UM JORNAL DOS TRABALHADORES NA LUTA PELO SOCIALISMO

sábado, 11 de abril de 2026
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Internacionalismo proletário versus geopolítica imperialista

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“O conceito de ‘multipolaridade’ capitalista é um projeto burguês, que reflete os interesses econômicos e militares insatisfeitos com a ‘unipolaridade’. A teoria revolucionária dos trabalhadores tem nome e sobrenome: internacionalismo proletário.”

Natanael Sarmento | Diretório Nacional da UP


O princípio do internacionalismo proletário é fundamental na teoria científica do comunismo de Marx, Engels e Lênin. É na prática revolucionária que se reafirma este fundamento. Internacionalismo representa a solidariedade e a cooperação, a unidade e a luta de todos os trabalhadores do mundo pelos objetivos comuns, independentemente de nacionalidade. Solidariedade na luta de emancipação dos trabalhadores explorados e oprimidos contra a burguesia capitalista e imperialista. Trabalhadores de qualquer país capitalista, independente de nacionalidade, encontram-se na mesma condição social relativamente à produção e possuem a mesma natureza de classe explorada.

Os comunistas se norteiam pela igualdade e autonomia dos povos e nações. Igualdade fraternal dos partidos comunistas de elevados compromissos e responsabilidades perante os trabalhadores nacionais e de todos os países do mundo. Por isso, é radicalmente anticolonialista, combate qualquer forma de superioridade e exploração entre Estados e nações. Está na linha de frente do combate ao nacionalismo burguês xenofóbico, ideologia fascista utilizada em tempos de crises para deflagrar guerras ou para perseguir imigrantes falsamente acusados de causar desemprego. O internacionalismo dos comunistas é radical na luta contra ideias racistas de superioridade étnica e racial, variações do nazismo serviçal de monopólios capitalistas belicistas e outras ditaduras da burguesia.

A luta internacionalista do proletariado se define nas condições históricas existentes, condições não são escolhidas pelos trabalhadores.  Nas mais diferentes de correlações de forças, os comunistas representam a vanguarda da luta emancipatória dos trabalhadores, seguindo a conclamação do Manifesto do Partido Comunista, de Marx e Engels: “Proletários de todos os países, uni-vos!”.

Lênin lutou tenazmente os desvios dos socialdemocratas, revisionistas e renegados, em especial, os contrabandos ideológicos no seio da classe operária dos defensores do “nacionalismo” das burguesias imperialistas. Eram os “chauvinistas nacionalistas”, dirigentes socialdemocratas e reformistas que se renderam à ideologia das burguesias nacionais com adesão às guerras imperialistas dos respectivos governos. Lênin defendia a missão histórico-universal da classe operária: transformar revolucionariamente o regime capitalista de exploração, liquidar o poder Estatal burguês e construir o poder dos trabalhadores no socialismo. O internacionalismo proletário representa esse combate em escala global, denunciando o caráter de saque das nações vulneráveis nas guerras imperialistas, desenvolvendo as revoluções de emancipação do proletariado em vez de engrossar o botim capitalista. Para isso, devem-se combinar as lutas locais, regionais, nacionais com as lutas dos trabalhadores e dos povos, mundialmente, a luta geral e a particular no contexto do desenvolvimento da luta revolucionária comum do movimento comunista internacionalista.

Conceitos burgueses

O conceito geopolítico de “unipolaridade” ganhou a voz de arautos do capitalismo contemporâneo, entre outros, Krauthammer e Fukuyama, com o suposto “fim da bipolaridade” das relações internacionais entre URSS e EUA, sob os impactos do fim do “Bloco Socialista” do Leste Europeu, década de 1990.

Para os analistas burgueses, a nova correlação de forças internacionais ficou tão concentrada numa única potência capitalista (os EUA), que passaram a falar em “unilateralidade”. Os norte-americanos lideram o bloco EUA-União Europeia, com quase 30 países, além de seu braço militar, a Otan, que abarca mais países de outras regiões. No caso da Guerra da Ucrânia, as pretensões expansionistas russas se chocaram com os interesses desse bloco hegemônico na região, gerando a atual guerra imperialista.

Contudo, a dominação yankee na aliança imperialista está longe de eliminar as contradições internas. Simplesmente é impossível evitar a busca de lucro e expansão de capitais, os conflitos interimperialistas. A unilateralidade, dialeticamente, existe e não existe. O domador sempre corre o risco de ser devorado pelos leões famintos. A saída do Reino Unido da União Europeia, há exatos cinco anos, expressa bem a contradição dos “aliados capitalistas” dessa pretensa unipolaridade norte-americana. Muito mais contradições existem entre esse bloco e as duas potências econômicas e militares do “Oriente”, China e Rússia. O evidente fenômeno da bipolarização EUA-UE com China-Rússia é um barril de pólvora da guerra nuclear global, açulada pela “guerra comercial” e de áreas de influências.

Já o conceito de “multipolaridade” capitalista é um projeto burguês, que reflete os interesses econômicos e militares insatisfeitos com a “unipolaridade”. A “multipolaridade” renovou forças com o declínio estrutural dos EUA e o avanço econômico e financeiro da China e de outras potências. O Partido Comunista do Proletariado da Itália enumera as características principais do modelo multipolar: 1. Pluralidade de centro de poder – diferentes potências econômicas e militares predominam na política regional ou mundial; 2. Ideologia do equilíbrio de poder, segundo o qual o poder partilhado entre potências evita o domínio unipolar e equilibra as forças; 3. A luta pela hegemonia mundial se concentra no plano cultural e front político. Cada potência com sua identidade cultural, econômica e política disputa influência na geopolítica global; 4. Administração mundial é mais complexa, multifacetada e policêntrica para assegurar o “equilíbrio”. (Unidade e Luta, Revista da CIPOML, 2024)

Ilusão de classe

Teorias do unilateralismo e do multilateralismo das relações internacionais são ideologias da burguesia, interessam às potências econômicas e militares imperialistas. O multilateralismo visa a criar e defender blocos exploradores de países capitalistas. Teoriza que vários centros solucionam as suas contradições, pacificamente. Clara falsificação ideológica, sem aplicação na história.

As contradições interimperialistas não se resolvem na tênue assinatura de acordos e tratados, a História comprova que tais tratados não resistem às crises econômicas, vide 1914-1918 e 1939-1945, que apenas prepararam as duas guerras mundiais que já ocorreram até agora. Essa ideologia danosa objetiva ocultar a impossibilidade de paz duradoura mundial sob o capitalismo. Tenta camuflar as contradições intrínsecas do capital, a reprodução e expansão na base da exploração do trabalho e da guerra de rapina.

As guerras imperialistas são produto do modo de produção capitalista em sua fase superior imperialista, e isso Lênin provou há mais de cem anos. A ideologia dos interesses do proletariado preconiza a abolição da exploração do trabalho, o fim das trocas desiguais visando ao lucro capitalista e à acumulação, o ponto final no colonialismo e neocolonialismo dos povos. A teoria revolucionária tem nome e sobrenome: internacionalismo proletário.

Coerentemente com o princípio internacionalista dos comunistas autênticos, devemos combater desvios das posições autoproclamadas comunistas, que, todavia, fazem apologia ao chamado “socialismo ao modo chinês”, dos arautos da potência econômica e militar asiática de Estado dirigido por um PCCh, mas que, objetivamente, mantém relações comerciais capitalistas e imperialistas, regional e globalmente. Expande os seus domínios e áreas de influência na Ásia, África, América Latina, inclusive no Brasil.

Não cabe aos comunistas defender burguesias e capitalistas, fazer apologia da formação de blocos  econômicos capitalistas, como os Brics (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul), já ampliado com Arábia Saudita, Emirados Árabes, Egito, Etiópia e Irã. A internacionalização do capital de burgueses mandarins, reis, sheiks, czares, presidentes, não expressa o interesse da emancipação dos trabalhadores do mundo. A arapuca ideológica do “atrativo” antiamericano só serve ao oportunismo, pois não debela a exploração capitalista, não traz a paz mundial e em verdade fortalece a corrida armamentista das potências, vide os gastos militares dos EUA, China, Rússia, Alemanha, França, etc.

