Secreto e outras manobras do Centrão. Os parlamentares desse grupo, com o apoio explícito do ex-presidente da Câmara Arthur Lira (PP-AL), se apropriam ilegalmente de verbas públicas e as utilizam sem nenhuma transparência para beneficiar suas políticas oligárquicas.

Dando continuidade à luta contra o caráter golpista da tentativa de cassação de seu mandato, que anula a vontade legítima dos eleitores e do povo do Rio de Janeiro, Glauber anunciou uma greve de fome e informou que não sairá da Câmara dos Deputados até a votação no plenário.

A Unidade Popular apoia a luta em defesa do mandato de Glauber Braga. Foto: Donavan Sampaio (JAV/DF)
A Unidade Popular apoia a luta em defesa do mandato de Glauber Braga. Foto: Donavan Sampaio (JAV/DF)

Votação armada

Como denunciaram os militantes da UP que estavam no local, a sessão do Conselho de Ética foi marcada pelo clima de armação dos líderes do Centrão. De acordo com o regimento da Câmara, todas as comissões e conselhos devem parar de funcionar quando o plenário da casa começa sua sessão. Normalmente, o presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), dá início aos trabalhos às 16h30. Hoje, porém, para garantir o andamento da cassação de Glauber, só os iniciou depois das 19h.

Na sessão, foi aprovado um relatório favorável à cassação preparado pelo deputado Paulo Magalhães (PSD-BA). A escolha desse parlamentar para a relatoria escancara mais ainda o caráter político do processo. Em 2001, o deputado Paulo agrediu na Câmara um jornalista que havia escrito um livro de denúncias contra seu tio, o oligarca baiano Antônio Carlos Magalhães (ACM), e não sofreu nenhuma punição e nem perdeu seu mandato.

Em agosto do ano passado, Paulo Magalhães se absteve na votação da cassação de Chiquinho Brazão, o mandante do assassinato de Marielle Franco. Seguindo com sua conduta hipócrita, o relator se recusou a responder qualquer pergunta durante a sessão que aprovou a cassação de Glauber.

Glauber conta com o apoio de milhares de lutadores populares por todo o país. Foto: Donavan Sampaio (JAV/DF)
Glauber conta com o apoio de milhares de lutadores populares por todo o país. Foto: Donavan Sampaio (JAV/DF)

Luta segue para o plenário

Em apoio à luta democrática contra a cassação de Glauber, a Unidade Popular esteve presente em várias reuniões do Conselho de Ética no último período e também acompanhou todo o processo desta quarta-feira.

Agora que o processo segue para o plenário da Câmara dos Deputados, o partido seguirá mobilizado ombro a ombro com Glauber Braga e todos os lutadores populares, para impedir que o Centrão e os fascistas do Congresso Nacional cassem o mandato de um legítimo representante do povo trabalhador.

População sofre com o aumento da violência policial e da criminalidade em Fortaleza (CE)

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Moradores da periferia de Fortaleza sofrem com o aumento da criminalidade e da disputa policial. Morte de agente penitenciário é estopim para série de violências cometidas contra a população do Moura Brasil

André Cidade e Renan Azevedo | MLB (CE) 

BRASIL – Todos os dias, a população trabalhadora enfrenta inúmeros problemas que existem em uma sociedade capitalista. Não bastassem os aluguéis altos, o transporte caro, a escala 6×1 ou os alimentos caros nas prateleiras nos mercados, ainda existem a violência de facções criminosas, que destroem vidas e lares em todo o país, e a violência sistemática a população na periferia, comandada pelo Estado brasileiro, que camufla como a “guerra às drogas”.

Centenas de moradores do Moura Brasil viveram dias de terror por conta de operações policiais feitas naquele bairro litorâneo de Fortaleza (CE). Na capital cearense, a disputa de territórios por facções criminosas tem feito vítimas de todos os tipos. Sejam policiais, criminosos, trabalhadores, mães ou estudantes, qualquer pessoa pode morrer nesta disputa. Assim, quando um policial penal foi alvejado por criminosos que o confundiram com um rival de outra facção, toda a população sabia que a resposta seria brutal.

O revide da Polícia Penal cearense foi rápido. Nos dias que se seguiram à morte daquele agente penitenciário, foi instaurada uma grande operação policial para localizar os criminosos que fizeram o disparo. Operação esta que pode ser vista como ilegal. De acordo com testemunhas, os policiais que ocuparam a favela do Oitão Preto, localizada no Moura Brasil, violaram direitos básicos dos moradores. Rapidamente, todas as pessoas do Moura Brasil se tornaram membros de facções aos olhos da polícia.

A truculência

Conforme os dias se passaram, todas as pessoas eram revistadas. Ninguém mais poderia transitar sem o aval da polícia. Não bastasse a violência das facções, presente no temor de todos os moradores, a população ainda devia prestar contas à polícia por um crime que ela não cometera. Não há diálogo com o fardamento: qualquer pessoa que questione ou peça alguma orientação pode sofrer tantas represálias quanto um criminoso faccionado.

Nestas ações, a truculência policial é democrática: qualquer pessoa poderá sofrer violências de um agente armado. De acordo com diversos relatos, as ações da polícia não se restringiam à vistoria de documentos. Nos dias de intervenção intensiva no Moura Brasil, uma mulher grávida foi agredida pelos agentes, a ponto de sofrer um aborto. Uma senhora idosa, doente cardíaca, desmaiou durante uma abordagem que foi feita aos berros. Um morador que quis registrar as violências teve seu celular quebrado pela polícia. Além disso, diversas residências foram arrombadas e invadidas sem qualquer mandato. “Eu acredito que isso foi uma forma de constranger a gente, de nos ameaçar. É como se fosse para amedrontar a gente”, relatou um morador.

Como o trânsito de moradores estava completamente restrito pela polícia, comércios locais da favela do Oitão Preto fecharam durante os dias de operação. Crianças e adolescentes eram igualmente revistadas. Não importava o gênero ou a idade, todas as pessoas deveriam prestar contas aos policiais fortemente armados.

O resultado da atuação brutal da polícia no Moura Brasil foi uma atmosfera de medo dos moradores em relação à corporação. “A gente não é contra o policiamento”, declarou uma moradora para o jornal A Verdade. “A gente não é contra a segurança pública. Digo que também a gente… É a favor que a polícia trabalhe de forma correta”.

A manifestação

Buscando respostas à truculência policial, a população do Moura Brasil organizou uma manifestação cobrando respostas do governo. O ato buscou interromper o trânsito de uma avenida principal de Fortaleza para chamar a atenção das autoridades. Enquanto pelotões do choque acompanhavam a manifestação, outros agentes da polícia avançavam na favela do Oitão Preto. Três suspeitos, que teriam reagido às abordagens, foram mortos em confronto.
Um fato que também causou muito desgosto para os habitantes foi a invasão e depredação da sede do Núcleo de Patrimônio Cultural (NUPAC) do Moura Brasil. O NUPAC é uma organização não-governamental (ONG) que busca desmistificar a história da favela. As áreas periféricas de todo o Brasil, incluindo o Oitão Preto, costumam ser vistas enquanto sinônimo de criminalidade, uso de drogas, prostituição e violência.

Para combater essas visões, o NUPAC atua com museologia social, patrimônio e memória como principais medidas socioeducativas. Ainda assim, no anoitecer do dia da manifestação e da morte dos três suspeitos, a sede do NUPAC Moura Brasil foi encontrada destruída. Moradores suspeitam que os agentes da polícia tenham feito a depredação.