A História demonstra a ampliação de conflitos armados, o genocídio a céu aberto realizado pelo Estado sionista de Israel em Gaza, a destruição ambiental, guerras regionais e o risco real de guerra global nuclear. Os atuais burgueses, banqueiros e capitalistas chineses, o exército do Estado capitalista russo de Putin não conservam nem a sombra do internacionalismo das Revoluções Socialistas da China e da Rússia, nem muito menos das ações globais da 3ª Internacional Comunista.

Tarefa dos comunistas

A tarefa dos comunistas consiste em desenvolver e organizar a consciência revolucionária do proletariado nacional e internacionalmente, na perspectiva da luta sem trégua de classes antagônicas dos trabalhadores de todo o mundo contra a burguesia e contra qualquer tipo de países imperialistas. O imperialismo é responsável pelas guerras e pela degradação, por milhares de fugitivos de guerras, pela fome e pela enorme desigualdade no mundo.

Neste sentido, para enfrentar e derrotar inimigos tão poderosos, é indispensável fortalecer partidos comunistas revolucionários que travam as lutas pelo poder popular e pelo socialismo em seus países em consonância com a luta de todos os explorados do mundo. Cabe ressaltar a necessidade de restauração da Internacional Comunista, uma poderosa e gigantesca organização mundial do movimento comunista baseado no internacionalismo.

Por isso, saudamos o esforço extraordinário da Conferência Internacional de Partidos e Organizações Marxistas-Leninistas (CIPOML) nos seus 30 anos de existência e luta, celebrados na cidade de Hamburgo, Alemanha, com delegações dos cinco continentes, no final de 2024.

Viva a união de todos os trabalhadores do mundo!

Viva a CIPOML! Viva a Unidade Popular pelo Socialismo!

Matéria publicada na edição impressa nº 305 do jornal A Verdade

A Cabanagem e os movimentos revolucionários na Amazônia

Em aula pública realizada no início de janeiro, a Unidade Popular e o Movimento Correnteza apresentaram no Centro Histórico de Belém a história da Cabanagem, insurreição popular acontecida no Pará durante o século XIX

Kleverson Cordeiro e Belle Leite | Belém (PA)


No dia 07 de janeiro, a Unidade Popular (UP) realizou uma aula pública no Centro Histórico de Belém (PA), palco da insurreição popular conhecida como Cabanagem, uma revolução na Amazônia que se erguia em busca do poder popular. A atividade contou com a colaboração de Alan Dias, doutorando em História Social da Amazônia pela UFPA, e Kleverson Cordeiro, estudante de História e militante do Movimento Correnteza, que apresentaram os principais pontos e eventos em torno da Cabanagem, com início na Praça do Relógio.

Antecedente da Revolução

Após a adesão da independência do Brasil por parte da elite local, em agosto de 1822, os populares e militares de baixa patente se organizaram para reivindicar melhores condições de vida para a população local.

Em 17 de outubro, os ditos “revoltosos” retornavam aos quartéis e, para encerrar a revolta, o governo contou com o apoio de John Pascoe Grenfell, que agiu de forma truculenta. Cinco líderes das tropas foram presos e executados sem julgamento, incluindo o cônego Batista Campos. Ele foi levado ao largo do Palácio, onde foi ameaçado de execução com um canhão, acusado de ser o mentor da revolta. Contudo, foi salvo por uma petição pública da Junta de Governo e pelo bispo local, que alertou que tal execução poderia inspirar revoltas entre as “classes inferiores”.

A repressão ao levante não se encerrou com as cinco execuções. Mais de cem soldados foram presos, juntamente com cerca de 300 civis suspeitos de envolvimento. Em seguida, no dia 19 de outubro, 256 prisioneiros foram transferidos para os porões do Brigue Palhaço, um pequeno navio de guerra. Poucas horas depois, quase todos estavam mortos. Relatos indicam que os presos estavam agitados, e os soldados a mando dos superiores do Brigue teriam lançado cal no porão com a suposta intenção de conter a confusão. No dia seguinte, o porão do navio foi aberto, revelando apenas quatro sobreviventes, dos quais somente João Tapuia resistiu até o dia seguinte. Ao todo, 252 homens morreram por sufocamento e asfixia.

Revolução popular na Amazônia

A Cabanagem foi um dos movimentos de maior mobilização popular do período regencial, um marco da insatisfação das classes populares do Pará contra a exploração decorrente da colonização portuguesa no Norte do Brasil, iniciada no século 17. Essa relação colonial, com raízes profundas, ainda se manifesta na Amazônia nos dias atuais.

Durante a colonização, indígenas, negros, mestiços e brancos pobres foram excluídos, refletindo a lógica capitalista integrada ao modelo colonial. Esses grupos, relegados à marginalidade histórica, foram utilizados como mão de obra explorada. Ao resistirem à condição que lhes era imposta, tornaram-se protagonistas de sua própria história, criando diversas formas de resistência coletiva.

Em seu livro “Cabanagem: A Revolução Popular da Amazônia”, Pasquale Di Paolo escreve que o movimento cabano explodiu na madrugada de 7 de janeiro de 1835, quando um grupo liderado por Antônio Vinagre tomou o quartel da tropa de linha, localizado no Largo dos Quartéis (atualmente a Praça da Bandeira). No local, estavam estacionados um corpo de caçadores e outro de artilharia, e a maioria dos soldados ali presentes aderiu ao levante. O vice-cônsul britânico no Pará, John Hesketh, relatou ao ministro britânico no Rio de Janeiro, Henry Stephen Fox, que a revolta começou por volta das três da madrugada. Segundo ele, os soldados que ocupavam o quartel atacado por Antônio Vinagre dispararam contra seus próprios oficiais, enquanto os “descontentes do rio Acará”, recém-libertados da prisão, uniram-se ao movimento. Hesketh também descreveu o assassinato do presidente da província do Pará Bernardo Lobo de Souza, do governador militar Joaquim José da Silva Santiago e do capitão James Inglis da corveta Defensora, além da libertação de todos os presos e da violência generalizada que marcou a tomada da cidade.

Bernardo Lobo de Souza havia conseguido chegar ao Palácio do Governo, onde foi confrontado por um grupo de cabanos liderado por João Miguel Aranha. Enquanto subia as escadarias do edifício, foi morto com um tiro disparado pelo indígena Domingos Onça. Os corpos de Lobo Souza e de Joaquim José da Silva foram levados para o Ver-o-Peso, onde permaneceram expostos por horas, como alvo da fúria popular.

De acordo com o professor José Alves de Souza Junior, essa hostilidade dirigida aos cadáveres das autoridades refletia o profundo ressentimento acumulado pelas camadas populares paraenses, vítimas de séculos de opressão e exploração durante a colonização portuguesa. Mesmo após a independência, as condições de exploração persistiram, alimentando um ódio reprimido e internalizado pelas populações marginalizadas.

Durante os cinco anos de revolta, cerca de 35% da população do Estado do Grão Pará foi dizimada.

Conflitos internos

A ampla adesão do povo ao movimento cabano pode ser compreendida pelas profundas desigualdades sociais existentes na província do Pará. Para indígenas, tapuios, negros libertos e brancos pobres, a questão da terra desempenhou um papel central na decisão de participar. Esse grupo social, que formava um tipo de campesinato na Amazônia, foi sistematicamente privado da propriedade da terra, sendo forçado a trabalhar em condições extremamente difíceis nas terras de grandes proprietários ou a atuar como meeiros. Alguns líderes importantes da Cabanagem, como os irmãos Vinagre e Eduardo Angelim, eram meeiros nas terras de Félix Clemente Malcher, na região do Acará.

Os negros escravizados que se juntaram ao movimento viam na Cabanagem uma oportunidade de alcançar a liberdade que a independência não havia garantido. Já os mestiços e os brancos pobres, descontentes com o recrutamento militar forçado e as difíceis condições de sobrevivência, abandonaram os regimentos de milícias em grande número e reforçavam as fileiras cabanas. Além disso, as disputas políticas entre as elites locais contribuíram para a divisão no poder, levando parte dessa elite a apoiar o movimento.

No entanto, os interesses dessa parcela da elite eram distintos e muitas vezes opostos aos das camadas populares, explícitos em atitudes contrarrevolucionárias tomadas por Félix Malcher, o que explica os frequentes conflitos entre os dois grupos ao longo do movimento.

Organização de classe

A Cabanagem foi um importante movimento revolucionário, no qual seus dirigentes chegaram ao poder e governaram a província do Grão Pará entre 1835 e 1840. Entretanto, as divergências de interesses contribuíram para sua derrubada precoce.

Algumas das lideranças cabanas não foram capazes de defender os anseios do povo e se aliaram às elites locais que, inclusive, eram muito próximas a Portugal e temiam o rompimento desse vínculo com a recente independência do Brasil, em 1822.

Aprendemos com o líder da Grande Revolução de Outubro, Vladimir Lênin, que a revolução pode não vir de forma planificada, mas explodir a partir de movimentos espontâneos, como aconteceu durante a Cabanagem. Todavia, a existência de uma organização revolucionária capaz de dirigir e garantir que esses levantes se tornem um grande movimento classista organizado pelos trabalhadores e os povos é o elemento crucial para a construção e manutenção do poder popular.

Hoje, ao avaliar os acontecimentos daquele período e refletir sobre os erros e acertos dos cabanos, percebemos que uma organização popular, de caráter estritamente revolucionário, seria a única capaz não só de construir uma revolução vitoriosa e duradoura, como de colocar no centro do poder os mais pobres e explorados.

Sentimento revolucionário cabano

É nossa tarefa, enquanto militantes comunistas, que vivem cotidianamente as lutas do povo e, em especial, as lutas do povo da Amazônia, retomar o sentimento revolucionário cabano, o sentimento de indignação diante da opressão que nos é imposta e apontaram a única saída para mudar essa realidade: a construção de uma revolução socialista, que coloque os povos explorados no poder.

As políticas de conciliação implementadas pelos governantes naquele período – e ainda hoje – precisam ser rechaçadas e expostas como um mal que atrasa a vida do povo e dá migalhas aos pobres enquanto empanturra os ricos.

O povo na Amazônia está no centro da crise climática, causada pela ganância dos capitalistas que exploram os recursos naturais como se fossem infinitos.

Portanto, é urgente entender o quanto a crise do capitalismo se aprofunda e destrói nosso planeta. Nossa tarefa de construir a revolução é imediata e a única salvação para o mundo, a classe do proletariado e os povos. Recuperemos a herança dos bravos cabanos e alcemos a bandeira do socialismo para alcançar a nova sociedade na qual seremos verdadeiramente livres e felizes.

Matéria publicada na edição impressa nº 305 do jornal A Verdade

Descaso do Estado faz famílias perderem tudo nas chuvas de Santa Catarina

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O governador Jorginho Mello (PL), assim como os prefeitos, se negou a oferecer ajuda e fez pouco caso dos efeitos das chuvas sobre a população de Santa Catarina. Por sua vez, organizações populares como o MLB e o Movimento Correnteza rapidamente organizaram ações de solidariedade aos atingidos

Thiago Augusto Zeferino | Redação SC


Na última quinta-feira (16/1), fortes chuvas atingiram o estado de Santa Catarina. Milhares de trabalhadores tiveram suas casas destruídas e ocorreram deslizamentos e enxurradas, especialmente em encostas, favelas e ao redor de rios, onde está localizada a população mais pobre.

Ao todo, 13 cidades catarinenses entraram em estado de emergência: Camboriú, Governador Celso Ramos, Tijucas, Biguaçu, Porto Belo, Ilhota, Balneário Camboriú, Itapema, São José, Palhoça, Gaspar, São Pedro de Alcântara e a capital Florianópolis.

Dados fornecidos pelas prefeituras apontam que mais de mil pessoas se encontram completamente desabrigadas e outras 1.300 se refugiaram em casas de amigos ou parentes. Apenas em Camboriú, cidade localizada na região do Vale do Itajaí, cerca de 300 famílias ficaram ilhadas ou desabrigadas por conta dos alagamentos.

Chuvas escancaram negligência estatal

Todos os anos, na temporada de chuvas do início do ano, o povo catarinense sofre com novas enchentes e deslizamentos. Apesar disso, os governos e prefeituras não tomam medidas para impedir que esses fenômenos causem mortes e desalojamentos. Essas tragédias desmascaram a falsa propaganda de que Santa Catarina é um estado “seguro” e “que só melhora”, muito difundida por esses mesmos governos. Na realidade, a melhoria é para os muito ricos e o desalento atinge a maioria dos trabalhadores.

Apesar da situação crítica, o atual governador, Jorginho Mello (PL), em entrevista à imprensa negou ajuda do Governo Federal, alegando que a situação estava “sob controle” e acrescentou dizendo que “já houveram situações piores”.

Povo organizado dá exemplo de solidariedade

Na capital Florianópolis, bairros como o Alto Pantanal, estão até o presente momento sem receber visita da Defesa Civil e apenas obtiveram apoio por conta do trabalho das brigadas de solidariedade organizadas pela Unidade Popular (UP) e pelo Movimento de Luta nos Bairros, Vilas e Favelas (MLB), que subiram os morros para falar com as pessoas e levar lonas e outros materiais de ajuda arrecadados.

Ações similares também foram organizadas em outras regiões do estado, como em Joinville, onde as brigadas de solidariedade da UP e do MLB distribuíram alimentos, roupas e artigos de higiene para a população atingida pelas enchentes no bairro Ulysses Guimarães.

Na região continental da capital, os moradores da Ocupação Anita Garibaldi deram exemplo de solidariedade organizando marmitas para serem levadas para as famílias mais atingidas. Em São José, cidade localizada na Grande Florianópolis, além da ajuda humanitária, os brigadistas denunciaram que pessoas atingidas foram obrigadas a ficar na rua depois que o abrigo da região não foi aberto por recusa do prefeito Orvino (PSD).

Na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), a militância do Movimento Correnteza e o Diretório Central dos Estudantes se organizaram, de forma imediata, para garantir a produção e entrega de dezenas de marmitas, após a Reitoria anunciar o fechamento do Restaurante Universitário. Também foi organizada a arrecadação de diversos outros materiais para os estudantes da moradia estudantil, além de uma brigada de solidariedade ao alojamento indígena da UFSC, que também sofreu com alagamentos.

Enquanto as elites governantes gastam milhões para criar uma falsa imagem paradisíaca de um estado desigual, esses exemplos mostram que a classe trabalhadora enfrenta com auto-organização e solidariedade os desastres que atingem o povo de Santa Catarina.

O trabalho do Comitê Operário de Diadema

Trabalho do Comitê Operário de Diadema tem mostrado resultados no avanço da agitação revolucionária entre a classe trabalhadora do ABC.

Redação SP


PARTIDO – Há cerca de um ano, o Partido no Estado de São Paulo decidiu formar um Comitê Operário no Município de Diadema (ABC Paulista), direcionando todas as atividades para a disputa política entre os operários da cidade, que tem um longo histórico de organização e luta. A partir dessa orientação, o trabalho de mulheres foi direcionado para as operárias, o trabalho de moradia para os operários sem-teto e assim por diante. Nas eleições, todo nosso esforço foi para direcionar o trabalho da Unidade Popular para combater o fascismo, representado na campanha do bolsonarista Takaharu Yamauchi (MDB).

Dessa forma, e em unidade com o propósito principal do Partido, durante a campanha eleitoral utilizamos do espaço das portas de fábrica não só para angariar votos, mas também para trazer a classe operária para o debate e apontar as contradições latentes dos programas políticos em disputa na cidade. E fizemos isso da forma mais eficiente possível, com brigadas diárias do jornal A Verdade.

O trabalho nas fábricas

Uma das primeiras ações do Comitê Operário foi começar um trabalho regular de brigadas em algumas empresas metalúrgicas da cidade a fim de apresentar o programa do socialismo para o operariado e estabelecer contato e vínculo com os trabalhadores e trabalhadoras. Esse trabalho se mostrou muito exitoso e contou com a atuação aguerrida da nossa militância, que conseguiu manter uma constância firme das brigadas. 