Devemos superar estas violências

Os eventos apresentados, desde a morte do agente penitenciário até a saída da polícia do Moura Brasil, ocorreram em menos de uma semana (27 a 31 de janeiro de 2025). Estas datas não tornam a notícia obsoleta. A atuação truculenta da polícia contra populações periféricas é uma constante em todo o mundo.

Há, entretanto, mais um elemento que tensiona ainda mais a situação do Oitão Preto. No Plano Diretor de Fortaleza, a comunidade se encontra em uma ZEIS (Zona Especial de Interesse Social) prioritária. Isto significa que aquela região deve passar por um processo de regularização fundiária com urgência. Dentro da lógica urbanística, as ZEIS cumprem a função de garantir moradia para quem nelas habita.

Além disso, as ZEIS combatem a especulação imobiliária, impedindo a construção de prédios altos, bem como a compra e venda de lotes. A grande questão é que a ZEIS Moura Brasil se encontra em uma área muito visada pelo setor imobiliário de Fortaleza: está a poucos metros da praia e tem uma extensão considerável. Os conflitos entre facções e policiais atrasam a regularização dos terrenos, algo positivo para quem tem interesse em comprar e construir algum hotel luxuoso naquela área. O cruzamento das violências não se limita ao crime organizado das facções ou à polícia que age com brutalidade. Também existem os interesses da classe dominante sobre aquele território, tal qual em tantas outras favelas onde mora nosso povo.

O que aconteceu no Moura Brasil é a luta de classes escancarada. O Movimento de Luta nos Bairros, Vilas e Favelas (MLB) tem atuado com força nos debates do Plano Diretor de Fortaleza, garantindo os direitos do povo trabalhador e combatendo os desejos do grande capital. A luta institucional é potente, mas tem suas limitações. A única força capaz de superar os problemas que surgem nesta sociedade está nos braços do proletariado. Nada cai do céu, mas tudo é erguido do solo pelo suor de quem trabalha.

Operários denunciam más condições de trabalho em Mogi das Cruzes

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Enquantos os funcionários da Silgan Dispensing em Mogi das Cruzes trabalham em uma jornada exaustiva, com retirada de benefícios em caso de doença, e convivem com variados tipos de assédio diariamente, acionistas lucraram mais de US$250 milhões em 2023. Mulheres e terceirizados são os mais afetados.

Movimento Luta de Classes SP


TRABALHADOR UNIDO – A empresa Silgan Dispensing é uma multinacional estadunidense que produz embalagens para os setores de higiene, cuidados pessoais e farmacêuticos. No Brasil, a empresa tem 3 fábricas, sendo elas em Valinhos, Jundiaí e Mogi das Cruzes, todas no estado de São Paulo.

Trabalhadores da sede de Mogi das Cruzes lutam contra as medidas impostas pelos administradores da empresa. Operárias e operários denunciam a escala 6×1 e 6×2, o desconto de cestas básicas em caso de faltas justificadas e diversas formas de assédio — principalmente contra mulheres, a imensa maioria do operariado. Além disso, há protestos por conta da ausência de benefícios mínimos aos funcionários terceirizados e de um pagamento vergonhoso no valor da PPR (Programa de Participação nos Resultados).

E apesar de ser uma multinacional milionária, os administradores da empresa não têm interesse nem em zelar pela estrutura da empresa. Nos dias de chuva é recorrente as goteiras no interior de fábrica, assim como alagamento nos corredores e parte externa.

Enquanto isso, o grupo Silgan pagou mais de US$250 milhões em 2023 (segundo o site da própria empresa) aos acionistas por meio de compra de ações e dividendos. Os donos do capital ainda anunciaram um programa plurianual para 2024 que projetou reduzir US$50 milhões em custos, valor que é “economizado” pelo aprofundamento da exploração dos trabalhadores e retirada de seus direitos.

Escalas de trabalho desumanas

No início de 2024, o Sindicato dos Trabalhadores nas Indústrias Químicas, Farmacêuticas e de Material Plástico de Suzano foi à planta de Mogi das Cruzes para realizar o acordo de turnos, visando manter, sem luta, a escala 6×1. Mas a votação foi marcada por agitações dos operários. Naquele momento, mais de 70% recusaram a manutenção da jornada vigente.

Devido ao movimento e a força dos trabalhadores, o sindicato e a empresa foram forçados a formar uma comissão para debater um novo formato de jornada de trabalho. Essa comissão foi composta pela diretoria, departamento jurídico da empresa, RH, membros do sindicato e apenas 6 operários.

Os trabalhadores apresentaram a escala de trabalho 5×2 (5 dias trabalhados e duas folgas na semana), mantendo os horários de entrada e saída, mas a diretoria negou e o sindicato mostrou-se desinteressado em defender a solicitação dos operários.

Após a diretoria recusar a proposta dos operários, os defensores da burguesia criaram um modelo de jornada pior que o atual, pois alteraram os horários de entrada e saída e não resolveram a questão central: o fim da escala 6×1 e a implantação da escala 5×2, mantendo os horários de entrada e saída.

Além de apresentarem condições piores, a diretoria impôs que só haveria mudança de escala caso 80% dos trabalhadores (ou mais) a aceitassem. Na prática eles fizeram um trâmite para não haver mudança.

O argumento da diretoria para seguir com 6 dias trabalhados por semana é que a empresa não tem verba para arcar com a diminuição da jornada de trabalho sem alteração salarial. Mas façamos umas contas usando a realidade diária dos funcionários.

Um exemplo prático está em todos os feriados que os funcionários devem ir trabalhar e recebem um valor de 110% de hora extra. Isso revela que há lucro para empresa, mesmo que ela pague o dobro do salário. É tão vantajoso para a Silgan pagar o dobro do salário, que nos dias que antecedem os feriados é comum ver a gestão pressionando, principalmente os terceirizados, a irem trabalhar nessa data “facultativa”.

Os operários denunciam que, se pagar o dobro fosse desvantagem para o bolso da empresa, não existiria essa pressão. Se há pressão psicológica e coação, é porque a Silgan paga o dobro do salário quando é feriado e ainda assim tem lucro.

Detalhando essa questão, pode-se observar duas coisas:

1) O salário mensal dos funcionários poderia dobrar, pois ainda assim haveria um lucro interessante para a empresa;

2) Seria possível reduzir a jornada de trabalho pela metade (3 dias trabalhados), e o lucro da empresa, na prática, seria igual ao de um feriado.

Se a empresa lucra ao pagar 110% nos feriados, a conta também serve para reduzir a jornada de trabalho. Se os trabalhadores fossem para a fábrica apenas 3 dias na semana, a empresa teria o mesmo lucro (no mês) que tem em um feriado. Mas esse dinheiro não é pago, ele vira capital para um pequeno grupo de milionários.

Recentemente um projeto de lei inspirado no abaixo-assinado do VAT (Movimento Vida Além do Trabalho) foi protocolado pela Deputada Federal Erika Hilton (PSOL-SP) e está em andamento na Câmara dos Deputados. O Brasil conta com diversos trabalhadores que estão insatisfeitos com essa jornada e cada vez mais se mobilizam para derrubá-la.

Recentemente ainda a Silgan Dispensing de Mogi das Cruzes ampliou a aplicação da escala 6×2. Nesse formato os fins de semana de descanso acontecem com um intervalo médio de 2 meses. Este arranjo também é rejeitado por grande parte dos colaboradores, pois os afasta de suas famílias.

Os operários entendem que a escala 6×1 e 6×2 deve ser suprimida, sem alteração salarial e com diminuição da jornada semanal e com pagamento de horas extras se for necessário trabalhar aos finais de semana.

Cesta básica para todos

Atualmente, o valor médio da cesta básica no estado de São Paulo é de R$808,38 (Fonte: O Globo), cerca de 38% do salário de um ajudante de produção da multinacional. Esse dado corrobora o cenário de carestia dos alimentos no Brasil: 64,2 milhões de pessoas são afetadas pela fome, totalizando 27,6% da população segundo dados do Pnad Contínua, da agência IBGE.

Ao mesmo tempo que a fome é iminente, a Silgan disponibiliza unicamente para seus trabalhadores primários (aqueles que tem contrato direto com a empresa, excluindo os terceirizados) uma cesta básica, desde que não tenham faltas no mês.

No auge da pandemia de Covid-19, os funcionários infectados pelo vírus e que entregavam atestado tinham acesso à cesta, uma medida mínima, afinal o trabalho presencial não foi cessado e os trabalhadores estavam expostos à doença.

Enquanto alguns funcionários morriam, o grupo “Silgan Holdings registrou um crescimento recorde no ano de 2021, com uma receita líquida de US$359 milhões e US$308,7 milhões em 2020”, segundo o presidente da empresa na época, Adam Grenlee.

Já no começo de 2024, vivemos uma situação parecida no município de Mogi das Cruzes e várias cidades do Alto Tietê, decretando estado de emergência por conta do surto de dengue, onde diversos funcionários foram diagnosticados com a doença e tiveram o acesso a cesta básica negado.

Quando se fica doente, se gasta mais. E no mesmo instante que o funcionário tenta recuperar sua saúde e se estabilizar financeiramente após gastar com remédios, tem a cesta básica cortada.

E pior, os trabalhadores terceirizados não têm acesso às cestas. Mesmo trabalhando todos os dias!

Os operários denunciam e exigem a disponibilização de cesta básica para todos os funcionários, incluindo os terceirizados, mediante a 100% de presença no mês ou mesmo que justifiquem suas faltas com atestado.

Mulheres exigem o fim dos assédios

O quadro de funcionários da Silgan Mogi das Cruzes, que conta com cerca de 500 funcionários, é composto majoritariamente por mulheres. Enquanto isso os cargos de liderança — principalmente na produção, onde fica a maior parte dos trabalhadores e trabalhadoras — são tomados por homens. O machismo na estrutura da empresa ultrapassa os limites da hierarquia e se materializa no dia a dia da fábrica, culminando em variadas formas de assédio.

A violência psicológica é recorrente na empresa e se apresenta de diversas maneiras. Uma delas é a perseguição, que acontece quando os gestores abusam do poder de alterar os horários de refeição. Também fazem isso quando, de propósito, colocam funcionárias e funcionários para cuidarem de diversas máquinas. Não existe posto de trabalho fixo, a atuação varia entre o maquinário do setor. Algumas gestões aproveitam dessa forma de organização para perseguir trabalhadoras e trabalhadores.

Além dessa questão, xingamentos e ameaças de troca de horário são comuns no cotidiano da fábrica. A violência moral é presente ainda na forma de injúria e difamação. Os assédios praticados são incontáveis, essa conduta atinge dezenas de operárias diariamente.

As trabalhadoras relatam que sofrem importunação, algumas vezes em forma de comentários sobre a roupa que usam no caminho de casa para o trabalho. Também se apresenta em grupos de homens que partilham entre si prints de fotos pessoais de colegas de fábrica. Há relatos de homens que perseguem as trabalhadoras com mensagens e comentários invasivos em redes sociais.

Há denúncia de uma violência sexual que aconteceu no interior da fábrica. A vítima foi orientada a não tomar nenhuma ação policial e encorajada a “abafar o caso”, sendo obrigada a conviver diariamente com o abusador.

Sabendo disso, o Movimento de Mulheres Olga Benário realizou, no fim de março de 2025, uma grande ação orientando as mulheres da fábrica sobre as formas de assédio e como combatê-las. Os panfletos foram amplamente divulgados entre as próprias operárias, culminando em novas denúncias de casos de assédio sexual.

Além da luta contra uma escala desumana, as mulheres ainda enfrentam essas violências no ambiente de trabalho.

Pelo direito a uma PPR justa

Apesar do lucro milionário da empresa em 2023, no ano passado foi pago um valor baixíssimo de PPR para os funcionários. Em Tubos (um dos setores da empresa), apenas R$2297,50. Em CRP (outro setor) míseros R$1343,70.

Enquanto isso, em 2025 foi pago em média menos de um salário-mínimo por funcionário primário (mais uma vez excluindo os terceirizados e aprendizes).

Existe uma comissão na empresa para discutir os resultados do ano, mas esse órgão teve diversas reuniões adiadas, deixando os funcionários no escuro. O que está claro, no entanto, é que o valor de PPR poderia ser muito superior, tendo em vista que a empresa superou 100% da meta financeira em 2024. A diretoria cria mecanismos para impedir que os funcionários tenham acesso ao lucro gerado pelo próprio trabalho!

Quem luta conquista

A exploração atinge diversos setores da empresa: ajudantes de produção, operadores, trocadores de molde, trabalhadores da qualidade e do almoxarifado. Líderes das áreas, eletricistas, mecânicos de manutenção, ferramenteiros, T.I, RH, administração, EHS e aprendizes. Funcionários novos e os que já dedicaram décadas de suas vidas à empresa.

Todos são impactados e sofrem na pele as contradições de classe, os assédios, o baixo salário e o medo de perder a cesta básica, isso é, quem ainda tem algum acesso a ela. Além disso, os terceirizados, as mulheres e os que trabalham em turnos vivem essas contradições mais escancaradas.

Os trabalhadores são a maioria e os responsáveis por toda riqueza produzida na fábrica, mas só podem exercer seu poder se organizadas coletivamente. Quando centralizados em um movimento coeso, historicamente os trabalhadores avançaram em seus direitos, é dessa forma que a luta por direitos básicos como descanso adequado, acesso a alimentação e um valor justo de PPR vai avançar!

Operários da Silgan Dispensing de Mogi das Cruzes, se organizem no Movimento Luta de Classes!

A luta é pelo direito ao descanso! Pelo fim da escala 6×1 e 6×2! Por acesso a alimentação! Fim dos assédios e por uma PPR justa!

Sônia Livre é o tema do 8 de Março em Santa Catarina

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Luiza Wolff | Florianópolis (SC)


MULHERES – Neste ano, o caso de Sônia Maria de Jesus foi o mote do 8 de Março em Santa Catarina. Em 2023, Sônia foi resgatada de uma situação análoga à escravidão, em Florianópolis (SC), da casa do desembargador Jorge Luiz de Borba. Sônia trabalhou por mais de 40 anos lá, sem receber um salário. Além disso, é uma mulher surda, de 51 anos, e não foi alfabetizada nem em português nem em Libras. Parou de ir à escola desde os nove anos, quando foi trabalhar na casa da sogra do desembargador.