“No princípio, achei que não seria possível realizar as brigadas tão cedo e depois ir pro trabalho, mas logo virou uma rotina, pois era preciso ter muita disciplina e convicção”, relata o brigadista Gabriel Matias, membro do Comitê Operário, que de terça a sexta faz brigada do jornal em diferentes fábricas.

Gabriel lembra que “na Papaiz, os operários achavam que era o jornal do sindicato, e já demonstravam rejeição. Mas depois de explicar o que era o jornal A Verdade, muitos deles foram bem receptivos. A maioria não comentava muito sobre a situação na empresa. Algumas mulheres que trabalhavam na cozinha de uma das fábricas demonstraram bastante apreço pelo nosso trabalho e comentaram sobre a jornada cansativa. Em todos os encontros, a líder da cozinha carregava um aspecto de exaustão, pois trabalhava 12 horas por dia em escala 6×1. Muitos relembravam as lutas sindicais dos anos 1980, outros, mais jovens, acreditavam que a organização e coletividade são necessárias para combater a retirada de nossos direitos”.

Bruno Cordeiro, outro brigadista, nos conta que nas eleições “fizemos campanha nas portas de fábrica contra o candidato do bolsonarismo. Os operários com quem conversávamos reafirmavam a importância de manter essa corja fora de Diadema. Lembro que o porteiro de uma fábrica disse: ‘Prefiro votar no cachorro do vizinho do que nesse Taka’. Outros faziam críticas à atual gestão da prefeitura, reclamando da taxa do lixo e dos radares e que não sentiam confiança para votar novamente no prefeito. Muitos também diziam como a nossa campanha lembrava as lutas antigas da cidade, quando a luta política era muito mais presente em Diadema”.

Comitê Operário nos bairros

Diadema é uma cidade de grande densidade demográfica. Lá, espaço que não é fábrica, é espaço de moradia, com muito trabalhador amontoado. Os comunistas do Comitê Operário também estão presentes nas favelas da cidade. Nossa agitação tem forte presença nos bairros. O MLB constrói um trabalho sólido em algumas regiões. A percepção que tivemos fazendo a campanha dentro dos bairros é que o povo está descontente com os rumos que a situação política tem tomado e começa a entender que é preciso mudar radicalmente. Nossa campanha foi muito bem recebida pelos moradores, que concordam com a linha política da Unidade Popular e cobraram uma candidatura própria.

Novos desafios

Paralelamente a esse trabalho nas fábricas de Diadema, o Comitê Operário também ficou responsável de apoiar a candidatura revolucionária da professora Carol Vigliar e consolidar o trabalho da Unidade Popular na região da Zona Sul de São Paulo. Essa tarefa só pode ser cumprida devido à disciplina operária incorporada pela militância que, com agitação diária nos bairros, de porta em porta, conversando olho no olho, conseguiu conquistar a confiança de milhares de trabalhadores da região que depositaram seu voto na nossa candidatura.

O Comitê Operário teve um papel fundamental nesse trabalho, conseguindo garantir panfletagens e agitações nos bairros da região do Jardim Miriam que, além dos votos conquistados, agora também tem um trabalho fortalecido da Unidade Popular com um núcleo ativo que já tem construído lutas na região. 

Durante a luta eleitoral, houve uma tentativa de fechamento de salas de aula da Escola Estadual Maria Augusta, que pegou a comunidade de surpresa. Imediatamente, a Unidade Popular mobilizou professores e moradores, que responderam de prontidão e barraram esse ataque a um importante espaço da região. 

Outro saldo positivo é a construção de um coletivo do Movimento Olga Benario, que tem se reunido regularmente e crescido a cada nova reunião, mostrando como a agitação durante a luta eleitoral foi bem recebida e de fato atende uma demanda da comunidade que tem fome de luta.

No segundo turno das eleições municipais, o candidato bolsonarista venceu por uma margem minúscula dos votos. Há uma denúncia protocolada pela campanha petista contra Taka por compra de votos. O que avaliamos disso, a partir da nossa experiência em campanha é que, para além do desgaste cada vez maior da social-democracia, o poderio econômico da burguesia mais uma vez passa por cima da vontade popular. A população diademense não é a favor do fascismo representado pelo Taka, prova disso é a forte atuação dos movimentos sociais na cidade. O que sentimos na fala das trabalhadoras e trabalhadores é uma necessidade muito grande de mudanças, profundas e estruturais.

Por isso, é papel central do Comitê Operário em continuar avançando na agitação, propaganda e organização do operariado na nossa região, pois a mudança tanto desejada nunca virá das eleições, muito menos pelas mãos de um candidato fascista, mas da luta organizada da própria classe trabalhadora rumo ao poder popular e o socialismo.

Matéria publicada na edição n°305 do Jornal A Verdade.

Sarah Vive! Sua luta continua!

Completa-se um ano do brutal assassinato de Sarah Domingues, militante revolucionária da UJR em Porto Alegre.

Redação


PARTIDO – No dia 23 de janeiro, completará 1 ano do brutal assassinato da companheira Sarah Silva Domingues, que foi baleada enquanto tirava fotos para seu Trabalho de Conclusão de Curso (TCC), em que denunciava as enchentes na Ilha das Flores, bairro periférico da capital gaúcha.

Sarah mudou-se de Campo Limpo Paulista para Porto Alegre em 2015, quando, através da lei de cotas, passou na Universidade Federal do Rio Grande do Sul, para realizar o curso de Arquitetura e Urbanismo.

Ela se aproximou da luta através de ações de solidariedade à Ocupação Lanceiros Negros e à Casa de Referência Mulheres Mirabal. Na UJR, começou a organizar estudantes do curso de Arquitetura e, rapidamente, tornou-se liderança estudantil na universidade. Em 2019, foi eleita coordenadora geral do DCE da UFRGS e diretora da UNE.

Como liderança estudantil da UFRGS, ocupou todos os espaços para garantir que alunos não fossem expulsos da casa do estudante, que não perdessem sua matrícula na UFRGS, que tivessem direito a transporte e a alimentação.

Jovem de apenas 28 anos, Sarah transbordava de amor à humanidade. Por isso, lutou incansavelmente pelos direitos da juventude, por educação de qualidade, por moradia digna e pelo fim do capitalismo.

Sarah Domingues nos deixou um grande exemplo de comunista e de camaradagem. Ela enxergava a todos e não negava ajuda a ninguém. Entregou os melhores anos da sua vida para lutar por condições dignas de vida e de educação.

Sarah entendia que as dificuldades vividas diariamente pelos estudantes para manter-se na universidade, assim como as enchentes avassaladoras que frequentemente assolam os bairros periféricos no Rio Grande do Sul, são reflexo de um projeto político que visa a precarização da vida do trabalhador no sistema capitalista. Por isso, Sarah militava incansavelmente pela construção do socialismo no Brasil, levantava alto a bandeira do Partido, e dedicava-se à formação de novos revolucionários. Sua falta é sentida todos os dias pelas dezenas de jovens cuja vida ela transformou ao apresentar a luta, e por todos seus camaradas que buscam em sua memória inspiração para continuar lutando.

Matéria publicada na edição n°305 do Jornal A Verdade.

Desigualdade no Brasil: aumenta número de bilionários enquanto povo fica mais pobre

60 Bilionários no Brasil acumulam R$943 bilhões enquanto maioria do povo vive com apenas o salário mínimo.

Rafael Pires (UP) e Rafael Freire (Redação)


BRASIL – Segundo levantamento do banco suíço UBS, o número de brasileiros bilionários chegou a 60 em 2024. Juntos, eles acumulam em suas mãos R$ 943 bilhões, um crescimento de quase 38% de suas fortunas em um ano.

Paralelamente, no mesmo período, o número de pessoas vivendo em situação de rua no país aumentou aproximadamente 25%, passando de 261.653 para 327.925, de acordo com o Observatório Brasileiro de Políticas Públicas com a População em Situação de Rua, da Universidade Federal de Minas Gerais. O estudo é feito com os dados do Cadastro Único de Programas Sociais (CadÚnico), que reúne os beneficiários de políticas sociais, como o Bolsa Família e o Benefício de Prestação Continuada (BPC), e serve como base para os repasses do Governo Federal aos municípios em relação às populações em vulnerabilidade.