Porém, dois meses após o seu resgate, uma decisão do Superior Tribunal de Justiça (STJ) foi de que Sônia deveria voltar à casa do desembargador. Ele e a sua esposa entraram com pedido de reconhecimento de paternidade socioafetiva de Sônia. Alegam que ela é da família. Na ocasião, a justificativa foi de que lá seria o “seu lugar”.  

Histórico

Sônia Maria de Jesus foi separada de sua família aos nove anos. Ela perdeu o contato com a família por mais de 30 anos e, assim, também não teve direito a acessar a escola e a associação de surdos que hoje ela frequenta. Segundo Luciana Carvalho, auditora fiscal do trabalho que atua com a inclusão de pessoas com deficiência, “além de ser privada do contato com a família, o mais grave é ela ter sido privada do ensino escolar”. Isso porque, quando falamos de crianças surdas, todos os médicos e especialistas na área, apontam que o melhor tratamento para que possam ser inseridas na sociedade é ir à escola.

Além disso, Sônia só obteve sua primeira carteira de identidade em 2019 e seu título de eleitor em 2022. Por tudo isso, nunca teve acesso à saúde. “Ela não teve plano de saúde até 2021, o seu ciclo vacinal não estava completo”, denuncia Luciana. Prova disso é que, quando ela saiu da casa, fez uma cirurgia nos dentes, pois estava com a arcada dentária toda comprometida.

Assim, como é possível que o desembargador possa dizer que Sônia é de sua família? Todos os seus quatro filhos tiveram direito à educação, são formados no ensino superior e sempre tiveram direito à saúde. “O desembargador Jorge Luiz de Borba é pai de quatro filhos: uma CEO de uma empresa norte-americana, uma advogada, uma ginecologista e um engenheiro”, relata o Ministério Público do Trabalho.

“Desresgate”

Após o resgate feito em 2023, Sônia foi levada à casa de acolhimento às mulheres vítimas de violência de Florianópolis, onde ficou por cerca de três meses, e ali teve tratamentos médicos e foi levada à associação de surdos de Florianópolis, iniciando o estudo de libras. Após o “desresgate”, a decisão judicial apontou que ela deveria continuar indo à associação de surdos.

Apesar disso, o desembargador e sua família entraram com um pedido de adoção da Sônia e hoje a família de Sônia, sua irmã e irmãos, que ainda lutam pela sua liberdade, somente conseguem contato por e-mails ou com os advogados, inclusive sendo negada a visita à família durante o período de Natal.

Assim como Sônia, no Brasil várias mulheres se encontram em situação análoga à escravidão. Por isso, é tão importante denunciar este caso. Apesar de sua família lutar, há anos, para encontrar Sônia e a retirar da situação em que ela é mantida, o desembargador, por seu cargo privilegiado, por ora, ainda consegue manter Sônia nessa situação. Mas a força das mulheres organizadas vai libertá-la!

Matéria publicada na edição impressa nº 309 de A Verdade 

Mulheres em todo o mundo foram às ruas no 8 de Março

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Indira Xavier | Redação


MULHERES – No último dia 08 de março, milhões de mulheres marcharam em todo o mundo. A data marcou os 115 anos da instituição do Dia Internacional das Mulheres Trabalhadoras, proposto por Clara Zetkin, dirigente do Movimento Comunista Internacional. No Brasil, o Movimento de Mulheres Olga Benario, honrando o legado desta importante data, mobilizou milhares de mulheres para ocupar as ruas em 21 capitais e dezenas de outras cidades.

O momento de acirramento das contradições do capitalismo, que aumentam os riscos de uma nova guerra mundial, além do criminoso genocídio contra as mulheres e crianças palestinas, associado a um constante aumento da violência contra as mulheres, da violência policial e da fome em todo o mundo, exige que o movimento consciente e organizado das mulheres esteja nas ruas para defender nossas vidas e lutar por um mundo sem violências, sem guerras e sem fome.

De fato, os dados mostram que, por mais que existam leis para garantir a segurança e a vida das mulheres, a violência e os feminicídios não param de aumentar. Segundo pesquisa divulgada no dia 07 de março pelo Fórum de Segurança Publica, a violência de gênero atingiu mais de 21 milhões de brasileiras e, nos últimos dez anos, foi a responsável por quase 12 mil feminicídios.

Não bastasse a violência e o feminicídio, os impactos da fome e do aumento do custo de vida, não só na cesta básica, mas também nos alugueis e no transporte coletivo, afetam mais particularmente a vida das mulheres trabalhadoras. “Pra gente, que somos dependentes de uma faxina pra fazer, que pagamos aluguel, que somos mãe solo, se torna muito difícil. Porque não é todo dia que a gente tem um real sequer no bolso. Então, pra gente que tem uma criança, que depende de um leite pra tomar, de uma fruta pra comer, isso abala muito nossa estrutura, nossa família”, conta Luana, de 34 anos, moradora de Diadema e militante do MLB.

Assim como no Brasil, onde as manifestações foram combativas e de muitas denuncias, milhões de mulheres pelo mundo foram às ruas contra a violência, o genocídio palestino, por direitos e contra todos os ataques que os governos fascistas de plantão desferem contra a classe trabalhadora. 

Mesmo com as tentativas de abafar as mobilizações, por parte da imprensa burguesa, não foi possível abafar as vozes das milhares de argentinas nas ruas contra os ataques do presidente fascista Javier Milei. Também foram bravas as mulheres que, na Alemanha, enfrentaram a polícia para denunciar o genocídio palestino. Na Nigéria, as mulheres foram às ruas de roxo para denunciar a violência e o casamento infantil. No México, milhares de mulheres indígenas assumiram o protagonismo na marcha e foram as vozes para denunciar os desaparecimentos forçados e os feminicídios.

O futuro é o socialismo!

O Movimento Comunista Internacional deu e segue dando grandes impulsos à organização revolucionária das mulheres, justamente por compreender que é impossível acabar com o sofrimento da humanidade sem fazer uma revolução que ponha abaixo o Estado burguês, que se alimenta do suor e do sangue do nosso povo, aqueles que verdadeiramente constroem todas as riquezas. Por isso, o 8 de Março é uma data que tem o objetivo de impulsionar a unidade e a luta das mulheres trabalhadoras de todo o mundo.

Só o socialismo será capaz de assegurar o futuro da humanidade, só em uma nova ordem, onde não haja exploração e objetificação de mulheres e crianças, onde o Estado esteja a serviço da classe trabalhadora para pôr fim a toda a violência e insegurança, é que seremos verdadeiramente livres. Lutemos, pois, pelo socialismo!

Matéria publicada na edição impressa nº 309 de A Verdade

População se revolta com execução de dois jovens na periferia de Londrina

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Jovens são assassinados pela polícia militar e população de Londrina (PR) protesta contra a violência policial e em denúncia aos assassinatos

Victor Santana, Giovanny Godoy, Helloisa Ramos | Londrina (PR)


LUTA POPULAR – Entre gritos, barricadas e fogo, amigos, familiares e moradores da periferia de Londrina (PR) protestaram contra a violência da Polícia Militar, que é acusada de assassinar Wender da Costa, de 20 anos, e Kelvin dos Santos, de apenas 16, no dia 15 de fevereiro.

Segundo os policiais, os jovens estariam envolvidos com roubos em residências e teriam resistido à abordagem, ocasionando uma troca de tiros. Testemunhas, no entanto, afirmam que eles trabalhavam em um lava-rápido e estavam a caminho de uma distribuidora, quando foram assassinados à queima-roupa. Uma câmera de segurança residencial flagrou o momento em que os policiais conversam e, logo em seguida, ouve-se o barulho dos tiros.

“Por que num sábado, 22h15 da noite, meu filho jantou em um aniversário comigo e, depois de 20 minutos, ele faleceu? Por que tanto tiro que eles levaram? Tanto, tanto, que a gente não conseguia entrar dentro do IML para ver”, complementou Cirlene, mãe de Kelvin, durante a manifestação.

População luta por justiça

As mortes de Wender e Kelvin mobilizaram a população dos bairros, que se uniu e paralisou Londrina no dia 17. O povo fechou as ruas, impediu o trânsito em várias partes da cidade, denunciando o crime. Linhas de ônibus e coleta de lixo também foram interrompidas. “Nós precisamos fazer isso pelas almas que foram e pelos que ficaram, porque estamos cansados”, disse Cirlene a uma rádio.

Em resposta, na noite dos assassinatos, a Polícia retaliou violentamente a revolta dos moradores com balas de borracha e spray de pimenta. Familiares foram atingidos ao exigirem que a violência cessasse. O prefeito fascista, Tiago Amaral (PSD), incomodado com as manifestações que “tentavam prejudicar a imagem da cidade”, não perdeu tempo em pedir reforços policiais ao governador Ratinho Jr e acionou até o Batalhão de Operações Especiais (Bope) para “instaurar a ordem na cidade”.

Em declaração nas redes digitais, o prefeito demonstrou mais preocupação em proteger o capital e as empresas de transporte urbano, que poderiam ter seus lucros prejudicados com as paralisações. Ao invés de cobrar explicações da Polícia e se propor a colaborar com a investigação do crime, disse apenas que “o caos não vai se instalar em Londrina”, ignorando o luto das famílias.

Nunca foi confronto

Dados do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco), do Ministério Público do Paraná, divulgados em 2023, mostram que, de 488 pessoas mortas em operações policiais no Estado do Paraná, cerca de 30% delas eram pretos e pardos. 

Outro estudo mostrou que, em 2020, Londrina registrou o 12º maior número de mortes por policiais no país, superando muitas capitais e até o total de mortes por policiais em todo o Estado de Santa Catarina. A violência é tamanha que as famílias das vítimas formaram o grupo “Justiça por Almas – Mães de Luto em Luta”, como é o caso da servidora pública Marilene Ferraz da Silva Santos, mãe de Davi Gregório Ferraz, morto pela Polícia Militar de Londrina em junho de 2022, quando tinha apenas 15 anos.

Estes fatos evidenciam que a violência é fruto do sistema capitalista, esse modo de produção que, em todos os lugares, explora os trabalhadores e garante apenas a segurança dos ricos. No entanto, em toda a história da humanidade, as classes oprimidas que se organizaram e lutaram, conquistaram sua libertação.

A força das comunidades das periferias de Londrina não só amedrontou o prefeito, como mostrou o povo organizado é forte. Como disse Gislaine, moradora da comunidade “esse é um ato de uma comunidade, não de uma facção, como a Polícia fala. Pedimos justiça, e ela vai chegar de qualquer maneira!”.

Matéria publicada na edição impressa nº 309 de A Verdade

Reitoria da UFPB ameaça famílias do MLB de despejo em João Pessoa

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Famílias do MLB ameaçadas de despejo pela Reitoria da UFPB lutam pelo seu direito à moradia em João Pessoa

Rayssa Batista e Redação PB


LUTA POPULAR – Há três meses, no dia 17 de dezembro, mais de 50 famílias sem-teto, organizadas no Movimento de Luta nos Bairros, Vilas e Favelas (MLB), ocuparam um imóvel abandonado pela Universidade Federal da Paraíba (UFPB), no Centro de João Pessoa (PB). Nasceu, então, a Ocupação Nego Fuba, batizada em homenagem a João Alfredo Dias, uma das lideranças da Liga Camponesa de Sapé, que foi assassinado pelo Exército, em setembro de 1964, logo no início da Ditadura Militar.

Segundo o IBGE, João Pessoa conta com um déficit habitacional de 40 mil moradias. Nos últimos anos, seus moradores sentiram que o preço dos alugueis dispararam e que, cada vez mais, as famílias se encontram na situação de ter que escolher entre pagar o aluguel ou fazer a feira do mês. Enquanto isso, no Centro da cidade vê-se um imenso vazio urbano, com imóveis servindo apenas à especulação imobiliária e gerando insegurança em seus arredores. 

Em 2021, o ex-reitor e interventor Valdiney Gouveia despejou entidades da sociedade civil que utilizavam as instalações do prédio para suas atividades. O imóvel estava completamente abandonado, com centenas de documentos entregues à chuva e às baratas. Diante do descaso com o patrimônio da instituição, as famílias, inclusive, guardaram todo o acervo na sala de Arquivos.

Imediatamente, construiu-se um espaço de cozinha coletiva, energia e água foram resolvidas e uma grande limpeza foi realizada. As salas, que antes abrigavam ratos e baratas, hoje abrigam famílias, que, sem dúvidas, dão uma aula sobre como cuidar de um patrimônio histórico como o prédio, já tombado pelo poder público por sua importância histórica na cidade.

Ameaça de despejo

Surpreendentemente, ignorando todo o diálogo realizado junto de uma comissão da universidade, a Reitoria decidiu ameaçar as famílias de despejo com uma ação na Procuradoria Regional Federal, às vésperas do Carnaval, sob a prerrogativa de que estariam “destruindo” o patrimônio da UFPB, pedindo, inclusive, o uso de “força policial”.

As famílias não se intimidaram e, junto com movimentos sociais apoiadores, organizaram a resistência e decidiram ocupar o gabinete da reitora para cobrar uma resposta diante desse ataque. E a resposta foi: “Não é papel da universidade resolver a questão da moradia”, mantendo, assim, a ordem de despejo. Uma atitude que facilmente se confunde com o autoritarismo da última gestão, marcada por processos e perseguições aos movimentos estudantil e sindical.

Após o ocorrido, o MLB e o Movimento Correnteza organizaram passagens em sala de aula na UFPB para denunciar a violência direcionada às famílias da Ocupação Nego Fuba e o descaso frente a realidade da falta de moradia em João Pessoa.

Moradia já!

Uma das possibilidades apresentadas pelo MLB foi a cessão de um dos terrenos da universidade, o local da primeira Faculdade de Medicina da UFPB, abandonado há mais de 30 anos, e que hoje está em ruínas. No entanto, agora a Academia Paraibana de Medicina (APM), depois de 30 anos, apresenta interesse no terreno para supostamente transformá-lo em um museu.

A universidade precisa trabalhar ensino, pesquisa e extensão em prol da sociedade e isso também significa ter uma prática política coerente. O despejo de famílias em situação vulnerável e a tentativa de isentar-se do debate sobre a moradia e o direito à cidade não é uma atitude aceitável.

Enquanto morar for um privilégio, ocupar é um direito!

Resiste Nego Fuba!

Matéria publicada na edição impressa nº 309 de A Verdade 

Campanha por democracia na UNE

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Conselho de Entidades Gerais se reunirá em 17 e 18 de abril, em São Paulo, para convocar o Congresso da UNE

Vitor Davidovich | Movimento Correnteza


EDUCAÇÃO – Nos dias 17 e 18 de abril, será realizado, em São Paulo, o Conselho Nacional de Entidades Gerais da União Nacional dos Estudantes, instância responsável por convocar o Congresso da UNE e aprovar seu regimento.