Mas este fenômeno não é novo no sistema capitalista. Pelo contrário. Em 1867, Karl Marx publicou sua principal obra, O Capital, em que afirma, sobre o que chamou de Lei Geral da Acumulação Capitalista: “Ela condiciona uma acumulação de pobreza correspondente à acumulação de capital. A acumulação de riqueza num polo é, portanto, simultaneamente, acumulação de miséria, tormento de trabalho, escravatura, ignorância, brutalidade e degradação moral no polo oposto, isto é, do lado da classe que produz o seu próprio produto como capital”.

E mais. Marx ressaltava que devemos ter sempre em mente o salário relativo, pois, mesmo numa situação em que o salário do trabalhador aumenta, este aumento nunca se dá no mesmo nível do aumento do capital, da riqueza acumulada pelos capitalistas. Isto porque permanentemente ocorre a elevação dos preços dos produtos básicos necessário à reprodução da força de trabalho (manutenção do dia a dia de uma família da classe trabalhadora) e porque boa parte do salário conquistado pelo trabalhador volta à classe dos capitalistas quando se paga por algum produto ou serviço.

Salário mínimo

É o que acontece agora no Brasil. Desde 1º de janeiro, o salário mínimo passou a ser de R$ 1.518,00, um reajuste de 7,5% (apenas R$ 106,00) em relação ao anterior (R$ 1.412,00). Cabe destacar que o Arcabouçou Fiscal (novo nome dado pelo Governo Lula ao antigo Teto de Gastos dos Governos Temer e Bolsonaro) impediu um maior aumento do salário mínimo, visto que só permite “novos gastos” acima de 2,5% em relação ao ano anterior.

Se prevalecesse a forma de cálculo anterior, o aumento seria maior (neste caso, 3,2%), porque, além de corrigir o salário mínimo pela inflação, o governo teria de dar um ganho real equivalente ao crescimento do PIB de dois anos anteriores ao do reajuste.

Na verdade, a Pesquisa Nacional da Cesta Básica de Alimentos, realizada mensalmente pelo Departamento Intersindical de Estatísticas e Estudos Socioeconômicos (Dieese) aponta que o Salário Mínimo Necessário para uma família de dois adultos e duas crianças seria de R$ 7.067,68, mais de cinco vezes maior do que o salário mínimo vigente.

Já os aposentados e beneficiários do INSS que recebem acima de um salário mínimo vão ter um aumento de 4,77% em 2025. O reajuste é baseado na inflamação acumulada em 2024, segundo o Índice Nacional de Preços ao Consumidor (INPC). Ou seja, o reajuste foi apenas para repor a inflação oficial.

A vida real, porém, fica cada dia mais cara do que mostram os números frios. O leite longa vida subiu 18,83%; carnes, 20,21%; óleo de soja, 29,21%; o café moído subiu 39,6% e a laranja, 48,33%, para citar alguns itens da alimentação do povo brasileiro. Os alugueis dos imóveis dispararam e as passagens de ônibus sofreram grandes aumentos neste início de ano em várias capitais (ver pág. 7). 

Para piorar, a Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Estado de São Paulo (FecomercioSP) divulgou, em novembro, que 78% dos lares brasileiros estão endividados com faturas do cartão de crédito, boletos do varejo ou financiamentos de carros e imóveis.

Pessoa em situação de rua em Belo Horizonte (MG). Foto: Maxwell Vilela (JAV-MG)

Política econômica

Passada a primeira metade do Governo Lula, esse é o cenário das medidas tomadas por sua equipe econômica, encabeçada pelo ministro da Fazenda Fernando Haddad, resultado da política neoliberal de contenção de investimentos públicos, do fiel pagamento dos juros da dívida pública aos banqueiros e especuladores e de manutenção dos privilégios fiscais para os ricos e as grandes empresas. Já medidas pontuais que poderiam reduzir a carga nas costas dos trabalhadores, como a isenção de imposto de renda para quem ganha até R$ 5.000,00 por mês, ainda não saíram do papel.

“[O problema] é que um lado não quer contenção de gastos e outro não quer pagar imposto. Fica difícil. Direita não quer pagar os impostos. Esquerda não quer conter gastos. Como fecha as contas?”, disse Fernando Haddad, abrindo o jogo sobre como pensa em relação à luta dos mais pobres contra os mais ricos.

A verdade é que as contas estão muito bem definidas. A política de isenções fiscais segue a todo vapor para as grandes empresas e, de janeiro a setembro de 2024, esse valor chegou a quase R$ 111 bilhões, tendo as empresas do agronegócio ocupado a ponta da tabela.

O discurso de que essas empresas garantem muitos empregos, que a manutenção dessa política é fundamental para a economia, não se sustenta. A Syngenta, líder do ranking de isenções, foi beneficiária de mais de R$ 2,2 bilhões e mantém em seu quadro de funcionários apenas 4.100 trabalhadores. Graças ao apoio do Estado, obteve um faturamento de R$ 57 bilhões no ano de 2023 em suas atividades no país. 

Já a catarinense WEG, de motores elétricos, gerou a mais nova bilionária do mundo, Livia Voigt. Com apenas 20 anos, sem trabalhar na empresa, ela “construiu” sua fortuna como acionista e tem um patrimônio estimado de R$ 7 bilhões. Mais uma herdeira de sucesso, que teve como grande esforço ter nascido numa família rica, que construiu sua riqueza sobre a exploração da força de trabalho de milhares de operários.

Super-ricos

Quer dizer, mesmo quando há crescimento da economia brasileira, ao invés de garantir melhores condições de vida para o povo, maior circulação de dinheiro nas mãos dos trabalhadores, o que ocorre é um acúmulo de riqueza para os já super-ricos. Enquanto isso, as ações do Governo Federal não atacam o problema central da concentração de renda e seguem na tentativa de contribuir para o “sucesso” do capitalismo brasileiro.

Submetido às pressões do mercado financeiro, fica cada dia mais evidente o lado escolhido pelo Governo Federal, como mostra a indicação do novo presidente do Banco Central. Em janeiro de 2023, Lula afirmou: “Quero saber do que serviu a independência. Eu vou esperar esse cidadão [Campos Neto, ex-presidente do BC] terminar o mandato dele para a gente fazer uma avaliação do que significou o Banco Central independente”.

Já em vídeo após a indicação do economista Gabriel Galípolo para assumir o BC, o discurso foi outro: “Eu quero te dizer que você será, certamente, o mais importante presidente do Banco Central que esse país já teve, porque você vai ser o presidente com mais autonomia que o Banco Central já teve”.

Seguindo a lógica da autonomia e da independência do Banco Central (leia-se: “tô nem aí para o povo brasileiro”) o Comitê de Política Monetária do BC, órgão responsável por determinar a taxa oficial de juros no Brasil, já sob a orientação de Galípolo, esticou a corda e aumentou a chamada Taxa Selic para 12,25% ao ano. E já avisou, em carta endereçada ao ministro Haddad, datada de 10 de janeiro, que seguirá aumentando: “Diante de um cenário mais adverso para a convergência da inflação, antevê, em se confirmando o cenário esperado, ajustes de mesma magnitude [1%] nas próximas duas reuniões [do Copom]”. Ou seja, a previsão é de que os juros para 2025 cheguem perto dos 15% anuais.

Conforme denuncia Maria Lúcia Fattorelli, coordenadora da Auditoria Cidadã da Dívida, “o que adianta aprovar um pacote de cortes na casa de R$ 30 bilhões se, a cada 1% de aumento da Taxa Selic, cresce em R$ 55 bilhões os gastos com a chamada dívida pública?! Assim, seguiremos encurralados!”. Só na primeira semana de 2025, o Governo Federal gastou R$ 411 bilhões com juros e amortizações. Ano após ano, o sistema da dívida consome aproximadamente 45% de todo o Orçamento da União.