A UNE foi criada em 1937 e sua história está intimamente ligada às lutas do povo brasileiro. Em 1940, tomou posição contra o nazifascismo e defendeu a ruptura do Brasil com os países do Eixo (Alemanha, Itália e Japão). Nos anos seguintes, a UNE participou da grande mobilização popular que exigia que o petróleo fosse tratado como uma riqueza nacional e que os lucros de sua exploração significassem melhorias de vida para o povo brasileiro.

A Ditadura Militar, instaurada em 1964, perseguiu incessantemente a UNE e o movimento estudantil. Em 1968, o 30º Congresso da entidade foi invadido pelos militares, que prenderam mais de 900 estudantes. Em 1973, Honestino Guimarães, então presidente da UNE, foi assassinado pelos militares fascistas. Os casos de perseguição, tortura e assassinato de estudantes que lutavam contra a Ditadura são incontáveis.

Negando as lutas no passado

Apesar do passado de luta intransigente pela educação pública e pela democracia, hoje prevalece o imobilismo na UNE. Os grupos que ocupam a maior parte das diretorias da entidade (PCdoB e PT) estão intimamente ligados ao Governo Federal e, por isso, trabalham para frear qualquer mobilização que conteste a política econômica do governo. Exemplo disso foi a posição desses grupos diante da greve dos servidores e professores em 2024 – invés de apoiar a justa reivindicação dos trabalhadores e usar a greve para impulsionar as reivindicações dos estudantes, trabalharam contra.

Agora, no momento em que é debatida a lei orçamentária, a entidade tem restringido sua defesa à ampliação do orçamento das Universidades em R$ 1,3 bilhão. A vitória seria importante, mas ainda muito distante de ser a solução para os problemas concretos vivenciados diariamente pelos estudantes, como a falta de vagas no ensino superior público, a falta de restaurantes e alojamentos, a precariedade de laboratórios, salas de aula, banheiros e outras estruturas, e diversos outros problemas.

Isso porque a atual direção da UNE se limita a pautas que o Governo aceita, mas abandona, por exemplo, a luta pela auditoria e suspensão dos pagamentos da Dívida Pública, maior esquema de corrupção do país. Esses pagamentos se destinam a banqueiros e especuladores do mercado financeiro e, segundo dados da Auditoria Cidadã da Dívida, consumiram 43% de todo orçamento de 2024 do Estado brasileiro, correspondendo a R$ 5,5 bilhões por dia. Em comparação, a educação recebeu 2,95% do orçamento.

A postura da atual direção da entidade, entretanto, não encontra passividade entre os estudantes das universidades brasileiras, que buscam se organizar e lutar por orçamento e diversas outras reivindicações. Como é, então, que esses grupos imobilistas continuam se elegendo para presidir a entidade?

Fraudes

A cada dois anos, estudantes elegem em suas universidades representantes (delegados) para participarem do Congresso da UNE. Essas eleições, entretanto, são marcadas, muitas vezes, por fraudes.

A principal estratégia utilizada pelos grupos que hoje controlam a UNE é a impugnação de chapas de oposição. Em especial em grandes universidades particulares, esses grupos criam diretórios estudantis falsos para organizar as eleições, estabelecem critérios absurdos para a inscrição das chapas e exigem o cumprimento desses critérios apenas para a oposição, sem qualquer isonomia. Assim, são eleitos milhares de delegados sem que a oposição tenha o direito de participar das eleições.

Para piorar, no Congresso o voto não é secreto! Assim como ocorria há cem anos no Brasil, os grupos que controlam a entidade usam de ameaças e coagem os estudantes a votarem na chapa da situação.

Campanha por democracia

Diante desse grave quadro, estudantes de diversas universidades estão realizando uma campanha por democracia na União Nacional dos Estudantes, reunindo diversos movimentos e exigindo a igualdade de critérios para a inscrição de chapas, o voto secreto no Congresso e o direito da oposição em fiscalizar o processo.

O principal passo da campanha, contudo, é a organização dos Diretórios Estudantis nas universidades particulares, já que esse é o principal método de fraude da atual direção. Outros obstáculos também se impõem, como a resistência por parte dessas instituições privadas, que não desejam ver o movimento estudantil organizado, defendendo mais vagas em instituições públicas, fim dos aumentos abusivos nas mensalidades e outras medidas. Eles instalam catracas para impedir o acesso dos movimentos e, por vezes, proíbem a entrada.

Nessas instituições, o movimento estudantil enfrenta diretamente os grandes capitalistas que lucram com a educação privada. Mais de 79% dos estudantes do ensino superior estão nessas instituições e, portanto, não é possível desenvolver o movimento estudantil no Brasil sem enfrentar esse desafio.

Para transformar a UNE e trazê-la de volta para o cotidiano dos estudantes e de nossas reivindicações, o Movimento Correnteza está preparando uma grande bancada para o Coneg. Convidamos todos os estudantes a se somarem nessa luta, organizando seus Diretórios Centrais em cada universidade e a participando do Coneg e do Congresso da UNE com o Correnteza.

As palavras convencem e o exemplo arrasta!

Matéria publicada na edição impressa nº 309 de A Verdade 

Estudantes lutam por climatização de escolas

Estudantes organizam atos no Rio de Janeiro para lutar pela climatização das salas de aula. Principal causa da falta de climatização é negligência do Governo do Estado

Yasmin Farias | Presidente da AERJ


JUVENTUDE – Um movimento crescente de estudantes e educadores tem se intensificado no Rio de Janeiro, cobrando do Governo Estadual melhores condições nas escolas públicas, principalmente em relação à climatização das salas de aula. A alta temperatura e a falta de infraestrutura nas unidades escolares têm afetado diretamente o aprendizado e o bem-estar dos alunos e professores. 

A falta de recursos e o orçamento insuficiente para a educação são os principais fatores para o cenário de precariedade nas escolas. Enquanto isso, as medidas emergenciais propostas pela Secretaria Estadual de Educação do Rio de Janeiro (Seeduc) são rodízio de turmas nas poucas salas climatizadas, indicação de que os estudantes bebam água e comam frutas. Mas, na maioria das escolas, os bebedouros estão quentes e sem manutenção regular, além do prejuízo da perda de aulas durante o rodízio.

Nos últimos meses, diversas escolas públicas no Rio de Janeiro têm sido palco de atos e mobilizações estudantis de várias regiões. Na zona norte da capital, estudantes realizaram manifestações dentro das escolas e nas ruas, bloqueando vias e cobrando providências imediatas do governo. “A gente não consegue mais estudar com esse calor insuportável. Algumas salas tem ar-condicionado, mas não funcionam, e temos que ligar os ventiladores e com o calor que faz não é suficiente. Não dá para estudar”, afirmou Alice Ribeiro, estudante do Colégio Estadual Olavo Bilac, em São Cristóvão.

A pressão nas escolas também se estendeu para a Secretaria. Em um grande ato realizado no início de março, estudantes foram até a sede do órgão para exigir a implementação de sistemas de climatização e melhores condições de infraestrutura nas escolas, além da elaboração de um plano emergencial que autorize uso de uniforme de verão e a revisão dos cardápios escolares.