Ora, a grande questão da economia nacional está no fato de que tudo que é produzido pelo trabalho coletivo da classe operária e dos camponeses é apropriado pelos donos das empresas e das terras. Os alimentos não vão baixar enquanto os privilégios do agronegócio não forem enfrentados, tampouco a dependência da cotação internacional do dólar até que o Brasil permaneça como uma nação dependente dentro do sistema capitalista-imperialista mundial. Uma revolução que coloque nosso país nos rumos da construção da soberania, do poder popular e do socialismo é a única possibilidade que temos de sair dessa encruzilhada histórica.

Matéria publicada na edição n°305 do Jornal A Verdade.

Comunidade de Vitória (ES) luta para garantir manutenção de espaço de convivência

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Comunidade de Goiabeiras, em Vitória, luta pela preservação de espaço de convivência e patrimônio cultural, enfrentando especulação e negligência pública.

Evandro Lima Peniche | Vitória (ES)


LUTA POPULAR – Goiabeiras, um dos bairros mais antigos de Vitória, no Espírito Santo, é reconhecido pelo seu patrimônio cultural. Destacam-se suas bandas de congo e a tradicional Panela de Barro, cujo conhecimento de produção é transmitido por gerações, preservando um saber ancestral. Entretanto, apesar desse rico legado, o bairro enfrenta há décadas a pressão de empresas privadas e políticos oportunistas, que ameaçam sua identidade e o direito de seus moradores ao território.

Um dos símbolos de resistência dessa comunidade de Vitória, o 3 de Maio Futebol Clube, luta na justiça para recuperar o campo onde, desde 1938, é um espaço para as suas atividades esportivas e promove o lazer e a integração social. Contudo, o clube enfrentou ataques violentos contra seu espaço: no início dos anos 2000, o forte grupo empresarial, em uma ação arbitrária e carregada de desrespeito ao bairro, despejou terra, pedras e entulhos no campo, inviabilizando as atividades comunitárias.

Recentemente, uma vitória judicial devolveu ao 3 de Maio o direito de utilizar o campo. A comunidade, em um esforço coletivo, limpou o local, nivelou o solo e reinstalou as traves. Mas, em nova investida, o mesmo grupo empresarial recorreu à justiça e obteve mais uma decisão contrária à comunidade, impedindo, novamente, que o campo fosse utilizado para práticas esportivas.

A situação piorou em outubro de 2024, quando, com o apoio da prefeitura de Vitória, do governo do Espírito Santo e do deputado estadual Deninho (União Brasil), uma megaestrutura de um evento comercial foi montada no campo reestruturado pela comunidade, numa ação que ignorou todas as decisões judiciais. As traves foram retiradas, piche foi despejado no solo, e todo o esforço coletivo foi desrespeitado, sem qualquer consulta aos que historicamente defendem o direito ao esporte e lazer no local. Em anos anteriores, o mesmo evento costumava ser realizado em uma rua nas proximidades do campo, o que evidencia ainda mais que o poder público e a burguesia, além de nunca terem lutado pela preservação e manutenção da área, se aproveitaram do trabalho coletivo da limpeza do espaço.

Enquanto isso, os moradores de Goiabeiras convivem cada vez mais com o aumento da violência policial e do tráfico. As crianças, que veem no esporte uma saída, um espaço de lazer e interação, estão sendo privadas do campo que sempre pertenceu à comunidade. Este espaço, agora objeto de especulação por empresários locais, é um direito da população de Goiabeiras.

A luta por moradia e por espaços de convivência nos centros urbanos é decorrência da ganância dos capitalistas e da conivência do poder público burguês. Precisamos lutar pelo fim da democracia burguesa e instauração do socialismo. Apenas quando o povo estiver no poder é que poderemos enfim utilizar os espaços e a sociedade segundo as nossas necessidades e distribuir os bens e espaços públicos de acordo com as realidades locais sem visar os interesses privados e o lucro

A história de luta da classe operária de Petrópolis

Classe operária de Petrópolis acumula 150 anos de organização e luta contra a exploração capitalista.

Christian Nunes | Petrópolis (RJ)


LUTAS DO POVO – Muito se fala sobre a cidade Petrópolis, na Região Serrana, como “Cidade Imperial”. As elites locais e empresários na cidade alimentam a narrativa da cidade ter sido construída somente pelos colonos europeus, que ocuparam o território na segunda metade do século 19.

Ao mesmo tempo, quando contam a história, apagam o passado de luta operária da cidade, dos quilombos e dos povos indígenas que estavam centenas de anos antes da chegada da família imperial e dos colonos. Fazem-nos pensar que o povo de Petrópolis é pacato e ordeiro e ainda inventam que este povo teria orgulho de seu passado imperial. Os fatos a seguir demonstram um pouco sobre o verdadeiro passado de luta do povo. A maioria dos fatos estão expostos no livro Pão, Terra e Liberdade na Cidade Imperial, de Paulo Henrique Machado.

Em 1873, um tempo após a família imperial comprar terras em Petrópolis, surgiu a primeira fábrica de tecidos em Petrópolis, e nos anos seguintes, a classe operária crescia na cidade. Alguns fatores motivaram o aparecimento de muitas fábricas nos anos seguintes: A cidade ser próxima do Rio de Janeiro, a existência de um grande potencial hidrelétrico para as fábricas por conta dos rios e haver a situação de desemprego de muitos operários após o término da construção da Estrada União Indústria, o que originou uma mão de obra barata.

Segundo as pesquisas históricas, os operários viviam numa condição muito ruim de trabalho. Boa parte do operariado era composto por mulheres (nas fábricas de tecido), e era comum o uso de mão-de-obra infantil. A mão de obra era diversa, porém predominantemente embranquecida, e incluía muitos imigrantes italianos, além de alemães e outras nacionalidades.

Naquele período, as elites imperiais acreditavam que negros eram menos aptos a assumirem trabalhos nas indústrias, o que era fortemente reforçado pelas ideologias eugenistas, mesmo após a abolição da escravatura. Além de haver muitas indústrias de tecido, na cidade também havia empresas metalúrgicas, gráficas, padarias e outras.

Desde o fim do século 19, eram comuns as greves da classe operária de Petrópolis contra baixos salários, jornadas excessivas, condições precárias de trabalho, além de uma forte repressão a que os trabalhadores estavam submetidos. Na Cia. Petropolitana de Tecidos, já em 1890, uma greve resultou na prisão dos líderes, mas já em 1891 novas greves ocorreram.

Influenciados pela revolução russa de 1917, operários nos anos seguintes organizaram muitas greves e 1918 foi um ano explosivo. Em 1918, uma greve na fábrica Cometa por solidariedade a 14 companheiros demitidos. No mesmo ano, uma nova greve gerou repressão da polícia. Depois, uma revolta que mobilizou 2 mil pessoas, numa ação coordenada (segundo a imprensa local), promovem saques a armazéns, gerando pânico nos proprietários. 

Militância comunista e antifascista 

Os líderes operários, em boa parte anarquistas, se converteram em maioria, em líderes comunistas, com a fundação do PCB (Partido Comunista do Brasil), em 1922. Além disso, o PCB também tinha parte ativa e determinante na construção da ANL (Aliança Nacional Libertadora).

O partido lançou candidatos a vereador na cidade no ano de 1929. Eram Sebastião de Oliveira Mello e Domingos Braz, nomes referendados numa assembleia da UOFT (União dos Operários em Fábricas de Tecidos). A campanha teve forte apoio entre os operários. Porém, o eleitorado no Brasil era restrito aos homens alfabetizados, o que impedia operários analfabetos e mulheres de votarem, impedindo-os de se elegerem.

Em Petrópolis, na década de 1930, os nazistas e integralistas eram fortemente organizados, alcançando vários espaços de influência e propagando a ideologia fascista pela cidade. 

O ano de 1935 foi marcado por fortíssimas tensões e lutas realizadas pela classe trabalhadora com protestos, enfrentamentos e greves. Em maio, ocorreu um comício da ANL, seguido de um segundo comício no dia 12. Fotos da época mostram a ampla participação de negros na ANL e a força da luta antirracista em plena década de 30. Esses atos também eram demonstrações de força contra o fascismo que se apresentava organizado na cidade e contra a exploração capitalista.

No dia 9 de maio, um ato foi organizado pelos comunistas, para denunciar o fascismo. O ato marchou até a sede da Ação Integralista Brasileira (AIB), e os manifestantes pararam em frente para protestar e denunciar o fascismo e o integralismo. As luzes da sede se apagaram e muitos tiros foram disparados contra os membros da ANL, ferindo dezenas de operários e assassinando Leonardo Candu, operário têxtil, membro da ANL, esposo de Antônia Candu e pai de 3 crianças. Nos dias seguintes, uma greve de 9 dias ocorreu, paralisando a cidade, fechando bancos e comércios e tendo adesão de muitas categorias de trabalhadores.

Leonardo Candu segue vivo na memória dos lutadores sociais de Petrópolis. E a tradição do movimento operário deixa como legado até os dias de hoje a existência de inúmeros sindicatos (têxtil, rodoviários, vestuário, metalúrgicos, alimentação, turismo e hotelaria, comerciários, bancários etc.) Que lutam por melhores condições de vida da classe trabalhadora.

A verdade é que o povo petropolitano é historicamente um povo de luta, assim como todo o povo brasileiro, que a cada dia alimenta seu ódio contra as injustiças e de tempos em tempos se revolta, como a própria história recente mostra, quando fecha a rua contra o descaso nas enchentes ou quando faz barricadas nos bairros contra o péssimo serviço de transportes públicos.

Em cada canto da cidade, carrega no sangue as lutas do passado, alimenta seu ódio contra os políticos que só buscam votos por promessas e sonha com um país mais justo, livre das injustiças, da exploração e da corrupção capitalistas.

Ato em Mauá exige moradia popular e cessão de imóvel para a Casa Helenira Preta

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Nesta quarta-feira (22/1), manifestação exigiu que a Prefeitura de Mauá viabilize um projeto de 200 casas populares conquistado pelo MLB e ceda um espaço definitivo para o trabalho do Movimento de Mulheres Olga Benario na cidade

Redação SP


Nesta quarta-feira (22/1), o Movimento de Luta nos Bairros, Vilas e Favelas (MLB) e o Movimento de Mulheres Olga Benario realizaram um ato que reuniu dezenas de pessoas no centro de Mauá (SP). A mobilização reivindicou que a prefeitura da cidade entregue os documentos necessários para o início das obras do projeto do Minha Casa Minha Vida Entidades conquistado pelo MLB e faça a cessão do imóvel prometido no ano passado para o movimento de mulheres.

Cerca de 30 mil famílias compõem o déficit habitacional do município, localizado na Região Metropolitana de São Paulo. Além disso, em 2024, Mauá foi a segunda cidade do ABC Paulista com mais denúncias de violência contra as mulheres e a primeira no número de casos de violência contra crianças, em sua maioria casos de violência sexual. Por isso, os movimentos defenderam que a Prefeitura precisa ser mais ágil no encaminhamento dos dois projetos.

Histórico de luta em Mauá

Organizando o povo contra a situação de falta de moradia, o MLB já promoveu duas ocupações na cidade. Uma delas foi a Ocupação Manoel Aleixo, promovida em 2020 em uma escola abandonada no bairro da Vila Bocaina. Por sua vez, a Ocupação Antonio Conselheiro teve início no ano de 2022, em um terreno que não cumpria função social no Jardim Estrela.

Já o Movimento de Mulheres Olga Benario realizou na cidade as ocupações de mulheres Helenira Preta, também na Vila Bocaina em 2017, e Helenira Preta II, em uma escola abandonada no Vila Mercedes. As ocupações foram feitas para denunciar que Mauá é uma das cidades com piores índices de violência contra as mulheres e que há uma falta de políticas específicas para as mulheres no município. Como fruta da luta do movimento, após a primeira ocupação, foi inaugurada a secretaria da mulher de Mauá. As ocupações se tornaram centros de referência para acolher mulheres em situação de violência, além de serem o primeiro espaço especializado no atendimento às mulheres da cidade.

“Na época que eu fui agredida, eu tinha 17 anos, era muito nova e não conhecia o movimento de mulheres. Meus pais não apoiaram que eu fizesse uma denúncia e desde então nada foi feito. Passei um ano sendo agredida. Hoje, depois de conhecer o Movimento de Mulheres Olga Benario e as ocupações do movimento, penso como seria importante ter conhecido esses espaços antes, para ter companheiras que me apoiam e um local de acolhimento”, relata Julia Calchi, que hoje faz parte do movimento.

Por moradia e pela Casa Helenira

Fruto das ocupações realizadas, foi conquistado um projeto para a construção de 200 casas por meio da programa Minha Casa Minha Vida Entidades. Mesmo assim, os movimentos seguiram na luta, realizando atos para que a prefeitura cedesse um terreno na cidade e viabilizasse a construção das casas.

Foi para levar adiante essa mobilização que, na quarta-feira, as famílias do MLB e as mulheres do Movimento de Mulheres Olga Benario se reuniram em caminhada até a Paço Municipal para reivindicar o encaminhamento dos documentos necessários à contratação do projeto das casas. além da inauguração de um espaço definitivo prometido pela gestão para a Casa Helenira Preta.

Em um contexto de arrocho salarial, aumento do custo de vida e teto de gastos para os investimentos sociais, os movimentos defendem que só a luta por uma vida digna e pelo socialismo trará conquistas como o fim da violência contra as mulheres e a construção de moradia popular para todos os que precisam. No capitalismo, os direitos dos trabalhadores seguem sendo cortados, enquanto as fortunas dos grandes ricos continua crescendo.

“É por isso que a gente luta, pra que o ser humano não precise se humilhar! A vida é muito miserável no sistema capitalista. A gente luta pra gente ter uma casa enquanto a gente tá vivo”, defende Selma Almeida, coordenadora do MLB em Mauá.

CARTA | Aos 66 anos da vitória da Revolução Cubana

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Em carta ao jornal A Verdade no mês do aniversário da Revolução Cubana, que triunfou em janeiro de 1959, leitor explica como conhecer esse processo foi decisivo para sua aproximação das ideias revolucionárias. 66 anos após vencer o imperialismo dos EUA, a luta de Fidel, Che e todo o povo de Cuba segue inspiradora

Thiago Augusto Zeferino | Blumenau (SC)


Eu ouvi falar da Revolução Cubana pela primeira vez na escola, através de um trabalho de História no 9° ano do Ensino Fundamental, onde precisávamos estudar a “Guerra Fria” e fazer uma apresentação sobre o tema.

Nessa época, em 2018, o Brasil passava por um crescimento do fascismo e por derrotas da esquerda entre as massas. O que resultou em cada vez mais falarmos sobre a ditadura militar, corrupção e “comunismo”, ou mais apropriadamente, anticomunismo.

Estudar a Revolução Cubana nesse período em que havia tanta mentira e difamação contra figuras revolucionárias e crescia a defesa aberta de ideias fascistas me fez ficar muito confuso. Não fazia sentido. Eu relia várias vezes os trechos e, quanto mais pesquisava, mais me surpreendia. Eu já não compreendia porque alguém era contrário a essa revolução…

Dominação imperialista

Cuba foi um país explorado pelo imperialismo dos EUA (Estados Unidos da América) de 1901 até 1959. Os imperialistas roubaram a independência de Cuba em sua luta contra a Espanha, transformaram Cuba em uma nação capitalista e falsificaram a política do país ao criar uma “democracia” em que apenas os indicados pelos EUA governavam e a oposição era perseguida.

Em 1952, quando o militar Fulgencio Batista promoveu um golpe de Estado fascista em Cuba, financiado e apoiado pelos EUA, toda oposição política se tornou ilegal. A tortura, o assassinato e o sequestro de opositores se tornaram comuns.

A economia de Cuba era completamente controlada pelos imperialistas estadunidenses e dependente de suas decisões. Todos os recursos do país, assim como o lazer, serviam para beneficiar os grandes latifundiários do país e os grandes ricos dos EUA. Por conta disso, a prostituição e o tráfico de drogas eram comuns nas ruas de Havana, a capital, e de outras cidades cubanas. Havia também muito apoio do governo para a criação de cassinos e casas de apostas e jogos de azar.