Falta de orçamento para a educação

A falta de um orçamento adequado para a educação no Estado do Rio de Janeiro tem sido uma das principais causas do cenário precário. O orçamento destinado para a área é insuficiente. O governador Cláudio Castro (PL) prefere gastar a verba que deveria ir para a educação com a Polícia Militar, que realiza operações cotidianas nas favelas, que não geram nada além da morte de diversos jovens e trabalhadores e a suspensão das aulas nas escolas das comunidades. 

Em novembro do ano passado, o Governo foi proibido pelo Tribunal de Justiça de usar o orçamento da educação para ações de segurança pública e pagamento de policiais através do Programa Estadual de Integração na Segurança ou similares. Além disso, foi condenado a devolver para educação R$ 147 milhões que foram gastos com esses fins.

“A nossa luta é não apenas pela climatização, mas por uma educação de qualidade. Quando o Governo ignora nossas demandas, ele está condenando vários estudantes a uma educação precarizada. Estamos aqui para cobrar que esse direito seja respeitado”, afirma Mariana Lopes, diretora da Associação dos Estudantes Secundaristas do Rio de Janeiro (Aerj).

Matéria publicada na edição impressa nº 309 de A Verdade 

Terceirização precariza assistência social e explora trabalhadores em São Paulo

A terceirização da assistência social em São Paulo precariza serviços essenciais para a população e explora trabalhadores, resultando em atrasos salariais, instabilidade e más condições de trabalho. Essa política favorece o capital, fragiliza direitos e exige mobilização para uma assistência pública e de qualidade.

Willian Agulhão e Cleide Bezerra| São Paulo (SP)


A cidade de São Paulo, maior metrópole da América Latina, é marcada por profundas contradições sociais. Enquanto arranha-céus imponentes simbolizam a riqueza concentrada nas mãos de poucos, milhões de pessoas vivem em situação de vulnerabilidade extrema, dependentes dos serviços de assistência para garantir o mínimo necessário à sobrevivência. Esses serviços, que deveriam ser premissas do Estado para assegurar direitos fundamentais, foram progressivamente entregues à lógica privatista, por meio da terceirização e da transferência de responsabilidades para Organizações da Sociedade Civil (OSCs).

Essa estrutura, longe de ser uma solução para melhorar a eficiência dos serviços, revela-se um mecanismo de precarização que explora os trabalhadores e fragiliza a rede de proteção social. A terceirização da assistência social expõe profissionais a jornadas exaustivas, atrasos salariais constantes, demissões arbitrárias e a um ciclo permanente de insegurança. Enquanto isso, a população mais pobre é abandonada pelo poder público, que se exime de responsabilidades sob o pretexto de “parcerias” que, na prática, representam o desmonte dos serviços públicos.

Esse modelo não é apenas resultado de más gestões ou crises financeiras, ele é a manifestação de um projeto político que atende aos interesses do capital e utiliza a precarização do trabalho como estratégia de controle. Para entender e combater esse processo, é fundamental analisar as raízes da terceirização, os impactos sobre os trabalhadores e os caminhos possíveis para construir uma assistência social verdadeiramente pública e de qualidade.

Terceirização: atrasos e a crueldade sistêmica do capitalismo

A terceirização dos serviços públicos no Brasil, impulsionada nos anos 1990 sob o neoliberalismo, desmantelou direitos conquistados pela classe trabalhadora. Sob o pretexto de eficiência, a burguesia transferiu setores estratégicos à iniciativa privada, transformando direitos em mercadoria.

Em São Paulo, a assistência social foi um dos principais alvos, ficando sob controle de Organizações da Sociedade Civil (OSCs). Apesar de serem formalmente sem fins lucrativos, essas entidades dependem dos repasses da Prefeitura, que manipula esses recursos conforme interesses políticos. Com isso, trabalhadores enfrentam precarização e instabilidade, enquanto serviços essenciais são tratados como moeda de troca.

Os constantes atrasos nos repasses da Prefeitura governada pelo fascista Ricardo Nunes (MDB) não são simples falhas, mas parte de uma estratégia de exploração. Sem salários, vale-transporte ou alimentação, os trabalhadores terceirizados lidam com insegurança extrema. Essa política de abandono não é descaso, mas um mecanismo de dominação: quebrar a resistência operária pela fome e pelo medo, enquanto empresas contratadas lucram com a miséria da classe trabalhadora. A terceirização, vendida como modernização, na prática significa precarização sistemática.

A OSC FUNDAC é um exemplo dessa lógica perversa. Em 2020, uma auditoria revelou um desvio de R$54 milhões, prejudicando 250 funcionários. Mesmo após a denúncia, a Prefeitura de Bruno Covas (PSDB) manteve o contrato, forçando os trabalhadores a realizar greves para garantia dos pagamentos. As condições eram degradantes: “Trabalhei no CRAS Grajaú no verão, sem ventilador. Para não passar mal, eu e outra colega precisávamos molhar o corpo”, relata Joana*, entrevistadora social. Só após se recusarem a continuar é que trouxeram ventiladores.

Em março de 2023, os trabalhadores da FUNDAC paralisaram atividades diante de mais um atraso salarial. Apesar da pressão, os pagamentos não foram regularizados. “Nos prometeram pagamento até dezembro de 2024, mas o prazo passou e nada”, denuncia Joana. Mesmo com registros oficiais indicando repasses de mais de R$ 1,5 milhão à empresa, os trabalhadores seguem sem receber o que lhes é devido. Após a FUNDAC perder o contrato, a substituição pela ATSantos apenas intensificou a exploração, com redução de benefícios e justificativas fraudulentas para não pagar reajustes salariais.

O caso da OSC CEBASP reforça essa brutalidade. Após o rompimento do contrato, mais de 350 funcionários foram demitidos sem receber suas verbas rescisórias. Sem alternativas, os trabalhadores se organizaram via WhatsApp para pressionar OSCs e a Secretaria Municipal de Assistência e Desenvolvimento Social (SMADS). Como relata o orientador socioeducativo Thiago, “começamos a nos mobilizar sozinhos, porque ninguém nos dava respostas.” A luta coletiva fortaleceu a resistência contra o calote.

A pressão resultou em um feito inédito: a garantia do pagamento das rescisões. Em dezembro de 2024, os trabalhadores conquistaram a transparência da planilha de pagamentos, expondo o quanto lhes era devido. No entanto, muitos ainda não receberam, reféns de uma burocracia que protege a exploração. “Com a troca da equipe, os pagamentos ficaram travados na contabilidade, e seguimos cobrando”, afirma Thiago. A terceirização não só priva trabalhadores de direitos básicos como os torna descartáveis diante da máquina pública.

Esse sistema não visa apenas economizar, mas desmobilizar a luta de classes. Trabalhadores inseguros, sem direitos e isolados são mais fáceis de controlar. Enquanto isso, o Estado age como cúmplice, transferindo responsabilidades para entidades privadas que operam como intermediárias da exploração. O discurso de “modernização” esconde um projeto consciente de desmonte dos serviços públicos e enfraquecimento da classe trabalhadora.

A terceirização não é inevitável, é um projeto da burguesia para manter seu domínio. Enquanto aceitarmos esse modelo, o capital seguirá lucrando às nossas custas. Como bem resume Maria, trabalhadora do CRAS: “Se fôssemos funcionários diretos da Prefeitura, teríamos estabilidade, melhores salários e direitos garantidos. A terceirização nos trata como descartáveis.” A luta contra esse modelo é a luta pela dignidade da classe trabalhadora e pelo controle popular dos serviços públicos.

A força da classe trabalhadora combate a terceirização e o fascismo

O desmonte da assistência social não é apenas um reflexo da lógica neoliberal, mas parte de um projeto político mais amplo, que se alinha ao avanço do fascismo no Brasil. O fascismo moderno não se limita a violências explícitas ou discursos autoritários diretos, ele atua dentro das estruturas do Estado, corroendo serviços públicos e transformando direitos sociais em mercadoria ou caridade.

Ao precarizar os trabalhadores da assistência social, o Estado enfraquece a capacidade de resistência e converte o serviço em instrumento de controle. Trabalhadores exaustos e população vulnerável, mantida na dependência do assistencialismo, perpetuam a desigualdade. Essa fragmentação da classe trabalhadora é essencial para a sustentação do projeto fascista.

A terceirização e a precarização são ferramentas fundamentais nesse processo, rompendo vínculos de solidariedade e isolando os trabalhadores em contratos instáveis. Diante disso, a única saída é a organização coletiva, como demonstram as mobilizações autônomas dos trabalhadores da assistência social.

Porém, a luta não pode se restringir a demandas imediatas: é preciso exigir a reestatização completa dos serviços, com concursos públicos, salários dignos e condições de trabalho adequadas. Como já alertava Lênin em “O Estado e a Revolução” (1917): “Nenhuma classe opressora jamais deixou seu poder sem resistência.” A Prefeitura de São Paulo deve reassumir a gestão direta, garantindo que a assistência social seja pautada pela dignidade humana e não pela lógica mercantil.

Cleide, militante da Unidade Popular pelo Socialismo (UP) e do Movimento de Luta de Classes (MLC), relata a realidade dos trabalhadores da assistência social: profissionais dedicados, mas exaustos e desamparados. Ao apresentar as organizações, ela observa um “raio de esperança” entre aqueles que, embora temam represálias, encontram força na conscientização coletiva. “Minha luta é pela dignidade de toda a classe”, afirma Cleide, destacando a necessidade de união contra a exploração capitalista. Seu testemunho reforça que a mobilização é o caminho para enfrentar a terceirização, os cortes de verbas e a precarização, que transformam direitos em lucro.

A história mostra que a classe trabalhadora só conquistou direitos através da organização e da luta, como a jornada de oito horas, o SUS e a Previdência Social. Agora, é hora de resistir aos ataques da burguesia com greves, ocupações e fóruns populares que unam trabalhadores e usuários dos serviços.

A passividade não é uma opção: como ensinou Rosa Luxemburgo, “quem não se movimenta, não sente as correntes que o prendem”. A indignação deve virar ação, para garantir direitos plenos e erradicar a exploração. A combatividade e organização da classe trabalhadora é a chave para transformar a realidade e construir uma nova sociedade, justa e igualitária, a sociedade socialista.

*Para evitar represálias aos trabalhadores, o jornal A Verdade utilizou nomes fictícios.

Crise nas maternidades de Goiânia

A suspensão dos serviços ambulatoriais e eletivos nas maternidades públicas de Goiânia expõe a crise provocada pelo atraso de repasses financeiros da prefeitura.

Isabelle dos Santos Ferreira | Goiânia – GO


SAÚDE – No dia 27 de agosto de 2024, a Fundação de Apoio ao Hospital das Clínicas (Fundahc) comunicou ao secretário de saúde, Wilson Modesto Pollara, a suspensão das unidades de maternidades públicas de Goiânia pelas quais é responsável. Devido ao não repasse financeiro por parte da prefeitura, os serviços ambulatoriais e eletivos se tornaram insustentáveis, limitando as atividades a serviços essenciais e urgentes.

Atualmente, o cenário na maternidade Dona Íris assemelha-se ao do ano passado, pois o 13º salário dos funcionários ainda não foi pago, as visitas estão suspensas há mais de 20 dias e a unidade atende apenas casos urgentes. Pacientes e acompanhantes também relatam falta de insumos e materiais, como roupas de cama, inadequados para uso.

Descaso com as unidades de saúde 

Com a falta de renda para manter a o pleno funcionamento das unidades, junta-se o não pagamento dos salários dos funcionários de saúde pública e terceirizados, impossibilitando o exercício de seus ofícios. Tendo seus direitos desrespeitados, o trabalho é redobrado com turnos mais longos, aumentando o estresse e cansaço típicos dessas profissões. Para piorar, a insegurança financeira assombra os profissionais sobrecarregados pela insalubridade das maternidades.

Desde 2024, os casos de atendimentos mal realizados vêm crescendo de forma incontrolável, mostrando que o desleixo financeiro do Estado de Goiás com os centros de saúde pública é pago com o suor e sofrimento dos funcionários e da população em vulnerabilidade social. 

A maioria das pessoas gestantes dependem exclusivamente dessas maternidades durante toda a gestação. Com a falta de estrutura para englobar o fluxo de consultas, exames, partos, cirurgias, etc., a limitação a casos urgentes e a suspensão de visitas, como no caso da Maternidade Dona Íris, comprometem a vida de inúmeras gestantes, em especial crianças e adolescentes, que acabam por só conseguir atendimento após chegarem a extrema urgência.

As suspensões e a inacessibilidade não atingem apenas a situação das gestantes, mas também de pessoas com deficiências ou doenças que atingem o útero, vulva, ovários e demais regiões que exigem atendimento ginecológico especializado. A superlotação devido a incapacidade de adesão dos inúmeros pacientes gera filas de espera absurdamente longas, novamente pondo em risco inúmeras vidas. 

Pelo direito a maternidades públicas

O atual cenário das maternidades públicas no Estado de Goiás fere os direitos e ameaça a vida das pessoas com útero que dependem de tais serviços. Em contrapartida, ironicamente, a lei nº 22.537/2024 (conhecida como “Campanha de Conscientização Antiaborto”), de autoria do ex-deputado corrupto Fred Rodrigues (Gustavo Rodrigues de Cunha), foi sancionada pelo fascista Ronaldo Caiado (União Brasil) no dia 11 de janeiro de 2024. Entre outras medidas misóginas e inconstitucionais, a sua principal e mais absurda é obrigar a pessoa gestante a escutar os batimentos cardíacos do feto ao realizar o aborto. 

Mesmo com a degradação das maternidades e demais unidades de saúde pública, Fred comemora a vitória reacionária em suas redes sociais, atribuindo como um avanço a dita segurança de “crianças no ventre”. Ou seja, como se não bastasse o atendimento precário, a falta de insumos e filas de espera superlotadas, aqueles que carregam uma gestação fruto de estupro ou com risco, as pessoas gestantes ainda estão passíveis de violência obstétrica legalizada. Em suma, todo esse cenário não passa de uma consequência do poder centrado em uma oligarquia latifundiária reacionária e misógina que reina na região Centro-Oeste.

Em fevereiro, o Movimento de Mulheres Olga Benário iniciou a Campanha Nacional pelo Direito à Creche. Atualmente, mais de 9 mil crianças goianas se encontram na fila de espera por vagas, visto que inúmeras mães abdicam do trabalho para cuidarem de seus filhos, o que agrava o nível de insegurança social das casas brasileiras. Por isso, o Movimento e a Unidade Popular lutam no combate à violência e pela plena eficácia dos direitos básicos das mulheres e pessoas com útero. 

Matéria publicada na edição impressa nº309 do jornal A Verdade