Enquanto isso, a população de Cuba era em sua maioria analfabeta, vivia nas ruas, sofria com o desemprego e a falta de acesso à saúde. A situação era muito parecida com a do Brasil e de outros países da América Latina: uma realidade de miséria e sofrimento causadas pelas classes dominantes burguesas e latifundiárias.

Surge a bandeira da rebelião

O movimento revolucionário, liderado por figuras como Fidel Castro e Che Guevara, representava um projeto de país completamente contrário àquele que governava Cuba era naquele momento. O assalto ao quartel Moncada, encabeçado por Fidel, representou a coragem do ser humano em se rebelar contra a injustiça. Foi um símbolo de esperança, que causou arrepios de animação e incitou a rebeldia no povo cubano.

A coragem e a determinação de Fidel ao enfrentar a ditadura de Batista e não renunciar a suas ideias mesmo no banco dos réus em seu julgamento, permanecendo firme na defesa da revolução e do povo cubano mesmo com sua vida em jogo, demonstram o que é ser um revolucionário de verdade. Isso me fez perceber que aqueles que criticavam Fidel não tinham nem 10% de sua coragem e nem 1% daquilo que ele tinha como ser humano.

Quando eu li o que ocorreu após a vitória da revolução, em um processo lindo de união de todo um povo contra a injustiça, me convenci mais ainda de sua defesa. Em poucos anos, a luta do povo cubano acabou com o analfabetismo, a miséria, a carestia, a prostituição, o tráfico de drogas e tirou o povo das ruas para dar moradia a eles. Uma conhecida frase de Fidel após a revolução demonstra o êxito do povo cubano em mudar a sua nação: “Esta noite, milhões de crianças dormirão na rua, mas nenhuma delas é cubana”.

O exemplo de Che Guevara

O fato definitivo que me fez ter certeza de que defenderia a Revolução Cubana foi estudar e conhecer a história de Che Guevara e de sua dedicação de vida, corpo e alma à luta contra a injustiça. Sua atuação não parou em Cuba. Ela perseverou nos países africanos, onde os povos lutavam contra o colonialismo, e nos demais países da América Latina, onde os povos se mobilizavam contra o imperialismo dos EUA e as injustiças cometidas pela burguesia e pelos latifundiários.

Che havia conseguido em Cuba um espaço para viver bem com sua família, além de conquistado o respeito de todo o mundo por sua luta. Mesmo assim, ele deixou a ilha, mais uma vez abnegando de seus confortos, para apoiar a luta dos povos de outras nações oprimidas. Até hoje, o governo cubano envia milhares de médicos para nações de todo o mundo, ajudando os povos e reafirmando toda demonstração de humanidade que existe na revolução.

Demorei mais alguns anos para entender o que tanto me encantava na Revolução Cubana. E era simplesmente a construção de uma sociedade socialista, desenvolvida pelo incansável povo cubano, que eu também gostaria que existisse no Brasil e em toda a América Latina. Pois se, existisse, eu não veria mais o tráfico de drogas atingindo a juventude e nem a guerra às drogas do Estado burguês que assassina centenas de jovens todos os meses; não veria mais pessoas desistindo dos estudos ou indo para o desemprego; e também não veria mais a miséria da fome e da pobreza atingindo as pessoas.

Nessa sociedade, eu poderia dormir tranquilo sem pensar nas dificuldades financeiras e nos perigos da violência a pessoas próximas. Poderia passar meus dias sabendo que a sociedade socialista, na qual viveríamos, é construída todos os dias com o mesmo amor e dedicação que Che e Fidel ofereceram à humanidade. O mesmo amor e dedicação que o povo cubano continua hoje a oferecer.

Defender a Revolução Cubana

Cuba é o primeiro país das Américas em que o povo erradicou analfabetismo e impôs uma derrota estratégica ao imperialismo estadunidense. Como alguém pode ser contra figuras revolucionárias como Che e Fidel, que defenderam o fim do analfabetismo e da exploração? Que não apenas defenderam essas ideias, mas pegaram em armas, deram suas vidas e enfrentaram até o fim a injustiça e a opressão para defender que haja saúde, educação, moradia e dignidade para o povo?

Neste 66º aniversário da Revolução Cubana, não podemos aceitar que se negligencie ou diminua seu papel histórico, e é preciso combater as mentiras do revisionismo e do imperialismo. A vitória do povo de Cuba é a prova de que todo povo explorado pode enfrentar e vencer o imperialismo, o fascismo e as classes dominantes. Assim como os cubanos venceram, nós também venceremos!

Reféns palestinos começam a ser libertados após início do cessar-fogo em Gaza

Mesmo com as tentativas de Israel de sabotar o acordo de cessar-fogo, palestinos reféns em prisões israelenses começam a ser libertados enquanto a população de Gaza tenta voltar para casas destruídas.

Felipe Annunziata | Redação


INTERNACIONAL – “Nossos sentimentos estão com nossas famílias em Gaza. Apesar da tortura e do abuso, nossa preocupação na prisão era que a guerra em Gaza parasse. Nossa mensagem e gratidão vão para eles. Nunca esqueceremos o que eles fizeram por nós até o fim dos tempos.”

Este depoimento é da palestina Baraa Foqaha, refém política libertada por Israel neste domingo, como resultado do acordo de cessar-fogo em Gaza. De acordo com a imprensa internacional, 90 palestinos foram libertados em troca de 3 prisioneiras israelenses detidas pela resistência palestina neste domingo (19/1). Todas as 90 pessoas são mulheres ou menores de idade mantidos em cativeiro por Israel.

A afirmação de Foqaha prova o caráter histórico da luta palestina pela sua libertação e como esse acordo de cessar-fogo foi uma conquista da resistência palestina.

De acordo com Youssef, de 22 anos, e morador de Beit Lahia, na cidade de Gaza, “a primeira sensação que tive quando cheguei a Beit Lahia foi choque e pânico com o horror e os escombros. É como se um terremoto Richter nove tivesse atingido minha cidade… Não há ruas, lojas, parques, mercados, hospitais ou municípios. Não há nada além de escombros e alguns cadáveres ao redor e abaixo deles”.

No entanto, o caráter temporário do acordo não pode ser ignorado. Com a primeira troca de prisioneiros realizada, teve início a primeira fase do cessar-fogo, que tem previsão de durar seis semanas. A ideia é terminar o período com a troca de 33 prisioneiros israelenses por cerca de mil reféns palestinos. Portanto, o acordo atual garante um pouco de paz para a população de Gaza até o início de março, quando acontecerão novas negociações.

Já em Gaza, mais sinais do genocídio ficam à mostra, conforme a população começa a retornar para suas cidades e bairros. O cenário de destruição total agora é contabilizado pelos palestinos.

Luta dos povos do mundo segue necessária

Essa situação se torna ainda mais instável com a tomada de posse do fascista Donald Trump na presidência dos EUA. Por enquanto, os Estados Unidos deram aval à paralisação dos ataques de Israel a Gaza pois Trump ainda está estabelecendo as bases do seu novo mandato. Não está garantido que esta posição se manterá no fim do mês que vem.

Por outro lado, o primeiro-ministro fascista israelense Benjamin Netanyahu continua sabotando o cessar-fogo. Apenas nesta terça (21/1), Israel invadiu novamente o campo de refugiados palestinos de Jenin, na Cisjordânia, deixando 9 mortos e mais de 40 feridos, entre as vítimas se encontram crianças e profissionais de saúde.

Outro fato que coloca em xeque o acordo foi a renúncia de três ministros do gabinete de Netanyahu, ligados a um partido fascista religioso israelense. Entre os que se demitiram está Itamar Ben-Gvir ministro da segurança nacional, responsável por financiar e armar colonos israelenses na Cisjordânia.

O cenário mostra que o acordo entre as forças sionistas e a resistência anticolonial palestina ainda é frágil, apesar de ser uma vitória da luta palestina. Por isso, se torna fundamental a manutenção da mobilização internacional contra o genocídio e pelo fim da ocupação israelense com o estabelecimento completo do Estado da Palestina.

A luta contra o imperialismo estadunidense e europeu, financiadores do colonialismo de Israel, atingiu uma nova fase que exige de todos os povos explorados do mundo uma mobilização permanente para garantir a vitória completa da Palestina.